Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 44 de 63

Páginas do PDF

Viriatho

Capítulo XLIII

Depois que o caudilho saiu da Torre redonda, Lisia fallou adeparte com o velho endre:

—Agora que está assignada a Paz com Roma e livre, livre a ditosa Patria nossa amada, Viriatho virá pedir-te a minha mão de esposa. Muito desejára que antes d'esse dia lhe descobrisses o sitio onde se guarda o Thesouro do Luso, e lh'o patenteasses como depositario da Tradição, que elle serviu com tanto desinteresse e valentia. Eu bem sei que tudo se encontra na Caverna das Inscripções Oghmicas, que só tu sabes interpretar, pondo em ordem mysteriosa os Bastões dos Poetas ou Vates, que por terem esse conhecimento da Floresta ou Feadha, são chamados Faithiste.

—Sim, volveu o velho, é preciso ser sagaz para lêr essas varas sagitarias, feitas de estêvas, a que chamaram Buchstave, em que se contam as Sagas heroicas. A quem, senão a Viriatho entregarei o Thesouro do Luso? Pela condição natural das cousas, Viriatho hade sobreviver-me. Encanta-me o teu pedido, porque a entrega d'esse deposito fica ligado ao destino affectivo da tua vida,—é o teu dote.

Lisia, beijando a fronte do endre encanecido, deu á intensidade do sentimento a sincera expressão das lagrimas.

Seriam aquellas lagrimas enternecidas um presentimento?

Na vetusta tradição dos povos do norte anda sempre ligada á posse do Thesouro a fatalidade tremenda,—a morte...

 

XLIII

Emquanto Viriatho se demorava na Ilha sagrada de Achale, no enlêvo d'aquelle amor que o fortificára na sua missão heroica, os tres Companheiros deixaram-se ficar no valle de Callippo á frente dos Mil Soldurios, em uma inactividade impaciente e desgostosos por vêrem tão repentinamente terminada a guerra contra os Romanos. Estavam acostumados a uma vida agitada de aventuras, ao prazer do saque, ás grandes emoções entre a posse de riquezas repentinas e a morte; custava-lhes a voltarem bruscamente aos costumes da paz, ao respeito forçado da vida e da propriedade. Preoccupados do mesmo pensamento, careciam de communicar entre si os seus intuitos; tinham receio de serem espiados, de que os Soldurios descobrissem em suas palavras qualquer hostilidade contra Viriatho.

Então Ditálcon disse para os outros dois companheiros:

—Que vá cada um de nós por diversos caminhos ter á Caverna que está entre o Promontorio Cepressico e o rio Callippo. Ahi, sem sermos vistos nem ouvidos, poderemos fallar á vontade, e resolvermos sobre a situação que nos espera.

Andaca e Minouro abraçaram o alvitre, e assentaram o dia do encontro na Caverna das Fadas, ao alvorecer. Então teriam tempo para fallar á vontade e á larga. Dos tres companheiros de Viriatho, Ditálcon era o mais velho, e até muito separado em edade. Era um homem alto e enxuto de carnes, de ossadura forte; e embora guerreiro destemido, nunca tinha perdido o porte aldeão, e mesmo um certo amor pelos trabalhos da lavoura. O rosto sobre o comprido e de faces cavadas, tinha uma carnação rubra tostada, sobre que assentava um nariz afilado, e uma bocca desdenhosa, a que dava um ár ironico um golpe que recebera na desastrosa batalha de Tribola. Os olhos eram garços, entre o azul e verde, lembrando pela fórma da cabeça o typo do africano branco berber. Fallava cadenciadamente como sentindo a propria auctoridade, porque era ouvido sempre attentamente, quando contava memorias de cidades destruidas, do tempo das guerras carthaginezas; dizia-se que na mocidade viajára até á Britania e á Gallia, e envolvia-se de uma atmosphera de oraculo, pretextando ora descontentamento dos homens e das cousas, por fórma que inspirava desalento em volta de si, ora acobertava os seus desanimos repentinos com uma isempção de todas as honras e riquezas.

Minouro, que era muito mais novo do que Ditálcon, admirava-o profundamente, e tratava-o pelo nome de—Mestre, lamentando que elle não fôsse um Druida. Por uma lisonja petulante e insistente, veiu a illaquear Ditálcon, levando-o na direcção e intuitos que lhe suggeria. Minouro não era corpulento; era de uma estatura média que o não destacava do commum da outra gente; mas a cara redonda, o nariz curto, e os pequenos olhos que nunca fitavam de frente, denunciavam o typo do pequeno ambicioso do poder, do intrigante que trabalha pelo ideal da sua personalidade, servindo todos os partidos conforme as necessidades da sua elevação. Era como um fermento putrido, exercendo uma acção decomponente e incessante. Viriatho confiava em Minouro, pelo seu caracter de homem pratico, e especialmente pela consideração que lhe ligava Ditálcon.

O outro companheiro, Andaca, era mais phantasista, mas generoso; como Minouro admirava tambem profundamente Ditálcon, acatando-o mesmo quando este o censurava pela audacia das suas ideias, ou arrebatamento impulsivo das suas determinações. Andaca era homem novo; destacava-se entre os outros Cavalleiros pelos seus cabellos louros, que lhe cobriam quasi a testa e que separava para um e outro lado em uma marrafa caracteristica e inconfundivel. A barba era espêssa e tambem loura, a qual com a tez fortemente córada e os olhos azues, faria crêr um typo da Scandia perdido entre as tribus lusitanas de olhos e cabellos castanhos. Era sobrio, e desinteressado; sonhava com os tempos do decahido Druidismo, e teria sido um Bardo arrebatador para doutrinar os povos se tivesse nascido em uma melhor epoca, menos perturbada ou mais crente. Quando regressava dos combates e correrias em que se sentia viver, era-lhe indifferente a distribuição dos despojos; não tomava parte nos saques das cidades romanas, e quando depunha a espada e o escudo era para estar deitado sobre a relva ou nas penedias, em decubito dorsal, scismando como um vate. Minouro a pouco e pouco fôra influindo no seu espirito, dominando-o, e pelo poder de o revocar á energia, exercia um predominio completo sobre a sua vontade.

Partindo em direcções diversas, os tres Companheiros de Viriatho encontraram-se ao alvorecer á bocca da Caverna das Fadas, alguns estadios longe do mar, mas dentro da qual rebentavam as ondas nas grandes tempestades da costa. Ahi, no escarpamento maritimo do Promontorio Cepressico, é que se observava bem o trabalho das vagas, que pelo agglutinamento das areias moventes de uma praia que se foi alteando pelo decorrer dos seculos, formou com o calcáreo altissimos taludes, ou dunas, defendendo o valle de Callippo. Mas por seu turno em toda a extensão da costa desde o Promontorio Cepressico até ao rio Callippo, o mar recomeçou o trabalho de erosão abrindo numerosas Cavernas, destacando-se entre todas a mais profunda e mysteriosa, a Caverna das Fadas. Contam as vozes do povo, que algumas d'essas Cavernas foram abertas pela mão do homem, quando ainda elle não conhecia os metaes, e viera descendo da primitiva estação que fizera em Scalabis, até por estabelecimentos successivos chegar ao valle do Tago.

Na Caverna das Fadas entraram os tres Companheiros de Viriatho maravilhados pela extensão do subterraneo, em um solo plano e profundo com abobada hemispherica, desembocando em uma galeria, aonde já os raios do sol nascente não chegavam, e aonde se occultavam numerosos esqueletos como em necrópole de uma remotissima edade. A curiosidade não os levou a entrarem lá dentro; ahi, á bocca da Caverna, antes de começarem a conversa para que vieram, não podiam eximir-se á observação de cousas que parecia extraordinario o encontral-as n'aquella solidão ignorada de todos.

Ditálcon, levantando do chão uns fragmentos de barro cosido, e mostrando-os aos companheiros;

—Quem é que póde explicar como esta louça veiu parar aqui! Em Ilierna eu vi louça egual em tudo a esta; e até na Bretanha...

—Seria um mesmo povo?—Inquiriu Andaca imaginoso; e levantando do chão numerosas contas de côr esmeraldina e esverdeadas, que estavam espalhadas pelo chão, como se formassem outr'ora vistosos collares, continuou observando:—Mas estas contas desenfiadas tenho-as encontrado em outras Cavernas da Lusitania, em que nos temos refugiado n'estas correrias contra os Romanos. Quem tivesse tempo para ajuntal-as e formar com ellas um collar para offerecer a Lisia por occasião do seu casamento com Viriatho.

Ao proferir este nome, os tres Companheiros entreolharam-se subitamente, suscitados pelo pensamento que alli os trouxera. E Minouro atacou o assumpto:

—O casamento de Viriatho! É isso o que nos obrigou a virmos aqui. Elle quer agora a Paz com Roma, para gosar tranquilamente a sua vida de casado; e mandando cada um para sua casa, lá se vão os nossos commandos, todo o nosso valimento, e mesmo os nossos recursos.

Ditálcon atalhou:

—Viriatho é sincero; elle não acceitou o ser Rei da Lusitania, como lhe propoz Serviliano.

—Mas, depois de casado, não quererá elle dar á mulher um throno? e com os filhos formar uma dynastia?

Andaca interveiu:

—Em todo o caso, nós somos uns instrumentos passivos dos planos ou das ambições de Viriatho; e isto não deve, não póde ser.

Ditálcon, retomando a sua auctoridade e ascendente moral:

—A Paz com que Viriatho se lisongeia, é um engano. Roma ratifica a Paz assignada por Serviliano, mas como vê Numancia em revolta, vae mandando mais tropas para a Hespania citerior. Ainda n'este anno de DCXIII chegou o Consul Quinto Pompeu Rufo, com Quinto Servilio Cepio para continuar essa guerra desesperada que dura já desde DCXI. Os Numantinos não succumbem; são dos que morrem mas não se rendem; elles são verdadeiramente Lusitanos, e Roma sabe-o melhor do que ninguem. Por isso, se vos faz falta a guerra, ahi a tereis, segundo as minhas previsões, e eu sou homem para me ufanar de ter dito algumas verdades ao mundo. Agora, o que aqui vos confesso é que estou cansado de guerras, por uma causa sem fundamento.

—Sem fundamento!? Accudiram Minouro e Andaca, com surpreza.

—Sim; porque nós os Lusitanos nada temos com esse povo primitivo que antecedeu na Peninsula o Ibero, que o veiu repellindo para as bordas do mar. Viriatho sonhou esta divisão entre o Lusitano e o Ibero, quando tudo isto é Celtiberico, e deve formar uma só patria, a que bastaria por ora a constituição municipal que Roma nos impõe.

Minouro apoiando-se na affirmativa de Ditálcon:

—Eu vou-me convencendo d'isso; porque para sermos uma Nação lusitana, como dizes, não temos differença de Raça; e pelo que tenho observado n'estes nove annos de campanha pela Hispania citerior e ulterior, tambem não vejo montanhas que limitem os nossos territórios, nem rios que nos sirvam de fronteiras separativas. N'estas condições uma Patria lusitana é uma creação de fórtes peitos, obra de homens, e sustentada apenas pelo prestigio das suas espadas. Nós mesmos obedecendo a este impulso fizemos do pastor Ouriato o Viriatho que não quiz o sceptro d'este novo reino.

Andaca, suggestionado pelo argucioso Minouro, e acreditando nas palavras de Ditálcon: