Viriatho
Capítulo XVI
E a mesma dôr, que a vida lhe arrebata
Aos outros dois Irmãos é a que os mata.
Desde então a Lusonia sem commando,
Viu-se roubada de estrangeiro bando,
Que a invade, a devasta e a governa,
Perdida a ideia da união fraterna!
A aspiração moral ficou intacta!
Do Collar de ouro nunca se desata Nenhum dos Tres magnificos Crescentes;
E á espera de outra Éra e novas gentes,
Aguarda, ao fim do secular destrôço,
Um bravo e audaz a quem cinja o pescoço.
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O sabio Idevor, dominado por uma commoção profunda, interrompeu a recitação do Poema de Chrysaôr, que segundo a tradição contava milhares de annos de vetustade; e de facto os successos referidos narravam as primeiras invasões no territorio hispanico, que antecederam todos os documentos ou monumentos da historia.
Os chefes das cidades confederadas applaudiram com os seus renchilidos e vivas o recitador, o Endre sapiente; o velho, mostrando o Collar de ouro dos tres Crescentes, avançou para junto de Viriatho, e depois de fazer uma vénia solemne lançou-lhe ao pescoço a Viria da triplice soberania.
XVI
Emquanto os Cavalleiros decorados de Collares de ouro de um só Crescente rodeavam o novo Caudilho lusitano, começou a ajuntar-se muito povo pelo empenho de admirarem de perto o vingador, aquelle que soubera inflingir a formidanda derrota ao exercito consular. E naturalmente aos gritos com que se saudavam as varias regiões autonomas:—Viva a Callaecia! Viva a Tartéssida!— começavam-se a organisar dansas peculiares dos montanhões e dos ribeirinhos, vistosas e com caracter guerreiro, outras surprehendentes pela agilidade dos pés e dos saltos, com um sapateado rythmico, ululando phrases que tornavam mais delirante o enthusiasmo. A dansa mais querida era a propriamente armada, formando uma grande roda ou circulo girando ora sobre a direita, ora sobre a esquerda, por homens de mãos dadas, mas tendo cada um a lança, da qual lhe provinha o nome de Palotêo ou Paulitos, ora avançando, e já recuando ao compasso do canto de um Côro gigantesco, terminando no cabo de todos os passos por um simulacro de batalha.
No fim do animado palotêo, appareceu um grupo de mocetonas gaditanas, formosas e desenvoltas, com braceletes ricos e armilhas nos braços e pernas, dansando á moda da Tartéssida, e com seus adufes, dando-lhe um aspecto religioso orgiastico, estonteante. Os Romanos, que vieram á Hespanha Ulterior, sentiram-se fascinados por estas dansas das soalhas ou castanholas metalicas, e memoraram em seus livros a Betica crusmata e a Tartessiaca aera, que tanto iria enlouquecer a mocidade dourada da Cidade eterna. Proseguindo na sua dansa fôram as bailadeiras beticas approximando-se do grupo em que estava Viriatho, dirigindo-lhe em Côro em fórma de corranda:
A Canção da Viria
Onde ha fontes de agua pura,
Vamos a sêde matar.
Onde ha graça e formosura,
Vamos com paixão amar.
*
Onde ha um bravo que vence,
Vamos-lhe a gloria acclamar!
A Viriatho pertence
De ouro o triplice Collar!
*
Brilha n'esses tres Crescentes
Do sol fulgor singular:
Sigam os homens valentes
Esta nova luz polar.
*
Onde ha odios e vingança,
Vamos a sêde matar!
Da Patria livre a esperança
Vamos com paixão amar.
*
Siga o triplice Collar
O que ser livre aspirar!
Terminadas as dansas e cantares do vistoso arraial, os Chefes das Contrebias no meio de tanta alegria começaram a atirar pequenas moedas de prata ás rebatinhas, que o povo em chusma corria a apanhar, atropellando-se, em cambalhotas, em que cada um no meio de estrondosas risadas mostrava a maior agilidade e presteza. Essas moedas eram quasi todas de valor de um drachma, e cunhadas nas cidades lusitanas como manifestação da sua autonomia. Viriatho notou n'aquelle espectaculo divertido, que as turmas do povo, ao agarrarem as moedas, miravam-as no verso e anverso, e em seguida guardavam umas com soffreguidão, e arrojavam para longe com desdem as outras. Inquiriu do caso inesperado; foi então, que Idevor lhe explicou essa manifestação espontanea e significativa da alma popular, mostrando-lhe dois d'esses differentes numismas de prata:
—Reparae n'esta moeda: De um lado está cunhada uma cabeça viril, em cabello; tem barba, e um collar ao pescoço. Do outro lado, vêdes, um cavalleiro a galope, com a lança em riste! Agora a outra moeda: em uma face está impressa uma corôa de carvalho, e no reverso figura um Colono conduzindo dois bois, como quem lavra a terra. O povo conhece esta differença, e o que ella significa. Todas essas moedas do Cavalleiro da lança, são por antigo costume cunhadas em Cidades livres e autonomas, inscrevendo n'ellas o seu nome, como vereis em tantas que para ahi se arrojam ás rebatinhas, como estas...