Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 30 de 63

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Viriatho

Capítulo XXIX

Os despojos do exercito romano foram em grande parte dados aos Maioraes da Mésta, em paga do seu trabalho e acerto. D'ahi veiu o apparecerem ainda passados muitos annos, collares fixos ou torques, cistes de bronze, dracmas de prata e armas romanas, por muitos logares inaccessiveis dos Herminios.

 

XXIX

Entre os poucos legionarios do exercito de Nigidio que escaparam não appareceu o general; fôra uma victima da tremenda catastrophe. Os chefes do exercito de Viriatho resolveram prestar uma homenagem á Deusa-Mãe, do culto chtoniano, I-Ana, ou Anah, levando em um carro puchado por vaccas brancas, até as lesirias da margem do rio Pavia, a Pedra focal, com que ella era representada na religião lunar da Lusitania. D'esse culto primitivo, ficou a superstição de revolver penedos, junto dos lameiros ou charcos, e a crença nas Jans ou fadas, e nos juncaes chamados Omomi, de que o povo fez a entidade do Bom Homem. A Pedra focal foi conduzida com o respeito de quem via n'ella o symbolo da fundação da familia, e no pleni-lunio dansava-se diante d'ella ao som de sistros e adufes, tal como usavam as familias religiosas dos Cabiras, Telchines e Dactylos. A Pedra focal era entre as tribus dos Germanos tambem levada em um carro com o nome da deusa Herta, e arrojada a um lago.

No meio da festa apparatosa da Deusa-Mãe, todos os guerreiros do exercito de Viriatho se approximaram da Pedra focal e collocando a mão sobre ella fôram proferindo um juramento inquebrantavel:

—Nós combatemos pela liberdade da Lusitania, fonte da paz e da segurança das nossas familias. E emquanto a Lusitania fôr pisada pelo invasor romano, nós juramos combatel-o sempre, sem regressarmos a nossos lares, sem procurarmos as nossas mulheres, sem mais beijar os nossos filhos até ao final triumpho, em que todos estamos empenhados.

A confiança na audacia e intelligencia de Viriatho é que motivava estas resoluções extremas, que, se fosse necessario, seriam levadas até ao suicidio. Viriatho começava a apparecer como um vulto maravilhoso, e corriam vozes de que o toque das suas mãos dava saude. E quando o carro era levado para a beira do rio com a Pedra focal, trouxeram ao encontro de Viriatho um pobre homem hydropico, em extrema deformação, para que o soccorresse com o seu poder e o livrasse de tanto soffrimento. Viriatho attendeu o desgraçado doente:

—Para o teu mal ha um remedio infalivel nas aguas da Fonte de Ouguella. Segue para lá quanto antes, e fica certo de que te curas.

—Senhor! disse o hydropico: Eu sou Bovecio; e prometto, quando voltar curado, ser teu soldurio, acompanhar-te nos perigos e ainda além da morte.

Viriatho, sorrindo para os que o escutavam maravilhados, continuou:

—Não tem essas aguas sómente virtudes medicinaes; o pão amassado com agua da Fonte velha de Ouguella fica mais leve e saboroso do que o melhor pão de Avintes.

Um dos soldurios interveiu:

—Conheceis bem todas as riquezas d'esta nossa terra, porque a tendes percorrido de norte a sul.

—Por isso mesmo é que eu lhe tenho tanto amor. Quando andava nas fadigas da Mésta, quantas vezes fui eu ás aguas afamadas de Aljustrel, lá no Alemtejo, lavar as feridas malignas e pustulas do gado. Por lá encontrei sempre muitos pastores, que se iam tratar de feridas rebeldes, de sarna e até da lepra. O que sei dizer, é que de lá voltavam sempre curados.

—São aguas santas!

—Santas, sim, mas é preciso ter cautella, por que bebendo-se de mais... Os banhos, esses são milagrosos.

—Deveis conhecer umas aguas que nascem em Olyssipo, na falda meridional do Monte do Castello?

—Se conheço! Curam os catarros mais fundos, e acclaram tanto a voz, que até se diz que não ha musicos que egualem os d'essa terra. Se os Romanos se apoderassem d'essa cidade com certeza ahi edificariam sumptuosas Thermas.

—Toda esta nossa Lusitania é rica de aguas milagrosas.

E emquanto o carro com a Pedra focal continuava a marcha, Viriatho completou o seu pensamento:

—Como as aguas do Tagus não ha outras no mundo mais acerosas; nem as de Bilbile ou de Tarragona lhe chegam. Bem se vê pelo que se passou agora na Cava.