Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 42 de 63

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Viriatho

Capítulo XLI

Viriatho não desvairou com a inesperada victoria. Reconheceu promptamente que se salvára d'esta vez de um perigo evidente, e que para luctar com Serviliano carecia de mais gente. Deu ordem, logo que partiu o exercito romano, de lançar fogo ao arraial, fazendo uma retirada cautelosa e tratando com a maxima urgencia de ir buscar levas de montanhezes ás serranias do Herminio, por que lhes reconhecera a valentia impetuosa dos assaltos.

Serviliano, uma vez abastecido em Ituca, e refeitas as suas tropas pelo descanso, debalde procurou Viriatho; convinha-lhe fixar o seu quartel de inverno não longe, para recomeçar a campanha contra os Lusitanos, e avançou sobre a Beturia, essa parte montanhosa da Betica, entre a planicie do Betis e o valle do Anas. Habitava ahi gente que se confederara na grande insurreição suscitada por Viriatho; o Consul occupou-a por conquista, avançando para o paiz dos Cuneos, castigando-os pelo mesmo pacto, e fixando ahi na Cynesia o seu quartel de inverno.

No anno DCXIII, no comêço da estação propicia, iniciou Serviliano a nova campanha contra Viriatho, avançando para o norte; quando ia em marcha com o poderoso exercito, vieram ao seu encontro dois guerrilheiros, que andavam pela Cynesia, com uma partida de mais de dez mil homens. Eram Curio e Apuleio, que por uma temeridade inaudita se atreveram a atacar Serviliano. O Consul, com incomparavel vantagem, bateu a partida, ficando morto no campo Curio com todos os seus despojos, e debandando Apuleio com o resto da sua gente cruamente destroçada. Serviliano prosegue na impetuosa marcha, e reconquista a cidade da Baccia, toma dentro em poucos dias as cidades revoltadas contra o jugo romano, Scandiam ou Escambola, Gemella e Obucula, fazendo ahi dez mil prisioneiros, que vendeu como escravos, e mandando degolar uns quinhentos individuos mais importantes, que considerava como partidarios de Viriatho e fomentadores da revolta. E era a grande e generosa Roma, que acoimava de barbaros os povos da Hespanha, querendo civilisal-os pelas carnificinas e pelas depredações. Era a Lusitania, na sua parte oriental e na occidental, que se atrevia a resistir contra este regimen de latrocinios, batalhando pela sua liberdade.

Serviliano ia arrebatado por um pensamento exclusivo: encontrar Viriatho, derrotal-o! Sem isso não era possivel a submissão ou pacificação da Hespanha. Nas suas marchas o Consul não encontrava o Cabecilha lusitano; os seus espiões não davam noticia d'elle. Em quanto os soldados se regosijavam, conclamando, que Viriatho estava cansado da lucta; que perdera a esperança na causa da Lusitania; que já lhe faltava gente e recursos, Serviliano conhecia bem a tactica do caudilho, e suspeitava que Viriatho andaria por longe recrutando novos reforços. E seguro de que só mais tarde o encontraria, o Consul, para ir entretendo as tropas e satisfazendo-as com os saques das cidades devastadas, chegou ás cercanias de Erisane, cidade rica e populosa, e resolveu apoderar-se d'ella. Nem sequer mandou intimar a rendição aos habitantes de Erisane; pôz logo o cêrco á cidade, e deu ordem a que, em todo o seu circuito, se abrissem fóssos, fazendo da terra revôlta uma alta trincheira detraz da qual ficariam os hastarios, para que ninguem podesse fugir, e forçando-os a entregarem-se, assenhorear-se de tudo quanto em Erisane se guardava. De resto contava que os habitantes eram tambem uma rica mercadoria de escravos, e um meio para quebrantar as outras cidades pelo terror passando á espada alguns centenares. Serviliano procedia com tranquilidade e segurança, por que uma cidade sem defeza, como Erisane, não tem melhor recurso do que entregar-se ao invasor. A soldadesca romana achava-se em grande parte dividida em volta da cidade abrindo os fóssos, quando inesperadamente de dentro dos seus muros irrompem em tropel esquadrões sobre esquadrões de cavalleiros, de longas grenhas, com trajos e armas ao modo lusitano. Parecia que a cidade se desfazia em chusmas de cavallerias, e que de cada pedra se formava um cavalleiro. A violencia e rapidez da erupção, os gritos estridentes e a sanha vertiginosa bem revelaram logo que era gente de Viriatho! Como conseguira o Caudilho introduzir-se sem ruido dentro de Erisane n'aquella noite? E sem dar tempo a que Serviliano podésse metter em fórma o exercito, que estava esparso e em descanso no acampamento, na lisongeira espectativa do saque da cidade, Viriatho, com aquelles movimentos que só elle sabia dirigir, lança-se com todos os seus bravos Soldurios, e com os Terços mais firmes chacinando na massa desmembrada do exercito de Serviliano, multiplicando a sua força sobre as hesitações de espanto causadas pela instantanea surpreza.

O exercito romano, sem ensejo para entrar em ordem, vae abandonando o terreno, vae recuando, sem plano; Viriatho, com a lucidez dos momentos decisivos, vae-o impellindo para o desfiladeiro apertado entre dois montes cobertos de penhascos, sem que o proprio Serviliano désse pela audaciosa cilada. Logo que Viriatho conseguiu encurralar o grosso do exercito consular, deu ordem a um trôço de companheiros para a um signal sabido fazerem rolar do alto das duas montanhas aquelles penhascos acavallados. Dispostas assim as cousas, mandou parlamentarios a Serviliano:

—«Que o Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, conhecendo a situação em que se collocára o exercito romano n'aquelle desfiladeiro, devia consideral-o perdido para o combate ou qualquer resistencia;

Que do alto das duas montanhas rolariam ao primeiro signal sobre o desfiladeiro os penhascos que alli negrejavam, esmagando todo o exercito ahi comprimido;

Que, antes de proceder e de pôr as suas condições, mandava perguntar a Serviliano que vantagens offerecia para que o exercito romano fôsse salvo.»—

Os parlamentarios, que tinham partido levando ao alto ramos de oliveira, não se demoraram muito tempo; traziam a mensagem de Serviliano:

—«Que da parte do Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, pelos poderes que lhe tinham sido conferidos pelo Senado, lhe entregavam um Cinto de ouro, como insignia de auctoridade soberana;

Que poderia Viriatho desde aquelle momento considerar-se Rei da Lusitania, e fiel Alliado de Roma, sendo o seu primeiro acto a assignatura de um Tratado de Paz e a dissolução do exercito.»—

Quando Viriatho leu essas condições sorriu-se com um superior desdem; e sem demora tornou a enviar os Parlamentarios com os Cavalleiros romanos que os acompanhavam, para dizerem a Serviliano:

—«Que das suas propostas só acceitava a Paz firmada pelo Consul e ratificada pelo Senado, em que se assentasse para sempre o reconhecimento da liberdade e independencia do Povo lusitano na sua terra, e da propriedade dos fructos do seu trabalho.

Que a Lusitania nada queria de Roma; e quanto a elle Viriatho não acceitava o titulo de Rei, mas unicamente a simples denominação de Amigo, dada pelo Senado romano.»—

A mensagem de Viriatho não podia deixar de ser adoptada por Serviliano, porque se limitava exclusivamente ao Tratado de Paz. E o Consul comprehendia o intuito leal de Viriatho, porque aquelle mesmo homem, que estando o exercito lusitano perdido recusou a Paz que Vetilio concedera, era quem agora, tendo o exercito romano entregue ao seu arbitrio, propunha como resultado da victoria uma simples clausula: um Tratado de Paz assignado pelo Proconsul e ratificado pelo Senado e Povo romano. Era nada menos do que a pacificação da Hespanha e o poder de Roma assentando sobre o Direito em vez da espada.

O Tratado foi redigido com todas as formalidades do Direito das Gentes, e Serviliano assignou-o como Proconsul; Viriatho firmou-o tambem enumerando os povos lusitanos que representava. Trocaram-se os diplomas authenticos, um que devia ser apresentado por Serviliano ao Senado em Roma, e o que ficava em poder de Viriatho, como garantia da Paz. N'esse dia os dois exercitos passaram em festa, ficando no campo as tropas de Viriatho, até que o exercito proconsular deixasse de ser visto seguindo em marcha para o seu quartel de inverno.