Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 31 de 63

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Viriatho

Capítulo XXX

A Guerra dos ladrões, como chamavam em Roma á lucta heroica de um povo defendendo o seu territorio, os seus lares, a propria existencia, prolongava-se com desastres successivos para as armas sempre ufanas dos Quirites. Os barbaros do occidente eram exemplo de dignidade civica e de altura moral para o povo-rei, que se arrogava a supremacia da civilisação. As derrotas quasi simultaneas de Unimano e Nigidio occultaram-se por alguns dias na Cidade eterna; chegou-se mesmo a espalhar que Viriatho se rendera, que fôra agarrado; que seria trazido para o apresentarem ao povo em espectaculo no Circo. Mas a verdade cruenta irrompeu quando se viu que fôra encarregado Caio Lellio, que era por todos cognominado o prudente, de partir rapidamente para a Hispania, e de intervir com o seu tino seguro na campanha que se desmoralisára. E tal era a importancia da missão, que Lellio partira revestido da auctoridade de Proconsul. A situação era extremamente grave; porque um dos generaes romanos, não se sabia se Unimano ou Nigidio, em consequencia dos muitos ferimentos que recebera, succumbira. Lellio ia substituir um d'elles. O novo general inspirava confiança pela clareza de intelligencia que possuia; não iria imprimir um impulso decisivo ao Bellum latronum, mas ninguem como elle saberia informar o Senado da situação da Lusitania e das condições que cedo ou tarde conduziriam á victoria. Lellio era considerado em Roma como um litterato eximio, dotado de eloquencia empolgante, e de um vasto saber; estas qualidades não eram incompativeis com o espirito militar de um chefe tacitamente encarregado, não de feitos estrondosos, mas de salvar dois exercitos compromettidos em um paiz inimigo e longinquo. Por isso a chegada de Gaio Lellio á Lusitania não produziu ruido; a sua obra capital foi sustar promptamente o revês que se precipitava, reunindo os dois exercitos romanos, e evitando a batalha campal a que Viriatho o provocava, com constantes escaramuças. Depois d'isto preparou as cousas para que d'alli em diante a campanha da Lusitania tomasse um outro aspecto mais favoravel ao poder de Roma. As suas informações para o Senado influiram n'isso, e por ventura foram seguidas mais tarde por outros generaes com o exito desejado. Lellio, com o seu profundo saber, tratou de ir colhendo todas as noticias que importavam ao interesse de Roma, e com as notas que tomava, inquirindo dos povos e dos costumes, escreveu uma carta ao Senado, da qual alguns trechos foram aproveitados pelos geographos contemporaneos. Narrava o Proconsul:

 

«Cumpre ter sempre presente, que a Lusitania é habitada pela mais poderosa das nações hispanicas; e que achando-se já subjugadas as outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.

«Não provêm a sua força do numero dos seus habitantes, mas da sua resistencia devida a um temperamento tenaz e incansavel, a uma dignidade individual que antes prefere a morte a qualquer apparencia de escravidão.

«Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; elles não se misturaram com os Celtas, que haverá quatro seculos invadiram a Hespanha e conseguiram alliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitania não aconteceu como nas Gallias, quando ahi se effectuou a conquista do Celta invasor; o lusitano não cahiu na servidão militar como o gaulez. O povo vive espalhado por casaes, villares, pobras, agricultando, deixando o trabalho dos campos ás mulheres, desde que é preciso correr ás armas para defender a terra; as Cidades são confederadas entre si, tambem no intuito da defeza, e para o fim de governo administrativo. São elles que votam em Conselho armado a guerra defensiva, e que elegem os seus chefes e generaes, declarando cada povo ou localidade com quantos Cavalleiros ou infantes contribuirão para a guerra contra os Romanos. Os Chefes eleitos apresentam-se na entrada de Maio promptos para a campanha, seguidos dos seus Companheiros, que são todos os homens seus dedicados, soldurios e protegidos, que os seguem por toda a parte, e lhes obedecem incondicionalmente. É esta a organisação do seu exercito. E de Viriatho me contam, que elle tem, além do commando geral de todas as forças, uma guarda de Mil Soldurios, que desde a matança do Tribola, em que salvou o exercito Lusitano da perda immediata quando já propunha a rendição, ficaram constituindo a sua Guarda de corpo, com juramento de lhe não sobreviverem morrendo elle em campanha, como prova da sua Irmandade heroica. Desde o desastre de Tribola até hoje muitos d'entre os Mil Soldurios têm morrido nas guerras com Plancio, com Claudio Unimano e Caio Nigidio, mas esse numero está sempre completo, porque a maior gloria que póde aspirar um guerreiro lusitano é jurar o pacto de amisade na vida e além da morte, sendo eleito em consequencia de feitos extraordinarios um dos Mil de Viriatho. Com uma organisação militar que assenta no vinculo sentimental da confraternidade, e que se move pela emoção hallucinante da Patria, as Legiões romanas nada pódem, e a estrategia dos Pretores fracassará sempre desde que continuem com o systema das batalhas campaes, em um terreno cheio de anfractuosidades perigosissimas e que os naturaes conhecem perfeitamente.

«Apontando estes contras não quero espalhar o desânimo; e assim como Roma já soube tirar uma lição luminosa dada por estes barbaros, adoptando para o seu exercito a Espada hispanica, que lhe tem proporcionado victorias, d'elles temos a tirar ainda a arte de os vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos não pódem ser vencidos senão pela perfidia. Sabereis que entre a raça dos Iberos e a dos Lusitanos ha um odio irrefreavel mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a sua aversão mutua separa-os mais do que as inaccessiveis fronteiras de rios caudaes ou de alterosas montanhas. Passarão os seculos, mas esta antinomia prevalecerá. É sobre ella que Roma deve apoiar o seu dominio; muitos povos da Lusitania estão hoje confundidos em territorio iberico, e Viriatho conseguindo reunil-os para a Confederação defensiva em que trabalha expulsará o poder de Roma da Hespanha, com certeza e não tarde. O Ibero lisongeia-se com os contactos da soberania de Roma: dêem-se-lhe titulos de cidades municipaes, attraiam os seus filhos a Roma, e elles ficarão submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o odio do Ibero para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano é debalde que empregaremos a espada, mas é infallivel o resultado impellindo-o para a união iberica. Hoje toda a Lusitania tende a retomar a extensão primitiva, e unifica-se moralmente á voz de Viriatho, que se acha revestido entre o povo de um prestigio maravilhoso: nada menos do que acreditarem todos que elle é invencivel. Nós sabemos quanto esta credulidade influe no animo das tropas e decide das batalhas. Corria por aqui entre as tribus da Lusonia que appareceria um guerreiro montado em um Cavallo branco, e que elle conseguiria repellir o estrangeiro invasor; todos hoje consideram Viriatho como a realisação d'essa velha prophecia, e os companheiros que lhe deram o Collar de ouro do commando ou a Viria, foram os primeiros que o acclamaram pelo nome de um guerreiro prestigioso do tempo de Annibal, chamando-o VIRIATHO! Morto este chefe dissolver-se-ha a Lusitania; porque esse profundo sentimento de raça e de patria, que anima as tribus lusas, carece de uma representação que as identifique. Viriatho deve ser morto; sem o que, não acabará a campanha e Roma será sempre vencida. Urge pensar n'isto e só n'isto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim unico. Perguntareis: Quem hade matar Viriatho? Por certo, que nenhum general romano ou cavalleiro audacioso o desafiará para um combate individual. Mas, já indiquei o caminho: o odio dos Iberos e dos Lusitanos entre si é insondavel, e não faltará um Capitão de sangue iberico que se preste a alcançar a gloria d'essa traição.»

Era mais longa a Carta de Caio Lellio ao Senado; muitas das suas passagens foram aproveitadas pelos geographos gregos e chronistas romanos, de épocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as Guerras viriathinas. A parte que interessava directamente á politica romana foi lucidamente comprehendida, não só pela experiencia dos anteriores desastres, mas pela confiança no tino indiscutivel de Caio Lellio. Por isso nos Annaes da Republica não se referindo nenhum combate dado por Lellio na Lusitania, inscreveu-se que imprimira aos successos uma direcção que os tornava menos favoraveis aos Lusitanos.