Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 26 de 63

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Viriatho

Capítulo XXV

Aproveitando o enthusiasmo e confiança das suas tropas pela derrota estrondosa de Unimano, avançou Viriatho para o norte, transpondo a margem direita do Tagus. Não havia tempo a perder; era urgente ir ao encontro do Pretor Caio Nigidio. As esculcas trouxeram a Viriatho a aterradora noticia de que esse segundo corpo do exercito romano vagava pela Beira Alta devastando, incendiando granjas e casaes, roubando gados e aniquilando as sementeiras para reduzir pela fome a população trabalhadora e pacifica. Era preciso sustar o passo a Nigidio, agora enfraquecido pela impotencia de Unimano. Viriatho avançou a marchas forçadas, contando a cada momento encontrar o exercito pretorial.

Proximo já das faldas dos grandes Herminios, vieram as esculcas trazer ao cabecilha a noticia, de que Nigidio acampára o seu exercito dentro da Cava, que já então começava a ser conhecida entre os povos das cercanias pelo nome de Cava de Viriatho, gloriosos por saberem que alli o Maioral da Mésta abrigava os gados, quando desciam da serra.

A alegria de Viriatho foi vivissima com a noticia do acampamento de Nigidio dentro da Cava, em que se considerava seguro, sobretudo para o aquartelamento durante a noite, despreoccupado de toda a surpreza. Um plano decisivo fulgurou na mente do cabecilha; entreviu uma derrota inesperada, impossivel de ser prevista pelo Pretor, que considerava a Cava como uma Castra aestiva, para segurança do seu exercito. Qual fosse esse plano, a ninguem o communicava, resolvendo logo partir para o grande Herminio, acompanhado dos cavalleiros da trimarkisia, em marcha forçada. Por ventura iria combinar qualquer feito com os maioraes que constituem a Cabana da Mésta, seus antigos companheiros?

Viriatho chegára ao fim da tarde á povoação de Sedarça, logarejo na encosta da Serra, em que passára a infancia. Tudo eram recordações, que o enterneciam e o alentavam. De uma obscura choupana ouviu resoar um canto, e risadas frescas e animadas de raparigas que estavam junto de uma molinheira moendo bolotas, de cuja farinha se fabricava o bolo em uma larga certã de barro sobre brazas. Viriatho, que seguia sempre mais adiante dos companheiros, parou diante da porta, escutando o canto rythmado ao movimento da molinheira. Uma das raparigas ia cantando uma historia triste, talvez com realidade; era a canção narrativa,

A Dobadoira

Estava á porta assentada,

Dobando a sua meada

A velhinha;

Lenço branco na cabeça

A madeixa lhe sustinha,

E envolve-a como toalha:

Com que pressa

Sentada á porta trabalha!

O sol doira

Seu cabello,

Que tem a côr da geada:

Para passar o novello,

A velhinha

De vez em quando sustinha

A gemente dobadoira,

Em que anda branca meada.

Na dobadoira que gira,

Como a mente que delira,

Nem já toda a attenção pondo;

Nem no novello redondo,

Augmentando

Ao passo que o fio tira,

Todo o seu cuidado emprega!

Pobre e cega,

Anciada, de quando em quando

Com que tristeza suspira!

Por vezes, o movimento

Claro exprime

Tumultuar do pensamento,

Que no imo da alma a opprime

E quasi oura!

Muda angustia e paciencia

Reflecte-as a intermittencia

Do andamento

Ao voltear da dobadoira.

Fica-lhe na mão suspensa

O novello,

Concentrada não o enleia:

Na orfã netinha pensa!...

Vem-lhe á ideia

Por sua morte:

«Só, no mundo! entregue á sorte!

Pobre neta...»

Pezadello,

Que tanto a velhinha inquieta.

*

Não ouvindo a dobadoira,

Que gemia intermittente,

Cahindo da mão dormente

O novello...

Com disvello,

A neta, cabeça loira,

Vem á porta

Vêr o que foi; com susto olha:

Uma lagrima inda molha

A face á velhinha morta.

No fim da canção uma das raparigas limpou as lagrimas; disse uma d'ellas:

—Tu, Nilliata, nunca ouves essa aravenga sem chorares.

—É que eu conheci a velhinha cega, e tantas tardes a vi sentada á porta a dobar.

Viriatho approximou-se da porta da choupana, e saudou as raparigas:

—É bem triste essa historia. O que é feito da pobre orfã?

—Ah, senhor! Houve uma alma apiedada que a tomou como filha. Todos os seus parentes tinham morrido nas guerras ou na escravidão dos romanos, e Idevor acudiu-lhe em tanto desamparo. O que nos vale são as boas almas. E se não fosse agora Viriatho, o que os romanos não fariam por essa nossa terra...

—E nunca vistes Viriatho? Perguntou o cabecilha com bondade.

As tres raparigas, que estavam em volta da molinheira, depois de terminado o cantar ou aravenga da Dobadoira, encetando uma conversa intima, trocaram sorrisos maliciosos:

—Muito gostava de vêr esse homem de quem tanto se falla.

—E eu? E dizem que é um homem ás direitas; não é alto nem baixo, de côr morena e olhos castanhos, cabellos fartos e tambem castanhos lisos; barba espêssa e corredia; o rosto é oval, o nariz fino, e a bocca mediana deixa vêr uns dentes alvos e eguaes, que é um encanto! Se o visse conhecia-o.

—Parece que estás enamorada de Viriatho. Disse com malicia Nilliata.

—Eu nunca o vi, nem espero vêl-o. O que me faz gostar d'elle é a sua coragem. Quem hade dizer, que um homem costumado aos duros trabalhos da Mésta, delgado de perna, e pés pequenos, cá como os homens da nossa terra, tem uma alma generosa, e audaz para sacudir os inimigos da patria!

Caenia fallava convencida.

Viriatho, que entrára na povoação adiante dos tres companheiros, ouvindo as risadas das raparigas estacára para escutar o que diziam; em breve conheceu de quem se fallava, e com um sorriso cheio de benevolente carinho, disse para ellas:

—Fallar no máo, apparelhar o páo.

As raparigas olharam-o com surpreza e viram o homem como o tinham representado: aquelle rosto oval e trigueiro, aquelles olhos castanhos de um relance vivo e scintillante; o mesmo pé pequeno mas agil.

Disse a mais reservada das moças para a que era falladeira:

—Ahi tens o moço em quem pensavas. Dize-lhe que gostas d'elle.

—Todas nós devemos amar Viriatho, por que elle sabe defender a nossa terra. (Volveu a Caenia a rapariga falladeira com decisão). Pois para vencer o inimigo, Viriatho precisa do amor e da confiança de nós todos. Mas para amal-o, como a mulher póde amar o homem, isso fia mais fino! Na Lusitania, que mulher poderá merecel-o?

—Então não ha mulheres lusitanas que me queiram?— Interrompeu Viriatho com malicia.

—Ai, meu senhor. Das mulheres da Lusitania só tenho ouvido exaltar uma que é digna de vós, ou vós digno d'ella.

—E eu, que até hoje nunca tinha pensado em amar uma mulher! Queria saber quem é essa, que tanto exaltas.

—Falla! dize quem é. Insistiram Nilliata e Aponia.