Viriatho
Capítulo XL
Serviliano não queria perder tempo, e iniciou a campanha na Betica, nas cercanias de Jaen; o plano foi bem formado, porque Viriatho apenas pôde pela rapidez das operações do Consul entrar em combate com um contingente de seis mil homens.
Os tres companheiros de Viriatho, notando que o chefe reconhecia a insufficiencia da sua gente para sustentar o combate com um exercito disciplinado dez vezes mais numeroso do que o seu, entreolharam-se com um ár de intelligencia, como se aquella situação desesperada proviesse de uma combinação. Viriatho não succumbiu; antes o perigo o levava a descobrir extraordinarios recursos. E de relance, comprehendendo a situação, ordenou o seu plano:
—Manobrar com uma rapidez tal, que o exercito romano não possa manter-se em disciplina e ordem de batalha.
E em vez de esperar o ataque, deu ordem a um assalto instantaneo, em que toda a agilidade e bravura, que caracterisa os lusitanos, fôssem praticadas por modo que a confusão se estabelecesse nas Legiões romanas, e que as manobras usuaes não podessem ser executadas. Pôz á frente os montanheses do Herminio acostumados ás correrias dos lobos e ás montarias dos javardos, os quaes em berreiros descompassados—Mata, que é romano!—investiram com impeto indomavel de féras contra os manípulos de Serviliano. A espada e o punhal eram vibrados por uma e outra mão, tendo abandonado o escudo, para se moverem mais denodadamente. O assalto encheu de assombro os soldados romanos, que desconheciam esta impetuosidade dos que elles chamavam barbaros; e sem poderem sustentar aquelle recontro violento, foram recuando, suppondo que Viriatho, empenhando a batalha só com seis mil homens, contava com outras forças que viriam avançando, e que decidiriam da lucta.
Uma circumstancia salvou n'esse momento o exercito do Consul Serviliano: inesperadamente appareceram no campo da batalha dez Elephantes africanos e trezentos Cavalleiros bem equipados. Serviliano conheceu-os; era o contingente que lhe mandava Micipsa, o rei da Numidia. Quando o Consul projectava alcançar o commando da Guerra da Lusitania escrevera a Micipsa pedindo-lhe em nome da Republica o auxilio dos seus Elephantes e dos seus esbeltos Cavalleiros. Um pedido assim era uma ordem, e o Rei da Numidia bem comprehendia que com o contingente de alguns Elephantes e Cavallos, garantia a estabilidade do seu throno.
O auxilio não podia vir mais a tempo; e o exercito romano, reanimando-se com o extraordinario reforço, toma a offensiva. A rapidez do ataque da parte do exercito consular, servia para perturbar-lhe a disciplina, e Viriatho, evitando o combate, foi attrahindo as hostes para os terrenos anfractuosos seus conhecidos. Os Elephantes do rei da Numidia foram caindo um a um, com aquelle golpe ignorado dos romanos, mas praticado pelos lusitanos, quando com um aguilhão de ferro matam os seus bois ferindo entre as vertebras cervicaes. O successo inesperado produziu um estranho assombro; Serviliano pensa já na retirada, e Viriatho, furtando-lhe as voltas, toma-lhe a dianteira, avançando com rapidez incrivel por veredas que só elle conhecia, vindo occupar o arraial do exercito consular, apenas guardado por alguns hastarios.
Quando o Consul Serviliano, com o exercito cansado dos caminhos fragosos chegou já noite cerrada ao seu acampamento, achou o pequeno exercito de Viriatho fortificado com os fóssos e trincheiras com que contava defender-se, e viu-se constantemente inquietado pelos hastarios e fundibularios lusitanos. Aproveitando a escuridão da noite e contando com o cansasso dos soldados romanos, fatigados da retirada custosa, Viriatho ordenou incursões repentinas e por lados sempre differentes no acampamento romano. Serviliano perdera n'aquella jornada e incursões da noite para mais de tres mil homens; e como as tropas se achavam sem descanso e sem alimento desde a vespera, seria loucura o empenhar-se em uma batalha campal, resolvendo recolher-se com o exercito á cidade mais proxima, a Ituca, onde contava com viveres e as munições indispensaveis.