Viriatho
Capítulo XXXVIII
Roma, na prosecução dos planos da sua politica absorvente, desconhecia a coacção moral; quando não confiava na força das armas, recorria ao poder do ouro, subjugando pela corrupção, e falhando os baixos expedientes, alcançava sempre o exito descendo até á—traição. Ante o perigo da constituição federativa dos Povos lusitanos, Roma entrevia o seu triumpho na—morte de Viriatho. E nunca faltaram traidores.
XXXVIII
Esperando o momento azado para recomeçar as operações militares, Quinto Fabio Maximo passára o inverno no seu quartel estabelecido na cidade de Corduba, vendo que a espantosa revolução que irrompia entre as tribus lusitanas chegava á maior intensidade quando justamente estava a terminar o periodo do seu consulado. Elle presentia, que em Roma a sua pretendida victoria era motivo de facecias; por que as noticias do levantamento de tantos povos á voz de Viriatho, desde o Anas e Betis até ao Promontorio Trileuco, patenteava que o chefe lusitano redobrára de força e de prestigio depois da sua retirada para Bécor. Quinto Fabio, sob a incerteza se seria chamado a Roma, se continuaria no commando da Guerra viriathina, ou se outro Consul o viria substituir, passava os dias em uma agitação moral que o perturbava profundamente, obrigando-o ao esforço de occultar o seu estado de espirito, diante dos que o rodeavam. Na inacção forçada da estação hyberna, ordenou certos divertimentos, que os Consules, na sumptuosidade de vida que usavam na Peninsula, tornavam uma caracteristica da grandeza romana.
A melhor parte do dia passava-se em um lautissimo e grandioso banquete, em que á parte as iguarias, em que predominava o salmão cosido em vinho branco, deliciava os convivas a parte espectaculosa, que se continuava pela noite adiante. Durante o banquete resoavam as musicas proprias chamadas acroamata, em que grupos de moços e raparigas ao som de flautas e lyras cantavam desenvoltamente em meneios de dansas e pantomimas, imitando situações dos mythos religiosos e das lendas homericas. Eram sobretudo jovens syrias e gaditanas, que, ao som dos cantos licenciosos mais fascinavam pelas dansas lascivas os convivas de Quinto Fabio. E para fazer contraste com a belleza das fórmas, appareciam de repente os anões e aleijados, que em contorsões violentas, procurando imitar os equilibristas, que formavam pyramides e torres ambulantes, dando cambalhotas e guinchos estridentes, suscitavam as mais estridulosas gargalhadas. Á variedade e profusão das iguarias, correspondia a mudança dos divertimentos, destacando-se, pelo seu poder hilariante, os Imitadores, que reproduziam o canto dos gallos, e o dos rouxinoes, os zurros do jumento, o miar dos gatos assanhados, macaqueando os gestos e a falla dos typos mais conhecidos da cidade de Corduba e mesmo de alguns Centurios.
Quando Fabio estava cansado de rir de todas essas manifestações da indignidade humana, das disformidades physicas e degradações moraes, então mandava que se fizessem as recitações poeticas, e appareciam com ramos de louro nas mãos os Homeristas, que ao som das lyras de sete cordas e de cytharas declamavam episodios dos poemas do Cyclo homerico. Já estavam os candelabros accesos na sala do banquete, quando entraram os Homeristas, para recitarem alternadamente os cantos de um Poema, a que deram o titulo de Os Piratas tyrrhenos; e em quanto declamavam, figuras mudas em um intermedio dramatico iam representando todas as situações descriptas:
«A bella e joven Neéra banhava-se descuidada nas ribas de Naxos.
«Apparecem subitamente os piratas do mar Tyrrheno e arrebatam-na, para a venderem para algum gyneceo real.
*
«Menéclida, seu velho pae, deplora a perda do encanto da sua velhice.
«O namorado de Neéra, encontra-o chorando, e persuade o velho para irem consultar o Oraculo. Partem ambos com anciedade.
*
«No mar os Piratas disputam entre si a posse de Neéra; e não se entendendo no meio da sua lucta ameaçam de metterem o baixel a pique, e morrerem todos.
«O piloto impõe-se aos remeiros, dizendo,—que é melhor ir offerecer a cativa ao Rei de Coryntho, porque assim alcançavam um porto de refugio e abrigo, quando fossem perseguidos ou batidos pelas tempestades do mar.
*
«Neéra é offerecida ao monarcha: a formosura da cativa deslumbra-o.
«Coryntho está em uma grande desolação por uma terrivel peste asiatica e a mortandade é enorme. O Rei consulta o Oraculo;—que responde: Que o seu Estado ficará livre da peste logo que elle despose uma prisioneira.
*
«Quando se faz o banquete das nupcias de Neéra, apparecem dois forasteiros, o pae e o namorado de Neéra, desfigurados pelas fadigas das jornadas, e por isso desconhecidos.
«Sentam os dois forasteiros á meza, e dão ao velho Menéclida uma lyra para entoar um cantico. Como bom rhapsodo, desenvolveu em uma canção saudosa o verso de uma tragedia de Sophocles:
—É preciso para ser feliz—viver no seu lar...
«A cativa, agora rainha, conhece pelo canto a voz do pae, e vê na physionomia do moço que o acompanha a expressão do namorado, dos seus primeiros amores, Alcimo.
*
«O moço diz ao rei que é esculptor, e que fizera as estatuas mais bellas de Aphrodite para os templos de Héllade; e que se promptifica a fazer a estatua de Neéra.
«O Rei quer a estatua da esposa, mas com uma condição: Que o artista contemplando-a núa, logo que fôr terminada a obra elle morrerá, sendo assim a sua morte o véo do pudôr.
«O moço acceita a condição resoluto: Neéra pasma, receiosa. Começa o estudo das fórmas, das posições...
*
«E quando os dois amantes sentiam mais ardente a paixão primeira, e Alcimo achava impossivel reproduzir no marmore tanta belleza, presentindo que a morte os separará para sempre, em um longo beijo assim lhe segreda:
—Que a mesma morte nos una!
*
«E de noite fugiram ambos do palacio, entrando em uma barca, das que estavam varadas no porto de Coryntho: foram mar em fóra ao som da agua, fallando dos seus amores, vogando perdidos, e ja muito longe, aos primeiros alvores da alvorada, Alcimo cantava:
Sobre o horisonte, quanto a vista alcança,
Reluz vaga esperança:
Branca vela! da salvação signal:
—É o Sonho do Ideal.
Succede á calmaria a viração,
—Do Amor a aspiração,
Que as nuvens da borrasca longe espalha!
A vela branca assoalha.
Nas auras fluctuando—esse estandarte
Nos leva ás regiões da Arte.
Que importa Syrtes ou parceis? agora
Resplandece outra aurora,
Um céo azul n'esses teus olhos! Vêl-o,
E certo rumo—o Bello!
Como busca outro clima uma andorinha,
Que o calor adivinha,
Fugimos! Crente, á prôa
A alma para ti vôa...
Pelo mar largo assim vamos os dois
Devaneando... Depois,
N'este enlevo sem fim, perdido o norte,
Que seja o porto a morte!»
Apenas acabára a recitação dos Homeristas, já appareciam na sala os Parasitos para dizerem chascos e graçolas; mas o Consul Quinto Fabio deu ordem para que se retirassem.
—O que desejará agora o Consul? diziam uns para os outros. Talvez alguma Tragedia? Que venha já immediatamente o Graeculo.
Quinto Fabio ouvira fallar n'uma crença que os Povos da Lusitania tinham sobre os poderes maravilhosos de uma Cerva branca; constava-lhe que um velho poema barbaro celebrava esse mysterio, pelo qual se explicava o prestigio dos homens politicos. Foi trazido um prisioneiro lusitano, que se lembrava de numerosas estrophes do Poema.
Disse-lhe o Consul:
—Tens a liberdade, se me recitares o Poema da Cerva branca.
—É o Poema de Abidis, do Principe fadado por invencivel diante de todos os perigos, e sempre subjugado pelo Amor. N'esse poema está symbolisado o genio da nossa raça lusitana: luctando indomavel até á morte, mas deixando-se morrer de amor.
—Canta ou recita esse poema; e terás a liberdade.
O prisioneiro sentiu uma immensa alegria quando lhe tiraram as algêmas; e começou em uma melopêa estranha, que absorveu a attenção dos convivas:
Rimo de Abidis
Ouviu negro vaticinio
O rei Górgoris um dia:
Que do seu throno dourado
Um neto o despenharia!
Mandou fechar n'uma torre
Distante, redonda, esguia,
A Princeza sua filha,
Unica herdeira que havia.
Triste, cativa a Princeza,
Cantava de noite e dia,
Para encher a soledade
Nas angustias que soffria.
Passa um Cavalleiro perto,
A doce musica ouvia;
Mas, como subir á Torre?
Tão alta! quem poderia?
Deixára soltar as tranças,
E até á terra descia
Seu fino e lindo cabello
Por onde o moço subia.
As noites eram auroras
Da mais intima alegria,
E as ausencias tornavam
Cada vez mais negro o dia;
Até que d'esses amores,
Que ninguem suspeitaria,
Ao cabo de nove mezes
Formoso Infante nascia.
Boas Fadas o fadaram,
A qual mais dons lhe daria:
—Invencivel aos perigos
Serà! uma fada dizia.
De amores sempre vencido, Outra fada retorquia.
Toma o rei Górgoris conta
Do Infante apenas nado,
Que traz o nome de Abidis
No cinto em que é enfaixado.
Sempre o negro vaticinio
Ao velho rei é lembrado;
Só pensa em salvar o throno,
Leva ao crime tal cuidado.
Em uma estreita azinhaga
Deixa o neto abandonado,
Por onde passa correndo
Sua boiada, seu gado.
Pelo poder do destino
Não foi o Infante calcado!
O velho rei recrudesce
No odio ao neto votado,
E manda lançal-o ao monte
Certo de ser devorado
Por algum lobo faminto
Ou serpente do vallado.
Foram dar com elle rindo
Na relva fresca do prado,
Lá por uma Cerva branca
Com carinho amamentado!
O velho rei mais raivoso
Mandou arrojal-o ao mar,
Crendo que as aguas profundas
Hão de a criança afogar.
A onda a que a arremeçaram
Á praia a vem entregar!
Então Górgoris conhece
Que a Deusa Hertha o quiz salvar.
Estrella do Mar se chama
A essa diva lunar,
Que traz por sagrado emblema
Uma Cerva branca a par.
Por causa da Cerva branca
Veiu tanto odio a acabar.
O rei Górgoris tem gloria
De Abidis seu reino herdar:
Como o neto, resistente
Seu Imperio hade ficar,
Annunciando-lhe a grandeza
Aquella Estrella do Mar!
Aproveitando-se de uma pausa ou hesitação de memoria do prisioneiro, disse-lhe o Consul Quinto Fabio:
—Já faço ideia do poder da Cerva branca; conta agora algum lance d'esse invencivel Abidis, sempre vencido de amores.
—Ah! toda a historia de Abidis ou Amadis, é quasi inteiramente de amores; dava para encher muitos dias e seroar noites com peripecias sempre de encantar. Começo por uma
Declaração de amor
Apalpando o lado esquerdo
Não achei o coração!
Na repentina surpreza,
Com tamanha inquietação,
Conheci que m'o furtaram,
Não sei bem a occasião...
Fui logo á procura d'elle
Buscando o rasto no chão,
Escutando attentamente,
Se lhe ouvia a pulsação!
Talvez esteja perdido
Em remota solidão?
Quando já sem esperança
Cahia na decepção,
Fui dar com elle fechado
Em nevada, fina mão!
Não me atrevi a exigil-o,
E eu mesmo, sorrindo então,
A quem assim m'o levára
Tive de pedir perdão,
Porque ha no amor a furto
O philtro da tentação.
O Consul, como homem culto, estava interessado pelas rimas do prisioneiro lusitano, que lhe pareciam barbaras mas impressionantes; e disse-lhe:
—Prometti-te a liberdade; para que a obtenhas de vez, é preciso que proclames em voz alta: «Viva o poder da grande e generosa Roma!»
O prisioneiro olhou desdenhosamente para Quinto Fabio, devolvendo com secura, e como em um arranco de morte:
—Volto para o ergástulo.
E murmurando entre dentes com entranhado rancor, ao retomar as algemas:
—A Cerva branca ainda hade dar bastante que fazer aos Romanos! Oh, se hade!
A festa dos Acroamata era poucos instantes depois interrompida; chegára uma ordem cathegorica chamando a Roma Quinto Fabio Maximo Emiliano, e determinando-lhe a entrega immediata do commando do exercito consular ao novo general Quinto Cecilio Metello.