A casa assombrada
Capítulo 9
Nos dias que se seguiram, as coisas ficaram mais calmas em Gaudlin Hall e, para meu alívio, não houve nenhum outro incidente perturbador. Continuei incomodada por saber tão pouco sobre a família Westerley e sobre por que eu estava ficando sozinha com Isabella e Eustace por tanto tempo, mas deixei meu desconforto de lado quando comecei a desenvolver uma relação com as crianças. Fiel à palavra, meu pagamento estava disponível no escritório do sr. Raisin na manhã de terça-feira e foi contado e verificado pelo assistente, Cratchett, que parecia ter decidido não gostar de mim; quando pedi para marcar um horário para conversar com seu patrão, fui informada de que o sr. Raisin estava fora de Norfolk a negócios e que Cratchett não poderia agendar uma reunião sem o consentimento prévio do próprio. Por causa do jeito que os olhos de Cratchett desviavam o tempo todo para a porta atrás dele durante a conversa, fiquei convencida de que o sr. Raisin não tinha saído coisa nenhuma, mas estava sentado à mesa na sala ao lado, recusando-se a me ver, o que me deixou muito decepcionada. Porém, como era impossível contestar o que Cratchett tinha dito sem parecer uma histérica, apenas informei que voltaria, pois não poderia deixar as coisas como estavam, e fui embora, frustrada.
Fiz também inúmeras tentativas de encontrar a elusiva sra. Livermore, sem sucesso. Se eu me levantava às oito, eu a via, casaco nas costas e cesta na mão, marchando pela alameda e afastando-se da casa; se eu me levantava meia hora mais cedo, ela partia meia hora mais cedo. Aquela senhora parecia fazer questão de não ter nenhum contato comigo, apesar de eu ter certeza de que ela sabia muito bem que havia uma nova governanta na propriedade. Na única ocasião em que olhei pela janela da cozinha e vi que ela estava por perto, corri para fora, mas, assim como em nosso encontro anterior, ela contornou a mansão e pareceu ter desaparecido no ar, me deixando na dúvida se eu tinha imaginado sua presença. Em momentos como aquele, eu me perguntava se o ar de Norfolk estava afetando minha mente.
De qualquer maneira, apesar de todas essas questões, descobri que estava começando a gostar da vida em Gaudlin Hall. É claro que eu ainda pensava em papai com frequência; de vez em quando, em especial durante a noite, sozinha no quarto, a memória dele me levava às lágrimas, mas fui me acostumando com a perda e aprendendo a lidar com o luto. Longas caminhadas pelo jardim ao redor da mansão ajudavam. Eu me consolava com o fato de que ele, na maior parte, vivera uma vida feliz e intelectualmente estimulante, e conhecera o amor verdadeiro duas vezes ― com a esposa e com a filha. Quando eu voltava, com os pulmões repletos de ar puro e as pernas um tanto cansadas por causa do exercício, meu ânimo sempre parecia melhor, e eu sentia uma onda de otimismo por essa nova vida que levava.
Entretanto, por mais que eu apreciasse o conforto à minha volta, o ar bolorento do meu quarto e minha constante incapacidade de abrir as janelas me frustravam. Elas eram altas, com arcos no topo, quase janelas lancetas, só que mais largas; ficavam a cerca de um metro tanto do chão quanto do teto e eram divididas em duas metades que, em teoria, deveriam abrir para permitir a ventilação. Certa tarde, quando vi Heckling cruzando o quintal com Pepper, seu cachorro, decidi abordá-lo para falar sobre o problema.
“Aquela janela num abre”, ele me disse, dando de ombros e olhando para mim com indiferença, como se não pudesse acreditar que eu fosse tola o suficiente para achar que abriria.
“Mas é claro que abre, sr. Heckling”, respondi. “Tem dois fechos esperando para serem abertos. Mas nada faz com que girem, não importa o que eu tente. Talvez estejam precisando de um pouco de óleo.”
“O sr. Westerley selou aquela janela”, ele disse, mascando alguma coisa repugnante, o ruído asqueroso de mastigação fazia com que eu desejasse me afastar o máximo possível do sujeito. “Derramou betume derretido nas fechaduras, foi sim. Para que ninguém abrisse, nunca mais.”
Olhei para ele, sem saber se estava tentando me fazer de boba. “E por que ele faria uma coisa como essa?”, perguntei.
“Ele falava que era muita corrente de vento. Fez isso com metade das janelas da mansão. Pode conferir, se não acredita em mim. Não sai de graça manter um lugar desse tamanho aquecido, sabia? E dinheiro não dura pra sempre. Quem tem gosta de ter pra gastar, é sim.”
Suspirei. Parecia uma coisa absurda. Fiquei frustrada, porque o ar do meu quarto estava ficando viciado. Eu não gostava da ideia de deixar a porta aberta; preferia manter minha privacidade, não queria que as crianças achassem que tinham acesso livre ao aposento — sabia muito bem que crianças gostam de inspecionar os pertences alheios —, mas gostaria de ventilá-lo todos os dias. Eu andava com o sono inquieto e achava que o ar parado contribuía para o problema.
“Seu pagamento vem direitinho todas as semanas, sr. Heckling?”, perguntei, aproveitando a oportunidade para fazer indagações mais gerais, pois, toda vez que ele me via chegando perto, dava as costas e seguia na direção oposta. (Certa vez, ele chegou inclusive a montar em Winnie, a égua, e disparar para longe — um comportamento admirável!) Ele estreitou os olhos, mordeu o lábio e pensou no assunto antes de fazer que sim com a cabeça.
“Vem”, ele respondeu. “Está preocupada com isso, é?”
“De jeito nenhum”, eu disse, enrubescendo um pouco, mas mantendo meus olhos nos dele; não seria intimidada por aquele homem. “E o sr. Westerley deixa todos esses assuntos nas mãos do sr. Raisin, é isso?”
“Pelo que sei, sim.”
“O senhor acha que o veremos em breve?”
“O sr. Raisin?”, ele perguntou, dando de ombros. “Não tem nenhum motivo para isso. Se a senhorita quiser vê-lo, deveria…”
“O sr. Westerley”, corrigi, apesar de ter certeza de que ele sabia exatamente de quem eu estava falando. Por um instante, achei que o zelador iria sorrir — que coisa mais rara —, mas ficou óbvio o momento em que mudou de ideia. Baixou os olhos para Pepper, agora sentado na grama, sua cabeça indo de um lado para o outro conforme a conversa seguia. Ocorreu-me que o cachorro talvez fosse uma fonte melhor de informações do que o dono.
“Acho bem improvável”, ele respondeu, enfim. “Tenho que ir, senhorita. Pepper precisa passear, senão fica agressivo.”
“Ele deve estar muito ocupado, se não pode nem voltar para ver os filhos”, comentei. “Quanto à sra. Westerley, bom, não consigo imaginar como consegue ficar longe deles. São uns tesouros.”
Nesse momento, ele regurgitou uma espécie de risada e saliva atingiu meu rosto, forçando-me a dar alguns passos para trás enquanto me limpava, enojada. Como era de esperar, o troglodita nem pensou em se desculpar.
“Tesouros”, ele disse, sacudindo a cabeça. “Acho que é um jeito de definir.” Ele riu outra vez; era evidente que tinha achado aquilo muito engraçado.
Fiquei observando conforme desceu a alameda, pegando um ou outro graveto e jogando para o cachorro buscar e trazer de volta. Fiz um pacto comigo mesma de que não daria as costas até ele sumir de vista; então, talvez consciente de que eu o observava, ele parou a certa distância e se virou, os olhos fixos em mim, e encaramos um ao outro, dois funcionários daquela casa, esperando para ver quem cederia primeiro. Ele estava longe demais para que eu pudesse ler a expressão em seu rosto, mas quando pegou outro graveto, dessa vez um maior, e o segurou agressivamente nas mãos, o cachorro pulando à volta, ansioso, senti um calafrio percorrer meu corpo e, desviando o rosto, me amaldiçoei por minha incapacidade de vencer aquele ignorante com meu olhar.