A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 11 de 26

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A casa assombrada

Capítulo 11

 

Aos domingos, eu e as crianças frequentávamos a missa na igreja do povoado e, durante aquelas primeiras semanas, eu me senti como um animal em exibição no zoológico sempre que entrávamos e caminhávamos pela nave até o banco da família, na primeira fila. Todas as cabeças se viravam com aquela terrível sutileza de quem não quer deixar óbvio que está olhando, mas seus olhos me trespassavam mesmo assim. No começo, acreditei ser por que as crianças estavam sempre bem-arrumadas, mas aos poucos passei a suspeitar que eu era o foco de interesse, e foi uma sensação sem precedentes, pois eu não estava acostumada a chamar atenção.

Em paz e protegida pelas paredes da igreja, meu ânimo com frequência melhorava graças ao coral quase invisível no balcão atrás de nós. Descobri que esperava com ansiedade pelas manhãs de domingo e pela serenidade que a missa oferecia. O reverendo Deacons pregava sempre com muita sensibilidade e, ao contrário de alguns sermões que eu tinha ouvido em Londres, suas palavras não soavam como se tivessem sido regurgitadas infinitas vezes para outros frequentadores. Afinal, ele era um homem jovem e tinha muito entusiasmo pela vocação. Quando falava sobre bondade e amor pelo próximo, meus pensamentos quase sempre divagavam até papai; às vezes, era difícil lidar com as emoções. Eu tinha me adaptado bem a Norfolk, ou pelo menos era o que pensava, mas minha partida brusca de Londres, tão cedo após sua repentina morte, me deixara emocionalmente frágil e, agora que as coisas estavam mais calmas, percebi que minha mente voltava para ele mais vezes, sempre que eu estava sozinha ou na igreja. A saudade era terrível, era essa a verdade. Eu sentia falta das nossas conversas, sentia falta até dos livros de insetos, e me arrependi de não ter guardado um deles, em vez de oferecer todos ao sr. Heston, do Museu Britânico. “Cuidarei de você para sempre”, ele tinha me dito quando voltei da Cornualha. “Manterei você a salvo.” Agora que ele tinha partido, quem cuidaria de mim? Quem me protegeria? Quem me manteria a salvo, se eu corresse perigo?

Depois de um sermão especialmente tocante, quando estava à beira das lágrimas por relembrar como tínhamos sido felizes juntos, eu disse às crianças que queria ficar um pouco mais para algumas últimas orações pessoais e combinamos de nos reencontrar dali a poucos minutos, na bomba de água do vilarejo, de onde saía a estrada que levava a Gaudlin Hall. O restante da congregação foi embora, como de costume; eu me ajoelhei com urgência, meu rosto nas mãos, e rezei ao Senhor, pedindo descanso eterno para a alma de papai; roguei para que ele ainda estivesse olhando por mim e me protegendo. Quando levantei a cabeça outra vez, descobri que tinha chorado e, para meu constrangimento, o reverendo Deacons me encarava enquanto arrumava objetos no altar. Sentei no banco e ele se aproximou de mim e arriscou um sorriso.

“Você está bem?”, perguntou.

“Sim, obrigada”, respondi, um pouco vermelha. “Desculpe, não era minha intenção fazer papel de boba.”

Ele sacudiu a cabeça e chegou mais perto, sentando-se no banco diante de mim e virando o tronco para me ver frente a frente. Tinha um rosto afetuoso; gostei dele por isso. “Não há nada para se desculpar”, ele disse, dando de ombros. “Srta. Caine, não é?”

“Sim, isso mesmo.”

“A nova governanta na mansão?” Concordei outra vez e ele virou um pouco o rosto, sua expressão se tornando mais preocupada. “Creio que devo lhe pedir perdão.”

Levantei uma sobrancelha, sem entender o que quis dizer com isso. “Por quê?”, perguntei.

“A senhorita está aqui faz algumas semanas. Já a vi no vilarejo e aqui, na missa, mas não fui visitá-la. Para me apresentar. Espero que não tenha uma má impressão de mim por causa disso.”

“De jeito nenhum”, respondi, sacudindo a cabeça — na verdade, eu não tinha nem cogitado que ele faria o esforço de me visitar. Afinal, quem era eu? Nada além de uma criada. Uma governanta. Não era a senhora de Gaudlin Hall, mesmo que fosse a única mulher na mansão. “Imagino que o senhor seja um homem muito ocupado.”

“Sim, eu sou”, ele disse, concordando devagar com a cabeça. “Mas isso não é justificativa. Devia ter arrumado tempo. Pensei comigo mesmo que precisava conversar com você, mas…” Ele estremeceu de leve e fiquei com a impressão de que alguma coisa naquele lugar o incomodava. “Bom, peço perdão, em todo caso”, continuou depois de uma pausa, sacudindo a cabeça para se livrar de qualquer pensamento que tivesse sobrado; “Como estão as coisas?”

“Bem”, respondi. “As crianças são encantadoras.”

“São singulares, de fato”, disse o reverendo Deacons, pensando no assunto. “Têm um coração bondoso, é claro, mas eles já sofreram muito. Isabella é uma menina de inteligência extraordinária. Imagino que algum dia se torne esposa de um homem brilhante. E o futuro de Eustace também é promissor.”

Franzi o cenho, reparando em apenas uma palavra do que ele tinha dito. “Sofreram?”, perguntei. “Como?”

Ele hesitou. “Todos sofremos, não é, srta. Caine? A vida é feita de sofrimento, até o grande dia do Juízo Final, quando a paz e a equanimidade serão restauradas para aqueles que forem puros de corpo e espírito.”

Levantei a sobrancelha. Eu mal conhecia o reverendo Deacons, claro, mas achei que aquele comentário de alguma maneira não combinava com ele. “Quando o senhor disse que eles sofreram”, insisti, “parecia se referir a algo específico. Pode me explicar o que quis dizer?”

“Eles passaram por mudanças drásticas na vida”, o reverendo Deacons respondeu, baixando os olhos e examinando a capa de seu livro de orações; reparei nas letras AD gravadas nela. “Quer dizer, nos últimos doze meses, você é… deixe-me ver… a sexta governanta em Gaudlin Hall.”

Eu o encarei, chocada. Era uma informação nova para mim, obviamente. “Sexta?”, perguntei. “O senhor deve estar enganado. Sou a segunda. A srta. Bennet era a governanta antes de mim. Ela decerto esteve aqui durante um bom tempo, não?”

“Ah, não, não”, disse o reverendo. “A srta. Bennet ficou aqui apenas um mês. Se tanto.”

“Um mês?”, perguntei. “Mas não consigo entender. Por que foi embora tão rápido? E, se o senhor estiver certo, e as outras quatro? Não podem ter ficado muito mais tempo do que isso, se sou a sexta governanta em doze meses.”

O vigário aparentou desconforto, como se lamentasse ter começado aquela conversa. Ele parecia desejar a segurança de seus aposentos eclesiásticos para esperar pelos prazeres do almoço dominical e de uma caminhada vespertina com seu cachorrinho. “O sr. Raisin”, ele disse. “Ele é quem deveria discutir esses assuntos com você. É o responsável pela propriedade, afinal.”

O sr. Raisin! Aquele homem de novo! Para meu constrangimento, enrubesci ao ouvir seu nome. Ele tinha passado pela minha cabeça mais de uma vez nos últimos dias.

“Tentei conversar com ele”, respondi, irritada com minha própria tolice, uma nota de desgosto evidente em meu tom de voz. “Aliás, várias vezes. Mas é um homem difícil de contatar. O assistente dele, o sr. Cratchett, mantém controle total de sua agenda. Imagino que seja mais fácil entrar no Reino dos Céus do que no escritório do sr. Raisin.”

O reverendo Deacons levantou uma sobrancelha e desviei o rosto, perguntando-me se aquela observação tinha sido um sacrilégio. “Desculpe”, acrescentei, depois de um momento. “Mas é muito frustrante. Não consigo respostas em lugar nenhum. Às vezes, sinto-me muito solitária.”

“A senhorita deveria ser mais insistente”, ele respondeu, em tom gentil. “Não deixe que Cratchett diga o que pode ou não fazer, quem pode ou não pode encontrar. Tem o direito de saber, afinal”, ele continuou, a voz mais contundente, provocando-me calafrios. “Uma mulher na sua situação. Por Deus, você é quase uma menina. Tem o direito de saber!”

Várias dúvidas surgiram na minha cabeça, mas hesitei, tentando escolher a pergunta certa. Eu suspeitava que, se pressionasse demais o reverendo Deacons, ele se fecharia por completo e repetiria que eu devia falar com o sr. Raisin — mas também sentia que havia coisas que ele me contaria, coisas que ele queria me contar, se ao menos eu conseguisse encontrar o jeito certo de perguntar.

“O senhor disse que sou a sexta governanta em um ano”, repeti, baixinho, tentando eliminar qualquer sugestão de insistência na minha voz. “Os pais das crianças partiram faz tanto tempo assim?”

“Sim”, ele respondeu. “Faz pouco mais de um ano, na verdade.”

Franzi o cenho. Que tipo de pais abandonariam os filhos por um período tão extenso? Sim, claro, eles tinham dinheiro, e viajar era muito mais fácil que no passado. Ora, eles podiam pegar um navio de Southampton para a França e estar em Roma dentro de poucas semanas, se quisessem e não perdessem tempo no caminho. Era assim que viviam as classes abastadas, não era? Pelo menos, era o que eu achava, baseada nas minhas leituras. Partiam em grandes viagens pela Europa. Alugavam casas de campo na Itália e mansões na Mesopotâmia. Faziam cruzeiros pelo Nilo e passavam tardes bebericando coquetéis no Bósforo. Não eram como eu, condenada a uma existência vivida em um único lugar, sem nenhuma possibilidade de mudança. Mas abandonar os filhos com tão pouca idade? Eustace fez oito anos e eles não estavam. Era ultrajante. Considerarem-se de classe alta era uma fraude, se davam tão pouca importância a seus pequenos. Eram como animais que devoravam os filhotes.

“E as outras quatro governantas”, continuei. “Elas fizeram como a srta. Bennet? Trabalharam por um período curto e então publicaram um anúncio pedindo uma substituta? Os cavalheiros do Morning Post esperam pela chegada do meu anúncio a qualquer momento?”

O reverendo Deacons franziu as sobrancelhas e pareceu tomado por uma angústia profunda. “Apenas a srta. Bennet fez o anúncio ela mesma”, ele explicou. “O sr. Raisin publicou os outros.”

“Bom, já é um começo. Mas essas outras quatro… Por que foram embora? Não gostaram da casa? Como seria possível, se é tão bonita? Não se apegaram às crianças? Não posso acreditar, pois são tão…” Busquei a palavra certa. Amáveis não eram, com certeza. Acolhedoras? Também não. Companhias prazerosas? Não exatamente. No fim, usei a palavra que ele mesmo tinha usado para descrevê-las: “Inteligentes”, eu disse. “E interessantes.”

“Não teve nenhuma relação com a casa nem com as crianças”, ele respondeu, as palavras agora surgindo com afobação, e pude perceber que eu o estava colocando sob muito estresse — mas não tinha a menor intenção de parar.

“Então, o quê? Por que foram embora?”

“Elas não foram embora!”, ele respondeu, levantando a voz, quase gritando comigo, e o som ressoou pela igreja, ricocheteando pelas paredes maciças de pedra e ecoando na câmara. “Elas morreram.”

Eu o encarei. Fiquei aliviada por estar sentada, pois senti um pouco de tontura com aquelas palavras. “Morreram?”, repeti, enfim, minha voz saindo quase como um sussurro. “Todas? Como?”

“Não, não todas”, ele respondeu, dando as costas para mim, desesperado para sair dali. “A primeira, a srta. Tomlin, morreu. Em circunstâncias terríveis. E as outras três, a srta. Golding, a srta. Williams e a srta. Harkness. Elas todas morreram também. Mas a srta. Bennet, sua antecessora, sobreviveu. Houve aquele incidente pavoroso, claro, que provocou sua partida, mas ela sobreviveu.”

“Que incidente?”, perguntei, inclinando-me para a frente. “Por favor, não sei nada sobre essas coisas. Imploro que me conte.”

Ele se levantou e fez que não com a cabeça. “Já falei demais”, ele respondeu. “Existem certas coisas que… Existem confidencialidades, srta. Caine. Pode entender? Pedi que conversasse com o sr. Raisin sobre essas questões, e agora rogo para que faça isso. Se tem perguntas, faça-as para ele. Se tem preocupações, peça que ele tome providências. Se tem problemas espirituais, então, sim, venha falar comigo, mas não no que diz respeito aos acontecimentos dos últimos doze meses em Gaudlin Hall. Enterrei muitas de suas antecessoras e não tenho a menor vontade de enterrar mais uma. Agora, peço desculpas, receio ter me comportado de maneira inadequada e a deixado com mais perguntas do que respostas, mas preciso ir.”

Concordei com a cabeça; era evidente que ele não me contaria mais nada. Levantei-me, cumprimentei-o e segui pela nave na direção do dia ensolarado. Quando passei pela porta, olhei para trás e vi o reverendo Deacons indo até o primeiro banco e se sentando com pesar, o rosto enterrado nas mãos. Observei por um instante e saí.

Na rua, olhei em volta em busca das crianças, que não estavam à vista. Mas vi o dr. Toxley e a esposa — o casal que tinha me resgatado na minha primeira noite em Norfolk, quando quase me joguei sob o trem que se aproximava.

“Srta. Caine”, disse a sra. Toxley, contente por me ver. “Como está?”

“Muito bem, obrigada”, respondi. “Que bom que encontrei vocês. Faz tempo que gostaria de convidá-la para um chá da tarde na mansão. Quarta-feira, talvez?”

Eu não tinha pensado naquilo antes, claro; a ideia me ocorreu somente naquele momento. Mas não tinha nenhuma companhia, nenhum amigo. E a sra. Toxley era apenas alguns anos mais velha do que eu. Por que não convidá-la para um chá? Sim, eu era apenas uma governanta e ela, a esposa de um médico, mas e daí? O sorriso dela diminuiu um pouco e percebi o desconforto do marido, que ajeitou a postura.

“Ora, é claro”, a sra. Toxley respondeu, gaguejando de leve, talvez surpresa pela espontaneidade absurda do convite. “Mas por que não nos encontramos na casa de chá da sra. Sutcliffe, aqui no vilarejo? Não seria mais conveniente para você?”

“Adoraria que você viesse até Gaudlin Hall”, eu disse.

“Ela faz tortas deliciosas. Acho que você gostaria de…”

“Por favor”, insisti, estendendo a mão e tocando seu cotovelo, um gesto incomum para mim; eu não era uma mulher tátil. “Por favor, venha a Gaudlin Hall. Que tal na quarta-feira, às três?”

Ela olhou para o marido, que parecia muito angustiado; então pareceu ter sido tomada por um senso de independência, pois concordou com a cabeça, sem dizer nenhuma palavra. Sorri. “Obrigada”, eu disse. “Então nos vemos em breve. Agora, por favor, não me considerem mal-educada, mas acabo de ver o sr. Cratchett saindo do pub e preciso ter uma palavra com ele.”

Os Toxley observaram, estupefatos, eu me afastar com a mesma postura de urgência com a qual tinha me aproximado e andar na direção do assistente do sr. Raisin, que, ao me ver, levantou uma sobrancelha, deu meia-volta e seguiu na direção oposta.

“Sr. Cratchett?”, chamei, mas ele me ignorou. Por isso, chamei mais alto — “Sr. Cratchett! Por favor!” —, em um volume que não lhe deu alternativa além de se virar, assim como fizeram vários outros moradores que passavam por ali e olharam para mim como se fosse um mau elemento.

“Ah, srta. Caine”, ele disse. “Que prazer vê-la.”

“Vamos direto ao assunto, sr. Cratchett”, respondi. “Quero avisá-lo que passarei no escritório para uma reunião com o sr. Raisin na manhã de terça-feira, às onze. Vou precisar de uma hora e prefiro que não nos interrompam durante esse período. Espero que ele esteja livre neste horário, mas é bom que vocês dois saibam que, se não for o caso, estou disposta a ficar na sala de espera até que ele me receba. Levarei um livro para passar o tempo. Levarei dois livros, se precisar. Levarei a obra completa de Shakespeare, se ele insistir em me manter esperando para sempre, e as peças ajudarão a passar o tempo. Mas não vou embora até que tenha conversado com ele, estamos entendidos? Tenha um bom domingo, sr. Cratchett. Aproveite para almoçar. Está fedendo a uísque.”

Com isso, dei meia-volta e me afastei, sem dúvida o deixando completamente chocado no meio da rua e irritado com a minha audácia — mas fiquei muito satisfeita comigo mesma por ter feito todo aquele discurso improvisado sem tropeçar em nenhuma palavra. Terça-feira, onze horas. Agora havia um horário marcado e eu conseguiria respostas. Olhei para a frente, quase rindo pela força da minha determinação, e fiquei contente quando vi Isabella e Eustace perto da bomba de água, conforme eu tinha mandado, brincando com gravetos e uma bola.

“Venham, crianças”, eu disse, passando por eles a passos largos, sentindo-me uma nova mulher. “Não vamos perder tempo. O almoço não se prepara sozinho.”