A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 23 de 26

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A casa assombrada

Capítulo 23

 

 

O quarto estava em silêncio, exceto pelo som da respiração sofrida de James Westerley. Coloquei o ouvido na porta e fiquei assim por um instante, obrigando-me a não chorar, esperando que meu próprio fôlego se recuperasse. Então, reunindo toda a minha coragem, virei-me para ver o corpo sobre a cama.

Era uma imagem digna de pena. Uma horrenda carcaça de ser humano. Seus braços estavam sobre os lençóis, mas as mãos eram massas disformes, com vários dedos faltando, outros resumidos a tocos presos à carne. Seu rosto era uma desordem. Quase todo careca, o crânio deformado, uma contusão que nunca diminuiria puxando o lado esquerdo da cabeça em um ângulo esquisito, no qual eu não conseguia focar a vista direito. Um dos olhos estava faltando e tinha sido substituído por um buraco avermelhado e preto. Do outro lado, o olho direito estava surpreendentemente intacto, a pupila azul brilhante fixa em mim, em alerta total, a pálpebra e os cílios eram as únicas partes que ainda pareciam humanas. O nariz tinha sido quebrado em vários pontos. Seus dentes não existiam mais. Os lábios e o queixo se fundiam; era impossível saber onde o vermelho natural da boca encontrava o escarlate dos ferimentos. Parte da mandíbula não estava mais lá, e pude ver cartilagem e osso. Ainda assim, apesar daquele horror, não senti nada além de empatia por ele. O ato de maior crueldade de sua esposa tinha sido permitir que sobrevivesse daquele jeito.

Um grito medonho surgiu de sua boca e cobri a minha com as mãos, odiando ouvir a expressão de uma dor como aquela. Ele gemeu outra vez, como o som derradeiro de um animal moribundo, e desconfiei que tentava dizer alguma coisa. As palavras vinham, mas suas cordas vocais tinham sido afetadas a tal ponto que os sons eram quase impossíveis de decifrar.

“Sinto muito”, eu disse, indo em sua direção, segurando sua mão entre as minhas. Não me importei com a aparência ou com a sensação tátil; aquele homem precisava sentir o toque de outro ser humano. “Sinto muito, James.” Apesar da diferença hierárquica, usei seu primeiro nome; pelo menos naquele quarto, senti que éramos iguais.

Seu gemido pareceu mais definido agora e pude perceber que ele se esforçava com todas as células do corpo para se fazer entender. Sua cabeça levantou um pouco do travesseiro e o som veio outra vez. Reclinei-me sobre o rosto dele, tentando escutar.

“Mate-me”, ele disse, com um esforço colossal, o empenho fazendo com que salivasse e espumasse pela boca. Engasgou e lutou para tomar fôlego. Eu me afastei, sacudindo a cabeça.

“Não posso”, respondi, horrorizada com o pedido. “Não consigo.”

Um filete de sangue surgiu de sua boca e escorreu pela bochecha; observei, petrificada, sem saber o que fazer. Ele levantou a mão e, com muita dificuldade, fez um gesto para eu me aproximar.

“Único jeito”, ele balbuciou. “Quebre o elo.” Foi então que entendi. Ele a tinha trazido para Gaudlin Hall. Ele tinha se casado com ela, dado filhos a ela. E ela tentou matá-lo, mas, de alguma maneira, ele sobreviveu. Estava tão próximo de um cadáver quanto possível, mas ainda respirava. E, assim, ela continuava a existir com ele. Podiam viver, os dois — ou podiam morrer, os dois.

Gritei, erguendo as mãos para o céu, desesperada. Por que tinha sido incumbida de fazer aquilo? O que tinha feito para merecer aquele destino? Mesmo assim, apesar de todas as minhas ressalvas, comecei a olhar em volta, em busca de algo no quarto que pudesse pôr um fim ao sofrimento daquele homem. Se eu ia me tornar uma assassina, que fosse rápido e terminasse logo. Ordenei a mim mesma que não pensasse no assunto. Era uma atitude monstruosa, um crime contra Deus e contra a própria natureza, mas eu não poderia pensar a respeito, senão me persuadiria a mudar de ideia. Eu tinha que agir.

Em uma cadeira num canto do quarto — a cadeira na qual eu imaginava que a sra. Livermore se sentava enquanto cuidava dele — havia uma almofada. Uma almofada macia, para apoiar as costas, que permitia que ela descansasse por alguns minutos. Oferecia-lhe conforto; que oferecesse conforto também a James Westerley. Fui até a cadeira, peguei a almofada e me virei para ele outra vez, segurando-a firme com as duas mãos.

Seu único olho bom se fechou e pude ver o grande alívio que percorreu seu corpo naquele momento. O fim estava próximo. Seria libertado daquela morte em vida. Eu seria, ao mesmo tempo, sua assassina e sua salvadora. Em pé ao lado dele, ergui a almofada, preparando-me para colocá-la sobre seu rosto, mas, assim que meus braços começaram a descer, a porta foi escancarada e arrancada das dobradiças e uma força maior do que tudo o que eu já tinha sentido entrou no quarto.

Foi como se estivesse no olho do furacão. Cada partícula de pó, cada item que não estivesse fixo no chão se ergueu e começou a girar ao meu redor. Até mesmo a cama do sr. Westerley foi levantada e sacudiu conforme um grito — como o rugido tenebroso de mil almas condenadas — preencheu o quarto. Perdi o equilíbrio quando a parede atrás de mim desmoronou, as pedras arrancadas voando para a noite lá fora. Em instantes, o aposento no topo de Gaudlin Hall estava exposto por completo às intempéries. Pude ver o pátio lá embaixo; meus pés oscilaram na beirada quando uma mão me segurou — ah, aquela mão que eu conhecia tão bem, a mesma mão que tinha segurado a minha ao longo da infância, a que me levou e buscou na escola tantas vezes — e me puxou para a segurança, arrastando-me para o outro lado do quarto, onde estava a segunda porta, a que a sra. Livermore usava para entrar e sair de Gaudlin Hall. Abri com pressa e corri escada abaixo.

Os degraus pareciam eternos. Mal pude acreditar que havia tantos deles, mas, de alguma maneira, consegui descer e descer até emergir na escuridão da noite, fora da casa. Eu estava no chão outra vez, quase sem conseguir acreditar que ainda vivia. Corri para o estábulo de Heckling, mas ele tinha saído, claro; àquela altura, já teria chegado à casa do sr. Raisin e entregado minha carta, e estaria no caminho de volta para cá, a égua trotando pela estrada, o homem grunhindo consigo mesmo, irritado com minha urgência noturna. Abri a porta do chalé, mas então mudei de ideia. De que adiantava entrar, afinal? O que eu pretendia fazer, esconder-me? Não levaria a nada. Não estaria em segurança ali.

Dei meia-volta e corri para o pátio — então fui erguida no ar. Fiquei suspensa por um instante antes de ser jogada de uma altura de cerca de três metros contra o chão. Gritei, meu corpo explodindo de dor, mas, antes que pudesse me levantar, a presença me agarrou, ergueu-me de novo e me jogou. Dessa vez, minha cabeça bateu contra as pedras. Senti minha testa molhada e pus a mão, que ficou vermelha sob a luz da lua. Eu não conseguiria sobreviver a muito mais daquilo. Olhei para a mansão e fiquei espantada ao ver as paredes do terceiro andar começarem a cair. Parte do telhado tinha desmoronado e pedras choviam à volta do quarto onde estive. Pude ver meu próprio quarto, a janela arrancada do lugar. Vislumbrei a cama do sr. Westerley perto da beirada do precipício lá em cima, enquanto mais e mais pedras se soltavam da construção, deslocando várias outras, um efeito dominó que, com o tempo, traria a casa inteira para o chão.

As crianças, pensei.

Fui erguida de novo e preparei meu corpo para o inevitável impacto contra o cascalho, mas, dessa vez, antes que eu subisse muito, fui libertada do domínio da presença e largada no chão, sem muita dor. Ouvi Santina gritar e meu pai rugir. O confronto os afastou de mim e os levou para perto da casa, e, conforme me esforcei para levantar, ouvi o som de cascos de cavalo e a aproximação de uma charrete. Virei-me e vi Heckling e sua égua subindo pela alameda, a charrete ocupada não por uma pessoa, como eu esperava, mas por quatro — sentado ao lado de Heckling estava o sr. Raisin em pessoa, além de Madge e Alex Toxley.

“Socorro!”, berrei, correndo na direção deles, ignorando a dor que queimava meu corpo. “Ajudem, por favor!”

“Querida!”, exclamou Madge, descendo primeiro e correndo até mim, a expressão em seu rosto deixando evidente quão sangrento e escoriado estava meu rosto. Se eu era uma mulher pouco atraente antes, pensei, isso nem se comparava com minha aparência agora. “Eliza!”, ela gritou. “Ah, meu Deus, o que aconteceu?”

Cambaleei em sua direção, mas caí nos braços do sr. Raisin, que tinha descido da charrete e corrido até mim.

“Eliza”, ele exclamou, segurando minha cabeça contra seu peito e, mesmo com toda a dor e angústia, senti contentamento por ser abraçada daquela maneira. “Minha pobre menina. De novo, não! De novo, não!”, ele gritou de repente e me dei conta de que a imagem terrível que ele estava vendo o lembrava da noite medonha quando chegou a Gaudlin Hall e encontrou o cadáver da srta. Tomlin e o corpo destroçado de seu amigo, James Westerley.

“Vejam!”, apontou Madge, apontando para a mansão, e nos viramos para ver mais pedras se soltando da construção; um dos lados da estrutura começava a ruir conforme as janelas do térreo eram destruídas pela força de dois espíritos chocando-se contra elas em uma luta por supremacia. “A casa!”, ela berrou. “Vai desmoronar!”

Um som desumano subiu pela minha garganta quando pensei que Isabella e Eustace ainda estavam lá dentro. Desvencilhei-me do abraço do sr. Raisin e disparei para a porta da frente enquanto ele me chamava, implorando que eu voltasse. Meu corpo todo doía; eu tinha medo de pensar nos ferimentos que tinha sofrido, mas busquei forças em todas as partes do meu próprio espírito para subir aquela escada e correr até os quartos das crianças no primeiro andar.

O quarto de Isabella era o primeiro, mas ela não estava em lugar nenhum, então corri para o de Eustace, torcendo para encontrar os dois juntos. Mas não, ele estava sozinho, sentado na cama, uma expressão aterrorizada no rosto, lágrimas descendo pelas bochechas.

“O que está acontecendo?”, ele me perguntou. “Por que ela não vai embora?”

Eu não tinha uma resposta para ele. Em vez disso, peguei-o no colo, segurei-o com firmeza contra meu corpo e desci a escada, correndo até o jardim. Alex Toxley o tirou dos meus braços e o deitou na grama para examiná-lo. Sua esposa, Heckling e o sr. Raisin observavam a guerra que acontecia lá em cima, dois corpos inexistentes lutando entre si, chocando-se contra as paredes de Gaudlin Hall, derrubando janelas, arrancando as pedras das fundações conforme buscavam a vitória.

“O que é isso?”, berrou o sr. Raisin. “O que pode ser?”

“Preciso voltar”, eu disse a Madge. “Isabella ainda está em algum lugar lá dentro.”

“Ela está lá”, interveio Heckling, apontando para cima, e todas as cabeças se voltaram para o topo da casa, logo abaixo do telhado, onde o quarto do sr. Westerley estava visível. Perdi o fôlego. As pedras agora caíam mais rápido; o quarto começava a se desfazer. Não demoraria muito para cair. E ali estava Isabella, ao lado da cama do pai, virando-se para olhar para nós por um momento antes de subir na cama, deitar-se com ele e abraçá-lo. No instante seguinte as paredes e pavimentos cederam por completo e o lado esquerdo da casa ruiu. Tudo o que podíamos ver — o quarto do sr. Westerley, meu quarto logo abaixo, o próprio sr. Westerley, Isabella — despencou em uma torrente de pedras, móveis e fumaça, implodindo com tanta violência e velocidade tão medonha que eu soube, na mesma hora, que ele tinha, enfim, conseguido morrer, e que Isabella, que estava sob minha responsabilidade, cujo bem-estar tinha sido atribuído a mim, também tinha partido.

Não tive mais do que um instante para considerar isso, pois, logo depois da ruína, uma luz branca repentina, mais clara do que qualquer coisa que eu já tinha visto, surgiu das paredes à nossa frente. Numa fração de segundo, num tempo menor do que um piscar de olhos, vi meu pai e Santina Westerley entrelaçados em um combate derradeiro, e então, com a mesma rapidez, o corpo dela se desintegrou e explodiu em milhões de fragmentos de luz que nos cegaram. Desviamos o rosto, ofegantes. Quando olhamos outra vez, tudo era silêncio. A casa estava parcialmente destruída e a fúria do andar térreo tinha desaparecido por completo.

Santina Westerley partira. Eu tinha certeza. Todo o medo se fora. Seu marido tinha sido libertado do sofrimento, e ela também fora levada; para onde tinha ido era uma pergunta que nenhum homem poderia responder.

Olhei para Heckling e para o sr. Raisin, para os Toxley e para meu querido Eustace. Eles olharam para mim, estupefatos, sem saber o que dizer ou como explicar o que tinha acabado de acontecer. E, enfim, senti uma dor implacável no meu corpo, todas as feridas e o sangue se materializando, e me afastei deles, cambaleando para o gramado, sobre o qual desmoronei e fiquei deitada, sem palavras ou lágrimas, disposta a entregar minha vida ao próximo mundo.

Deitada ali, as vozes dos meus amigos desapareceram e meus olhos começaram a se fechar. Então senti um corpo me abraçar — aqueles braços fortes e confiáveis que conheci minha vida toda e em nome dos quais passara o último mês em luto. Senti aqueles braços envolvendo meu corpo e fui cercada pelo cheiro de canela quando a cabeça do meu pai encostou-se à minha e sua boca encontrou minha bochecha, pressionando os lábios contra ela por bastante tempo, seus braços apertando meu corpo para me dizer que ele me amava, que eu era forte, que sobreviveria a tudo aquilo e muito mais, e relaxei naquele que era o abraço mais carinhoso do mundo, sabendo que nunca mais o sentiria. Lentamente, ele foi ficando mais fraco, seus braços começaram a afrouxar, seus lábios se afastaram de mim e o calor do seu corpo cedeu espaço para o frio da noite conforme me deixou para sempre e partiu, enfim, para o conforto daquele lugar de onde ninguém pode voltar.