A casa assombrada
Capítulo 18
Passei a fazer longas caminhadas pelo jardim da mansão durante as tardes. Minha rotina diária tinha se resumido a aulas matinais com as crianças, seguidas de um almoço simples logo depois do meio-dia, momento em que Isabella e Eustace conversavam sobre o assunto mais recente que chamava sua atenção enquanto eu ficava quieta, tensa, com a certeza de que qualquer som ou movimento na casa resultaria em algum trauma inesperado para mim. Tinha dificuldade de dormir e a exaustão transparecia no meu rosto, que tinha se tornado pálido e cansado. Olheiras profundas e escuras circundavam meus olhos e eu mal conseguia mantê-los abertos nos fins de tarde. Ainda assim, de noite, por mais exaurida que estivesse, não dormia mais do que poucas horas inquietas, pois não tinha a menor dúvida de que a presença voltaria para me machucar. Depois do almoço, permitia que as crianças brincassem do que quisessem antes de terminarmos a lição mais tarde. Durante essas horas livres, pegava meu casaco e meu xale e ia para o bosque da mansão Gaudlin. O ar fresco revigorava meu humor deplorável e a mata fechada oferecia algo próximo à segurança.
Fazia bem para minha alma caminhar sem compromisso, permitir que a casa desaparecesse entre a folhagem. Quando entrava nas clareiras além do bosque e seguia para o lago que ficava quase no limite da propriedade, conseguia me imaginar em Londres outra vez, passeando pelas margens do Serpentine no Hyde Park, sem nenhuma preocupação além de o que cozinhar para papai no jantar aquela noite ou quais exercícios fazer com as pequeninas no dia seguinte.
A verdade era que, por mais que tivesse me apegado a Isabella e Eustace, sentia saudades do que tinha deixado para trás. Minhas meninas sempre foram uma parte importante da minha vida. Gostava de ver seus rostinhos pela manhã, mesmo os das que causavam mais problemas. Orgulhava-me das minhas aulas e me dedicava para garantir que cada uma sentisse ter seu próprio lugar na sala e que não seria incomodada pelas outras. Acho que elas também gostavam de mim.
Havia uma menina que vinha à minha cabeça com frequência cada vez maior quando eu caminhava pela área externa de Gaudlin Hall. Uma garotinha chamada Clara Sharpe, que tinha cinco anos quando entrou na minha sala. Era uma criança esperta e travessa, mas não malcriada; propensa a altos níveis de agitação pela manhã e longos períodos de mau humor à tarde. (Supunha que tal fato estivesse relacionado ao desjejum que ela comia antes de sair de casa e ao almoço que era oferecido antes das aulas da tarde; minha suspeita era de que tinham um impacto negativo em seu humor.)
Mesmo com seus defeitos, eu gostava bastante de Clara e me interessei por seu desenvolvimento, ainda mais depois que percebi seu imenso talento com matemática. Ao contrário da maioria das outras meninas — para elas, os números eram pouco mais do que uma série interminável de hieróglifos gregos —, Clara organizava e racionalizava tudo sem dificuldade; por mais nova que fosse, eu acreditava que, com o tempo, talvez quisesse seguir meus passos em uma carreira pedagógica. Isso me levou, inclusive, a conversar com a sra. Farnsworth várias vezes, e ela sugeriu que Clara poderia ter futuro como secretária de um gerente de banco. Lembro-me dessa conversa específica porque fiz um comentário que era para ter sido uma piada, sobre ela se tornar a própria gerente do banco algum dia, e a sra. Farnsworth tirou os óculos, olhou para mim estupefata e me acusou de ser revolucionária, o que neguei.
“Você não é uma dessas moças modernas, é, Eliza?”, ela perguntou, encarando-me do alto de sua postura ereta, causando o mesmo temor de quando eu era uma menina e ela, minha professora. “Não tolero moças assim na St. Elizabeth’s. Tampouco o conselho educacional.”
“Não, é claro que não”, respondi, com o rosto muito vermelho. “Estava apenas brincando, só isso.”
“Hum”, ela disse, não aparentando estar satisfeita. “Assim espero. Clara Sharpe, gerente de um banco. Que ideia.”
Ainda assim, apesar de não me considerar uma moça moderna de jeito nenhum, a intensidade com que tinha se ofendido me pareceu ser a verdadeira ofensa. Afinal, por que uma criança não deveria almejar coisas maiores? Por que todos nós não deveríamos?
Com a intensidade com que a sra. Farnsworth me repreendera, suspeitei que ela tinha desejado ligar para papai e discutir a questão com ele; talvez só não o tenha feito porque percebeu que havia, afinal, uma distinção importante entre as pequeninas e suas professoras, e que ela podia apelar para a autoridade parental para disciplinar as primeiras, mas controlar as segundas era de sua inteira responsabilidade.
Eu pensava em Clara porque ela tinha vivido uma situação bastante angustiante. Seu pai era alcoólatra e sua mãe tentava tudo o que podia para manter a casa, apesar da ninharia que seu marido recebia e que tinha que sustentar a esposa e a filha — o pouco dinheiro que o sujeito ganhava era provavelmente gasto mais em cerveja do que em comida e roupas. Houve mais de uma ocasião em que Clara chegou à sala de aula com o rosto machucado; desejei viver em uma sociedade civilizada que me permitisse fazer perguntas sobre quem tinha causado aquilo e por quê. Não que eu tivesse alguma dúvida sobre as respostas. Em dias como aquele, eu tentava não imaginar o estado da mãe de Clara, pois suspeitava que o pai maltratava a esposa tanto quanto a filha. Cogitei ir à polícia, mas é claro que teriam rido de mim e dito que o que um inglês fazia na privacidade do lar era da conta dele e de mais ninguém.
Mas o sujeito deve ter exagerado certa noite e atacou a sra. Sharpe quando a cólera da esposa estava no limite, pois ela pegou uma frigideira do fogão, deu meia-volta e o acertou com tanta força na cabeça que ele caiu no chão, morto. A desafortunada mulher, vítima silenciosa de agressões por tanto tempo, foi presa de imediato — pois, naturalmente, atacar um marido era crime, embora atacar uma esposa fosse privilégio marital. Porém, ao contrário de Santina Westerley, que era sem dúvida uma criatura desequilibrada, a sra. Sharpe não foi condenada à morte. O juiz, um tipo moderno — a sra. Farnsworth não teria gostado nada dele —, concluiu que ela merecia certa atenuação e determinou que sua sentença fosse prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional; sentença que eu, na mesma situação, teria gostado muito menos do que uma semana de ansiedade e alguns segundos de dor excruciante, seguidos por uma eternidade de paz, recompensa por tanto sofrimento. Clara, sem nenhum outro familiar para acolhê-la, acabou em um abrigo e, depois disso, perdi o contato com ela. Mas a menina voltou aos meus pensamentos em uma daquelas manhãs, quando eu refletia sobre o assassinato da srta. Tomlin por Santina Westerley e seu violento ataque contra o marido, que o deixara em condições tão terríveis. Tentei entender a mente das mulheres que cometeram tais atos. Afinal, a sra. Sharpe tinha sido espancada e abusada; Santina Westerley tinha recebido amor e a segurança de um lar, riqueza, posição social e uma família. Colocadas uma ao lado da outra, percebi que as motivações eram um grande mistério.
Foi pensando nisso que virei uma esquina da propriedade e me vi diante do chalé de Heckling, e encontrei aquele homem difícil do lado de fora, com uma pilha de troncos ao lado, os quais apoiava em um toco e cortava em dois com um machado. Quando me viu, ele baixou o machado e limpou a testa com um lenço, oferecendo um cumprimento com a cabeça enquanto o cachorro, Pepper, correu até mim e saltitou em torno dos meus pés.
“Governanta”, disse Heckling, lambendo os lábios de um jeito repulsivo.
“Sr. Heckling”, respondi, cumprimentando-o. “Não há paz para os ímpios, não é mesmo?”
“Sim, ora, se eu não faço, ninguém faz”, ele murmurou. Aquele homem era como um raio de sol em um dia umbroso.
Olhei o entorno e reparei na porta na lateral da mansão, quase oculta, através da qual a sra. Livermore fazia suas viagens para os aposentos do sr. Westerley. Eu não tinha conseguido enxergar até o dia que ela apontou para mim, mas, agora que eu a via, não entendia por que os responsáveis pela construção tinham feito tanta questão de mantê-la em segredo.
“Sempre trabalhou sozinho, sr. Heckling?”, perguntei, virando-me outra vez para ele, que levantou uma sobrancelha em resposta.
“Como assim?”, perguntou.
“Foi sempre apenas o senhor na propriedade? Consertando, cortando lenha, conduzindo a charrete, coisas assim? Imagino que, antigamente, havia muito mais coisas para fazer.”
“Sim, isso”, ele respondeu, aparentando relutância de contar muito sobre o passado. “Tinha outros, e eu mandava neles. Mas não precisamos mais agora, então eles foram dispensados. Fiquei porque a mansão precisa de pelo menos um zelador. E fui parido aqui, também.”
“O senhor nasceu aqui?”, perguntei, surpresa.
“Neste chalé”, ele disse, indicando o casebre com a cabeça. “É que meu pai foi o zelador antes de mim. E o dele também foi, antes dele. Mas sou o último.” Ele suspirou e desviou o rosto; pela primeira vez, pude ver que, sob toda aquela incivilidade, havia uma figura bastante solitária.
“Então, o senhor não tem filhos?”
Ele mascou alguma coisa na lateral da boca. “Não ainda vivo.”
“Sinto muito”, eu disse. Claro, todos nós tínhamos histórias.
“É.”
Ele se abaixou para segurar o cabo do machado e o apoiou no toco; em seguida, pôs a mão no bolso e pegou um cigarro de palha.
“Imagino que o senhor veja tudo por aqui, não, sr. Heckling?”, perguntei, depois de uma pausa.
“Como assim?”
“O senhor fica de olhos abertos?”
“Menos quando estou dormindo.”
“Já viu algum intruso?”
Ele estreitou os olhos e deu uma longa tragada no cigarro enquanto me olhava de cima a baixo. “Intruso?”, perguntou. “Por que pergunta uma coisa dessas, governanta? Alguém entrou aqui?”
Fiz que sim. “Eustace mencionou isso”, respondi. “Um homem idoso que viu no jardim. Os dois chegaram a conversar.”
“Não tem nenhum homem idoso por aqui” disse Heckling, sacudindo a cabeça. “Se tivesse, eu teria visto. Ou o Pepper aqui veria, o que seria pior para ele.”
“Talvez Eustace tenha se enganado”, respondi.
“Pode ser. Moleques inventam coisas. A senhorita deve saber disso tanto quanto qualquer um.”
“Eustace não mente”, respondi, surpresa comigo mesma por soar tão na defensiva.
“Então é o primeiro moleque da idade dele que não mente. Quando eu era moleque, mentir era como respirar. Meu pai sempre me batia por causa disso.”
“Sinto muito.”
A expressão de Heckling mudou para incompreensão. “Por quê?”, ele perguntou.
“Ora… Deve ter sido desagradável para o senhor.”
Ele deu de ombros. “Devo ter merecido”, disse. “Aquele menino talvez precise de uma surra, se estiver mentido sobre coisas que viu ou não viu.”
“Não vou bater em Eustace”, respondi, em tom firme.
“Bom, é função do pai, acho”, ele disse, desviando o rosto com um suspiro. “E o sr. Westerley não está muito em condições de fazer qualquer coisa pelo moleque, está?”
Eu não sabia se Heckling estava sendo ofensivo de propósito ou apenas comentando os fatos como eram — afinal, ele estava certo. Era função do pai disciplinar o filho, e era quase certo que o sr. Westerley nunca poderia fazê-lo outra vez. Sacudi a cabeça; aquilo não fazia a menor diferença, pois eu não acreditava que Eustace estivesse mentindo.
“Se o senhor encontrar tal cavalheiro”, eu disse, enfim, “esse senhor de idade ou qualquer desconhecido que não more aqui, talvez possa fazer a gentileza de me informar.”
“Ou atiro nele e pronto”, respondeu Heckling. “Por ser um intruso.”
“Bom, essa é outra opção, imagino”, eu disse, virando-me para ir embora.
Um barulho fez com que eu me virasse outra vez e, para meu espanto, vi ninguém menos do que o sr. Raisin, o advogado, saindo de trás do chalé de Heckling. Ele abriu um sorriso de satisfação antes de tossir e permitir que o rosto voltasse ao normal; em seguida, curvou-se para me cumprimentar com educação. “Srta. Caine”, disse. “Que prazer vê-la.”
“O senhor também, sr. Raisin”, respondi, enrubescendo de leve sem saber o motivo. “Que surpresa.”
“Sim, bom, eu tinha assuntos pendentes com Heckling. Se a senhorita me permite… Obrigado, Heckling”, ele acrescentou, meneando na direção do homem. “Creio que estamos resolvidos por hoje.”
“Certo”, disse Heckling, pegando o machado outra vez e dando um passo para trás. Ele esperou até partirmos para recomeçar a cortar lenha; eu e o sr. Raisin entendemos o recado e ficamos lado a lado para caminhar na direção da casa, diante da qual vi sua carruagem estacionada.
“Vim para conferir uns recibos”, ele explicou enquanto andávamos. “Heckling é um homem de confiança, honesto em tudo que faz. Porém, quando precisa de alguma coisa, não hesita nem um segundo antes de encomendar de uma das lojas do vilarejo e pedir que enviem a cobrança direto para mim. Não reprovo isso, claro; sei que nunca pediria nada para benefício próprio. Mas prefiro conferir os recibos de vez em quando, para que ambos estejamos a par dos gastos da propriedade.”
“Imagino que seja um trabalho complicado”, eu disse.
“Pode ser”, ele admitiu. “Mas Gaudlin Hall não é meu cliente mais inextricável. Conheço gente com menos posses e muito menos dinheiro que se envolve nos problemas mais complexos possíveis. Desatar estes nós requer habilidade de marinheiro. De qualquer forma, o sr. Cratchett cuida da maioria dos assuntos do dia a dia. Fico à disposição para qualquer coisa mais complicada. E não é nada se comparado com antigamente, claro. Decerto, quando meu pai era advogado do pai de James…”
“Por Deus”, comentei. “Neste condado é obrigatório seguir a profissão do pai e assumir sua função quando ele falecer? Agora mesmo Heckling me contou a mesma coisa sobre a família dele.”
“É a ordem natural das coisas, srta. Caine”, o sr. Raisin disse, soando um pouco ofendido, e me arrependi do tom em que tinha falado. “E a advocacia é uma profissão respeitável, sabia? Assim como a de zelador, se você nasceu nessa classe. Aliás, assim como a de governanta.”
“Claro, sr. Raisin”, respondi, pedindo desculpas. “Não quis sugerir o contrário.”
“Se me permite a pergunta, com que seu pai trabalhava?”, perguntou.
“Ele era do departamento de entomologia do Museu Britânico.”
“E foi uma carreira que ele seguiu a vida toda?”
“Bom, não”, admiti. “Quando tinha a minha idade, foi professor por um período. Em uma escola para meninos.”
“E antes de se juntar a nós aqui em Norfolk, o que fazia, mesmo?”
Sorri. Pela primeira vez em muito tempo, tive vontade de rir. “Eu era professora”, disse.
“Em uma escola para meninas, sem dúvida.”
“Sim, exato.”
“Pois, então, srta. Caine”, ele disse, parando na frente da carruagem e ajustando a postura, estufando o peito com uma expressão de puro contentamento no rosto, “parece que o que é bom para nós aqui no interior também é bom para quem vive na tão sofisticada capital.”
Olhei para ele, para aqueles olhos azuis luminosos, e sorrimos um para o outro. Nosso olhar se manteve e a expressão dele pareceu confusa. Seus lábios se abriram; ele me olhou como se quisesse dizer alguma coisa, mas não conseguia encontrar as palavras.
“Sim, sim”, respondi, enfim, disposta a lhe dar essa pequena vitória. “Uma repreensão justa, concordo. Mas, sr. Raisin, não vai nos deixar assim, tão rápido, não é?”
“Preferiria que eu ficasse?”
Não soube como responder tal pergunta. Por fim, ele suspirou e acariciou o cavalo. “Tirei metade do dia de folga, srta. Caine”, ele disse. “Depois de resolver a questão dos recibos com Heckling, planejava ficar em casa com uma taça de clarete e Oliver Twist, que estou lendo pela primeira vez desde a publicação em livro. É uma história maravilhosa. Posso emprestar os primeiros volumes, se estiver interessada.”
“É muito gentil da sua parte”, respondi.
“Não é uma questão de gentileza”, ele disse. “Imagino que, de vez em quando, deve ser um tanto… como posso dizer… tedioso aqui em Gaudlin Hall. Por causa da falta de companhia adulta. Um pouco de leitura pode ser um escape bem-vindo.”
Sorri e pensei que havia três outros adultos quase sempre na mansão: Heckling, a sra. Livermore e o sr. Westerley. Um deles não gostava de conversar comigo; outro não queria conversar comigo; e o último simplesmente não podia conversar comigo. Ainda assim, apesar de tudo isso, “tedioso” era a última palavra que usaria para descrever a vida naquele lugar.
“Talvez”, respondi. “Mas, sr. Raisin, antes que você vá embora, posso requisitar alguns minutos do seu tempo?”
Seu rosto demonstrou certa angústia; imaginei que ele sabia sobre qual assunto eu queria conversar e não se sentiu muito disposto. “Adoraria, srta. Caine. De verdade, gostaria muito. Mas o trabalho me chama.”
“Você disse que tem metade do dia de folga.”
“Ah, sim”, ele respondeu, franzindo as sobrancelhas. “Eu me referia a… quer dizer…”
“Sr. Raisin, não é por muito tempo, prometo. Apenas alguns minutos. Tenho algumas perguntas a fazer.”
Ele suspirou e fez que sim, talvez consciente de que não havia uma maneira apropriada de evitar aquilo. Indiquei um banco na frente do gramado; fomos até lá e nos sentamos. O sr. Raisin manteve uma distância segura de mim — Isabella e Eustace poderiam ter se sentado entre nós e, mesmo assim, nenhum de nós quatro encostaria no outro. Olhei para sua mão esquerda, pousada no colo. O anel dourado no quarto dedo. Ele acompanhou meu olhar, mas não se mexeu.
“Não vai me perguntar mais coisas sobre os Westerley, vai?”, ele indagou. “Já contei tudo o que sei sobre eles. Do primeiro encontro ao último.”
“Não, não é isso”, eu disse, sacudindo a cabeça. “Aliás, sr. Raisin, você foi muito generoso por ter passado tanto tempo comigo naquele dia. Percebi que é um assunto penoso para você. No fim da nossa conversa, ficou óbvio quão profundamente afetado foi pelos eventos.”
Ele meneou com a cabeça e fitou o gramado. “Foi uma época que nenhum dos envolvidos conseguirá esquecer”, admitiu. “Mas, antes que faça mais perguntas, srta. Caine, permite que eu faça uma?” Concordei com a cabeça, surpresa que ele tivesse interesse em qualquer assunto relacionado a mim. “Falou com a sra. Livermore depois da nossa conversa?”, ele perguntou. “Conheceu seu empregador, afinal?”
“Sim, eu o vi”, respondi.
Ele desviou o rosto e sua expressão foi tomada por uma mistura de resignação e tristeza. “Eu a teria aconselhado a não fazer isso. Ele não é uma boa imagem para pessoas mais delicadas.”
“Ainda bem que sou feita de material resistente, sr. Raisin.”
“Sei disso. Percebi no instante em que a conheci. Admiro muito esse aspecto da sua personalidade, srta. Caine. Ainda assim, espero que a experiência não tenha sido muito perturbadora.”
“Seria errado admitir minha crença de que aquele pobre homem preferiria ser libertado da própria dor?”
O sr. Raisin estremeceu de leve, como se minha observação tivesse sido uma blasfêmia. “Entendo, claro”, ele disse. “Mas não devemos fazer comentários como esse. Não cabe ao homem decidir quando alguém deve ser mandado para a eternidade. Somente Deus pode fazer tal julgamento. Afinal, quebrar essa lei foi o que levou Santina Westerley ao cadafalso e James Westerley a uma morte em vida.”
“Nós estivemos em Great Yarmouth outro dia”, comentei, mudando de assunto.
“Nós?”
“Eu e as crianças.”
Ele concordou com a cabeça e pareceu contente. “Que ótima ideia”, disse. “Imagino que seja bom para as crianças respirar um pouco de ar fresco, longe deste lugar. Sempre que vejo o menino, Eustace, tenho a impressão de que está terrivelmente pálido. Isabella tem a pele mais escura, claro; imagino que venha do lado da mãe. Mas Eustace é um Westerley da cabeça aos pés.”
“Acho que eles gostaram”, concordei. “Foi um dia interessante, com certeza.”
“Minha mãe cresceu em Great Yarmouth, sabia?”, continuou o sr. Raisin, entusiasmado com o tema. “Quando eu era pequeno, costumávamos passar alguns fins de semana por lá. Meus avós tinham uma casa muito alegre.” Ele sorriu e então riu um pouco, sem dúvida recordando alguma memória agradável da infância. “Eu, meus irmãos e minhas irmãs… tivemos momentos maravilhosos naquela época.” Deu um tapa no joelho e sacudiu a cabeça. “Um período mais simples”, acrescentou, em tom resignado. “Receio que a vida moderna imponha exigências demais sobre nós, não acha, srta. Caine? Há dias em que detesto viver em 1867. Tudo se move com tanta rapidez. Mudanças acontecem em ritmo desenfreado. Prefiro o estilo de vida de trinta anos atrás, quando eu era menino.”
“Visitamos uma igreja”, eu disse, interrompendo-o, querendo evitar uma discussão paralela sobre como o mundo moderno era uma decepção para ele. “Isabella parecia ter interesse especial pelo lugar. Acontece que havia um túmulo que ela queria ver.”
O sr. Raisin franziu a sobrancelha. “Isabella?”, perguntou. “E qual túmulo ela ia querer visitar em Great Yarmouth? Não tem família lá.”
“O túmulo de Ann Williams.”
Seu rosto desabou. “Ah”, ele disse, meneando com a cabeça, entendendo meu raciocínio. “A srta. Williams. Claro. Eu tinha me esquecido que ela também cresceu em Great Yarmouth.”
“Nascida em 1846, morta em 1867”, recitei, relembrando a inscrição na lápide. “Morreu com a mesma idade que tenho agora. Vinte e um.” Ele se virou e olhou para mim com certa surpresa; por um momento, pensei que seria deselegante a ponto de confessar ter pensado que eu fosse mais velha. Mas não, ele ficou em silêncio. “A srta. Williams, pelo que ouvi dizer, foi a terceira governanta aqui em Gaudlin Hall, sim?”
Ele pensou por um momento e depois concordou. “Correto”, ele disse. “Mas ela não ficou por muito tempo. Seis ou sete semanas, se bem me lembro. Precisaria verificar essa informação no escritório, mas não deve ter passado muito disso.”
“E a srta. Tomlin, a infeliz vítima da sra. Westerley, foi a primeira governanta.”
“Isso mesmo.”
“A srta. Tomlin foi a primeira. A srta. Williams foi a terceira. A srta. Bennet, que anunciou o próprio emprego no jornal, minha antecessora imediata, foi a quinta. E creio que mencionou uma srta. Golding e uma srta. Harkness naquele dia, no seu escritório.”
“Sim, a segunda e a quarta governantas, respectivamente”, ele respondeu, engolindo em seco e olhando para o chão. “Moças ótimas, as duas. A srta. Harkness era filha única de um velho amigo meu do tribunal de Liverpool. Sofreu muito com a perda, pobre homem.”
“Srta. Tomlin, srta. Golding, srta. Williams, srta. Harkness, srta. Bennet e eu, srta. Caine. Acertei a ordem?”
“Acertou.”
“Seis governantas em um ano. Não considera esse número fora do comum?”
Ele olhou em meus olhos. “Apenas um tolo não consideraria, srta. Caine”, disse. “Mas, como eu já expliquei, houve tantos acidentes trágicos…”
“Acidentes!”, exclamei, rindo ao desviar o rosto. Virei-me para as árvores, a folhagem acumulada em volta das raízes, os troncos sombrios e ameaçadores. No meio do bosque, pensei ter visto o movimento rápido de um homem, o vislumbre de uma barba branca, e perdi o fôlego; inclinei-me para a frente e tentei enxergar melhor, mas não havia nada e a paisagem ficou plácida outra vez. “Então o senhor crê em coincidências?”, comentei com amargura.
“Creio em má sorte, srta. Caine. Acredito que um homem pode partir com cem anos de idade e uma criança pode reencontrar Deus antes mesmo de seu primeiro aniversário. Acredito que o mundo é um lugar misterioso e que não podemos ter a pretensão de entendê-lo.”
“Das seis governantas”, eu disse, determinada a não permitir que sua retórica me subjugasse, afinal, não estávamos em um julgamento, “você mesmo disse que apenas duas ainda vivem. Eu e a srta. Bennet. Não percebe que existem forças estranhas em ação?”
“Forças estranhas?”, ele perguntou. “Em que sentido?”
“Uma presença maligna”, expliquei. “Um fantasma.”
O sr. Raisin se levantou em um salto, seu rosto enrubescendo. “O que quer de mim?”, ele perguntou. “Que resposta espera?”
“Diga o que aconteceu com elas!”
“Com as governantas? Não! É horrendo demais. Eu sofri com a morte de todas elas, não você. Não pode me pedir para revivê-las.”
“Mas sou a sucessora!”, berrei, erguendo o rosto, recusando-me a parecer fraca diante dele. Se quisesse sobreviver naquele lugar, era imperativo que demonstrasse somente força e nada mais. “Mereço saber.”
“Creio que não faria nenhum bem”, ele protestou. “Vai perturbá-la sem necessidade.”
“Tenho o direito de ouvir a história delas, não concorda?”
“Não, não concordo”, ele insistiu. “Afinal, não conheceu nenhuma dessas moças. Elas são completas estranhas para você.”
“Mas ocupo o cargo que era delas. Ao contrário do senhor, ao contrário do sr. Heckling, ao contrário da rainha, não herdei esse cargo de um parente falecido. Sou apenas a mais recente contratada para um emprego que se provou fatal para quase todas as ocupantes anteriores.”
Ele suspirou, exausto, e se sentou outra vez, pensando no assunto, a cabeça apoiada nas mãos. Um longo silêncio pairou entre nós e jurei que não seria a primeira a falar. “Pois bem”, ele disse, enfim. “Mas eu garanto, srta. Caine, que isso não terá nenhum resultado positivo. São histórias trágicas, coincidências terríveis, nada mais.”
“Decidirei isso por conta própria, sr. Raisin”, respondi.
“Não tenho dúvida”, ele disse, arqueando uma sobrancelha, e tive a impressão de que talvez estivesse dividido entre a admiração por mim e o desejo de nunca ter ido a Gaudlin Hall naquela manhã. “Bom, sabe sobre a srta. Tomlin, claro”, começou. “A primeira governanta. Conversamos mais do que o suficiente sobre o destino da pobre moça. A srta. Golding foi a próxima. Depois que Santina, ou melhor, que a sra. Westerley foi presa e o sr. Westerley foi internado, não tive escolha senão publicar um anúncio em busca de uma governanta para as crianças. A srta. Golding era daqui. Não do vilarejo, mas de King’s Lynn, que, como deve saber, não fica tão longe. Ela vinha de uma boa família. Eu mesmo a entrevistei. Fiquei preocupado que, com a grande notoriedade associada à mansão naquela época, a vaga atraísse o tipo errado de pessoa. E eu estava certo, foi isso mesmo que aconteceu. Apareceram várias figuras asquerosas à minha porta. Era repulsivo. Mas, quando conheci a srta. Golding, soube no mesmo instante que era a moça certa. Ela era muito séria. Do tipo pragmático. Gosto disso em uma mulher. Não me interesso por posturas afetadas e caprichosas, nunca me interessei. Dê-me uma mulher objetiva, que tenha os pés no chão, e serei um homem feliz. Fiquei admirado com o fato de a srta. Golding ter se solidarizado com os eventos recentes, mas não ficado fascinada por eles, como outras. Além disso, sua maior preocupação era o bem-estar das crianças, e ela fez questão de deixar isso bem claro na entrevista. Foi um grande alívio para mim, pois, como pode imaginar, Isabella e Eustace ficaram bastante traumatizados com o ocorrido. Ainda não tinha passado nem um mês desde aquele acontecimento terrível.”
“Claro”, eu disse, percebendo, com uma pontada de culpa, que nunca tinha parado para pensar em como as crianças reagiram às consequências imediatas do assassinato da governanta, da agressão contra o pai e da prisão da mãe. “Elas devem ter ficado muito perturbadas.”
“Isabella ficou razoavelmente calma”, respondeu o sr. Raisin, passando a mão pela barba ao relembrar aqueles dias difíceis. “Mas ela é uma menina calma na maior parte do tempo, não é? Um pouco calma demais, eu diria. Na verdade, foi sempre muito mais próxima do pai do que da mãe. Eu a ouvia chorando de noite e foi assim que soube quão mal estava. Mas escondia muito bem. Aquela menina é habilidosa para mascarar sentimentos. Não sei se isso é tão saudável.”
“Você a ouvia?”, perguntei, surpresa.
“Desculpe”, ele disse. “Eu devia ter mencionado. Eu e minha esposa levamos as crianças para casa no dia dos ataques. Não havia mais ninguém para cuidar delas. Nós as hospedamos durante algumas semanas, até que a srta. Golding foi contratada, momento em que Isabella insistiu em voltar para a própria casa, para cá, Gaudlin Hall. Não vi nenhum motivo para recusar, se havia um adulto responsável presente.”
“E Eustace?”, perguntei. “Como ele lidou com tudo?”
“Em silêncio”, disse o sr. Raisin, com um sorriso triste. “O coitadinho não falou nenhuma palavra do momento em que o levei embora de carruagem naquela noite até alguns dias depois de ter voltado a Gaudlin. Ao poucos, depois que a srta. Golding assumiu a casa, ele voltou a falar. Mas é um menininho muito perturbado, srta. Caine. Percebe isso, não? Às vezes, parece que quem foi mais profundamente afetado por tudo isso e por tudo que veio depois foi ele. Preocupo-me com Eustace, preocupo-me mesmo. Receio por seu futuro. Os traumas da infância podem nos prejudicar depois de adultos.”
Desviei o olhar e senti o coração apertado. Tudo o que ele dizia era verdade. Fui arrebatada por tristeza pelo menino, a quem eu tinha me apegado tanto. Ao mesmo tempo, tive a sensação de que não havia nada que pudesse fazer para ajudá-lo, de que não tinha capacidade de devolver a felicidade a ele. Sua inocência tinha sido perdida para sempre.
“Então a srta. Golding assumiu a posição de governanta”, eu disse, estimulando-o a continuar.
“Sim. E tudo ficou bem por um tempo. Ela se provou tão eficiente quanto eu esperava. Enquanto isso, aconteceu o julgamento de Santina. Ela foi considerada culpada, claro; não havia a menor chance de isso ser questionado. Pelo assassinato da srta. Tomlin e pela tentativa de assassinato do próprio marido. Houve alguns atrasos antes da sentença ser dada, pois o juiz ficou doente por um período. E, depois disso, passou-se mais uma semana até que a sentença fosse executada, até que a sra. Westerley fosse… bom, enforcada. Ao longo de tudo isso, a srta. Golding fez um trabalho exemplar, na minha opinião. As crianças pareciam tão bem quanto era de esperar dentro das circunstâncias e ela era uma presença alegre e eficiente no vilarejo. Fiquei muito satisfeito com minha escolha.”
“E o que aconteceu com ela?”, perguntei. “Como morreu?”
“Os eventos aconteceram muito perto um do outro”, ele disse. “Foi um azar inacreditável. Santina foi enforcada na manhã de uma terça-feira, quando o sino bateu meio-dia. Eu estava lá como testemunha, claro. Senti que era minha obrigação. Lembro-me muito bem daquela manhã. Quando ela andou na direção do cadafalso, olhou na minha direção e, por um momento, vi a mulher que tinha sido antes, linda e jovial, a moça que jantara conosco uma centena de vezes, que sempre ganhava de mim no baralho. Olhou para mim e sorriu de leve, um sorriso cheio de remorso. Quebrei meu juramento e berrei que as crianças estavam bem, que eu tinha feito tudo para garantir que recebessem os cuidados necessários. Disse a ela que os acolheria sempre e que zelaria por eles como se fossem meus. Achei que isso lhe daria algum conforto no fim, mas teve o efeito oposto. Ela ficou furiosa e tentou correr para cima de mim; acho que teria me atacado se não fosse pelos carcereiros, que a restringiram. Santina tinha perdido a razão, claro. É o único jeito de explicar. Medo. O horror à forca.”
“E você era o único presente?”, perguntei. “Do vilarejo, quero dizer.”
“Sim, o único. Não, espere, não é verdade. A sra. Toxley estava lá. Você conhece Madge Toxley, não?”
“Conheço.”
“Não no enforcamento, claro. Mas na prisão. Eu a vi indo embora quando cheguei. Considerei um tanto estranho na época, mas nunca pensei duas vezes no assunto até agora. Elas tinham sido amigas, mas achei esquisito fazer aquela visita. Ainda assim, não dei importância, pois estava lá para testemunhar um enforcamento, não para especular sobre as amizades alheias. Eu já tinha estado em dois enforcamentos na vida, srta. Caine, e não é uma experiência agradável. Acho medonho, para ser sincero.”
Senti um calafrio. Não conseguia nem imaginar como seria ver outra pessoa morrer daquela maneira.
“Fiquei em uma hospedaria em Norwich naquela noite”, ele continuou. “Tive um sono agitado. E, quando voltei para Gaudlin na manhã seguinte, o sr. Cratchett me deu a notícia terrível de que a srta. Golding tinha morrido na noite anterior.”
“Como, sr. Raisin?”, perguntei, inclinando-me para a frente. “Como ela morreu?”
“Um acidente pavoroso, sinistro por sua simetria. A srta. Golding tinha uma imaginação muito ativa e era muito habilidosa com as mãos. Estava tentando construir uma espécie de balanço para as crianças entre duas árvores, usando cordas que pegou emprestado de Heckling ou encontrou em um dos depósitos. De qualquer maneira, tinha escalado uma árvore e estava amarrando a segunda corda quando deve ter perdido o equilíbrio e, de alguma maneira, acabou enroscada na corda ao cair. A corda se enrolou em seu pescoço e a sufocou.”
“Ela foi enforcada”, eu disse, fechando os olhos, tentando manter o ritmo da respiração. “Como a mãe das crianças.”
“Sim.”
“E a sra. Westerley já estava morta quando isso aconteceu?”
“Sim, havia cerca de cinco horas, eu diria.”
“Entendi.” Pensei naquilo. Não estava surpresa. Se ele tivesse contado que a infeliz srta. Golding morrera pela manhã, eu não teria acreditado. Na minha cabeça, não havia dúvida de que aquilo só poderia ter acontecido depois que Santina Westerley tivesse sido executada. “E a srta. Williams”, continuei, “a terceira governanta, cujo túmulo vi em Great Yarmouth. O que aconteceu com ela?”
“Coitada”, disse o sr. Raisin, sacudindo a cabeça. “Afogou-se na banheira. Era uma moça adorável, mas vivia sempre cansada. Acho que ficava acordada até tarde na maioria das noites, lendo. As mulheres deviam ler, srta. Caine? Sempre me faço essa pergunta. Não é estímulo demais para elas? A srta. Williams nunca estava sem um livro. Usava a biblioteca de James como se fosse oxigênio. Certa vez, ela me contou que sempre teve dificuldade para dormir, mas que o problema se exacerbara desde sua chegada a Gaudlin Hall. E ela também era muito propensa a acidentes. Tinha sofrido vários pequenos machucados desde a chegada. Eu dizia que precisava ser mais cuidadosa e, uma vez, ela ficou quase histérica por causa disso, afirmando que os acidentes não eram culpa dela, que eram infligidos por forças ocultas. Creio que estava na banheira um dia, caiu no sono, escorregou para baixo da água e, infelizmente, nos deixou.”
“E a srta. Harkness?”, perguntei. “A quarta governanta?”
“Parece mesmo muito estranho, eu sei”, disse o sr. Raisin. “E posso entender por que consideraria essa sequência de acontecimentos surpreendente e perturbadora. Mas a srta. Harkness era uma mulher desastrada. Entrou na frente da minha carruagem duas vezes, bem no meio da rua, e quase foi parar embaixo dos cascos dos meus cavalos. Afirmava que era o vento, mas a verdade era que ela não olhava por onde andava. Ainda bem que tenho bons reflexos e consegui desviar sem demora nas duas ocasiões. Porém, em outra situação parecida, com o desafortunado sr. Forster, de Croakley, ela não teve tanta sorte e foi pisoteada até a morte. Foi horrível. Pavoroso demais para descrever. Logo depois disso, contratei a srta. Bennet, que se tornou a quinta governanta. Caso acredite que há alguma coisa funesta por trás de tudo isso, srta. Caine, lembre-se de que a srta. Bennet está viva e muito bem. Que eu saiba, ela voltou para Londres e reassumiu seu cargo antigo.”
“Qual cargo?”
“De professora. Como você. Enviei o pagamento da última semana para a conta do pai dela, em Clapham; não quis ficar nem o suficiente para que o banco abrisse e eu pudesse retirar o valor necessário.”
“E a srta. Bennet?”, perguntei. “Ela ficou a salvo durante o tempo que passou aqui?”
“É claro”, ele respondeu, então começou a rir um pouco e a sacudir a cabeça. “Mas era uma histérica. Não gostava nada dela. Entrava esbravejando no meu escritório, dizendo todo tipo de bobagem sobre Gaudlin Hall e o que acontecia aqui. O sr. Cratchett sugeriu que a internássemos, e ele talvez estivesse certo. A srta. Bennet se comportava como se fosse uma personagem em uma história de fantasma.”
“Mas nada aconteceu a ela?”, insisti. “Por favor, sr. Raisin, preciso saber.”
“Sim, nada aconteceu a ela, claro que não. Quer dizer”, ele acrescentou, “ela se machucou com uma faca certa vez; foi um corte profundo e teria sangrado até a morte se a sra. Livermore não estivesse por perto para ajudá-la. E comentou sobre um ou outro incidente trivial, mas…”
Levantei de repente e me afastei dele, sem saber se devia permitir que meus pensamentos seguissem na direção que queriam ir. Observei a paisagem de Gaudlin. Tive vontade de correr, correr e correr.
“A senhorita está bem?”, ele perguntou, agora também se levantando e se aproximando de mim. Senti sua presença, o calor de seu corpo, tão diferente daquela aura maligna que me atormentava desde minha chegada. Queria apenas dar um passo para trás e me permitir cair na segurança de seus braços. Mas é claro que não o fiz. Fiquei onde estava.
“Estou bem, obrigada”, eu disse, afastando-me dele e sorrindo. “Mas está ficando tarde. E já o mantive aqui por tempo demais. Perderá seu meio dia de folga se não for agora, e a sra. Raisin vai me culpar.”
“Garanto, srta. Caine”, ele disse, dando um passo em minha direção, “que a sra. Raisin não vai culpar ninguém, só a mim. Ela tem inúmeros precedentes nisso.”
Sorri e até ri um pouco. “Vou acompanhá-lo até a carruagem”, disse.
Conforme observei o sr. Raisin desaparecer pela alameda, fui tomada por uma grande exaustão, como se os acontecimentos do último mês tivessem, enfim, exercido todo o seu peso sobre meu espírito. Quis desmoronar no cascalho aos meus pés, enterrar meu rosto nas mãos, gritar e ser resgatada daquele lugar lúgubre, fúnebre. Minha vida era tão simples antes, a rotina diária da escola e papai, nossas conversas diante da lareira, seus livros, os cuidados com a casa, até mesmo as reclamações constantes de Jessie, e agora era só mistérios, mortes sem explicação e um tipo de brutalidade que me fazia questionar a própria natureza da existência. Por um momento, senti-me pronta para me render à histeria, mas o som de risadas à distância, aquele som inesperado, fez-me levantar o rosto e então vi Isabella e Eustace jogando bola perto das árvores. Observei por uns instantes, pensando em me juntar a eles, mas decidi que não e voltei para a casa. Fechei a porta atrás de mim e fiquei parada na entrada; olhei o entorno e respirei sem fazer barulho.
“Onde você está?”, eu disse, baixinho.
A cortina da sala de estar ao meu lado começou a se mexer um pouco e eu observei, sem sair do lugar. Não havia vento. O dia estava calmo. “Onde você está?”, repeti.
E foi então que ouvi as vozes. Eram duas. Uma conversa baixa. Uma discussão. Os sons vinham de dentro da casa. Eu sabia que não podiam ser as crianças, pois estavam lá fora. E não podia ser a sra. Livermore e o sr. Westerley, pois o quarto dele era longe demais para que o eco viesse até mim, mesmo que aquele homem tenebroso conseguisse se fazer ouvir. Escutei com atenção e percebi que as vozes vinham de cima, não do primeiro andar, mas do segundo. Senti uma inexplicável sensação de tranquilidade dentro de mim, nenhum medo, conforme subi as escadas e ouvi as vozes cada vez mais altas, mas ainda indecifráveis. Seriam vozes mesmo? Era difícil saber. Talvez fosse apenas o vento encontrando novas maneiras de transbordar pelas rachaduras.
Segui os sons até uma porta no final do corredor e pressionei a orelha contra ela, e meu coração deu um salto quando me dei conta de que não estava enganada. Havia duas vozes, sem dúvida, envolvidas em uma discussão implacável. Um homem e uma mulher. Não pude escutar nenhuma palavra que diziam, apenas uma espécie de murmúrio baixo, mas percebi a diferença de gênero e identifiquei o tom da conversa, que ficava cada vez mais agressivo.
Não aceitaria mais ser amedrontada. Pus a mão na maçaneta e a girei, escancarando a porta e marchando para dentro, sem a menor preocupação com minha segurança.
O quarto estava vazio. Alguns brinquedos antigos espalhados em um canto, um cavalo de balanço empoeirado e um berço. Tirando isso, não havia nenhum ornamento e, o que era mais importante, ninguém.
“Onde você está?”, berrei, agora elevando o tom de voz, quase gritando de frustração, medo e pânico. Minhas palavras devem ter ecoado tão longe pela casa que até o miserável sr. Westerley, meio morto na cama, perto do telhado, devia ter se mexido um pouco no colchão e se perguntado o que era aquilo.
“Onde você está?”
Mas não houve resposta.