A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 5 de 26

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A casa assombrada

Capítulo 5

 

Subi na traseira da charrete de Heckling, minha mala foi colocada com cuidado no fundo. Com um rugido vigoroso que pareceu nascer das profundezas do seu ser, o zelador de Gaudlin ordenou que a égua, Winnie, fosse em frente. Tive o ímpeto de olhar para trás outra vez, para observar os Toxley — seu comportamento insólito, combinado com o quase acidente na plataforma, me deixou bastante perturbada —, mas decidi permanecer calma e ser resiliente. O nervosismo incomum que me assolava, pensei, podia ser explicado pelo fato de eu estar em um condado desconhecido, longe da única cidade com a qual tinha familiaridade, e seria necessário algum tempo até que me sentisse à vontade no novo ambiente. Eu não podia permitir que minha mente me pregasse peças. Era o início de uma vida nova; precisava ser otimista.

“A neblina é sempre tão espessa?”, perguntei, inclinando-me para a frente em uma tentativa de dialogar com Heckling, que não demonstrou nenhum sinal de querer conversa. A névoa, que se dissipara um pouco na plataforma durante minha conversa com os Toxley, recuperou o aspecto denso ao começarmos nossa jornada, e me perguntei se ele conseguia enxergar o suficiente para seguir pelas estradas que nos levariam ao nosso destino, alguns quilômetros a oeste dos Norfolk Broads. “Sr. Heckling?”, eu disse, ao perceber que ele não parecia nem um pouco interessado em responder, e dessa vez tenho certeza de que vi um pequeno enrijecimento em seus ombros. “Perguntei se a neblina é sempre tão pesada.”

Ele virou a cabeça um pouco e girou o maxilar de um jeito bastante desagradável, como se estivesse mascando alguma coisa, antes de dar de ombros e se virar para a frente outra vez.

“Sempre forte assim, acho”, ele respondeu. “Pelo que lembro, pelo menos. Não é tão ruim no verão. Mas agora é desse jeito.” Ele pensou um pouco e meneou a cabeça. “Vivemos assim, fazer o quê?”

“O senhor nasceu e cresceu em Norfolk, imagino”, eu disse.

“Isso.”

“Deve gostar daqui, então.”

“Gostar?”, ele murmurou, a voz grave, tomada por uma mistura de tédio e irritação. “Isso, acho que sim. Quer dizer, se é isso que a senhorita diz.”

Suspirei e voltei para trás, endireitando-me no banco, sem nenhuma vontade de manter conversa se ele continuasse sendo tão desagradável. Papai, além do desgosto por norte-americanos, franceses e italianos, não tinha muito respeito pelas pessoas de Norfolk, e eu sabia que Heckling, que não era nenhum sr. Barkis e demonstrava completa má vontade, o teria irritado profundamente. Durante o período que trabalhou no museu de Norwich, papai considerou seus habitantes suspeitos e rudes, mas era possível que apenas não gostassem da ideia de um jovem londrino na cidade para fazer algo que um habitante local pudesse fazer com o mesmo profissionalismo. De qualquer maneira, era uma coincidência curiosa o fato de nós dois acabarmos trabalhando naquele condado, e me perguntei se teria a oportunidade de visitar o museu que ele e o sr. Kirby inauguraram juntos, que ficava a uma distância de pouco mais de oitenta quilômetros da propriedade.

Reclinada no assento, observei conforme o cenário — ou o pouco que eu conseguia enxergar dele — passava. A charrete era muito confortável, o que me deixou contente. Havia um cobertor espesso no banco e o estendi no colo, pousando minhas mãos nele e me sentindo muito satisfeita. As estradas pelas quais passávamos eram um tanto esburacadas e a viagem teria sido muito mais difícil se não fosse pelo assento requintado, o que me deu motivos para acreditar que meu empregador era um homem de meios consideráveis. Comecei a pensar em H. Bennet e na vida à qual eu me dirigia. Rezei para que fosse um lar feliz, que os Bennet fossem um casal amável e que seus filhos, independente da quantidade, fossem gentis e acolhedores. Afinal, eu já não tinha mais uma casa e, supondo que o emprego desse certo e que eles se apegassem a mim da mesma maneira que eu esperava me apegar a eles, Gaudlin Hall poderia ser minha residência por muitos e muitos anos.

Na minha mente, visualizei uma casa enorme, com muitos cômodos; um lugar quase palaciano com uma alameda sinuosa que levava até a porta da frente e um gramado que se estendia até onde a vista alcançava. Creio que me inspirei no fato de meu anfitrião chamar-se Bennet, o que associei com a mocinha que era a alma de Orgulho e preconceito. A história dela teve desfecho em uma mansão extraordinária, a propriedade do sr. Darcy em Pemberley. Será que os meus Bennet tinham conquistado prosperidade parecida? Obviamente, Elizabeth e suas irmãs faziam parte de uma obra fictícia, e essa casa para a qual eu seguia, não. Ainda assim, ao estender o braço e passar a mão no tecido de boa qualidade do banco, imaginei que deveriam ser pelo menos endinheirados, e isso significaria que Gaudlin era um lugar especial.

“O sr. Bennet”, eu disse, inclinando-me para a frente outra vez e enxugando o rosto com as mãos, pois uma garoa fina começara a cair. “Suponho que seja um homem de negócios.”

“Quem?”, perguntou Heckling, segurando as rédeas com firmeza, mantendo os olhos atentos na estrada sombria à frente.

“O sr. Bennet”, repeti. “Meu novo empregador. Gostaria de saber o que ele faz da vida. É um homem de negócios? Ou…” Não me ocorreu outra possibilidade. (E, na verdade, eu mal tinha noção do que “de negócios” significava, exceto que um grande número de homens se descrevia dessa forma e não tinha a menor vontade — ou não sabia — definir o termo de um jeito mais compreensível.) “Ele é o representante local do Parlamento? Sei que muitas famílias ricas preparam o homem da casa para a vida política.”

Dessa vez, Heckling fez o favor de se virar e olhou fixo para mim com uma expressão irritada — ou melhor, como se eu fosse um cachorro saltitando a seus pés, desesperado para chamar a atenção, latindo e levantando a pata, enquanto tudo o que ele queria era ser deixado em paz com os próprios pensamentos. Outra pessoa na minha situação talvez tivesse desviado o olhar, mas sustentei o meu; não deixaria que ele me intimidasse. Eu era a governanta, afinal de contas, e ele era apenas o zelador de Gaudlin.

“Quem é esse?”, ele perguntou, enfim, com desdém.

“Quem é quem?”, respondi e então sacudi a cabeça, incomodada pela rapidez com que absorvia seu comportamento de Norfolk. “O que o senhor quer dizer com quem é esse?”, perguntei.

“A senhorita que falou do sr. Bennet. Não conheço nenhum sr. Bennet.”

Eu ri. Seria algum tipo de piada? Um jogo que ele e os outros criados inventaram para fazer a nova governanta ficar desconfortável? Se fosse o caso, era uma coisa cruel e mal-intencionada, e eu me recusaria a participar daquilo. Ensinando minhas pequeninas, aprendi que, se demonstrasse o menor sinal de vulnerabilidade no começo, estaria perdida para sempre. Eu era mais forte do que aquilo, e estava determinada a provar tal fato.

“Francamente, sr. Heckling”, eu disse, rindo de leve, tentando manter o tom de voz casual. “É claro que conhece. Afinal, foi ele quem o enviou para me buscar.”

“Me mandaram buscar a senhorita”, concordou Heckling. “Mas não foi nenhum sr. Bennet.”

Um golpe súbito de vento me forçou para trás no banco conforme a chuva começou a ficar mais pesada, e eu desejei que Heckling tivesse trazido a charrete coberta em vez da aberta. (Tola! Ainda flutuava nas minhas fantasias de Pemberley. Na minha cabeça, havia uma frota inteira de carruagens esperando por mim em Gaudlin Hall, uma para cada dia da semana.)

“Então quem o mandou foi o responsável pela casa?”, perguntei.

“O sr. Raisin me mandou”, ele respondeu. “Ou melhor, o sr. Raisin e a srta. Bennet. Foram os dois, isso.”

“E quem, por obséquio, é o sr. Raisin?”, perguntei.

Heckling coçou o queixo e, com a noite se aproximando, reparei que seu bigode escuro ficava cada vez mais acinzentado sob a luz da lua. “Advogado, o sujeito, é isso”, ele disse.

“Advogado?”, perguntei.

“Isso.”

Pensei no assunto. “Mas advogado de quem?”

“Advogado de Gaudlin.”

Não respondi; apenas amontoei os fatos na minha cabeça e tentei entendê-los. “O sr. Raisin é o advogado da família”, eu disse, mais para mim do que para ele. “E deu ordens para me buscar na estação. Mas, então, quem é essa srta. Bennet? Irmã do senhor da casa, talvez?”

“Que senhor da casa?”, perguntou Heckling e, sinceramente, já bastava daquela brincadeira.

“O senhor de Gaudlin”, respondi, com um suspiro.

Heckling riu e depois pareceu ter se arrependido. “Não tem senhor nenhum em Gaudlin”, ele disse, enfim. “Não mais. A senhora cuidou disso, foi sim.”

“Não há um senhor?”, perguntei, tentando entender qual seria a brincadeira tola que ele estava fazendo comigo. “É claro que há um senhor. Deve haver. Quem pode ser essa srta. Bennet, então, se não for parente do senhor da casa? Foi ela quem me contratou, afinal. Imaginei que fosse o responsável pela casa, mas, pelo que me disse, parece que não.”

“A srta. Bennet era só uma governanta”, ele disse. “Como a senhorita. Nada mais, nada menos.”

“Mas isso é ridículo. Por que a governanta faria um anúncio em busca de uma nova governanta? Vai muito além das responsabilidades dela.”

“Ela estava indo embora, foi isso”, explicou Heckling. “Mas ela não ia embora antes de encontrar outra. Eu levei ela de charrete para a estação, ela desceu, falou para esperar, disse que a senhorita viria logo e aqui está. Para pegar o lugar dela. A Winnie aqui não teve nem dez minutos para descansar.”

Reclinei-me no assento, boquiaberta, sem saber como lidar com aquelas informações. Parecia absurdo. De acordo com aquele homem, Gaudlin Hall não tinha um patriarca, e meu cargo tinha sido anunciado pela ocupante anterior, que, sabendo da minha chegada ao condado, achou adequado ir embora de imediato. Que sentido poderia ter tudo aquilo? Decidi que aquele homem era louco, ou bêbado, ou ambos, e resolvi que não falaria mais sobre o assunto e ficaria apenas ali sentada, guardando minhas opiniões para mim. Esperaria até chegarmos ao nosso destino, onde certamente todas as questões seriam esclarecidas.

E, então, lembrei. H.B. A mulher que trombou comigo na estação. Devia ser ela. H. Bennet. Olhou para mim e pareceu saber quem eu era. Deve ter ficado à procura de uma moça que se encaixava no perfil, resolvido que era eu e então fugido. Mas por que faria uma coisa dessas? Era um comportamento muito esquisito. Quase incompreensível.