A casa assombrada
Capítulo 17
Comecei a me recompor somente depois do almoço. Tinha ficado muito abalada pelo encontro com o animal, mas as crianças aparentavam já ter esquecido. Eustace — que esteve lá durante o ocorrido, claro —, não parecia nem um pouco preocupado e, quando perguntei sobre o assunto, tudo o que ele disse foi: “Era só um cachorro. Não ia me atacar”.
E eu acreditava que ele estava absolutamente certo. A criatura não demonstrou nenhuma intenção de ferir Eustace. Era a mim que queria.
Ainda assim, as crianças pareciam estar aproveitando o dia. Isabella ficou renovada depois do mergulho e seu humor estava ótimo, como nunca tinha visto antes.
“Devíamos vir aqui mais vezes”, ela disse, dançando à minha volta pela rua, agindo como uma menina, para variar, e não como a pequena adulta que costumava parecer com tanta frequência. “É um lugar esplêndido.”
“Talvez”, respondi. “Apesar de ter certeza de que existem outros lugares maravilhosos em Norfolk. Não precisamos vir para cá toda vez. Mas você está certa. É bom espairecer por um dia.”
“Obrigada por nos trazer”, ela disse, encantando-me com um raro sorriso. “Eustace”, acrescentou, virando-se para o irmão, “diga a Eliza Caine como está agradecido.”
“Muito”, ele disse, parecendo perdido em pensamentos, talvez cansado depois de gastar tanta energia.
“Parece estar com sono, Eustace”, comentei, colocando a mão na cabeça dele e tirando o cabelo da frente de seus olhos. “Deve ser a maresia. Sem falar naquele peixe do almoço. Vamos todos dormir bem hoje à noite.” Conferi o relógio. “Talvez seja melhor voltarmos para a estação de trem”, sugeri. “Eu disse a Heckling que estaríamos na estação Thorpe às cinco.”
“Ah, precisamos mesmo?”, choramingou Isabella. “Não podemos ficar mais um pouquinho?”
“Mais um pouquinho, se vocês quiserem”, eu disse. “Mas não muito. E o que vamos fazer agora? Passear?”
“Quero ver a igreja”, ela declarou, apontando para uma pequena torre à distância. Levantei uma sobrancelha, um tanto surpresa.
“Pensei que não gostasse de igrejas”, respondi.
“Não gosto de ir à missa”, ela disse. “Mas gosto muito de visitar igrejas. Se estiverem vazias, quero dizer. Se não estiver acontecendo nenhum sermão. E você também gosta, não é, Eliza Caine? Afinal, queria visitar a catedral de Norwich.”
“Sim, eu gosto”, admiti. “Então, tudo bem, vamos até lá dar uma olhada. Mas não ficaremos muito. Não podemos demorar, se quisermos pegar o trem das quatro.”
Isabella fez que sim e seguimos pelo caminho em silêncio, nós três, contentes por ter algum tempo sozinhos com nossos pensamentos. Sempre gostei de igrejas, era fato. Papai tinha, de certa maneira, sido um homem religioso, e me levou à missa todo domingo enquanto crescia; de vez em quando, ele me levava para outra paróquia, alguma igreja sobre a qual ouvira falar que era ornamentada com maestria ou oferecia acústica excelente ao coral, ou que tinha frisos nas paredes ou arquitetura extraordinária. Eu gostava muito dessas expedições quando menina; havia um sentimento de paz entre as paredes de uma igreja, uma sensação de mistério que sempre me atraiu bastante. A igreja em Great Yarmouth não era diferente. Devia ter cerca de duzentos anos, mas estava em boas condições; era uma construção primorosa de pedra, com pé-direito alto e bancos de madeira esculpidos com técnica admirável. Na nave, olhei para cima e vi, no teto, uma bela representação do Senhor no paraíso, cercado por anjos, cada um deles O contemplando com reverência e louvor. Ao lado Dele, observando tudo com uma expressão curiosa no rosto — uma expressão que sugeria dominação, não amor —, estava Sua mãe, Maria. Olhei para ela, tentando imaginar o que tinha se passado na cabeça do artista, pois não era a forma tradicional como era representada. Não gostei; desviei o rosto.
As crianças não estavam em nenhum lugar à vista, mas pude ouvir suas vozes do lado de fora, primeiro com clareza, depois sumindo devagar conforme se afastaram da porta, e segui pela nave, por um momento me imaginando uma noiva nos braços do atraente marido, sorrindo para uma congregação de amigos e família ao sair de seu estado solitário para uma união entre semelhantes. E o rosto que vi — algo embaraçoso até mesmo para mim — foi o de ninguém menos que Alfred Raisin. Que tolice! Sorri com minha própria ingenuidade, mas, na verdade, estava me perguntando se alguém como eu poderia conhecer contentamento como aquele, e achei deveras improvável.
Saindo para o sol forte da tarde, protegi meus olhos e conferi o entorno. As ruas estavam quase vazias, mas Isabella e Eustace não caminhavam por elas, nem pela estrada que seguia até a estação de trem. Em vez disso, estavam a cerca de dez metros de mim, no cemitério da igreja, examinando as lápides. Sorri; havia momentos em que eles me lembravam de mim mesma, pois, naquelas expedições com papai, eu também gostava de ler as lápides, imaginando histórias de como os ocupantes tinham passado deste mundo para o próximo. Sempre fiquei especialmente intrigada com os túmulos de crianças e bebês, talvez porque eu mesma fosse pequena na época. Eles me assustavam e me atraíam ao mesmo tempo. Lembravam-me de que eu era mortal.
“Prontas para ir, crianças?”, perguntei, aproximando-me delas, mas nenhuma das duas se virou para mim. “Crianças?”, repeti, dessa vez mais alto, mas era como se tivessem virado estátuas. “Ah, deixem disso e vamos, sim?”, insisti, e eles se viraram um pouco, saindo do caminho para permitir que eu visse o túmulo que examinavam com tanta atenção. Li o nome e as datas. A princípio, não tinham nenhum significado para mim. E, então, lembrei.
Ann Williams era o nome gravado na pedra. AMADA FILHA E IRMÃ. NASCIDA EM 15 DE JULHO DE 1846. FALECIDA EM 7 DE ABRIL DE 1867. SENTIREMOS SAUDADES.
“Ela amava Great Yarmouth”, disse Isabella, em tom pensativo. “Tenho certeza de que está feliz por ter voltado para cá.”
Naquela noite, em Gaudlin Hall, as crianças se prepararam para dormir depois de um jantar leve. Eustace era o mais cansado, pobrezinho; esperei cinco minutos antes de subir para o quarto dele.
Estava deitado na cama, de pijama, os olhos semicerrados, mas se virou para mim e sorriu.
“Veio para dizer boa noite?”, ele perguntou. Fiz que sim, sorrindo.
“Gostou de hoje?”, eu disse, sentando-me na cama e acariciando seu cabelo com delicadeza.
“Sim, obrigado”, ele respondeu, sonolento.
“Que história interessante, aquela que me contou sobre o velho”, acrescentei, torcendo para pegá-lo menos defensivo. “Mas me esqueci de perguntar uma coisa.”
“Hum?”, ele perguntou, já quase dormindo.
“Você comentou que já tinha visto o velho antes”, respondi. “Que ele tinha conversado com você antes do dia em que caiu e machucou o joelho. O que ele disse, Eustace? Você se lembra?”
“Ele me perguntou se eu gostava da nova governanta”, Eustace disse, bocejando e se virando na cama, dando as costas para mim.
“E o que você respondeu?”, perguntei.
“Respondi que sim. Muito. E ele disse que isso era bom. Que eu não precisava me preocupar porque ele não ia deixar nada acontecer com ela. Disse que veio proteger você.”