A casa assombrada
Capítulo 3
O funeral de papai aconteceu na manhã da segunda-feira seguinte, na igreja de St. James, em Paddington, e encontrei certo consolo no fato de que meia dúzia de seus colegas de trabalho do Museu Britânico e três das minhas colegas da St. Elizabeth’s School (onde eu trabalhava como professora de uma classe de meninas) compareceram para oferecer condolências. Não tínhamos parentes vivos e por isso havia pouquíssimos presentes; entre eles estava a viúva que morava na casa ao lado da nossa, mas que parecia sempre relutante em reconhecer minha existência quando me encontrava na rua; um jovem estudante, educado e tímido, a quem papai aconselhava em seus estudos sobre insetos; nossa criada de meio período, Jessie; e o sr. Billington, o vendedor de fumo da Connaught Street que fornecera a papai o tabaco com canela até onde minha memória alcançava, e cuja presença me deixou muito comovida e grata.
O sr. Heston, superior imediato de papai no departamento de entomologia do museu, segurou minha mão, esmagando-a de leve, e me disse o quanto respeitava o intelecto de papai, enquanto uma tal srta. Sharpton, mulher culta cuja contratação a princípio causara certo desconforto a papai, me contou que sentiria falta de sua alegre perspicácia e de seu excelente senso de humor, afirmação que de certa maneira me surpreendeu, mas que mesmo assim me consolou. (Existiu um lado de papai que não conheci? Um homem que contava piadas, galanteava mocinhas, boêmio? Era possível, imaginei, mas, ainda assim, um tanto surpreendente.) Fiquei muito admirada com a srta. Sharpton e desejei ter tido a oportunidade de conhecê-la melhor; eu sabia que ela tinha se graduado na Sorbonne, apesar de as universidades inglesas não reconhecerem, como era de esperar, e pelo que consta até sua família a isolou por causa daquilo. Papai me contou que certa vez perguntou se ela estava ansiosa para que chegasse o dia em que se casaria e, portanto, não precisaria mais trabalhar; a resposta — ela preferiria beber tinta — o escandalizou, mas me deixou instigada.
Do lado de fora da igreja, minha chefe, a sra. Farns- worth, que foi minha professora quando eu era pequena e depois me contratou, sugeriu que eu dedicasse o restante da semana ao luto, mas afirmou que trabalho intenso poderia ser um restaurador extraordinário e que ela estaria de braços abertos para me receber de volta na escola na próxima segunda-feira. Não estava sendo desalmada; perdera o marido no ano anterior e o filho um ano antes. Luto era um sentimento que ela compreendia.
Misericordiosamente, a chuva não se manifestou enquanto entregávamos papai ao descanso eterno, mas a névoa nos cercou com tanta intensidade que mal pude enxergar o caixão conforme ele foi baixado na cova e — o que talvez tenha sido uma bênção — perdi o momento em que se percebe que está pousando os olhos no caixão pela última vez; ele pareceu apenas ter sido engolido pelas brumas. Somente quando o vigário se aproximou para me cumprimentar e desejar que tudo ficasse bem percebi que o enterro tinha terminado e que não havia mais nada que eu pudesse fazer além de ir para casa.
Mas optei por não fazer isso imediatamente; em vez disso, caminhei pelo cemitério durante algum tempo, observando pela neblina os nomes e as datas gravados nas lápides. Alguns pareciam justificados — homens e mulheres que viveram até os sessenta ou, em alguns casos, até os setenta anos. Outros pareciam aberrações: crianças levadas no início da vida, jovens mães enterradas com seus bebês natimortos nos braços. Passei pelo túmulo de Arthur Covan, meu colega de outrora, e tive calafrios ao me lembrar da nossa antiga amizade e da desgraça que veio depois. Desenvolvemos uma relação durante algum tempo, Arthur e eu; uma que eu esperava ver florescer e se tornar algo maior. A memória desse sentimento, combinada com a consciência dos danos que aquele rapaz perturbado tinha causado, só serviram para me deixar ainda mais aflita.
Percebendo que aquele talvez não fosse o lugar mais sensato para passar meu tempo, olhei à volta em busca do portão, mas me descobri perdida. A névoa tinha ficado mais densa ao meu redor, a ponto de não conseguir mais ler as palavras nas lápides, e, à minha direita — que coisa extraordinária! —, pude ouvir um casal rindo, tenho certeza que ouvi. Virei-me, imaginando que tipo de pessoa se comportaria daquela maneira em um cemitério, mas não consegui ver ninguém. Apreensiva, estendi minha mão e não pude enxergar nada além da ponta dos meus dedos cobertos pela luva. “Olá?”, perguntei um pouco alto, sem saber se queria mesmo ouvir uma resposta; mas não houve nenhuma. Alcancei um muro e torci para encontrar um portão; mudei de direção e quase caí em um amontoado de lápides antigas jogadas em um canto, e naquele momento meu coração começou a acelerar de ansiedade. Ordenei a mim mesma que ficasse calma, que respirasse e depois encontrasse a saída, mas, quando me virei outra vez, gritei quando me vi frente a frente com uma menina que não devia ter mais do que sete anos, parada no meio do caminho sem casaco, apesar do frio.
“Meu irmão se afogou”, ela me disse; abri a boca para responder, mas não encontrei palavras. “Falaram que não devia ir para o rio, mas ele foi. Ele foi desobediente. E se afogou. Mamãe está sentada no túmulo dele.”
“Onde?”, perguntei, e ela esticou um dedo, apontando para trás de mim. Dei meia-volta, mas não pude ver mulher nenhuma na neblina. Virei-me de novo e vi o momento em que a menina deu meia-volta e saiu correndo até desaparecer na névoa. O pânico cresceu dentro de mim; teria virado histeria se eu não tivesse me forçado a andar rápido pelas ruelas do cemitério até que, enfim, para meu grande alívio, eu estava de volta à rua, onde quase trombei com um homem obeso que suspeitei ser o membro local do Parlamento.
Voltando para casa, passei pelo Goat and Garter, um pub no qual é claro que nunca entrei, e fiquei chocada ao ver a srta. Sharpton sentada perto da janela, bebendo um pequeno caneco de cerveja escura e absorta na leitura de um livro acadêmico enquanto fazia anotações num caderno. Atrás dela, pude ver a expressão no rosto dos homens (naturalmente, eles estavam horrorizados e deviam supor que ela era algum tipo de excêntrica), mas desconfiei que suas opiniões não a preocupariam nem por um segundo. Como eu queria entrar naquele estabelecimento e me sentar ao lado dela! Diga-me, srta. Sharpton — eu poderia ter falado —, o que devo fazer com minha vida agora? Como posso melhorar minha situação e meus prospectos? Ajude-me, por favor, porque estou sozinha neste mundo e não tenho amigos nem benfeitores. Diga-me o que devo fazer a seguir.
As outras pessoas tinham amigos. Claro que tinham; era a ordem natural das coisas. Existem aqueles que se sentem confortáveis na companhia de outros, no compartilhamento de intimidades e segredos do dia a dia. Nunca fui assim. Eu era uma moça estudiosa que adorava ficar em casa com papai. E não era bonita. Na escola, as outras garotas formavam alianças que sempre me excluíam. Chamavam-me de coisas vulgares; não repetirei aquelas palavras. Tiravam sarro do meu corpo arredondado, da minha pele anêmica, dos meus cabelos indômitos. Não sei por que nasci assim. Afinal, papai era um homem bem-apessoado; mamãe, uma beleza rara. Mas, de alguma maneira, a prole de ambos não foi abençoada com a mesma aparência.
Eu teria dado qualquer coisa por uma amiga naquele momento, uma amiga como a srta. Sharpton, que talvez me persuadisse a não tomar a decisão precipitada que por pouco não me destruiria. Que talvez ainda me destrua.
Olhei pela janela do Goat and Garter e desejei com toda força que ela levantasse o rosto, visse-me, sacudisse os braços e insistisse que eu me juntasse a ela. Mas a srta. Sharpton não o fez. Dei meia-volta com o coração pesaroso e voltei para casa, onde fiquei sentada na poltrona perto da lareira durante o resto da tarde e, pela primeira vez desde a morte de papai, chorei.
Antes do fim da tarde, alimentei o fogo com mais carvão e, decidida a alcançar algum tipo de normalidade, fui até o açougue em Norfolk Place, onde comprei duas costelas suínas. Não estava com muita fome, mas achei que, se ficasse em casa o dia inteiro sem comida, afundaria em uma melancolia inexorável e, apesar da natureza recente do meu luto, estava determinada a não permitir que isso acontecesse. Ao passar pela mercearia, presenteei-me com cem gramas de balas e comprei também uma cópia do Morning Post para ler mais tarde. (Afinal, se a srta. Sharpton podia estudar na Sorbonne, eu decerto poderia, no mínimo, me familiarizar com os acontecimentos da nossa nação.)
Em casa, meu ânimo desmoronou por completo quando percebi meu erro. Duas costelas de porco? Para quem era a segunda costela? O hábito venceu a necessidade. Fritei ambas e, pesarosa, comi a primeira com uma batata cozida; dei a segunda ao spaniel da vizinha viúva, pois não suportaria guardá-la para mais tarde nem comê-la naquela hora. (E papai, que amava cães, teria ficado muito contente com minha caridade, não tenho dúvida.)
Conforme a noite chegou, voltei para minha poltrona, deixei duas velas em uma mesa de canto e o saquinho de balas no meu colo, e abri o jornal, folheando-o depressa, sem conseguir me concentrar em nenhuma notícia. Estava prestes a jogar tudo aquilo no fogo quando vi “Ocupações Disponíveis”, onde um anúncio específico chamou minha atenção.
Um tal H. Bennet, de Gaudlin Hall, no condado de Norfolk, requisitava uma governanta para se dedicar aos cuidados e à educação das crianças da casa; o cargo precisava ser preenchido sem demora por um candidato qualificado e prometia-se uma remuneração satisfatória. Candidaturas deveriam ser enviadas de imediato. Sem mais explicações. H. Bennet, quem quer que fosse, não especificou quantas crianças requeriam supervisão, tampouco ofereceu detalhes sobre a idade delas. A coisa toda carecia de certa elegância, como se tivesse sido escrita com afobação e enviada ao jornal sem mais considerações — mas, por algum motivo, me vi atraída pela urgência do apelo, relendo-o várias vezes, perguntando-me sobre a aparência de Gaudlin Hall e que tipo de sujeito H. Bennet poderia ser.
Eu saíra de Londres apenas uma vez na vida, uma dúzia de anos atrás, quando tinha nove anos, uma das consequências imediatas da morte da minha mãe. Nossa pequena família viveu em um estado de considerável harmonia durante os primeiros anos da minha infância. Meus pais tinham uma característica marcante que os distinguia dos pais da maioria dos meus colegas de escola: eram afetuosos entre si. Coisas que pareciam naturais na nossa casa — o fato de se despedirem todas as manhãs com um beijo; de se sentarem lado a lado de noite, enquanto liam, em vez de ficarem em aposentos separados; de compartilharem o quarto, rirem juntos e serem generosos na frequência com que se tocavam, contavam piadas ou comentavam quão felizes eram — eram estranhas na casa dos outros. Eu tinha plena consciência desse fato. Nas raras ocasiões em que visitei minhas colegas vizinhas, pude perceber um distanciamento entre os pais, como se não fossem duas pessoas que se conheceram e se apaixonaram, trocaram intimidades e se vincularam em um altar com o intuito de passar a vida juntos, e sim uma dupla de estranhos, companheiros de cela, talvez; jogados em um confinamento compartilhado e com pouca coisa em comum exceto as décadas durante as quais seriam forçados a aturar a presença do outro.
Meus pais não poderiam ter sido mais diferentes em comportamento, mas, se o carinho que tinham um pelo outro era óbvio, nem se comparava com o afeto que demonstravam por mim. Eles não me mimavam; ambos eram anglicanos convictos e confiavam demais em disciplina e autocontrole para que isso fosse possível. De qualquer jeito, deleitavam-se com minha presença e me tratavam com muita bondade; fomos uma família feliz até que, quando eu tinha oito anos, eles me pediram para sentar e informaram que eu teria um novo irmão ou irmã na primavera. Como era de esperar, estavam extasiados — havia muito tempo que queriam a bênção de ter um segundo filho e, com o passar dos anos, começaram a acreditar que não a teriam. Mas, para a grande felicidade dos dois, anunciaram que, em breve, nosso pequeno grupo de três aumentaria para quatro.
Ao pensar naqueles meses, confesso que não me comportei com a dignidade que gostaria. Não senti a mesma alegria que meus pais com a ideia de dar boas-vindas a um bebê em nossa casa. Eu tinha sido filha única por tanto tempo que o egoísmo talvez tivesse se embrenhado no meu coração e se mostrou em crises de desobediência em diversas ocasiões. Comportei-me tão mal, fui tão atipicamente desaforada, que papai me chamou para uma conversa durante o último mês de gestação de mamãe e disse para eu não me preocupar, que nada mudaria, pois havia amor suficiente na casa para ser dividido com um bebê, e que eu olharia para trás algum dia e acharia difícil imaginar minha vida sem esse irmão ou irmã mais novo, que eu logo viria a amar.
Infelizmente, essa perspectiva, com a qual eu começava a me acostumar, não se concretizaria. Mamãe sofreu muito durante o parto, dando à luz uma segunda filha que, dentro de poucos dias, estava dentro de um caixão, acolhida nos braços da senhora que a carregara durante nove meses, sob uma lápide que dizia: ANGELINE CAINE, 1813-1855, AMADA ESPOSA E MÃE, E PEQUENA MARY. Papai e eu agora estávamos sozinhos.
É claro que, considerando o grande amor que ele tinha por minha mãe, sofreu muito para lidar com sua morte, isolando-se no escritório, incapaz de ler, mal se alimentando, sucumbindo inúmeras vezes ao vício do álcool, negligenciando o trabalho, os amigos e, acima de tudo, a mim — situação que, se tivesse continuado, poderia ter levado nós dois a um asilo para os pobres ou à prisão por causa de dívidas. Ainda bem que as coisas melhoraram com a chegada das duas irmãs mais velhas de papai, Hermione e Rachel, que vieram da Cornualha nos visitar sem aviso e ficaram chocadas ao descobrir as condições nas quais agora viviam seu irmão e sua sobrinha. Elas assumiram a tarefa de limpar a casa de cima a baixo, apesar dos protestos de papai. Ele tentou expulsá-las com uma vassoura, como alguém faria com uma praga, mas elas não aceitaram e se recusaram a ir embora até que a óbvia decadência do nosso padrão de vida fosse revertida. Pegaram as roupas e objetos pessoais de mamãe, separaram alguns itens mais preciosos — suas poucas joias, por exemplo, ou um vestido bonito que eu talvez pudesse usar dali a uma década — e distribuíram o restante entre os pobres da paróquia, gesto que provocou a fúria de papai; mas elas, sábias e ponderadas senhoras, mal deram atenção à raiva do irmão e simplesmente continuaram a cuidar das coisas.
“Nós nos recusamos a dar espaço à autopiedade”, elas me disseram quando assumiram o controle da despensa, jogando fora a comida que tinha estragado e substituindo por produtos frescos. “Nunca fomos do tipo que chafurda na adversidade. E você também não deve ser, Eliza”, elas insistiram, sentadas comigo, uma de cada lado, tentando equilibrar a bondade e a compaixão com a reprovação do nosso estilo de vida negligente dos últimos dias. “Sua mãe faleceu e agora está com o Senhor. É uma coisa triste e terrível, mas é o que é. A vida, para você e para nosso irmão, precisa continuar.”
“A vida, para mim, terminou”, respondeu papai, amargurado, de pé na soleira, fazendo com que pulássemos de susto, pois não tínhamos percebido que entreouvia nossa conversa. “Meu único desejo agora é me juntar à minha querida Angeline no lugar escuro de onde nenhum homem volta.”
“Quanta bobagem, Wilfred”, disse tia Rachel, levantando-se e indo até ele, mãos na cintura, a expressão misturando fúria e compaixão, emoções que se digladiavam para ver qual prevaleceria. “Nunca ouvi tanta asneira em toda a minha vida. E você não acha cruel dizer uma coisa assim na frente da criança, que já sofreu uma perda tão terrível?”
O rosto de papai afundou na mais pura miséria — ele não queria me causar mais sofrimento, mas sua dor era tanta que não conseguia resistir ao discurso autocomplacente — e, quando olhei para ele e ele desviou o rosto, incapaz de me olhar de volta, caí no choro, com a sensação nítida de que a única coisa que eu queria era sair correndo para a rua e me afastar o máximo possível daquele lugar, desaparecer na multidão anônima de Londres e me tornar uma indigente, uma nômade, uma ninguém. Antes que eu me desse conta, minhas tias estavam alvoroçadas à nossa volta, criticando-nos e confortando-nos em partes iguais, tentando controlar sua compreensível frustração. Em pouco tempo, ficou claro que papai estava perdido demais no luto para cuidar de mim, e foi decidido que eu iria à Cornualha passar o verão com tia Hermione, enquanto tia Rachel ficaria em Londres para cuidar do irmão mais novo, decisão que se revelou muito sensata, pois passei um verão feliz no campo, aceitando minha perda e aprendendo a lidar com ela, enquanto tia Rachel de alguma maneira resgatou papai das profundezas do desespero e o deixou em condições de voltar a cuidar da própria vida, das responsabilidades e da filha. Quando voltei a Londres no outono e nos reconciliamos, sabíamos que o pior tinha passado. Sentiríamos saudades de mamãe, é claro, e falaríamos sobre ela com frequência, mas nós dois viemos a entender que a morte era um fenômeno natural, ainda que muito triste para os que ficam para trás, mas algo que todos os homens e mulheres precisavam aceitar como o preço que se paga pela vida.
“Receio ter decepcionado você”, disse papai quando estávamos sozinhos em casa outra vez. “Não acontecerá de novo, prometo. Cuidarei de você para sempre, Eliza. Manterei você a salvo.”
Nós nos tornamos uma dupla feliz, mesmo que um tanto resignada, a partir desse dia. Como era de esperar, encarreguei-me das tarefas domésticas. Assumi a preparação da comida e o salário de papai nos permitia ter uma criada duas tardes por semana para todos os outros serviços, uma moça escocesa chamada Jessie que limpava tudo de cima a baixo e reclamava das dores nas costas e da artrite nas mãos, mesmo sendo apenas um ou dois anos mais velha do que eu. Apesar de mal-humorada, eu era grata por podermos pagá-la, pois detestava limpar, e ela assumia essa função.
Na St. Elizabeth’s School, que frequentei quando menina, fui sempre uma excelente aluna e, logo depois de terminar os estudos, recebi uma oferta para um cargo de professora, posição com a qual me identifiquei tanto que se tornou permanente dentro de apenas seis meses. Era um grande prazer cuidar das minhas pequenas alunas, que tinham entre cinco e seis anos; eu ensinava os rudimentos da soma e da ortografia, a história dos reis e rainhas da Inglaterra, e as preparava para as matérias mais difíceis que seriam seus desafios nas mãos calejadas da srta. Lewisham, às quais eu as entregaria, trêmulas e chorosas, dali a doze meses. Era difícil não me apegar às minhas pequeninas. Tinham temperamentos tão agradáveis e tanta confiança no relacionamento que estabeleciam comigo… Mas aprendi cedo que, se eu quisesse progredir como professora — e eu tomava por certo que seria sempre professora, pois um casamento parecia improvável, considerando que não tinha dinheiro nem posição de destaque na sociedade e, o pior de tudo, tinha um rosto que minha tia Hermione disse certa vez ser capaz de azedar leite (“Não digo isso como um insulto, criança”, ela acrescentou ao perceber meu desconforto, deixando a meu cargo decidir qual poderia ter sido sua verdadeira intenção) —, deveria equilibrar afeto com resiliência. Essa noção não me desagradava, no entanto. Eu viveria como uma solteirona, teria minhas meninas para ensinar e as férias de verão para pequenas viagens, talvez — sonhava em conhecer os Alpes franceses ou Veneza, e às vezes eu até me perguntava se conseguiria um trabalho como dama de companhia durante esse tempo —, e cuidaria de papai e da casa. Seria solidária com as inúmeras inflamações de Jessie e perguntaria se ela já tinha limpado os rodapés. Não me preocuparia com pretendentes, e eles decerto não se preocupariam comigo, então eu encararia a vida com seriedade e uma perspectiva positiva. Com tudo isso, estava satisfeita e contente.
A única pequena variação nessas circunstâncias veio com a chegada de Arthur Covan como professor das meninas mais velhas e com quem, como mencionei antes, estabeleci uma amizade especial. O sr. Covan veio até nós de Harrow e cumpria um ano de experiência com ensino antes de seguir para a universidade para ler os clássicos. Ele me fazia rir — era um mímico excelente — e me lisonjeava com sua atenção. Era um moço bonito, um ano mais novo do que eu, com cabelos pretos bagunçados e sorriso fácil. Para minha vergonha, permiti-me as fantasias mais indulgentes sobre como seria se “escapássemos” juntos, apesar de ele nunca ter feito nada para encorajar tais devaneios. E, mesmo quando tudo veio à tona alguns meses depois, quando seu nome estava nos jornais e o público clamava por sangue, ainda não conseguia condená-lo por completo, apesar de nunca mais ter falado com ele, lógico. E, então, ele pôs fim à própria vida. Mas chega desse assunto por enquanto. Estava falando sobre minha função na St. Elizabeth’s, não me entregando a sonhos sentimentais.
Foi somente naquele momento, sem papai, que me ocorreu quão sozinha eu era; perguntei-me se aquele plano simples para meu futuro seria suficiente para satisfazer todas as minhas necessidades. Minhas tias faleceram nos últimos anos. Eu não tinha irmãos para tomar conta e ninguém que tomaria conta de mim; nenhum primo cuja vida poderia me interessar e ninguém que se interessaria pela minha. Estava totalmente sozinha. Se desaparecesse na calada da noite, se fosse assassinada ao voltar da escola um dia qualquer, não haveria ninguém que sentiria minha falta ou questionaria meu sumiço. O que me sobrou foi ser uma figura solitária.
Talvez por isso o anúncio para a posição de governanta em Norfolk parecesse uma oportunidade tão convidativa.
Será que eu deveria ter esperado mais antes de tomar minha impetuosa decisão de ir embora? Talvez. Mas não estava com a cabeça no lugar, tão abalada que fiquei pela tristeza que tomou conta de mim. E uma batida na porta naquela noite foi o ponto final da questão: fui confrontada por um brutamontes que disse se chamar sr. Lowe e que me informou que a casa em que cresci na verdade não pertencia a papai. Éramos apenas inquilinos, afirmação que comprovou com papéis incontestáveis.
“Mas pensei que agora a casa seria minha”, respondi, abismada, e ele sorriu para mim, revelando uma fileira de dentes amarelos e um preto.
“Pode ser, se você quiser”, ele disse. “Mas é este o valor do aluguel e espero receber o dinheiro todas as terças, sem atraso. Seu pai nunca me deixou na mão, que Deus tenha piedade da sua alma.”
“Não tenho esse dinheiro”, respondi. “Sou apenas uma professora.”
“E eu sou um homem de negócios”, ele rosnou. “Se não tem esse dinheiro, é melhor empacotar suas coisas. Ou arrumar um inquilino. Uma moça quietinha, ouviu? Nada de homens. Não admito uma casa de libertinagem.”
Enrubesci, humilhada, e senti vontade de chutá-lo. Não entendi por que papai nunca me contou que a casa não pertencia a ele, tampouco por que nunca pediu que eu contribuísse com o aluguel quando arrumei um emprego. Em outra situação, eu teria ficado aflita com aquilo, mas naquele instante me pareceu apenas mais um infortúnio; mais tarde, depois de me lembrar do anúncio no jornal, escrevi uma carta de apresentação e a coloquei na caixa dos correios nas primeiras horas da manhã seguinte, antes que eu pudesse mudar de ideia. Terça e quarta foram dias atarefados — pus em ordem alguns assuntos de papai e, com a ajuda de Jessie, arrumei seu quarto de maneira que não sobrassem sinais do antigo ocupante. Escrevi ao sr. Heston, do museu, e ele respondeu sem demora, aceitando minha oferta dos livros de insetos e correspondências de papai. Coloquei todos os romances do sr. Dickens em uma caixa e os escondi no fundo de um guarda-roupa, pois não suportaria lidar com eles naquele momento. Na quinta-feira de manhã, chegou uma carta de Norfolk, expressando contentamento por minhas qualificações e me oferecendo o cargo, sem entrevista. Fiquei surpresa, é claro. O anúncio enfatizara urgência, mas, considerando o pouco que H. Bennet sabia sobre mim, eu poderia ser um erro crasso de contratação; ainda assim, ele parecia disposto a colocar o bem-estar dos filhos em minhas mãos.
Como era de imaginar, eu tinha dúvidas se uma transformação tão radical na minha vida seria sensata, mas, com a oferta à minha frente, acreditei que aquela mudança de conjuntura poderia ser bem o que eu precisava; encontrei-me com a sra. Farnsworth em seu escritório na manhã seguinte para entregar meu pedido de demissão, que aceitou com bastante aborrecimento, apontando que eu os estava abandonando em uma situação muito difícil, em pleno ano letivo, e quem é que ela poderia encontrar para ensinar as meninas em tão curto prazo? Aceitei a culpa e usei bastante meu luto, criatura nefasta que sou, para evitar mais repreensões, e enfim ela percebeu que eu não mudaria de ideia e, com relutância, me cumprimentou e desejou o melhor para meu futuro. Naquela tarde, fui embora da St. Elizabeth’s School dividida entre sentimentos de entusiasmo e puro terror.
Quando chegou sexta-feira, menos de uma semana desde que eu e papai seguimos para Knightsbridge sob a chuva torrencial, antes de sete dias inteiros desde o instante em que o sr. Dickens entrou na galeria e descobriu mais de mil de seus fiéis leitores amontoados, emitindo vapores de transpiração, eu tinha fechado nossa casa, despedido-me de Jessie com um pagamento de uma semana extra e agora estava sentada em um trem que seguia para um condado que eu nunca tinha visitado, para trabalhar para uma família que eu nunca tinha visto em um cargo que eu nunca tinha exercido. Dizer que foi uma semana agitada e emotiva seria subestimar consideravelmente a situação. Mas sugerir que foi mais chocante do que os acontecimentos que viriam nas semanas seguintes seria uma grande mentira.