A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 13 de 26

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A casa assombrada

Capítulo 13

 

Se o sr. Cratchett ficou desesperado para me evitar na tarde de domingo, ele parecia resignado com minha visita quando cheguei ao escritório do sr. Raisin na manhã de terça-feira, pouco depois das onze. Eu tinha ido a pé de Gaudlin Hall ao vilarejo, percurso que demorou quase uma hora, mas infinitamente preferível à dresina. Os machucados no meu corpo tinham se aprofundado e mudado de cor, assumindo um tom desagradável aos olhos e uma maciez aflitiva ao toque. Por algum motivo, achei que caminhar talvez aliviasse a pressão sobre os ferimentos. Além disso, eu gostava da ideia de passear — meu ânimo tinha chegado a níveis tão baixos que eu torcia para o ar fresco me oferecer algum estímulo.

Como era de esperar, dormi muito mal na noite de domingo, depois daquele incidente assustador. Não quis descer para conversar sobre o ocorrido com as crianças e me vi na infeliz condição de não ter ninguém com quem falar sobre o assunto. Nenhum amigo, nenhuma família, nenhum confidente que pudesse me ajudar. Desejei ter sido abençoada com um irmão mais velho, alguém que pudesse cuidar dos meus sofrimentos como se fossem seus, ou que minha irmã mais nova, Mary, tivesse sobrevivido para me fazer companhia. Mas não havia ninguém, claro. Eu estava sozinha.

Considerei a possibilidade de trocar de quarto e me mudar para um dos muitos aposentos vagos no segundo ou no terceiro andar da mansão, mas duvidava que o espírito com tanto rancor pela minha presença desistisse por uma alteração tão irrelevante. Afinal, ele tinha tentado me impedir de entrar na casa quando me forçou a descer da dresina; agora tentava me tirar de lá com métodos mais violentos. Pensei em escrever para minha antiga chefe, a sra. Farnsworth, para pedir conselhos, mas mudei de ideia, sabendo que colocar tais angústias no papel me faria parecer uma lunática. Ela responderia que eu estava imaginando coisas ou contaria em segredo para os professores da St. Elizabeth’s que eu tinha começado a beber para aliviar a dor do luto. Mas, mesmo que os outros duvidassem de mim, eu não podia duvidar também, pois os machucados no meu corpo eram prova suficiente do ataque; eram feridas que eu mesma não poderia ter causado, tampouco poderiam ter sido inventadas pelas fantasias de uma mente perturbada.

Por isso, decidi permanecer onde estava. Mas fiquei com medo, claro. Minha vida, assim como a das governantas anteriores, corria perigo. Nas horas mais sombrias da madrugada, quando o temor e a ansiedade ameaçavam me subjugar, cogitei a ideia de fazer a mala e roubar a égua e a charrete de Heckling para seguir até a estação Thorpe e depois para Londres, Cardiff ou Edimburgo — não importava onde. Mas havia uma coisa, ou melhor, duas coisas que me impediram de tomar uma atitude tão drástica: Isabella e Eustace. Eu não podia deixá-los sozinhos com a presença na casa; se ela tinha me ferido — eu, uma mulher adulta —, que mal poderia causar a duas crianças indefesas? Não me sentia corajosa, mas tive bom senso suficiente para saber que não podia deixar Norfolk com a consciência limpa se houvesse alguma chance de eles serem machucados. Até mesmo a srta. Bennet tinha sentido esse peso. Quando chegou a manhã, eu tinha decidido enfrentar aquela experiência, entendê-la — e, se fosse necessário, derrotá-la.

“Srta. Caine”, disse o sr. Cratchett, levantando-se e oferecendo um sorriso obsequioso quando entrei. “Encantando em vê-la.” Ele devia ter se apressado no barbear matinal, pois havia duas marcas de sangue seco no seu rosto, uma acima da boca e outra embaixo do queixo; era algo que não lhe dava nenhuma dignidade.

“Bom dia, sr. Cratchett”, respondi, sorrindo para ele. Não sentia a mesma determinação inabalável de quando o abordei depois da missa; mais uma vez, estava pronta para ser subjugada pelo fato de ali estarem dois homens do mundo, cavalheiros de negócios e propriedade, enquanto eu não passava de uma governanta, dependente do meu cargo para ter o que comer e onde dormir. “Espero que não tenha me considerado muito petulante no domingo”, acrescentei, tentando eliminar qualquer animosidade. “Mas o sr. Raisin se revelou um homem com uma agenda muito cheia.”

“Ah, não se preocupe com isso, senhorita”, ele disse, sacudindo as mãos no ar de um jeito exagerado. “Não tem nenhum motivo para se desculpar, garanto.”

“O senhor é muito gentil”, respondi, segurando-me para não revelar que eu não tinha pedido desculpas, apenas oferecido uma explicação.

“Srta. Caine, eu e a sra. Cratchett já somos casados há quase três anos. Se existe uma condição com a qual estou acostumado é a tendência do sexo frágil a sofrer de ansiedade nervosa.”

Ele fez uma reverência educada e cogitei pegar o grande peso de papel sobre sua mesa — que tinha o formato da Irlanda — e golpear seu crânio. Algum tribunal nesse mundo me condenaria?

“Sim”, eu disse, desviando o rosto e tentando manter a irritação à distância. “Mas espero que o sr. Raisin tenha conseguindo encontrar algum tempo para mim na agenda.”

“Não sem certa dificuldade”, ele respondeu, determinado a deixar claro que ainda estava no comando por ali. “Mas, felizmente, consegui fazer certos, como posso dizer, ajustes nas peças do tabuleiro. Um compromisso daqui movido para lá; uma reunião desta tarde remarcada para outro dia da semana…” Ele mexeu as mãos à minha frente como se estivesse envolvido no processo literal de mover peças. “Em resumo, o que precisava ser feito foi feito. E fico contente de informá-la que o sr. Raisin reservou algum tempo para a senhorita.”

“Obrigada”, eu disse, aliviada. “Devo…?” Indiquei a outra sala com a cabeça, perguntando-me se deveria entrar direto, mas ele fez que não e me conduziu para uma poltrona que não estava ali na minha primeira visita.

“Ele receberá a senhorita em breve”, respondeu o sr. Cratchett. “Por favor, aguarde até ele estar pronto. Receio não ter nenhum material de leitura para senhoras por aqui. O único periódico que recebemos é a edição diária do Times. Tenho certeza de que achará muito tedioso. Só fala de política, crimes e questões relacionadas à economia.”

“Bom, vou dar uma olhada para ver se há alguma notícia sobre as novas tendências em chapéus”, eu disse, sorrindo. “Ou talvez uma receita saborosa ou uma técnica de tricô.”

Ele suspirou, pegou o jornal, entregou-me e voltou para trás da mesa; colocou o pincenê no nariz e retomou seus escritos. Logo depois, a porta se abriu atrás dele e, sem que o dono dela saísse da sala, uma voz chamou o nome do sr. Cratchett; ele, por sua vez, informou-me que eu poderia entrar.

“Srta. Caine”, disse o sr. Raisin quando entrei. Ele estava sentado atrás da mesa, com camisa, gravata e colete, preparando um cachimbo, tentando acender o tabaco no fornilho, o que não parecia estar sendo fácil. Depois de um momento, o fósforo apagou e ele acendeu outro, puxando ar pela piteira até que a brasa, enfim, acendeu.

“Meu tabaco secou”, ele explicou, indicando o sofá encostado na parede; fui me sentar enquanto o sr. Raisin pegou um casaco em um cabide e vestiu, depois se acomodou em uma poltrona à minha frente. Para minha surpresa, senti um conforto extraordinário por estar em sua presença outra vez. “Mas é culpa minha, claro. Deixei na sala ontem à noite e me esqueci de tampar. Sempre que faço isso tenho problemas.”

“Meu pai era um grande adepto do cachimbo”, eu disse, apesar do cheiro da fumaça que vinha do sr. Raisin não ser o mesmo do que papai gostava — pelo que fiquei agradecida, pois tinha certeza de que a memória ativada pelo cheiro característico do fumo de papai teria me arrebatado.

“É um relaxante maravilhoso”, ele comentou, sorrindo para mim. “Sir Walter Raleigh foi um sujeito extraordinário.” Olhei para ele, sem entender, e então me lembrei de que era o explorador que tinha trazido o tabaco para o Novo Mundo. “Você sabia que, depois da execução de Sir Walter”, ele continuou, tirando o cachimbo da boca e apontando a piteira na minha direção, “a viúva carregava a cabeça dele em uma bolsa de veludo para onde quer que fosse?”

“Não, não sabia”, respondi, levantando uma sobrancelha.

“Não acha que é uma coisa inusitada a se fazer?”

“Ela deve tê-lo amado muito”, eu disse, dando de ombros, o que fez o sr. Raisin cair na risada.

“Tenho muito apreço pela minha esposa, srta. Caine”, ele me contou. “Muito apreço. Mas garanto que, se a cabeça dela fosse cortada no Old Palace Yard por traição, eu enterraria com o resto do corpo, não carregaria comigo. Acho um tanto macabro, não concorda? É levar tristeza a um nível absurdo.”

“O luto pode causar reações estranhas nas pessoas”, eu disse baixinho, passando o dedo pela madeira polida da mesa que nos separava. Por algum motivo, senti um nó no estômago com aquelas últimas afirmações e tive uma vontade quase incontrolável de sair correndo da sala e ir o mais longe possível, independentemente de quantas perguntas quisesse fazer. “Nenhum de nós pode ser responsabilizado pelo que faz nesses momentos.”

“Hum”, respondeu o sr. Raisin, pensando no assunto, mas não parecendo convencido. “E o que o seu pai fumava? Ele gostava de Old Familiar, como eu?”

“Johnson’s Original”, eu disse, sacudindo a cabeça, sentindo-me um tanto distraída. “Conhece?”

“Sim. Mas não é meu preferido. Prefiro aromas mais adocicados.”

“O cachimbo de papai cheirava a canela e castanhas”, comentei. “Combinação esquisita, eu sei, mas, sempre que ele acendia, de tardezinha, quando lia perto da lareira, o cachimbo ficava em sua mão e o aroma de canela e castanhas enchia a sala. Dava uma sensação de segurança.”

O sr. Raisin meneou com a cabeça. “A morte foi inesperada?”, ele perguntou.

“Foi uma doença um tanto repentina”, respondi, desviando o rosto e olhando para o tapete. “Causada por exposição ao frio e à chuva.”

“Era um senhor de idade?”

“Não, nem tanto”, eu disse. “Mas a saúde dele não andava boa fazia algum tempo. Eu me culpo por ter permitido que ele saísse naquela noite, com o clima tão ruim, mas ele insistiu. Acontece que íamos para uma leitura de Charles Dickens, que recitaria uma de suas histórias de fantasmas em Londres, bem perto de onde morávamos.”

“Ah, sim”, respondeu o sr. Raisin, abrindo um sorriso que iluminou seus traços já atraentes. “Quem não admira o sr. Dickens? Leu o mais recente? Nosso amigo em comum? É um pouco fantasioso, na minha opinião. Espero que o próximo seja melhor.”

“Não, senhor, não li”, eu disse. “Não recebemos periódicos em Gaudlin Hall.”

O sr. Raisin suspirou. “Então as coisas mudaram bastante desde os tempos áureos daquela casa”, comentou. “O sr. Westerley recebia todos os jornais importantes. E Household Words, claro. Illustrated Times. All the Year Round. Tudo o que você imaginar. Ele era um leitor ávido. Gostava de ficar informado sobre os acontecimentos. Assim como o pai dele. É claro que o problema com o velho sr. Westerley era que ele…”

Ocorreu-me que o sr. Raisin estava jogando conversa fora para passar o tempo. Quanto mais falasse sobre meu falecido pai, Charles Dickens ou a variedade de periódicos disponíveis para aqueles que podem pagar, menos tempo haveria para responder a minhas perguntas. Os minutos passariam, simples assim. Os ponteiros do relógio se aproximariam do meio-dia e, antes que eu me desse conta, seu arrojado assistente estaria ali, conduzindo-me para fora, insistindo que havia muitos outros compromissos agendados para o dia e que meu tempo tinha acabado.

“Sr. Raisin”, eu disse com firmeza, e ele me encarou, arregalando os olhos, com a expressão espantada de alguém que não está acostumado a ser interrompido, muito menos por uma mulher. Ele parecia não saber como lidar com a situação. “Peço desculpas, mas será que podemos ir direto ao assunto? Tem muitas coisas que gostaria de discutir com o senhor.”

“É claro, srta. Caine, é claro”, ele respondeu, recuperando-se. “Tudo está em ordem, não está? Nenhum problema com os pagamentos? Está tendo dificuldades com Heckling?”

“Meus pagamentos estão em dia”, eu disse. “E creio que meu relacionamento com o sr. Heckling é tão bom quanto o de qualquer outra pessoa. Na verdade, achei que nossa conversa anterior — aliás, nossa única conversa — não me levou a conclusões satisfatórias.”

“Em que sentido?”, ele perguntou.

“Sr. Raisin, quando cheguei a Norfolk, eu estava contente com o emprego, contente por ter onde morar. Contente por começar de novo depois de perder meu pai. Agora, vejo que aceitei o cargo sem o planejamento e as considerações necessárias. Eu devia ter feito mais perguntas; mais perguntas deveriam ter sido feitas a mim. Mas cá estamos e não podemos mudar o passado. E, agora que cheguei há algumas semanas, agora que já me acomodei, devo admitir que estou mais…” Tive dificuldade para encontrar a palavra certa.

“Curiosa?”, ele sugeriu. “Inquisitiva?”

“Preocupada”, eu disse. “Houve inúmeros incidentes fora do comum e, para ser sincera, não sei como explicá-los sem que o senhor duvide da minha sanidade. Mas, se me permite, vou deixá-los de lado por um momento e vou me concentrar em questões mais concretas. Sr. Raisin, gostaria de fazer uma pergunta direta e ficaria muito grata se me desse uma resposta direta.”

O advogado concordou devagar com a cabeça e uma expressão de ansiedade tomou conta de seu rosto. Ele talvez tivesse percebido que não tinha nada a ganhar com aquela postura dissimulada. Abriu um pouco os braços e usou o polegar e o indicador para tirar um fiapo de tabaco de entre os dentes da frente antes de recolocar o cachimbo na boca. Uma nuvem de fumaça cinza ocultou seu rosto por um instante. “Faça sua pergunta, srta. Caine”, ele disse, em tom resignado. “Não posso garantir que vou responder. A senhorita precisa entender que sou forçado a manter certo grau de confidencialidade no que diz respeito a meus clientes.” Ele suspirou de leve e pareceu se abrandar. “Mas, por favor, faça sua pergunta. Se puder responder, prometo que o farei.”

“O sr. e a sra. Westerley”, eu continuei. “Os pais das crianças. Onde estão?”

Ele meneou com a cabeça e desviou o rosto. Tive a impressão nítida de que não ficou surpreso com a pergunta, que era exatamente o que esperava.

“Já faz algumas semanas que você está na cidade”, ele disse, em tom inexpressivo.

“Sim.”

“Então me parece um tanto curioso que precise perguntar isso. Passei minha vida toda em Gaudlin, sabe? E sempre considerei as fofocas daqui de primeira linha. Tenho plena confiança de que elas levam informações às pessoas com mais rapidez do que os correios.”

“Pois levantei a questão sobre os pais de Isabella e Eustace com várias pessoas”, eu disse. “Mas, toda vez que faço isso, sou tratada com hostilidade e ouço recusas. Falo nos Westerley e todos mudam de assunto. De repente, estamos conversando sobre o clima, o preço do trigo ou as chances do sr. Disraeli de ser primeiro-ministro. Todo mundo, da moça do café até o vigário, dá a mesma resposta.”

“Que é?”

“Pergunte ao sr. Raisin.”

Ele riu. “Portanto, aqui está você.”

“Sim. Aqui estou eu. Perguntando ao sr. Raisin.”

Ele respirou fundo e se levantou. Caminhou até a janela e olhou para o quintal, onde as folhas de um bordo selvagem estavam ficando avermelhadas em um canto. Havia belas roseiras alinhadas numa área e me perguntei se era ele ou o sr. Cratchett que cuidava delas. Mas decidi não interromper seus pensamentos; supus que naquele instante ele estava decidindo se me contava ou não a verdade e, se eu apressasse a decisão, não descobriria nada. Depois de uma longa pausa, ele enfim se virou, com uma expressão tão séria no rosto que senti como devia ser estar na posição de acusado naquele escritório e ter aquele semblante me encarando.

“O que estou prestes a contar, srta. Caine”, ele começou, “é algo de conhecimento público, portanto não pode haver nenhuma alegação de quebra de confidencialidade. Com toda a sinceridade, estou surpreso que você já não saiba da história, pois foi um escândalo considerável nos jornais há pouco mais de um ano.”

Franzi as sobrancelhas. A verdade era que, apesar de todo o meu discurso, eu nunca lia os jornais. Mantinha-me atualizada sobre isso ou aquilo da política, claro; sabia o nome do primeiro-ministro e do ministro do Interior; conhecia alguns detalhes sobre a guerra na Prússia e sobre a tentativa de assassinato em Kiev — pois foram assuntos discutidos na sala dos professores na St. Elizabeth’s. Porém, fora isso, reconheço que era um tanto ignorante sobre o que acontecia no mundo.

“Os pais das crianças”, ele continuou. “Bom, suponho que deva começar pelo sr. Westerley. Eu o conheço desde que era um menino. Estudamos juntos. Éramos como irmãos. Minha mãe morreu quando eu era apenas uma criança e meu pai me criou sozinho. Como ele trabalhava exclusivamente para o velho sr. Westerley, eu e James fomos colocados na companhia um do outro desde pequenos.”

“Sua história é parecida com a minha”, comentei. “Minha mãe morreu quando eu tinha nove anos.”

Ele concordou com a cabeça e percebi que ficou um pouco menos na defensiva. “Ora, então você sabe como é crescer apenas na companhia do pai. De qualquer forma, James era um menino bagunceiro, mas cresceu e se tornou um rapaz excepcionalmente gentil e atencioso, culto, popular no vilarejo. O velho sr. Westerley era um tanto intratável, mas não havia nada de errado com isso. Quando alguém tem dinheiro e responsabilidades, não fica por aí sendo amigável com todo mundo. Ele tinha planos para que James se casasse com uma menina de Ipswich, filha de um proprietário de terras, mas isso nunca aconteceu. Afinal, não eram tempos feudais. James não aceitaria que lhe dissessem com quem deveria ou não se casar. No fim, como talvez saiba, nem se casou com uma inglesa.”

“Isabella mencionou isso”, comentei. “Ela disse que a mãe era espanhola.”

“Sim, exato. James passou seis meses em Madri — deve fazer uns catorze anos, acho — e se apaixonou por uma moça que conheceu por lá. Mas ela era uma ninguém. A família não tinha nada. Estava envolvida em algum tipo de escândalo sobre o qual seria indelicado falar, mas James não se importava com o passado da família. Ele desejava Santina, era esse o nome dela, e ela parecia desejá-lo também. E foi assim que voltou para Norfolk com aquela moça e a levou para conhecer seu pai. É desnecessário dizer que houve uma grande comoção. O pai proibiu os dois de se casarem, mas era tarde demais, eles já tinham se casado; o anel já estava no dedo da moça. Foi muito incômodo para todo mundo, claro, mas o velho sr. Westerley, por mais severo que fosse, decidiu não romper relações com o filho por causa daquilo e, com o tempo, o perdoou e passou a demonstrar certa cortesia para com a nora.”

“Então não houve nenhuma desavença?”, perguntei.

“Houve”, ele disse. “Mas por pouco tempo. Todos se reconciliaram depois que os ânimos se acalmaram. E é digno de nota que Santina fez um esforço genuíno para se aproximar das pessoas. Ela tratava o velho sr. Westerley com muito respeito; tornou-se amiga dos moradores do vilarejo. Contribuía com a vida do lugar. Durante aqueles primeiros anos, não houve nada de muito extraordinário na vida dos dois. Apesar de estrangeira, ela acabou sendo aceita por todos, e as coisas ficaram bem.”

Meneei com a cabeça, pensando no assunto. Uma estranha, uma estrangeira, em um lugar como este. Morando na mansão. Imaginei que as coisas não deviam ter sido fáceis para a sra. Westerley.

“Você faz parecer um verdadeiro idílio”, eu disse. “Por que tenho a sensação de que está prestes a destruir tudo?”

“Você é muito perceptiva, srta. Caine. Dali a mais ou menos um ano, o velho sr. Westerley faleceu e James herdou tudo. Santina estava grávida na época e, alguns meses depois, quando deu à luz uma menininha, Isabella, tudo mudou. Foi uma coisa extraordinária. Eu me lembro de tê-la visto em Gaudlin alguns dias antes de a criança nascer e depois, quando Isabella tinha uma semana, juro que foi como olhar para uma mulher diferente.”

“Em que sentido?”, perguntei, inclinando-me para a frente.

Ele franziu o cenho e pensou por um instante. Percebi que aquelas eram lembranças que lhe causavam muita angústia e que ele queria ser cuidadoso nas palavras que usava. “Minha esposa comprou um presente para dar as boas-vindas à criança”, ele disse, sentando-se outra vez e olhando diretamente para mim, o rosto marcado pela tristeza. “Um brinquedinho, nada fora do comum. Fomos até Gaudlin Hall para visitar os Westerley e, quando chegamos, Santina estava no quarto, indisposta, e James subiu para buscá-la, deixando eu e minha esposa sozinhos com a menina. Charlotte saiu para ir ao lavabo. Logo depois, Isabella acordou e, talvez com fome, começou a chorar. Você precisa entender, srta. Caine, que tenho filhos. Estou acostumado a lidar com crianças e tenho orgulho de dizer que, ao contrário da maioria dos homens, não me importo de acalmar um bebê chorando. A pequena estava nervosa e por isso, como era de esperar, estendi os braços para pegá-la. Porém, no momento que fiz isso, no momento que a tirei do berço, Santina apareceu à porta e, ao ver o que eu estava fazendo, começou a gritar. Foi assustador. Um guincho diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Não sabia qual era o problema e fiquei congelado, enraizado no lugar, em choque. Até Isabella parou de chorar, tão alto e pavoroso era o som saindo da boca da mãe. Em um instante, James estava no aposento, olhando de um lado para o outro, tentando entender o que estava acontecendo. Recoloquei Isabella no berço e saí, indo para a porta da frente, onde Charlotte me encontrou em seguida. Pedimos que Heckling trouxesse nossa carruagem. A coisa toda foi desconcertante ao extremo. Eu tinha feito alguma coisa para perturbar Santina — mas o quê? Não conseguia entender.”

Eu o encarei. “Tudo o que você fez foi pegar o bebê no colo?”, perguntei.

“Eu juro, foi só isso.”

“Então por que ela ficou tão nervosa?”

O sr. Raisin riu com amargura. “Nervosa? Ela não estava nervosa, srta. Caine. Estava descontrolada. Perdeu todo o controle de si mesma. Alguns minutos depois, James saiu e também estava muito agitado. Ele pediu desculpas e eu pedi desculpas; tolos que éramos, ficamos insistindo em assumir a culpa, até que eu disse que eu e Charlotte precisávamos ir e ele se despediu de nós. Eu e minha esposa voltamos para casa profundamente perturbados com aquela situação, mas depois tentei tirar a coisa toda da cabeça.”

Pensei sobre aquilo. “Você e o sr. Westerley”, eu disse, depois de uma pausa, “eram amigos antes disso, não? Você contou que cresceram quase como irmãos. Ela tinha ciúmes desse afeto, talvez?”

“Acho que não”, ele respondeu, sacudindo a cabeça. “Eu e Charlotte fomos muito hospitaleiros com Santina quando ela chegou à Inglaterra, e ela me falou mais de uma vez que era muito grata a mim por causa disso. Sempre achei que gostávamos muito um do outro, para ser sincero. Até então, nunca tínhamos trocado palavras atravessadas, tampouco tinha havido qualquer momento desconfortável entre nós.”

Ele tirou o cachimbo da boca e o colocou na mesa ao lado. Reparei em um discreto tremor em suas mãos, um nervosismo ao recontar aquela história. No instante seguinte, ele se levantou e foi até um canto da sala, onde havia um pequeno armário de bebidas. “É cedo, eu sei”, ele disse, servindo-se de uísque. “Mas preciso disso. Não falo sobre essas coisas faz muito tempo.”

“Não tem problema”, respondi.

“Gostaria de uma dose?”

Fiz que não com a cabeça e ele consentiu, devolveu a garrafa ao lugar e deu um gole no copo. “Depois disso”, continuou, “tudo mudou em Gaudlin Hall. Santina se tornou uma mulher completamente diferente. Ela não conseguia suportar ficar longe da filha nem por um minuto. Não confiava em ninguém para cuidar da criança. Como era de esperar, James queria contratar uma babá, pois era assim que as coisas sempre tinham sido feitas na família Westerley, mas a mulher não queria, de jeito nenhum. Disse que cuidaria da menina ela mesma.”

“Mas isso é muito natural, claro”, comentei, em minha ignorância sobre coisas que não entendia por completo. “Ela era dedicada à filha. Devia ser admirada por tal dedicação.”

“Não, não foi isso, srta. Caine”, ele respondeu, sacudindo a cabeça. “Já vi dedicação. Minha esposa tem dedicação total a nossos filhos. A maioria das mulheres que conheço tem. A maioria dos homens também, apesar de tentarem esconder com voz grave e postura dominadora. Mas aquilo não era dedicação. Era uma obsessão. Ela simplesmente não deixava nenhuma outra pessoa chegar perto de Isabella. Tocá-la, pegá-la no colo. Cuidar dela. Nem mesmo James. Certa vez, numa noite em que confesso termos bebido deste bom uísque escocês um pouco além da conta, meu amigo me confidenciou que — perdoe-me, srta. Caine, mas devo falar sem rodeios para chegar à verdade — não compartilhavam mais o leito conjugal.”

Desviei o rosto e senti uma angústia repentina por ter ido ao escritório do sr. Raisin. No que me dizia respeito toda aquela história? Por que achava que tinha o direito de saber sobre o funcionamento de um matrimônio cujos envolvidos não tinha nem conhecido? Fui tomada por um ímpeto de levantar, sair da sala, fugir. Não queria saber mais nada. Mas, como Pandora abrindo a caixa e deixando escapar toda a maldade do mundo, eu tinha perguntado ao sr. Raisin onde estavam os pais das crianças, e era isso que ele estava fazendo agora; a caixa não podia ser fechada até que a resposta viesse à tona.

“Quer que eu pare, srta. Caine?”, ele perguntou. “Parece angustiada.”

“Por favor, continue”, eu disse, engolindo em seco, ansiosa com os rumos que a história poderia tomar. “Conte-me o que mais você sabe.”

“Como era de esperar, a relação do casal ficou abalada”, ele prosseguiu. “Por isso, imagine minha surpresa quando, alguns anos depois, Santina ficou grávida outra vez. Eustace. James me confidenciou que houve uma breve reconciliação, que ele exigiu seus direitos como marido, e o resultado foi o segundo filho. As coisas se sucederam como antes. Talvez tenham até ficado piores. A obsessão de Santina pelos filhos tornou-se quase patológica. Ela ficava com eles vinte e quatro horas por dia e fazia ameaças a qualquer um que tentasse intervir. Estava muito doente, claro. Acho que havia alguma coisa errada na cabeça dela. Precisava de cuidados médicos. Talvez tenha sido alguma coisa na infância que a assombrava e magoava… Não sei. Mencionei os boatos sórdidos que ouvi, mas é impossível saber se existe alguma verdade neles.”

“Um escândalo, foi o que você disse”, respondi. “Que tipo de escândalo?”

“Por favor, srta. Caine. É repugnante. Creio que não devíamos falar sobre isso.”

“Eu gostaria de saber.”

Ele me encarou e, por um momento, pensei ter visto lágrimas em seus olhos. “James conversou sobre isso comigo uma vez”, ele disse, enfim, baixinho. “Contou o que Santina tinha contado a ele. Ou melhor, apenas insinuou. Acho que nem mesmo ele conseguiu encontrar as palavras para descrever um comportamento tão cruel e depravado.”

“Você precisa ser mais claro do que isso, sr. Raisin.”

“O pai e o tio de Santina”, ele disse, pigarreando. “Eles eram militares. Parece que se comportavam… como posso explicar… de maneira totalmente inadequada com ela quando ela era pequena. Tomavam as liberdades mais deploráveis. Não apenas criminosas; liberdades que iam contra as leis da natureza. Preciso ser mais claro, srta. Caine, ou já entendeu?”

Concordei com a cabeça, sentindo meu estômago se contorcer. “Entendi perfeitamente, senhor”, respondi, surpresa por minha voz não ter hesitado. “A pobrezinha deve ter sofrido muito.”

“É difícil imaginar”, ele disse. “Conceber que um pai faria uma coisa dessas. E um tio. Não entendo, essa é a verdade. Somos todos animais sob nossas peles, srta. Caine? Mascaramos nossos instintos com palavras bonitas, roupas e comportamento aceitável? Dizem que, se nos entregássemos aos nossos desejos verdadeiros, avançaríamos uns sobre os outros com uma sede de sangue sem precedentes, todos nós.”

O que o sr. Raisin tinha descrito talvez não fizesse parte das experiências da maioria das jovens da minha idade, mas eu sabia mais do que queria sobre aquelas coisas, por causa dos acontecimentos na St. Elizabeth’s, no ano anterior. Meu amigo, o sr. Covan, foi encarregado de ensinar as meninas do intermediário, que tinham cerca de dez anos. Uma dessas meninas, uma gracinha muito reservada cujo nome não hei de registrar, passou de estudante bem-comportada a bagunceira em um período de poucos meses, e ninguém conseguia entender o motivo. Certo dia, ela teve uma crise de violência em sala e tentou atacar o sr. Covan. A menina precisou ser contida e corria o risco de ser expulsa, mas, depois de muito interrogatório, revelou para a sra. Farnsworth um conjunto de circunstâncias que fez com que a polícia fosse chamada e o sr. Covan fosse levado sob custódia naquele mesmo dia. Não houve julgamento, pois o rapaz pôs fim à própria vida, mas foi um episódio chocante, que causou muita angústia a todos os professores, em especial a mim, que tinha desenvolvido sentimentos de afeto por ele; senti-me traída e assustada pela revelação de seu verdadeiro caráter. Mas é claro que isso não foi nada se comparado aos danos causados na menina, que, quando deixei a escola, ainda não tinha voltado a ser como antes e parecia querer causar o máximo de caos que pudesse à sua volta.

“Considero a natureza humana muito perturbadora”, eu disse ao sr. Raisin. “As pessoas são capazes das crueldades mais deploráveis. Se a sra. Westerley sofreu nas mãos da própria família, talvez fosse compreensível que quisesse manter os filhos bem próximos, que não quisesse que ninguém os machucasse.”

“Entendo o desejo de protegê-los, srta. Caine”, ele respondeu. “Mas, por tudo que é mais sagrado, ela mal deixava o pai das crianças pegá-las no colo ou brincar com elas; muito menos outras pessoas. Era uma situação que não podia continuar. Mas continuou. Foi assim durante muitos anos, e todos nós simplesmente nos acostumamos ao fato de haver uma louca morando em Gaudlin Hall. Fomos complacentes, talvez. Pensamos que não era problema nosso. A relação de James e Santina tornou-se um fardo, e ele envelheceu diante dos meus olhos. O pobre homem não sabia como consertar as coisas. Poderia ter ficado assim para sempre, mas as coisas mudaram há cerca de um ano e meio, quando aconteceu um incidente lamentável. Santina estava no parque com Isabella e Eustace e, quando se virou de costas um instante, outra senhora convidou os meninos a se juntar a seus filhos em uma brincadeira de pique. Durante poucos segundos, Santina não os encontrou e ela ficou… Bom, eu já usei a palavra ‘louca’ antes, mas é isso, srta. Caine; é o único jeito de explicar. Perdeu completamente a sanidade.”

Arregalei os olhos. “O que ela fez?”, perguntei.

“Pegou um galho no chão. Um pedaço considerável de madeira, pesado. E espancou a mulher. Bateu e surrou aquela boa senhora. Talvez a tivesse matado, se não fosse pela intervenção de outras pessoas. Foi uma coisa terrível, terrível.” Agora ele estava muito pálido. “A polícia foi chamada, claro, mas, de alguma maneira, James conseguiu impedir que a esposa fosse acusada. Você ainda vai aprender, srta. Caine, que, num lugar como esse, dinheiro e posição social podem comprar muitos favores. O fato é que teria sido melhor para todos se ela tivesse sido levada para a prisão naquele dia. Se tivesse sido assim, a história talvez fosse diferente.” Ele passou a mão nos olhos e suspirou, dando mais um gole no uísque, mais longo dessa vez. “Receio que fique muito angustiante daqui para a frente, srta. Caine. Peço que se prepare.”

“Já está muito angustiante”, eu disse. “Mal consigo imaginar coisa pior.”

Ele riu com amargura. “Pois tente”, respondeu. “Não sei qual foi o acordo que James fez com a polícia, não sei qual conversa teve com a esposa depois do ataque, mas a cegueira que cobriu seus olhos por tantos anos desapareceu — ele enxergou, enfim, quão insalubre tinha se tornado o vínculo de Santina com as crianças. O quanto o amor tinha se estendido para além dos limites naturais e se distorcido a ponto de se tornar obsessão e crueldade. Afinal, você já viu a postura incomum de Isabella. A maturidade combinada com infantilidade. Isso está enraizado em seu relacionamento íntimo com a mãe. De qualquer forma, James insistiu que uma nova relação precisava ser estabelecida. Que Santina não poderia passar o tempo todo com as crianças. Que precisavam de outras influências. Assim, sob objeções da mãe, ele contratou uma governanta. A primeira. Srta. Tomlin. Boa moça. Um pouco mais velha que você, bonita à sua própria maneira. Todos gostávamos dela. Falava francês fluente, mas ninguém deu importância a isso. Eu a via de vez em quando no vilarejo, acompanhada das crianças, e passei a jogar um jogo ridículo comigo mesmo: onde estava Santina? Pois eu sabia que, se olhasse à volta, poderia encontrá-la em algum lugar, escondida, observando, sofrendo. Ainda assim, considerava aquilo uma melhora. Senti que ela estava aprendendo a afrouxar o cordão que a ligava a Isabella e Eustace. E acreditei mesmo — acreditei de verdade, srta. Caine — que seria bom no longo prazo. Afinal, algum dia as crianças cresceriam, se casariam e deixariam Gaudlin Hall. E Santina precisaria estar pronta para esse momento. Mas eu estava muito enganado, claro, pois ela simplesmente não conseguia admitir que seus filhos estivessem sob os cuidados de outra. Em sua linha de raciocínio, durante algumas horas do dia eles estavam em perigo.

“Certa noite, pouco mais de um ano atrás, em Gaudlin Hall, ela foi para a sala enquanto as crianças estavam no andar de cima e encontrou o marido e a governanta conversando. Parecia relaxada, serena. Esperou um momento em que eles não estivessem olhando e pegou o atiçador da lareira — o atiçador de ferro maciço que esteve ali por gerações — e atacou os dois, pegando-os desprevenidos, com tanta fúria quanto a que tinha usado ao agredir aquela infeliz senhora no parque. Só que, dessa vez, não havia ninguém para intervir, e um atiçador, srta. Caine, é uma arma muito mais letal do que um galho.” Ele baixou a cabeça e ficou em silêncio.

“Uma assassina?”, perguntei, sussurrando a palavra maldita, e ele concordou com a cabeça.

“Receio que sim, srta. Caine”, respondeu baixinho. “Assassinato a sangue-frio. Quando penso na adorável srta. Tomlin, em sua juventude, sua beleza… a vida arrancada de seu corpo. A cena em Gaudlin Hall, naquela noite, foi um choque. Como sou advogado da família e amigo de longa data, os policiais que descobriram a carnificina me chamaram e, eu juro, srta. Caine, nunca vou esquecer o que vi. Ninguém deveria testemunhar um massacre como aquele. Ninguém poderia dormir em paz de novo.”

Desviei o rosto, sentindo um grande nó no estômago. Desejei não saber aquela história. Será que não passava de uma fofoqueira medrosa, querendo saber segredos íntimos que, na verdade, não me diziam respeito? Mas já tínhamos ido até ali. Era melhor terminar.

“E a sra. Westerley”, eu disse. “Santina. Ela não ficou em liberdade dessa vez, imagino.”

“Foi enforcada, srta. Caine”, o sr. Raisin respondeu. “O juiz não teve misericórdia, e por que teria? Ela foi pendurada pelo pescoço até morrer.”

Meneei com a cabeça e pus a mão no peito, sentindo os machucados ainda sensíveis.

“E as outras governantas?”, perguntei.

O sr. Raisin sacudiu a cabeça. “Não hoje, srta. Caine”, ele disse, passando os olhos pelo relógio de pêndulo. “Sinto muito, mas preciso parar por aqui. Tenho que estar em Norwich daqui a pouco e talvez necessite de algum tempo para me acalmar antes de sair. Podemos continuar outro dia?”`

Concordei com a cabeça. “É claro”, eu disse, levantando-me e pegando meu casaco. “O senhor foi muito generoso. Sinto que devo pedir desculpas”, acrescentei. “Posso ver como fica angustiado. Receio ter apenas piorado as coisas.”

“A senhorita tem o direito de saber”, ele respondeu, dando de ombros. “E tem o direito de saber o resto também. Mas… não hoje, está bem?”

Concordei outra vez e fui até a porta. Hesitei antes de tocar a maçaneta e me virei para ele.

“Mas é hediondo, não é?”, comentei, tentando imaginar quão pervertido podia se tornar o amor, a ponto de o vínculo natural entre mãe e filhos se transformar em algo tão obsessivo. “Cometer dois assassinatos só para impedir que qualquer outra pessoa se afeiçoe aos filhos. É melhor nem pensar muito no assunto.”

O sr. Raisin olhou para mim e franziu as sobrancelhas. “Dois assassinatos, srta. Caine?”

“Sim”, respondi. “O sr. Westerley e a srta. Tomlin. É hediondo.”

O advogado sacudiu a cabeça. “Desculpe”, ele disse. “Receio não ter sido claro. A sra. Westerley não cometeu duplo homicídio. Apenas a srta. Tomlin morreu naquela noite horrível. Ah, ela queria matar os dois, é claro. E devo dizer que aquela louca quase conseguiu, desculpe o linguajar. Mas, não, o sr. Westerley — James — não morreu. Apesar de que, considerando a vida que tem agora e o estado em que aquela mulher o deixou, talvez tivesse sido melhor ter morrido.”

Eu o encarei. “O sr. Westerley está vivo?”, perguntei, atônita.

“Sim.”

“Então volto para minha primeira pergunta, de uma hora atrás. Perguntei onde estão os pais das crianças. Sei onde está a sra. Westerley, claro. Mas e o sr. Westerley? Onde ele está?”

O sr. Raisin olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido. “Você não sabe?”, perguntou.

“É claro que não”, eu disse, cada vez mais frustrada. “Se soubesse, por que perguntaria? Ele foi embora de Norfolk? Abandonou os próprios filhos?”

“Srta. Caine, James Westerley não abandonaria os próprios filhos da mesma maneira que eu não abandonaria os meus. Ele não saiu de Norfolk desde o dia em que voltou daquela viagem fatídica a Madri. James ainda está aqui conosco. Nunca foi embora. Está em Gaudlin Hall. Está na mansão com você. Desde que você chegou.”