A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 16 de 26

Páginas do PDF

A casa assombrada

Capítulo 16

 

Decidi que nós — eu e as crianças — precisávamos sair de Gaudlin Hall por um dia. Sufocava sob o peso de tantos segredos à minha volta, desvendados apenas quando arrancava a resposta de um dos moradores do vilarejo. Agora entendia por que a governanta anterior, a srta. Bennet, tinha usado uma estratégia tão traiçoeira para encontrar uma substituta. Era provável que ela também tivesse descoberto o destino de suas quatro desafortunadas predecessoras e não suportou ficar ali nem mais um instante. Se ela tinha sofrido tantos “acidentes” quanto eu, era impossível saber. Em meus momentos de maior receio, pensei em fazer exatamente o que ela tinha feito: publicar um anúncio no jornal, usar apenas minhas iniciais para fingir que era o senhor daquela mansão e encontrar alguém para tirar aquele fardo de mim. Afinal, era bastante provável que houvesse várias moças em busca de uma mudança na vida. Assim como a srta. Bennet, eu poderia estar longe de Gaudlin dentro de uma semana, se o destino estivesse a meu favor.

Apenas uma coisa me impedia de recorrer a isso: as crianças. Ou, para ser mais exata, Eustace. Desde o momento em que cheguei e descobri que os descendentes da família Westerley tinham sido abandonados à própria sorte, fui tomada por remorso para cuidar dos dois, sentimento que cresceu conforme me aproximei deles. No caso de Eustace, era algo que já se aproximava de amor, pois ele era uma graça de menino, sempre pronto para oferecer um sorriso ou um comentário divertido; uma criança claramente perplexa com as coisas que aconteciam ao seu redor, que entendia tão pouco do que se passava quanto eu. Já Isabella era um caso mais difícil. Ela era amigável, sempre educada, mas a falta de confiança em mim era óbvia. Nunca baixava a guarda — talvez tivesse baixado no passado e se desapontado — e, por isso, eu não me sentia tão próxima dela quanto do irmão. Havia momentos de tensão entre nós.

Em épocas como aquela, eu me perguntava quão diferente teria sido minha vida caso minha irmã, Mary, não tivesse morrido tão cedo, logo após o nascimento. Será que minha atitude protetora em relação às crianças (e não apenas as Westerley, mas também as meninas que me foram confiadas na St. Elizabeth’s) era resultado de perder uma irmã antes mesmo que ela pudesse ter consciência de que eu existia? Não era um pensamento no qual gostava de me alongar, mas que de vez em quando ficava ali, no fundo da minha mente. Um sussurro de carência que nunca seria silenciado.

Minhas mãos começaram a sarar e a sra. Livermore — a enfermeira Livermore, talvez eu devesse dizer — me ajudou a remover as bandagens pesadas uma semana depois que o dr. Toxley as tinha aplicado. Conforme a gaze foi sendo desenrolada, meu coração ficou cheio de temor; estava muito receosa do que encontraria embaixo. Olhei para o rosto dela e, apesar de tentar disfarçar, uma careta apareceu em sua face, uma expressão de alguém que tinha visto muita coisa desagradável antes, e que aquilo chegava bem perto das piores.

“Como estão?”, perguntei, sem coragem de baixar os olhos, mas ela não era dada a delicadezas.

“Você tem olhos, governanta”, grunhiu. “Veja você mesma.”

Fechei os olhos por um momento, respirei fundo e então olhei para baixo. A pele estava inflamada e sensível depois de uma semana envolta em gaze, e amarelada com restos do bálsamo emoliente que o médico tinha aplicado entre a carne e o tecido. Eu sabia que, com o tempo, parte daquilo sumiria, mas as cicatrizes que ficariam, aqueles sulcos avermelhados e rugosos, nunca desapareceriam, era um fato. A queimadura tinha sido severa. Seriam minhas cicatrizes de Gaudlin. A presença — era assim que eu a definia agora —, a presença estranha, avessa à minha estadia em Gaudlin Hall, tinha me escaldado com tamanha crueldade que eu carregaria aquela desfiguração para sempre. Tentei flexionar os dedos e, para meu alívio, pude fazê-lo, mas com muita dor. Pelo menos ainda tinha sensibilidade. Era melhor sentir dor do que não sentir nada.

“Deixe estar por enquanto”, disse a sra. Livermore, indo até a pia lavar minhas mãos. “Deixe em contato com o ar. A dor vai melhorar logo.”

Como era de imaginar, eu agora tinha pavor da presença. Afinal, ela me fez descer da dresina, jogou-me pela janela do quarto, transformou água gélida em escaldante. Eu acreditava, também, que tinha sido responsável por minha quase queda sob o trem em movimento no dia em que cheguei a Norfolk. Ela sabia quem eu era. Talvez tivesse seguido a srta. Bennet até a estação, reconhecendo-me como a substituta e tentado se livrar de mim antes mesmo que eu pudesse chegar perto da mansão. Sim, admito que estava com medo, mas ainda assim senti força e resiliência, e decidi que não seria vencida por ela.

Eu nunca permitiria que ela machucasse as crianças, apesar de não parecer essa sua intenção.

O dr. Toxley enviou à mansão um pote com um unguento branco e espesso, acompanhado de instruções para espalhar com cuidado nas mãos, de seis em seis horas, durante uma semana, e fiquei muito grata por sua consideração, pois a pomada amenizou a dor e a ardência que ameaçavam se manifestar em intervalos de poucos minutos. Um ou dois dias depois disso, quando me senti suficientemente recuperada do trauma, tive a ideia de fazer uma excursão.

“Não temos autorização para sair”, disse Isabella quando as crianças terminavam o desjejum e contei a elas sobre meu plano. Ela trouxera uma cópia de O peregrino, de John Bunyan, à mesa, e considerei aquilo uma leitura incomum para alguém tão novo. Eu mesma tinha tentado ler um ano antes e considerei uma chatice formidável. “Temos que ficar em casa.”

“Bom, nunca ouvi essa história”, respondi, dando um último gole no meu chá, sem olhar para ela. “Quem disse isso?”

Ela não respondeu, apenas desviou o rosto e continuou a mastigar a torrada, pensativa. Do lado de fora, pude ouvir o cão de Heckling, Pepper, arranhando a porta, choramingando por um instante e depois correndo para longe.

“Não é saudável ficar entre essas paredes o dia todo”, acrescentei. “Um pouco de ar fresco pode fazer maravilhas pelo espírito.”

“Sempre saímos para brincar”, protestou Eustace.

“Sim, claro”, eu disse. “Mas somente no jardim. Não gostariam de uma mudança de cenário?”

“Não”, respondeu Isabella. “Sim, muito”, disse Eustace ao mesmo tempo, o que provocou um olhar furioso da irmã que o fez se encolher um pouco na cadeira. “Eu gostaria, ora”, ele murmurou para ninguém específico.

“Não teremos aula hoje”, eu disse com firmeza, determinada a ser a voz que conduziria aquela conversa. “Faremos uma excursão. Pode ser tão educativo quanto a aula, não acham? Em Londres, no fim do ano letivo, eu sempre levava minhas pequeninas à Câmara dos Comuns para uma tarde de aprendizado, e uma vez tivemos a oportunidade de acompanhar uma das sessões.”

“Uma excursão para onde?”, perguntou Isabella, desconfiada.

“Para o vilarejo, provavelmente”, disse Eustace, agora com uma expressão entediada no rosto.

“Ah, não, nada disso”, respondi, sacudindo a cabeça. “Visitamos o vilarejo o tempo todo. Que tal eu pedir para o sr. Heckling nos levar de charrete até Norwich? Chegaríamos em menos de duas horas e podemos passar a tarde explorando a cidade.”

“O que tem em Norwich?”, perguntou Eustace.

“Muita coisa, tenho certeza”, respondi. Eu nunca tinha estado em Norwich, claro, exceto por minha breve passagem por lá quando o trem chegou à estação, naquela primeira noite. “Provavelmente lojas e parques. Talvez um ou dois museus. Há uma grande catedral na cidade. Li sobre ela em um livro que encontrei na biblioteca do seu pai.” Isabella se virou para mim quando fiz a referência ao pai e seus olhos se estreitaram um pouco. Fiquei constrangida por ter dito aquilo. Ela talvez não quisesse que eu usasse a biblioteca, ou não gostasse de ouvir uma menção ao pai. Acontece que ele era um dos muitos motivos pelos quais eu estava desesperada para sair dali por pelo menos um dia. Por mais que me solidarizasse com o pobre homem — que decerto merecia o alívio de uma morte tranquila e não o terrível encarceramento que vivia na parte mais alta da casa —, ainda assim sentia aversão ao saber que ele estava perto, sofrendo para respirar, esforçando-se para comer, tendo todas as suas necessidades, pessoais ou impessoais, saciadas pela sra. Livermore. Talvez fosse insensível da minha parte, mas eu era jovem. Preferiria que o homem estivesse em um hospital, e não morando sob o mesmo teto que eu, por mais que a casa fosse propriedade dele. Parecia anormal que quatro pessoas morassem ali, mas apenas três convivessem.

“Tem um castelo, também”, continuei. “Guilherme, o Conquistador, encomendou a construção no século XI. Podemos brincar por ali e chamar de aula de história. Você ia gostar disso, não ia, Eustace?”

Ele pensou no assunto. “Sim”, respondeu, enfim, concordando com a cabeça. “Gostaria muito.”

“Então, está decidido.”

“Temos ordens para ficar aqui”, repetiu Isabella.

“Pois não vamos”, insisti, levantando-me e recolhendo o café da manhã. “Então, que tal se arrumarem para ir enquanto converso com o sr. Heckling?”

Pude perceber o olhar penetrante de Isabella, mas decidi não me virar para corresponder. Em vez disso, olhei pela janela, para o jardim, onde uma raposa surgiu de trás de uma das árvores, verificou os arredores e disparou para um arbusto. Atrás de mim, senti a presença se aproximando, um peso começando a se forçar contra minhas costas, primeiro com delicadeza, depois com mais força, pequenos focos de pressão nos músculos; quando me virei, cessou no mesmo instante. Engoli em seco e olhei para as crianças, tentando sorrir, fingindo que nada tinha acontecido. “Então, é isso”, eu disse.

“Se precisamos mesmo ir para algum lugar”, disse Isabella, “eu gostaria de visitar Great Yarmouth. Mas só se precisarmos”, ela acrescentou.

“Great Yarmouth?”, perguntei, surpresa pela súbita declaração de interesse. “Por que lá, especificamente?”

Ela deu de ombros. “Tem praias. Poderíamos fazer castelos de areia. Sempre quis ir, mas nunca fui. A srta. Bennet disse que nos levaria, mas nunca levou. Mentiu para nós.”

Pensei no assunto. Na verdade, Great Yarmouth tinha sido um dos lugares que eu cogitara para a excursão, mas deixei de lado e favoreci Norwich por achar que as crianças talvez gostassem de ver as vitrines na cidade. Mas, agora que Isabella tinha demonstrado algum interesse, achei justo fazer uma concessão, e fiz que sim com a cabeça.

“Então, tudo bem”, eu disse. “É um destino tão bom quanto qualquer outro.”

“Mas o castelo…”, protestou Eustace, seu lábio inferior num bico de decepção.

“Outro dia, outro dia”, respondi. “Temos tanto tempo à nossa frente! Vamos para Norwich na semana que vem, talvez. Hoje, vamos aceitar a sugestão de Isabella e visitar Great Yarmouth.”

E, assim, partimos. Heckling nos levou de charrete até a estação Thorpe; de lá, pegamos um trem para uma viagem curta — não mais do que quarenta minutos —, passando por Brundall e Lingwood, o verde dos pastos ficando para trás a uma velocidade que fez a experiência ser muito relaxante. Uma jovem mãe com dois filhos pequenos entrou no vagão em Acle, e fiquei contente com a chance de ter uma conversa adulta para variar, mas, assim que as portas se fecharam, os dois, um menino e uma menina (gêmeos, pensei), começaram a chorar sem motivo aparente. Isabella e Eustace os encararam enquanto a mãe tentou acalmá-los, mas as lágrimas só secaram quando ela se levantou e saiu do vagão. Com a volta do silêncio, fiquei feliz por vê-los ir embora.

Foi muito agradável reclinar no assento e olhar pela janela, sem precisar conversar com ninguém. Agora tínhamos o vagão inteiro para nós e as crianças se divertiram com um jogo de bolso enquanto eu fitava a paisagem e, de vez em quando, mergulhava em As aventuras de Robinson Crusoé, do sr. Defoe — que, arriscando a reprovação de Isabella, eu tinha pegado outra vez da biblioteca de seu pai.

Era um dia claro e ensolarado; quanto mais nos distanciávamos de Gaudlin, mais ameno parecia o clima. Quando descemos do trem para a plataforma em Great Yarmouth, respirei fundo, enchendo os pulmões de ar fresco. Não tinha percebido quão abafada era Gaudlin Hall até estar longe de lá, e decidi pedir a Heckling, quando voltássemos, para, a partir daquele dia, entrar e deixar algumas janelas abertas durante o dia. (Eu tinha certo receio de abrir janelas desde o incidente no meu quarto, e ficava longe delas.) As crianças também pareciam satisfeitas com a mudança de cenário e reparei que o humor de Isabella estava muito melhor. Ela agora tagarelava sem nenhuma restrição, enquanto Eustace, cujo olhar se perdia na areia e no mar, parecia querer apenas correr e correr até cair de cansaço, como um cachorro acostumado com a própria casa e coleira que, de repente, é solto para a vastidão das montanhas, para o escalar e o descer das rochas, para o prazer da liberdade.

“Só podemos agradecer a você, Isabella”, comentei enquanto caminhávamos na direção da praia, passando por cima de uma pequena cerca de madeira e cruzando as dunas. “Quem precisa da velha e enfadonha Norwich quando podemos ter isso?”

“Ann Williams sempre dizia coisas boas sobre Great Yarmouth”, ela respondeu, tirando os sapatos e afundando os dedos dos pés na areia. Eustace fez o mesmo; peguei seus sapatos e suas meias e guardei na sacola. “Ela teve uma infância muito feliz. Foi o que nos disse, pelo menos. Infâncias felizes parecem ser coisas que você só vê em livros, não acha? Não parecem ser de verdade.”

“Ann Williams?”, perguntei; aquele nome era novo para mim. “Quem é ela? Uma amiga sua?”

“Não, eu não tenho amigos. Você com certeza sabe disso, Eliza Caine.” Desviei o rosto, sem saber como responder. “Ann Williams foi a terceira governanta, depois da srta. Golding, antes da srta. Harkness.”

“Ah”, eu disse. “Entendi.”

“Eu gostava de Ann Williams”, comentou Isabella, virando-se para o oceano. “É tão azul, não é?”, ela acrescentou, fitando o mar, seu rosto se iluminando de prazer, o que era raro. “E as ondas são tão convidativas. Seria muito bom nadar.”

“A srta. Williams brincava de esconde-esconde comigo”, sussurrou Eustace, puxando minha manga. “Ela cobria os olhos, contava até cinquenta e depois vinha me procurar. Nunca me encontrava, claro. Sou ótimo em me esconder.”

“Não tenho dúvida”, respondi, ansiosa para mudar de assunto. A questão das governantas anteriores era algo que eu ainda não tinha desvendado. Achava que seria necessária outra conversa com o sr. Raisin, mas, ao contrário da minha avidez de algumas semanas atrás, tinha adiado tal compromisso, sem saber se queria descobrir a história toda, mesmo sentindo que deveria.

“Trouxe minha roupa de banho”, disse Isabella, virando-se para mim. “Posso entrar?”

“Não vejo por que não”, respondi. “E quanto a você, Eustace? Quer nadar um pouco?”

Ele fez que não e se encolheu perto de mim.

“Eustace não gosta de água”, disse Isabella. “Mas eu sempre gostei. Mamãe costumava dizer que devo ter sido uma sereia em outra época.”

Olhei para ela e percebi que tinha empalidecido um pouco; aquela era uma criança que nunca fazia menção a nenhum dos pais, mas ali estava aquele comentário. Isabella engoliu em seco e desviou o olhar; não tenho a menor dúvida de que sabia que eu estava olhando para ela, mas não quis retribuir.

“Vou me trocar nas dunas”, ela disse, correndo para longe de nós. “Não demoro.”

Eu e Eustace fomos um pouco mais para a frente a fim de dar a ela alguma privacidade e encontramos um trecho agradável de areia branca para sentarmos e vê-la nadar. Ali era o paraíso, com o sol no rosto e a sensação de ar puro marítimo preenchendo os pulmões. Seria ótimo morar lá, pensei. Poderíamos ir à praia todo dia, independentemente do tempo. Lavaríamos a mancha de Gaudlin Hall.

Um momento depois, Isabella passou correndo por nós usando seu traje de banho, e tive uma visão de como ela seria dali a uma década, quando tivesse a mesma idade que eu. Seria muito diferente, claro, pois estava se tornando uma bela mulher, enquanto eu não era nada disso. Seria muito cobiçada pelos rapazes e, suspeitei, partiria muitos corações antes de encontrar um que quisesse amar. Teria de ser um jovem muito especial, pensei, para capturar seu afeto e mantê-lo.

“É gostoso aqui, não é?”, perguntei, e Eustace fez que sim. “Já nadou alguma vez?”

“Uma, quando era pequeno”, ele respondeu. “Não consegui. Ficava com medo sempre que meus pés saíam do chão.”

“Não é tão difícil assim”, eu disse. “Só precisa ter confiança em si mesmo, só isso. Flutuamos naturalmente, sabia?” Ele se virou para olhar para mim, seu rosto formando uma careta de incompreensão. “Boiamos sem precisar fazer esforço”, expliquei. “Existem muitos adultos que dizem não saber nadar, claro, mas você sabia que, se jogasse um bebê no mar, ele nadaria sem nenhuma dificuldade?”

“Por que alguém jogaria um bebê no mar?”, ele perguntou, um tanto aterrorizado pela ideia.

“Ora, não estou defendendo isso”, respondi. “Só quis dizer que, antes de aprendermos a ter medo das coisas, nossos corpos sabem naturalmente como fazê-las. É um dos aspectos decepcionantes de ficar mais velho. Temos mais medo e, por isso, fazemos menos coisas.”

Ele pensou um pouco e depois sacudiu a cabeça, como se fosse tudo muito confuso. Estendendo os braços, pegou punhados de areia e deixou cair devagar sobre as pernas e os pés descalços, esperando até que estivessem cobertos por inteiro antes de levantá-los aos poucos, fazendo com que emergissem como monstros num pântano. Parecia gostar daquilo, pois sorriu todas as vezes.

“Estou contente por passarmos um tempo juntos, Eustace”, eu disse depois de um momento. “Tem uma coisa que gostaria de falar com você.”

Ele não virou a cabeça nem parou a brincadeira, mas percebi que estava me escutando. Pensei na melhor maneira de dizer aquilo; era algo que estava na minha cabeça havia alguns dias e eu tinha esperado uma oportunidade para puxar o assunto.

“Você se lembra do dia em que queimei as mãos?”, perguntei. Ele não disse nada, mas considerei seu silêncio um consentimento. “Você fez um comentário”, continuei. “Sobre um velho.”

“Fiz?”, ele perguntou com inocência.

“Sim, Eustace. Você fez. Foi quando entrou em casa depois de machucar a perna.”

“Eu caí”, ele respondeu, relembrando e agora erguendo a perna direita para examinar o ponto onde estaria a ferida — mas tinha sido um machucado insignificante, apesar do sangue, e já tinha se curado por completo.

“Isso mesmo. Você caiu. Porque viu um velho.”

Ele suspirou, o ar saindo pelo nariz com tanto barulho que fiquei surpresa. Hesitei. Se não queria falar sobre aquilo, talvez eu não devesse questioná-lo. Mas não, decidi, estava ali para cuidar das crianças, para garantir o bem-estar delas, e precisava saber se tinha acontecido alguma coisa que o deixara chateado.

“Eustace”, eu disse. “Está me ouvindo?”

“Sim”, ele respondeu baixinho.

“Fale sobre o velho”, continuei. “Onde você o viu?”

“Ele estava na alameda”, respondeu Eustace. “Entre os dois carvalhos altos.”

“Ele entrou no jardim pelo bosque, então?”

“Não, acho que não. Acho que estava ali, só isso. Parado na alameda.”

Franzi as sobrancelhas. “E você o reconheceu?”

“Não”, ele disse. “Bom, quer dizer, sim, eu já o tinha visto antes, mas não sei quem é.”

“Então não é do vilarejo?”

“Talvez”, Eustace respondeu, dando de ombros. “Eu não sei.”

“Um amigo do sr. Heckling, quem sabe?”

“Talvez”, repetiu.

“E o que ele falou para você?”, continuei. “O velho. Disse alguma coisa que o deixou chateado?”

Eustace fez que não. “Ele não falou nada”, respondeu. “Estava só olhando para mim, só isso. Ou melhor, achei que estava olhando para mim, mas, quando prestei atenção, percebi que — ah, veja! Isabella está acenando para nós.”

Virei o rosto para o mar e de fato ali estava Isabella, acenando em nossa direção. Retribuí o aceno. Ocorreu-me que eu deveria prestar mais atenção nela na água. Mas, observando quando baixou a mão e mergulhou sob a rebentação em um movimento perfeito, percebi que era uma ótima nadadora — sua mãe talvez estivesse certa — e que não teria nenhuma dificuldade.

“O que aconteceu quando você prestou atenção nele, Eustace?”, perguntei, olhando para o menino outra vez. Ele se levantou, espanando toda a areia das pernas, e se virou para mim com uma expressão alarmada no rosto.

“Não quero falar sobre isso”, respondeu.

“Por que não?”

Eustace respirou pesado de novo e, por mais que eu pudesse ver que aquele era um assunto que o incomodava, considerei importante pressioná-lo.

“Se não estava olhando para você”, continuei, “para quem estava olhando? Para a casa? Talvez fosse um ladrão.”

“Não era nada disso”, insistiu Eustace. “Eu já falei, era um velho.”

“Bom, que tipo de velho? Como ele era?”

“Como qualquer outro velho”, ele disse. “Não muito alto. Um pouco curvado. Tinha barba.”

Suspirei. Era uma descrição que serviria para quase todos os velhos que eu tinha visto na vida. “Eustace”, disse, pousando a mão em seu ombro. Ele levantou os olhos para mim, seu rosto pálido tremendo um pouco; pude ver lágrimas se formando em seus olhos. “Para quem estava olhando?”

“Não tinha mais ninguém ali”, ele respondeu, enfim. “Só eu e Isabella. Mas o velho estava olhando para trás de nós e dizendo que ela devia ir embora.”

“Quem devia ir embora?”

“Eu não sei!”, disse Eustace, agora levantando a voz. “Ele só falou que ela devia ir embora. Que não tinha motivo para ficar lá.”

Franzi o cenho. Vislumbrei milhares de pensamentos e explicações correndo pela minha mente, mas o que parecia ser o mais curioso de todos era que o velho, quem quer que fosse, tivesse se dirigido à presença. De que pudesse ver o espírito manifesto fisicamente. Se ele podia, por que eu não?

“Eustace”, eu disse, com a voz firme. “Se encontrar esse velho outra vez, ou se sentir cercado por… como posso dizer… alguém ou alguma coisa que não reconheça, quero que você…”

“Veja”, interrompeu Eustace, levantando a mão e apontando para um ponto distante, de onde uma forma escura parecia se aproximar. Virei-me rápido para o mar e vi Isabella ainda nadando, agora mais perto da areia, e então dei meia-volta outra vez e acompanhei o olhar de Eustace até aquilo que chegava cada vez mais perto.

“É um cachorro”, disse Eustace, baixinho, depois de um instante. “Ele vai nos atacar.”

Levantei uma sobrancelha e observei; o cachorro estava realmente correndo na nossa direção, em alta velocidade. Olhei à volta, pensando que o dono talvez estivesse na praia atrás de nós, chamando o animal, mas não, estávamos sozinhos. Conforme ele chegou mais perto, comecei a ficar insegura e quis virar e correr de volta para a trilha — mas eu sabia que correr de um cão agressivo serviria apenas para encorajá-lo. Seria melhor tentar conquistar sua confiança, deixar claro que não representávamos nenhuma ameaça.

Ele chegou mais e mais perto; agora podia ver seu rosto, e era digno de pesadelos. Um cachorro preto, escuro como a noite, a língua rosada pendurada para fora. Começou a latir enquanto se aproximava, com tanta ferocidade que meu coração acelerou no peito e senti meu fôlego sendo arrancado de mim.

“Não corra, Eustace”, eu disse em tom baixo, envolvendo-o com o braço para protegê-lo. “Aconteça o que acontecer, não corra. Ele não vai machucar você, se ficar bem quietinho.”

“Ele não quer me machucar”, ele respondeu com a voz calma, e olhei para ele, mas seus olhos estavam fixos no cachorro, não em mim. Olhei para o mar outra vez e agora Isabella estava saindo da água, alisando o traje de banho e observando nós dois e o cachorro.

E ele chegou. Parou à nossa frente e se fincou na areia, com um rosnado grave e seco emergindo das profundezas do corpo. Estalactites de saliva escorriam pelos cantos da boca.

“Calma, rapaz”, eu disse, em tom apaziguador. “Calma, cachorro.”

Estendi a mão para acariciá-lo, pensando que isso talvez o convencesse a relaxar, mas, quando o fiz, ele latiu com tanta raiva que retraí minha infeliz mão queimada e apertei meu abraço em torno de Eustace. Isso só serviu para enfurecer a criatura, que começou a espumar e ganir, e então latiu com tanta agressividade que o pânico foi se avolumando dentro de mim. Ele deu um salto para a frente, ainda sem atacar, mas foi um movimento tão inesperado e rápido que eu e Eustace nos separamos e o cachorro ficou entre nós, ignorando o menino por completo e focando toda a sua ira sombria em mim.

“Por favor”, eu disse, sabendo quão ridículo era tentar conversar com um cão que parecia ter perdido o controle dos próprios sentidos — mas o que mais poderia fazer além de implorar, de rogar que me poupasse? “Por favor.”

Vi quando ele arrastou as patas de trás na areia algumas vezes e então afundou o corpo, baixando a cabeça com os olhos fixos em mim, e eu sabia que aquele era o momento. Tinha poucos segundos antes de ele saltar e, quando o fizesse, eu não teria escolha. Seria matar ou morrer. Fiz uma prece rápida em silêncio e ajustei minha posição, pronta para defender minha vida.

“Vá embora!”, veio uma voz de repente e, para meu espanto, Isabella tinha surgido e se colocado entre nós. “Vá embora”, ela insistiu. “Você me ouviu? Saia daqui.”

O cachorro recuou um pouco, começando a ganir em protesto, mas a criança foi implacável. “Deixe-nos em paz!”, ela berrou. “Escutou?”

Não foi necessário repetir. O animal deu meia-volta e, derrotado, trotou para longe, agora a figura perfeita de um cachorro obediente e gentil. Desmoronei na areia, assombrada pelo que tinha testemunhado, e Isabella se virou para mim, vendo-me ali no chão, seu rosto uma mistura de reprovação e desdém.

“Não tem medo de cachorro, tem?”, ela perguntou. “Eles só precisam saber quem está no comando.”