A casa assombrada
Capítulo 22
Quando a noite chegou, eu estava convencida de que não havia a menor chance de o espírito de Santina Westerley me deixar em paz enquanto vagasse entre a vida e a morte. Poderia sobreviver a inúmeros ataques, como já tinha feito, mas, sem dúvida, era apenas uma questão de tempo até ela me pegar desprevenida e alcançar seu objetivo. Será que eu a veria quando partisse deste mundo para o próximo? Será que nossos trajetos se cruzariam por ao menos um instante, como tinha acontecido com Harriet Bennet na estação ferroviária Thorpe, seis semanas antes? Ou eu apenas desapareceria para o nada e ela continuaria à espera da próxima vítima?
Tentei imaginar se minhas antecessoras tinham lutado com tanta perseverança quanto eu; se tinham sucumbido ao medo ou decidiram enfrentar o que as atormentava. Elas tinham contra-atacado? Chegaram a descobrir quem era a agressora? Considerei improvável. De qualquer maneira, ainda havia esperança para mim, pois tinha certeza de que possuía algo com que não contaram: um espírito protetor.
Depois do ataque no corredor, fiquei largada no chão, trêmula; por quanto tempo, não sei. Estava assustada, claro, mas identificar quem era a presença e o motivo de tanto ódio por mim eliminou um pouco do horror daqueles encontros — eu a entendia, pelo menos. Agora era apenas uma questão de sobrevivência. Mas o cheiro de canela que perdurou no corredor me deixara espantada, emotiva e terrivelmente amedrontada. Pensei em Eustace e seus encontros com o velho; enfim, ficou evidente quem era meu benfeitor.
Chorei ali, deitada, e senti uma angústia diferente de tudo o que sentira desde a primeira vez que entrei em Gaudlin Hall. Será que papai, assim como Santina Westerley, não tinha partido desta existência? Era ele quem estava me protegendo naquele lugar terrível? Parecia não haver outra explicação e, ainda assim, aquilo me deixou pesarosa; imaginar a dor de papai, sua solidão, sua incapacidade de se comunicar comigo. Qual tinha sido mesmo sua promessa quando voltei da Cornualha, ainda menina, e ele conseguiu ficar em paz com a morte de mamãe? Cuidarei de você para sempre, Eliza. Manterei você a salvo. De alguma forma, ele conseguia se comunicar com Eustace, mas não comigo. Eu não sabia por quê. Será que a alma dos mortos tinha mais facilidade de se manifestar para as crianças? Eu não suportava mais esse tipo de mistério. Se quisesse sobreviver, não tinha escolha. Precisava provocar uma reação do fantasma. Precisava pôr um fim àquilo.
Quando me recuperei, fui para a escrivaninha no antigo escritório do sr. Westerley e, depois de vasculhar algumas gavetas, encontrei um bloco e envelopes timbrados com a insígnia de Gaudlin Hall. Peguei uma caneta-tinteiro na escrivaninha e comecei a escrever. Quando terminei, levantei-me e fui para o centro do aposento. Li em voz alta a carta que tinha escrito, falando com toda a robustez de oratória que encontrei dentro de mim, tentando me igualar à autoconfiança de Charles Dickens quando ele se dirigiu ao público na galeria perto de Knightsbridge, não muito tempo antes. Enunciei cada palavra com clareza para que não houvesse nenhuma dúvida das minhas intenções.
Prezado sr. Raisin [comecei],
É com profunda tristeza que solicito minha demissão como governanta de
Gaudlin Hall.
Prefiro não entrar em detalhes sobre os motivos da minha partida. Basta
dizer que as circunstâncias aqui se tornaram insustentáveis. Ademais, creio
não ser um lugar adequado para crianças e, com isso em mente, decidi levar
Isabella e Eustace comigo para meu próximo destino, o qual não posso
revelar. Por razões que hei de explicar em outra oportunidade, prefiro não
registrar tal localidade em uma carta. Basta dizer que, quando estivermos
instalados, escreverei novamente.
Garanto ao senhor que as crianças serão bem cuidadas. Assumirei sozinha a
responsabilidade pelo bem-estar delas.
Peço desculpas pelo aviso repentino, mas, assim que esta carta for enviada
ao senhor, farei as malas, pois partiremos pela manhã. Quero agradecê-lo pela
consideração que demonstrou por mim durante minha estadia e espero que
me tenha sempre como sua amiga,
Eliza Caine
Cheguei ao fim da narração e aguardei um instante. Esperava fúria. Houve um pequeno movimento nas cortinas, mas nada que me fizesse pensar que a presença entrara no aposento e se preparava para atacar; podia ter sido apenas a brisa. Ainda assim, acreditava que, onde quer que a presença estivesse, onde quer que Santina estivesse, ela tinha ouvido minhas palavras e calculava o próximo passo.
Coloquei a carta dentro de um envelope e saí para o jardim com um xale em volta do corpo, pois agora o vento se intensificava. Tinha escurecido, mas a lua estava cheia. Segui para o casebre onde morava Heckling. Sua égua estava num dos estábulos, a cabeça alongada me examinando conforme passava, os olhos encontrando os meus. Hesitei, recordando que aquele mesmo cavalo tinha sido possuído pelo mal enquanto perseguia a srta. Bennet. Tive medo de ela se soltar das cordas e me acossar; se o fizesse, creio que minhas chances de sobrevivência seriam mínimas. Mas a égua parecia calma naquela noite e, conforme passei, ela apenas rinchou baixinho e voltou a mascar feno.
Ao bater à porta do chalé, lamentei não estar com meu casaco, pois esfriara bastante; meu corpo tremia enquanto esperava a porta ser aberta. Quando isso enfim aconteceu, ali estava Heckling, com roupas de descanso, iluminado por duas velas altas atrás dele, efeito que o fez parecer de outro mundo. Não aparentava estar muito contente por me ver.
“Governanta”, ele grunhiu, tirando um fiapo de tabaco dos dentes.
“Boa noite, sr. Heckling”, eu disse. “Desculpe por ser tão tarde, mas tenho uma carta que precisa ser entregue.”
Estendi o envelope e Heckling o pegou, conferindo-o sob a luz da lua para ver o nome. “Sr. Raisin”, ele murmurou. “Está bem. Entrego amanhã de manhã.”
Fez menção de voltar para dentro, mas eu o impedi, estendendo a mão para tocar seu cotovelo. Ele se virou outra vez, surpreso com a intimidade do gesto. Por um instante, achei que fosse me bater, e dei um passo para trás, receosa.
“Desculpe, sr. Heckling”, eu disse. “Mas é uma mensagem de grande importância. Precisa ser entregue hoje.”
Ele me encarou como se não conseguisse acreditar no que eu tinha dito. “Já é tarde, governanta”, respondeu. “Só presto pra dormir.”
“Como eu disse, peço desculpas por isso. Mas receio ser inevitável. Não posso esperar até amanhã. Preciso que leve para o sr. Raisin imediatamente.”
Heckling respirou fundo, puxando ar das profundezas do peito. Era evidente que queria apenas ficar em paz na frente da lareira, o cachimbo na boca, talvez uma caneca de cerveja por perto, sozinho com os próprios pensamentos, independentemente do que acontecesse no mundo lá fora.
“Está bem”, ele disse, enfim. “Se é tão importante, eu levo. Devo esperar a resposta?”
“Apenas tenha certeza de que o sr. Raisin lerá na sua frente, no ato da entrega”, respondi. “Acredito que a resposta será imediata. Obrigada.”
Ele apenas grunhiu ao entrar no chalé para buscar as botas.
Voltei para a casa e girei a maçaneta da porta, mas, ao tentar abri-la, uma força maior parecia empurrá-la do outro lado. Meu acesso era negado. Acima da minha cabeça, ouvi o som de uma gárgula do telhado da mansão se soltando e despencando; fui forçada a pular para fora do caminho conforme atingiu o chão, seu volume pesado de pedra estilhaçando-se em centenas de pedaços. Conforme as pedras menores foram jogadas para cima pelo impacto, uma acertou minha bochecha e gritei ao apertar a mão contra o rosto. Não saiu sangue. Se a gárgula tivesse caído em cima de mim, decerto teria morrido na mesma hora. Mas não estava morta. Ainda não. Esperei, acuada contra a parede, enquanto mais restos do telhado caíram no chão à minha frente. Harriet Bennet estava certa; o estado de deterioração era avançado. Quando a chuva de pedras cessou, fui mais uma vez para a porta da frente, esperando que a força continuasse a me manter fora, mas, dessa vez, ela se abriu com facilidade e corri para dentro, perdendo o fôlego, fechando-a atrás de mim. Fiquei ali por um tempo, esforçando-me para recuperar o ar. Será que tinha perdido a sanidade? Será que aquele esforço todo era uma loucura? Duvidei que veria a luz do dia outra vez, mas perseverei. Eu ou ela poderíamos morar em Gaudlin Hall — mas não as duas.
Subi as escadas e fui para a sala de vestir das crianças, onde um guarda-roupa e uma cômoda na parede esquerda continham todas as vestimentas e os sapatos de Isabella, enquanto um conjunto igual de móveis, do lado direito, continha as coisas de Eustace. Em um canto, estavam algumas malas; escolhi duas e comecei a enchê-las com roupas das crianças.
“O que está fazendo?”, perguntou uma voz atrás de mim e me virei, assustada. Isabella e Eustace estavam à porta, ambos de pijama e com cara de sono, segurando uma vela.
“Ela está nos abandonando”, disse Eustace, com voz chorosa, abraçando a irmã em busca de consolo. “Não falei que ia embora?”
“Que pena”, respondeu Isabella. “Mas até que durou bastante, você não acha?”
“Não vou abandonar você, meu querido”, eu disse, indo até ele, acolhendo seu rosto com as mãos e dando um beijinho. “Nunca vou abandonar vocês, nenhum dos dois. É importante que entendam isso.”
“Então, por que está fazendo as malas?”
“Ela não está fazendo as malas dela, Eustace”, disse Isabella, entrando no quarto e vendo as roupas separadas. “Não percebe? São as nossas malas.” Ela franziu o cenho por um instante e se virou para mim. “Mas não faz sentido”, continuou, depois de um tempo. “Vamos para algum lugar? Você sabe que não podemos sair de Gaudlin Hall. Não temos permissão. Ela não vai deixar.”
“Ela quem?”, perguntei, desafiando Isabella sem rodeios dessa vez.
“Ora, mamãe, claro”, a menina respondeu, dando de ombros como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Só pode cuidar de nós aqui.”
“Sua mãe está morta”, supliquei, segurando a menina pelos ombros e a sacudindo, frustrada. A sombra de um sorriso passou por sua boca. “Entende isso, não entende, Isabella? Ela não pode mais tomar conta de vocês. Mas eu posso. Eu estou viva.”
“Ela não vai gostar”, respondeu Isabella, desvencilhando-se de mim e voltando apressada para a porta; Eustace fez o mesmo em seguida. “Não vou com você, Eliza Caine, não importa o que diga. E Eustace também não. Não é mesmo, Eustace?”
Ele olhou de uma para a outra, sem saber com quem estava sua lealdade. Mas eu não tinha tempo para aquilo — afinal, não era minha intenção levar as crianças embora de Gaudlin Hall. Precisava apenas dar essa impressão. Ela tinha que acreditar que era esse o meu plano.
“Para a cama, vocês dois”, eu disse, fazendo um gesto de mão para dispensá-los. “Conversamos daqui a pouco.”
“Tudo bem”, respondeu Isabella, sorrindo para mim. “Mas não será de nenhuma utilidade. Não sairemos daqui.”
Eles voltaram para o quarto e fecharam a porta. Fiquei no corredor, respirando com hesitação, permitindo que meu corpo relaxasse por um instante.
Assim que o fiz, um par de mãos geladas envolveu minha garganta e arregalei os olhos, apavorada, conforme fui empurrada para o chão. Senti um corpo sobre o meu, um peso extraordinário, mas nenhuma presença física era visível no corredor. Estava escuro, claro, havia apenas uma vela acesa na parede mais adiante, mas eu sabia que, mesmo sob a claridade do sol de um meio-dia de verão, não veria ninguém. Seria apenas eu, jogada no chão, meu rosto contorcido, minhas mãos se debatendo no ar enquanto tentava me soltar do domínio daquele monstro.
Tentei gritar por ajuda, mas nenhuma palavra saiu, e as pernas do corpo sobre o meu imobilizaram as minhas, um joelho se forçando contra meu abdômen, o que provocou dor lancinante no meu peito. Achei que ela me despedaçaria, dividiria meu corpo em dois; perguntei-me se aquele seria o momento da minha morte conforme as mãos se fecharam mais e mais em volta do meu pescoço, cortando minha respiração, fazendo o mundo ficar cada vez mais escuro.
Um som formidável veio do ar, um rugido de reprovação, e a presença foi arrancada de cima de mim. Ouvi um grito, um grito feminino, quando o segundo espírito a empurrou contra a parede; em seguida, fez-se ouvir o ruído de um corpo caindo pela escada. E, então, silêncio. Silêncio completo.
Com ele, veio o cheiro de canela no ar. Não pude mais evitar a pergunta.
“Papai?”, berrei. “Papai, você está aí? É você mesmo?”
Mas agora tudo era silêncio, como se nenhum dos espíritos estivesse presente. Tossi e tossi, tentando limpar minha garganta, mas estava terrivelmente machucada, assim como meu peito. Pensei que a presença talvez tivesse rompido alguma coisa dentro de mim e que, naquele mesmo instante, o sangue jorrava de algum vaso essencial, iniciando uma hemorragia que findaria minha vida. Mas não havia nada que pudesse fazer sobre aquilo naquele momento. Deixei as malas das crianças no patamar e subi as escadas até meu próprio quarto.
As paredes do meu corredor eram decoradas com pinturas e, enquanto passava, elas se ergueram de seus ganchos, uma a uma, e despencaram para o chão, o que me fez gritar e correr. Uma delas voou na minha direção, errando por centímetros, e continuei a correr, escancarando a porta e a fechando atrás de mim, tentando ignorar o pensamento de que aquilo não faria a menor diferença — afinal, a presença não precisava se preocupar com portas. Talvez já estivesse ali. Talvez já estivesse à minha espera.
Mas tudo estava quieto no quarto. Tive outro acesso de tosse e, depois que passou, me sentei na cama, tentando pensar no que faria a seguir. Estava contando com uma única coisa: que a presença me atacaria com tanta violência que o segundo espírito, a alma do meu próprio pai, colocaria um fim a suas ações. Não sabia nem se aquilo era possível. Ela tinha sido executada uma vez e continuara ali; talvez não pudesse ser morta de novo. Talvez fosse imortal. E como eu poderia ter certeza de que papai era mais forte do que ela?
Um estrondo descomunal arrancou a janela da parede, jogando-a para fora da mansão e lançando-a do segundo andar para o chão lá embaixo, o ruído de vidro se estilhaçando em mil pedaços competindo com o som do vento e com o grito que emergiu da minha boca. Meu quarto agora estava exposto às intempéries. Corri para a porta em uma tentativa de fuga, mas fui empurrada para trás e fiquei presa entre as duas presenças, o fantasma de Santina à minha frente e o de meu pai atrás. Berrei ao me debater para escapar, mas eles eram poderosos demais para mim; sua força ia muito além da força humana. Como a mais fraca dos três, de algum jeito consegui escorregar entre seus corpos e fui até a porta, pela qual passei correndo, batendo-a atrás de mim. O corredor estava destruído. Todas as pinturas jaziam no chão, em pedaços; o tapete tinha sido erguido e estava torcido e rasgado. O papel de parede descascava e as pedras mofadas e apodrecidas atrás dele vazavam algum tipo de substância viscosa primal. Dei-me conta de que ela estava furiosa com minha recusa de morrer e se preparava para destruir tudo. Se meu plano fosse provocá-la à ira, eu certamente teria conseguido. Corri para o fim do corredor e abri a porta, sem saber para onde ir.
Fiquei frente a frente com as duas escadas.
A primeira levava ao telhado, um lugar perigoso demais para eu me aventurar; a segunda, ao quarto do sr. Westerley. Gritei de um jeito patético. Nunca devia ter ido naquela direção. Devia ter descido as escadas e saído para o jardim. A presença era mais poderosa e mais violenta dentro da mansão; quanto mais longe eu pudesse chegar, mais segura estaria. Olhei para trás, para a porta do meu quarto, de onde ouvi um rugido potente, um furor de combate; senti que, se passasse por ali outra vez, ela saberia — e eu acabaria no meio de uma guerra da qual talvez nunca saísse com vida. Por isso, dei meia-volta, tomei uma decisão repentina e subi as escadas, abrindo a porta no topo e batendo-a atrás de mim.