A casa assombrada
Capítulo 24
Os funerais aconteceram três dias depois.
Nesse meio-tempo, Eustace mergulhou em silêncio e ficou o mais perto de mim que podia, sem dizer uma única palavra. Se eu saísse de um aposento, ele ia para a porta e esperava pela minha volta, como um cachorrinho fiel, e insistia em dormir na minha cama. Inicialmente, o sr. e a sra. Raisin se ofereceram para cuidar dele, e os Toxley se dispuseram a me receber em seu quarto de hóspedes. Aceitei a oferta com gratidão, mas Eustace deixou claro que para onde eu fosse ele iria também. Portanto, fomos nós dois para a casa de Madge Toxley, que fez tudo o que pôde para manter o clima leve.
Ao contrário do menino de oito anos sob minha responsabilidade, não fui acometida por um grande trauma relacionado aos eventos ocorridos. As emoções negativas associadas a eles se dissiparam naquelas últimas horas em Gaudlin Hall. O fluxo de adrenalina provocado por enfim derrotar o fantasma de Santina Westerley talvez tivesse me munido com uma coragem que nunca acreditei possuir. Eu sabia — soube naquela mesma noite, quando o marido de Santina despencou para a morte e ela desapareceu com ele — que a presença tinha partido para sempre; que seu espírito, de alguma maneira, estava conectado ao dele. Santina o mantivera vivo por uma razão, sabendo que a lei a condenaria à morte pelo que tinha feito com a srta. Tomlin. Portanto, eu não temia seu retorno e pude dormir com tranquilidade; era acordada apenas pela agitação de Eustace perto de mim, cujos sonhos, imaginei, não eram tão pacíficos quanto os meus.
Tentei conversar com ele sobre Isabella, mas Eustace apenas fez “não” com a cabeça; acreditei ser mais sensato não pressioná-lo sobre o assunto. Quanto a mim, chorei por Isabella na noite da sua morte e no funeral, quando ela, em um caixão branco, foi entregue à terra, ao mesmo túmulo dos pais. A noção de que estavam juntos outra vez e ficariam assim pela eternidade serviu como um pequeno consolo. Isabella sempre pareceu no controle de suas emoções, uma criança introspectiva, mas creio que tinha sofrido uma grande perda psicológica por causa das ações violentas e consequente morte da mãe, trauma que nunca poderia ter sido curado. Foi uma tragédia, uma verdadeira tragédia, mas ela tinha partido e Eustace estava comigo; precisava concentrar meus pensamentos nele.
“Há uma escola muito boa”, disse o sr. Raisin na sala de estar de Madge Toxley, no dia seguinte ao funeral, quando veio me visitar. Tinha trazido consigo um novo cãozinho, um king charles spaniel brincalhão com cerca de dois meses, e convencemos Eustace a sair com o animal e jogar alguns gravetos para ele buscar. Fiquei atenta, observando-o pela janela, mas Eustace parecia estar de bom humor e apreciar a companhia canina; tive a impressão, inclusive, de tê-lo visto sorrir e dar risadas pela primeira vez desde que o conheci. “Fica perto de Ipswich. Um colégio interno chamado St. Christopher’s. Já ouviu falar, srta. Caine?”
“Não, não conheço”, respondi, sem entender por que estava me dizendo aquilo. Será que tinha ouvido falar sobre uma vaga de emprego e pensou que seria uma boa opção para mim?
“Acho que pode ser a solução.”
“Solução para quem?”, perguntei.
“Ora, para Eustace, claro”, ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Tomei a liberdade de fazer um contato inicial com o diretor, que concordou em receber o menino para uma entrevista. Se Eustace causar uma boa impressão, e não tenho dúvida de que causará, será aceito para o início do próximo ano letivo.”
“Tive uma ideia bem diferente”, eu disse, tomando cuidado ao escolher as palavras, sabendo perfeitamente que não tinha nenhum direito sobre o menino.
“Teve?”, ele perguntou, levantando uma sobrancelha. “Que tipo de ideia?”
“Pretendo voltar para Londres”, eu disse.
“Para Londres?”
Impressão minha ou detectei uma sombra de decepção em seu rosto?
“Sim, daqui a alguns dias. Espero que haja uma vaga para mim na minha antiga escola. Sempre tive um bom relacionamento com a diretora, então, com sorte, ela talvez me aceite de volta. E gostaria de levar Eustace comigo.”
O sr. Raisin olhou para mim, espantado. “Mas não é uma escola para meninas?”
“Sim”, admiti. “Mas há uma escola para meninos do outro lado da rua. Eustace poderia estudar lá. E morar comigo. Eu tomaria conta dele. Como tenho feito nas últimas seis semanas”, acrescentei.
O sr. Raisin pensou no assunto por um momento e coçou o queixo. “É uma grande responsabilidade”, disse, enfim. “Tem certeza de que quer assumi-la?”
“Absoluta”, respondi. “Na verdade, sr. Raisin, não consigo imaginar deixá-lo para trás. Acho que passamos juntos por uma situação marcante, nós dois. Eu o entendo tão bem quanto é possível. Acho que Eustace tem um período difícil e doloroso à frente e gostaria de ajudá-lo a superar esses dias sombrios. Posso ser uma mãe para ele, se a lei — se você — permitir.”
O sr. Raisin meneou com a cabeça e fiquei contente de ver que não parecia tão contrário à ideia. “Haveria a questão do dinheiro”, ele disse, depois de um momento, estreitando os olhos. “A casa pode ter desmoronado, mas o terreno ainda vale muito. E o sr. Westerley tinha bons investimentos. Esse dinheiro é parte do espólio e, algum dia, será de Eustace.”
“Não preciso de dinheiro”, respondi no mesmo instante, para tranquilizá-lo. “Tampouco Eustace. Tome conta da herança até que ele faça dezoito anos, ou vinte e um, ou vinte e cinco, seja qual for a idade estipulada no testamento do pai, e administre-a com sua atenção e competência de sempre. Enquanto isso, eu e ele podemos viver confortavelmente com meu salário. Sou uma mulher comedida, sr. Raisin. Não preciso de luxos na vida.”
“Bom, ainda precisamos considerar a questão do seu salário”, ele acrescentou. “Podemos continuar a…”
“Não”, eu disse, sacudindo a cabeça. “É generoso da sua parte, mas, se recebesse um salário, estaria mais uma vez na posição de governanta de Eustace, uma funcionária paga. Em vez disso, gostaria de ser a guardiã dele. Se for deixá-lo mais calmo, talvez eu e você possamos ser guardiões juntos. Eu o consultaria com prazer sobre assuntos importantes relacionados à criação dele. Aliás, seu aconselhamento seria muito bem-vindo. Mas não quero nenhum pagamento. Caso ache apropriado colaborar com os livros dele e esse tipo de coisa, estou certa de que podemos chegar a um acordo. Fora isso, não creio que a questão financeira seja motivo de preocupação.”
O sr. Raisin fez que sim com a cabeça e pareceu contente, estendendo a mão para me cumprimentar. Levantamos e sorrimos um para o outro. “Ótimo”, ele disse. “Estamos em perfeito acordo. E, se me permite dizer, srta. Caine, acho que ele é um menino de muita sorte. De muita, muita sorte. A senhorita é uma mulher incrível.”
Ruborizei, desacostumada a receber elogios como aquele. “Obrigada”, eu disse, conduzindo-o para a porta. Do lado de fora, o sr. Raisin assobiou para o cãozinho, que olhou tristonho para Eustace.
“Parece que ele gostou de você”, o sr. Raisin comentou, e então se virou para mim. “Então, creio que é adeus. Sentirei falta das suas visitas não anunciadas ao meu escritório, srta. Caine.”
Ri. “Tenho certeza de que o sr. Cratchett ficará contente de me ver indo embora”, respondi, e ele sorriu. Nossos olhos se encontraram e ficamos assim por alguns momentos. Havia mais a ser dito, claro, mas nada que pudesse ser expresso em palavras. O que quer que fosse, precisaria ficar ali, em Gaudlin.
“Conversaremos em breve, sem dúvida”, o sr. Raisin disse, enfim, suspirando ao se virar para partir e fazendo um gesto de despedida com a bengala. “Envie seu endereço em Londres quando o tiver. Precisaremos nos comunicar com frequência nos próximos anos. Adeus, Eustace! Boa sorte, garoto!”
Observei conforme ele desceu pela alameda e o cachorro o seguiu por um instante, antes de parar e olhar para trás, para Eustace. Ele se sentou nas patas traseiras, olhou para seu dono e então para o menino outra vez. O sr. Raisin se virou e viu o que estava acontecendo.
“Então é assim que vai ser”, ele disse, com um sorriso.
Na segunda-feira seguinte, voltei para a St. Elizabeth’s School e bati à porta da sra. Farnsworth.
“Eliza Caine”, ela disse, deixando-me perturbada por usar meu nome completo; aquilo me trouxe à cabeça Isabella, que sempre gostou de fazer o mesmo. “Que surpresa.”
“Desculpe incomodar”, respondi. “Será que a senhora tem um momento para conversar?”
Ela concordou com a cabeça e fez um gesto para eu me sentar. Expliquei que o cargo em Norfolk não tinha sido o que eu esperava e que decidira voltar a Londres.
“Que eu me lembre, avisei que você estava tomando uma decisão precipitada”, ela disse com prepotência, satisfeita por estar certa. “Na minha opinião, as mocinhas de hoje são imprudentes em suas decisões. Deviam confiar nos conselhos das mais velhas.”
“Eu estava em luto”, comentei, desejando estar em qualquer outro lugar naquele momento. “Tenho certeza de que a senhora também se lembra disso. Meu pai tinha acabado de falecer.”
“Sim, claro”, ela disse, um pouco constrangida. “Como era de imaginar, não estava em condições de decidir nada. Na ocasião, falei que lamentava perdê-la, e estava falando sério. Você era uma professora excelente. Mas sua vaga foi preenchida, claro. Eu não podia deixar as pequeninas sem um tutor.”
“Claro que não”, respondi. “Mas será que não terá outra vaga em breve? Lembro que a srta. Parkin comentou sobre se aposentar no final do semestre. A senhora já encontrou uma substituta?”
“É verdade”, ela concordou com a cabeça. “E, não, ainda não anunciei o cargo. Mas você entende a posição em que me coloca?”, perguntou, sorrindo para mim. “Você se provou indigna de confiança. Caso a contrate outra vez, quem pode garantir que não me abandonará com um aviso de última hora, como fez no passado? Estou administrando uma escola aqui, srta. Caine, não um…” Ela teve dificuldade de encontrar um final para aquela frase. “Não um hotel”, acrescentou, enfim.
“As circunstâncias mudaram um pouco”, expliquei. “Posso garantir à senhora que, quando me restabelecer em Londres, não partirei de novo, seja qual for o motivo.”
“É o que diz agora.”
“Tenho uma nova responsabilidade”, contei a ela. “Que não tinha antes.”
Ela levantou uma sobrancelha e pareceu intrigada. “É mesmo?”, perguntou. “Pois, diga-me, que responsabilidade é essa?”
Suspirei. Preferiria que a conversa não tivesse seguido por aquele caminho, mas, se esse seria o fator decisivo para meu retorno, eu não tinha escolha. “Tenho um menino sob meus cuidados”, disse. “Eustace Westerley.”
“Um menino?”, ela perguntou, e então tirou os óculos e os pousou na mesa, escandalizada. “Srta. Caine, a senhorita está me dizendo que teve um filho? Que é uma mãe solteira?”
Seis semanas atrás, minha inclinação natural teria sido ficar vermelha, mas, depois de tudo pelo que tinha passado, a única coisa que pude fazer foi rir. “Sinceramente, sra. Farnsworth”, eu disse. “Sei que não ensinamos ciências na St. Elizabeth’s, mas seria muito difícil eu ir embora, engravidar, dar à luz e voltar em um período tão curto de tempo.”
“Claro, claro”, ela gaguejou, e agora foi sua vez de enrubescer. “Mas, então, não entendi.”
“É uma longa história”, expliquei. “É o filho da família que me contratou. Infelizmente, os pais morreram de maneira bastante trágica. Ele não tem mais ninguém no mundo. Está sozinho. Mas tem a mim. Vou criá-lo como sua guardiã.”
“Entendo”, ela respondeu, pensando no que eu tinha dito. “Admirável da sua parte. Mas não acha que isso vai interferir em seu trabalho aqui?”
“Se a senhora fizer a bondade de me aceitar de volta, vou matricular Eustace na St. Matthew’s, do outro lado da rua. Não creio que seja problemático de conseguir.”
“Então, tudo bem, srta. Caine”, ela disse, levantando-se e me cumprimentando com a mão. “Ocupará a vaga da srta. Parkin quando ela for embora, daqui a algumas semanas. Mas espero que seja fiel à própria palavra e não me decepcione.”
Concordei e saí, aliviada. Era como se minha vida antiga estivesse voltando para mim, sem a presença de papai — mas com a de Eustace.