A casa assombrada
Capítulo 10
Eu e as crianças estudávamos todos os dias em uma sala de aula situada no fim do corredor do segundo andar, subindo uns poucos degraus. Era um aposento bem iluminado, com uma vista magnífica da propriedade, uma lousa preta em uma das paredes, uma mesa enorme com diversas gavetas para mim e duas menores para elas se sentarem lado a lado.
“Quantas alunas tinha na escola em Londres?”, perguntou Isabella em uma manhã, sentada à mesa e vestida da maneira impecável de sempre, os lápis organizados em uma fileira perfeita à sua frente.
“Minha sala tinha mais ou menos trinta meninas”, respondi.
“E elas tinham a minha idade ou a de Eustace?”
“Mais perto de Eustace”, eu disse, observação que o fez olhar para mim e sorrir. Ele tinha um rosto adorável, pensei na ocasião. Na maior parte do tempo, sua expressão era defensiva, quase assustada, mas, quando Eustace sorria, todas essas coisas desapareciam por completo e ele parecia outro menino. “Um pouco mais novas, na verdade. Nós as chamávamos de ‘as pequeninas’.”
“E elas eram malcriadas?”, continuou Isabella.
“Malcriadas?”
“Você precisava puni-las?”
“De vez em quando”, respondi. “Mas era raro. É importante você entender, Isabella, que a escola onde eu trabalhava não era fruto de uma obra de ficção. Os professores não ficavam à espera de qualquer oportunidade para castigar seus desafortunados alunos ou fazê-los dar a volta pelo pátio com um cartaz dizendo: CUIDADO, ELE MORDE. Também não havia nenhum sr. Brocklehurst na nossa instituição. Tratávamos nossas meninas com bondade e, em troca, elas demonstravam respeito e interesse pelas atividades. Na maior parte do tempo, pelo menos.”
“Eu ficaria contente de frequentar uma escola com outras meninas”, disse Isabella, pensativa. “Mas papai diz que precisamos estudar aqui.”
“Aulas particulares são privilégio de todas as famílias ricas”, expliquei. “Somente as classes mais baixas precisam ser ensinadas em grupo. Na verdade, a maioria das minhas pequeninas saía da escola quando fazia doze ou treze.”
“E o que acontecia com elas?”, perguntou Eustace. “Casavam?”
“Ah, céus, não”, respondi, rindo um pouco. “Você não acha que é cedo demais? Consegue imaginar Isabella se casando?”
Eustace engoliu uma risada e a irmã o silenciou com um olhar. Ela se virou para mim com uma expressão sombria e percebi que não tinha gostado nada da minha observação despretensiosa.
“Considero esse comentário muito rude”, ela disse, com a voz baixa. “Acha que ninguém vai me querer?”
“Ah, deixe disso, Isabella”, respondi, em uma tentativa de dar leveza à situação. “Não foi o que eu quis dizer, de jeito nenhum. Só comentei que seria bastante incomum uma menina da sua idade se casar, você não acha? Com o tempo, é claro que haverá um monte de rapazes competindo pela sua mão.”
“E quanto a você, Eliza Caine?”, ela perguntou, inclinando-se para a frente e pegando um lápis, cujo grafite bem apontado apertou devagar contra as costas da outra mão. “É casada?”
Hesitei, receosa de que ela se machucasse. “Não”, eu disse. “Não sou.”
“Mas você é bem crescidinha. Quantos anos tem?”
“Quantos anos acha que eu tenho?”, perguntei, desejando que não continuasse o assunto.
“Sessenta e sete”, disse Eustace.
“Tenho vinte e um, seu menino insolente”, respondi, sorrindo para ele.
“Vinte e um e solteira”, disse Isabella. “Não tem medo de ser largada às traças?”
“Não penso muito nisso”, respondi. Mentira.
“Nunca?”
“Não. Afinal, tenho meu trabalho. Aqui em Gaudlin Hall. E estou satisfeita com ele.”
“Mas preferiria ficar conosco a arranjar um marido?”, ela perguntou.
“Ora, eu não sei”, disse, surgindo incerteza na minha voz.
“Não quer ter seus próprios filhos? Não é enfadonho cuidar dos filhos dos outros?”
“Eu gostaria muito de ter filhos”, respondi. “Espero que isso aconteça um dia.”
“Mas, se você se casasse, não poderia mais trabalhar, poderia?”, ela continuou, a voz cada vez mais intensa, a argumentação cada vez mais contundente, a ponta do lápis cada vez mais funda em sua pele, a ponto de eu achar que Isabella se furaria e sangraria.
“Por que não?”, perguntei.
“Ora, quem cuidaria dos seus filhos? Não poderia deixá-los a cargo de outra mulher, não é mesmo?”
“Isabella!”, sussurrou Eustace, cutucando-a, com uma expressão angustiada no rosto, uma mistura de medo e horror por ela estar fazendo aquelas observações aparentemente inócuas.
“Imagino que não”, eu disse. “Creio que meu marido estaria trabalhando e eu dedicaria meu tempo para cuidar dos filhos. É assim que o mundo funciona, afinal. Mas acontece que são apenas hipóteses, Isabella, e…”
“Então, filhos são responsabilidade da mãe”, ela continuou. “E nenhuma outra mulher deveria tentar substituí-la.”
“Bom, acho que sim”, eu disse, sem saber onde ela queria chegar.
“Você não permitiria, não é?”, ela perguntou. “Se alguém a pedisse em casamento, quero dizer. E você dissesse sim. E tivesse filhos. Não permitiria que outra mulher os criasse.”
“Não”, eu disse. “Seria função minha.”
“Então você entende”, ela respondeu, reclinando-se e devolvendo o lápis à ranhura da mesa, parecendo satisfeita.
“Entendo o quê?”, perguntei, sem a menor ideia do que ela estava querendo dizer, por mais que pensasse no assunto.
“Tudo”, Isabella disse, com um suspiro profundo, desviando o rosto e olhando pela janela. Observei-a durante o que pareceu uma eternidade; ela parecia ter entrado em algum tipo de transe — e acabou por me deixar no mesmo estado. Somente quando Eustace falou saímos dele.
“Srta. Caine”, ele disse baixinho, quase um sussurro, e me virei.
“Sim”, respondi. “Ao trabalho, crianças. Não podemos jogar conversa fora o dia todo. Hoje, vamos falar sobre os reis e rainhas da Inglaterra. Há muita coisa para aprender sobre o assunto e acho que vocês vão ficar fascinados pelas histórias.”
“Já sabemos algumas coisas sobre reis e rainhas”, ele disse. “Uma vez, um rei ficou aqui em Gaudlin Hall.”
Eu ri. “Verdade?”, perguntei, sem saber se ele estava fazendo graça.
“É verdade”, interveio Isabella, virando-se para mim outra vez, seus penetrantes olhos azuis encontrando os meus. “Papai nos contou tudo. Foi há muito tempo, claro. Mais de cem anos. Em 1737, para ser exata. Quando nosso bisavô era o senhor de Gaudlin.”
“Em 1737?”, repeti, passando a lista na cabeça. “Então, o rei deveria ser…”
“Jorge II”, ela respondeu. “Não disse que ele não estava inventando? Eu não teria sido tão rápida se fosse mentira, não é?”
“Não, claro que não”, eu disse. “Não duvidei de você, Eustace, prometo”, acrescentei, olhando para o menino, que abriu um sorriso luminoso. “Fiquei surpresa, só isso. O soberano, aqui em Gaudlin Hall! Deve ter sido muito emocionante para todos.”
“Eu diria que sim”, respondeu Isabella. “Mas a rainha, Carolina de Ansbach, ficou doente depois de uma caminhada pelo jardim. Ela passou por uma sangria no quarto ao lado do seu, Eliza Caine, mas não adiantou muita coisa. O médico era um tolo. Não sabia como tratá-la, foi esse o problema. Esses médicos provincianos quase nunca sabem o que fazer. Às vezes, você é mais bem servido se deixar a natureza cuidar do corpo do que confiando em um médico de Norfolk. Teria sido mais sábio ele se dedicar aos cavalos no estábulo ou ao cachorro de Heckling, Pepper.” Olhei para ela, ao mesmo tempo achando graça e perplexa pela maneira como falava; era evidente que se tratava de um discurso que tinha ouvido muitas vezes antes — talvez as palavras viessem de seu pai, quando ele recontava aquela história para os amigos, na mesa de jantar —, mas ver uma sintaxe tão adulta sair da boca de alguém tão pequeno era desconcertante, até um pouco perturbador. “No fim, eles a levaram de volta a Londres”, ela continuou. “Mas seu intestino rompeu e ela morreu. O rei ficou inconsolável. Ele amava muito a rainha, sabe? Nunca desposou outra mulher, apesar de ter vivido por mais quase vinte e cinco anos. Muito honrável, não acha? Ele passou a detestar meu bisavô, por causa da associação com o ocorrido. Nunca mais o convidou para visitar a corte. Foi uma fonte de muito desgosto para meu bisavô, que apoiava a Coroa. Nossa família sempre apoiou, desde a Restauração. Ficamos do lado errado na Guerra das Rosas, mas isso foi há muito tempo. E fomos perdoados, mais tarde. De qualquer jeito, uma coisa como essa nunca se vai, você não concorda? Uma morte numa casa?”
“Mas você disse que a rainha não morreu aqui”, eu apontei.
“Não estou falando da rainha”, ela respondeu, com um gesto de mão na frente do rosto, desprezando meu comentário, aparentemente muito idiota para ela. “E então, vamos estudar o rei Jorge II hoje, Eliza Caine, ou você planejava ir mais para o passado? Aos Lancaster e York, talvez, já que os mencionei?”
“Mais para o passado”, eu disse, abrindo meu livro e virando as páginas até o capítulo marcado. Senti uma leve corrente de ar percorrer a sala e desejei ter trazido meu casaco, mas não tive vontade nenhuma de cruzar a casa vazia para buscá-lo, passando pelo quarto em que tinham sangrado Carolina de Ansbach, pobrezinha. “Pensei que podíamos começar na captura de Edmund Tudor e no início dessa dinastia triunfal, embora sanguinolenta.”
Olhei de relance para a janela e suspirei. Uma das crianças devia ter escrito no vapor condensando quando eu não estava olhando. Era uma palavra tão vulgar que me recusei a prestar atenção nela.