A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 4 de 26

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A casa assombrada

Capítulo 4

 

O dia estava surpreendentemente ensolarado quando fui embora de Londres. A cidade fizera suas maquinações para assassinar meu amado pai e, agora que tinha sido bem-sucedida em sua empreitada cruel, se dedicava em ser benevolente outra vez. Senti grande antipatia por aquele lugar ao partir, uma emoção que me surpreendeu, pois sempre amei a capital; mesmo assim, conforme o trem se afastou da estação de Liverpool Street, o sol se derramando pela janela e cegando meus olhos, eu a considerei dura e injusta, um velho amigo que me traiu sem motivo e cujas costas agora estava contente em ver. Naquele momento, acreditei que poderia levar uma vida feliz sem nunca mais pousar os olhos em Londres.

No vagão, sentado no banco oposto ao meu, estava um rapaz com idade próxima à minha e, apesar de não termos trocado nenhuma palavra desde o embarque, me permiti várias olhadelas clandestinas em sua direção, pois ele era bastante atraente; constatei que, por mais que eu tentasse desviar a vista e focar minha atenção nos campos e fazendas que passavam pela janela, não conseguia evitar seu rosto. Ele me lembrava Arthur Covan, era essa a verdade. Conforme o trem se aproximou de Colchester, notei que ficou pálido e seus olhos se encheram de lágrimas. Ele os fechou por um momento, talvez na esperança de estancar o fluxo, mas, quando abriu outra vez, lágrimas desceram por suas bochechas e ele usou um lenço para enxugá-las. Ao me flagrar observando, ele passou a mão no rosto e senti uma vontade desesperada de perguntar se estava tudo bem, se ele gostaria de conversar um pouco, mas, fosse qual fosse a dor que morava em seu coração, o trauma que fazia com que perdesse o controle das emoções, era algo que não seria compartilhado e, quando o trem partiu da estação, ele se levantou, constrangido, e foi para outro vagão.

Pensando em retrocesso, posso enxergar que as decisões que tomei naquela semana foram impulsivas e tolas. Eu estava em choque, perdida; meu mundo todo tinha desmoronado ao longo de sete dias, e, embora eu devesse ter procurado consolo no meu trabalho, na minha escola, nas minhas pequeninas e até na companhia de pessoas como a sra. Farnsworth e Jessie, tomei a decisão apressada de me desarraigar de tudo o que conhecia; das ruas próximas ao Hyde Park, onde eu brincava quando criança; do Serpentine, que ainda me enchia de memórias de Bull’s Eye; das curvas e esquinas que me levavam da minha casa até a familiaridade da sala de aula. Eu estava sedenta por mudança, mas as cortinas daquele aposento escuro no topo das escadas, que tinha reivindicado a vida dos meus pais e da minha irmã mais nova, poderiam ter sido abertas; as janelas poderiam ter sido escancaradas, o quarto poderia ter sido arejado por inteiro com o ar bom e honesto de Londres, poderia ter sido redecorado e tornado acolhedor outra vez, um lugar para viver, não para morrer. Eu estava largando todas essas coisas e seguindo para uma parte do país que eu nunca tinha visitado, e para fazer o quê? Ser governanta de sabe-se lá quantas crianças, para uma família que não tinha nem enviado um representante para me entrevistar antes de oferecer o cargo. Tola. Você poderia ter ficado. Poderia ter vivido uma vida feliz.

O sol de Londres cedeu espaço para um vento gelado em Stowmarket, que soprou contra o trem e fez com que eu me sentisse insegura; quando chegamos a Norwich no início da noite, ele tinha sido substituído por uma névoa densa, do tipo que me fazia lembrar minha casa, apesar de estar fazendo tudo o que podia para suprimir a memória daquele lugar. Conforme nos aproximamos da estação Thorpe, tirei da mala a carta que tinha recebido na manhã anterior e li do início ao fim talvez pela décima vez.

Gaudlin Hall, 24 de outubro de 1867

Prezada srta. Caine,

Candidatura bem recebida. Experiência aceitável. Oferecido à senhorita emprego

remunerado como governanta, valores e condições especificados no Morning Post (edição

de 21 de outubro). Senhorita é esperada na tarde do dia 25, trem das cinco. Heckling, o

zelador de Gaudlin, buscará senhorita com carruagem. Por favor, não se atrase.

Atenciosamente,

H. Bennet

Ao reler, ocorreu-me, assim como nas vezes anteriores, quão inusitada era a carta. A construção das frases era apressada e, de novo, não havia nenhuma menção à quantidade de crianças que ficaria sob minha responsabilidade. E quem era esse H. Bennet? Será que se tratava mesmo de um cavalheiro, ou talvez do provedor de uma diminuta casa de família? Com o que ele trabalhava? Não havia nada que sugerisse uma resposta. Suspirei e senti certa ansiedade conforme o trem entrou na estação, mas resolvi ser forte, independentemente do que estivesse por vir. Isso, pelo menos, me seria útil nas semanas seguintes.

Desci os degraus do trem e olhei à volta. Era quase impossível enxergar qualquer coisa na sombria neblina cinzenta, mas a direção para a qual os outros passageiros iam sugeria que, se os seguisse, talvez encontraria a saída, e comecei a caminhar, ouvindo as portas dos vagões do trem serem fechadas para a viagem de volta e o apito do sinaleiro. Inúmeras pessoas passaram correndo por mim, apressando-se para embarcar antes da partida; talvez por não ter me visto nas brumas, uma delas trombou comigo, derrubando minha mala e deixando a própria cair ao mesmo tempo.

“Perdão”, disse a moça, sem soar muito sincera, mas não me incomodei, pois era óbvio que ela não queria perder o trem. Abaixei-me para pegar sua mala, que tinha caído à minha esquerda, e a devolvi; conforme o fiz, reparei no monograma vermelho gravado no couro marrom: H.B. Encarei as letras por um instante, sem entender por que aquelas iniciais pareciam ter importância. Naquele momento, meus olhos e os da mulher se encontraram e foi quase como se ela soubesse quem eu era, pois me observou com uma expressão de reconhecimento que misturava pena e arrependimento antes de puxar a mala das minhas mãos, sacudir a cabeça rápido e desaparecer na neblina para entrar no vagão mais à frente.

Fiquei ali, surpresa com a grosseria, e então lembrei porque H.B. me parecia tão familiar — mas era uma noção ridícula, claro. Uma coincidência, nada mais. A Inglaterra devia estar cheia de gente com aquelas iniciais.

Dei meia-volta e fiquei bastante desorientada. Andei na direção que acreditava ser a da saída, mas, como não havia mais passageiros chegando ou saindo, era difícil ter certeza. À minha esquerda, os motores do trem que voltaria a Londres ficavam cada vez mais barulhentos, preparando-se para a partida; à minha direita, havia outro trilho, e pude ouvir mais um trem se aproximando. Ou vinha do outro lado? Era difícil saber. Virei-me de novo e perdi o ar; para qual direção deveria seguir? Havia barulho por todo lado. Estendi a mão para tatear algum objeto que pudesse ajudar a me orientar, mas nada estava onde eu esperava que estivesse. O som de vozes foi ficando mais alto e agora havia pessoas outra vez, forçando passagem com malas e valises; como conseguiam ver para onde iam, perguntei-me, se eu não enxergava nem minha própria mão estendida na frente do rosto? Não sentia tanta angústia desde aquela tarde no cemitério. Uma onda de pânico começou a crescer dentro de mim, uma sensação de agouro e terror implacável, e imaginei que, se não seguisse em frente com determinação, acabaria abandonada naquela plataforma para sempre, incapaz de enxergar ou de respirar, e viveria meus últimos dias ali. Então, segurando o coração com as mãos, ergui meu pé direito e comecei a ir em frente mais uma vez, no exato momento em que um som alto de apito — vindo do segundo trem — se transformou em um grito violento e então, para meu horror, senti um par de mãos em minhas costas me empurrando com um tranco; tropecei e estava para cair quando uma terceira mão agarrou meu cotovelo e me puxou bruscamente. Fui tropeçando nos meus próprios pés até uma parede, na qual me apoiei. Em seguida, a neblina se dissipou um pouco e pude ver o homem que me tirou com tanta força de onde eu estava.

“Por Deus, senhorita”, ele disse, e agora pude ver seu rosto; era gentil e tinha traços bonitos, usava óculos muito elegantes. “Não viu onde andava?”, ele perguntou. “Quase entrou na frente de um trem. Teria morrido na hora.”

Observei-o por um instante, sem entender, e então olhei para o lugar de onde tinha me arrancado, e lá estava o segundo trem, guinchando enquanto freava. Se eu tivesse dado mais um passo à frente, teria caído e sido esmagada por ele. Tal pensamento me deixou tonta.

“Não foi minha intenção…”, comecei.

“Mais um segundo e teria ido parar embaixo dele.”

“Alguém me empurrou”, eu disse, olhando em seus olhos. “Com as duas mãos. Eu senti.”

Ele negou com a cabeça. “Não é verdade”, respondeu. “Eu estava observando a senhorita. Vi para onde estava indo. Não tinha ninguém atrás da senhorita.”

“Mas eu senti”, teimei. Olhei para a plataforma, engoli em seco e voltei a olhar para ele. “Eu senti!”

“É apenas um choque, só isso”, disse o homem, como se rejeitasse a ideia e me considerasse uma histérica. “Gostaria de alguma coisa para acalmar os nervos? Sou médico. Um chá, talvez? Há um café ali, não é muita coisa, claro, mas…”

“Estou bem”, respondi, sacudindo a cabeça, tentando me recompor. Decidi que ele devia estar certo. Se me observava e não viu ninguém comigo, devia ter sido minha imaginação. Foi a névoa, só isso. Estava pregando peças na minha mente. “Peço desculpas”, continuei depois de um momento, tentando amenizar o incidente com bom humor. “Não sei o que deu em mim. Senti uma tontura. Não conseguia enxergar nada.”

“Ainda bem que peguei a senhorita”, ele respondeu, sorrindo e exibindo um conjunto simétrico de dentes brancos. “Ah, puxa”, ele acrescentou. “Isso soou terrivelmente pomposo, não? Como se eu esperasse que a senhorita pendurasse uma medalha de bravura na minha lapela.”

Sorri; gostei dele. Um pensamento absurdo me ocorreu. Ele me aconselharia a abandonar todos os planos em Gaudlin e me convidaria para ir embora com ele. Para onde? Eu não sabia. Quase ri daquele disparate. O que havia de errado comigo naquele dia? Primeiro o rapaz no trem, e agora aquilo. Era como se tivesse abandonado toda a decência.

“Ah, aí vem minha esposa”, ele disse depois de um momento, e me virei para ver uma mulher jovem e bonita que se aproximava; uma expressão de preocupação surgiu em seu rosto quando seu marido explicou o que acabara de acontecer. Tentei sorrir.

“Deveria vir conosco”, disse a sra. Toxley — esse era o sobrenome deles — enquanto me observava com preocupação genuína no rosto. “Está muito pálida. Seria bom tomar alguma coisa para melhorar o ânimo.”

“A senhora é muito gentil”, respondi, na dúvida se faria uma coisa tão improvável, se seria apropriado. Eles talvez me deixassem cuidar de seus filhos, se tivessem, e eu não precisaria ir a Gaudlin Hall. “Eu gostaria muito, mas…”

“Eliza Caine?”

Uma voz vinda da nossa esquerda fez com que virássemos, surpresos. Um homem estava parado ali. Tinha sessenta e poucos anos, eu diria; vestia roupas rústicas e tinha o rosto avermelhado de um jeito nada saudável. A barba não era feita havia dias e o chapéu não combinava com o capote, o que lhe dava uma aparência um tanto ridícula. Senti cheiro de tabaco nas roupas e de uísque no bafo. Ele coçou o rosto e as unhas se mostraram escuras e imundas, tão manchadas de amarelo quanto os dentes, e ele não disse nenhuma outra palavra, esperando que eu respondesse.

“Isso mesmo”, eu disse. “Conheço o senhor?”

“Heckling”, ele respondeu, cutucando o peito com o polegar várias vezes. “A charrete está ali.”

Com isso, ele nos deu as costas e seguiu na direção da charrete; fiquei com as malas, meu salvador e sua esposa, que se viraram para me observar, um tanto constrangidos pela cena e pela aspereza extraordinária daquele homem.

“Sou a nova governanta”, expliquei. “Em Gaudlin Hall. Ele foi enviado para me buscar.”

“Ah”, disse a sra. Toxley, olhando para o marido, que, pude perceber, devolveu o olhar por um instante antes de desviar o rosto. “Entendo”, ela acrescentou depois de uma longa pausa.

Um silêncio desconfortável se instalou entre nós — a princípio, achei que eu tinha ofendido os Toxley de alguma maneira, mas então me ocorreu que era impossível, pois eu não tinha dito nada impróprio, apenas explicara quem eu era —, mas a gentileza e a generosidade de minutos atrás tinham, de repente, sido substituídas por ansiedade e desconforto. Que pessoas estranhas, pensei, ao pegar a mala, agradecer a ambos e seguir para a charrete, antes pareciam tão amáveis!

Enquanto caminhava, alguma coisa me fez olhar para trás, na direção dos dois, e vi que me encaravam como se quisessem dizer alguma coisa, mas não conseguissem encontrar as palavras. A sra. Toxley se virou para o marido e murmurou algo em seu ouvido, mas ele sacudiu a cabeça e pareceu não saber o que fazer.

Refletir sobre tudo em retrocesso é uma coisa maravilhosa. Quando penso naquele momento, vejo Alex e Madge Toxley ali na plataforma da estação Thorpe e quero gritar com eles, quero correr até os dois e sacudi-los, quero olhar diretamente em seus olhos e dizer: Vocês já sabiam, sabiam de tudo. Por que não disseram nada? Por quê?

Por que não me avisaram?