A casa assombrada
Capítulo 12
Minha sensação de bem-estar continuou durante o almoço e durou até o início da tarde, quando a estranha mistura de emoções que eu tinha experimentado naquela manhã — luto, incompreensão, frustração e euforia — pareceu se assentar em um estado de melancolia. Caminhei pelo terreno da propriedade, minha mente perturbada pelas coisas que tinha descoberto, ou deixado de descobrir, desde o instante que acordei. A sexta governanta em apenas um ano! Parecia algo extraordinário. As primeiras quatro, mortas; a quinta tinha disparado pela estação Thorpe com tanta pressa que quase me derrubou em sua urgência de ir para longe. O que aconteceu com todas elas? O que as levou a destinos tão terríveis?
Ao seguir na direção da mansão e olhar para a janela do meu quarto no terceiro andar, fui tomada por uma distinta sensação de desconforto e abracei meu próprio corpo, esfregando os braços para oferecer um pouco de calor aos meus ossos. Perguntei-me se as governantas anteriores tinham usado o mesmo quarto que eu — afinal, havia pelo menos uma dúzia na mansão, portanto era bem possível que não —, mas fiquei arrepiada ao imaginar tal possibilidade. Já tinha me ocorrido quão bem-arrumado era o aposento; não se tratava de instalações típicas a se oferecer para um criado (eu imaginava). Era muito espaçoso e a vista do jardim era excepcional. Se não fosse pelas janelas seladas, teria sido quase perfeito. Observei a janela em questão e suspirei. Talvez as crianças tivessem me dado um quarto novo, sem más lembranças associadas a ele?
Porém, ao olhar para o quarto, fui surpreendida por uma figura de pé atrás da cortina, inclinando-se para a frente e olhando para mim. Era difícil identificar quem era, pois a renda branca estava entre ela e o vidro, e franzi o cenho, certa de que devia ser Isabella. (Eustace não me parecia o tipo de menino que teria interesse em vasculhar os pertences alheios.) Era exatamente por isso que eu não deixava minha porta aberta, pensei. Queria manter pelo menos aquele tantinho de privacidade. Observando a figura, vi que se mexeu e então se afastou da janela; caminhei pela porta da frente da casa, preparando-me para ser dura com a menina, quando, para meu espanto, vi Isabella na sala à minha esquerda, sentada no sofá, as pernas esticadas, envolvida na leitura. Fiquei surpresa, para dizer o mínimo, e até um pouco decepcionada. Então era Eustace! Talvez tivesse superestimado seu caráter. Não gostava da ideia de repreendê-lo, pois o considerava um menino adorável, mas era impossível evitar; precisaríamos ter uma conversa. Comecei a seguir na direção da escada para subir até o quarto, mas, antes que eu pudesse fazê-lo, Eustace surgiu ao lado da irmã, onde antes estava fora de vista, acompanhado por Pepper, o cachorro de Heckling, que olhava para o teto e rosnava com uma voz grave e seca, uma das patas traseiras batendo no chão com urgência, como se estivesse se preparando para atacar.
Sem medo nenhum, subi as escadas para o primeiro andar, virei à esquerda, continuei pela escada maior que levava ao segundo andar e caminhei pelo corredor que conduzia ao meu quarto, abrindo a porta de um jeito brusco e olhando à volta pronta para confrontar o invasor.
Para meu assombro, não havia ninguém ali. Conferi o entorno, totalmente confusa. Fazia menos de um minuto que eu tinha visto a figura atrás da cortina, e não havia a menor chance de alguém ter saído do quarto e descido as escadas sem passar por mim no caminho. Abri o guarda-roupa, olhei embaixo da cama, mas o quarto estava vazio. Quase caí na risada. Tinha imaginado tudo aquilo? Os acontecimentos do dia tinham embaralhado minha mente e minha imaginação? Suspirei. Era a única explicação possível. Mas tive tanta certeza!
Fui até a janela e abri a cortina, colocando minhas duas mãos contra os imensos vidros lacrados, na mesma posição que tinha imaginado a figura; agora exausta, fechei os olhos e relaxei o corpo contra a janela. O que aconteceu em seguida não durou mais do que dez segundos, talvez quinze, no máximo, mas lembro como se ainda estivesse mergulhada naquele horror, e juro que pareceu durar uma hora.
A janela, impossível de abrir, selada com betume derretido, escancarou-se, o vidro projetando-se para fora; uma ventania entrou no quarto conforme um par de mãos — Eu as senti! Senti aquelas duas mãos! — empurrou minhas costas com força, levantando-me do chão com tanta determinação quanto aquele vento terrível naquela tarde que voltei da minha primeira visita ao vilarejo; empurrando-me com tanto ímpeto quanto a força invisível que tentou me jogar sob o trem na estação Thorpe. Meu corpo caiu pela abertura e, na fração de segundo em que saí do quarto, meus olhos se arregalando diante da queda de quinze metros até o chão, que sem dúvida nenhuma me mataria, outro par de mãos, de outra entidade invisível — mãos maiores, essas; mais fortes —, me empurraram, chocando-se contra mim como se eu estivesse sendo espancada, esmagando-me, forçando-me para dentro do quarto. O vento lá fora rugiu e perdi o fôlego; foram segundos tão chocantes que não pude entender o que estava acontecendo, nem mesmo sentir medo — não ainda. Mas não tinha terminado. As mãos atrás de mim atacaram de novo e saí pela janela outra vez, o chão do quarto desaparecendo sob meus pés, o solo lá embaixo, onde meu corpo seria destroçado, chamando-me para a morte; mas, novamente, antes que eu pudesse cair, o segundo par de mãos me empurrou de volta para dentro, com ainda mais força, tanta que provocou dor como eu nunca tinha sentido antes, e caí no quarto, despencando no chão, debatendo-me para chegar na parede oposta, contra a qual bati as costas com tanta força que gritei; conforme o fiz, a janela se fechou em um movimento brusco e o vento morreu no mesmo instante. Fiquei largada ali, petrificada e chorando, meu corpo inteiro dominado pela dor, sem entender o que tinha acabado de se passar.
Devo ter ficado ali por meia hora, incapaz de me mexer, temerosa do que poderia acontecer se eu tentasse levantar, mas, enfim, senti que o quarto estava em paz. Devagar, com muito cuidado, fiquei em pé. Abri meu vestido e olhei para minha barriga. Estava com uma marca profunda, uma contusão grande, vermelha e sensível ao toque; eu tinha certeza de que a cor mudaria e aquilo ficaria mais dolorido nos próximos dias. Se pudesse ver minhas costas, sem dúvida encontraria marcas parecidas. Determinada a lutar contra o medo, fui até a janela mais uma vez e estendi as mãos para os trincos, hesitante, receosa de tocá-los — mas, de algum jeito, sabendo que minha provação estava terminada. Tentei abri-los, mas não se mexeram. Estavam tão lacrados quanto antes. Era como se nunca tivessem sido abertos.
Desmoronei na cama e senti um profundo grito de medo subir pela garganta; fechei a boca com as mãos para impedi-lo de sair. O que tinha acontecido naqueles quinze segundos? Como uma coisa daquelas poderia acontecer? Não tinha sido minha imaginação, pois meus machucados eram reais. Havia uma presença naquela casa, alguma coisa profana; uma noção que eu antes desprezara como fantasia tomou conta de mim e me disse que aquela era a verdade. Mas havia outro fator, algo que eu não tinha cogitado antes.
Eram duas presenças.