A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 14 de 26

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A casa assombrada

Capítulo 14

 

 

Jamais dependi de despertador para acordar cedo; na infância, papai nunca precisou bater na porta para eu me levantar em dias de aula. Quando tia Hermione me levou à Cornualha para passar o verão com ela depois da morte de mamãe, declarou-se espantada com o fato de eu sempre aparecer para o café da manhã na hora exata que ela tinha me dito na noite anterior. Dizia que eu era uma criança sobrenatural e parecia realmente impressionada com minha pontualidade. Em toda a minha vida, quando sabia que precisava acordar em uma hora específica, simplesmente acordava.

Portanto, quando ordenei a mim mesma para acordar às quatro da manhã no dia seguinte ao encontro com o sr. Raisin, eu sabia que não falharia, e estava certa; meus olhos se abriram nessa hora, encontrando o quarto escuro. Levantei-me e abri as cortinas, observando o jardim de Gaudlin Hall e ao mesmo tempo mantendo distância da janela, apesar de já não temê-la tanto assim, pois o espírito que assombrava aquele lugar não parecia interessado em repetir seus truques. O medo vinha de não saber quando atacaria de novo. Ou como.

Uma neblina tinha dominado o jardim, uma névoa densa que me lembrou da velha penumbra de Londres. Era difícil identificar qualquer coisa. Vesti-me com pressa e desci para a cozinha. Sentada em uma posição em que poderia ficar de olho em qualquer pessoa que passasse por aquele lado da casa, fiz um chá e esperei. O relógio bateu quatro e meia; bateu cinco, e uma tênue fresta de luz surgiu no horizonte. Pude sentir meus olhos começarem a fraquejar e, depois de quase cair no sono, fui até a biblioteca, apressada, para encontrar um livro que me mantivesse acordada. Enquanto escolhia, ouvi movimento no aposento ao lado e fui até a porta da cozinha, onde fiquei parada, olhando, satisfeita — e também um pouco insegura por ter, enfim, encurralado minha presa.

“Sra. Livermore.”

A mulher pulou, assustada, proferindo uma praga, e então se virou com a mão pressionada contra o peito, surpresa. “O que pensa que está fazendo?”, ela perguntou. Foram as primeiras palavras que dirigiu a mim, apesar de estarmos na mesma casa, ou nos arredores dela, havia várias semanas. “Chegando desse jeito? Podia ter me matado de susto.”

“De que outra forma eu poderia me aproximar?”, perguntei, ignorando qualquer cerimônia. “Não é fácil falar com a senhora.”

“Sim”, ela respondeu, concordando com a cabeça e me encarado com uma expressão de desprezo antes de se virar para o fogão outra vez, onde tinha colocado uma panela com água para ferver. “Quem fica a manhã toda na cama corre o risco de não me ver. Precisa acordar cedo, governanta, se está atrás de conversa.”

“Eu teria conseguido uma conversa?”, perguntei. “Imagino que a senhora teria me negado qualquer diálogo.”

Ela suspirou e olhou para mim com uma expressão exausta. Era uma mulher corpulenta, talvez mais perto dos cinquenta anos do que dos quarenta, e mantinha o cabelo grisalho preso em um coque firme. Mas seus olhos tinham vivacidade e suspeitei que não fosse muito paciente com o que considerasse bobagem. “Pode falar normalmente comigo”, ela disse, em tom baixo. “Não sou uma mulher estudada.”

Concordei com a cabeça e me senti um tanto constrangida. Então “diálogo” era uma palavra usada apenas pela classe intelectual?

“Bom, talvez você esteja certa”, ela acrescentou depois de um instante, um pouco mais branda, e se virou para o fogão. “Estou fazendo chá.”

“Posso me juntar à senhora?”

“Duvido que me deixe em paz se disser não, estou enganada?”, ela perguntou. “Sente lá dentro, eu levo o chá, você diz o que precisa ser dito e eu volto ao trabalho. De acordo?”

Fiz que sim com a cabeça e me virei para ir à sala, aposento no qual tinha passado pouco tempo até agora. Porém, antes de sair da cozinha, reparei em uma marca cinza na minha mão — um pouco de poeira dos corrimões devia ter se acumulado quando desci — e fui até a pia lavá-la. Arfei quando a água atingiu minha mão e a sra. Livermore se virou para mim.

“Qual é o problema agora, menina?”

“É só a água”, eu disse, um pouco vermelha. “É tão fria.”

“Ora, é claro que é fria”, ela respondeu. “Onde pensa que está, no Palácio de Buckingham?” Afastei-me, esfregando as mãos uma na outra para aquecê-las. A água estava sempre gelada, claro; se quiséssemos água quente em Gaudlin Hall era preciso esquentar no fogão.

“Chá”, disse a sra. Livermore alguns minutos depois, entrando na sala com uma bandeja com duas xícaras, o bule, uma jarra de leite e uma tigela de açúcar. “Não tenho nada para acompanhar, então não me peça. Pode fazer seu próprio café da manhã mais tarde.”

“Sim, sem problema”, respondi, agora com tom menos combativo. “E peço desculpas por tê-la assustado antes. Não era minha intenção fazer isso.”

“Certo”, ela disse, desviando o rosto. “Bom, pense bem da próxima vez, governanta, pois talvez acabe levando uma panelada na cabeça.” Sorri e estendi a mão para pegar o bule, mas ela deu um tapinha para desviá-la. “Deixe”, ela disse. “Espere até ficar saboroso.”

Ela pôs a mão no bolso do avental, tirou um pequeno cigarro e acendeu. Olhei para ela, espantada; nunca tinha visto uma mulher fumar antes, muito menos um cigarro feito à mão com tanto cuidado quanto aquele. Pelo que diziam, tinha se tornado moda entre as moças londrinas; era um privilégio delas. Mas uma criada fazer aquilo numa casa como aquela era algo extraordinário.

“Não tenho outro”, ela disse, reparando no meu interesse pelo cigarro. “Então, não me peça.”

“Não tinha intenção de pedir”, respondi, pois não queria aquela coisa malcheirosa. Olhei para o bule outra vez e ela meneou com a cabeça, indicando que eu podia me servir. O chá saiu espesso e fumegante; acrescentei leite e açúcar e dei um gole para me aquecer.

“Bom, então vá em frente”, disse a sra. Livermore. “Ponha para fora.” Eu a encarei, sem entender o que quis dizer. O chá estava ruim? “Não o chá, sua mula”, ela continuou, quase sorrindo. “Você tem coisas para dizer, governanta, então é melhor desabafar antes que exploda.”

“Visitei o sr. Raisin ontem”, respondi, mantendo um tom firme; eu não permitiria que ela me intimidasse. “O advogado.”

“Eu sei quem é o sr. Raisin”, ela disse, com escárnio. “Não fui todas as semanas do último ano buscar meu pagamento com a cabrita premiada de Haddock, o fazendeiro.”

“Pois então”, respondi. “Marquei uma hora com ele e conversamos. Havia certas coisas que gostaria de saber e ele foi gentil o suficiente para me contar.”

“Gentil o suficiente para contar o quê?”, ela perguntou, estreitando os olhos ao se inclinar para a frente e pegar a xícara.

“Que o sr. Westerley ainda está aqui. Em Gaudlin Hall. Morando nesta casa.”

Ela bufou uma risada e sacudiu a cabeça, dando outra tragada profunda no cigarro, seguida de um gole considerável de chá. “Já faz quanto tempo que está aqui, governanta?”, ela perguntou.

“Três semanas.”

“A menina antes de você, a srta. Bennet, era assim que ela se chamava, descobriu tudo na metade desse tempo. E a coitada da srta. Harkness, de antes dela, que o bom Senhor tenha misericórdia de sua alma penitente” — ela fez o sinal da cruz duas vezes — “ela juntou as peças em dois dias. Mas era uma intrometida, e um tanto histérica. Eu não devia falar mal dos mortos, mas digo o que me vem à cabeça, senhorita…” Ela me encarou com uma expressão espantada no rosto. “Não sei seu nome, sei?”

“Eliza Caine”, eu disse a ela.

Ela fumou um pouco mais e me mediu de cima a baixo. “Eliza era o nome da minha mãe”, comentou, enfim. “Sempre gostei desse nome. Disse para meu Henry que, se tivéssemos uma menina, devíamos chamá-la de Eliza. Mas acontece que tivemos um bando de moleques. Uns inúteis, todos eles. Um pior do que o outro. Você é de Londres?” Fiz que sim. “Fui para lá uma vez”, ela contou. “Quando eu era mocinha, mais ou menos da sua idade. Não consegui suportar. Todo aquele barulho! Não entendo como conseguem aguentar. Eu perderia a cabeça. Não sei como as pessoas não enlouquem por lá, todas elas. Não acha que o povo de Londres é um pouco fraco da cabeça, governanta?”

“Não mais do que os outros”, eu disse. “Mas sei que é uma ideia comum. É como dizer que todas as pessoas do interior são mal-educadas ou obtusas.”

Ela soprou um anel de fumaça pela boca — asqueroso —, e sua expressão me disse que tinha gostado do que eu acabara de dizer, talvez até admirado. “A questão é”, ela respondeu, enfim, inclinando-se para a frente e falando em um tom muito mais refinado para deixar aquilo bem claro. “A questão é que você está aqui faz três semanas e só descobriu isso agora. Esperta como uma maçaneta, você, não? Certeza de que não tem nenhum sangue do interior correndo nas veias?”

“Na verdade, não saberia nada disso se o sr. Raisin não tivesse me contado”, admiti. “E, para ser sincera, creio que alguém devia ter mencionado antes. Meu empregador está aqui na mansão e ainda não conversamos. Não o vi com os filhos. Ele não se junta a nós nas refeições. Quando aparece? Onde come? Ele é um fantasma ou assume forma humana?”

“Ah, ele existe, isso eu garanto”, disse a sra. Livermore. “Não é fantasma coisa nenhuma. Está aqui na casa agora mesmo. Mas, se o sr. Raisin contou tudo isso, por que você não fez essas outras perguntas a ele? Não cabe a mim lhe dizer nada.”

“Não havia mais tempo”, expliquei. “Ele tinha outros compromissos. E ficou muito nervoso depois de me falar sobre o incidente.”

“O incidente?”, ela perguntou, franzindo as sobrancelhas.

“Quando a sra. Westerley…” Hesitei; era cedo demais para histórias tão terríveis. “Quando ela investiu contra o marido e a primeira governanta, a srta. Tomlin.”

“Essa é boa”, disse a sra. Livermore, com uma risada amarga. “Palavras delicadas para um feito horrível. Investiu contra eles, você diz? Quando ela espancou um deles até a morte e tentou fazer a mesma coisa com o outro, você quer dizer.”

“Sim”, concordei com a cabeça. “Exatamente isso.”

“Incidente uma ova.”

“O sr. Raisin falou que eu deveria conhecer o sr. Westerley.”

“Ah, ele falou, foi?”

“Sim”, respondi, enfrentando seu olhar. “Disse que a senhora nos apresentaria.”

Ela desviou o rosto, franzindo a testa. “Ele não falou nada sobre isso para mim.”

“Garanto que é verdade.”

“O sr. Westerley costuma receber só a mim.”

“E as crianças, claro”, eu disse.

“Ele não põe os olhos nos próprios filhos desde o incidente, como você chamou.”

Eu a encarei. “Mas isso é impossível”, respondi. “Por que não?”

“Se o visse, entenderia. Mas não acho que gostaria disso.”

“Acho tudo muito esquisito”, comentei, frustrada, jogando as mãos para o alto. “O senhor desta propriedade, o pai daquelas crianças, mantém-se escondido e não aceita a companhia de ninguém, bom, perdoe-me, exceto a sua, sra. Livermore…”

“Existem destinos mais cruéis.”

“Por favor, não seja sarcástica. Tudo o que quero é entender. Nós duas trabalhamos aqui, afinal. Eu como governanta, a senhora como cozinheira ou empregada do sr. Westerley, seja qual for sua função. Não podemos trocar confidências?”

Ela deu uma longa tragada no cigarro, de um jeito que lembrou o sr. Raisin. Ficou em silêncio por muito tempo, como se estivesse pensando no assunto. Enfim, com voz mais baixa, disse: “Cozinheira, você diz? Ou empregada?”.

“Bom, sim. Quer dizer, se a senhora for isso mesmo. Não quis ofender.”

“Espero que não mesmo, governanta”, ela respondeu, enfatizando meu cargo. “Muitas mulheres ficariam contentes com a posição de cozinheira ou empregada em Gaudlin Hall. É um bom emprego, para a moça certa. Ou para uma viúva. Nos bons tempos do sr. Westerley, havia muitos serviçais aqui. Não como agora. O lugar está caindo aos pedaços sobre nossa cabeça pela falta de gente. Precisa de cuidados, não reparou? O telhado vai desmoronar em cima de nós um dia desses, se ninguém vier consertar. Mas está enganada se acha que sou cozinheira ou empregada. É verdade que preparo a comida do sr. Westerley”, ela acrescentou. “Mas você também faz comida, não faz, governanta? Sabe fazer um guisado ou um cozido de carneiro?”

“Claro”, eu disse. “Quando morava com papai em Londres, preparava todas as nossas refeições.”

“Mas isso não faz de você a cozinheira, faz?”, ela perguntou.

“Bom, não, claro que não”, eu disse. “Desculpe, sra. Livermore. Não foi minha intenção ofendê-la. Apesar de não entender como isso poderia ser ofensivo.”

Ela riu e sacudiu a cabeça. “Você precisaria levantar muito mais cedo do que levantou hoje para me ofender”, respondeu. “Sou feita de couro grosso. Preciso ser, com a vida que vivi. Não, não sou cozinheira. Não é nisso que tenho experiência.”

“Sra. Livermore, a senhora está sendo enigmática”, eu disse, a exaustão começando a tomar conta de mim. “Não podemos ser claras uma com a outra?”

“Está bem”, ela respondeu, apagando o resto do cigarro; então, levantou-se e alisou o avental — que, agora reparei, não parecia tanto com o uniforme de uma cozinheira quanto eu tinha imaginado. “Você diz que o sr. Raisin falou que deveria conhecer o senhor de Gaudlin Hall. Tudo bem, vou acreditar na sua palavra.” Ela foi até a porta, parou e virou. “E então?”, perguntou. “Você vem ou não vem?”

“Agora?”, perguntei, levantando-me. “Mas é tão cedo! Ele não vai ficar bravo por ser acordado a essa hora?”

“Não se preocupe com isso”, ela disse. “Venha logo, se quiser.” Com isso, ela atravessou rápido a cozinha e eu a segui, quase correndo para acompanhá-la. Onde estava me levando? Minha mente se acelerou com as possibilidades. Eu tinha, em momentos de ócio, visitado a maioria dos quartos da casa, e eles estavam quase todos vazios. Nenhum sinal de vida. Decerto o senhor de Gaudlin teria um conjunto de aposentos para si, não? Um quarto, uma biblioteca, um estúdio, um banheiro privado?

Caminhamos pela mansão até a escadaria principal, subimos e nos viramos para o patamar onde ficavam os quartos das crianças; a sra. Livermore hesitou por um instante.

“Aqui?”, perguntei, e ela fez que não.

“Eles ainda não acordaram”, ela disse. “Venha. É mais para cima.”

Subimos mais um lance para o andar onde ficava meu quarto e outros seis, vazios. Mas ele não poderia estar ali, disso eu tinha certeza; eu verificara cada um, estavam desertos. Para minha surpresa, a sra. Livermore foi para o quarto no fim do corredor e abriu a porta. Eu a acompanhei para dentro do aposento, mas não havia nada à vista. Estava abandonado e vazio; havia uma cama com quatro colunas, sem lençóis, no centro. Ela olhou para mim e devolvi o olhar.

“Não entendi”, eu disse.

“Por aqui”, ela respondeu, virando-se e pressionando um painel na parede, onde agora vi uma porta oculta, pintada com a mesma cor que o restante da parede para que ninguém soubesse que ela estava ali, a não ser que verificasse bem de perto. Perdi o fôlego quando ela a empurrou para revelar degraus de pedra e a segui, levantando minha saia para não arrastar a poeira do chão frio.

“Onde estamos?”, perguntei em um sussurro.

“Todas essas mansões têm segredos”, ela explicou conforme subia os degraus íngremes. “Afinal, pense na época em que foram construídas. Serviam como fortalezas, postos de defesa. Acha que é a única porta desse tipo na casa? Não é. Mas geralmente não uso essa, claro. Entro pelo lado de fora.”

Pensei nas duas ocasiões em que a segui pela lateral da casa e ela desapareceu de vista. Como se tivesse lido minha mente, a mulher se virou para mim e sorriu.

“Devia dar uma olhada naquela parede, governanta. A porta está perfeitamente visível, se prestar atenção. Veja uma vez e verá sempre. A primeira vez é que é difícil.”

“Então a senhora sabia que eu a estava seguindo?”, perguntei.

“Tenho ouvidos”, ela grunhiu, continuando a subir. “Não sou surda.”

Agora estávamos perto do topo de Gaudlin Hall, de onde saía outra escada, que descia na direção do lado oposto da casa. “Por aqui, você chega ao jardim”, ela explicou. “É por onde costumo entrar.”

Uma porta larga estava à nossa frente e senti um calafrio percorrer meu corpo. Ele não poderia estar ali, poderia? A sra. Livermore pôs a mão no bolso na frente do avental e tirou uma chave grande e robusta. Hesitei; tive um curioso receio de que a porta levasse ao telhado e que ela me jogasse de lá por minha insolência, mas, quando passamos por ela, fui apresentada a mais duas escadas, que levavam em direções diferentes.

“Por ali, é o telhado”, disse a sra. Livermore, indicando a esquerda com a cabeça. “Por aqui, fica o senhor de Gaudlin.”

Subimos mais uma vez, poucos degraus, e fizemos uma curva no topo, onde encontramos outra porta sólida de carvalho. A sra. Livermore parou diante dela e se virou, sua expressão se suavizando um pouco. “Quantos anos você tem, governanta?”, ela perguntou.

“Vinte e um”, respondi, sem entender por que perguntaria aquilo.

“Parece ser uma menina que não viu muita coisa desagradável na vida, estou certa?”

Pensei um pouco e fiz que sim. “Está.”

Ela apontou para a porta. “Se o sr. Raisin diz que pode conhecer o senhor de Gaudlin, então não vou impedir que isso aconteça”, disse. “Mas não precisa fazer isso, sabia? Pode desistir agora mesmo, dar meia-volta e refazer o caminho por essas escadas. Trancamos a porta atrás de nós, você pode retomar seus afazeres com as crianças e eu posso voltar a fazer o que faço. E talvez durma melhor de noite. A decisão é sua. Então, decida agora. Depois, não há volta.”

Engoli em seco. Estava desesperada para saber o que havia do outro lado daquela porta, mas o aviso era suficientemente sério para que eu reconsiderasse. Queria conhecer o sr. Westerley, era fato, e tinha esse direito, afinal — mas será que ele tinha se transformado em algum tipo de monstro depois das ações terríveis da esposa? Será que seria capaz de me atacar? E não conseguia ignorar o fato de ser ainda tão cedo; ele não estaria dormindo?

“Decida, governanta”, disse a sra. Livermore. “Não tenho o dia todo para ficar aqui.”

Abri minha boca, quase pronta para dizer Não, mudei de ideia, mas de repente uma coisa que a sra. Livermore tinha acabado de falar chamou minha atenção e eu olhei para ela. “A senhora pode voltar a fazer o que faz”, eu respondi. “Foi o que acabou de me dizer. E, lá embaixo, insistiu que não é cozinheira nem empregada.”

“Sim”, ela disse, franzindo as sobrancelhas. “E daí?”

“Então, o que a senhora faz?”, perguntei. “Qual é a sua função aqui?”

Ela hesitou por um momento e então seu rosto relaxou, abrindo um quase sorriso, estendeu a mão e tocou meu braço com carinho. Por um instante, pude ver que havia uma mulher gentil trancada sob toda aquela dureza, e que ela não estava tentando me impedir de saber o que eu queria saber; apenas não tinha certeza se era o melhor para mim.

“Você não sabe, menina?”, ela perguntou. “Ainda não entendeu?”

Fiz que não. “Conte”, eu disse. “Por favor.”

A sra. Livermore sorriu e recolheu a mão. “Sou enfermeira”, ela respondeu. “Sou a enfermeira do sr. Westerley.”

Por um momento, eu teria jurado que havia alguém atrás de mim, respirando no meu pescoço — a presença de novo, o espírito, ou o que quer que fosse. Mas parecia reconfortante dessa vez, não a mesma que tinha me forçado a descer da dresina ou tentado me jogar pela janela. Talvez fosse a que me salvara daquele ataque. Ou eu poderia ter imaginado tudo.

Meneei com a cabeça e olhei para a porta, agora determinada. “Por favor, abra, sra. Livermore”, eu disse. “Quero conhecer meu patrão.”