A casa assombrada
Capítulo 6
Devo ter cochilado logo depois disso. Caí em um sono instável e sem conforto. Sonhei que estava de volta à minha escola, ou melhor, alguma coisa que parecia com a St. Elizabeth’s, mas não idêntica, e a sra. Farnsworth estava lá ensinando minhas pequeninas; papai estava sentado na última fileira, envolvido em uma conversa com alguém que identifiquei ser a srta. Bennet, apesar de não ter as mesmas características físicas da mulher na plataforma, que era robusta e ruiva; no meu sonho, era morena e muito bonita, com traços mediterrâneos. Ninguém falava comigo — era como se nem me vissem ali —, e a partir daí as coisas ficaram mais nebulosas e se transformaram (daquele jeito dos sonhos) em uma mistura de estranheza e mistério. Creio ter dormido por um tempo considerável, pois, quando acordei, estava bem mais escuro, já era noite; fazíamos uma curva em uma estrada estreita que depois se abriu para revelar um extraordinário portão duplo de ferro.
“Gaudlin Hall à frente”, disse Heckling, parando a égua por um instante e indicando um lugar no horizonte, embora fosse impossível enxergar muito na escuridão na noite. Endireitei a postura no banco, ajustando minha saia sob o cobertor, sentindo um gosto amanhecido e seco na boca e um peso nos olhos. Àquela altura, minhas roupas estavam um tanto úmidas e lamentei o fato de que conheceria meus novos empregadores — quem quer que fossem — em um estado tão desalinhado. Nunca fui uma mulher atraente, mas cuidava da minha aparência para apresentar sempre o melhor aspecto possível; tais refinamentos agora estavam perdidos. Com sorte, depois de chegar, eles me dariam licença para ir ao meu quarto um instante para que eu pudesse fazer alguns ajustes mínimos.
Minha imagem de uma alameda comprida não estava errada e passaram-se alguns minutos até que a casa inteira estivesse à vista. Não era nenhuma Pemberley, claro, mas ainda assim era uma grandiosa mansão rural. Alta e imponente, a fachada tinha certo esplendor barroco, com duas alas que se estendiam a partir de um majestoso pórtico central; suspeitei que fosse do século XVII, uma daquelas casas cuja arquitetura foi influenciada pelas tendências europeias pós-Restauração. Perguntei-me quantos quartos haveria lá dentro (pelo menos uma dúzia, imaginei) e se o salão de baile — pois com certeza haveria um em uma casa daquele tamanho — ainda era usado. Naturalmente, eu não estava nada acostumada àquele estilo de vida, e me imaginar morando em tal lugar era emocionante. Ainda assim, havia também alguma coisa amedrontadora, uma melancolia que, supus, sumiria com a chegada da manhã. De qualquer forma, ao observar meu novo lar, senti um estranho ímpeto de pedir a Heckling que virasse a charrete e me levasse de volta a Norwich; eu me sentaria em um banco na estação Thorpe e esperaria até que o sol nascesse, para então voltar a Londres e esquecer aquela má ideia.
“Aqui, Winnie”, disse Heckling quando paramos na frente da porta e ele desceu, as botas roçando o cascalho conforme foi até a traseira da charrete pegar minha mala. Ao perceber que o homem não tinha educação suficiente para abrir a portinhola para mim, pus a mão na maçaneta para girá-la. Para minha surpresa, ela não cedeu nem um milímetro. Franzi as sobrancelhas, lembrando-me de como tinha sido fácil embarcar na charrete, mas agora a porta parecia chumbada no lugar.
“Vai ficar aí dentro?”, perguntou Heckling — sujeito ignorante — do outro lado da charrete, sem fazer nenhuma menção de vir ajudar.
“Não consigo sair, sr. Heckling”, respondi. “A portinhola parece estar emperrada.”
“Não tem nada de errado com ela”, ele disse, escarrando alguma imundice no chão. “É só girar, só isso.”
Suspirei e pus a mão outra vez na maçaneta — onde estavam os modos daquele homem? ― —; conforme tentei girá-la, tive uma súbita lembrança de uma das minhas pequeninas, Jane Hebley, que certo dia decidiu não gostar da escola por algum motivo bobo e se recusou a sair do banheiro. Quando tentei abrir a porta pelo lado de fora, ela segurou firme a maçaneta e, com determinação admirável, conseguiu ficar lá dentro por vários minutos até eu conseguir arrombar a porta. Foi assim que me senti na charrete. Era uma noção absurda, claro, mas parecia que, quanto mais tentava girar a maçaneta, com mais empenho alguma força oculta a mantinha fechada pelo lado de fora. Se não estivesse ao ar livre e se Heckling não fosse a única alma à vista, eu juraria que alguém estava pregando uma peça.
“Por favor”, eu disse, virando-me para encará-lo com irritação. “O senhor não pode me ajudar?”
Ele murmurou uma palavra vulgar, jogou minha mala no chão sem a menor cerimônia e contornou a charrete; eu o encarei, nervosa, tentando entender por que estava sendo tão detestável. Esperei pelo momento em que ele mesmo fosse tentar abrir a portinhola e visse que eu não era uma mulherzinha idiota que não sabia girar uma maçaneta, mas, para minha admiração, assim que ele colocou a mão ela se abriu com facilidade — com a mesma facilidade de quando eu tinha entrado na charrete, algumas horas atrás.
“Não é tão difícil”, ele grunhiu, afastando-se, recusando-se até mesmo a oferecer a mão para me ajudar na descida, e eu apenas sacudi a cabeça, perguntando-me, afinal, qual era o meu problema. Eu tinha girado para o lado errado? Aquilo era ridículo. A portinhola estava selada. Eu não consegui abri-la. Mas ele conseguiu.
“Gaudlin Hall”, ele anunciou ao caminharmos até a porta da frente. Puxou uma corda grossa e ouvi o sino tocar lá dentro. Então ele colocou minha mala no chão ao meu lado e me cumprimentou com um toque no chapéu. “Boa noite, dona governanta”, ele disse.
“O senhor não vai entrar?”, perguntei, surpresa por ser simplesmente largada ali daquele jeito, como se não passasse de uma bagagem.
“Nunca entro”, ele respondeu, afastando-se. “Moro em outro lugar.”
Para meu assombro, ele subiu na charrete e começou a descer a estrada; fiquei ali, boquiaberta, imaginando se todos os novos funcionários eram tratados daquele jeito.
Um instante depois, a porta se abriu e me virei, esperando ficar, enfim, frente a frente com meu novo empregador, quem quer que fosse ele ou ela.
Mas não era um homem nem uma mulher à porta, e sim uma menina. Tinha por volta de doze anos, supus — mais velha do que minhas pequeninas —, e a pele era bem branca; era muito bonita. Seus cabelos estavam enrolados em cachinhos que se estendiam até os ombros, talvez um pouco mais. Estava vestida com uma camisola branca, abotoada até o pescoço, que descia até os calcanhares; parada ali, com as velas do corredor a iluminando pelas costas, tinha uma aparência espectral que me deixou um tanto apreensiva.
“Olá”, ela disse, baixinho.
“Boa noite”, respondi com um sorriso, fingindo que não havia nada de incomum com a situação para me preocupar. “Eu não esperava que a porta fosse atendida por uma das crianças da casa.”
“Ah, não? Quem esperava que atendesse? O primeiro-ministro?”
“Ora, um mordomo”, respondi. “Ou uma criada.”
A menina sorriu. “Vivemos tempos mais modestos”, ela disse, depois de uma longa pausa.
Meneei com a cabeça; não pude pensar em uma resposta para aquilo. “Pois bem”, eu disse. “Talvez seja melhor me apresentar. Sou Eliza Caine. A nova governanta.”
A menina girou os olhos quase imperceptivelmente e então abriu a porta para me deixar entrar. “Foram só algumas horas”, ela respondeu.
“Desde o quê?”
“Desde que a última foi embora. A srta. Bennet. Mas, pelo menos, ela se foi. Ela queria ir, com todas as forças. Mas não podia, claro. Não até encontrar alguém para ficar no lugar. Foi gentil da parte dela, acho. Merece crédito por isso. E cá está você.”
Entrei sem saber o que achar daquele discurso inusitado. Ao olhar à volta, esperando que a mãe ou o pai descesse a escada (apesar do que Heckling dissera), fiquei impressionada com a magnificência da casa. Era muito tradicional, e nenhum centavo foi poupado na ornamentação — mas, apesar de tudo isso, parecia-me um lar decorado havia muitos anos, e talvez poucos esforços tinham sido feitos nos últimos tempos para mantê-la com aparência de nova. Ainda assim, era limpa e arrumada; a pessoa que tomava conta do lugar fazia um bom trabalho. A menina fechou a porta atrás de mim, que fez um som pesado; virei-me, assustada, e então tomei outro susto, pois, ao lado da entrada, usando um pijama também muito branco e asseado, estava um menininho, talvez quatro anos mais novo do que ela. Eu não o tinha visto antes. Será que estava escondido atrás da porta?
“Eliza Caine”, disse a menina, tamborilando o dedo indicador na boca. “Que nome engraçado. Tão comum.”
“Todos das classes trabalhadoras têm nomes assim, acho”, comentou o menino, contraindo o rosto como se tivesse quase certeza de que aquilo era verdade, mas não absoluta. Olhei para ele, tentando entender se pretendia ser grosseiro, mas ele me ofereceu um sorriso tão amigável que concluí que apenas apontava o óbvio. Se fôssemos falar em termos de classes, creio que eu era, de fato, da classe trabalhadora. Afinal, estava ali para trabalhar.
“Você teve uma governanta quando era pequena?”, ele então perguntou. “Ou foi para a escola?”
“Fui para a escola”, respondi. “St. Elizabeth’s, em Londres.”
“Sempre quis saber como seria isso”, disse a menina. “Eustace sofreria formidavelmente em uma escola normal, acho”, ela acrescentou, indicando o irmão com a cabeça. “Ele é uma criança muito delicada, como você pode ver, e os meninos podem ser terrivelmente brutos. Foi o que ouvi dizer. Eu mesma não conheço nenhum menino. Além de Eustace, claro. Você conhece muitos meninos, srta. Caine?”
“Apenas os irmãos das meninas que ensino”, respondi. “Ou ensinava. Eu era professora.”
“Na mesma escola em que estudou quando era pequena?”
“Sim.”
“Puxa vida”, ela disse, com um sorriso quase malicioso. “É como se você nunca tivesse crescido. Ou não quisesse crescer. Mas é verdade o que falei, não é? Sobre os meninos? Eles podem ser terrivelmente brutos.”
“Alguns”, respondi, olhando à volta, perguntando-me se ficaríamos ali conversando a noite toda ou se eu seria convidada a conhecer meu quarto e apresentada aos adultos. “Então”, eu disse, sorrindo para eles e tentando falar com uma postura autoritária. “Em todo caso, aqui estou. Você pode avisar sua mãe que cheguei? Ou seu pai? Eles podem não ter ouvido a charrete.”
Reparei que o menino, Eustace, enrijeceu um pouco quando fiz a referência aos pais, mas não disse nada. Já a menina permitiu que seu comportamento fosse um pouco mais evidente; ela mordeu o lábio e desviou os olhos em uma expressão que se aproximava de constrangimento, mas não chegava a ser isso.
“Pobre Eliza Caine”, ela disse. “Receio que tenha sido trazida para cá sob falso pretexto. Essa é uma expressão comum, não é?”, acrescentou. “Vi em um livro faz pouco tempo e gostei de como soa.”
“É uma expressão comum, sim”, respondi. “Mas creio que não significa o que você acha que significa. Fui contratada para ser governanta de vocês. Seu pai publicou o anúncio no Morning Post.” Eu não dava a mínima para o que Heckling tinha dito; a ideia de que a governanta anterior tinha colocado o anúncio era absurda.
“Acontece que não foi ele”, disse a menina com leveza. Eustace se virou e grudou o corpo contra o dela, que pôs um braço em torno dele. Era verdade — Eustace era mesmo uma criança delicada. Fiquei com a sensação de que se machucava com facilidade. “Acho melhor nos sentarmos, srta. Caine”, ela disse, mostrando o caminho para a sala. “Deve estar cansada da viagem.”
Eu a segui, estupefata, achando graça e ao mesmo tempo perturbada com sua postura adulta. Esperou até que eu tivesse me sentado em um grande sofá antes de se acomodar em uma poltrona oposta a mim, como se fosse a senhora de Gaudlin, não a filha dos senhores da casa. Eustace ficou indeciso entre nós e então optou por se sentar na outra extremidade do sofá, onde ficou observando os dedos dos pés.
“Seus pais estão em casa, não estão?”, eu disse, sentada diante dela, começando a me perguntar se aquela situação toda não era algum tipo de artimanha elaborada para enganar uma jovem assolada pelo luto, sem nenhum motivo aparente. Talvez todos fossem lunáticos na família.
“Receio que não”, ela respondeu. “Somos apenas Eustace e eu. A sra. Livermore vem todos os dias para tomar conta das coisas. Ela sabe cozinhar um pouco e às vezes faz comida para nós. Espero que goste de carne cozida demais e legumes cozidos de menos. Mas ela mora no vilarejo. E você já conheceu Heckling, é claro. Ele tem uma cabana lá perto dos estábulos. Que homem desagradável, não concorda? Ele lembra um macaco. E tem um cheiro estranho, não tem?”
“Ele tem cheiro de cavalo”, disse Eustace, sorrindo para mim, deixando à mostra o dente que faltava na frente, e não pude deixar de devolver o sorriso, apesar de todo o meu desconforto.
“Tem mesmo”, respondi, e então me dirigi à irmã. “Desculpe”, eu disse, meu tom refletindo minha dúvida. “Você não me disse seu nome.”
“Não disse?”
“Não.”
Ela franziu o cenho e concordou com a cabeça, esperando bastante tempo antes de responder. “Que rude da minha parte. Meu nome é Isabella Westerley. Eu o recebi em homenagem a uma das grandes rainhas da Espanha.”
“Isabel de Castela”, respondi, usando minha memória de professora.
“Essa mesma”, ela confirmou, aparentando satisfação por eu saber a quem se referia. “Acontece que minha mãe nasceu na Cantábria. Meu pai, por outro lado, nasceu aqui. Nesta casa.”
“Então você é metade inglesa, metade espanhola?”, perguntei.
“Sim, se quiser me dividir em frações”, ela respondeu.
Encarei Isabella por um instante e então olhei à volta. Havia belos quadros no aposento — de antepassados da família, imaginei — e uma tapeçaria fascinante na parede que ficava de frente para o pátio. Ocorreu-me que eu gostaria de estudar aqueles objetos com mais cuidado no dia seguinte, sob a luz do sol.
“Mas vocês não…”, comecei, sem saber como frasear aquilo. “Decerto não moram aqui sozinhos, não é? Só vocês dois?”
“Não, é claro que não”, respondeu Isabella. “Somos pequenos demais para ficar sozinhos.”
Suspirei aliviada. “Graças aos céus por isso”, eu disse. “Então, se seus pais não estão aqui, quem está? Você pode chamar o adulto da casa?”
Para meu espanto, sem se mover nem um centímetro de onde estava sentada, Isabella abriu a boca e soltou um grito extraordinário e arrepiante. Ou melhor, achei que fosse um grito, até perceber que, na verdade, ela tinha berrado meu nome. Eliza Caine.
“O que foi isso?”, perguntei, pousando a mão no peito de susto. Pude sentir meu coração acelerado. Olhei para Eustace, mas ele parecia impassível, apenas me observando, o branco dos olhos quase reluzente sob a luz das velas.
“Peço desculpas”, disse Isabella, com um sorriso tênue. “Mas você pediu que eu chamasse o adulto da casa.”
“E você chamou meu nome. Gritou meu nome, na verdade.”
“Você é a adulta da casa”, ela insistiu. “Agora que a srta. Bennet se foi, você assumiu o lugar dela. É a única adulta responsável por aqui.”
“Haha!”, interveio Eustace, rindo de leve e sacudindo a cabeça, como se a afirmação da irmã não fosse algo em que ele acreditasse por completo. E ele não era a única pessoa que parecia abismada. Eu não conseguia encontrar um sentido naquilo.
“Mas o anúncio…”, comecei, já exausta por ter que explicar a situação.
“Foi encomendado pela srta. Bennet”, interrompeu Isabella. “Eu já disse. Você é a substituta dela.”
“Mas quem é o responsável? Quem, por exemplo, pagará meu salário?”
“O sr. Raisin.”
Aquele nome outra vez. Sr. Raisin, o advogado. Então Heckling não estava mentindo sobre tudo.
“E onde está esse sr. Raisin, posso saber?”
“Ele mora no vilarejo. Posso mostrar onde amanhã, se você quiser.”
Olhei para o relógio de pêndulo, uma bela peça que estava em um canto da sala. Já tinha passado das dez da noite.
“O sr. Raisin paga por tudo”, continuou Isabella. “Ele paga a governanta, a sra. Livermore e Heckling. É ele quem nos dá nossas mesadas.”
“E ele presta contas aos seus pais?”, perguntei, e, dessa vez, Isabella deu de ombros e desviou o olhar.
“Você deve estar cansada”, ela disse.
“Sim, estou”, concordei. “Foi um dia muito longo.”
“Está com fome? Deve ter alguma coisa na cozinha, se…”
“Não”, eu disse, sacudindo a cabeça e me levantando abruptamente. Já bastava de tudo aquilo para uma única noite. “Não, o movimento da charrete perturbou um pouco meu estômago. Talvez seja melhor você me mostrar meu quarto. Uma boa noite de sono resolverá tudo, e amanhã poderei encontrar o sr. Raisin e entender o que está acontecendo.”
“Como quiser”, respondeu Isabella, levantando-se. No mesmo instante, Eustace também se levantou e se agarrou a ela. A menina sorriu para mim, aquela expressão de dona da casa mais uma vez estampada em seu rosto. “Queira me acompanhar.”
Subimos as escadas. Era uma escadaria tão esplêndida e sofisticada que não resisti e passei a mão no mármore da balaustrada. O tapete sob nossos pés também era de qualidade excepcional, apesar de parecer intocado por muitos anos, assim como tudo ali.
“Eustace e eu dormimos no primeiro andar”, disse Isabella, indicando alguns quartos no final do corredor, difíceis de ver naquele momento, pois apenas a menina carregava uma vela. “Você fica no andar de cima. Espero que se sinta confortável. De verdade.”
Olhei para ela, na dúvida se estava tentando ser engraçada, mas seu rosto tinha uma expressão estoica. Continuamos a subir, Isabella com o candelabro três passos à frente de Eustace, ele três passos à minha frente. Vi seus pés descalços de relance. Eram pequenos, e ele tinha dois machucados nos calcanhares, como se usasse sapatos que eram um número menor. Quem cuidava desse menino, perguntei-me, se não havia nenhum adulto por perto? “Por aqui, Eliza Caine”, disse Isabella, seguindo por um corredor antes de abrir uma grande porta de carvalho e entrar em um quarto. Ao passar pela porta um instante depois, fiquei agradecida por ela ter usado a vela que carregava para acender as outras três espalhadas pelo aposento e olhei o entorno, agora enxergando um pouco mais. Era um quarto muito bonito, grande e arejado, nem frio nem quente, e a cama parecia confortável. Minha inquietação se dissipou e senti uma disposição favorável pelas crianças e por aquele lugar. Tudo ficaria bem de manhã, decidi. As coisas ficariam claras.
“Então, boa noite”, disse Isabella, seguindo para a porta. “Espero que durma bem.”
“Boa noite, srta. Caine”, completou Eustace, acompanhando a irmã; sorri e cumprimentei ambos com a cabeça, desejei uma boa noite de sono e disse que estava ansiosa para conhecê-los melhor pela manhã.
Quando estava sozinha — pela primeira vez desde que saí de casa naquela manhã —, sentei-me na cama por um instante e respirei fundo, aliviada. Olhei à volta, sem saber se devia cair no choro pela bizarrice daquele dia ou dar risada do absurdo de tudo aquilo. Quando enfim abri as fivelas da minha mala, decidi que por enquanto não tiraria as roupas para guardá-las no armário e na cômoda. Aquilo, decidi, podia esperar até de manhã. Em vez disso, peguei somente minha camisola e a vesti, satisfeita por me livrar das roupas molhadas, e me lavei um pouco na bacia com uma jarra de água que estava em uma mesa de canto. Abri as cortinas para observar a paisagem e fiquei contente ao descobrir que meu quarto era na frente da casa, com vista para o gramado. Tentei abrir as janelas altas para respirar o ar noturno, mas estavam seladas, e nenhuma pressão que eu fizesse nos trincos pôde abri-las. Vi a alameda pela qual eu e Heckling subimos, serpenteando para longe, e a meia-lua reluzia sobre parte da propriedade, agora totalmente vazia. Aliviada, subi na cama, apreciando as molas do colchão e a maciez dos travesseiros. Tudo ficará bem, disse a mim mesma. Tudo sempre fica melhor depois de uma boa noite de sono.
Apaguei a última vela no criado-mudo e puxei o lençol até os ombros, fechando os olhos e permitindo que um bocejo monstruoso saísse da minha boca. À distância, ouvi um bramido bastante desagradável e me perguntei se seria Winnie, preparando-se para dormir, mas então ouvi outra vez e pude perceber que não era o som de uma égua e então pensei que deveria ser o vento passando pelas árvores, pois agora havia um vento intenso, e a chuva começou a martelar na minha janela. Mas resolvi que aquilo não me deixaria acordada, independente de quão horrível fosse o barulho — mais parecido com uma mulher sendo estrangulada do que qualquer outra coisa —, pois eu estava cansada e chateada depois da jornada e da confusão com os três residentes de Gaudlin que tinha conhecido até então.
Fechei os olhos e suspirei, esticando meu corpo, minhas pernas descendo e descendo por baixo das cobertas; esperei o momento em que meus dedos dos pés encostariam na armação de madeira da cama, mas eles não encostaram, e sorri ao perceber que a cama era mais comprida do que eu; poderia me esticar o quanto quisesse, e foi o que fiz, satisfeita ao sentir meus membros doloridos relaxarem conforme chegavam o mais longe que conseguiam, os dedos dos pés dançando sob os lençóis, uma sensação de alívio muito prazeroso, até que duas mãos agarraram meus tornozelos com força, os dedos apertando meus ossos com agressividade conforme me puxaram para baixo na cama e eu perdi o ar, arrastando-me para cima o mais rápido que pude, tentando entender que tipo de pesadelo terrível era aquele. Joguei-me para fora da cama, abri as cortinas e arranquei todas as cobertas, mas não havia nada lá. Fiquei parada, com o coração acelerado. Não tinha sido minha imaginação. Duas mãos tinham agarrado meus tornozelos e me puxado — eu ainda podia senti-las. Olhei para a cama sem acreditar, mas, antes que pudesse organizar meus pensamentos, a porta se abriu de repente e uma luz cortante preencheu o corredor; havia uma figura branca e fantasmagórica à minha frente.
Isabella.
“Você está bem, Eliza Caine?”, ela perguntou.
Arfei e corri até a menina e o conforto da vela. “Tem alguma coisa…”, comecei, sem saber como explicar. “Na cama, tinha… Eu senti…”
Ela entrou no quarto e segurou a vela sobre a cama, examinando-a de cima a baixo, do travesseiro até a base. “Está vazia”, disse. “Você teve um pesadelo?”
Pensei em tudo aquilo. Um pesadelo era a única explicação que fazia sentido. “Deve ter sido isso”, respondi. “Achei que ainda estava acordada, mas devo ter caído no sono. Desculpe por ter acordado você. Não sei… Não sei o que deu em mim.”
“Você acordou Eustace, sabia? Ele tem o sono muito leve.”
“Peço desculpas”, repeti.
Ela levantou uma das sobrancelhas, como se estivesse na dúvida se faria a bondade de me perdoar, e então fez apenas um cumprimento educado com a cabeça e me deixou sozinha, fechando a porta atrás de si.
Fiquei um bom tempo ao lado da cama até conseguir me convencer de que devia ter sido minha imaginação pregando peças. Enfim, deixando as cortinas abertas para permitir que a luz da lua entrasse, subi mais uma vez na cama, puxei os lençóis para me cobrir e me permiti esticar as pernas de novo, bem devagarzinho, sem que encontrassem nada além dos lençóis macios.
Fechei os olhos, sem a menor dúvida de que nunca conseguiria dormir, mas a exaustão deve ter me vencido, pois, quando acordei, o sol brilhava através da janela, a chuva e o vento tinham se dissipado e um novo dia — meu primeiro dia em Gaudlin Hall — começou.