A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 8 de 26

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A casa assombrada

Capítulo 8

 

Segui por fora até a frente da casa, onde, exatamente como tinha dito Eustace, uma dresina estava apoiada em uma das colunas, a pesada estrutura de madeira sustentada por duas rodas robustas. Eu a posicionei na alameda, joguei uma das pernas por cima do banco e comecei a descer pelo caminho, ouvindo o cascalho sendo esmagado embaixo de mim. Para meu espanto, considerando que estava em Gaudlin Hall havia pouco mais de doze horas, tive uma curiosa sensação de alívio conforme aumentou a distância entre mim e a casa.

Eustace não se enganou nas orientações de trajeto e tempo. A viagem para o vilarejo foi agradável, e meu ânimo melhorava cada vez mais conforme seguia pelas vielas sinuosas, os campos recém-colhidos mudando para verde ao lado, o ar fresco acariciando meu rosto e dando uma sensação de bem-estar. Por que alguém optaria por viver em Londres, perguntei-me, naquela Londres suja, castigada pela neblina, sufocada pela fumaça, com assassinos, prostitutas e criminalidade em todos os cantos? O rio serpenteante e fedorento poluindo os corpos, o palácio vazio em luto pela rainha ausente, o clima calamitoso, os trabalhadores em greve, a imundice das ruas. Ali, em Norfolk, era quase como se eu estivesse em outro mundo. Era idílico. A região campestre oferecia algo distinto da experiência deprimente da noite anterior na mansão. Havia alguma coisa muito mais enriquecedora a ser descoberta naquelas terras e, conforme fiz a última curva e a estrada se abriu e se transformou em um vilarejo rural pitoresco, senti, pela primeira vez desde a morte de papai, que o mundo era um lugar bom e que meu papel nele seria valorizado.

Ao chegar ao vilarejo, deixei a dresina apoiada na cerca da igreja e observei o entorno, curiosa para descobrir que tipo de lugar era minha nova cidade. Eu estava ali para encontrar o escritório do sr. Raisin, claro, mas não havia pressa, portanto explorar um pouco aquela locação desconhecida parecia apropriado. A própria igreja era notável; não muito grande, mas com uma arquitetura inteligente que aproveitava o terreno ao máximo, e passei lá dentro para examinar as esculturas, o sofisticado trabalho no teto e uma imensa janela de vitral que mostrava uma imagem de Moisés no topo do monte Sinai, tirando as sandálias e desviando o olhar conforme o rosto de Deus aparecia no arbusto em chamas diante dele. Era lindíssimo, e me perguntei se o vitralista seria um habitante local ou se a janela tinha sido importada. Lembrei-me de certa vez, quando era criança, que papai me levara a Whitefriars para ver a fábrica da James Powell & Sons. A complexidade das obras me fascinara, assim como a pequena imagem de monge que colocavam nos cantos, como assinatura. Reclinei-me para ver se alguma marcação semelhante tinha sido incluída no vitral e reparei na imagem de uma borboleta, semelhante àquelas que observei no corredor de Gaudlin Hall; imaginei que se tratava de um inseto característico da região. Papai saberia dizer, claro.

A igreja estava em silêncio; a única pessoa ali era uma senhora idosa sentada na ponta de um dos bancos na metade do corredor, que se virou para olhar para mim, meneou com a cabeça e sorriu, mas então pareceu mudar de ideia, pois sua expressão se fechou e ela desviou os olhos. Não me incomodei com o gesto — ela parecia estar perto dos noventa anos e sua cabeça talvez estivesse um tanto fora do lugar — e continuei a caminhar pela nave até que encontrei uma pequena capela, com espaço para talvez uma dúzia de fiéis à frente de um altar simples, e me sentei. Olhando à volta, fiquei chocada com a natureza repulsiva de algumas das esculturas, criaturas ferozes com olhos insanos que me encaravam, grifos e ogros, figuras que pareciam mais adequadas para o folclore medieval do que para um lugar de culto.

Ouvi passos se aproximarem atrás de mim, mas, quando me virei, um calafrio percorrendo meu corpo, eles ficaram mais baixos, até que sumiram. A senhora idosa não estava mais lá, mas os passos não poderiam ter sido dela, pois havia uma bengala apoiada ao seu lado no banco, e os passos que escutei eram vigorosos e jovens.

Levantei-me e andei pelo corredor até um atril, sobre o qual havia um livro aberto, uma coletânea de versos bíblicos, um para cada dia do ano. Li o daquele dia. Então ouvi o Senhor dizer aos outros homens: “Sigam-no pela cidade e matem todos cujas frontes não tenham a marca. Não ofereçam misericórdia! Não demonstrem piedade! Aniquilem todos — idosos e jovens, meninas, mulheres e crianças. Mas não toquem em ninguém com a marca”.

Os versos me perturbaram e me virei quando um órgão na galeria superior começou a ser tocado e então subitamente parou. Senti que já tinha passado tempo suficiente lá dentro; fui depressa para a saída e entrei no cemitério, onde examinei as lápides, a maioria de pessoas idosas, algumas poucas crianças desafortunadas, um túmulo mais recente para uma jovem cujo sobrenome era Harkness, que falecera havia apenas alguns meses. Ela era dois anos mais velha do que eu, pobrezinha, e senti uma onda de desconforto diante daquele lembrete de mortalidade. Parei por um segundo — por que aquele nome me pareceu importante? Minha memória não ajudou, e continuei a caminhar.

De volta à rua, reparei em uma pequena casa de chá numa esquina e, ao me dar conta de quão faminta estava — pois mal comera o café da manhã que Isabella tinha preparado para mim —, entrei e pedi um bule de chá e um bolinho com um pouco de geleia de groselha, que era feita ali mesmo.

“Nova aqui na região, senhorita?”, perguntou a jovem atrás do balcão, ao me servir. Ela tinha um aspecto rústico, resultado de uma infância dedicada a trabalhos manuais, pensei, mas sua expressão era acolhedora, como se estivesse contente por ter companhia. As covinhas nas bochechas lhe garantiam algum charme, mas seus olhos eram estrábicos; o esquerdo me observava, mas a pupila direita ficava mais para o canto do olho, o que prejudicava sua aparência; era difícil ignorar tal característica. “Ou está só de passagem?”

“Vim para ficar, espero”, respondi. “Cheguei há pouco, na noite passada, então achei que deveria dar uma volta pelo vilarejo hoje de manhã. Essa sua casa de chá é adorável. Cuida dela sozinha?”

“É da mãe”, ela explicou. “Só que ela está de cama, com uma das enxaquecas dela, então a tonta aqui está tocando tudo sozinha.”

“Deve ser muito difícil”, eu disse, esperando fazer amigos entre os comerciantes locais. “Deve haver muito movimento na hora do almoço, imagino.”

“Mais fácil quando ela não está, para ser honesta”, respondeu a moça, sacudindo a cabeça com vigor. “Sempre faz tempestade em copo d’água. Quando estou sozinha, posso fazer as coisas e pronto. Sabe do que estou falando, senhorita? Tenho meu jeito e ela tem o dela, e às vezes os dois não se acertam.”

“Entendo, entendo perfeitamente”, eu disse, sorrindo e estendendo a mão para cumprimentá-la. “Eliza Caine”, acrescentei. “É um prazer.”

“Prazer é meu, senhorita”, ela respondeu. “Molly é meu nome. Molly Sutcliffe.”

Ela voltou para trás do balcão e me sentei perto da janela, apreciando meu chá e meu bolinho, observando o mundo lá fora. Uma cópia do Illustrated London News tinha, de alguma maneira, chegado até ali e estava na mesa ao lado da minha; estiquei-me para pegá-lo, mas mudei de ideia. Foi aquele jornal, no fim das contas, que tinha divulgado a leitura do sr. Dickens e, se papai não tivesse visto, com certeza ainda estaria comigo. Fiquei contra o jornal por causa disso. Em vez de pegá-lo, continuei a acompanhar os habitantes do vilarejo que passavam pela rua. Reparei em um vigário, um homem surpreendentemente jovem, alto e esbelto, caminhando na direção da igreja, acompanhado por um cachorrinho. O animal não devia ter mais do que dois meses e ainda tentava se acostumar com a coleira, parando com frequência e torcendo a cabeça para tentar mordê-la e se libertar, mas o vigário era cuidadoso, não puxava com força demais e parava de vez em quando para acariciá-lo e falar com gentileza no seu ouvido; nesses momentos, o cachorro muitas vezes oferecia lambidas para demonstrar confiança. Em um desses instantes, quando se levantou, o vigário se virou na minha direção e nossos olhos se encontraram; ele deu de ombros, sorrindo, e me peguei rindo e acompanhando a dupla conforme passava pelo portão da igreja.

Depois de terminar o chá, levantei-me, paguei minha conta e agradeci Molly. Ela recolheu a xícara e o pires da mesa e disse que esperava me ver ali de novo, mas que eu não deveria me incomodar quando a mãe estivesse ali, gritando, porque ela conseguia ser intratável quando queria.

“Tenho certeza de que voltarei muitas vezes”, eu disse a ela. “Sou a nova governanta em Gaudlin Hall, então devo visitar o vilarejo com frequência.”

No instante em que eu disse isso, a xícara escorregou de sua mão e caiu no chão, espatifando-se em inúmeros pedaços.

“Ah, que pena”, comentei, olhando para baixo. “Tomara que não seja valiosa.”

Mas Molly não estava olhando para a xícara quebrada. Encarava-me com uma expressão pálida de espanto no rosto. Toda a cordialidade e acolhimento de um instante atrás tinham desaparecido, e ela continuou a me encarar em silêncio; fiquei ali, parada, sem a menor ideia de qual poderia ser o problema dela, até que enfim se recompôs, sacudiu a cabeça, caminhou com pressa e pegou uma pá e uma vassoura, com a qual começou a limpar os destroços. Ela não se virou para olhar para mim e imaginei que estivesse constrangida pela própria falta de jeito.

“Bom, então, até logo”, eu disse, virando-me e saindo da loja, sem entender por que seu humor tinha se alterado tão rápido, mas tive pouco tempo para pensar naquilo, pois assim que pisei na rua uma carroça de leite passou; se eu tivesse saído um ou dois segundos depois, tenho certeza de que os cavalos teriam me atropelado. Perdi o fôlego, precisei de um momento para me recuperar e decidi que prestaria mais atenção no meu caminho dali para a frente. Não importava que fosse um vilarejo pequeno — você nunca sabe onde pode estar o perigo.

Continuei pela rua, sem entrar em nenhuma das lojas, observando os produtos à mostra nas vitrines. Era um hábito que eu tinha criado havia cerca de um ano, em Londres; eu caminhava pela Regent Street, apreciando os itens refinados nas lojas que priorizavam qualidade, coisas que eu nunca poderia comprar, mas que me enchiam de desejo. Ali, em Gaudlin, passei por uma respeitável quitanda com um balcão de frutas, legumes e verduras diferente de tudo o que já tinha visto. Cultivo local, sem dúvida. Como era bom viver perto da zona rural, pensei, onde a comida devia ser sempre saudável — o que me levou a pensar em Isabella e no café da manhã endurecido. Eu esperava que o jantar fosse melhor; talvez o mais sensato fosse eu mesma prepará-lo. A janela de uma costureira me apresentou outra dupla de mãe e filha que trabalhavam juntas. Uma delas estava ajudando uma senhora a se decidir sobre um vestido, a outra estava sentada atrás da máquina de costura, a boca segurando tantos alfinetes que era melhor que ninguém a assustasse, pois correria o risco de engolir pelo menos um deles. Uma confeitaria exibia uma abundância de gostosuras e fiquei na dúvida se levaria algumas para casa (casa! Que palavra estranha para me referir a Gaudlin Hall; como se aquele lugar pudesse ser minha casa algum dia), para agradar as crianças, e então, naquele mesmo lado da rua, logo depois de uma bica de água de onde algumas crianças bebiam, encontrei as palavras ALFRED RAISIN, ADVOGADO — CLIENTES DISTINTOS entalhadas numa pequena placa de mogno em uma porta; alisei meu casaco, ajustei meu chapéu na cabeça e entrei.

Um jovem estava sentado atrás de uma escrivaninha; ele levantou os olhos de um livro de registro de finanças quando o sino na porta tocou. Seu aspecto era um tanto esquisito; estava ficando careca antes do tempo, tinha bochechas gorduchas e rosadas e um bigode que precisava ser aparado. Havia uma mancha de tinta que ele não tinha percebido sob o olho esquerdo. Tirou os óculos, recolocou-os no nariz e pousou a caneta. Reparei que suas mãos estavam cobertas de marcas escuras e os punhos da camisa decerto seriam um desafio para sua esposa na hora de lavar.

“Posso ajudá-la, senhorita?”, ele perguntou.

“Espero que sim”, respondi. “O senhor é o sr. Raisin?”

“Cratchett”, ele disse, negando com a cabeça. “Assistente pessoal do sr. Raisin.”

Precisei controlar minha vontade de rir. “Cratchett?”, perguntei.

“Isso mesmo, senhorita”, ele respondeu, defensivo. “Meu nome lhe parece engraçado?”

Sacudi a cabeça. “Peço desculpas”, eu disse. “Pensei em outro assistente com um nome parecido. Na história de fantasma Um conto de Natal. O senhor leu?”

Ele me encarou como se eu tivesse de repente começado a falar um dialeto russo arcaico e fez que não com a cabeça. “Não tenho tempo para ler”, respondeu. “Minhas funções me mantêm ocupado demais para leituras. Aqueles que têm tempo de ler que leiam, mas eu não tenho.”

“Ora, mas o senhor pelo menos já ouviu falar no livro.”

“Não, não ouvi”, ele disse, negando mais uma vez com a cabeça.

“Nunca ouviu falar de Um conto de Natal?”, perguntei, estupefata, pois o romance tinha sido um grande sucesso. “De Charles Dickens.”

“Não, senhorita. Não estou familiarizado com esse cavalheiro.”

Caí na risada, certa de que ele estava fazendo algum tipo de piada incompreensível, e seu rosto ficou vermelho de raiva. Nunca tinha ouvido falar em Charles Dickens? Isso era possível? Será que ele já tinha ouvido falar na rainha Vitória? Ou no papa em Roma?

“Bom, isso não importa”, eu disse, um pouco constrangida, pois a maneira como ele olhava para mim sugeria que levava qualquer coisa que encarasse como descaso muito a sério. “Gostaria de conversar com o sr. Raisin. Ele está disponível?”

“A senhorita marcou hora?”

“Receio que não. É necessário?”

Cratchett conferiu o relógio e franziu o cenho. “Ele tem uma reunião com um cliente importante na próxima hora”, disse. “Posso perguntar se encaixaria a senhorita agora, mas precisará ser rápida. Nome, por favor.”

“Eliza Caine”, respondi; ele meneou e seguiu para outro cômodo enquanto fiquei ali, olhando à volta. Não havia nenhum lugar para sentar e nada interessante para ver. Peguei uma cópia do Times daquela manhã na escrivaninha de Cratchett e passei os olhos pelas manchetes. Outro assassinato em Clerkenwell; uma mocinha dessa vez. E outro em Wimbledon, um homem de meia-idade conhecido pela polícia. Além disso, uma criança tinha desaparecido em Paddington Station e o príncipe de Gales tinha agendado uma visita a Newcastle.

“Srta. Caine?”, disse Cratchett, voltando, e larguei o jornal, com a sensação de ter sido flagrada fazendo algo que não devia. Seus olhos desceram até a mesa e ele pareceu incomodado por eu ter mexido em suas coisas. “Venha comigo, sim? O sr. Raisin pode recebê-la por cinco minutos, se prometer ser rápida.”

Concordei com a cabeça. “Cinco minutos serão mais do que suficientes”, respondi, sem acreditar nem por um segundo nisso; imaginei que teria perguntas para preencher dez vezes aquele período, mas cinco minutos teriam de servir para começar. Acompanhei Cratchett até o próximo aposento, muito mais luxuoso do que a antessala, e ele fechou a porta atrás de mim. Perto da janela havia uma grande mesa de carvalho, coberta por documentos organizados com cuidado; conforme entrei, um homem se levantou detrás dela e veio até mim, oferecendo a mão. Ele tinha trinta e tantos anos e uma aparência bem cuidada, com uma expressão gentil, talvez um pouco cansada, no rosto. E era bonito também, para quem gostava de cavalheiros mais velhos.

“Alfred Raisin”, ele disse, com um gesto educado da cabeça. “A senhorita gostaria de conversar comigo? Lamento não ter muito tempo disponível hoje. Não sei se Cratchett mencionou, mas…”

“Sim, entendo perfeitamente”, respondi, sentando-me na cadeira que ele ofereceu do outro lado da mesa enquanto voltava a se sentar na dele. “Mas quis arriscar uma visita. Torci para que o senhor conseguisse algum tempo para me receber.”

“Pois não, senhorita…?”

“Caine”, eu disse. “Eliza Caine.”

“É nova aqui em Gaudlin? Não me lembro de tê-la visto antes.”

“Isso mesmo”, respondi. “Cheguei ontem à noite. Vim no trem de Londres com destino a Norwich, e o sr. Heckling me trouxe para cá de charrete.”

“Heckling”, ele disse, parecendo um pouco surpreso. “A senhorita não se refere ao…”

“Sim, o zelador de Gaudlin Hall”, expliquei. “Sou a nova governanta.”

Ele colocou as duas mãos no rosto e por um momento apertou os olhos fechados com as pontas dos dedos, como se estivesse exaurido; então se reclinou na cadeira e me analisou com curiosidade e surpresa. Ele se levantou, olhou para o relógio e sacudiu a cabeça.

“Não posso”, ele disse. “Esqueci que tenho um compromisso com… com… o sr. Hastings, de Bramble Lodge. Não posso conversar agora.”

“Por favor”, pedi. “Não vou demorar.”

“Sinto muito, srta. Caine, mas…”

“Por favor”, insisti, falando um pouco mais alto. Um longo silêncio pairou entre nós. Ele continuou a me observar e desviei os olhos, reparando em um belo relógio instalado em um navio de madeira que ficava sobre a lareira. Tinha entalhes sofisticados, era um objeto de considerável beleza, e senti vontade de ir até ele, soltar suas amarras e passar os dedos pela superfície da madeira.

“A nova governanta”, ele disse, enfim se sentando com um suspiro. “Quem diria. Já aqui.”

“Então o senhor sabia que eu estava vindo?”, perguntei, virando-me mais uma vez para ele.

“A srta. Bennet chegou a mencionar”, ele respondeu, um tanto dissimulado, pensei. “Ou melhor, ela fez mais do que mencionar. Esteve aqui não faz nem três dias, sentada nessa cadeira em que a senhorita está agora. Ela me contou que estava indo embora. Achei que conseguiria persuadi-la a ficar.”

De repente fiquei desconfortável, sem saber o motivo. Eu não gostava da ideia de estar sentada na mesma cadeira que aquela mulher. Não fazia sentido — ela não tinha morrido ali, afinal —, mas mudei de posição, inquieta, e desejei que pudéssemos ir para o sofá encostado na parede do escritório.

“Isso já é mais do que ela contou para mim”, respondi. “Sr. Raisin, vim até aqui com as ideias muito confusas. Acreditei estar sendo contratada por uma família para ser governanta dos filhos. Entretanto, ao chegar ontem à noite, constatei que tanto o sr. quanto a sra. Westerley estão indisponíveis, que eles nem estão em Gaudlin Hall, e que a governanta anterior embarcou no trem do qual desembarquei para ir embora. Não sei o que pensar e nem o que fazer em relação ao que está acontecendo.”

O sr. Raisin meneou com a cabeça e suspirou. Sorriu para mim e pareceu encolher os ombros de leve. “Imagino que seja muito desconcertante, srta. Caine”, ele disse.

“Imaginou certo, senhor.”

“E então”, ele continuou, encostando a ponta dos dedos, “como posso ajudá-la?”

Hesitei, sem entender por que ele teria necessidade de fazer aquela pergunta descabida. “Bom”, respondi, agora sentindo uma irritação crescer dentro de mim, “fui informada de que o senhor cuida das questões financeiras relacionadas à propriedade.”

“Sim”, ele concordou. “Sim, de fato.” O sr. Raisin endireitou a postura de repente. “Ah, creio ter entendido o problema”, disse. “A senhorita está preocupada com o salário? Não se aflija sobre esse assunto, srta. Caine. Pode vir buscar seu ordenado semanal aqui no escritório, todas as terças-feiras de manhã. Cratchett terá preparado tudo. As contas estão em perfeita ordem.”

“Não é no meu salário que estou pensando”, respondi, mas devo admitir que a questão também me passou pela cabeça — afinal, eu não tinha muitas economias, apenas o que consegui economizar do meu trabalho na St. Elizabeth’s e algumas centenas de libras que papai me deixou de herança, capital que decidi não gastar para usufruir dos rendimentos. Eu precisava de um salário, se quisesse sobreviver.

“Quanto às despesas domésticas”, ele prosseguiu, “não precisa nem pensar no assunto. O dono da mercearia local separa a comida e manda entregar. Todos os recibos das lojas chegam diretamente para mim e são quitados no mesmo instante. O ordenado de Heckling, o da senhora…” Ele tossiu e se corrigiu. “Quaisquer ordenados que precisem ser pagos. Cuidamos de todos aqui. Não precisa se preocupar com nada mesmo, exceto o óbvio.”

“O óbvio?”, perguntei. “E o que seria?”

“Ora”, ele disse, sorrindo para mim como se eu fosse uma perfeita idiota, “as crianças, é claro. Quem cuidaria delas, senão a governanta?”

“Os pais?”, sugeri. “Imagino que não ficarei sozinha com Isabella e Eustace para sempre. Os pais estarão disponíveis em breve?”

O sr. Raisin desviou o olhar, sua expressão se tornando angustiada. “A srta. Bennet disse isso no anúncio?”, ele perguntou.

“Bom, não”, admiti. “Mas, naturalmente, supus que…”

“A verdade é que não competia à srta. Bennet fazer aquele anúncio sem me consultar antes. Não pude acreditar nos meus olhos quando abri o Morning Post e o vi impresso. Tivemos uma discussão sobre o assunto, srta. Caine, não me importo de dizer à senhorita. Uma discussão acalorada. Mas ela estava decidida a ir. Acho que, de certa maneira, não posso culpá-la, mas…”

“Por quê?”, perguntei, inclinando-me na direção dele. “Por que o senhor não pode culpá-la?”

“Ora”, ele respondeu, agora se esforçando para articular uma resposta. “Ela não se adaptou, só isso. Não estava contente. Não era daqui”, ele acrescentou, enfatizando a palavra.

“Sr. Raisin, eu não sou daqui”, disse.

“Não, mas talvez a senhorita se adapte melhor do que ela.” Ele conferiu o relógio de pulso. “Meu Deus, já é tão tarde? Sinto muito por pedir que se retire com tanta pressa, srta. Caine.” Ele se levantou, induzindo-me a levantar também. “Mas, como eu disse, tenho outro compromisso.”

“Sim, claro”, respondi, frustrada com suas evasivas, mas me levantando e permitindo que me conduzisse até a porta. “Mas o senhor ainda não respondeu minha pergunta. Sobre os pais de Isabella e Eustace. Quando poderei conhecê-los?”

Ele olhou fundo nos meus olhos e sua testa ficou marcada por uma expressão de angústia. Houve um longo silêncio e jurei a mim mesma que não diria nada; ele seria o primeiro a falar nem que ficássemos ali até o dia seguinte.

“Você veio até Gaudlin sozinha?”, ele perguntou, e eu levantei uma sobrancelha, surpresa pela mudança abrupta de assunto.

“Como disse?”, respondi.

“Quero saber se veio com um companheiro, só isso. Ou seu pai, talvez? Um irmão mais velho?”

“Não tenho irmãos, sr. Raisin, nem amigos; minha mãe morreu quando eu era pequena e meu pai pouco mais de uma semana atrás. Por que pergunta?”

“Sinto muito”, ele disse, estendendo a mão e tocando meu braço, um gesto de intimidade tão honesta que me fez perder o ar. “Por seu pai, quero dizer”, acrescentou. “A perda de um ente querido é terrível.”

Abri a boca para responder, mas descobri que não tinha palavras. Sua mão continuou no meu cotovelo e, para meu espanto, senti um imenso consolo em sua ternura. Olhei para a mão, ele acompanhou meu olhar e então a tirou em um movimento brusco, tossindo e se virando para o outro lado. Enfim, tentando recuperar minha compostura, repeti a pergunta sobre o paradeiro dos progenitores da família Westerley.

“Não posso dizer”, foi a decepcionante resposta que ele, enfim, me ofereceu. “Srta. Caine, você gosta de crianças, não gosta?”

“O quê?”, perguntei, chocada com tal pergunta. “É claro que gosto de crianças. Eu era professora em Londres.”

“E gosta das crianças da família Westerley? Sei que acabou de conhecê-las, mas gosta delas?”

Pensei por um momento. “Eles são um pouco inusitados”, eu disse. “Mas muito espertos. A menina é intrigante. O menino é um encanto. Tenho certeza de que vamos ter um convívio ótimo, com o tempo.”

“Então, tudo o que peço é que tome conta delas, srta. Caine. É o que foi contratada para fazer. Cuidar delas, educá-las um pouco, se necessário. O menino, pelo menos. Quanto ao resto…” E então ele estendeu os braços, como se para dizer que não havia mais nada que ele pudesse fazer. Perguntei-me por um instante se ele esperava que eu me jogasse em seu abraço. (E, por mais ridículo que possa parecer, tive vontade de fazer justamente isso.)

Suspirei. A conversa não tinha sido nada satisfatória e não me senti nem um pouco mais perto de entender minha situação do que antes, mas parecia haver pouca alternativa senão ir embora. Na rua, senti uma grande frustração, mas, na viagem de volta a Gaudlin Hall, essa sensação começou a se dissipar e eu disse a mim mesma que não importava — tinha estabelecido contato com o sr. Raisin e o visitaria outra vez em breve, e mais uma vez depois dessa, se necessário, para saber mais sobre minhas responsabilidades. Marcaria uma hora. Se tivesse um horário agendado de meia hora, ele não poderia me enxotar para a rua em cinco minutos.

Alfred Raisin. Que nome bonito.

A jornada de volta à mansão foi mais difícil do que até o vilarejo, o que me deixou um tanto pasma, pois não havia subidas ou descidas nem para ir nem para voltar; a estrada era, na grande maioria, plana, assim como a maior parte da região campestre de Norfolk. Passei pelos imensos portões que marcavam a fronteira da propriedade, o mesmo lugar em que Heckling parou por um momento na noite anterior para me permitir uma vista da casa entre as árvores. Senti um vento forte surgir de repente, apesar de ainda ser uma manhã ensolarada. Conforme segui na direção da porta da frente, o vento ficou cada vez mais intenso, empurrando-me para trás, até que não tive escolha senão desistir, descer da dresina e levá-la a pé pelo resto do caminho.

No pátio, esforçando-me para manter os olhos abertos sob a ventania que me empurrava, reparei que a porta da frente estava entreaberta. Continuei a forçar caminho, açoitada pelo vento, que parecia decidido a me manter longe da casa; quando subi os três degraus que levavam à entrada, a porta bateu com força bem na minha frente. Perdi o ar. Haveria alguém atrás dela? Talvez uma das crianças, fazendo uma brincadeira? Eustace tinha se escondido atrás dela na noite anterior; será que estava insistindo na mesma bobagem?

Estendi a mão para tocar a campainha, mas meu braço não conseguiu vencer a ventania cada vez pior. Como era possível, pensei, se agora estava tão perto da parede? Deveria estar abrigada do vento, não sofrendo mais com ele. Forcei minha mão para a frente, mas a ventania era forte demais e agora parecia até furiosa comigo, pois me ergueu um pouco do chão e me empurrou para longe da casa; caí para trás, tropeçando nos degraus, me debatendo para não me estatelar, e ela me empurrou e empurrou e empurrou. Fiz tudo o que pude para continuar em pé, até que, enfim, fui levantada outra vez e caí; minha perna direita roçou contra as pedras e senti a pele sendo arrancada do joelho, momento em que gritei de desespero, o que coincidiu com o som da porta sendo aberta e do vento — de repente, tão rápido quanto tinha começado — dissipando-se, morrendo, desaparecendo.

“Eliza Caine!”, exclamou Isabella, vindo na minha direção, seu irmão mais novo alguns passos atrás. “Por que está deitada aí desse jeito?”

“Olhe só todo esse sangue”, disse Eustace, em um tom sussurrado e reverente, e baixei os olhos para minha perna, que estava de fato bastante ensanguentada na altura do joelho, apesar de eu ter percebido naquele mesmo instante que não tinha nada quebrado, bastaria limpar a pele, desinfetar o machucado e cobrir com um curativo e tudo ficaria bem. Ainda assim, fiquei chocada com o que tinha acontecido, em especial com o fato de que agora o vento era outro; não havia nem brisa, muito menos o quase furacão que me afastou de Gaudlin Hall e tentou me forçar para o mais longe possível da casa.

“O vento”, respondi, encarando as crianças, que não tinham nem um fio de cabelo fora do lugar. “O vento! Vocês não sentiram? Não ouviram?”