A casa assombrada

John Boyne · Capítulo 19 de 26

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A casa assombrada

Capítulo 19

 

Ao descer do trem na estação de Paddington, senti como se estivesse voltando ao passado. Os passageiros iam e vinham, fazendo transferências entre trens, quase nenhum reparando na moça parada ali no meio da plataforma, olhando à volta e inspirando o ar poluído e familiar de Londres, algo que ficara sem por tanto tempo. Se alguém tivesse parado para me observar, talvez tivesse visto no meu rosto uma expressão de alívio misturado com ansiedade. Eu tinha voltado para casa — mas ali já não era mais minha casa.

O dia estava misericordiosamente seco e saí pela Praed Street, reparando nos vendedores de flores e barracas de produtos diversos de sempre, antes de seguir para a Gloucester Square, onde ficava a pequena casa em que tinha crescido. Fui invadida por sentimentos curiosos de apreensão conforme me aproximei; receava ficar emocionada demais, imaginava que revê-la traria tantas memórias felizes que eu seria arrebatada por elas. Mas, para meu alívio, não senti nenhuma lágrima brotar nos olhos. Pela janela da frente, vi um homem de meia-idade entregando um livro a um menino; eles liam juntos quando uma mulher, sem dúvida a esposa do homem e mãe do menino, entrou no aposento com um vaso de flores, fez alguma observação para a família e riu de algo que o garoto disse em resposta. A porta da frente foi aberta e uma menina de uns sete anos saiu para pular corda, interrompendo seus passos por um instante ao me ver.

“Olá”, eu disse.

“Olá”, ela respondeu. “Quer falar com a mamãe?”

Sorri e fiz que não. “Estou apenas de passagem”, disse. “Eu morava nesta casa. Vivi minha vida toda aí.”

“Meu nome é Mary”, ela disse. “Sei todas as letras do alfabeto e posso listar todos os livros do Novo Testamento na ordem.”

Mary. O nome da minha falecida irmã. Então uma Mary moraria naquela casa, afinal. “E do Velho?”, perguntei, sorrindo mais uma vez para ela, que fez uma careta de incerteza.

“Não sou tão boa nisso”, respondeu. “Papai diz que preciso estudar mais. Quando você morou aqui?”

“Até pouco tempo atrás. Faz dois meses que me mudei.”

“Alugamos esta casa até a nossa ficar pronta. Vai ser bem maior do que essa.”

“Mas será que vai ser tão confortável quanto?”, perguntei, com um sentimento de lealdade pela casa da minha família; não gostei de ouvi-la insultada.

“Acho que sim.”

“Mary!”, uma voz fez a criança se virar e sua mãe, uma mulher de aspecto acolhedor e expressão aberta, apareceu na porta atrás dela. A mulher hesitou por um momento, mas então sorriu e me cumprimentou. Respondi com educação, mas, sem vontade de me envolver em mais conversas, despedi-me de Mary e segui meu caminho. Fiquei contente que a casa estivesse mais uma vez ocupada por uma família. Tinha sido um lar feliz no passado e agora poderia ser de novo.

Madge Toxley tinha aceitado receber Isabella e Eustace em casa naquele dia, apesar de, como ela mesma comentara, eles quase não precisarem de babá, pois eram sempre muito bem-comportados. Isabella ficara incomodada com a perspectiva de passar um dia inteiro longe de Gaudlin Hall, insistindo mais uma vez que não tinham autorização para sair, mas respondi que ela não tinha feito objeções tão enfáticas quando a oferta foi uma tarde de lazer nas praias de Great Yarmouth, argumentação que a silenciou um pouco.

Madge se surpreendeu quando me viu chegar em sua casa tão cedo naquela manhã, trazendo as crianças sonolentas comigo; expliquei que havia uma emergência à minha espera em Londres e que ela me faria um favor imenso se pudesse cuidar deles até de noite.

“Mas é claro”, disse, abrindo a porta para deixá-las entrar. Quando o fez, vi seu marido, Alex, na sala ao fundo; ele olhou para mim e em seguida sumiu de vista. “Espero que não seja nada sério.”

“Não, é apenas uma coisa que preciso resolver, só isso. Uma pessoa com quem preciso conversar.”

Madge meneou com a cabeça, mas não pareceu satisfeita com a resposta, e entendi o motivo no mesmo instante.

“Eu vou voltar, você tem minha palavra”, eu disse. “Não abandonaria as crianças. Prometo.”

“Claro que não, Eliza”, ela respondeu, enrubescendo de leve. “Não pensei nem por um segundo que…”

“E, se tivesse pensado, teria sido perfeitamente compreensível”, eu disse, colocando a mão em seu braço, num gesto de confiança e amizade. “Não, eu volto à noite, independentemente do que aconteça hoje.”

A presença — o que quer que fosse — não parecia ter intenção de machucar as crianças. Sua maleficência era direcionada apenas para mim. Mas não quis arriscar. Saber que não ficariam sozinhas acalmava um pouco minha mente.

Em Paddington, o ponto de ônibus que eu procurava ficava a uma caminhada de cinco minutos da minha antiga casa e, quando cheguei, pus a sacola no chão e fiquei ao lado de uma senhora idosa, que se virou para me olhar de cima a baixo com uma expressão desdenhosa no rosto. Não consegui entender a razão; eu tinha me esforçado para estar bem-vestida naquele dia, mas, por algum motivo, não estava do agrado dela. Pensei tê-la reconhecido como a sra. Huntington, que às vezes cuidara de mim quando eu era pequena, mas então lembrei que aquela boa senhora perdera a cabeça quando seu marido e seu filho foram mortos em um acidente, alguns anos antes, e fora internada em um asilo para desatinados em Ealing. Portanto, não poderia ser ela — mas poderia ser sua irmã gêmea, tamanha a semelhança. Rezei para o ônibus chegar, pois a maneira como me encarava me perturbou e irritou. Quando o veículo enfim chegou, entrei, informei meu destino, paguei minha passagem ao motorista e sentei.

No passado, eu nunca tinha dedicado muita atenção às ruas de Londres. Acho que você nunca dedica, quando mora na cidade. Mas agora, passando por elas, fiquei espantada com quão sujas aparentavam ser e com o fato de a neblina parecer nunca se dissipar. Estava sempre ali, parada, um miasma contra o qual as pessoas precisavam lutar para se deslocar. Tentei entender por que a capital tinha se tornado poluída a ponto de mal se conseguir enxergar o outro lado da rua. Nesse quesito, Norfolk levava vantagem sobre Londres; era um lugar limpo, pelo menos. Era possível respirar por lá. Eu podia aturar um fantasma em troca de um pouco de ar puro.

Calculei minha viagem para chegar à escola logo antes do almoço e o trânsito colaborou comigo, pois, quando vi o prédio surgir na paisagem da cidade, olhei para meu relógio e constatei que ainda faltavam dez minutos até os meninos receberem o sinal para o intervalo do almoço. Depois de descer do ônibus, esperei perto da grade e observei. Não era necessário ter pressa; o momento chegaria logo.

Ali, parada, não pude deixar de pensar na minha primeira manhã como professora na St. Elizabeth’s, na transição que fiz de aluna para docente, no terror que senti quando minhas pequeninas apareceram diante de mim, algumas nervosas, outras perto das lágrimas, todas observando e esperando para ver que tipo de tutora teriam pelos próximos doze meses. Como era de imaginar, eu era a professora mais nova da escola. A maioria das mulheres sentadas atrás das mesas nas salas adjacentes tinha me ensinado alguns anos atrás, portanto eu sabia quão cruéis às vezes elas podiam ser. Eu tinha sido castigada em diversas ocasiões por aquelas mesmas senhoras que me receberam tão calorosamente naquela manhã, como se fosse uma velha amiga. A hipocrisia não passou despercebida por mim e ainda me sentia intimidada ao cumprimentá-las ou ao entrar na sala de descanso dos professores, área proibida quando era aluna e que oferecia apenas a promessa de momentos terríveis para quem entrasse.

Naquele dia, decidi nunca assustar minhas pequeninas, intimidá-las ou bater nelas. Não era necessário que me amassem — aliás, seria melhor não amarem. Respeito era tudo o que importava, e eu faria o melhor possível para conquistá-lo. Durante os três anos em que trabalhei na St. Elizabeth’s, ganhei autoconfiança suficiente para gostar do meu emprego e acreditar que tinha habilidade razoável para executá-lo. Certa de que meu futuro não incluía a possibilidade de um marido ou uma família, imaginei que passaria minha vida entre as quatro paredes da sala de aula; que as décadas se sucederiam e que eu ficaria mais velha e mais cinzenta, enquanto o retrato da rainha e do príncipe Albert nunca envelheceria. Mas as pequeninas, minhas pequeninas, nunca mudariam; teriam a mesma idade para sempre, substituídas ano após ano por uma nova turma, muitas delas irmãs mais novas de meninas que já tinham se sentado à minha frente. Havia parte de mim que ansiava pelo momento em que apareceria uma criança no primeiro dia de aula cuja mãe fora minha aluna no passado. Nesse dia, eu saberia que tinha sido bem-sucedida na minha profissão.

O som de um sino sendo tocado dentro da escola me tirou do devaneio e passei pelo portão no mesmo instante que as portas se abriram e os meninos começaram a tomar conta do gramado e a se sentar sob os plátanos, abrindo suas lancheiras metálicas com seus minguados almoços. Alguns já corriam pelo pátio, perseguindo uns aos outros, tentando aproveitar a juventude depois de três horas sentados nas carteiras. Dois deles estavam discutindo por algum motivo e logo trocavam socos. Por um instante, perguntei-me se devia intervir, mas, para meu alívio, um professor surgiu em uma das portas laterais, um homem de aparência robusta, e os meninos se assustaram e dispersaram. Desviei os olhos da bagunça e entrei na escola pela porta da frente, olhando o entorno daquele prédio desconhecido antes de escolher um corredor aleatório e seguir por ele.

Ainda havia meninos passando; arteiros, talvez; levados, daqueles mantidos em classe por uns minutos a mais para serem castigados por alguma diabrura. Passei os olhos pelas portas abertas de cada sala, certa de que reconheceria minha presa ao vê-la. A maior parte dos professores era homem, o que não devia ser incomum em uma escola para meninos; fiquei surpresa ao descobrir que a mulher que eu procurava era professora naquele lugar e imaginei que se tratava de uma instituição progressista. Afinal, eram apenas mulheres na St. Elizabeth’s, com uma exceção — a única vez que essa regra tinha sido suplantada foi com Arthur Covan, e eu duvidava que um sucessor fosse apontado no futuro próximo. Teria sido tão bom, sonhei acordada, uma divisão com mais equilíbrio. Teria sido agradável discutir atividades curriculares com um grupo de rapazes bem-apessoados.

Cheguei ao fim do corredor e estava prestes a dar meia-volta e refazer meus passos quando a encontrei. Ela estava sozinha em uma sala, de costas para mim, usando o apagador para limpar as lições matinais da lousa. Olhei para ela e senti uma mistura de alívio por tê-la encontrado e rancor por estar vivendo com tamanho descaramento, enquanto minha vida decaíra para aflição e perigo constantes. Entrei e olhei à volta; não havia nenhum menino presente, o que me deixou satisfeita. Segurei a maçaneta e fechei a porta com força atrás de mim.

Ela deu um pulo, apavorada, e se virou com a mão no peito. Pareceu bastante amedrontada e me perguntei se era comum se assustar com facilidade. Porém, quando me viu e se deu conta da própria tolice, deu uma risadinha.

“Desculpe”, ela disse. “Estava em outro mundo. Quase morri do coração! Tenho me assustado facilmente esses dias. Não foi sempre assim.”

“Não foi minha intenção assustá-la”, respondi, apesar de ter sido exatamente o que pretendia fazer. Afinal, não tinha escrito ou mandado qualquer aviso sobre meus planos de ir a Londres. Não queria que ela postergasse o encontro ou se recusasse a me ver.

“Não tem problema”, ela disse, estreitando os olhos e me observando com mais atenção. “Conheço a senhora, não? Sra. Jakes, não é? Mãe de Cornelius?”

Sacudi a cabeça. “Não.”

“Ah, lamento. Me confundi. Veio falar comigo ou está procurando outra pessoa?”

“É você mesma que estou procurando”, eu disse. “Se puder conversar por alguns minutos, eu ficaria muito grata.”

“Claro”, ela respondeu, sentando-se atrás da mesa e me oferecendo a cadeira à sua frente. “Desculpe”, acrescentou, “mas não ouvi seu nome.”

Sorri para ela. Será que era fingimento ou estava falando sério? Aquela mulher me considerava uma imbecil? (Ou melhor, ela ainda me considerava uma imbecil?) “Você não me reconhece?”, perguntei, em tom de descrença.

Ela olhou para mim e pareceu ficar um tanto desconfortável, ajustando a posição na cadeira. “Se a senhora puder me dizer quem é seu filho…”

“Não sou mãe de ninguém, srta. Bennet”, respondi com voz firme. “Se me acha familiar, é porque já nos vimos antes, há pouco mais de um mês. Esbarrou em mim na plataforma da estação Thorpe, em Norwich. Nossas malas bateram uma na outra e caíram. Você olhou diretamente para mim naquele dia, e posso jurar que sabia muito bem quem eu era. Portanto, é bastante surpreendente que finja não me reconhecer agora.”

Vi a cor desaparecer de seu rosto e ela engolir em seco, retribuindo meu olhar até não suportar mais e desviar o rosto. “Sim, claro”, disse a srta. Bennet. “Srta. Caine, não é?”

“Sim.”

“Isso é… inesperado”, ela disse.

“Posso imaginar.” Ouvi a frieza na minha própria voz e fiquei espantada. Não tinha percebido que sentia tanta raiva daquela mulher até estar sentada à sua frente. E agora, com apenas um braço de distância entre nós, pude sentir meu sangue borbulhar. Meu sofrimento era culpa dela, minhas noites insones eram sua responsabilidade. A srta. Bennet não conseguia mais me olhar nos olhos e direcionou a vista um pouco mais para baixo, para minhas mãos, que separei e pousei sobre a mesa, as cicatrizes da queimadura ainda bastante visíveis. Vi quando sua expressão se contorceu em uma careta e ela desviou o olhar.

“Como pode ver, trago as cicatrizes de Gaudlin Hall”, eu disse. “Mas minhas mãos feridas são a menor das minhas preocupações.”

Ela se forçou a responder. “Então, você… não está feliz na mansão?”

Ri. Mal pude acreditar que ela estava assumindo aquela postura inocente. “Srta. Bennet”, eu disse. “Acho melhor deixarmos os jogos de lado. Preciso conversar sobre aquele lugar. Vim a Londres por nenhum outro motivo senão discutir isso com você, e não tenho muito tempo. Preciso pegar o trem de volta, e você com certeza tem uma classe cheia de meninos que voltarão correndo para cá quando acabar a hora do almoço.”

“Correndo talvez seja exagerar um pouco”, ela respondeu, sorrindo para mim, e eu ri. O comentário quebrou um pouco a tensão, pelo menos.

“Bom, sim, que seja”, eu disse.

“Acho que devo desculpas”, ela respondeu. “Por tê-la enganado daquele jeito.”

“Honestidade desde o começo teria sido mais respeitoso. Poderia ter me recebido na mansão, para começar, e não permitido que eu chegasse naquela primeira noite sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. As dificuldades iniciais só pioraram minha situação.”

“Não tive como”, ela disse, sacudindo a cabeça. “Você não entende, srta. Caine? Não podia ficar nem mais um dia! Nem mais uma hora! Mas me permita, com toda a sinceridade, dizer que estou muito feliz de ver que você está bem.”

Ri outra vez, e agora minha risada aparentava mais rancor. “Bem?”, perguntei. “Estou viva, se é isso que quer dizer. Mas fui ferida. Repetidas vezes. Ameaçada por um cachorro selvagem. Empurrada de uma janela. Minhas mãos, como pode ver, foram queimadas e desfiguradas. E houve outras coisas. O que quero saber, srta. Bennet, é muito simples. O que aconteceu com você enquanto esteve lá? E como sobreviveu?”

Ela se levantou de repente e foi até a janela para observar os meninos jogando bola no pátio. “Sei que não é isso que quer ouvir, srta. Caine”, ela disse depois de uma longa pausa, “mas realmente não quero falar sobre isso. Sinto muito. Reconheço que fez uma longa viagem até aqui, mas simplesmente não posso falar sobre aquele lugar. Ainda não consigo dormir, entende isso? Tenho sobressaltos o tempo todo. Você mesma viu, quando entrou na sala.”

“Mas você escapou”, respondi, levantando a voz. “E não posso dizer o mesmo da srta. Tomlin. Ou da srta. Golding. Ou da srta. Williams. Ou da srta. Harkness. Você sobreviveu a Gaudlin Hall e nenhuma das suas antecessoras teve a mesma sorte. Sua sucessora talvez tampouco tenha. Portanto, repito a pergunta. O que aconteceu com você lá? Creio que me deve uma resposta. Uma resposta honesta. Pode me ajudar, não percebe?”

Ela se virou e sua expressão era de absoluto tormento. “Se acha que sobrevivi, srta. Caine, então não entende meu estado de espírito. Estou viva, é verdade. Respiro. Venho trabalhar. Me alimento. Volto para casa. Mas vivo em um estado constante de ansiedade nervosa. Preocupo-me o tempo todo que… que…”

“Que o quê, srta. Bennet?”

“Que ela me encontre.”

Desviei o rosto, sua frase confirmando, enfim, que também tinha sentido a presença e sofrido seus tormentos.

“Ela”, eu disse, depois de um prolongado silêncio. “Por que usou o pronome feminino?”

“Não acha que se trata dela?”, a sra. Bennet perguntou.

“Sim”, admiti. “Claro que acho. Creio se tratar da falecida sra. Westerley.”

A srta. Bennet concordou com a cabeça e se sentou em uma das carteiras dos alunos, pegando o quadro de ardósia do menino e tamborilando a superfície, distraída, antes de voltar para sua própria mesa. “O que posso dizer”, ela continuou, enfim, “é que não sou uma mulher que se intimida com facilidade. Na adolescência, minha mãe dizia que eu tinha mais força e coragem do que meus dois irmãos mais velhos. Quando cheguei ao vilarejo de Gaudlin Hall e descobri a história dos Westerley e das governantas que vieram antes de mim, achei que não passava de uma terrível coincidência. Uma série desastrosa de acontecimentos que fez um grupo de fofoqueiros provincianos e supersticiosos dizer que o lugar era assombrado, que nada de bom poderia acontecer com quem morasse lá.”

“O sr. Heckling está ileso”, comentei. “A sra. Livermore também. Nenhum dos dois foi atacado.”

“Mas o sr. Heckling e a sra. Livermore não têm nenhuma responsabilidade para com as crianças”, ela disse baixinho. “Tampouco se interessam por eles.”

Pensei naquilo. “É verdade”, admiti. “Mas, diga, quanto tempo ficou na casa antes de perceber alguma coisa?” Ela sacudiu a cabeça e passou a mão nos olhos. “Por favor, srta. Bennet”, insisti. “Por favor, diga.”

“Um dia”, ela respondeu, dando de ombros com indiferença. “Pouco menos de um dia, aliás. Cheguei pela manhã; você, claro, chegou de noite. E senti uma coisa antes de o dia terminar. Não tinha acontecido nada de incomum ao longo dele, mas, quando fui para a cama, estava exausta. Lembro-me de entrar embaixo das cobertas e pensar que com certeza teria uma boa noite de sono, depois da longa viagem. Fechei os olhos. Não lembro com o que sonhei — nunca me lembro dos meus sonhos, ou, pelo menos, muito raramente —, mas lembro que fui invadida por uma sensação horrível de estar sendo estrangulada. Pude ver uma mulher no meu sonho, uma mulher com pele morena e as mãos em torno do meu pescoço, sufocando-me. E lembro que… Srta. Caine, já se descobriu no meio de um sonho e alguma coisa dentro de você diz que precisa acordar, que precisa escapar?”

“Sim”, eu disse. “Sim, já tive essa sensação.”

“Bom, foi assim que me senti”, ela continuou. “Forcei-me a acordar, pensando que poderia me livrar da mulher se me libertasse do sonho. Mas, para meu horror, quando abri meus olhos, a sensação ainda estava lá. Havia mesmo mãos na minha garganta, eu estava mesmo sendo estrangulada. No mesmo instante, tirei minhas mãos de debaixo das cobertas para afastar as daquela estranha e, quando o fiz, pude sentir os pulsos esbeltos e a força daqueles dedos. Quando minhas mãos se fecharam sobre as dela, elas se dissiparam e desapareceram por completo. A asfixia parou, a presença evaporou. Saltei da cama e desmoronei no canto do quarto, ofegante, tossindo e cuspindo. Não sabia o que estava acontecendo, se tinha sido algum pesadelo terrível que provocou uma ilusão na mente desperta, mas não, não havia a menor possibilidade de eu ter apenas imaginado o ataque, pois minha garganta ficou muito machucada. Tanto que a primeira coisa que Isabella me disse na manhã seguinte foi que eu tinha uma marca no pescoço.”

“Eu também senti as mãos”, eu disse, olhando em seus olhos. “Na minha primeira noite naquela cama.”

“Então ela também tentou estrangular você?”

“Não, ela puxou meus tornozelos. Senti que estava sendo arrastada para baixo. Não sei dizer qual era a intenção, mas com certeza era maldosa.”

“E você pensou que estava enlouquecendo?”

“Não”, respondi. “Sabia o que tinha sentido. Ainda posso sentir aquelas mãos.”

“Eu também”, disse a srta. Bennet. “A mera lembrança me impede de dormir a noite inteira.”

“E o que mais?”, perguntei, inclinando-me para a frente. “O que mais aconteceu com você? Srta. Bennet, por favor, já me contou muita coisa. Não custa nada contar o resto.”

“Viu o estado do telhado?”, ela perguntou, e eu fiz que não.

“Nunca estive lá em cima”, disse.

“É melhor que não suba”, ela respondeu. “A mansão parece sólida, mas, na verdade, está caindo aos pedaços. A estrutura não é mais a mesma. Daqui a cinquenta anos, srta. Caine, garanto que um vento derrubará aquele lugar, se reparos não forem feitos. Talvez até antes.”

“O que estava fazendo no telhado?”, perguntei.

“Gosto de pintar”, ela explicou. “Não sou muito boa, claro, mas é prazeroso para mim. Lá em cima é plano, e a vista das Norfolk Broads é magnífica. Era um dia ensolarado e levei meu cavalete e minhas tintas para o telhado. Duas coisas aconteceram. Apesar de o clima estar bom, um vento forte surgiu do nada, levantou-me da cadeira e teria me derrubado se eu não tivesse conseguido agarrar uma viga de pedra perto da chaminé e me segurado nela até o vento finalmente parar. Então, corri para o térreo e estava recuperando o fôlego na alameda quando pedras começaram a cair do telhado. Uma aterrissou a poucos centímetros de mim. Se tivesse me acertado, teria me matado no mesmo instante. Corri, claro. Fui para o gramado. Somente quando estava a uma distância segura as pedras pararam de cair.”

Sacudi a cabeça. Ainda não tinha visto nenhuma chuva de pedras; seria um pesadelo à minha espera? Será que precisaria de uma armadura para não ser apedrejada até a morte?

“E houve o incidente com a faca”, ela disse.

“Sim?”

“Eu estava preparando o almoço, cortando legumes, e a faca que eu segurava… Parece ridículo, eu sei, mas foi como se ela tivesse vida própria. Virou-se contra mim. Eu a estava segurando com as duas mãos, mas ela me empurrou para trás, contra a parede. Ali, encurralada contra as pedras, minhas mãos chegaram cada vez mais perto da minha garganta, a ponta da faca prestes a me degolar.”

“E como você impediu isso?”, perguntei.

“Não impedi”, ela disse. “Isabella chegou. E ela falou uma única palavra: ‘não’. Então minhas mãos voltaram ao meu controle. Larguei a faca, desmoronei no chão e, quando olhei para cima, Isabella estava em pé ao meu lado. Você devia tomar mais cuidado com facas, ela me disse. Mamãe nunca nos deixa brincar com elas.”

“Nunca deixa? No presente?”

“Também reparei nisso.”

“E ela não ficou com medo do que tinha testemunhado?”

Agora foi a vez da srta. Bennet rir. “Isabella Westerley?”, ela perguntou. “Com medo? Você a conhece, srta. Caine. Passou o último mês com ela. Acha que aquela criança sente esse tipo de emoção? Acha que sente alguma emoção?”

“Ela sofreu muito”, eu disse, defendendo-a. “Pense em tudo o que passou. A morte da mãe, a destruição da vida do pai. Sem contar todas as governantas que morreram. Como conseguiu manter a sanidade é um mistério para mim.”

“Você está supondo que ela manteve”, respondeu a srta. Bennet, sacudindo a cabeça. “Não confio naquela menina. Nunca confiei. Eu a pegava me espionando, observando todos os meus movimentos. Ela aparecia do nada e me dava medo, essa é a verdade. Uma menina de doze anos que me apavorava.”

“E Eustace?”, perguntei, torcendo para que ela não difamasse o menino, pois ele era meu favorito, meu querido.

“Bom, Eustace…”, ela disse, sorrindo um pouco ao se lembrar dele. “Ele é um doce de menino. Mas, para usar suas próprias palavras, sofreu muito. Preocupo-me com o futuro dele, preocupo-me mesmo.”

“Se me permite a pergunta, o que a fez ir embora?”, perguntei. “Houve algum outro incidente? Algo que tenha feito você tomar a decisão?”

“Acho que tudo o que descrevi teria sido mais do que suficiente”, ela respondeu. “Mas, sim, houve mais uma coisa. A égua de Heckling. Suponho que você já tenha passado algum tempo perto dela, não?”

“Sim”, eu disse. “Um animal tranquilo. A essa altura, acho que ele devia aposentá-la, deixá-la descansar.”

“Eu diria o mesmo”, ela respondeu. “Mas um dia ela se virou contra mim, quando Heckling não estava lá para ver, claro. Fui passear e levei um pacote de torrões de açúcar para ela; era algo que eu fazia quase todas as manhãs e pensei que me adorava por conta disso. Mas, nesse dia em especial, quando pus a mão no pacote, a égua empinou, balançando as patas no ar e, se eu não tivesse saltado para fora do caminho, ela teria descido em cima de mim e me esmagado contra o chão. Fiquei chocada e olhei para a égua, implorando para ela se controlar, mas havia sede de sangue em seus olhos, estava salivando, e eu corri. Corri o mais rápido que pude, srta. Caine, e aquele velho animal correu atrás de mim com intenções assassinas. Estava rinchando e grunhindo como um demônio e, se eu não tivesse chegado à porta da mansão e entrado antes que ela me alcançasse, não tenho dúvida de que teria morrido.”

“Parece impossível”, eu disse, pensando naquele animal pacífico e de confiança. “Mas comigo aconteceu uma coisa parecida. Um cachorro. Tive certeza de que iria me atacar. Se não fosse por Isabella, teria dilacerado minha garganta.”

“Então o espírito dela influencia mesmo animais”, disse a srta. Bennet, com um pequeno calafrio. “Por que será? De qualquer jeito, para mim foi o limite. Escrevi o anúncio, esperei na janela para ver Heckling pegar o animal e ela estava calma, como sempre foi — e fui até o vilarejo para telegrafar a oferta de emprego para o editor do Morning Star. Que, imagino, foi onde você viu.”

“Foi sim”, concordei, meneando com a cabeça. “Mas você não foi embora”, acrescentei. “Apesar de tudo que aconteceu. Esperou até encontrar uma substituta.”

Ela sorriu para mim. “Srta. Caine”, disse, “tenho plena consciência de que não saí dessa aventura sem manchar meu caráter. Foi errado anunciar o cargo sob falso pretexto. Sabia que pareceria ser o senhor de Gaudlin Hall, não uma mera governanta. E sei que, se fosse uma alma mais corajosa, devia ter esperado pela sua chegada e avisado sobre as coisas que estavam acontecendo. Mas o fato é que não queria correr o risco. Não queria arriscar que desse meia-volta e embarcasse no trem de volta a Londres. Foi covardia da minha parte, claro. Sei muito bem disso. Mas acontece que eu precisava fugir. A única coisa que não faria, a única atitude que não consegui tomar, foi abandonar aquelas crianças e deixá-las com o espírito. Deixá-las sem um protetor. Até saber que você estava vindo, não pude ir embora.” Ela hesitou e sacudiu a cabeça. “Não, não foi bem isso”, a srta. Bennet disse, pensativa. “Não pude abandonar Eustace sem um protetor. Isabella… Acho que aquela menina não precisa de ninguém. Sabe cuidar de si mesma.”

Levantei-me e caminhei sem pressa pela sala. Um quadro na parede listava os reis e rainhas da Inglaterra, da Batalha de Hastings à rainha Vitória, e me distraiu por um momento, levando-me a memórias de épocas mais felizes. Como queria estar apenas esperando pela volta das minhas pequeninas depois do intervalo do almoço, cansadas e bocejando, prontas para os exercícios da tarde.

“E você, srta. Caine”, disse a srta. Bennet, depois de um longo silêncio. “Sofreu muito?” Concordei com a cabeça e contei a ela, sem me alongar, os vários incidentes que se passaram desde que comecei minha residência na mansão. “Pelo menos você sobreviveu”, ela comentou.

“Até agora”, respondi.

“Mas está aqui”, ela disse, sorrindo e vindo até mim, segurando minhas mãos. “Está aqui, afinal. Escapou. Como eu. Talvez o espírito esteja enfraquecendo.”

Sacudi a cabeça e recolhi as mãos. “Acho que não entendeu”, respondi. “Posso ter sobrevivido até agora, mas não escapei, para usar a palavra que você usou. Estou aqui em Londres apenas por hoje. Já disse, volto a Norfolk no trem da tarde.”

“Vai voltar para Gaudlin Hall?”

“É claro que vou”, eu disse. “Aonde mais poderia ir? Não tenho outra opção.”

“Vá para qualquer lugar”, ela esbravejou, jogando as mãos para o alto, meses de tensão extravasados em sua frustração. “Qualquer lugar, não importa. Volte para a escola onde ensinava antes. Vá para a Cornualha, Edimburgo, Cardiff, Londres. Vá para a França ou para a Itália. Viaje até o coração da Rússia, se quiser, ou viva com aquelas moças infelizes nas ruas da capital. Mas fuja daquele lugar horrível. Se tiver algum juízo, srta. Caine, afaste-se de Gaudlin Hall o máximo que puder.”

Eu a encarei, chocada com seu egoísmo. “Nesse caso”, eu disse, em um tom seco, tentando controlar minha raiva crescente, “quem cuidaria das crianças?”

“Ela cuidaria.”

Fiz que não. “Eu não os deixaria com ela”, respondi.

A srta. Bennet deu de ombros. “Então ela virá atrás de você. Como foi atrás das outras.” Desviou o rosto, o tom de voz sugerindo que aquilo era óbvio e inevitável. “Ela virá. E você morrerá.”

Suas palavras me atravessaram como uma faca. “Mas por quê?”, perguntei, mais para mim mesma do que para qualquer outra pessoa. “Por que ela quer nos atacar? Meu único desejo é ajudar aquelas crianças. Cuidar delas. E quanto à outra presença? O velho? Você não mencionou nada sobre ele. Qual é o papel dele nisso tudo?”

A srta. Bennet franziu as sobrancelhas e me encarou, sacudindo a cabeça como se não tivesse ouvido direito. “Desculpe, o que disse?”, ela perguntou.

“O outro espírito”, respondi. “São dois, não são? Ele impediu que eu fosse jogada pela janela uma vez — pude sentir suas mãos em mim. Eustace já o viu, já conversou com ele. O velho disse que está lá para cuidar de mim.”

A srta. Bennet abraçou o próprio corpo e percebi que tinha ficado ainda mais assustada. “Desculpe, srta. Caine. Não tenho ideia do que está falando.”

“Nunca o sentiu?”

“Não”, ela disse. “Nunca. Apenas um espírito destrutivo. Apenas ela.”

“Talvez ele estivesse lá e você só não percebeu. Talvez tenha impedido que as pedras caíssem sobre você, por exemplo.”

A srta. Bennet pensou por um instante, mas fez que não. “Eu saberia”, ela disse, com voz confiante. “Tenho certeza de que saberia. Perceberia se houvesse outro. E não havia. Juro.”

Meneei com a cabeça. Não tinha alternativa senão acreditar nela — afinal, não havia nenhum motivo para a srta. Bennet mentir. O sinal tocou e vi os meninos no pátio terminando seus jogos, recolhendo suas lancheiras e seguindo para a entrada.

“É melhor eu ir”, disse. “Creio que devo agradecê-la, srta. Bennet, por sua sinceridade. Você confirmou muitas coisas para mim. E, por mais estranho que pareça, é um alívio saber que outra pessoa passou pelo que estou passando. Assim não acho que estou ficando louca.”

“Mas você está ficando louca”, disse a srta. Bennet, calmamente. “Deve estar, se decidiu voltar para lá. Só uma louca voltaria àquele lugar.”

“Então, sou uma louca”, respondi. “Que seja. Mas as crianças não sairão de lá enquanto o pai estiver na casa, disso não tenho dúvida. Nunca falam sobre ele, nunca reconhecem sua presença. Mas são confortados ao saber que ele está lá. E nunca os deixarei sozinhos com aquele espírito maligno.”

Pus a mão na maçaneta e ouvi a voz da srta. Bennet atrás de mim, agora triste, arrependida.

“Deve me considerar um monstro”, ela disse. “Por tê-los abandonado como abandonei.”

Virei-me e fiz que não. “Você fez o que ditou sua índole”, respondi, sorrindo para ela. “E devo fazer o que dita a minha. Adeus, srta. Bennet.”

“Adeus, srta. Caine”, ela disse. “E boa sorte.”

Era tarde quando cheguei em Gaudlin Hall. O trem sofreu um atraso em Londres e então mais outro, logo depois de Manningtree. Foi uma viagem desconfortável. Um homem de meia-idade sentado à minha frente no vagão começou um flerte inoportuno, experiência totalmente nova para mim e que, em outra ocasião, talvez tivesse apreciado, mas naquele momento não gostei e fui forçada a mudar de assento. Tive a infelicidade de me sentar ao lado de uma senhora idosa que fez questão de me presentear com histórias sobre a crueldade da filha e do genro, sobre como a impediam de ver os netos e como nenhum deles tinha valor e, portanto, não seriam mencionados em seu testamento.

Madge Toxley levara as crianças para a mansão, para que deitassem em suas próprias camas; ela pareceu aliviada ao me ver, pedindo sua charrete no mesmo instante e descendo a alameda com pressa extraordinária. Conforme subi as escadas de Gaudlin Hall, rezei para conseguir dormir a noite toda e recuperar minhas energias para estar preparada para enfrentar qualquer tragédia que pudesse acontecer no dia seguinte. Parei no primeiro patamar antes de subir para meu quarto e fiquei surpresa ao ouvir vozes vindo do quarto de Eustace. Verifiquei o relógio perto de mim; já passara da meia-noite, tarde demais para as crianças estarem acordadas. Segui pelo corredor, parei do lado de fora do quarto e pressionei meu ouvido contra a porta. Foi difícil entender o que era dito, mas, depois de um instante, minha audição se ajustou e pude ouvir Eustace falando baixinho.

“Mas e se ela não voltar?”, ele estava perguntando.

“Ela vai voltar”, foi a resposta. Mas a voz não era de Isabella, como eu esperava, e sim uma voz mais velha, madura, masculina.

“Não quero que nos abandone que nem as outras”, disse Eustace.

“Ela não vai fazer isso”, respondeu a segunda pessoa, e nesse momento abri a porta e entrei. Não havia nenhuma luz no quarto além da vela de Eustace no criado-mudo, iluminando o menino. Sua pele alva parecia branca como a neve em contraste com o pijama. Olhei o entorno. Ele estava sozinho.

“Com quem você estava falando?”, perguntei, caminhando em sua direção, segurando-o pelos ombros e levantando a voz. “Com quem você estava falando, Eustace?”

Ele ofegou por um instante, assustado, mas, por mais que eu o amasse, já bastava daquilo e eu não o soltaria sem uma resposta. “Com quem você estava falando?”, esbravejei, e ele cedeu.

“Com o velho”, Eustace disse.

Poderia ter chorado de tanta frustração. “Aqui não tem nenhum velho”, berrei, soltando-o e dando uma volta completa para verificar o quarto antes de olhar para ele outra vez. “Não tem mais ninguém aqui.”

“Ele está atrás de você”, disse Eustace, e me virei de novo, o coração acelerado. Mas não havia ninguém ali.

“Por que não consigo vê-lo?”, berrei. “Por que não o vejo também?”

“Agora ele saiu”, disse Eustace, baixinho, afundando sob as cobertas. “Mas ainda está na casa. Diz que não vai embora, por mais que ela queira. Ele não vai para onde deveria ir, não enquanto você ainda estiver aqui.”