A Jornada do Escritor

Christopher Vogler · Capítulo 22 de 23 · parte 3/3

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A Jornada do Escritor

Epílogo - RECAPITULANDO A JORNADA

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A sequência inicial exercita uma regra cinemática que diz que a "desorientação leva à sugestionabilidade". Você não sabe se esses marginais são os heróis da história ou, como se verá, meras "molduras". A intenção do cineasta é deixá-lo um pouco desorientado, se perguntando sobre a importância deles no filme. Você também fica imaginando qual será o destino daqueles dois personagens coléricos e o das pessoas no restaurante.

Vincent e Jules

Agora, pela primeira vez, vemos nossos dois protagonistas, Vincent Vega e Jules Winnfield, rodando num enorme carro americano. Eles, também, estão em seu mundo comum tendo uma conversa mundana sobre as sutis diferenças entre cardápios de fast-food e entre costumes nos países da Europa. Vincent passou algum tempo na Europa, onde as coisas são diferentes — um Big Mac é chamado de Le Big Mac na França, e as leis sobre drogas em Amsterdã são outras. Ele esteve num mundo especial e tem o ar experiente de um herói revivendo uma aventura anterior.

Vincent e Jules param num prédio e apanham suas armas no porta-malas do carro. A impressão é de que se trata apenas

de mais um dia de trabalho no escritório, uma tarefa de rotina em seu mundo comum.

À medida que se aproximam do apartamento onde irão realizar sua missão, a conversa é direcionada para Mia (uma camaleoa), esposa do homem que comanda a rede criminosa, Marsellus Wallace (o chefão). Este é o primeiro sinal de um chamado à aventura para Vincent, que foi colocado numa posição difícil ao ser designado por Marsellus para acompanhar sua esposa numa saída enquanto este estiver na Flórida. O risco desse Chamado fica claro (uma forma de recusa) na complexa discussão filosófica sobre massagens nos pés. Jules comenta que um gângster de Samoa, chamado Antwan Rockamora, foi atirado de sua varanda só porque massageou os pés de Mia. Jules considera o castigo desproporcional ao crime, mas Vincent sabe muito bem que uma massagem nos pés pode ser uma experiência sensual capaz de acabar com a vida de uma pessoa. Assim mesmo, ele aceita o Chamado e acompanhará Mia. Ele promete não se meter em encrenca com Mia e nega que se trate de um verdadeiro encontro, mas Jules se mostra cético.

Após uma longa pausa ao lado da porta, eles efetuam a travessia de um limiar, entrando no apartamento de Três Rapazes que estão "obviamente numa enrascada". Eles têm algo que Marsellus Wallace quer para si, e aparentemente eles tentaram enganá-lo num negócio envolvendo o conteúdo de uma mala misteriosa. Jules ameaça o líder dos três, Brett, e o intimida comendo seu fast-food e lhe questionando sobre o lugar onde o comprou. Não é um hambúrguer do Wendy's ou do McDonald's, é um Big Kahuna. Kahuna é uma magia havaiana, o que sugere a aproximação de uma grande mágica. Sem dúvida, é mágico o que se encontra dentro da mala, cujo conteúdo brilha hipnotizando Vincent, quando este a abre para verificar o que há no seu interior. O que contém a mala? Não importa, pois trata-se apenas de um MacGuffin (artifício para o desenvolvimento de uma trama, termo inventado por Hitchcock) e, seguindo a tradição do mestre do suspense, Tarantino nunca se dá ao trabalho de revelar o que é realmente. Basta que seja alguma coisa importante para os personagens, algo pelo que valha a pena arriscar a vida. É um Santo Graal ou o Velocino de Ouro, um símbolo de todos os desejos que levam os heróis à sua procura.

Diante dos jovens apavorados, Vincent e Jules são os arautos trazendo um chamado fatal, agindo nesse momento como aliados da Morte, serviçais da sombra. Eles são agentes de Nêmesis, a deusa da retribuição, que castiga aqueles que desrespeitam a ordem divina. O deus, neste caso, é Marsellus Wallace. Brett e Roger ofenderam o chefão ao tentarem trapaceá-lo num negócio envolvendo a mala. Jules manifesta seu poder atirando em Roger sem mais nem menos. Antes de executar Brett, Jules realiza seu ritual, recitando uma passagem da Bíblia, Ezequiel 25:17, que é sua marca registrada:

"O caminho do homem honrado é cercado por todos os lados pelas iniquidades do egoísmo e pela tirania dos homens maus. Abençoado aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade, protege os fracos no vale das trevas, pois ele é o verdadeiro defensor do irmão e o descobridor de crianças perdidas. E descarregarei sobre eles grande vingança e furiosos castigos se tentarem envenenar e destruir meu irmão. E saberás que sou o Senhor quando tiver executado minha vingança sobre vós."

Trata-se, de fato, de uma declaração do tema do filme, uma complexa declaração que pode ser interpretada de várias maneiras. Com esta leitura, Jules parece se identificar somente em parte com a mensagem, a parte sobre a "grande vingança e furiosos castigos" pois ele e Vincent descarregam suas armas em Brett quando o discurso chega ao fim.

Então ocorre um milagre. Enquanto o amigo de Jules, Marvin, que estava ali o tempo todo, resmunga no chão, um quarto rapaz irrompe dentro da sala, disparando fogo pesado sobre Jules e Vincent. 0 milagre é que as balas parecem não fazer efeito. O Rapaz é arremessado para longe com o impacto dos tiros com que Jules e Vincent revidam.

Esta sequência estabelece o Mundo Comum para os protagonistas deste fio da história. Eles são executores de ordens de um poderoso gângster, estão um ou dois graus acima do nível do jovem casal no restaurante, pouca coisa.

Estão tentando elaborar um sistema ético entre si, e se preocupam com os limites da honra e do dever. Os heróis gêmeos estão viajando pela mesma estrada até então, mas seus caminhos irão em breve se separar por causa das diferentes reações que terão em relação ao milagre que acaba de acontecer.

"Vincent Vega e a esposa de Marsellus Wallace"

O título acima, que vemos surgir na tela, esclarece que o prólogo ou a peça estrutural está concluída e o primeiro dos contos de pulp fiction está prestes a começar. Entretanto, antes de reunir Vincent e Mia, a narrativa introduz dois novos personagens, Marsellus Wallace e Butch Coolidge, fazendo uma referência antecipada à história de Butch. Marsellus, descrito como um "cruzamento entre um gângster e um rei", está sentado falando com Butch, um pugilista atravessando uma fase ruim. Na Jornada do Herói de Butch, ele está em seu mundo comum, recebendo um sombrio chamado para disputar uma luta.

Marsellus é ao mesmo tempo um arauto e um mentor, divino, visto somente pelas costas, dotado de uma sabedoria de mentor e de uma filosofia de vida definida. Talvez significativamente, ele tem um band-aid na nuca. Terá apenas se cortado ao raspar sua cabeça perfeitamente calva, ou aquele curativo esconde algo mais sinistro — como os implantes nos cérebros dos alienígenas, no clássico de 1950, Marte atacai Como acontece com o cintilante conteúdo da mala, é proposto um enigma que o cineasta se recusa a resolver.

Marsellus aconselha Butch a engolir seu orgulho e desistir da sua pretensão de se tornar campeão mundial dos pesos-pena em troca de algo mais garantido. Butch não hesitou em aceitar seu chamado para se deixar vencer na luta, mas na verdade, como veremos mais adiante, ele está planejando a recusa desse Chamado particular, pretendendo em vez disso ganhar e faturar uma grana, pois apostará em si mesmo.

Vincent e Jules entram com a mala, mas estão vestidos de modo bem diferente. Trajam camisetas e bermudas, que parecem algo inadequadas dentro do bar. Em seguida, entenderemos que vários dias transcorreram desde a última vez que os vimos, e nesse tempo eles passaram por algumas provações importantes.

Vincent entra em colisão com Butch, zombando dele como sendo um lutador medíocre e derrotado, num confronto típico da fase de testes, aliados, inimigos. Vincent lança um desafio, mas Butch não topa. O encontro casual com Butch é um teste que revela uma falha em Vincent, a falta de respeito pelos mais velhos. Ele deveria saber que Butch é um herói experiente, um potencial mentor que poderia lhe ensinar algumas coisas, mas em vez disso ele o trata com escárnio. Mas a recusa de Butch em encarar o desafio mostra que ele é maduro e cauteloso. Pode perceber que Vincent é um amigo de Marsellus e sabiamente decide ignorá-lo — por ora. De qualquer maneira, um aliado potencial foi transformado num inimigo pela arrogância de Vincent.

Passamos então a acompanhar Vincent, que anteriormente recebera o chamado para sair com Mia. Conservando o tema do submundo, Vincent se aproxima de seu tipo de mentor — o traficante de drogas, Lance — antes de efetuar a travessia do limiar para se encontrar com Mia. A toca do Mentor fica numa velha casa em Echo Park. Este Mentor, como um xamã equipando um caçador com poções mágicas e ervas medicinais, apresenta-lhe um mostruário de opções de heroína para sua escolha. Vincent paga o máximo pela melhor.

Depois de se aplicar uma dose, ele segue feliz e entorpecido em busca de Mia. Neste ponto, outra falha de Vincent — ele é enfraquecido pelo seu vício. Vincent executa a travessia do limiar ao entrar na casa de Marsellus. Ele passa por estranhas esculturas metálicas, como guardiões de limiar de alguma cultura primitiva. Tem-se a impressão de que os deuses observam tudo.

Lá dentro, Mia se movimenta no reino do chefão, se divertindo com os brinquedos de Marsellus. Como o chefão em muitos filmes do gênero noir, ela observa tudo de um quarto oculto no alto, manipulando Vincent pelo controle remoto com sua voz incorpórea. As regras são diferentes neste mundo especial. No mundo comum de Vincent, ele e seu revólver são os soberanos absolutos. Ali, uma mulher descalça tem o poder da vida e da morte. Ela escolhe o tom e seleciona a música temática para a noite.

Avançando mais ainda no mundo especial, Vincent leva Mia a um estranho café decorado como nos anos 1950 para uma cena de testes, aliados, inimigos. O Jackrabbit Slim’s é um modelo do mundo pós-moderno, em que imagens do passado recente são continuamente picotadas, recicladas e reaproveitadas em novas funções. Rostos lendários como os de Marilyn Monroe, Elvis e Buddy Holly agora são garçons e garçonetes servindo hambúrgueres nas mesas.

Numa cena típica de bar do Estágio Seis da Jornada do Herói, Mia e Vincent testam um ao outro. A escolha no cardápio assume grande importância como pistas que revelam o caráter. Cigarros fálicos são enrolados e acesos. Eles se avaliam através de um diálogo suave, mas penetrante. Vincent se arrisca testando Mia ao lhe perguntar sobre seu relacionamento com o cara que foi atirado de sua varanda. Ele passa nos testes de Mia ao usar de diplomacia em suas perguntas, sem presumir que ela fizera algo de errado. Os dois se tornam aliados.

Eles estão ligados de uma outra maneira, quando Mia se levanta para ir "empoar o nariz", ou seja, cheirar cocaína. Como Vincent, ela é enfraquecida pelo seu vício e isso a levará a outra provação.

A sugestão para entrar no concurso de dança é uma aproximação, levando-os a ficarem mais perto desta questão de vida e morte que é o sexo. Da maneira que se afinam dançando, fica claro que fariam um sexo fantástico. Os movimentos da dança e os gestos das mãos refletem o arquétipo do camaleão, visto que eles experimentam várias máscaras e identidades na aproximação ao amor.

Vincent e Mia voltam para casa dela e enfrentam a provação suprema. Mia parece muito sedutora, e Vincent se recolhe ao toalete para tomar coragem. Ele fala com sua própria imagem no espelho, convencendo a si mesmo a não fazer sexo com Mia. Neste ponto, ao menos, ele passa num teste importante, permanecendo leal ao seu patrão, apesar da forte tentação. Sua motivação pode não ser tão nobre assim — ele sabe que Marsellus provavelmente descobrirá e o matará se ele se engraçar com Mia —, mas, assim mesmo, ele passa no teste.

Enquanto isso, Mia descobre a heroína no bolso do casaco de Vincent e, pensando se tratar de cocaína, cheira-a avidamente e perde os sentidos. Vincent a encontra com o nariz sangrando e entra em pânico. Ele aqui não enfrenta apenas a morte de Mia, mas a sua própria — pois certamente será assassinado se Mia morrer. Foi sua heroína, sua fraqueza que causou o problema, juntamente com a avidez da própria Mia por novas sensações.

Vincent corre para a casa de seu Mentor (o caminho de volta) onde tem início uma busca frenética num livro de medicina, que acaba com uma caneta marcando a pele da moça e uma enorme injeção de adrenalina penetrando seu corpo. Vincent reúne todas as suas forças para buscar a coragem do herói a fim de enfiar a agulha no coração de Mia. Numa estranha reversão da cena clássica dos filmes de vampiro, ao enfiar uma estaca no seu coração ele está na verdade trazendo-a bruscamente à vida, causando uma ressurreição. Vincent, como Lancelot, possui o poder divino de trazer uma pessoa da terra dos mortos de volta à vida.

Vincent leva Mia de volta à sua casa (retorno com o elixir), onde, pálida e abatida, ela lhe dá uma espécie de elixir, um programa piloto medíocre, para a TV, em que ela aparece. Eles se separam com um outro elixir, um sentido de amizade e respeito mútuos, resultado da provação que enfrentaram juntos. Eles prometem a si mesmos não contar o que ocorreu a Marsellus. Temos a impressão de que, se algo acontecesse um dia a Marsellus Wallace, os dois provavelmente ficariam juntos.

 

A história de Butch

A história agora passa a acompanhar outro fio narrativo, a Jornada do Herói Butch, o lutador de boxe. Somos levados de volta ao antigo mundo comum de Butch, uma cena de sua infância no subúrbio, quando ele assiste a um desenho do SpeedRacer, na TV, em 1972.

Um chamado à aventura é emitido pelo arauto ou mentor, capitão Koons, o oficial da Força Aérea que traz o relógio de ouro que pertenceu a seu pai e ao pai de seu pai. Num longo monólogo, Koons descreve a tradição do relógio que sempre pertenceu aos soldados americanos da família de Butch. Ele narra a provação que ele próprio e o pai de Butch enfrentaram nas prisões vietnamitas. O relógio se torna um emblema de uma tradição valorosa que o conecta a símbolos como as espadas mágicas que os heróis herdavam de seus pais. No entanto, somos bruscamente devolvidos à realidade com o detalhe terreno sobre o local onde o pai de Butch escondeu o relógio durante cinco anos, e o capitão Koons usou esconderijo semelhante durante dois anos, após a morte do pai de Butch. Atendendo à função de doador de um mentor, o oficial dá o relógio a Butch.

Somos, em seguida, atirados de volta ao presente, onde vemos Butch recebendo outro chamado — desta vez de seu empresário, convocando-o para se dirigir ao ringue, onde deverá supostamente se deixar nocautear.

 

"O relógio de ouro"

Um novo título de apresentação na tela agora deixa claro que estamos seguindo um fio importante de uma outra Jornada do Herói. Descobrimos, através do rádio que toca dentro de um táxi na rua que, em vez de perder a luta, conforme combinado com Marsellus, Butch a venceu e matou o outro boxeador. Ele recusou o chamado de Marsellus, mas respondeu a outros chamados — o chamado de seu próprio espírito para lutar com vontade e bem, e o chamado da tentação para enganar Marsellus e ganhar um bocado de dinheiro.

Butch realiza a travessia de um limiar quando pula de uma janela e cai dentro de uma caixa coletora de lixo. Ele embarca num táxi e começa a se despir dos atributos de um boxeador, deixando para trás parte de sua vida. Numa cena de

testes, aliados, inimigos, sua atitude é aprofundada através de uma conversa com Esmeralda Villalobos, a motorista do táxi, que é colombiana. Ela explica que seu nome tem um significado belo e poético e Butch diz que seu nome, como o da maioria dos americanos, não significa nada. Mais uma vez soa uma nota de relatividade cultural. Ela está morbidamente curiosa para saber como ele se sente após matar um homem. Em vez de sentir-se horrorizada, isso parece deixá-la excitada. Tudo é relativo. O próprio Butch oferece uma racionalização por ter matado o outro lutador. Se fosse um melhor boxeador, ainda estaria vivo. Ele faz de Esmeralda um aliado e conquista sua promessa de nada contar à polícia.

Com essa atitude, ele transformou Marsellus e seus subordinados em inimigos. Vemos Marsellus mandar seus capangas caçar Butch, até a Indochina, se necessário.

Numa fase de aproximação, Butch telefona para certificar-se sobre seus ganhos. Depois, vai ver sua namorada francesa, Fabienne, num motel e eles fazem planos de fugir do país tão logo ele ponha a mão no dinheiro. A conversa romântica que travam, característica de cenas de aproximação íntima, parece ir além do bate-papo aparentemente banal que marca as cenas anteriores entre Vincent e Jules. Ela possui o mesmo sentido de relatividade cultural e de sistemas de valores distintos. Neste ponto as distinções versam sobre as fronteiras entre os gêneros, uma vez que a moça tenta fazer Butch compreender sua opinião sobre as barrigas das mulheres. Eles fazem amor e a noite chega ao fim com uma falsa impressão de que tudo ficará bem.

Um novo e imediato chamado à aventura é proclamado na manhã seguinte, quando Butch descobre que sua namorada não trouxe o relógio do seu pai, esquecendo-o no apartamento em que ele morava. Sem consultar nenhum Mentor, ele supera seu medo de ser apanhado por Marsellus e vai atrás do relógio. Sua ida ao apartamento representa uma travessia do limiar para um mundo especial de perigo crescente.

Após uma cautelosa aproximação de seu apartamento, Butch recupera a posse do relógio, apanhando a espada. Contudo, ele se depara com um guardião de limiar enviado por Marsellus para liquidá-lo. É Vincent, que está lendo um livro no banheiro (o thriller de espionagem em quadrinhos Modesty Blaise, de Peter O'Donnell). De maneira ridícula, cometendo um erro trágico e fatal, Vincent subestimou seu adversário e deixou sua arma sobre a pia da cozinha. Butch escuta a descarga do banheiro, apanha a arma e mata Vincent. É uma provação quase mortal para Butch, porém, é o clímax dramático de Vincent, que foi destruído por uma de suas falhas — o desrespeito pelos mais velhos. Ele é castigado com uma verdadeira justiça poética, e de forma humilhante, sendo surpreendido desarmado ao sair do banheiro. Ainda não sabemos, mas Vincent parece estar também pagando o preço por não ter reconhecido o milagre de conseguir escapar das balas do quarto rapaz algumas cenas antes. Sua morte nesta altura parece um castigo divino por ter se recusado a admitir aquela santa intervenção.

Com a recompensa do relógio no bolso, Butch toma o caminho de volta, tentando alcançar sua namorada. No trajeto, ele esbarra literalmente em sua sombra, Marsellus, atropelando-o com o carro ao vê-lo atravessando a rua. Entretanto, Butch fica ferido e aturdido também, quando o carro colide com outro veículo, numa rápida reversão. Marsellus, que parecia morto para o espectador, volta à vida (ressurreição) e avança na direção de Butch com um revólver.

Butch entra cambaleando numa loja de armas, a Mason-Dixon Gunshop, e Marsellus vai atrás dele (uma perseguição típica do caminho de volta). Butch derruba Marsellus e está a ponto de matá-lo quando é impedido pelo dono da loja, Maynard, armado com um rifle.

Butch e Marsellus não se dão conta de que caíram dentro de uma caverna oculta mais sinistra do que qualquer coisa que já encontraram, um mundo subterrâneo abaixo do submundo em que vivem. Maynard deixa Butch inconsciente e pede o auxílio de seu irmão, Zed, como ele, uma projeção da sombra do pior aspecto da cultura masculina branca americana. Marsellus e Butch acordam amarrados e amordaçados dentro de uma caverna ainda mais profunda, uma masmorra embaixo da loja.

Zed traz uma criatura toda vestida de couro, O Coxo, de um buraco ainda mais profundo sob o chão da masmorra. Seja um irmão retardado deles ou uma pobre vítima enlouquecida pela tortura, 0 Coxo sugere os horrores que espreitam Marsellus e Butch. Marsellus é o primeiro a ser escolhido como vítima dos sádicos e cruéis irmãos, sendo então levado para uma sala que já havia sido ocupada por outra vítima, Russel. Revela-se neste ponto a impressão de que outros passaram por lá antes e perderam sua luta contra a morte. Butch ouve os sons dos dois irmãos violentando Marsellus, uma terrível provação que conduz sua virilidade à morte. (Nessas cenas, novamente, há um senso de relatividade. Não importa a crueldade com que julguemos Marsellus e Butch por seu comportamento, existem vilões ainda piores e círculos ainda mais inferiores do inferno. Marsellus e Butch parecem vilões ou sombras do ponto de vista da sociedade, mas comparados com esses dois irmãos na loja de armas, eles são heróis.)

Butch consegue escapar, derrubando O Coxo, que cai e acaba enforcado na própria coleira. Butch sobe a escada e já está com a mão na maçaneta da porta, pronto para partir, porém, tem uma crise de consciência. Decide então fazer um verdadeiro sacrifício de herói, arriscando sua vida ao voltar para resgatar Marsellus, ainda que este queira matá-lo por não ter perdido a luta. Ele escolhe uma espada de samurai entre as várias armas disponíveis (literalmente apanhando a espada) e desce novamente à caverna oculta para sua derradeira PROVAÇÃO.

Butch mata Maynard e Marsellus consegue pegar uma arma e alveja a virilha de Zed. Marsellus está livre, tendo escapado de uma morte quase certa, uma ressurreição. A atitude heroica de Butch compensa a dívida moral que tinha, por ter matado o outro pugilista. Marsellus é transformado pela experiência e concede um privilégio a Butch, poupando sua vida e permitindo que fuja, desde que não conte a ninguém o que aconteceu e que fique longe de Los Angeles. Em seguida ele chama um mentor, Mr. Wolf, para ajudá-lo a resolver o problema.

Assim, Butch está apanhando a espada, podemos dizer, ao levar a motocicleta que pertencia a um dos monstros motoqueiros. Em seu corcel, o herói toma o caminho de volta para encontrar sua amada. Embora talvez não consiga apanhar o elixir do dinheiro da aposta, o herói foi recompensado com um maior elixir de vida. Ele se vai com Fabienne na moto, que traz o sugestivo nome de "Grace" (Graça), um elixir oferecido àqueles que fazem as escolhas morais corretas na Jornada do Herói.

 

"A situação de Bonnie"

Agora, retomamos o fio de Vincent e Jules outra vez, no momento em que Jules recita uma passagem da Bíblia no apartamento dos Rapazes, e ouvimos pela segunda vez as escrituras. O Rapaz surge atirando neles, uma nítida provação que lida com a morte. O certo seria eles estarem mortos, mas de algum modo sobrevivem e as balas enchem de buracos a parede atrás deles.

Os dois jovens reagem de modo bem diferente às suas escaramuças com a morte. Vincent minimiza o acontecimento, considerando-o apenas um golpe de sorte ou coincidência, mas Jules tem uma experiência de apoteose. Ele está profundamente comovido e reconhece naquilo um milagre, um ato de Deus, um sinal que requer uma mudança de atitude. As reações dos dois são como um teste pelo qual Vincent não passa e Jules parece vencer com triunfo. Jules ganha uma recompensa dessa experiência, uma maior consciência espiritual, mas Vincent não ganha nada com isso.

(O fato de já termos visto Butch matando Vincent torna esta cena uma espécie de ressurreição para Vincent; nós o vimos morrer, mas agora o vemos outra vez vivo. Esta é mais uma manifestação da noção de tempo fragmentado na cultura pós-moderna, que afirma ser a noção do tempo linear apenas uma convenção arbitrária.)

No caminho de volta de seu momento de morte-e-renascimento, Vincent comete um erro fatal, outra vez por causa de sua falta de respeito. Falta-lhe também respeito pelas ferramentas da morte e, agitando seu revólver com a mão, acidentalmente, mete uma bala na cabeça de seu cúmplice Marvin, sentado no banco traseiro.

Jules concorda que precisam limpar aquela sujeira e se dirige para a casa de seu amigo e aliado Jimmy Dimmick, interpretado por Quentin Tarantino. Ele parece um cara da classe média cujas ligações com o mundo do crime nunca ficam claras. Jimmy está preocupado sobre a indignação moral de sua esposa, Bonnie, que logo voltará para casa de seu trabalho noturno. (Neste ponto, o cineasta está criando um contraste entre o submundo criminoso e o mundo burguês no qual a maior parte de nós vive. A ironia é que ele está com mais medo da irritação de Bonnie do que do risco de a polícia acusá-lo de homicídio.)

Jules e Vincent tentam se limpar, mas só conseguem fazê-lo parcialmente. Jules repreende Vincent por sujar de sangue as toalhas dos convidados, mais um sinal de que Vincent é descuidado e desrespeitoso, traços que, nós sabemos, acabarão por levá-lo à morte. Ele corre o risco de transformar um outro aliado, Jimmy, num inimigo. Jules pede ajuda a Marsellus e este, por sua vez, dirige-se a um mentor e aliado na forma de Winston Wolf, interpretado por Harvey Keitel. Seu nome o associa à Esmeralda Villalobos, Esmeralda dos Lobos, uma Aliada em outro fio da história. Eles preenchem algumas das mesmas funções desempenhadas pelos Animais Ajudantes em várias lendas populares.

Wolf parece ser um especialista em resolver problemas, experiente na arte de se livrar de evidências inconvenientes. Ele chega numa velocidade sobrenatural e assume o comando, dando ordens de forma autoritária. Entretanto, mais uma vez Vincent é desrespeitoso com os mais velhos e queixa-se por ser tratado daquele modo. Wolf reage com bom humor, mas também com inquestionável autoridade, deixando claro que Vincent não deve transformar em inimigo um aliado seu.

Wolf supervisiona enquanto Vincent e Jules limpam o sangue do carro. Toda essa sequência é delineada como uma ressurreição para os jovens, na qual eles e seu carro são purificados antes do retorno. Enquanto isso, Jimmy tem de fazer um sacrifício, entregando lençóis e toalhas para a faxina, mas Wolf imediatamente o retribui com uma recompensa em dinheiro para comprar móveis novos.

Em seguida, agindo exatamente como um xamã que conduz os guerreiros numa provação purificadora de ressurreição, Wolf manda Vincent e Jules retirarem suas roupas manchadas de sangue. Depois, faz com que Jimmy os lave usando uma mangueira de água gelada enquanto eles se ensaboam. Então, Jimmy lhes traz roupas limpas, bermudas e camisetas, consideravelmente infantis. Eles parecem alunos de uma escola ou de uma faculdade e não gângsteres durões. Como caçadores retornando para casa, eles enfrentaram um ritual de morte-e-renascimento que lhes devolve sua pueril inocência. Agora podem reingressar no mundo comum, purificados das mortes que tiveram de encarar. Durante esse tempo todo, eles guardaram a misteriosa mala, um elixir que trouxeram de volta da provação no apartamento dos quatro rapazes.

Wolf os escolta até um cemitério de automóveis onde o carro e o cadáver serão desovados. Ele se despede e vai embora com sua jovem namorada, Raquel, filha do dono do depósito, demonstrando como um Mentor experiente desfruta de seu elixir, conquistado através de um comportamento "correto" segundo as regras do universo deste filme. Ele cumprimenta Jules por respeitar os mais velhos, um sinal de caráter.

 

"Epílogo"

Finalmente, a narrativa retorna à cena inicial do restaurante para seu epílogo, a última palavra sobre o assunto. Enquanto Pumpkin e Honey Bunny preparam seu assalto, Jules e Vincent recapitulam o que aconteceu. Vincent, como de hábito, recusa, mas Jules insiste que o que viram foi um milagre. Ele decide viver de uma maneira diferente doravante, "caminhando sobre a terra" como Cain na série de TV Kung-fu. Isso parece significar sair andando por aí, fazendo o bem e buscando a paz, no lugar daquela vida criminosa. Ele de fato passou por uma transformação e por uma ressurreição moral. Vincent não dá valor algum a isso e levanta-se para ir ao banheiro, a mesma ação que por fim o levará à morte.

Como um teste final para a decisão de Jules, Pumpkin e Honey Bunny começam a berrar agitando suas armas. Pumpkin tenta apanhar o elixir da mala misteriosa, abrindo-a e curvando-se aos seus encantos, mas Jules o tem sob a mira de seu revólver. (A tentativa de Pumpkin lembra o motivo do conto de fadas do Falso Pretendente, que aparece no momento em que o herói está pronto para reivindicar sua recompensa.)

Jules fala de maneira calma porém enérgica com Pumpkin e Honey Bunny. Faz um acordo com Pumpkin, dando-lhe o dinheiro que traz na carteira desde que a mala não seja levada. É um momento decisivo no qual nos equilibramos entre a vida e a morte. Jules recita a passagem da Bíblia pela terceira vez, embora esta leitura apresente um significado totalmente distinto para ele. Antes, ele se identificava com a face colérica de Deus, negociando a morte para o injusto, e agora se identifica com a mão piedosa e justa, tentando ser o bem-aventurado "que, em nome da caridade e da boa vontade, guia o fraco pelo vale das trevas". Ele mudou seu foco, passando de um assassino imprudente a um novo nível de ação heroica, a partir do qual poderá usar sua habilidade de guerreiro para o bem. Ele é capaz de desarmar a situação potencialmente mortal e ir embora com o elixir na mão. Um confronto que normalmente deixaria pelo menos uma pessoa morta foi controlado com uma delicadeza digna de um Mr. Wolf. Jules cresceu, deixou de ser uma sombra, um matador implacável, para ser um verdadeiro herói. Pumpkin e Honey Bunny vão embora com o elixir de suas vidas, que conquistaram ao tomar a decisão acertada e manter a calma sob as ordens de Jules. Se forem espertos, vão se aperfeiçoar e poderão se preparar para aventuras do mesmo nível de Jules e Vincent. Vincent e Jules se vão com o elixir dentro da mala. A narrativa "acaba", embora saibamos que, em tempo linear, ainda há muita história pela frente. Jules e Vincent irão então entregar a mala para Marsellus no bar, Vincent se mostrará desrespeitoso com Butch e enfrentará uma provação com Mia, Butch não perderá propositadamente a luta e matará Vincent antes de sobreviver à provação com Marsellus. O verdadeiro final, se esses eventos fossem reorganizados em sequência linear, é o momento em que Butch e sua namorada partem de motocicleta.

O tema de Pulp Fiction parece ser testar os homens através de provações. Personagens diferentes reagem de modos distintos em seus respectivos confrontos com a Morte. Apesar do tom relativista do filme, os contadores dessa história parecem ter um ponto de vista moral. Eles se sentam na cadeira de Deus, decidindo o castigo mortal para Vincent, que transgride o código moral do filme, e recompensam Jules e Butch com a vida por terem feito suas escolhas certas segundo o esquema do filme. Nesse ponto, os realizadores da obra, apesar do aparente anticonformismo, são bastante convencionais, obedecendo a um código moral tão estrito quanto o de um filme de John Ford ou Alfred Hitchcock.

O caso mais interessante é o de Vincent, que enfrenta provações em duas esferas completamente diferentes, com resultados diferentes. Na esfera do amor e da lealdade, no seu encontro com Mia, ele se comporta com fidalguia e coragem, como um cavaleiro de antigamente, e, por conta disso, é recompensado com uma breve sobrevida. Mas na esfera de respeito aos Poderes Superiores e aos seus semelhantes mais idosos, ele falha, e é prontamente castigado. Soa mais uma vez uma nota relativista, sugerindo que a superioridade em uma área da vida não significa necessariamente uma superioridade em todos os aspectos.

O entrelaçamento das Jornadas do Herói de Vincent, Jules e Butch apresenta todo um espectro das possibilidades heroicas, abrangendo o dramático, o trágico, o cômico e o transcendente. Como a definição do mito de Joseph Campbell, Pulp Fiction é uma "história camaleônica, embora maravilhosamente constante (...) que possui uma persistente e provocadora sugestão de que ainda resta mais para ser experimentado do que jamais seremos capazes de dizer ou saber".

Ou tudo ou nada

 

Na extremidade oposta do espectro do Titanic há um pequeno filme que a Fox produziu ao mesmo tempo, através da sua divisão Searchlight. Dentro do espírito de um filme independente e iconoclasta, ele produz um bom contraste com a velha escala épica de Hollywood do Titanic, e ainda assim ambos os filmes exibem indicações nítidas da Jornada do Herói. Ou tudo ou nada expressa isso numa escala mais íntima, mas assim mesmo os elementos sobressaem no filme.

O filme Ou tudo ou nada narra as aventuras cômicas de um grupo de homens cujo mundo comum é a sombria cidade industrial de Sheffield. Os homens são diferentes uns dos outros, o gay e o heterossexual, o gordo e o magro, divididos em classes sociais e raças, ainda assim unidos pelas novas condições impostas pela sociedade. No passado, segundo a otimista e hilária descrição promocional dos anos 1960, Sheffield era um próspero centro da indústria metalúrgica, uma cidade onde os homens cuidavam de tudo, ganhando salários e comandando seus lares. Agora o mundo ficou de pernas para o ar. As usinas foram fechadas, os homens estão desempregados e surgiu uma economia de prestação de serviços, na qual as mulheres parecem ser as principais fontes de renda.

Gaz é o protagonista principal, um homem infantil cuja imaturidade o isola de seu filho e de sua ex-mulher. Seu problema externo é arranjar algum dinheiro, seu desafio interno é conquistar o respeito de seu filho e aprender a respeitar a si próprio. Ele recebe seu chamado à aventura quando vê sua ex-mulher com as amigas exercendo seu direito de liberdade e indo assistir a um show de strip-tease masculino. Ele concebe então a ideia de ganhar dinheiro apresentando ele mesmo um show de strippers, para o qual recrutará um grupo entre os homens rejeitados de Sheffield.

Acontecem muitas recusas por parte de seus amigos e parceiros céticos, que não estão a fim de se expor. Esses homens, como todos, têm muitos segredos a proteger e esconder. Gaz não quer que os outros saibam que andou cumprindo pena na cadeia. Seu amigo com excesso de peso, Dave, oculta sua falta de interesse sexual, o que leva sua esposa a pensar que ele está tendo um caso. Gerald, antigo chefe de Gaz na usina metalúrgica, esconde da sua esposa o fato de ter perdido o emprego há vários meses. Lomper, segurança da usina, esconde o fato de ser gay, talvez dissimulando o fato para si mesmo. Guy é um cara que não sabe dançar, mas concorda com a proposta revelando um segredo: é o mais bem-dotado de todos. Sua autoexposição voluntária serve como exemplo para os homens que irão, lentamente, se revelando ao longo do filme. Horse é o melhor dançarino de todos e se torna uma espécie de mentor para os demais, junto com Gerald, que tem tido lições de dança de salão com a esposa. Contudo, até Horse tem um segredo — a razão desse nome — e este nunca será revelado.

O mentor constante de Gaz em sua busca é seu filho Nathan, um Sábio Rapaz que exprime um desejo de seu coração no começo da história: "Por que não podemos fazer coisas normais de vez em quando?" Ele tenta manter Gaz honesto e nos eixos e, no final, lhe dá coragem para encarar a exposição suprema, o teste final de seu comprometimento com algo na vida.

Gaz realiza sua travessia do primeiro limiar quando prepara um teste para seu show de strippers masculinos. Ele transforma um inimigo em aliado, recrutando seu antigo supervisor que, no início, não queria saber do projeto. Os homens aos poucos se revelam e experimentam o mundo especial que é, para eles, confiar um no outro, se dando o direito de serem honestos e vulneráveis.

Sua aproximação é uma fase de preparação e ensaio, na qual eles aprendem mais sobre si mesmos. Um encontro com a Morte marca a provação central, quando Dave começa a ter várias dúvidas e resolve deixar o empreendimento, e a mãe de Lomper morre. Além disso, os homens são presos por atentado ao pudor quando ensaiavam, flagrados por uma câmera de segurança na fábrica. Tudo indica que estão acabados. Mas de imediato sobrevém uma recompensa, uma fase em que Gaz fica mais confiante sabendo que está todo mundo falando do seu show; ser detido pela polícia foi bom para a publicidade. Lomper e Guy também colhem uma recompensa, descobrindo que se preocupam um com o outro, ao fugirem da polícia.

Num outro fio da trama, Dave enfrenta uma provação de honestidade, revelando à sua esposa a verdadeira razão para seu desinteresse em fazer sexo. Sua recompensa é saber que ela o ama assim mesmo, o que o encoraja a voltar para o grupo de strip-tease. No caminho de volta ele se une aos demais, que fazem os acertos finais para o grande momento.

O bar se enche de mulheres barulhentas. A ressurreição é representada quando Gaz treme ante a ideia de se expor no palco, não somente para as mulheres, mas também para alguns homens que conseguiram se infiltrar no bar. Seu envolvimento com o grupo parece morrer por alguns instantes, quando os outros vão para o palco sem ele. Mas seu filho o anima a ir em frente e ocorre então seu renascimento com uma tardia entrada no palco, passando pelo teste final de compromisso e honestidade. Os homens se revelam inteiramente, fazendo seu retorno com o elixir do autoconhecimento, cooperação, compreensão e amor-próprio. Encontraram um novo modo de serem homens na nova sociedade.

O filme Ou tudo ou nada atrai o público por causa de seu bom humor contagiante e sua música e dança animadas, que se harmonizam bem com as locações realistas e os personagens, autênticos e verossímeis. É um filme que faz você "se sentir bem" e transmite uma impressão de que os autores gostam da gente e acreditam que, embora complexas e atormentadas, as pessoas são basicamente boas e capazes de mudar. O público experimenta a identificação e a satisfação de torcer pelos oprimidos. O filme tem uma inventividade visual que oferece vários toques poéticos, como a imagem de Dave e Gaz encalhados num canal dentro de um carro abandonado que está afundando, enquanto o filho sensato de Gaz, Nathan, escapa correndo pela margem. Ao mesmo tempo, a trama multifacetada, que conta pequenas histórias sobre seis homens e um garoto, é organizada formando uma experiência dramática coerente através da utilização dos motivos e dispositivos da Jornada do Herói. Com suas atitudes dentro desse contexto, esses homens comuns são transformados em heróis para a edificação e diversão dos espectadores. E devido ao reconhecimento universal do padrão da Jornada do Herói, as plateias de todo o mundo puderam encontrar algo de si nesta história.

Guerra nas estrelas

Antes de concluir este livro sobre as permutações da Jornada do Herói nos filmes populares, devo reconhecer o impacto duradouro provocado pela série Guerra nas Estrelas. O filme Guerra nas estrelas foi lançado quando eu estava começando a digerir as ideias de Joseph Campbell e se revelou uma expressão inteiramente desenvolvida de seu conceito de Jornada do Herói. O filme me ajudou a elaborar a teoria e testar minhas próprias ideias. E logo se tornou um desses eventos cinematográficos de suma importância, quebrando recordes e estabelecendo padrões mais elevados para os filmes. Quando comecei a ensinar "estrutura mítica", Guerra nas estrelas me forneceu um exemplo conveniente e amplamente conhecido para demonstrar os movimentos e princípios da Jornada do Herói, no qual as funções das partes eram simples, nítidas e vividas. O filme usou linguagem comum da cultura pop, oferecendo metáforas, símbolos e frases úteis que exprimiam como nos sentimos em relação ao bem e ao mal, à tecnologia e à fé. A película gerou uma indústria bilionária de continuações, acessórios, franquias e objetos de coleção. Gerações inteiras cresceram sob sua influência e o filme inspirou inúmeros artistas a pensarem com maior ousadia e perseguirem seus sonhos de criatividade. Como ocorreu com os velhos mitos, o filme preencheu as mesmas funções para milhões de pessoas, oferecendo padrões comparativos, fornecendo metáforas e significados.

Se Guerra nas estrelas fosse um filme sem sequências, seu impacto cultural ainda seria considerável, mas sua influência foi triplicada pela continuação da série com O império contra-ataca e O retorno de Jedi. O mais interessante, do ponto de vista mítico, é o contínuo desenvolvimento do tema pai-e-filho desde o primeiro filme. Em Guerra nas estrelas, o órfão Luke Skywalker aceita o sabre de luz que pertenceu a seu pai, entregue por uma figura substituta do pai, Obi Wan, que sugere que seu pai é um homem nobre, um cavaleiro Jedi. Luke procura a verdade sobre seu pai e sobre si mesmo, e enfrenta Darth Vader, uma figura de Sombra que parece a encarnação do mal incorrigível.

No segundo filme, O império contra-ataca, Luke se surpreende ao descobrir que Vader e seu pai idealizado são a mesma pessoa. O quadro bem definido entre o bem e o mal no primeiro filme se torna mais nebuloso. 0 mal pode um dia ter sido o bem, e se o pai pode perder a bondade, o filho também o pode. Numa visão psicologicamente mais madura, o herói se dá conta de que possui em si sementes do mal, como todos nós. No clímax do filme, Vader alcança seu maior grau de maldade, ao tentar seduzir seu filho para o lado negro da Força. Porém, quando é derrotado e está morrendo, as sementes da bondade que traz em si despertam e ele procura o perdão e a reconciliação com seu filho.

No terceiro filme, a reversão e a redenção de Vader são completas. Na morte, ele foi transformado num espírito benigno, fazendo parte de uma trindade espiritual, juntamente com Obi Wan e Yoda, mentores de Luke. Luke perdoou os pecados da geração anterior e incorporou a figura paterna a seu caráter. O mal ainda está lá para ser combatido na forma do Imperador e suas legiões, porém, os conflitos internos e familiares foram por ora solucionados.

Agora, rumores sugerem que a 20th Century Fox vai produzir os próximos episódios da série, o primeiro dos três filmes que narrarão fatos que acontecem cronologicamente antes da história contada na trilogia original. Por fim, o plano é produzir nove filmes, uma visão ainda mais grandiosa e mais abrangente do que a do Ciclo do Anel de Wagner. Esta série trará os fascínios da origem, retornando ao início das coisas como a Força, os Cavaleiros Jedi e a amizade entre Obi Wan e Darth Vader. Será interessante ver como esses eventos primitivos e juvenis serão apresentados do ponto de vista de um George Lucas que já atingiu a maturidade artística. Como os mitos sempre fizeram, o filme nos levará às fontes, de modo que possamos relembrar o passado, nos orientar no presente e nos projetar no futuro. E é um futuro emocionante, no qual os ritmos, as associações poéticas e os insights psicológicos da Jornada do Herói continuarão se desdobrando, conduzindo-nos por labirintos de mundos desconhecidos e dando sentido a nossas novas vidas.

A Jornada do Escritor

 

A beleza do modelo da Jornada do Herói é que não apenas descreve um padrão nos mitos e contos de fadas, mas também é um mapa muito exato do território que se deve percorrer para ser um escritor. Ou, aliás, um ser humano.

A Jornada do Herói e a Jornada do Escritor, no fundo, são uma só. Qualquer pessoa que se decida a escrever uma história logo encontra todos os testes, dificuldades, provações, alegrias e recompensas da Jornada do Herói. Encontramos todas as suas Sombras, Camaleões, Mentores, Pícaros e Guardiões de Limiar na paisagem interior. Escrever, muitas vezes, é uma viagem perigosa para dentro de nós mesmos, enfrentando as profundezas de nossas almas na tentativa de trazer de volta o Elixir da experiência — ou seja, uma boa história. Pouca autoestima ou confusão sobre nossos próprios objetivos podem ser as Sombras que amedrontam nosso trabalho. Um editor ou nosso próprio juízo crítico podem ser os Guardiões de Limiar que tentam nos barrar a entrada. Acidentes, problemas com o computador e dificuldades de tempo e disciplina podem nos atormentar e provocar, como se fossem Pícaros. Sonhos irrealistas de sucesso ou distrações podem ser os Camaleões que nos tentam, confundem e dispersam. Prazos fatais, decisões editoriais ou a luta para conseguir vender nosso trabalho podem representar os Testes e Provações que parecem nos matar, mas dos quais Ressurgimos para voltar a escrever.

Mas não perca as esperanças, porque escrever é uma coisa mágica. Mesmo o simples ato físico da escrita é quase sobrenatural, na fronteira com a telepatia. Imagine só: fazemos algumas marquinhas abstratas num pedaço de papel, as marcas ficam ali dispostas numa certa ordem, e alguém do outro lado do mundo (ou dali a centenas de anos) poderá conhecer os nossos pensamentos mais profundos. Os limites do espaço e do tempo, e mesmo as limitações da morte, podem ser superados.

Muitas culturas acreditaram que as letras do alfabeto eram muito mais do que apenas símbolos de comunicação, mero registro de transações ou relato da história. Acreditavam que as letras eram símbolos mágicos poderosos, que podiam ser usados para lançar sortilégios ou predizer o futuro. As runas nórdicas e o alfabeto hebraico são letras que servem para soletrar palavras, mas são também símbolos profundos, de significação cósmica.

Esse sentido mágico preserva-se na palavra inglesa usada para ensinar as crianças a manipular as letras que formam palavras: spelling. Quando alguém soletra (spell) uma palavra corretamente, na verdade está lançando um encantamento (spell, em outro significado da palavra na língua inglesa), que carrega esses símbolos arbitrários e abstratos de sentido e de poder. Podemos menosprezar algo dizendo que "são só palavras", ou dizer que "palavras o vento leva", mas sabemos muito bem que não é tão simples assim, que as palavras têm o poder de ferir ou de curar. As simples palavras de uma carta, telegrama ou telefonema podem ter a força de uma martelada. São apenas palavras — marcas no papel, vibrações no ar —, mas, às vezes, bastam algumas como "Culpado!", "Preparar, apontar, fogo!" "Aceito", ou "Queremos comprar seu roteiro" para nos condenar, nos amarrar, nos trazer felicidade. Podem nos ferir ou curar com seu poder mágico.

O poder de cura das palavras é seu aspecto mais mágico. Os escritores, assim como os xamãs ou curandeiros das culturas antigas, têm em potencial o poder de tratar de feridas e de curar.

 

Escritores e xamãs

Os xamãs já foram chamados de "curandeiros feridos". Como os escritores, eles são pessoas especiais, separadas das outras, devido a terem sonhos, visões, experiências únicas. Como muitos escritores, os xamãs que se preparam para seu ofício enfrentam provações terríveis. Podem ter uma doença perigosa, ou caírem de um rochedo e se quebrarem todos. Podem ser mastigados por um leão ou esmagados por um urso. São despedaçados e, depois, juntam seus pedaços de novo, de uma nova maneira. Em certo sentido, morreram e renasceram, e essa experiência lhes dá poderes especiais. Muitos escritores só descobrem sua vocação depois de terem sido abalados pela vida de alguma maneira.

Os escolhidos para serem xamãs muitas vezes são identificados por seus sonhos especiais, ou visões, durante os quais os deuses ou espíritos transportam-nos para outros mundos, onde eles enfrentam provações terríveis. São postos numa mesa para que todos os seus ossos sejam tirados e quebrados. Diante de seus olhos, os ossos e órgãos são despedaçados e rearrumados em nova ordem. São sintonizados numa nova frequência, como aparelhos de rádio. Então, como xamãs, podem receber transmissões de outros mundos.

Voltam a suas tribos possuidores de novos poderes. Podem viajar a outros mundos e trazer de volta histórias, metáforas, mitos que guiam, curam e dão sentido à vida. Escutam com atenção os sonhos confusos e misteriosos de seu povo, e os devolvem sob a forma de histórias que oferecem linhas-mestras para se viver corretamente.

Nós, escritores, de certa forma compartimos esse poder divino dos xamãs. Não apenas viajamos para outros mundos, mas os criamos, em outro tempo e espaço. Quando escrevemos, realmente viajamos a esses mundos de nossa imaginação. Qualquer pessoa que tenha tentado escrever a sério sabe que é por isso que precisamos de solidão e concentração. Na verdade, estamos viajando a outro tempo, outro lugar.

Como escritores, essas viagens não são apenas um ato de sonharmos acordados, e sim o de viajarmos como xamãs, com o poder mágico de engarrafar esses mundos e os trazermos de volta sob a forma de histórias, para compartilhar com os outros. Nossas histórias também têm o poder de curar, de fechar feridas, de fazer o mundo ficar novo outra vez, e de oferecer às pessoas metáforas através das quais elas podem compreender melhor a si mesmas e a suas vidas.

Quando nós, escritores, empregamos essas ferramentas antigas dos arquétipos e da Jornada do Herói, estamos nos apoiando, de pé, sobre os ombros dos criadores dos mitos e dos xamãs de antigamente. Quando tentamos curar nosso povo, através da sabedoria do mito, somos os xamãs modernos. Fazemos as mesmas perguntas que não têm idade, perguntas primordiais e infantis, que os mitos levantam: Quem sou eu? De onde vim? O que acontece quando eu morrer? O que isso significa? Onde é que eu me encaixo? Para onde estou indo, em minha Jornada de Herói?