A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 1 de 26 · parte 1/3

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A Metade Sombria

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A Metade Sombria.

Stephen King.

Tradução de CATARINA HORTA SALGUEIRO.

Círculo de Leitores.

As vidas das pessoas - as suas verdadeiras vidas, em oposição … mera existência física - começam em alturas diferentes. A verdadeira vida de Thad Beaumont, um rapazinho nado e criado na zona Ridgeway de Bergenfield, estado de Nova Jérsia, começou em 1960. Nesse ano, duas coisas lhe aconteceram. A primeira modelou a sua vida; a segunda quase acabou com ela. Nesse ano, Thad Beaumont contava onze anos.

Em Janeiro, participou com um conto num concurso de composição literária patrocinado pela revista American Teen. Em Junho, recebeu uma carta dos editores da revista anunciando que lhe fora atribuída uma Menção Honrosa na categoria de Ficção do Concurso. A carta dizia ainda que os juízes lhe teriam concedido o segundo lugar se a sua candidatura não revelasse que ainda lhe faltavam dois anos para se tornar num genuíno "Adolescente Americano". No entanto, diziam os editores, a sua história, Do Lado de Fora da Casa de Marty, era uma obra excepcionalmente madura, devendo, por isso, ser felicitado.

Duas semanas mais tarde, um certificado de mérito chegou da American Teen. Veio por carta registada. O certificado apresentava o seu nome escrito numa letra tão enrolada, típica do estilo Velha Inglaterra, que ele praticamente não conseguiu decifrá-la, e um selo dourado na parte de baixo, com o logótipo da American Teen gravado em relevo: as silhuetas de um rapaz com cabelo cortado … escovinha e de uma rapariga de rabo-de-cavalo a dançarem o jitterbugl.

Thad, um rapaz sossegado e sério, que parecia nunca conseguir segurar o que quer que fosse e que tropeçava com frequência nos próprios pés grandes, foi arrebatado pelos braços da mãe e coberto de beijos.

O pai não ficou impressionado.

- Caramba, se foi assim tão bom, porque é que não lhe deram algum dinheiro? - resmungou ele das profundezas da sua poltrona.

- Glen...

- Deixa estar. Talvez aqui o nosso Ernest Hemingway me possa ir buscar uma cerveja depois de acabares de o apaparicar.

A mãe de Thad nada mais acrescentou... mas levou a emoldurar a carta original e o certificado que se Lhe seguiu, tendo pago o trabalho com o dinheiro para os seus alfinetes e pendurado a moldura no quarto de Thad, por cima da cama. Sempre que recebia a visita de familiares ou de outras pessoas, levava-os a ver a moldura. Thad, dizia ela … sua visita, iria ser um grande escritor dali a alguns anos. Ela sempre sentira que o seu destino era vir a ser famoso, e aqui estava a primeira prova. Apesar de isto envergonhar Thad, ele amava demasiado a mãe para assim Lhe dizer.

Envergonhado ou não, Thad decidiu que a sua mãe tinha, pelo menos, em parte razão. Não sabia se possuía ou não dentro de si aquilo que fazia de alguém um grande escritor mas, custasse o que custasse, Thad iria ser uma espécie de escritor qualquer. Porque não? Ele era bom nisso. Mais importante ainda, sentia prazer em fazê-lo. Quando as palavras saíam bem, gostava muito daquilo que fazia. E não teriam sempre a possibilidade de Lhe recusarem o dinheiro por causa de um mero aspecto técnico.

Thad não teria eternamente onze anos.

A segunda coisa importante que Lhe aconteceu em 1960 teve início em Agosto. Foi quando começou a ter dores de cabeça. ao princípio, não eram assim tão m s, mas, quando a escola reabriu no início de Setembro, as dores moderadas e latentes nas têmporas e por detr s da testa tinham-se transformado em terríveis e colossais maratonas de sofrimento físico. Ele nada podia fazer quando essas dores de cabeça o mantinham preso nas suas garras excepto deixar-se ficar deitado na penumbra do quarto, … espera da morte. No final de Setembro, ele tinha esperanças de que fosse morrer. E, em meados de Outubro, as dores tinham aumentado de tal forma que Thad começou a temer que não morreria.

O início destas dores de cabeça horríveis era habitualmente assinalado por um som fantasmagórico que só ele conseguia ouvir e que se assemelhava ao chilrear longínquo de milhares de passarinhos. Por vezes, Thad imaginava que quase conseguia ver estes p ssaros, que acreditava serem pardais, agrupados …s dezenas sobre as linhas telefónicas e os telhados, tal como faziam na Primavera e no Outono.

A mãe levou-o ao Dr. Seward.

Este examinou os olhos de Thad com um oftalmoscópio, e abanou a cabeça. De seguida, correndo mais as cortinas e desligando a luz do tecto, pediu que Thad olhasse para um ponto em branco da parede da sala de consultas.

Utilizando uma lanterna eléctrica, ligou e desligou rapidamente um círculo de luz clara, enquanto Thad fitava a parede.

- Isto não te faz sentir esquisito, rapaz?

Thad abanou a cabeça.

- Não te sentes tonto? Como se fosses desmaiar?

Thad tornou a abanar a cabeça.

- Não te cheira a nada? Talvez a fruta podre ou a trapos queimados?

- Não.

- E quanto aos teus p ssaros? Ouviste-os quando a luz piscou?

- Não - respondeu Thad, perplexo.

- São os nervos - disse mais tarde o pai de Thad, depois de este ser levado para a sala de espera no exterior. - O raio do rapaz est uma pilha de nervos.

- Penso que são enxaquecas - explicou-lhes o Dr. Seward. - Pouco habituais em alguém tão jovem, mas não propriamente invulgares. E ele parece ser um rapaz muito...

sério.

- E é - replicou Shayla Beaumont, não sem deixar transparecer uma certa aprovação - Bem, talvez algum dia se descubra uma cura. Para j , receio que ele ir ter de sofrer até elas passarem.

- Sim, e nós com ele - acrescentou Glen Beaumont.

Mas não eram os nervos, e não eram enxaquecas, e não passaram.

Quatro dias antes da Noite das Bruxas, Shayla Beaumont ouviu um dos mi£dos com quem Thad costumava esperar pela carrinha da escola todas as manhãs começar aos gritos. Olhou pela janela da cozinha e viu o filho deitado na estrada, em convulsões. A lancheira encontrava-se a seu lado, com o conte£do de fruta e sanduíches espalhado pela superfície quente da estrada. Shayla correu para fora de casa, enxotou as outras crianças e, de seguida, ficou debruçada sobre o filho, impotente, com medo de Lhe tocar.

Se o grande autocarro amarelo com o Sr. Reed ao volante tivesse chegado um pouco mais tarde, Thad poderia ter morrido exactamente ali, … beira da estrada. Mas o Sr.

Reed tinha sido médico na Coreia. Assim, soube inclinar a cabeça do rapaz para tr s e deixar entrar um pouco de ar antes que Thad morresse sufocado com a própria língua.

Uma ambulƒncia levou-o para o Hospital do Município de Bergenfield e, por mero acaso, na altura em que o rapaz foi levado para dentro numa maca, um médico chamado Hugh Pritchard encontrava-se na sala de urgências, a beber café e a trocar piadas sobre golfe com um colega. E também por mero acaso, Hugh Pritchard era apenas o melhor neurologista do estado de Nova Jérsia.

Pritchard mandou que se efectuassem radiografias e examinou-as. Mostrou-as aos Beaumont, pedindo-lhes que olhassem com particular atenção para a sombra difusa que marcara a l pis de cera com um círculo amarelo em seu redor.

- Isto - disse. - O que é isto?

- Como é que havemos de saber? - perguntou Glen Beaumont. - O senhor é que é o maldito médico.

- Muito bem - replicou Pritchard, secamente.

- A patroa disse que parecia que ele tivera um ataque - afirmou Glen.

- Se com isso - disse o Dr. Pritchard - o senhor pretende dizer que ele teve uma crise convulsiva, sim, é verdade. Se com isso o senhor pretende dizer que ele teve um ataque epiléptico, estou absolutamente certo de que não o teve. Um ataque tão grave como aquele que acometeu o seu filho teria realmente que ser um grand mall e Thad não mostrou qualquer tipo de reacção ao teste … luz. Na verdade, se ele sofresse de epilepsia não precisariam de um médico para Lhe dizer isto. Acabaria por se p“r a dançar o watuslS no tapete da sala de estar sempre que a imagem do vosso aparelho de televisão ficasse desregulada.

- Então o que é aquilo? - inquiriu Shayla, timidamente.

Pritchard virou-se para as radiografias presas diante do expositor iluminado.

- O que é isto? - corrigiu ele, tornando a bater ao de leve na rea delimitada pelo círculo. - O aparecimento repentino das dores de cabeça, associado a uma ausência total de ataques prévios, sugere-me que o vosso filho tem um tumor cerebral, provavelmente ainda pequeno, e esperemos que benigno.

Impassível, Glen Beaumont fitou o médico, enquanto a sua mulher se mantinha a seu lado e chorava, escondendo o rosto num lenço. Shayla chorava sem fazer qualquer barulho.

Este choro silencioso era o resultado de anos de treino matrimonial. Os punhos de Glen eram r pidos e dolorosos e quase nunca deixavam marcas. Após doze anos de sofrimento em silêncio, era prov vel que ela não conseguisse chorar alto, mesmo se o quisesse fazer.

- Isto tudo quer dizer que o senhor doutor quer cortar os miolos do mi£do? - perguntou Glen, com o seu tacto e delicadeza habituais.

- Eu não poria as coisas nesses termos, senhor Beaumont, mas penso que ser necess ria uma intervenção cir£rgica exploratória, sem d£vida alguma. - E pensou: "Se Deus realmente existe, e se Ele realmente nos fez … Sua imagem, nem sequer gosto de pensar na razão pela qual existem tantos homens horríveis como este, que andam por aí com os destinos de outros tantos nas mãos."

Durante um longo instante Glen permaneceu silencioso, cabisbaixo e com a testa franzida, concentrado a pensar.

Por fim, levantou a cabeça e fez a pergunta que, no fundo, mais o preocupava.

- Diga-me a verdade, senhor doutor: quanto é que tudo isto vai custar?

A auxiliar de enfermagem da sala de operações foi a primeira pessoa a ver.

Na sala de operações, onde os £nicos sons nos £ltimos quinze minutos tinham sido as ordens murmuradas do Dr.

Pritchard, o assobio dos volumosos aparelhos de manutenção da vida, e o gemido curto e agudo da serra Negli, o grito lançado soou estridente e dissonante.

Žos tropeções, a enfermeira deu alguns passos para tr s, bateu num tabuleiro de rodas Ross sobre o qual estavam cuidadosamente dispostos quase duas d£zias de instrumentos cir£rgicos e atirou-o ao chão. O tabuleiro bateu no chão de ladrilhos com um baque que ecoou por toda a sala, a que se seguiu uma série de tinidos mais pequenos.

- Hilary! - gritou a enfermeira-chefe, com a voz perpassada de choque e surpresa, perdendo de tal modo o controlo sobre si mesma que acabou por dar um passo na direcção da mulher em fuga na sua esvoaçante bata verde.

Com um dos pés enfiados num dos protectores de calçado, o Dr. Albertson, que se encontrava a assistir … cirurgia, deu um ligeiro pontapé na barriga da perna da enfermeira-chefe.

- Lembre-se de onde est , por favor.

- Sim, senhor doutor. - Virando imediatamente as costas, a enfermeira-chefe nem sequer olhou para a porta da sala de operações quando esta foi aberta com estrondo por Hilary, que saiu da sala a correr, tendo virado … esquerda, ainda a gritar como um carro de bombeiros desembestado.

- Ponha os instrumentos no esterilizador - ordenou Albertson. - Imediatamente. Toca a andar.

- Sim, senhor doutor.

Ofegante, a enfermeira-chefe começou a recolher os instrumentos, claramente perturbada mas j com total domínio sobre si mesma.

O Dr. Pritchard parecia não ter reparado em nada disto.

Olhava com uma atenção arrebatada para a janela que tinha sido esculpida no crƒnio de Thad Beaumont.

- Incrível - murmurou. - Absolutamente incrível.

Este é mesmo um daqueles casos para os livros. Se não estivesse a ver com os meus próprios olhos... - O assobio do esterilizador pareceu despert -lo, tendo olhado para o Dr. Albertson. - Quero aspiração - ordenou de forma ríspida, olhando de soslaio para a enfermeira. - E que raio é que você est a fazer? As palavras cruzadas do Times de domingo? Mexa-me mas é esse cu e traga-me os instrumentos!

A enfermeira aproximou-se, levando os instrumentos numa vasilha limpa.

- Quero aspiração, Lester - pediu Pritchard a Albertson. - Imediatamente. J . Depois, vou mostrar-te uma coisa que nunca viste a não ser numa feira de aberrações da natureza.

Ignorando a enfermeira-chefe, que deu um salto para tr s, se desviou do caminho e equilibrou os instrumentos com destreza, Albertson empurrou a bomba de aspiração até junto de Pritchard.

Pritchard estava a olhar para o anestesista.

- D -me uma boa pressão arterial, meu amigo. Uma boa pressão arterial é tudo quanto peço.

- Ele tem um-zero-cinco sobre setenta e oito. Est vel como uma rocha.

- Bem, a mãe dele diz que temos o futuro William Shakespeare deitado … nossa frente, portanto, mantém esses valores. Aspiração com ele, Lester. Não Lhe faças cócegas com a maldita coisa!

Albertson aplicou a aspiração, limpando o sangue. Como pano de fundo, o apito do aparelho de monitorização mantinha-se regular, monótono e reconfortante. Foi então que Albertson passou a aspirar a própria respiração. Foi como se alguém Lhe tivesse dado um murro bem forte na barriga.

- Oh, meu Deus! Oh, Jesus Cristo! - Por um instante, Albertson recuou... depois, aproximou-se e inclinou-se. Por cima da m scara e por detr s dos óculos de aros de osso, os olhos abriram-se como uma repentina curiosidade cintilante. - Que é isto?

- Penso que est s a ver aquilo que é - respondeu Pritchard. - Só que levamos alguns segundos a nos habituarmos.

J li coisas sobre isto mas nunca esperei ver realmente alguma.

O cérebro de Thad Beaumont tinha a cor da orla da concha de um b£zio: um cinzento nem muito escuro e nem muito claro, com uma ligeiríssima tonalidade rosa.

Saliente na superfície macia da dura-m ter, via-se um £nico olho humano, cego e disforme. O cérebro batia ligeiramente e o olho batia juntamente com ele. Era como se estivesse a tentar lançar-lhes uma piscadela. Fora isto - a impressão do olho a piscar - que levara a auxiliar de enfermagem para fora da sala de operações.

- Meu Deus, que é isto? - perguntou Albertson mais uma vez.

- Nada - replicou Pritchard. - Em tempos, talvez tivesse feito parte de um ser humano vivo e saud vel. Agora, não é nada. A não ser um contratempo, e nada mais.

E, por acaso, trata-se de um contratempo que nós sabemos como resolver.

O anestesista, Dr. Loring, perguntou:

- D -me licença que veja, doutor Pritchard?

- Ele ainda est regular?

- Sim.

- Então, v l . Esta é uma daquelas coisas que vai contar aos seus netos. Mas seja r pido. - Enquanto Loring observava, Pritchard virou-se para Albertson. - Quero a Negli - ordenou. - Vou abri-lo um pouco mais. Depois, examinamos com a sonda. Não sei se consigo tirar tudo, mas vou tirar tudo aquilo que puder.

Agora na qualidade de instrumentista principal da sala de operações, Les Albertson passou a sonda de novo esterilizada para a mão enluvada de Pritchard quando este a pediu. Pritchard - que, neste momento, cantarolava baixinho o tema principal da série televisiva Bonanza - explorou a abertura cir£rgica com rapidez e praticamente sem esforço algum, recorrendo apenas ocasionalmente ao espelho do género dent rio montado na extremidade da sonda. Pritchard trabalhava essencialmente com base no tacto. Mais tarde, Albertson diria que nunca assistira a uma intervenção cir£rgica tão emocionante e instintiva em toda a sua vida.

Além do olho, encontraram parte de uma narina, três unhas e dois dentes. Um dos dentes continha uma pequena cavidade. O olho continuou a bater e a tentar piscar até ao momento em que Pritchard utilizou o bisturi com ponta de agulha para, primeiro, perfur -lo e, de seguida, extirp -lo.

Na sua totalidade, a operação, do exame inicial com a sonda … extirpação final, demorou apenas vinte e sete minutos.

Com um som de chape, cinco nacos de carne foram depositados, ainda h£midos, na tigela de aço inoxid vel sobre o tabuleiro Ross, ao lado da cabeça rapada de Thad.

- Penso que estamos limpos - afirmou Pritchard por fim. - Todo o tecido estranho parecia estar ligado por meio de ganglios rudimentares. Mesmo que existam outros nacos, creio que o mais prov vel é que os tenhamos morto.

- Mas... como isso pode ser se o mi£do ainda est vivo?

Isto é, faz tudo parte dele, não é? Ser que Lhe faltam unhas? - perguntou Loring, confuso.

Pritchard apontou para o tabuleiro.

- Encontr mos um olho, alguns dentes e umas unhas na cabeça deste mi£do e o senhor acha que isto fazia parte dele? Viu se Lhe faltava alguma unha? Quer verificar?

- Mas até mesmo o cancro constitui apenas uma parte do paciente...

- Isto não era nenhum cancro - replicou Pritchard, pacientemente. As suas mãos continuavam a trabalhar enquanto falava. - Meu caro amigo, em muitos partos onde uma mãe d apenas … luz uma criança, essa criança começou, na verdade, a sua existência como irmão gémeo. • até possível que isso chegue mesmo a acontecer duas vezes em cada dez casos. Que acontece ao outro feto? O mais forte absorve o mais fraco.

- Absorve-o? Est a querer dizer que ele o come? - perguntou Loring, aparentando um ar um pouco amarelado. - Ser que estamos a falar aqui de canibalismo in utero?

- Chame-lhe o que quiser; o facto é que acontece com relativa frequência. Se alguma vez chegarem a desenvolver aquele aparelho de ecografia de que estão sempre a falar nas conferências médicas, talvez possamos descobrir com que frequência é que isso acontece. Contudo, independentemente da frequência ou não com que ocorre, o que aqui vimos hoje é muito mais raro. parte do gémeo deste rapaz não foi absorvida e acabou por ir parar ao lobo pré-frontal.

Podia com toda a facilidade ter-se alojado nos intestinos, no baço, ou na espinal-medula: no fundo, em qualquer órgão.

Habitualmente, os £nicos médicos que têm oportunidade de ver uma coisa como esta são os patologistas. Isto aparece nas autópsias, e nunca ouvi falar de alguém a quem o tecido estranho tenha sido a causa da morte.

- Então, que aconteceu aqui? - inquiriu Albertson.

- Alguma coisa fez desencadear de novo o crescimento desta massa de tecido que, h um ano atr s, era provavelmente submicroscópica quanto ao tamanho. O relógio de crescimento do gémeo absorvido, que deveria ter parado para sempre pelo menos um mês antes de a senhora Beaumont ter dado … luz, conseguiu, de algum modo, voltar a ter corda... e o raio da coisa começou, na verdade, a aumentar. Não h qualquer mistério naquilo que aconteceu; a pressão intracraniana era o suficiente para causar as dores de cabeça do mi£do e as convulsões que o trouxeram até aqui.

- Sim - retorquiu Loring brandamente - mas porque é que aconteceu?

Pritchard abanou a cabeça:

- Se daqui a trinta anos ainda estiver a exercer algo mais exigente do que a minha batida de golfe, pergunte-me nessa altura. Talvez tenha uma resposta. Neste momento, tudo aquilo que sei é que localizei e extirpei um tipo de tumor muito específico e raro. Um tumor benigno. E, salvo complicações, creio que é isso que os pais têm de saber.

O pai do mi£do faria o Homem de Piltdownl parecer um desses meninos-prodígios. Não me consigo ver a explicar-lhe que fiz um aborto ao filho de onze anos de idade. Les, vamos fech -lo. - E, em género de remate, acrescentou, num tom jocoso, … enfermeira da sala de operações:

- Quero que aquela mulherzinha idiota que saiu daqui a correr seja despedida. Tome nota, por favor.

- Sim, senhor doutor.

Nove dias depois da intervenção cir£rgica, Thad Beaumont teve alta do hospital. Durante os seis meses que se seguiram, a parte esquerda do seu corpo esteve confrangedoramente fraca e, de vez em quando, sempre que estava muito cansado, Thad via luzes intermitentes de padrão invulgar e pouco aleatório diante dos seus olhos.

A mãe de Thad comprou-lhe uma m quina de escrever Remington 32 como um presente de melhoras, e estes clarões de luz ocorriam com mais frequência quando ele se encontrava debruçado sobre ela, antes de se deitar, a debater-se com o modo correcto de exprimir algo ou a tentar imaginar aquilo que deveria acontecer de seguida na história que estava a escrever. Por fim, até mesmo os clarões acabaram por passar.

Aquele chilrear misterioso e fantasmagórico - o som de esquadrões de pardais a voar - desapareceu por completo após a operação. Thad continuou a escrever, ganhando confiança e polindo o seu estilo emergente, tendo vendido a sua primeira história - … American Teen - seis anos após a sua vida ter verdadeiramente começado. Depois disso, nunca mais olhou para tr s.

A £nica coisa que os pais de Thad ou ele próprio alguma vez souberam foi que, no Outono do seu décimo primeiro ano, Lhe foi extirpado um pequeno tumor benigno do lobo pré-frontal do seu cérebro. Quando chegava a pensar nisso (o que passou a fazer com cada vez menos frequência … medida que os anos passaram), Thad limitava-se a julgar que tivera uma enorme sorte em ter sobrevivido.

Naquele tempo, muitos dõentes que eram submetidos a uma operação ao cérebro não tinham assim tanta sorte.

 

I

Recheio dos tolos

Com lentidão e cuidado, Machine endireitou os clips com os dedos compridos e fortes.

- Agarra-lhe a cabeça, Jack - ordenou ao homem por detr s de Halstead. - Agarra-a com força, por favor.

Halstead percebeu aquilo que Machine pretendia fazer e começou aos gritos enquanto Jack Rangely pressionava as mãos grandes contra as têmporas da cabeça de Halstead, mantendo-a quieta. Os gritos ressoaram e ecoaram no armazém abandonado. O amplo espaço vazio funcionava como um amplificador natural. Halstead assemelhava-se a um cantor de ópera a fazer exercícios de aquecimento da voz numa noite de estreia.

- Estou de volta - afirmou Machine.

Halstead cerrou os olhos com força, mas de nada valeu.

A pequena haste de aço deslizou com facilidade através da p lpebra esquerda e, com um leve estampido, perfurou o globo ocular que se encontrava por detr s. Um líquido viscoso e gelatinoso começou a escorrer.

- Estou de volta dos mortos e não pareces nem um pouco feliz por me veres, seu filho da mãe ingrato.

A Caminho da Babilónia de George Stark

 

Um

AS PESSOAS VŽo FALAR

1

O n£mero de 23 de Maio da revista People era bastante típico.

A capa era adornada pela Celebridade Morta da semana, uma estrela de rock'n roll que se enforcara na cela de uma cadeia depois de ter sido presa por posse de cocaína e diversas outras drogas leves. O interior apresentava o "sortido" habitual: nove crimes sexuais por resolver na deserta zona ocidental do estado do Nebrasca; um guru de comida vegetariana que fora preso por pornografia infantil;

uma dona de casa de Maryland que cultivara uma abóbora que se assemelhava um pouco ao busto de Jesus Cristo - isto era, se se olhasse para a abóbora com os olhos semicerrados e numa sala pouco iluminada; uma ousada rapariga paraplégica que se treinava para a prova de ciclismo "Bike-A-Thon" da Big Applel; um divórcio de Hollywood; um casamento da fina-flor de Nova Iorque; um praticante de luta livre em recuperação de um ataque cardíaco; um cómico que lutava na justiça por uma pensão de alimentos após o divórcio.

Havia ainda a história de um empres rio do estado do Ut que estava a comercializar uma boneca novinha em folha, a £ltima novidade do mercado, chamada "Ol Mama!

Ol Mama!" que, supostamente, se assemelhava … "sogra preferida (?) de qualquer um". A boneca tinha um gravador incorporado que proferia, com violência, frases típicas de um di logo como "Querida, na minha casa, quando ele estava a crescer, o jantar nunca ficava frio" e "Quando venho passar duas semanas, o teu irmão nunca age, como se eu tivesse um h lito nauseabundo." No entanto, o verdadeiro disparate era que, em vez de se puxar uma corda nas costas da "Ol Mama!" para esta começar a falar, era preciso dar um pontapé no raio da coisa com toda a força.

"A Ol Mama! é almofadada, inquebr vel e não esburaca paredes nem mobília. E vem com garantia", afirmava o orgulhoso inventor, o Sr. Gaspard Wilmot (que, mencionava o artigo de passagem, fora em tempos acusado de evasão fiscal, tendo as acusações sido postas de lado).

E na trigésima terceira p gina deste n£mero divertido e informativo da primeira revista americana em termos de divertimento e informação, surgia uma p gina cujo título era típico da People: poderoso, vigoroso e mordaz. BIO, assim se chamava.

- A People - disse Thad Beaumont … mulher, Liz, sentados lado a lado na mesa da cozinha, lendo o artigo em conjunto pela segunda vez - gosta de ir direita ao assunto.

B10. Se não quiseres uma B10', passa para IN TROUBLE2 e lê tudo sobre as raparigas que estão a ser mortas e congeladas no coração do Nebrasca.

- Quando se pensa a sério nisso, não tem piada nenhuma - replicou Liz Beaumont, tendo acabado por deitar tudo por terra ao abafar uma risadinha num dos punhos fechados.

- Não é ah ah, mas é certamente peculiar - disse Thad, começando a folhear de novo o artigo. Enquanto assim fazia, coçava distraído a pequena cicatriz branca no alto da testa.

Tal como a maioria das BIOS da People, este era o artigo na revista onde se atribuía mais espaço …s palavras do que …s fotografias.

- Est s arrependido de o ter feito? - perguntou Liz, com um dos ouvidos em alerta para os gémeos. Porém, até agora, eles estavam a portar-se lindamente, a dormir como uns anjinhos.

- Em primeiro lugar - respondeu Thad - eu não fiz nada. Nós fizemos. Todos por um e um por todos, lembras-te? - Thad bateu ao de leve numa fotografia na segunda p gina do artigo, que mostrava a esposa a oferecer-lhe uma caixa com bolinhos de chocolate, enquanto Thad se encontrava sentado diante da m quina de escrever, com uma folha de papel enrolada sob o cilindro. Era impossível ler aquilo que estava escrito no papel, se é que estava escrita alguma coisa. Provavelmente, tanto melhor, porque só poderia ser um palavreado sem sentido. Para Thad, escrever sempre fora sinónimo de trabalho rduo, não sendo o género de coisa que conseguisse fazer em p£blico - sobretudo se um dos membros desse p£blico era um fotógrafo para a revista People. Para George, fora muito mais f cil, mas para Thad Beaumont era extraordinariamente mais difícil. Liz não se aproximava de Thad sempre que este estava a tentar escrever (e, por vezes, acabava mesmo por consegui-lo).

Nunca Lhe levava telegramas, quanto mais bolinhos de chocolate.

- Sim, mas...

- Em segundo lugar...

Thad fitou a fotografia de Liz com os bolinhos de chocolate e onde ele olhava para ela. Ambos estavam a fazer um sorriso forçado. Estes sorrisos são verdadeiramente singulares no rosto de pessoas que, apesar de agrad veis, são parcimoniosas a oferecer o que quer que fosse, mesmo coisas tão banais como sorrisos. Thad recordou a época que passara como guia de trilhos dos Apalaches, nos estados do Maine, New Hampshire e Vermont. Naquela época obscura, possuía um guaxinim como animal de estimação, de nome John Wesley Harding. Não que ele tivesse feito qualquer tentativa para domesticar John; o guaxinim tinha-se, pura e simplesmente, apaixonado por ele. Também o velho J. W. gostava do seu golezinho nas noites frias e, por vezes, quando bebia mais do que a dose habitual da garrafa, o guaxinim sorria daquela maneira.

- Em segundo lugar o quê?

"em segundo lugar, h algo de estranho no facto de um escritor, em tempos nomeado para o National Book Award', e de a sua mulher sorrirem um para o outro como um par de guaxinins bêbedos", pensou ele, não conseguindo conter uma gargalhada, que saiu do mais fundo de si.

- Thad, vais acordar os gémeos!

Sem muito êxito, Thad tentou abafar o ataque de riso.

- Em segundo lugar, parecemos um par de idiotas e não me importo nada - afirmou ele, abraçando-a com força e beijando-a na concavidade da garganta.

No outro quarto, William começou a chorar, sendo seguido por Wendy.

Liz tentou olhar para ele de modo reprovador, mas não conseguiu. Era bom de mais ouvi-lo rir. Bom, talvez, porque ele nunca ria o suficiente. Para ela, o som do riso de Thad tinha um encanto estranho e exótico. Thad Beaumont nunca fora um homem de muitas gargalhadas.

- Culpa minha - disse ele. - Eu vou l busc -los.

Žo levantar-se, Thad chocou contra a mesa e quase a deitou a baixo. Apesar de ser um homem cuidadoso, era peculiarmente desajeitado; aquela parte do rapaz que Thad fora em tempos ainda vivia dentro dele.

Liz conseguiu apanhar o jarro de flores que dispusera como centro de mesa exactamente antes de este escorregar até … beira da mesa e estatelar-se no chão.

- Francamente, Thad! - exclamou Liz. Mas também ela começou a rir.

Thad voltou a sentar-se por um instante. Apesar de não pegar propriamente na mão dela, acariciou-a entre as suas duas mãos.

- Ouve, amor, importas-te?

- Não - respondeu. Por breves momentos, Liz ponderou se devia acrescentar "No entanto, não me sinto … vontade. Não porque pareçamos um pouco tontos mas porque... bem, não sei porquê. Só sei que me faz sentir pouco … vontade".

Pensou mas não o disse. Era pura e simplesmente bom de mais ouvi-lo rir. Liz agarrou numa das mãos dele, apertando-a ao de leve.

- Não - afirmou ela. - Não me importo. Acho que é divertido.

E se toda esta publicidade ajudar O Cão Dourado quando finalmente decidires p“r mãos … obra e acabares o raio da coisa, melhor ainda.

Liz levantou-se, empurrando-o para baixo pelos ombros quando ele tentou juntar-se a ela.

- Da próxima vez, vais l tu busc -los - disse. - Quero que fiques sentado exactamente onde est s até que o teu ímpeto subconsciente de destruir o meu jarro acabe por passar.

- Sim, senhora - replicou, sorrindo. - Amo-te, Liz.

- Também te amo.

Liz foi buscar os gémeos e Thad Beaumont recomeçou a folhear a sua B10.

Žo contr rio da maioria dos artigos da People, a B10 de Thaddeus Beaumont começava não com uma fotografia de p gina inteira mas com uma outra que ocupava menos de um quarto da p gina. Independentemente disso, chamava a atenção pelo facto de o homem da tipografia, com uma certa queda para o invulgar, ter debruado a preto a imagem, que mostrava Thad e Liz num cemitério. Em baixo, as linhas dactilografadas sobressaíam num contraste quase brutal.

Na fotografia, Thad empunhava uma p e Liz uma picareta.

Num dos lados, encontrava-se um carrinho de mão, contendo no seu interior outros utensílios próprios de um cemitério. Apesar de a campa propriamente dita se encontrar coberta de diversos ramos de flores, a l pide em si era perfeitamente legível.

GEORGE STARK 1975-1988 Não era um tipo muito simp tico Num contraste quase grosseiro com o local e o acto aparente (o enterro recém-terminado daquele que deveria ter sido, de acordo com as datas, um rapaz no início da adolescência), estes dois falsos coveiros apertavam as mãos livres sobre os torrões de relva acabadinhos de colocar - e riam alegremente.

Claro que se tratava de uma pose. Todas as fotografias que acompanhavam o artigo - o enterro do corpo, o oferecimento dos bolinhos de chocolate, e Thad a vaguear solitariamente como uma nuvem baixa no caminho por entre as matas abandonadas de Ludlow - tinham sido encenadas.

Era divertido. Nos £ltimos cinco anos, Liz tinha vindo a comprar a People no supermercado, e ambos faziam pouco da revista. No entanto, também ambos a folheavam, … vez, no supermercado, ou possivelmente na casa de banho se não houvesse nenhum livro bom … mão. De tempos a tempos, Thad especulava sobre o êxito da revista, perguntando-se se seria a devoção da mesma aos pormenores escabrosos das pessoas célebres que a tornava tão peculiarmente interessante, ou apenas o modo como estava disposta, com todas aquelas fotografias enormes a preto e branco e o texto a negrito, constituído na sua maioria por simples frases afirmativas. No entanto, nunca Lhe passara pela cabeça perguntar-se se as fotografias seriam encenadas.

O fotógrafo fora uma mulher chamada Phyllis Myers.

Phyllis informou Thad e Liz que tirara uma série de fotografias de ursinhos de pel£cia em caixões para crianças, com todos os ursos vestidos com roupas de crianças. Ela esperava vendê-las sob a forma de um livro a uma das grandes editoras de Nova Iorque. Só no segundo dia da sessão de fotos-e-entrevista é que Thad se apercebeu de que a mulher o estava a sondar sobre a possibilidade de escrever um texto. A Morte e os Ursinhos de Pel£cia, afirmava ela, seria "o coment rio final e perfeito sobre a forma tipicamente americana de morrer, não acha, Thad?"

‘ luz dos seus interesses bastante macabros, Thad admitira que não era de todo surpreendente o facto de aquela mulher Myers ter encomendado a l pide de George Stark e de a ter trazido com ela desde Nova Iorque. Era feita de papier-machê.

- Não se importam de apertar as mãos em frente disto, pois não? - perguntara Phyllis com um sorriso nos l bios que era, ao mesmo tempo, lisonjeiro e complacente. - Vai ficar uma foto maravilhosa.

Liz olhara para Thad, interrogando-o, um pouco chocada.

De seguida, os dois tinham olhado para a l pide falsa que viera da cidade de Nova Iorque (sede de todo o ano da revista People) até Castle Rock, no estado do Maine (casa de Verão de Thad e Liz Beaumont), com um misto de espanto e admiração perplexa. Era da inscrição que os olhos de Thad não se conseguiam desviar.

Não era um tipo muito simp tico No essencial, a história que a People queria contar aos infatig veis fas das celebridades da América era bastante simples. Thad Beaumont era um escritor bem visto, cujo primeiro romance, Os Dançarinos Inesperados, fora nomeado para o National Book Award em 1972. Este tipo de coisa tinha algum peso na crítica liter ria, mas os infatig veis fas das celebridades da América estavam-se absolutamente nas tintas para Thad Beaumont, que, desde essa altura, só publicara um outro romance com o seu nome.

O homem que interessava realmente a muitos deles não era, afinal de contas, um homem real. Thad escrevera um enorme best-seller e três outros romances extremamente bem sucedidos logo de seguida sob um outro nome. O nome, est claro, era George Stark.

Jerry Harkavay, que constituía todo o pessoal de Waterville da Associated Pressl, fora o primeiro a vir a lume com a história de George Stark depois de o agente de Thad, Rick Cowley, a ter dado a conhecer a Louise Booker, da Publishers Weekly, com a aprovação de Thad. Nem Harkavay nem Booker tinham conseguido a história toda. Por um lado, Thad era inflexível quanto a nem sequer fazer uma alusão …quele imbecil de modos melífluos do Frederick Clawson. Ainda assim, não deixava de ser bastante bom alcançar uma maior tiragem do que aquela que quer o serviço noticioso da AP quer o mercado de revistas da ind£stria de livros publicados alguma vez conseguiriam proporcionar.

Clawson, dissera Thad a Liz e a Rick, não era a história:

ele era apenas o idiota que estava a forç -los a tornarem a história p£blica.

No decurso daquela primeira entrevista, Jerry inquirira-o sobre o género de tipo que era George Stark. "George", replicara Thad, "não era um tipo muito simp tico." A citação fora colocada no início do artigo de Jerry, tendo dado …quela mulher Myers a inspiração para encomendar, de facto, uma l pide falsa com essa mesma frase gravada. Mundo esquisito. Mundo, mundo esquisito.

Subitamente, Thad rebentou novamente de riso.

 

2

No campo a negro por debaixo da fotografia de Thad e de Liz num dos melhores cemitérios de Castle Rock, surgiam duas linhas dactilografadas a branco.

"O ente querido desaparecido era extremamente intimo destas duas pessoas", dizia a primeira.

"eNTŽo, PORQUE ESTŽo ELAS A RIR?"- interrogava a segunda.

- Porque o mundo é um lugar terrivelmente estranho - afirmou Thad Beaumont, soltando uma gargalhada que tentou abafar com uma mão fechada.

Liz Beaumont não era a £nica que se sentia pouco … vontade com esta peculiar explosãozinha de publicidade. Ele próprio também se sentia pouco … vontade. Mesmo assim, Thad não conseguia cessar de rir. Parava por alguns segundos, mas sempre que os olhos pousavam de novo naquela linha ("Não era um tipo muito simp tico"), uma nova enxurrada de gargalhadas ruidosas irrompia de dentro dele.

Tentar parar era como procurar tapar os buracos de uma barragem de barro mal construída: mal se conseguia parar uma fuga, logo uma nova surgia num outro ponto qualquer.

Thad suspeitava que havia algo de errado com um riso tão incontrolado: era uma forma de histeria. Sabia que só muito raramente é que a boa disposição tinha alguma coisa a ver com tais ataques, se é que alguma vez chegava a ter. Com efeito, a causa tinha tendência para ser algo que era exactamente o oposto do engraçado.

Provavelmente, era algo a temer.

"est s com medo do raio de um artigo na revista People? • nisso que est s a pensar? Burro! Com medo de ficar envergonhado, que os teus colegas do Departamento de Inglês olhem para estas fotografias e pensem que perdeste de vez os poucos pirolitos que ainda tinhas?"

Não. Ele nada tinha a temer dos colegas, nem mesmo daqueles que j l estavam desde a época em que os dinoss urios caminhavam pela Terra. Finalmente, fora reconhecido, e tinha também dinheiro suficiente para viver a vida como por favor, toque de trombetas! - um escritor a tempo inteiro, se assim o desejasse (Thad não tinha a certeza se era isso que queria; apesar de não se preocupar muito com os aspectos burocr ticos e administrativos da vida universit ria, ele até gostava de ensinar). Também nada havia a temer porque h j alguns anos que deixara de dar muita importƒncia ao que os colegas pensavam dele. Ele dava, sim, importƒncia ao que os amigos pensavam, e em alguns casos, os seus amigos, os amigos da Liz, e os amigos em comum acabavam por ser seus colegas. No entanto, Thad acreditava que estas pessoas tinham também tendência para pensar que tudo isto era engraçado.

Se havia algo a temer, era...

"P ra", ordenou-lhe o espírito no tom seco e severo, habitualmente respons vel pela palidez e silêncio até do aluno mais ruidoso das turmas de caloiros de Inglês. "P ra imediatamente com esse disparate. " De nada valia. Por mais eficaz que pudesse ser quando utilizada para com os seus alunos, esta voz não exercia qualquer poder sobre o próprio Thad.

Thad tornou a baixar a cabeça e a fitar a fotografia e, desta vez, os olhos não prestaram qualquer atenção ao seu rosto e ao da sua mulher, a fazerem caretas disparatadas um ao outro como dois mi£dos num ritual de iniciação.

GEORGE STARK 1975-1988 Não era um tipo muito simp tico Era isso que o punha pouco … vontade.

Aquela l pide. Aquele nome. Aquelas datas. Acima de tudo, aquele epit fio impertinente, que o fazia rir …s gargalhadas, mas que, por alguma razão, por debaixo desse riso, nada tinha de engraçado.

Aquele nome.

Aquele epit fio.

- Não interessa - sussurrou Thad. - O filho da mãe j morreu.

Mas a apreensão não desaparecia.

Quando Liz voltou com os dois gémeos, cada um enroscado num braço, de fraldas mudadas e j vestidos, Thad estava de novo debruçado sobre a história.

- Ser que o matei?

Pensativo, Thaddeus Beaumont, aclamado em tempos como o romancista mais promissor da América e nomeado, em 1972, para o National Book Award com a obra Os Dançarinos Inesperados, repete a pergunta.

Parece um pouco perplexo.

- Matei - repete mais uma vez com cuidado, como se esta palavra nunca Lhe tivesse ocorrido... apesar de a sua "metade sombria", como Beaumont chama a George Stark, só pensar praticamente em matar.

Do frasco de boca larga ao lado da sua antiquada m quina de escrever Remington 32, Thad retira um l pis Berol Black Beautyl (na opinião de Beaumont, aquilo que bastava a Stark para escrever) e começa a mordisc -lo ao de leve. Pelo aspecto da outra d£zia de l pis ou mais no frasco, rõer é um h bito.

- Não - diz ele por fim, voltando a colocar o l pis de novo no frasco. - Não o matei. - Olha para cima e sorri. Apesar de ter trinta e nove anos, quando Beaumont sorri desse modo franco, é f cil ser confundido com um dos seus alunos da universidade. - George morreu de causas naturais.

Beaumont diz que George Stark foi ideia da mulher.

Elizabeth Stephens Beaumont, uma loura descontraída e encantadora, recusa-se a ser a £nica a colher os louros.

- Tudo o que fiz - afirma - foi sugerir que ele escrevesse um romance sob um outro nome para ver o que podia acontecer. Thad estava a passar por um grave bloqueio e precisava de um empurrão. E, - na verdade ri - George Stark esteve sempre presente. J vira sinais dele em algumas das coisas inacabadas que Thad fazia de tempos a tempos. Tratava-se apenas de fazê-lo sair do escuro.

De acordo com muitos dos seus contemporƒineos, os problemas de Beaumont iam um pouco mais além de um mero bloqueio típico dos escritores. Pelo menos dois escritores famosos (que recusaram ser directamente citados)

afirmam que, durante aquele período crucial entre o primeiro e o segundo livro, partilharam de uma certa preocupação pela sanidade mental de Beaumont. Um diz acreditar que Beaumont talvez tenha tentado suicidar-se após a publicação de Os Dançarinos Inesperados, que Lhe trouxe um maior reconhecimento por parte dos críticos do que direitos de autor.

Quando indagado sobre se alguma vez pensara em suicidar-se, Beaumont limita-se a abanar a cabeça e a afirmar: "Que ideia tão est£pida. O verdadeiro problema não era a aceitação por parte do p£blico, era o bloqueio sentido.

E a causa de morte dos escritores mortos é precisamente essa."

Entretanto, Liz Beaumont continuou a exercer um certo lobby - nas palavras do próprio Beaumont - a favor da ideia do pseudónimo.

- Ela dizia que, caso quisesse, esta era a oportunidade que eu tinha para, por uma vez na vida, me divertir … grande.

Escrever qualquer coisa que me viesse … cabeça sem ter o New York Times Book Review sempre … perna durante todo o tempo em que estivesse a escrever. Ela dizia que eu podia sempre escrever um western, uma história de mistério ou de ficção científica. Ou que podia até escrever um romance policial. - Thad Beaumont sorri de forma irónica. - Creio que ela deixou esse para £ltimo lugar de propósito. Ela sabia que eu tinha andado …s voltas com umas ideias para um romance policial, apesar de não ter conseguido dar-lhes a forma que queria.

"Para mim, a ideia de um pseudónimo tinha este chamariz engraçado. De certa forma, transmitia a sensação de liberdade, como um alçapão secreto para onde pudesse escapar, se é que me entende.

"Mas também havia algo mais. Algo que é muito difícil de explicar.

Beaumont estica uma mão na direcção dos l pis Berol cuidadosamente afiados e colocados no frasco e, de seguida, afasta-a. Olha na direcção da vidraça da parede na parte de tr s do seu escritório, com vista para uma Primavera magnífica de rvores verdejantes.

- Pensar em escrever sob um pseudónimo era como pensar em ser invisível - acaba finalmente por declarar, quase hesitante. - Quanto mais brincava com a ideia, mais sentia que estaria... bem... que estaria a reinventar-me.

A mão escapa-se e, desta vez, consegue surripiar um dos l pis do frasco enquanto o seu espírito se encontra algures a vaguear.

Thad virou a p gina e, de seguida, olhou para os gémeos sentados na cadeira alta de dois lugares. Os gémeos rapaz e rapariga eram grandes companheiros... ou o irmão e a irma tinham uma grande ligação, se não se desejava ser considerado um machista e um porco chauvinista relativamente a esse assunto. No entanto, Wendy e William eram o mais possível idênticos sem serem idênticos.

A beber o biberão, William riu para Thad.

A beber o biberão dela, também Wendy riu para Thad, embora exibisse um acessório que o irmão ainda não possuía: um £nico dente próximo da frente, que nascera sem dores algumas, tendo-se limitado a rebentar a superfície da gengiva de forma tão silenciosa quanto o periscópio de um submarino a perfurar a superfície do oceano.

Wendy afastou uma mãozinha rechonchuda do biberão de pl stico. Abriu-a, mostrando a palma rosada limpa.

Fechou-a. Abriu-a. Um aceno … Wendy.

Sem olhar para ela, William afastou uma das suas mãozinhas do seu biberão, abriu-a, fechou-a, e tornou a abri-la. Um aceno … William.

Solenemente, Thad levantou uma das mãos da mesa, abriu-a, fechou-a, e tornou a abri-la.

Os gémeos riram com a boca nos biberões.

Thad tornou a baixar a cabeça e a fitar a revista. "Ah, People", pensou ele, "onde é que est vamos e o que é que faríamos sem ti? Este é modo americano de viver, minha gente."

Como era evidente, o escritor expusera toda a roupa suja que havia a expor - sobretudo, a grande mancha escura de quatro anos depois de Os Dançarinos Inesperados não ter ganho o NBA - mas isso j era de esperar, e ele próprio não ficara muito incomodado com toda essa exposição.

Por um lado, nem era assim tão suja e, por outro, Thad sempre sentira que era mais f cil viver com a verdade do que com uma mentira. Pelo menos a longo prazo.

O que, est claro, levantava a questão de se saber se a revista People e "a longo prazo" teriam sequer alguma coisa a ver um com o outro. Enfim! Agora, j era tarde de mais.

Mike era o nome do tipo que escrevera o artigo. Pelo menos disso Thad lembrava-se. Mas Mike quê? A não ser que se fosse um conde a coscuvilhar sobre a realeza ou uma estrela de cinema a coscuvilhar sobre outras estrelas de cinema, sempre que se escrevia para a People, o nome do autor só aparecia no final do artigo. Thad teve de folhear quatro p ginas (duas das quais com an£ncios de p gina inteira)

para descobrir o nome: Mike Donaldson. Ele e Mike tinham ficado a pé até tarde, a dizerem disparates um ao outro, e quando Thad perguntara ao homem se alguém realmente se importava com o facto de ter escrito quatro livros sob um outro nome, Donaldson respondera algo que levara Thad a soltar uma forte gargalhada. "Os estudos feitos mostram que a maior parte dos leitores da People têm uns narizes extremamente estreitos, o que faz com que tenham dificuldades em tirar macacos do nariz. Assim, tiram todos os macacos que podem dos narizes das outras pessoas.

Eles vão querer saber tudo sobre o seu amigo, George."

ele não é meu amigo", replicara Thad, ainda a rir.

De seguida, perguntou a Liz, que se tinha dirigido para o fogão:

- Est tudo bem, amor? Precisas de alguma ajuda?

- Estou bem - respondeu ela. - Estou só a preparar alguma coisa para os mi£dos comerem. Ainda não te fartaste de ti próprio?

- Ainda não - replicou Thad impudentemente, embrenhando-se de novo no artigo.

- Na verdade, a parte mais complicada foi inventar um nome - continua Beaumont, a mordiscar ligeiramente o l pis.

- Mas era importante. Eu sabia que podia resultar. Sabia que podia ultrapassar o bloqueio com que me debatia... se tivesse uma identidade. A identidade correcta, uma que fosse separada da minha.

Como é que ele escolheu George Stark?

- Bem, existe um escritor de policiais chamado Donald E.

Westlake - explica Beaumont. - E sob o seu verdadeiro nome, Westlake usa a capa do romance policial para escrever umas comédias sociais extremamente engraçadas sobre o modo de vida americano e os h bitos americanos. "Contudo, do início dos anos sessenta até cerca de meados dos anos setenta, Westlake escreveu uma série de romances sob o nome de Richard Stark, e esses livros são muito diferentes. São sobre um homem chamado Parker que é um ladrão profissional. Parker não tem passado nem futuro e, nos melhores livros, não partilha também de quaisquer outros interesses além do roubo.

"Seja como for, por razões que ter de perguntar a Westlake, este deixou de escrever romances sobre o Parker. Todavia, nunca esqueci uma coisa que Westlake afirmou depois de o pseudónimo ter desaparecido. Westlake disse que, nos dias soalheiros, era ele quem escrevia livros e que, nos dias chuvosos, era Stark quem assumia o comando.

Aquilo agradou-me porque, para mim, aqueles eram dias chuvosos, entre mil novecentos e setenta e três e o início de mil novecentos e setenta e cinco.

"No melhor desses romances, Parker é mais um rob"

assassino do que um homem. O ladrão roubado é um tema bastante recorrente em todos esses livros.

E Parker passa por cima dos maus (quer dizer, dos outros maus), exactamente como um rob“ que foi programado com um £nico objectivo. "Quero o meu dinheiro", diz ele, e é praticamente tudo aquilo que diz.

"Quero o meu dinheiro, quero o meu dinheiro." Isto não Lhe faz lembrar alguém?

O entrevistador acena a cabeça. Beaumont est a descrever Alexis Machine, a personagem principal do primeiro e do £ltimo romances de George Stark.

- Se A Vontade de Machine tivesse terminado do modo como eu o começara, tê-lo-ia enfiado numa gaveta para sempre - afirma Beaumont. - Public -lo seria um pl gio. Mas, a um quarto do romance, o livro descobre o seu próprio ritmo, e tudo se encaixa no lugar.

O entrevistador pergunta se Beaumont est a tentar dizer que, após ter passado um bom tempo a trabalhar no livro, George Stark acordou e começou a falar.

- Sim - responde Beaumont. - • mais ou menos isso.

Thad olhou para cima, quase a soltar de novo uma gargalhada, apesar de todo o esforço envidado. Os gémeos viram-no a sorrir e retribuíram-lhe o sorriso com a boca cheia de puré de ervilhas com que Liz Lhes estava a dar de comer. O que ele realmente dissera, tal como Thad se recordava, fora: "Meu Deus, que melodram tico! Até parece aquela cena do Frankenstein em que o relampago acaba finalmente por atingir a antena na ameia mais alta do castelo e d vida ao monstro!"

Continuar: parte 2 de 3