A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 1 de 26 · parte 2/3

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A Metade Sombria

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

- Enquanto não parares com isso, não vou conseguir acabar de Lhes dar de comer - advertiu Liz, com uma manchinha de puré de ervilhas na ponta do nariz. Thad sentiu um impulso absurdo de a beijar para limpar esse restinho.

- Parar com quê?

- Tu ris-te, eles riem-se. Thad, é impossível dar de comer a um bebé a rir.

- Desculpa - respondeu ele de forma humilde, tendo piscado os olhos aos gémeos. Por um instante, os seus sorrisos idênticos orlados a verde abriram-se.

De seguida, Thad baixou os olhos e continuou com a leitura.

- Iniciei A Vontade de Machine numa noite de mil novecentos e setenta e cinco. Inventei o nome, mas havia uma outra coisa. Quando me senti preparado para começar, enfiei uma folha de papel na m quina de escrever...

e, depois, tornei a tir -la logo de seguida. Escrevi todos os meus livros … m quina, mas, aparentemente, George Stark não era apologista de m quinas de escrever. - O sorriso lampeja de novo por breves instantes: - Talvez porque eles não tivessem aulas de dactilografia em nenhum dos hotéis de pedra onde ele cumpriu uma pena de prisão.

Beaumont est a referir-se … "biografia da contracapa" de George Stark, que diz que o autor tem trinta e nove anos e que cumpriu pena em três prisões diferentes por acusações de fogo posto, ataque com arma branca e ataque com intenção de homicídio. Contudo, a biografia da contracapa constitui apenas parte da história;

Beaumont apresenta igualmente uma nota sobre o autor da Darwin Press, que pormenoriza a história do seu alter ego com todos os pormenores escrupulosos que só um bom romancista conseguiria criar a partir do nada.

Do seu nascimento em Manchester, estado de New Hampshire, … sua morada final em Oxford, estado do Mississípi, est l tudo, excepto o enterro de George Stark h seis semanas atr s no Cemitério de Homeland em Castle Rock, estado do Maine.

- Encontrei um velho bloco de notas numa das gavetas da minha secret ria, e usei estes aqui. - Beaumont aponta na direcção do frasco dos l pis, deixando transparecer uma ligeira surpresa quando verifica que est a segurar um deles na mão que utiliza para apontar.

- Comecei a escrever e só me dei conta do tempo quando Liz me veio dizer que j era meia-noite e perguntou se não me iria deitar.

Liz Beaumont tem as suas próprias recordações dessa noite. Afirma:

- Acordei …s onze e quarenta e cinco e vi que ele ainda não se tinha deitado e pensei: "Bem, est a escrever."

Mas, como não ouvia a m quina de escrever, fiquei um pouco assustada.

O seu rosto sugere que deve ter sido mais do que apenas um pouco.

- Quando desci as escadas e vi Thad a rabiscar naquele bloco de notas, não queria acreditar nos meus olhos. - D uma gargalhada. - O nariz dele estava praticamente colado ao papel.

O entrevistador pergunta se Liz ficou aliviada.

Num tom cuidadoso e comedido, Liz Beaumont responde:

- Muito aliviada.

- Folheei o bloco de notas e vi que escrevera dezasseis p ginas sem uma £nica emenda - afirma Beaumont - e que transformara três quartos de um l pis novinho em folha em aparas afiadas. - Com uma expressão que podia ser tanto melancólica como de boa disposição disfarçada, Thad fita o frasco: - Agora que George j morreu, creio que devo deitar fora estes l pis. Eu próprio não os utilizo. Tentei. Só que não funciona. Eu não consigo trabalhar sem uma m quina de escrever. As minhas mãos ficam cansadas e entorpecidas.

"As de George nunca ficavam.

Thad olha para cima e lança uma enigm tica piscadela de olhos.

- Querida? - Thad olhou para a mulher, que se encontrava concentrada a dar de comer as £ltimas ervilhas a William. O mi£do parecia estar a desperdiçar bastantes no babete.

- O que é?

- Olha para aqui por um segundo.

Foi o que ela fez.

Thad piscou-lhe o olho.

- Tinha uma expressão enigm tica?

- Não, querido.

- Bem me parecia que não.

O resto da história constitui um outro capítulo irónico na história mais longa daquilo a que, na opinião de Thad Beaumont, "as pessoas esquisitas chamam romance".

A Vontade de Machine foi publicado em Junho de 1976, pela pequeníssima Darwin Press (o "verdadeiro"

eu de Beaumont fora publicado pela Dutton), tendo-se tornado no grande êxito-surpresa daquele ano, subindo até ao n£mero um da lista dos livros mais vendidos, de uma costa … outra dos Estados Unidos. Foi também transformado num filme de grande êxito de bilheteiras.

- Durante muito tempo, esperei que alguém descobrisse que eu era George e que George era eu - confessa Beaumont. - Os direitos de autor foram registados no nome de George Stark, mas o meu agente sabia, a mulher dele (agora, é a ex-mulher mas ainda uma sócia de pleno direito no negócio) e, est claro, os directores e o tesoureiro da Danvin Press também sabiam. Este tinha de saber porque, apesar de escrever os romances … mão, George tinha um pequeno problema quando se tratava de endossar cheques. E, como é óbvio, o fisco tinha de saber. Assim, eu e a Liz pass mos cerca de um ano e meio … espera que alguém batesse com a língua nos dentes, o que não aconteceu. Acho que foi mera sorte, e só prova que, quando pensamos que alguém tem mesmo de ser indiscreto, todas as pessoas se calam.

E continuaram caladas nos dez anos seguintes, enquanto o esquivo Sr. Stark, um escritor bem mais prolífico do que a sua outra metade, publicou três outros romances.

nenhum deles chegou a repetir o êxito retumbante de A Vontade de Machine, embora todos eles tivessem subido em flecha nas listas dos livros mais vendidos.

Após uma longa e ponderada pausa, Beaumont recomeça a falar sobre as razões que acabaram por lev -lo a desmascarar a lucrativa charada.

- Não nos podemos esquecer de que, afinal de contas, George Stark não passava de uma personagem de papel. Durante um bom pedaço de tempo gostei dele...

e, raios partam, o tipo estava a fazer dinheiro. Chamo-lhe o meu dinheiro "vão-se f...". Só de saber que, se quisesse, podia deixar o ensino e liquidar a hipoteca teve um efeito extremamente libertador em mim.

"Mas queria voltar a escrever de novo os meus livros, e Stark estava a deixar de ter coisas para contar.

Foi tão simples quanto isso. Eu soube-o, Liz soube-o, o meu agente soube-o... penso que até o editor de George na Darvin Press o soube. Mas se tivesse mantido segredo, a tentação de escrever um outro romance de George Stark acabaria por ser demasiado grande para mim. Sou tão vulner vel ao som do dinheiro como qualquer outro. A solução parecia ser espetar uma estaca no seu coração e acabar com tudo de uma vez por todas.

"Por outras palavras, p“r tudo a descoberto, que foi aquilo que fiz. E, de facto, é aquilo que estou a fazer neste preciso momento.

Thad desviou o olhar do artigo e olhou para cima, com um sorrisinho a bailar-lhe nos l bios. De repente, a sua perplexidade perante as fotografias encenadas da People pareceu-lhe um pouco hipócrita, um pouco afectada, porque, na verdade, os fotógrafos da revista não eram os £nicos que, por vezes, planeavam as coisas de forma a que as fotografias saíssem como os leitores desejavam e esperavam.

Thad imaginou que a maior parte dos entrevistados também assim procedia, em maior ou menor grau. Mas pensou que ele poderia ter sido um pouco melhor a planear as coisas do que alguns; afinal de contas, ele era um romancista... e um romancista era, pura e simplesmente, um indivíduo pago para contar mentiras. Quanto maiores fossem as mentiras, maior seria o pagamento.

"Stark estava a deixar de ter coisas para contar. Foi tão simples quanto isso."

Tão directo.

Tão decisivo.

Tão cheio de bazófia.

- Querida?

- Hum?

Liz tentava limpar Wendy, que não estava l muito contente com a ideia. Não parava de virar a cara de um lado para o outro, palrando com indignação, e Liz continuava a tentar limp -lo com um pano. Thad pensou que a mulher acabaria por apanh -la, apesar de admitir que havia sempre a hipótese de ela se cansar primeiro. Parecia que Wendy também considerava essa possibilidade.

- Ser que fizemos mal em ter mentido acerca do papel de Clawson em tudo isto?

- Nós não mentimos, Thad. Limit mo-nos a deixar o nome dele de fora.

- E ele era um imbecil, certo?

- Não, querido.

- Não era?

- Não - respondeu Liz, serenamente, começando a limpar o rosto de William. - Ele era um nojento de um patifezóide.

Thad resfolegou:

- Um patifezóide?

- Exactamente. Um patifezóide.

- Creio que é a primeira vez que ouço esse termo tão particular.

- Vi-o na caixa de uma cassete de vídeo na semana passada, quando estava na loja da esquina … procura de um filme para alugar. Um filme de terror chamado Os Patifezóides.

E pensei "Fant stico. Alguém fez um filme sobre Frederick Clawson e a sua família. Tenho de contar ao Thad." Mas esqueci-me, até hoje.

- Portanto, não tens quaisquer problemas quanto a esse ponto?

- Problema nenhum - replicou ela. Com a mão a segurar o pano, Liz começou por apontar para Thad e, de seguida, para a revista aberta sobre a mesa. - Thad, j ganhaste tudo o que tinhas a ganhar com isto. A People também. Quanto ao Frederick Clawson, ganhou merda... que é exactamente aquilo que ele merece.

- Obrigado - disse ele.

Liz encolheu os ombros:

- Tudo bem. Thad, por vezes sofres de mais.

- • esse o problema?

- Sim, todo o problema... William, francamente!

Thad, se me pudesses dar aqui uma ajuda...

Thad fechou a revista e levou Will para o quarto dos gémeos, atr s de Liz, que carregava Wendy. O bebé rechonchudo era quente e agradavelmente pesado, com os braços lançados ao acaso em redor do pescoço de Thad, enquanto ia arregalando os olhos a tudo com o seu interesse habitual.

Liz deitou Wendy num dos resguardos; Thad deitou Will no outro. Trocaram as fraldas molhadas por outras secas, com Liz a mexer-se um pouco mais depressa do que Thad.

- Bem - afirmou Thad - aparecemos na revista People e não se fala mais no assunto. Est bem?

- Sim - anuiu ela, sorrindo. No entanto, havia algo naquele sorriso que, na opinião de Thad, não parecia ser muito verdadeiro. Porém, ao lembrar-se do seu próprio ataque esquisito de riso, Thad decidiu não pensar mais nisso.

Havia alturas em que ele pura e simplesmente não tinha a certeza das coisas - era uma espécie de correlativo mental da sua falta de jeito física - e então embirrava com Liz. Só muito raramente é que ela reagia mal a isso, mas, por vezes, sempre que ele exagerava, Thad conseguia vislumbrar um lampejo de cansaço nos seus olhos. Que dissera ela? "Thad, por vezes sofres de mais."

Thad apertou a fralda de Will com o alfinete-de-ama, mantendo o antebraço sobre a barriga do bebé coleante, mas alegre, enquanto desempenhava a sua tarefa, de forma a que Will não rolasse para fora do resguardo e se matasse, como parecia estar determinado a fazê-lo.

- Baguir ! - gritou Will.

- Sim, sim - concordou Thad.

- Divit! - berrou Wendy.

Thad acenou com a cabeça.

- Isso também faz sentido.

- Ainda bem que ele morreu - afirmou Liz repentinamente.

Thad olhou para cima. Por um instante, ponderou naquilo que acabara de ouvir, acabando por acenar a cabeça.

Não havia necessidade alguma de especificar quem era ele;

ambos sabiam.

- Sim.

- Nunca gostei muito dele." Que raio de coisa para se dizer sobre o próprio marido", quase retorquiu Thad, acabando por se conter. Não era estranho porque ela não estava a falar sobre ele. Os métodos de escrita de George Stark não tinham constituído a £nica diferença essencial entre eles os dois.

- Eu também não - replicou Thad. - Que temos para o jantar?

 

Dois

DESFAZER A LIDA DA CASA

1

Nessa noite, Thad teve um pesadelo. Acordou a meio, prestes a desfazer-se em l grimas e a tremer como um cachorrinho que é apanhado na rua durante uma tempestade de relƒmpagos. No sonho, George Stark estava com ele, só que George era um agente imobili rio e não um escritor, e estava sempre por detr s de Thad. Por isso, era apenas uma voz e uma sombra.

2

A nota sobre o autor da Darwin Press - redigida por Thad imediatamente antes do início de A Melancolia de Oxford, a segunda criação de George Stark - declarava que Stark guiava uma pick-up GMC de 1976, que só as preces e a pintura de origem impediam que se desconjuntasse.

Contudo, no sonho, eles guiavam um Toronado negro da cor da morte, e foi então que Thad se apercebeu de que se tinha enganado quanto … parte da pick-up. Isto era o que Stark guiava. Este carro f£nebre propulsionado a jacto.

O Toronado tinha a traseira elevada e não se parecia nada com o carro de um agente imobili rio. Assemelhava-se, antes, ao carro que um mafioso de terceira categoria teria para dar as suas voltas. Olhando por cima do ombro, Thad observou o carro … medida que os dois se dirigiam para a casa, que, por alguma razão, Stark Lhe estava a mostrar. ao pensar que iria ver Stark, um pingente de medo lancinante penetrou no seu coração. Só que, agora, Stark estava exactamente por detr s do seu outro ombro (embora Thad não fizesse a mínima ideia de como ele l tinha ido parar de forma tão r pida e silenciosa), e ele só conseguia vislumbrar o carro, uma tarantula de aço cintilante … luz do sol. No p ra-choques traseiro elevado via-se um autocolante:

"FILHO DA MŽe PRETENSIOSO", dizia. ‘ esquerda e … direita, as palavras eram flanqueadas por uma caveira e uns ossos dispostos em cruz.

A casa para a qual Stark o levara era a sua casa: não a casa de Inverno em Ludlow, não muito longe da universidade, mas o poiso de Verão em Castle Rock. A baía a norte de Castle Lake abria-se sobre as traseiras da casa, e Thad conseguia ouvir o débil som das ondas a enrolarem-se na areia. Uma tabuleta com as palavras PARA VENDA fora afixada no pequeno pedaço de relva do outro lado da entrada que levava … garagem.

- Bela casa, não é? - Stark praticamente sussurrou por detr s do ombro de Thad, numa voz spera mas ainda assim afagadora, como a lambidela de um gato.

- • a minha casa - respondeu Thad.

- Est s muito enganado. O propriet rio desta casa j morreu. Matou a mulher e os filhos e, de seguida, suicidou-se.

P“s um ponto final nisso tudo. Matou e adeusinho. Tinha aquela faceta de temperamento dentro dele. Também não era preciso fazer-se muito esforço para percebermos isso.

Dir-se-ia que era bastante óbvio.

"Ser que isso é para ter graça?", teve Thad a intenção de perguntar - pareceu-lhe muito importante mostrar a Stark que não estava assustado com a presença dele. A razão por que isso era tão importante era porque Thad estava absolutamente aterrorizado. Mas antes de conseguir articular as palavras, uma mão enorme que parecia não ter quaisquer linhas (apesar de ser difícil fazer uma tal afirmação com total certeza porque o modo como os dedos estavam dobrados lançavam uma sombra entrelaçada sobre a palma) j estava a passar por cima do seu ombro e a acenar com um molho de chaves diante do rosto.

Não, a acenar não. Se tivesse sido apenas isso, ele poderia muito bem ter falado, poderia até ter afastado as chaves para o lado de forma a mostrar quão pouco temia este homem temível que insistia em permanecer atr s de si. Mas a mão estava a levar as chaves na direcção do seu rosto. Thad teve de as agarrar de forma a impedir que estas Lhe fossem bater no nariz.

Thad enfiou uma das chaves na fechadura da porta da frente, uma vastidão de carvalho macio, apenas entrecortada pela maçaneta e por uma aldraba de latão que se assemelhava a um passarinho. A chave rodou com facilidade, o que era estranho, dado que não se tratava de modo algum da chave de uma casa mas da tecla de uma m quina de escrever na extremidade de uma comprida haste de ferro. Todas as outras chaves presas na argola pareciam ser gazuas, do tipo das que são utilizadas pelos ladrões.

Thad segurou na maçaneta e rodou-a. ao fazê-lo, a madeira da porta debruada a ferro enrugou e encolheu-se sobre si mesma, com uma série de explosões tão estrondosas como foguetes. Por entre as rachas novas no meio das t buas surgiu luz. O ar encheu-se de pó. Ouviu-se um estalido agudo como se algo se estivesse a quebrar e uma das peças decorativas das ferragens caiu da porta, estatelando-se … entrada, aos pés de Thad.

Thad entrou.

Thad não queria; preferia ficar no terraço da entrada e discutir com Stark. Mais! Protestar junto dele, perguntar-Lhe por que é que estava a fazer isto, porque entrar na casa era ainda mais assustador do que o próprio Stark. Mas isto era um sonho, um pesadelo, e na sua opinião, a essência dos pesadelos era a falta de controlo. Era como andar numa montanha-russa que, a qualquer momento, podia galgar uma descida e lançar uma pessoa na direcção de uma parede de tijolos, onde morreria de forma tão repugnante como um insecto esmagado com um mata-moscas.

O familiar trio de entrada tornara-se estranho, quase hostil, apenas devido … ausência do tapete cor de tijolo desbotado que Liz ameaçava constantemente que iria substituir... e, apesar de, durante o próprio sonho, isto parecer ser um pormenor de menor importƒncia, seria a ele que, mais tarde, Thad continuaria a voltar, talvez porque fosse verdadeiramente aterrorizante - aterrorizante fora do contexto do sonho. Até que ponto é que qualquer vida podia estar segura se o desaparecimento de algo tão insignificante como o tapete da entrada podia provocar sentimentos tão fortes de separação, desorientação, tristeza e pavor?

O eco dos seus passos no chão de madeira dura não Lhe agradava. O facto de os passos ecoarem pela casa como se o canalha que se encontrava por detr s dele tivesse dito a verdade - que se tratava de uma casa vazia, repleta da dor tranquila da ausência - não era a £nica razão do seu desagrado. Thad não gostava do som porque os seus próprios passos pareciam perdidos e terrivelmente infelizes.

Gostaria de virar as costas e ir-se embora, mas não podia fazer isso. Porque Stark encontrava-se atr s dele e porque, de alguma forma, ele sabia que, neste momento, o outro segurava na mão a navalha de barba com cabo de madrepérola pertencente a Alexis Machine, aquela que a amante deste utilizara no final de A Vontade de Machine para retalhar o rosto do filho da mãe.

Se ele se virasse, George Stark daria um ar da sua graça e executaria alguns passos de dança.

A casa podia muito bem estar sem ninguém, mas, salvo os tapetes (o tapete cor de salmão, que na sala de estar ia de uma parede … outra também desaparecera), as mobílias ainda l estavam todas. Um vaso de flores permanecia em cima da mesinha de pinho na extremidade do vestíbulo, onde se podia continuar em frente, em direcção … sala de estar, com o seu tecto de pé alto e parede de vidraça com vista para o lago, ou virar … direita, em direcção … cozinha.

Thad tocou no vaso e este estilhaçou-se em cacos, desfazendo-se numa nuvem de pó de cerƒmica de cheiro amargo.

A gua estagnada escorreu para fora e, antes mesmo de caírem sobre a poça de gua mal-cheirosa na mesa, a meia d£zia de rosas de jardim que aí tinham desabrochado j estava murcha e apresentava um cinzento-escuro. Thad tocou na própria mesa. A madeira soltou um estalido seco e ressequido e a mesa partiu-se ao meio, parecendo desfalecer em vez de cair no chão de madeira vazio, em duas partes separadas. - Que foi que fizeste … minha casa? - gritou ele para o homem que se encontrava por detr s... mas sem se virar.

Thad não precisava de se virar para se certificar da presença da navalha que, antes de Nonie Griffiths a ter usado em Machine, deixando as faces do seu rosto penduradas como abas vermelhas e brancas e um olho a balançar fora da órbita, o próprio Machine empregara para esfolar os narizes dos "rivais do negócio".

- Nada - respondeu Stark, e Thad não precisava de o olhar para verificar o sorriso que perpassou pela voz do homem. - Tu é que est s a fazer, velha carcaça.

De seguida, passaram para a cozinha.

Thad tocou no forno e, com um ruído insípido, este partiu-se em dois, como o clangor de um sino enorme envolvido em pó. As bobinas de aquecimento saltaram para cima e umas espirais inclinadas e engraçadas em forma de chapéu ergueram-se em rajada. Num redemoinho, um cheiro pestilento e insalubre saiu do buraco escuro no meio do forno e, espreitando l para dentro, Thad viu um peru. Estava putrescente e fétido. Um líquido escuro repleto de pedaços indescritíveis de carne vertia da concavidade da ave.

- Aqui, chamamos a isso recheio dos tolos - observou Stark, por detr s dele.

- Que é que queres dizer com isso? - inquiriu Thad.

- Que é que queres dizer com aqui?

- Endsvillel - respondeu Stark, calmamente. - Este é o local onde todas as linhas de comboio terminam, Thad.

Stark acrescentou algo mais mas Thad não ouviu.

A carteira de Liz encontrava-se no chão, tendo Thad tropeçado nela. ao agarrar-se … mesa da cozinha para não cair, a mesa partiu-se em mil bocados, cobrindo o linóleo de serradura. Com um tinir ligeiramentve met lico, um prego brilhante rodopiou em direcção a um canto.

- P ra j com isto! - gritou Thad. - Quero acordar!

Odeio partir coisas!

- Sempre foste o desajeitado, velha carcaça - replicou Stark, que falou como se Thad tivesse tido muitos irmãos, todos eles graciosos como gazelas.

- Não tenho de sê-lo - informou-o Thad, numa voz ansiosa, prestes a transformar-se num gemido. - Não tenho de ser desajeitado. Não tenho de partir coisas. Quando sou cuidadoso, corre tudo bem.

- Sim. • uma pena é que tenhas deixado de ser cuidadoso - respondeu Stark, com a mesma voz risonha de estou-só-a-ver-como-é-que-as-coisas-são. E agora encontravam-se de novo no vestíbulo.

Aqui estava Liz, sentada num canto com as pernas abertas, junto da porta que dava para o barracão de madeira, com um mocassin calçado e outro por calçar. Vestia umas meias de nylon, e numa delas Thad conseguia vislumbrar uma malha. A cabeça estava descaída, com o cabelo louro cor de mel ligeiramente spero a tapar-lhe o rosto. Thad não queria ver-lhe o rosto. Tal como não precisara de ver a navalha ou o sorriso cortante de Stark para saber que ambos estavam l , também não precisava de ver o rosto de Liz para saber que ela não estava a dormir ou inconsciente mas morta.

- Liga as luzes, conseguir s ver melhor - ordenou Stark, na mesma voz risonha de estou-só-a-passar-o-dia-contigo-meu-amigo. A mão de Stark surgiu por cima do ombro de Thad, apontando para as luzes que o próprio Thad instalara nesse local. Eram eléctricas, como é óbvio, mas pareciam bastante autênticas: dois candeeiros a petróleo montados numa haste de madeira e controlados por um interruptor na parede.

- Não quero ver!

Thad tentava soar firme e seguro de si, mas isto começava a perturb -lo. Conseguia ouvir um tom irregular e impaciente na sua voz, o que significava que estava prestes a debulhar-se em l grimas. E, de qualquer modo, o que dizia não parecia ter qualquer importƒncia porque estendeu a mão até ao reóstato circular na parede. ao toc -lo, uma chama eléctrica azulada e indolor esguichou por entre os seus dedos, tão espessa que assemelhava-se mais a gelatina do que a luz. O botão redondo cor de marfim do reóstato ficou preto, soltou-se da parede com um estrondo, e voou pela sala como um disco voador em miniatura. Partiu a janelinha no outro lado e desapareceu na luz de um dia que adquirira um peculiar tom esverdeado, como cobre oxidado.

Os candeeiros a petróleo e eléctricos lançaram uma luz estranhamente brilhante e a haste começou a girar, enrolando a correia que suspendia o objecto, e enviando sombras que voavam pela sala, na dança demente de um carrocel. Primeiro uma e de seguida a outra, as chaminés de vidro das lƒmpadas estilhaçaram-se, inundando Thad de milhões de fragmentos.

Sem pensar, Thad deu um salto em frente e agarrou na mulher estatelada no chão, pretendendo tir -la de onde estava, antes que a correia se quebrasse e deixasse cair sobre ela a pesada haste de madeira. O seu impulso foi de tal modo forte que Thad esqueceu tudo o mais, incluindo a sua certeza de que não valeria de nada pois ela estava morta: Stark podia ter arrancado o Empire State Building pela raiz e deix -lo cair sobre Liz que não teria importƒncia alguma. Pelo menos, não para ela. Deixara de ter.

Žo colocar os braços sob os da mulher e ao unir as mãos entre as omoplatas de Liz, o corpo desta deslocou-se para a frente e a cabeça pendeu indolentemente para tr s.

A pele do rosto começou a ficar coberta de fendas, como a superfície de um vaso Ming. Subitamente, os olhos vidrados explodiram. Uma substƒncia pegajosa verde e fétida, repugnantemente quente, esguichou para o rosto de Thad.

A boca de Liz ficou entreaberta e os seus dentes espalharam-se numa tempestade branca. Thad conseguia sentir as pequenas superfícies duras a crivarem as suas faces e a testa.

Sangue semicoagulado jorrou de entre as gengivas picadas. A língua desenrolou-se para fora da boca e caiu, mergulhando no colo da saia como um naco ensanguentado de cobra.

Thad começou a gritar - no sonho e não na realidade, graças a Deus, ou teria assustado muito Liz.

- Ainda não acabei contigo, cabrão - murmurou Stark atr s num tom brando. A voz deixara de ser risonha.

Era tão fria como Castle Lake em Novembro.

- Não te esqueças. Não te queiras meter comigo porque quando se metem comigo...

 

3

Thad acordou com um esticão, o rosto molhado e a almofada, que apertara convulsivamente contra o rosto, também molhada. A humidade podia ter sido causada pela transpiração ou por l grimas.

-... estão a meter-se com o melhor - rematou ele de encontro … almofada, tendo permanecido na cama, com os jõelhos puxados para cima, até ao peito, tremendo convulsivamente.

- Thad? - sussurrou Liz com a voz entaramelada de algures das profundezas do seu próprio sonho. - Os gémeos estão bem?

- Sim - conseguiu Thad articular. - Eu... nada. Volta a dormir.

- Sim, est tudo... - Liz acrescentou uma outra coisa mas Thad nada mais ouviu, tal como não ouvira aquilo que Stark proferira após dizer a Thad que a casa em Castle Rock era Endsville... o local onde todas as linhas de comboio terminam.

Thad manteve-se no espaço circundado pela sua própria transpiração no lençol, afastando-se devagar da almofada.

Com o braço nu, limpou o rosto, e esperou que o sonho passasse, esperou que os tremores passassem. Passaram, mas com uma lentidão surpreendente. Pelo menos, conseguira não acordar Liz.

Ausente, Thad fitou a escuridão, não tentando conferir qualquer significado ao sonho mas apenas querendo que este se fosse embora. Algum tempo depois, um tempo que Lhe pareceu infinito, Wendy acordou no quarto ao lado e começou a chorar para ser mudada. Claro que William acordou alguns instantes mais tarde, decidindo que também ele precisava de ser mudado (apesar de, ao mudar as fraldas, Thad ter verificado que estas estavam bastante secas).

Liz acordou de imediato e, sonƒmbula, dirigiu-se para o quarto das crianças. Thad foi com ela, consideravelmente mais desperto e pela primeira vez agradecido por os gémeos necessitarem de mudar de fralda a meio da noite.

A meio desta noite, pelo menos. Thad mudou as fraldas de William enquanto Liz mudou as de Wendy, trocando apenas algumas palavras entre si e, de seguida, voltaram para ^ cama, tendo Thad ficado grato por verificar que, mais uma vez, estava a deixar-se adormecer. Chegara a pensar que não conseguiria voltar a dormir durante o resto da noite.

E quando acordara pela primeira vez, com a imagem da decomposição explosiva de Liz ainda viva atr s dos olhos, chegara a pensar que nunca mais dormiria de novo.

"De manhã, j terei esquecido, tal como acontece com todos os sonhos."

Este foi o seu £ltimo pensamento acordado da noite, mas, quando acordou na manhã seguinte, Thad lembrava-se do sonho nos mais ínfimos pormenores (apesar de o eco perdido e solit rio dos seus passos no corredor vazio ser o £nico que retivera toda a sua cor emocional), não tendo desaparecido … medida que os dias passaram, tal como acontece geralmente com os sonhos.

Este foi um dos raros de que Thad nunca se esqueceu, tão real como uma recordação. A chave que era a tecla de uma m quina de escrever, a palma da mão lisa, e a voz seca, praticamente inflexível de George Stark, dizendo-lhe por detr s do ombro que ainda não acabara com ele, e que quando se metiam com este filho da mãe pretensioso, estavam a meter-se com o melhor.

 

Três

O "BLUES" DO CEMIT•RIO

1

Steven Holt era o nome do homem que estava … frente da equipa de três indivíduos encarregue da manutenção e conservação dos terrenos pertencentes a Castle Rock. Como é evidente, era conhecido como "Coveiro" por todos os habitantes de The Rock, alcunha que centenas de guardas dos terrenos p£blicos em centenas de vilórias da Nova Inglatera têm em comum. Como a grande maioria, Holt tinha em mãos uma quantidade de trabalho bastante grande dado o tamanho da sua equipa. A vila possuía dois pequenos campos de futebol americano que tinham de ser tratados:

um próximo da ponta ferrovi ria entre Castle Rock e Harlow, o outro em Castle View; havia ainda um terreno baldio que tinha de ser semeado todas as Primaveras, ceifado todos os Verões e limpo de folhas todos os Outonos (j para não falar nas rvores que tinham de ser podadas e, por vezes, aparadas, bem como na manutenção do coreto e dos bancos em volta); por £ltimo, havia os parques da vila, um em Castle Stream, próximo da antiga serração, o outro junto de Castle Falls, onde, desde tempos imemoriais, in£meras crianças, fruto do amor, tinham sido concebidas.

Ele podia estar encarregue de tudo isto e, ainda assim, ser apenas conhecido como Steven Holt até ao fim dos seus dias. No entanto, Castle Rock tinha igualmente três cemitérios, estando a sua equipa também encarregue destes £ltimos. Depositar os clientes na sua £ltima morada era o mínimo que o trabalho de manutenção dos cemitérios envolvia. Este incluía também colocar os corpos debaixo de terra, limpar a superfície e cobri-la de novo de relva. A vgilƒncia era pouca. Depois dos dias feriados - o Memorial Dayl era aquele que deixava o maior monte de porcaria para limpar, embora o Quatro de Julho2, o Dia da Mãe e o Dia do Pai desse também muito trabalho - tinham de se retirar todas as flores murchas e todas as bandeiras desbotadas. Era ainda necess rio apagar todos os ocasionais coment rios pouco respeitosos rabiscados pelos mi£dos nas sepulturas e nas l pides.

Nada disto interessava … cidade, est claro. Era a deposição dos clientes na sua £ltima morada que granjeava a tipos como Holt a sua alcunha. A mãe baptizara-o de Steven, mas "Coveiro" Holt é como ele era conhecido, "Coveiro" Holt fora sempre desde que ocupara esse lugar em 1964 e "Coveiro" Holt seria até ao final dos seus dias, mesmo que, no entretanto, arranjasse um outro emprego - o que, aos sessenta e um anos de idade, era muito improv vel.

As sete da manhã de uma quarta-feira no primeiro dia do mês de Junho, um ameno e claro dia primaveril, o "Coveiro"

conduziu a camioneta até ao Cemitério de Homeland, tendo saído do veículo para abrir os portões de ferro.

Estes estavam presos por um cadeado que, apesar de tudo, só era utilizado duas vezes por ano - na noite de comemoração do final do curso liceal e na Noite das Bruxas. Uma vez abertos, Holt conduziu lentamente a camioneta pela alameda central acima.

Esta manhã era exclusivamente para reconhecimento.

A seu lado, o "Coveiro" tinha uma prancheta onde era suposto apontar as zonas do cemitério que tinham de ser tratadas entre esta data e o Dia do Pai. Após completar a sua tarefa em Homeland, teria de se dirigir ao Cemitério Grace, do outro lado da vila, e, de seguida, ao oss rio de Stackpole, no cruzamento da Stackpole Road com a Estra da Secund ria n. 3. Nessa tarde, ele e a sua equipa dariam início a todos os trabalhos que fossem necess rios. Não deveria fazer nada de muito complicado; o trabalho mais pesado fora todo levado a cabo no final de Abril, considerado pelo "Coveiro" como a época da grande limpeza da Primavera.

Durante essas duas semanas, ele, Dave Phillips e Deke Bradford, que era o director do Departamento de Obras P£blicas da vila, tinham trabalhado dez horas por dia, todos os dias, tal como faziam todas as Primaveras, a desentupirem os canos de esgoto, a cobrirem de novo de relva os locais onde o escoamento de guas da Primavera destruíra a antiga superfície, e a endireitar as l pides e os monumentos derrubados pela deslocação das camadas do solo. Na Primavera, as tarefas, grandes e pequenas, eram sempre tantas que, quando regressava a casa, o "Coveiro" quase nem conseguia manter os olhos abertos o tempo suficiente para cozinhar um jantarzinho para si e beber uma lata de cerveja antes de cair na cama. A limpeza da Primavera terminava sempre no mesmo dia: no dia em que as dores de costas constantes o levavam a pensar que iria enlouquecer de vez. A limpeza de Junho não era, nem de longe nem de perto, assim tão m , embora fosse importante. Com a chegada do final do mês, os veraneantes começavam a chegar nos seus magotes habituais e, com eles, chegavam os antigos residentes (com os seus filhos) que se tinham mudado para zonas mais quentes ou mais favor veis do país, mas que, ainda assim, mantinham as suas casas na vila. Eram estas as pessoas que o "Coveiro" considerava as verdadeiramente chatas, aquelas que faziam um bicho-de-sete-cabeças se uma das p s da velha nora junto … serração estivesse solta ou se a l pide do tio Reginald tivesse caído sobre a própria inscrição.

Bem, o Inverno est a chegar, pensou ele. Era este pensamento que o reconfortava em todas as estações, incluindo esta, sempre que o Inverno parecia tão distante como um sonho.

Homeland era o maior e mais bonito cemitério da vila.

A sua alameda central era quase tão larga como uma estrada normal, sendo atravessada por quatro alamedas mais estreitas, apenas um pouco maiores do que uma vereda, com relva aparada com cuidado entre os dois trilhos. O "Coveiro" conduziu alameda acima, atravessando Homeland, passou pelo primeiro e pelo segundo cruzamentos, chegou ão terceiro... e p“s prego a fundo.

- Oh, com mil diabos! - exclamou ele, desligando o motor da camioneta e saindo da cabina. Desceu a alameda em direcção a um buraco irregular na relva, a cerca de quatro metros e meio para a direita da vereda, que, neste ponto, cruzava com a alameda. Montinhos e torrões castanhos de terra estavam espalhados em redor do buraco, como os estilhaços em redor de uma granada. - Raios partam estes mi£dos!

O "Coveiro" deixou-se ficar junto ao buraco, com as grandes mãos cheias de calos colocadas sobre as ancas debaixo das calças de trabalho de um verde desbotado. Que grande confusão. Em mais de uma ocasião, ele e os seus companheiros tinham-se visto na obrigação de arranjar as coisas depois de um bando de mi£dos se terem convencido uns aos outros, através da bazófia ou da bebida, a partirem numa pequena incursãozinha ao cemitério … meia-noite - geralmente, tratava-se de uma espécie de ritual de iniciação ou apenas de um punhado de adolescentes tontos, excitados com o luar e com energia a mais. Tanto quanto o "Coveiro" Holt sabia, até agora, nenhum deles se atrevera a desenterrar um caixão ou, ainda pior, a exumar um dos clientes que pagavam para ali estar - habitualmente, por muito bêbedos que estes idiotas felizes pudessem estar, limitavam-se a cavar um buraco com um metro ou um metro e meio de profundidade antes de se cansarem da brincadeira e de se porem a andar. E, apesar de ser de mau gosto cavar buracos num dos cemitérios locais (isto é, a menos que se fosse um tipo como o "Coveiro", que era pago e estava devidamente incumbido de colocar os clientes na sua £ltima morada), a confusão deixada não era tão m quanto isso.

Geralmente.

Este, no entanto, não era um caso habitual.

O buraco não era definido; era apenas e tão-somente uma mancha. Com uma sepultura, de cantos quadrados bem definidos e de forma rectangular, é que não se parecia de certeza. Era mais fundo do que aquilo que os bêbedos e os mi£dos de liceu conseguiam fazer, embora essa profundidade não fosse uniforme, j que afunilava numa espécie de ponta cónica. No entanto, quando o "Coveiro" se apercebeu de com que é que o buraco realmente se parecia, sentiu um arrepio desagrad vel subir-lhe pelas costas acima.

Era como se fosse uma sepultura onde alguém tivesse sido enterrado antes de estar morto e, depois de vir a si, tivesse aberto caminho através da terra para chegar … superfície, apenas com as mãos.

- Oh, p ra com isso - sussurrou. - Maldita brincadeira, malditos mi£dos.

Tinha de ser. Não havia nenhum caixão em baixo nem nenhuma l pide fora do sítio em cima, o que era perfeitamente razo vel j que não havia corpo algum aqui enterrado. Ele não precisava de voltar atr s ao barracão das ferramentas, onde estava afixado na parede um mapa pormenorizado do cemitério para saber isso. Este pedaço de terra fazia parte da zona de seis lotes, propriedade do primeiro membro do conselho municipal, Danforth "Buster"

Keeton. E os £nicos lotes realmente ocupados continham os corpos do pai e do tio de Buster, estando situados … direita desse ponto, com as l pides erigidas bem direitas e conservadas.

No entanto, o "Coveiro" lembrava-se bem deste lote em particular por um outro motivo: fora aqui que aquela gente vinda de Nova Iorque erigira a l pide falsa quando estava a escrever a história sobre Thad Beaumont. Beaumont e a mulher tinham uma casa de Verão aqui na vila, em Castle Lake. Dave Phillips era quem estava encarregado de tomar conta do lugar, tendo o próprio "Coveiro", no Outono passado, ajudado Dave a alcatroar a entrada, antes de as folhas caírem e as coisas ficarem de novo complicadas. Fora então que, nesta Primavera, Thad Beaumont Lhe perguntara, de forma um pouco constrangida, se um fotógrafo qualquer podia erigir no cemitério uma l pide falsa para aquilo a que se chamou "uma fotografia posada".

- Se houver algum problema, diga-me - dissera-lhe Beaumont, com uma voz mais constrangida do que nunca.

- Na verdade, não é assim tão importante quanto isso.

- Faça favor - respondera o "Coveiro" de forma delicada.

- A revista People, foi o que disse?

Thad acenou a cabeça.

- Quem diria! • importante, não acha? Alguém daqui da vila na revista People! Não posso deixar escapar esse n£mero!

- Eu não tenho tanta certeza assim - retorquiu Beaumont.

- Muito obrigado, senhor Holt.

O "Coveiro" simpatizava com Beaumont apesar de ele ser escritor. Só conseguira ir até ao oitavo ano - e depois de ter tentado duas vezes antes de conseguir passar esse ano - e não era toda a gente da cidade que o chamava de "senhor".

- Se pudesse, aquela gente da maldita revista até que gostaria de tirar uma fotografia ao senhor nuzinho com a velha pistola de fora e a apontar para cima, não acha?

Beaumont teve um raro acesso de riso.

- Sim, creio que é exactamente isso que eles gostariam de fazer - respondeu, dando uma palmada no ombro do "Coveiro".

Afinal de contas, o fotógrafo acabou por ser uma mulher, do género a que o "Coveiro" costumava chamar "uma cadela de primeira classe vinda da cidade". Neste caso, a cidade era, est claro, Nova Iorque. Ela andava como se tivesse um pau enfiado pelo sexo acima e um outro pelo rabo acima, girando os dois ao mesmo tempo com igual vigor.

Alugara uma station wagon num dos balcões de aluguer de veículos no Žeródromo de Portland, que estava de tal modo apinhada de equipamento fotogr fico que era de admirar como é que ela e o assistente ainda cabiam l dentro. Se o carro acabasse por ficar demasiado cheio e a mulher tivesse de escolher entre desembaraçar-se do assistente ou de alguma parte do equipamento fotogr fico, o "Coveiro" estava convencido de que haveria um maricas vindo da Big Apple a tentar apanhar uma boleia que o levasse de volta ao ãeroporto.

Os Beaumont, que seguiam no próprio carro e que o estacionaram por detr s da station wagon, pareciam simultaneamente divertidos e constrangidos. Dado que pareciam estar de livre e espontƒnea vontade com a "cadela de classe alta vinda da cidade", o "Coveiro" imaginou que, apesar de tudo, o divertimento devia levar a melhor sobre eles. Ainda assim, ele aproximara-se para certificar-se de que estava certo, ignorando o olhar pretensioso da "cadela de classe alta".

- Tudo bem, senhor Bê? - perguntara ele.

- Meu Deus, não, mas creio que nos vamos safar - respondera Beaumont, piscando o olho ao "Coveiro".

Uma vez mentalizado de que era intenção dos Beaumont ir para a frente com a história, o "Coveiro" afastara-se para observar - um espect culo gr tis era tanto do seu agrado como de qualquer outra pessoa. A mulher tinha uma grande l pide falsa enfiada entre o resto das coisas que trouxera consigo, do género antigo, ou seja, com uma extremidade redonda no topo. Assemelhava-se mais a uma daquelas que Charles Addamsl costumava desenhar nas suas bandas desenhadas do que a qualquer uma das verdadeiras que o "Coveiro" colocara nestes £ltimos tempos.

A mulher andou … volta da l pide, pedindo ao assistente para a colocar aqui e ali. Numa dada altura, o "Coveiro"

aproximara-se para perguntar se precisavam de ajuda, ao que ela apenas respondera não, obrigada, … moda pretensiosa de Nova Iorque. Assim, ele afastara-se de novo.

Por fim, ela l conseguiu colocar a l pide como e onde desejava, pondo de seguida o assistente em grande az fama, desta vez com as luzes. Isso levou cerca de meia hora, mais coisa menos coisa. E, durante todo esse tempo, o Sr. Beaumont limitara-se a ficar onde estava e a observar, esfregando de vez em quando a pequena cicatriz branca na testa, naquela forma peculiar e característica que era só dele. Os olhos de Beaumont fascinavam o "Coveiro".

"O tipo est a tirar as suas próprias fotografias", pensou ele. "Provavelmente melhores do que as da tipa, e além disso com tendência a durarem mais tempo. Ele est a guard -las para um dia as p“r num livro e ela nem se d conta disso."

Finalmente, a mulher ficou preparada para tirar algumas fotografias. P“s os Beaumont a apertar as mãos por cima daquela l pide uma d£zia de vezes como se não quisesse que tirassem a fotografia de uma só vez, apesar de o dia estar bastante frio e h£mido. Dava-lhes ordens, tal como fazia com aquele assistente dela esganiçado e afectado. Entre a voz esmagadora de Nova Iorque e as ordens repetidas para fazer tudo de novo porque a luz não estava bem ou porque os rostos deles não estavam bem ou talvez porque o próprio maldito rabo da mulher não estava bem, o "Coveiro"

esteve sempre na expectativa de ver o Sr. Beaumont - de acordo com os mexericos que ouvira, ele não era propriamente o homem mais calmo do mundo - explodir sobre a mulher. No entanto, o Sr. Beaumont, bem como a esposa dele, pareciam estar mais divertidos do que irritados, não deixando de fazer aquilo que a "cadela de classe alta vinda da cidade" lhes pedia para fazerem, apesar de aquele dia estar bastante frio. O "Coveiro"

acreditava que, se fosse ele, ao fim de um certo tempo ficaria um pouquinho irritado com a dama. Em mais ou menos quinzsegundos.

E fora aqui, precisamente aqui, onde estava aquele maldito buraco, que eles tinham erigido aquela l pide falsa.

Ora, se ele inclusive precisasse de mais provas, podiam ainda ver-se as marcas redondas no torrão de relva, as marcas deixadas pelos saltos da "cadela de classe alta". Não havia d£vidas de que ela vinha de Nova Iorque; só uma nova-iorquina é que apareceria de saltos altos no final da estação das chuvas e se poria a andar para c e para l num cemitério com eles enfiados nos pés, a tirar fotografias. Se iSSO não era... Os pensamentos do "Coveiro" foram interrompidos e, de novo, aquele arrepio de frio infiltrou-se na sua pele. Ele tinha estado a olhar para as marcas esbatidas deixadas pelos saltos da fotógrafa e, ao prestar mais atenção a essas marcas, ao seu olhar depararam-se outras marcas, outras mais recentes.

2

]'egadas? Seriam estas marcas pegadas?

"est claro que não são. O que aconteceu foi que o idiota que cavou este buraco espalhou um pouco mais a terra para l do que fez com o resto. • só isso."

Só que não era só isso e o "Coveiro" Holt sabia que não era só isso. Antes de conseguir sequer chegar ao primeiro monte de terra na relva verde, entreviu a marca bem funda deixada por um sapato no monte de terra mais próximo do buraco.

"Com que então são pegadas? E depois? Achavas que quem quer que tivesse feito isto andava por aí a flutuar no ar com uma p aos ombros como o Gasparzinho?"

H pessoas neste mundo que são bastante boas a enganarem-se a si próprias. No entanto, o "Coveiro" Holt não era uma dessas pessoas. Aquela voz nervosa e escarninha da sua cabeça não podia alterar aquilo que os seus olhos viam. Durante toda a vida, ele seguira o rasto de animais selvagens e caçara-os. Este sinal era demasiado óbvio. Ele desejava por tudo o que era sagrado que não o fosse.

Aqui, neste monte de terra próximo da sepultura, conseguia ver não apenas uma pegada mas também uma depressão circular, praticamente do tamanho de um prato.

Esta cova estava situada … esquerda da pegada. E em ambos os lados da marca circular e da pegada, ainda que mais afastados, estavam sulcos na terra que eram, claramente, marcas deixadas por dedos, dedos que tinham escorregado um pouco antes de se agarrarem a um ponto firme.

Holt afastou o olhar para l da primeira pegada e deparou-se-lhe outra. Para l dessa, na relva, estava metade de uma terceira, formada quando alguma terra presa ao sapato que deixara a marca caíra quando o sapato fora poisado com força. Caíra, mas, dado que a terra estava h£mida, a marca ainda l estava... e fora exactamente isso que acontecera com as outras três ou quatro pegadas que tinham atraído a sua atenção logo de início. Caso ele não tivesse chegado tão cedo, naquela maldita manhã com o toque da alvorada, enquanto a relva ainda estava h£mida, o sol secaria a terra e as marcas teriam secado, desfazendo-se em pequenos fragmentos esfarelados, que nada queriam dizer.

Ele desejava ter vindo mais tarde, ter começado por ir primeiro ao Cemitério Grace, como planeara fazer quando saíra de casa de manhã.

Mas não fora e agora não havia mais nada a fazer.

Os fragmentos de pegadas desapareciam aos poucos e poucos, a menos de três metros e meio da (sepultura)

buraco no solo. O "Coveiro" estava convencido de que a relva coberta de orvalho mais afastada podia ainda conter algumas marcas e, embora admitisse que, mais cedo ou mais tarde, teria de se certificar, o seu desejo não era assim tão grande quanto isso. No entanto, por ora, Holt voltou a dirigir o olhar para as marcas mais próximas, aquelas que se viam no montinho de terra próximo do buraco.

Sulcos que tinham sido feitos por dedos; uma marca redonda ligeiramente … frente dos sulcos; uma pegada ao lado da marca redonda. Que história é que esta disposição das marcas contava?

Antes mesmo de ter tempo para se perguntar a si próprio, a resposta veio-lhe … cabeça, como aquela pergunta secreta no antigo programa do Groucho Marx, Pode Apostar a Sua Vida. Ele viu tudo com uma grande nitidez, como se ali tivesse estado quando tudo acontecera, e era precisamente por esse motivo que não queria ter mais nada a ver com esta história. Terrivelmente arrepiante, era o que era.

Porque, olha: aqui est um homem de pé num buraco acabado de escavar no solo.

Sim, mas como é que ele foi parar l dentro?

Sim, mas ser que foi ele quem fez o buraco ou ser que foi uma outra pessoa qualquer?

Sim, mas por que carga de gua é que as pequenas raízes parecem estar todas torcidas, partidas e esmagadas, como se a relva tivesse sido aberta apenas com as mãos e não cortada e afastada para os lados com uma p ?

Esquece os "mas" e os "meios mas". Esquece-os de vez.

Talvez seja melhor nem sequer pensar neles. Limita-te apenas a pensar no homem que estava de pé no buraco, um buraco que é um pouco fundo de mais para alguém conseguir sair de l de dentro com um salto. Então, o que é que ele faz? Coloca as palmas das mãos sobre o monte de terra mais próximo e, com um impulso, iça-se a ele próprio para fora do buraco. Nenhum truque em especial, isto é, se é que estamos a falar aqui de um homem adulto e não de um mi£do. O "Coveiro" fitou as poucas marcas nítidas e completas que conseguia vislumbrar, pensando de seguida: "Se era um mi£do, devia ter uns pés enormes. São tamanho quarenta e cinco, pelo menos."

Continuar: parte 3 de 3