A Metade Sombria
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Mãos para fora. Com um impulso, o corpo vem para cima.
Durante o impulso, as mãos escorregam um pouco na terra solta; por isso, abre caminho com os próprios dedos, deixando aqueles sulcos pequenos. De seguida, c fora, deixa-se cair sobre um jõelho, fazendo aquela marca redonda. Coloca, então, um pé ao lado do jõelho sobre o qual todo o peso do corpo est equilibrado, desloca esse peso do jõelho para o pé, levanta-se e vai-se embora. Tão simples quanto isso.
"então, um tipo qualquer sai da própria sepultura e vai-se embora, sem mais nem menos? • só isso? Ser que ficou com a barriga a dar horas aqui em baixo e decidiu atacar o Snack Bar do Nan para comer um cheeseburger e beber uma cerveja?"
- Raios te partam, não é uma sepultura, é um maldito buraco no chão! - gritou Holt bem alto, dando um pequeno salto quando um pardal retribuiu o grito.
Sim, apenas um buraco no chão - não fora isso que dissera a si próprio? Mas então, porque é que não via quaisquer marcas daquelas que geralmente se associam a uma p ? Porque é que só via um par de pegadas a afastar-se do buraco e nenhum em seu redor, nenhum a apontar para o buraco, como deveria haver se tivesse estado ali um tipo a cavar e a pisar na própria terra de vez em quando, como tende a acontecer com os tipos que escavam buracos?
Ocorreu-lhe perguntar-se o que estava a pensar fazer quanto a tudo isto, acabando por concluir que não sabia.
Tecnicamente, imaginava que fora cometido um crime. No entanto, não se podia acusar o criminoso de ter profanado uma sepultura - não quando o lote que fora escavado não continha nenhum corpo. O pior que se podia dizer era que se tratara de vandalismo. E, se havia mais alguma coisa que podia ser feita quanto a isto, o "Coveiro" Holt não estava certo de que fosse ele a querer fazê-lo.
Talvez o melhor fosse apenas tapar o buraco, p“r no lugar os restos de torrões de relva que conseguia encontrar inteiros, arranjar relva nova para acabar o trabalho e, depois, esquecer toda esta história.
"Afinal de contas", disse para si próprio pela terceira vez, "não é como se alguém tivesse estado realmente enterrado aqui."
Aquele chuvoso dia primaveril cintilou momentaneamente diante do olho da sua recordação. Meu Deus, como aquela l pide parecia tão verdadeira! Quando se via aquele assistente gracioso andar com ela para tr s e para a frente, sabia-se que era uma l pide a fingir. No entanto, quando eles a colocaram no solo, com flores falsas e tudo em frente dela, até que se podia jurar que era verdadeira, e de que havia realmente alguém l em baixo.
Os braços de Holt estavam cobertos de pele de galinha, o que Lhe causava um terrível formigueiro.
"P ra j com isso", disse para si próprio de forma severa, tendo o pardal soltado um outro pio. O "Coveiro"
acolheu de bom grado o seu som desagrad vel mas totalmente real e vulgar. "Continua a gritar que faz bem", disse, tendo caminhado até junto do £ltimo fragmento de pegada.
Para l desta £ltima, e como mais ou menos suspeitava, Holt conseguia vislumbrar outras marcas deixadas na relva.
Estas estavam bastante espaçadas entre si. ao olhar para elas, o "Coveiro" imaginou que o tipo, apesar de não estar a correr, também não tinha de certeza perdido tempo. Trinta e seis metros mais … frente, Holt verificou que conseguia marcar a progressão do tipo num outro sentido: um grande cesto de flores fora deitado ao chão. Apesar de não conseguir ver quaisquer pegadas tão longe assim, o cesto estava, certamente, no caminho das pegadas que conseguia ver.
O homem podia ter contornado o cesto, mas não o fizera;
em vez disso, limitara-se a dar-lhe um pontapé, atir -lo para o lado e continuar em frente.
Na opinião do "Coveiro" Holt, os homens que faziam este tipo de coisas não eram o género de homens com quem alguém gostaria de se meter, a não ser que se tivesse uma razão muito boa.
O tipo deslocara-se na diagonal ao longo do cemitério, como se estivesse a caminho do muro baixinho que o separava da estrada principal. Deslocara-se como um homem que tinha sítios para ir e coisas para fazer.
Apesar de não ser melhor a imaginar coisas do que enganar-se a si mesmo (afinal de contas, as duas coisas acabam sempre por andar de par em par), o "Coveiro" viu este homem por um instante, viu-o mesmo: um tipo grande com pés grandes, caminhando em passos largos através deste sub£rbio silencioso dos mortos na escuridão, deslocando-se com confiança e firmeza sobre os seus pés grandes, afastando o cesto das flores do seu caminho com um pontapé, sem sequer abrandar o passo ao fazê-lo. Também não tinha medo - não este homem. Porque, se houvessem aqui coisas que ainda estavam vivas, como algumas pessoas acreditavam, elas teriam medo dele. Andar, caminhar, galgar, e que Deus protegesse o homem ou a mulher que se metesse no seu caminho.
O p ssaro soltou um grito.
O "Coveiro" saltou.
"esquece isto, companheiro", disse para si próprio mais uma vez. "Tapa o maldito buraco e nem te dês mais ao trabalho de pensar nisto!"
E tapar o buraco foi o que ele fez, e esquecê-lo era o que pretendia fazer. Porém, mais tarde, nesse mesmo dia, Deke Bradford encontrou-o no oss rio da Stackpole Road a tratar do solo, tendo-lhe contado a novidade sobre Homer Gamache, encontrado ao fim da manhã a menos de um quilómetro e meio de Homeland, na Estrada 35. A vila inteira andara em grande alvoroço praticamente todo o dia com os boatos e as especulações.
Foi então que, com relutƒncia, o "Coveiro" Holt foi falar com o xerife Pangborn. Apesar de não saber se o buraco e as pegadas tinham alguma coisa a ver com o assassínio de Homer Gamache, concluiu ser melhor contar-lhe o que sabia e deixar que, aqueles que eram pagos para isso, esclarecessem as coisas.
Quatro
MORTE NUMA PEQUENA VILA
1
Castle Rock fora, pelo menos nos £ltimos anos, uma vila infortunada.
Como que para provar que aquele antigo ditado sobre raio e a quantidade de vezes que ele atinge o mesmo local nem sempre est certo, uma série de coisas m s tinham atingido Castle Rock nos £ltimos oito ou dez anos - coisas suficientemente m s para serem notícia a nível nacional. George Bannerman era o xerife local quando essas coisas ocorreram, mas o "Grande" George, como fora afectuosamente chamado, não teria de se preocupar com Homer Gamache porque o "Grande" George estava morto. Sobrevivera … primeira coisa m :
uma série de violações e estrangulamentos levados a cabo por um dos seus próprios agentes. No entanto, dois anos mais tarde, Bannerman fora morto por um cão raivoso na Estrada Secund ria n. 3 - não apenas morto" mas praticamente desfeito. Ambos os casos tinham sido muito estranhos, mas o mundo era um lugar estranho. E duro. Por vezes, um lugar infortunado.
O novo xerife (j ocupava este lugar h oito anos, mas Alan Pangborn decidira que iria ser "o novo xerife" até, pelo menos, ao ano 2000 - partindo sempre do princípio, disse ele … mulher, que continuaria a concorrer e a ser eleito durante todo esse tempo) não se encontrava em Castle Rock nessa altura; até 1980, tinha estado encarregue do cumprimento da lei rodovi ria numa cidade de tamanho-pequeno-a-passar-para-o-médio no estado de Nova Iorque não muito longe de Siracusa.
Žo olhar para o corpo seviciado de Homer Gamache que jazia numa vala ao lado da Estrada 35, desejou ainda l estar.
Afinal de contas, parecia que nem todo o infort£nio da vila morrera com o "Grande" George Bannerman.
"Por favor, p ra com isso. • claro que não desejas estar noutro lado qualquer desta linda terra de Deus. Não digas que sim, ou o azar acabar realmente por baixar e aproveitar-se de ti. Este tem sido um óptimo lugar para a Annie e para os rapazes, e tem também sido um óptimo lugar para ti. Então, porque é que não tiras isso da cabeça?"
Bom conselho. A cabeça, descobrira Pangborn, estava sempre a dar bons conselhos aos nervos, conselhos que estes não conseguiam seguir. Respondiam: "Sim senhor, agora que falas nisso, não h d£vida de que é verdade." E l continuavam a sobressaltar-se e a fervilhar.
Ainda assim, ele fora preparado para algo parecido com aquilo, ou não? Durante a sua ronda obrigatória na qualidade de xerife, Pangborn raspara os restos de praticamente quarenta pessoas espalhadas pelas estradas secund rias, pusera fim a in£meras brigas, e tivera de enfrentar talvez cerca de cem casos de mulheres e crianças maltratadas - e estes eram apenas os casos que tinham sido participados. Mas todas as coisas têm uma forma de compensação; para uma vila que, não h muito tempo, apresentara o seu próprio serial killer, Pangborn passara por um período invulgarmente calmo no que se refere a assassínios. Somente quatro, e apenas um dos criminosos escapara: Jõe Rodway, após ter rebentado com os miolos da mulher. Dado que conhecera relativamente bem a senhora, Pangborn quase que sentiu pena quando recebeu um telex da Polícia de Kingston, em Rhode Island, informando que tinham Rodway sob custódia.
O outro fora um homicídio envolvendo um veículo, e os dois restantes não tinham passado de dois banais casos de homicídio não premeditado, um com uma faca e o outro com os punhos - este £ltimo, um caso de maus tratos da esposa, que, pura e simplesmente, fora longe de mais, havendo apenas um traço peculiar que o distinguia dos restantes: a mulher espancara o marido até … morte enquanto este estava morto de bêbedo, pagando na mesma mõeda toda uma vida em comum durante praticamente vinte anos.
Quando foi acusada, o £ltimo conjunto de equimoses da mulher ainda apresentava um amarelo vivo e fresco. Pang born não sentira pena alguma do morto quando o juiz a absolvera, condenando-a apenas a seis meses na Penitenci ria Feminina, seguidos por seis anos de pena suspensa. O juiz Pender só procedera dessa forma porque, provavelmente, não seria politicamente correcto dar … mulher aquilo que ela realmente merecia, ou seja, uma medalha.
Pangborn chegara … conclusão que só em casos muito raros é que um assassínio numa vilória da vida real aparentava alguma semelhança com os assassínios nas vilórias dos romances da Agatha Christie, onde sete pessoas apunhalavam … vez o velho e cruel coronel Storping-Goiter na sua casa de campo em Puddleby-on-the-Marsh, durante uma melancólica tempestade de Inverno. Pangborn sabia que, na vida real, quase sempre se chegava a apanhar o criminoso ainda no local do crime, a olhar para toda aquela trapalhada e a perguntar-se que raio de coisa fizera; como tudo ficara descontrolado com uma terrível rapidez mortal devido ao nervosismo. Mesmo que o criminoso se afastasse fosse dar uma volta, geralmente não ia muito longe e havia sempre duas ou três testemunhas oculares que podiam contar com exactidão tudo aquilo que acontecera, quem o fizera, e para onde fora. Habitualmente, a resposta … £ltima pergunta era o bar mais próximo. Regra geral, o assassínio numa vilória da vida real era simples, brutal e est£pido Regra geral.
No entanto, as regras são feitas para serem violadas Por vezes, o raio chega mesmo a atingir por duas vezes o mesmo local e, de tempos a tempos, os assassínios que sa cometidos em vilórias não são imediatamente resolvidos..
assassínios como este.
Pangborn podia ter esperado.
2
O agente de polícia Norris Ridgewick regressou do seu carro-patrulha, estacionado por detr s do de Pangborn. As chamadas provenientes dos dois r dios da banda da Polícia produziram estrépitos no ar quente dos £ltimos dias da Primavera.
- O Ray vem? - perguntou Pangborn. O Ray era Ray van Allen, o médico-legista do município de Castle.
- Sim - respondeu Norris.
- E a mulher do Homer? Alguém j a avisou?
Žo fazer esta pergunta, Pangborn sacudiu algumas moscas do rosto de Homer, que se encontrava virado para cima. Não sobrara muito, excepto o nariz adunco e protuberante. Se não fosse pela prótese do braço esquerdo e pelo dente de ouro que outrora era visto na boca de Gamache e que agora se encontrava desfeito em mil pedaços espalhados sobre o pescoço torcido e a parte da frente da camisa, Pangborn duvidava que a própria mãe o conseguisse reconhecer.
Norris Ridgewick, que aparentava uma semelhança passageira com Barney Fife, o ajudante de xerife do antigo programa de televisão Andy Griffith Show, arrastou os pés e baixou os olhos, fitando os sapatos como se, subitamente, estes tivessem adquirido um interesse particular.
- Bem... o John est a fazer a patrulha l para View, e o Andy Clutterbuck em Auburn, no tribunal do distrito...
Pangborn suspirou e ergueu-se. Gamache tinha - tivera - sessenta e sete anos de idade. Vivia com a mulher numa casinha arranjada ao lado do velho depósito ferrovi rio, a menos de três quilómetros deste local. Os filhos, crescidos.
tinham j saído de casa. Fora a Sra. Gamache quem telefonara para o gabinete do xerife logo de manhãzinha, quase debulhada em l grimas, dizendo que acordara …s sete e verificara que Homer, que por vezes dormia num dos antigos quartos dos mi£dos porque ela ressonava, não regressara a casa na noite anterior. Como sempre fazia, partira para o seu bowling …s sete horas da tarde anterior e deveria chegar a casa por volta da meia-noite e meia o mais tardar, mas todas as camas estavam vazias e a carrinha não se encontrava no p tio ou na garagem.
Sheila Brigham, a telefonista de dia, transmitira a primeira chamada ao xerife Pangborn, tendo este utilizado o telefone de mõedas na estação Sunoco de Sonny Jackett, onde tinha estado a dar … língua, para ligar … Sra. Gamache.
Esta fornecera-lhe as informações de que ele necessitava sobre a carrinha: uma pick-up Chevrolet de 1971, branca com manchas castanho-avermelhadas de aparelho nos pontos com ferrugem e uma prateleira para a arma na cabina, matrícula do Maine n£mero 96529Q. Pangborn transmitira as informações pelo r dio para os seus agentes no terreno (apenas três, com Clut a testemunhar l para Auburn) e informou a Sra. Gamache de que lhe diria qualquer coisa mal tivesse alguma notícia. Não ficara particularmente preocupado:
Gamache gostava da sua cervejinha, sobretudo na noite da liga do bowling, mas não era completamente insensato.
Se tivesse bebido de mais e não se sentisse seguro para guiar, teria dormido no sof de uma das salas de estar dos seus companheiros de bowling.
No entanto, havia uma pergunta por responder. Se Homer tivesse decidido ficar na casa de uma colega de equipa, porque é que não teria telefonado … mulher a inform -la disso? Ser que não sabia que ela ia ficar preocupada?
Bem, j era tarde, e talvez não quisesse incomod -la. Era uma hipótese. Uma hipótese mais plausível ainda, pensou Pangborn, é que ele tivesse telefonado e ela estivesse ferrada a dormir na cama, com uma porta fechada entre ela e o £nico telefone na casa. E tinha ainda de se acrescentar a possibilidade de que ela talvez estivesse a ressonar como um tractor.
Pangborn despedira-se da mulher aflita e desligara o telefone, pensando que o marido apareceria l pelas onze da manhã, o mais tardar, envergonhado e com uma grande ressaca. ao chegar assim, Ellen cumprimentaria o velho libertino com uma reprimenda. Mais tarde, Pangborn faria questão em elogiar Homer - em privado - por ter tido o bom senso de não guiar os quarenta e oito quilómetros que separavam South Paris de Castle Rock sob a influência do lcool.
Cerca de uma hora depois da chamada de Ellen Gamache, ocorreu-lhe que algo não batia bem na sua primeira an lise da situação. Se Gamache tivesse passado a noite na casa de um companheiro do bowling, Alan tinha a impressão de que, então, essa deveria ser a primeira vez que tal acontecia.
Caso contr rio, essa mesma ideia teria passado pela cabeça da própria esposa de Gamache e ela poderia, pelo menos, esperar um pouco mais antes de telefonar para o gabinete do xerife. E foi então que ocorreu a Alan a ideia de que Homer Gamache era um pouco velho de mais para mudar de h bitos. Se tivesse passado a noite anterior noutro local, j o deveria ter feito antes; contudo, o telefonema da mulher sugeria que não o fizera. Se j alguma vez tivesse apanhado uma carraspana e, ainda assim, tivesse guiado até casa nesse estado, ele teria provavelmente feito o mesmo na noite passada... mas não o fizera.
"Com que então, o burro velho sempre aprendeu um novo truque", pensou ele. "Acontece. Ou talvez tenha bebido mais do que a conta. Que raios, até pode ter bebido a mesma quantidade de sempre e ficado mais bêbedo do que o habitual. Bem dizem que acaba sempre por acontecer a uma pessoa."
Pangborn tentara esquecer Homer Gamache, pelo menos por então. Tinha imensa papelada sobre a secret ria, e ali sentado, a girar um l pis para a frente e para tr s e a pensar naquele velho algures por aí na sua carrinha pick-up, naquele velho de cabelo branco liso e de corte … escovinha e com um braço mecƒnico por ter perdido o verdadeiro num sítio chamado Pusan, numa guerra não declarada, que ocorrera quando a maioria da safra actual dos veteranos do Vietname ainda faziam chichi nos cueiros... Bem, nada disto fazia avançar os papéis sobre a secret ria, e também não ajudava a encontrar Gamache.
Ainda assim, quando se dirigia para o min£sculo cubículo de Sheila Brigham, com a intenção de Lhe pedir para telefonar a Norris Ridgewick para ele saber se Norris j teria descoberto alguma coisa, o próprio Norris telefonara.
Aquilo que Norris tinha a participar fez aumentar o fio de gua de apreensão de Alan para um ribeiro frio e regular.
Correu por entre as suas entranhas e fê-lo sentir-se ligeiramente entorpecido.
Pangborn zombava daquelas pessoas que falavam de telepatia e premonição nos programas de r dio com chamadas dos ouvintes, zombava das pessoas para quem o palpite e o pressentimento se tornavam uma parte tão integrante das suas vidas que praticamente não davam por eles sempre que os utilizavam. Mas, se indagado sobre aquilo que, naquele momento, pensava sobre Homer Gamache, Alan teria respondido:
"Quando o Norris telefonou... bem, foi nessa altura que soube que o velhote estava muito mal ou morto.
Provavelmente a hipótese n£mero dois."
3
Por mero acaso, Norris parara no terreno dos Arsenault na Estrada 35, a cerca de um quilómetro e meio a sul do Cemitério de Homeland. Não estava sequer a pensar em Homer Gamache, apesar de a quinta Arsenault e de a casa de Homer estarem situadas a menos de cinco quilómetros de distƒncia uma da outra e caso, na noite anterior, Homem tivesse tomado o caminho lógico de volta para casa a partir de South Paris, ele teria passado pelos Arsenault. Para Norris, não parecia prov vel que qualquer um dos Arsenault tivesse visto Homer na noite passada porque, se o tivessem, ele teria chegado a casa são e salvo cerca de dez minutos depois.
Norris só parara na quinta Arsenault porque eles mantinham a melhor banca de produtos de beira de estrada das três vilas. Ele era um daqueles raros celibat rios que gostam de cozinhar, tendo desenvolvido um gosto enorme por vagens frescas. Ridgewick queria saber quando é que os Arsenault teriam algumas para venda. Só depois é que se lembrara de perguntar a Dolly Arsenault se, por acaso, não teria visto a carrinha de Homer Gamache na noite passada.
- Sabe, agora que fala nisso - respondera a Sra.
Arsenault - até tem graça porque vi. No final da noite passada. Não... pensando melhor, foi logo de madrugada, porque o Johnny Carsonl ainda estava a dar na televisão, mas a chegar ao fim. Ia comer uma outra taça de gelado e ver um bocado do programa do David Letterman e, de seguida, ir para a cama. Não ando a dormir l muito bem nestes £ltimos tempos, e aquele homem do outro lado da estrada p“s-me os nervos em franja.
- Que homem era esse, senhora Arsenault? - inquiriu Norris, subitamente interessado.
- Não sei, um homem qualquer. Não gostei do aspecto dele.
Praticamente não o conseguia ver e não gostei do as pecto dele, que tal? Eu sei que parece mal mas aquele asilo para loucos de Juniper Hill não fica assim tão longe, e quando vemos um homem sozinho, … beira de uma estrada secund ria quase … uma da manhã, isso é o suficiente para p“r qualquer pessoa nervosa, mesmo que ele esteja a usar um fato.
- Que género de fato é que ele estava... - começou Norris, mas não valia a pena: a Sra. Arsenault era uma típi ca velha tagarela do campo, tendo simplesmente passado por cima de Norris Ridgewick com uma espécie de grandio sidade implac vel.
Ele decidiu acompanh -la e colher aqui lo que conseguisse ao longo do caminho. Tirou o bloco de notas do bolso.
- De certa forma - continuou ela - o fato quase que me fez ficar ainda mais nervosa. Não batia certo um homem com um facto vestido …quela hora da noite, se é que me es tou a fazer entender. Provavelmente, não; provavelmente pensa que não passo de uma velha tonta, mas, durante um minuto ou dois antes de o Homer surgir, tive a sensação de que o homem talvez se fosse dirigir c para casa, e levantei -me para me certificar de que a porta estava trancada. Sabe, é que ele olhou para c e eu vi-o a olhar. Creio que ele olhou porque, provavelmente, podia ver a janela que estava ainda com luz apesar de j ser tarde. Provavelmente também me podia ver porque as cortinas são de tecido fino. Eu não conseguia realmente ver-lhe o rosto: ontem não ha via luar e não me parece que alguma vez venham a p“r can deeiros aqui tão longe, j para não falar em TV por cabo, tal como têm na vila... mas consegui vê-lo a virar a cabeça. Foi então que ele começou mesmo a atravessar a estrada... pelo menos, penso que era isso que ele estava a fazer, ou que estava a pensar fazer, se é que me est a entender, e pensei que viria até aqui, batesse … porta, dissesse que o carro estava avariado e perguntasse se podia usar o telefone. E comecei a magicar naquilo que responderia se ele fi zesse isso, ou até mesmo se deveria abrir a porta.
Acho que sou uma velha tonta porque pus-me a pensar naquele pro grama, o Alfred Hitchcock Apresenta, onde havia um louco que conseguia encantar os passaritos e fazê-los cair das rvores, só que usara um machadopara cortar uma pessoa, sabe, e pusera os pedaços no porta-bagagens do carro, e só foi apanhado porque um dos faróis de tr s estava apagado, ou qualquer coisa do género. Mas o outro lado da história era que... - Senhora Arsenault, ser que lhe posso perguntar...
-... não gostava de ser o Filistino, o Sarraceno ou o Gomorrense ou quem quer que fosse que tivesse passado pelo outro lado da estrada - continuou a Sra. Arsenault.
- Sabe, na história do Bom Samaritano. Assim, fiquei um pouco nervosa por causa disso. Mas disse para mim mesma...
Por essa altura, j Norris esquecera tudo sobre as vagens. Finalmente, l conseguiu interromper a Sra. Arsenault ao dizer-lhe que o homem que ela vira talvez fizesse parte daquilo a que chamou "uma investigação a decorrer.
Levou-a para o princípio da história e fê-la contar tudo aquilo que vira, deixando de parte o Alfredo Hitchcock Apresenta e a história do Bom Samaritano também, se possível.
A história que ele contara, através do r dio, ao xerife Alan Pangborn era a seguinte: ela estivera a ver The Tonight Show sozinha, com o marido e os rapazes j a dormir.
A cadeira estava colocada ao lado da janela que dava para a Estrada 35. O estore estava puxado para cima. Por volta da meia-noite e meia ou da meia-noite e quarenta, a Sra. Arsenault olhara l para fora e vislumbrara um homem no lado mais afastado da estrada... ou seja, no lado que dava para o Cemitério de Homeland.
O homem teria vindo a caminhar dessa direcção ou de outra?
A Sra. Arsenault não sabia dizer ao certo. Tinha a ideia de que talvez pudesse ter vindo da direcção de Homeland, o que significaria que se estava a afastar da vila, embora não tivesse a certeza do que fora que lhe dera essa impressão porque olhara uma vez pela janela e só vira a estrada, e de seguida, olhara uma segunda vez antes de se levantar para ir buscar gelado e ele l estava. Apenas ali parado e a olhar na direcção da janela iluminada - na direcção dela, supostamente. Ela pensou que ele fosse atravessar a estrada ou que tivesse começado a atravessar a estrada (provavelmente deixara-se ficar onde estava, pensara Alan; o resto eram apenas os nervos da mulher a falarem), quando os faróis iluminaram o topo da colina. Ao ver as luzes aproximarem-se, o homem do fato espetou o polegar para fora no gesto intemporal e ap trida de quem pede boleia.
- Era a carrinha do Homer, sem d£vida, com o Homer ao volante - contara a Sra. Arsenault a Norris Ridgewick.
- A princípio pensei que ele continuasse, como qualquer pessoa normal que vê alguém a pedir boleia a meio da noite, mas os faróis traseiros acenderam-se e aquele homem correu para a porta do lado do passageiro da cabina e entrou.
- A Sra. Arsenault, que tinha quarenta e seis anos de idade mas que aparentava mais vinte, abanou a cabeça branca: - O Homer devia estar bêbedo para dar boleia a alguém tão tarde - disse ela a Norris. - Bêbedo ou disíraído, e olhe que conheço o Homer h quase trinta e cinco anos. Ele não é simples. - Parou para pensar. - Bem...
não muito.
Norris tentou arrancar mais alguns pormenores … Sra.
Arsenault sobre o fato que o homem estava a usar, mas não teve sorte alguma. Pensou que, realmente, era uma pena que a iluminação p£blica acabasse nos terrenos do Cemitério de Homeland, mas as vilórias como The Rock tinham muito pouco dinheiro para se governarem.
Era um fato: disso ela tinha a certeza. Não um blusão ou um blazer masculino, e não era preto, embora isso deixasse um leque bastante grande de cores para escolher.
A Sra. Arsenault estava convencida que o fato do homem da boleia não era de um branco cristalino, mas tudo aquilo que estava pronta a jurar é que não era preto.
- Na verdade, não estou a pedir-lhe que jure, senhora Arsenault - disse-lhe Norris.
- Quando alguém fala com um agente da lei sobre assuntos oficiais - replicou a interlocutora, dobrando as mãos afectadamente para dentro das mangas da camisola - acaba por ser a mesma coisa.
Deste modo, aquilo que ela sabia resumia-se ao seguinte:
vira Homer Gamache dar boleia a um homem a cerca de um quarto para a uma da manhã. Nada de tão importante assim para chamar o FBI, dir-se-ia. Este facto só se tornava perturbante quando se acrescentava o outro facto de Homer ter apanhado o seu passageiro a cinco quilómetros ou menos do próprio p tio de entrada... e de não ter chegado a casa.
A Sra. Arsenault tinha igualmente razão quanto ao fato.
Ver um homem a pedir boleia num sítio tão distante, no meio de nenhures, a meio da noite, era bastante estranho - por volta de um quarto para a uma da manhã, qualquer vagabundo normal j teria arranjado um lugar para dormir num celeiro deserto ou no barracão de um agricultor qualquer - mas, quando se acrescentava o facto de que ele também usava fato e gravata ("Uma cor qualquer escura, dissera a Sra. Arsenault, "só não me peça para jurar qual era a cor escura porque não posso e não quero ), toda esta história ficava cada vez mais perturbadora.
- Que quer que eu faça de seguida? - perguntara Norris pelo r dio após ter completado o relato.
- Não saias de onde est s - respondera Alan. - Vai trocando histórias do Alfred Hitchcock Apresenta com a boa senhora até eu chegar. Eu próprio sempre gostei muito dessas histórias.
Contudo, antes sequer de ter percorrido setecentos metros, o ponto de encontro entre ele e o seu agente passou da quinta dos Arsenault para um local a cerca de quilómetro e meio para oeste. Um rapaz chamado Frank Gavineaux, no caminho para casa depois de uma pequena pescaria em Strimmer's Brook, vira um par de pernas a sair do meio das ervas altas no lado sul da Estrada 35. Correra para casa e contara … mãe. Esta telefonara para o gabinete do xerife. Sheila Brigham transmitiu a mensagem para Alan Pangborn e Norris Ridgewick.
Sheila manteve o protocolo, não tendo mencionado quaisquer nomes pelo r dio - havia sempre demasiados vendedores ambulantes com grandes camiões Cobra e Bearcat … escuta nas bandas da Polícia - embora Alan pudesse adivinhar, pelo tom perturbado da voz de Sheila, de que até mesmo ela fazia uma pequena ideia de quem seria o dono daquelas pernas.
Praticamente a £nica coisa boa que acontecera durante toda a manhã fora o facto de Norris ter acabado de esvaziar o est“mago antes de Alan l ter chegado e de ter mantido suficiente sangue-frio para vomitar no lado norte da estrada, longe do corpo e de qualquer prova que pudesse estar por ali.
- Que foi agora? - inquiriu Norris, interrompendo o fio dos seus pensamentos.
Alan soltou um forte suspiro e parou de enxotar as moscas dos restos de Homer. Era uma batalha perdida.
- Agora vou ter de ir l baixo e dizer … Ellen Gamache que a morte fez uma visitinha esta madrugada. Fica aqui com o corpo. Tenta afastar as moscas dele.
- Ora, xerife, mas porquê? Elas são tantas. E ele est ...
- Morto, sim, isso eu consigo ver. Não sei porquê.
Porque me parece que é aquilo que tem de ser feito. Não podemos p“r o raio do braço de volta no lugar mas, pelo menos, podemos impedir que as moscas caguem naquilo que resta do nariz.
- Est bem - respondeu Norris, respeitosamente. - Est bem, xerife.
- Norris, achas que conseguirias chamar-me "Alan se te esforçasses a sério? Se praticasses?
- Claro, xerife, acho que sim.
Alan grunhiu e virou-se para dar uma £ltima vista de olhos pela zona da vala que, quando ele voltasse, estaria, com toda a probabilidade, delimitada por uma fita de um amarelo-vivo com o dizer "CENA DO CRIME presa a varas de agrimensor. O médico-legista do condado j l estaria. O Henry Payton, da Central da Polícia Estadual de Oxford, também j l estaria. O fotógrafo e os técnicos do Departamento de Crimes Capitais pertencentes ao procurador-geral provavelmente ainda l não estariam - a não ser que, por acaso, dois deles j se encontrassem na zona a trabalhar noutro caso - mas chegariam pouco tempo depois. uma da tarde, o laboratório móvel da polícia estadual também estaria aqui, apoiado por hesitantes e incessantes peritos forenses e por um tipo cujo trabalho consistia em misturar gesso e fazer moldes das marcas dos pneus que Norris tivera a esperteza suficiente ou a ventura suficiente de não passar por cima com as rodas do próprio carro-patrulha (bastante relutante, Alan optou pela ventura).
E a que é que tudo isso levaria? Ora, apenas ao seguinte: um velho meio bêbedo parara para fazer um favor a um estranho ("Sobe para aqui, rapaz, conseguia Alan ouvi-lo dizer, "só tenho mais cerca de três quilómetros para fazer mas posso deixar-te um pouco mais … frente no caminho ), e o estranho respondera espancando o velho até … morte e, de seguida, roubando a carrinha.
Alan imaginava que o homem do fato de negócios pedira a Homer para encostar o carro - o pretexto mais prov vel seria dizer que precisava de mijar - e, uma vez a pick-up parada, esmurrara o velhote, arrastara-o para fora e...
Ah, mas foi nessa altura que as coisas ficaram negras.
Terrivelmente negras.
Alan olhou pela £ltima vez para a vala em baixo, para onde Norris Ridgewick, agachado ao lado da peça ensanguentada de carne que, em tempos, fora um homem, enxotava pacientemente as moscas daquilo que fora o rosto de Homer com a sua prancheta do formul rio de intimação, e sentiu o est“mago revirar-se de novo.
"Ele não passava de um velhote, seu filho da mãe. Um velhote que estava meio bêbedo e que tinha apenas um braço em bom estado para se defender, um velhote cujo £nico prazer que ainda lhe restava era a noite da liga do bowling.
Porque é que não te limitaste a esmurr -lo daquela primeira vez na cabina da carrinha e o deixaste em paz? Estava uma noite quente, e mesmo que acabasse por ficar um pouco fresco, o mais prov vel é que ele ficasse bem. Aposto o que quiseres em como vamos encontrar imensa matéria anticongelante no sistema dele. E, de qualquer forma, a matrícula da carrinha vai ser difundida por r dio. Então, porquê tudo isto? Caramba, espero ter uma hipótese de te perguntar! Todavia, ser que a razão importava? Para Homer Gamache, era óbvio que não. J não. Nada mais iria ter importƒncia alguma para Homer, porque depois de o ter esmurrado daquela primeira vez, o homem da boleia puxara-o para fora da cabina e arrastara-o para a vala, provavelmente puxando pelas axilas.
Alan não precisava dos rapazes dos Crimes Capitais para interpretar as marcas deixadas pelos saltos dos sapatos de Gamache. A meio do caminho, o homem da boleia descobrira a deficiência de Homer. E, no fundo da vala, arrancara o braço protético do corpo do velhote e, servindo-se deste como uma moca, espancara-o até … morte.
- Agarra-o, agarra-o! - ordenava em voz alta o agente estadual Warren Hamilton, do estado do Connecticut, apesar de ser o £nico ocupante do carro-patrulha. Estava-se na tarde de 2 de Junho, aproximadamente trinta e cinco horas após a descoberta do corpo de Homer Gamache numa vila do Maine de que o agente estadual Hamilton nunca ouvira falar.
Encontrava-se no parque de estacionamento do McDonald's da estrada Westport I-95 (direcção sul). Era seu costume entrar em todos os estacionamentos das bombas de gasolina e estações de serviço quando percorria a Interestadual'. Por vezes, … noite, quando se passava discretamente pela £ltima fila dos lugares do parque de estacionamento, com os faróis apagados, faziam-se umas boas prisões. Melhor do que boas. Magníficas. Quando pressentia que podia vir a dar de caras com uma dessas oportunidades, Hamilton falava frequentemente com os seus botões. Geralmente, estes solilóquios começavam com "Agarra-o, agarra-o, passando de seguida, para algo como "Vamos l ver este imbecil ou "Pergunta … mamã se ela acredita nisto. O agente estadual Hamilton gostava particularmente de perguntar … mamã se ela acreditava nisto sempre que lhe cheirava mais a esturro.
- Que temos nós aqui? - murmurou desta vez, invertendo a marcha do carro-patrulha. Passou um Camaro. Passou um Toyota, que se parecia com uma bosta de cavalo a envelhecer lentamente no clarão de cobre batido dos faróis de sódio de arco. E... ta-DA! Uma antiga carrinha pick-up GMC que, … luz, parecia laranja, o que significava que era - ou fora - branca ou cinzento-clara.
Hamilton agarrou no holofote e apontou-o para a placa da matrícula. Na humilde opinião do agente estadual, as placas de matrícula estavam cada vez melhores. Um a um, os estados andavam a p“r pequenas imagens nas matrículas. Assim, era mais f cil identific -las … noite, quando as diversas condições luminosas transformavam as cores reais em todo o tipo de matizes imagin rios. E a pior luz de todas para identificar as matrículas eram estas malditas lƒmpadas laranja de alta intensidade. Apesar de não saber se elas impediam violações e assaltos, tal como era o seu propósito, Hamilton tinha a certeza absoluta que dificultavam a tarefa de polícias trabalhadores como ele próprio a identificar placas de matrícula em carros roubados e em veículos fugidos sem n£mero.
Os desenhozinhos constituíam um grande avanço para corrigir esta falha. Uma Est tua da Liberdade era uma Est tua da Liberdade tanto em plena luz do dia como sob o foco uniforme destes estupores de laranja-acobreado. E, qualquer que fosse a cor, a Dama Liberdade significava Nova Iorque.
Tal como a porra daquele lagostim sobre o qual o foco estava apontado neste preciso momento significava o estado do Maine. J não era necess rio esforçar os olhos para ler VACATIONLANDl, ou tentar adivinhar se aquilo que parecia rosa ou laranja ou azul-eléctrico era realmente branco. Bastava procurar a porra do lagostim. Era realmente uma lagosta, Hamilton tinha consciência disso, mas a porra de um lagostim com um outro nome continuava a ser a porra de um lagostim. O agente estadual preferia engolir merda saída directamente do rabo de um porco do que p“r o raio de um daqueles lagostins na sua boca; ainda assim, ele estava imensamente contente por eles existirem.
Sobretudo quando tinha um mandado sobre uma matrícula com um lagostim, como acontecia esta noite.
- Pergunta … mamã se ela acredita nisto - murmurou, estacionando o carro-patrulha no parque. Tirou a prancheta do íman que a prendia ao centro do tablier, exactamente acima da protuberƒncia do eixo motor, passou para tr s a folha do formul rio de intimação em branco que todos os polícias mantinham como uma espécie de escudo sobre a folha que realmente interessava (não havia necessidade alguma que o p£blico em geral ficasse embasbacado a olhar para os n£meros das matrículas em que os polícias se encontravam particularmente interessados quando o agente a quem a folha pertencia estivesse a segurar um hamburger ou a tomar um café expresso na bomba de gasolina mais … mão), e correu a unha do polegar ao longo da lista.
E aqui estava. 96529Q; estado do Maine; terra da porra dos lagostins.
A primeira passagem do agente estadual Hamilton pela fila de carros mostrara-lhe que ninguém se encontrava na cabina da carrinha. Havia uma prateleira para espingarda, mas estava vazia. Era possível - não prov vel, mas possível - que pudesse estar alguém na caixa aberta da carrinha. Era até mesmo possível que essa pessoa na caixa aberta da carrinha pudesse ter consigo a espingarda que cabia na prateleira. Mais prov vel ainda era que o condutor h j muito que se tivesse ido embora ou que estivesse a comer um hamburger l dentro. Ainda assim... - Polícias velhos, polícias ousados, mas não polícias velhos e ousados - sussurrou o agente estadual Hamilton em voz baixa. Desligou repentinamente o holofote e, devagar, percorreu a fila de carros. Parou mais duas vezes, ligando o holofote em ambas as vezes, apesar de não se dar sequer ao trabalho de olhar para os carros que estava a iluminar. Havia sempre a possibilidade de que o Sr. 96529Q tivesse visto Hamilton a projectar o holofote sobre a carrinha roubada ao voltar do restaurante-estrumeira, e se visse que o carro do polícia tinha passado para o início da fila e estava a examinar outros carros, poderia não se ir embora.
- O seguro morreu de velho e isso é tudo o que sei, pelo grande Deus-Sol! - exclamou o agente estadual Hamilton.
Esta era uma outra das suas favoritas, ainda que não estivesse ao mesmo nível daquela de perguntar … mamã se ela acreditava nisto, mas quase. Hamilton enfiou o carro num lugar vazio de onde conseguia observar a pick-up. Chamou a sede, que era a menos de seis quilómetros e meio estrada acima, e disse-lhes que encontrara a carrinha GMC do Maine procurada num caso de homicídio. Pediu unidades de apoio e foi informado de que estas chegariam daí a pouco.
Hamilton verificou que ninguém se aproximou da carrinha, e decidiu que não seria demasiado ousado aproximar-se do veículo com cuidado. Na verdade, seria considerado um banana se, quando as outras unidades chegassem, ele continuasse ali sentado na escuridão, uma fila acima da pick-up.
Saiu do carro-patrulha, passando com os dedos pela correia que prendia a arma, ainda que não a tirasse do coldre.
No cumprimento do dever, só sacara a arma por duas vezes, nunca tendo sequer disparado. E não era agora que desejava fazer nem uma coisa nem outra. O agente estadual aproximou-se da carrinha por um ƒngulo que lhe permitia observar tanto a carrinha - sobretudo a sua caixa aberta - como quem vinha do Mickey D's. Estacou quando uma mulher e um homem saíram do restaurante e se dirigiram para um Ford Sedan estacionado cerca de três filas mais perto do edifício, tendo continuado a andar quando eles se meteram no carro e se dirigiram para a saída.
Mantendo a mão direita na coronha do revólver de serviço, Hamilton deixou cair a mão esquerda sobre a anca.
Na humilde opinião de Hamilton, os cintos de serviço estavam também a ficar cada vez melhores. Tanto durante a sua juventude como agora, Hamilton sempre fora um grande fã do Batman, também conhecido como o Homem Morcego.
Na verdade, ele suspeitava de que o Batman tinha sido uma das razões pela qual se tornara polícia (este era um pequeno facto que Hamilton não se dera ao trabalho de declarar na sua candidatura … força policial). O seu acessório preferido do Batman nunca fora o Batpole ou o Batarang, nem mesmo o próprio Batmóbill, mas o cinto multifuncional do Homem Morcego. Aquele maravilhoso artigo de vestimenta era como uma boa loja de lembranças: tinha algo para todas as ocasiões, quer fosse uma corda, um par de óculos com visão nocturna ou algumas c psulas de g s de atordoamento. O seu cinto de serviço não era, de modo algum, tão bom, mas, no lado esquerdo apresentava três presilhas que prendiam três peças extremamente £teis. Um era um cilindro movido a pilhas, comercializado sob o nome de Deitação! Quando se carregava no botão vermelho em cima, o Deitação emitia um assobio ultrassónico que transformava até mesmo pit-bullsl em f£ria em cordeirinhos mansos. Ao lado encontrava-se uma lata de pressão de maze (a versão da polícia do estado do Connecticut do g s de atordoamento do Batman) e, ao lado deste, uma lanterna eléctrica de quatro células.
Hamilton desprendeu a lanterna da presilha, ligou-a e, de seguida, esticou a mão esquerda para tapar parcialmente o feixe de luz. Fez isto sem nunca afastar a mão direita da coronha do revólver. Polícias velhos; polícias ousados; nenhum polícia velho e ousado.
O agente estadual percorreu o feixe de luz ao longo da caixa aberta da carrinha pick-up. Via-se um pedaço de lona l dentro, mas nada mais. A caixa da carrinha estava tão vazia como a cabina.
Durante todo esse tempo, Hamilton mantivera-se a uma distƒncia prudente da GMC com as placas de matrícula dos lagostins - este h bito estava de tal modo arraigado que ele nem sequer se apercebeu disso. De seguida, dobrou-se e apontou o foco de luz para debaixo da carrinha, o £ltimo lugar onde alguém que lhe quisesse fazer mal poderia estar escondido. Era pouco prov vel mas, quando ele acabasse por bater as botas, Hamilton não gostaria que o pastor começasse o seu panegírico dizendo: "Caros amigos, encontramo-nos aqui hoje reunidos para manifestar o nosso pesar pelo improv vel falecimento do agente estadual Warren Hamilton. Isso seria tr‹s vulgar.
Com o raio de luz, varreu com rapidez o solo por debaixo da carrinha, da esquerda para a direita, e nada vislumbrou para além de um amortecedor ferrugento que iria cair num futuro próximo - não que o condutor fosse sentir uma grande diferença quando isso acontecesse, pelo aspecto dos buracos no amortecedor.
- Penso que estamos sozinhos, querida - disse o agente estadual Hamilton. Pela £ltima vez, examinou a zona circundante … carrinha, prestando uma atenção especial ao lado virado para o restaurante. Não deu por ninguém a observ -lo e, assim, aproximou-se da janela do lado do passageiro da cabina e apontou a luz l para dentro.
- Raios me partam! - murmurou Hamilton. - Pergunta … mamã se ela acredita nesta grande merda. - Subitamente, ficou muito contente com o facto de as lƒmpadas cor de laranja que enviavam o seu foco de luz intenso através do parque de estacionamento e para dentro da cabine transformarem o que ele sabia ser castanho-avermelhado numa cor que era praticamente preto, fazendo o sangue assemelhar-se, antes do mais, a tinta. - Ele guiou o carro neste estado? Meu Deus, veio todo o caminho desde o Maine a guiar o carro neste estado? Pergunta … mamã...
Hamilton inclinou a lanterna eléctrica para baixo. O assento e o chão da GMC eram uma autêntica pocilga. Viu latas de cerveja e de refrigerantes, pacotes de batatas fritas vazios e semivazios, caixas que continham Big Macsl e Whoppers. Uma bola daquilo que parecia ser pastilha el stica estava esborrachada no tablier de metal acima do buraco onde outrora existira um r dio. No cinzeiro, podia ver-se uma série de beatas de cigarros sem filtro.
Acima de tudo, havia sangue: vestígios e manchas de sangue no assento. O volante estava encardido de sangue. Podia ver-se um salpico de sangue seco sobre o anel da buzina, ocultando praticamente o símbolo inteiro do Chevrolet aí gravado. Via-se sangue na pega de dentro da porta do condutor e sangue no espelho: esta mancha era um pequeno círculo que pretendia ser oval, e Hamilton pensou que o Sr.
96529Q talvez tivesse deixado uma impressão digital quase perfeita do polegar no sangue da vítima ao ajustar o espelho retrovisor. Via-se ainda um grande salpico de sangue coagulado numa das caixas de um Big Mac. Este dava a impressão de poder ter alguns cabelos presos.
- Que foi que ele disse … rapariga da estação? - murmurou o agente estadual entre dentes. - Que se cortou a fazer a barba?
Hamilton ouviu uma raspadela atr s de si. Rodopiou, sentindo-se demasiado lento, tendo a certeza absoluta de que, apesar das precauções habituais, fora demasiado ousado para ter conseguido chegar a velho, porque não havia nada de habitual nisto, não senhora, o tipo estava por detr s dele e, daqui a pouco, haveria ainda mais sangue na cabina da velha Chevrolet pick-up, o sangue dele, porque um tipo que conduzia um matadouro port til como este desde o Maine até praticamente … fronteira do estado de Nova Iorque era um psicopata, o género de pessoa que mataria um agente estadual sem pensar duas vezes, como se estivesse a comprar um quarto de leite.
Hamilton tirou o revólver pela terceira vez na sua carreira, puxou o cão da arma para tr s e esteve prestes a disparar um tiro (ou dois, ou três) em direcção a nada excepto escuridão. Mas não estava ninguém ali.
Pouco a pouco, baixou a arma, com o sangue a latejar-lhe nas têmporas.
Uma brisa soprou na noite. Tornou a ouvir o mesmo som. No chão, viu uma caixa de Filet-O-Fishl - deste mesmo McDonald's, sem d£vida, que esperto que você é, Holmes, de nada, Watson, era realmente elementar - deslocar-se a roçar pelo pavimento, percorrendo um metro e meio ou dois ao sabor da brisa e, de seguida, parar de novo.
Hamilton deixou escapar um suspiro longo e trémulo e, com cuidado, deixou cair o cão sobre o revólver.
- Estiveste prestes a fazer uma figura tristíssima, Holmes - disse ele numa voz bastante irregular. - Quase que te enfiaste num CR-14. - Um CR-14 era o formul rio correspondente a "tiro(s) disparado(s).
Hamilton pensou em voltar a colocar a arma de novo no coldre j que, agora, não duvidava de que só podia disparar contra uma caixa vazia de sanduíches de peixe. No entanto, o agente estadual decidiu mantê-la na mão até ver as outras unidades chegarem. Sabia bem ter a arma na mão. Era reconfortante. Porque não era apenas o sangue, ou o facto de o homem procurado por homicídio por um polícia do Maine ter percorrido de carro cerca de seiscentos e quarenta quilómetros no meio daquela porcaria toda. Em redor da carrinha, sentia-se um cheiro fétido que, de certo modo, era parecido com o cheiro fétido que se sente numa estrada secund ria quando um carro bate e esmaga uma doninha.
Hamilton não sabia se os agentes que estavam a chegar também o sentiriam ou se seria só ele, mas isso também não lhe interessava. Não era um cheiro a sangue, ou a comida podre, ou odor corporal. Era apenas, pensou ele, o cheiro do mal. De algo muito mau. Suficientemente mau para que ele não quisesse guardar o revólver, apesar de ter quase a certeza absoluta de que o dono daquele cheiro j se tinha ido embora, provavelmente h horas atr s: Hamilton não ouviu nenhum dos ruídos curtos e regulares que provêm de um motor quando este ainda est quente. Não importava. Não alterava aquilo que sabia: durante um certo tempo, a carrinha fora o covil de algum animal terrível, e ele não iria correr o mais pequeno risco de que o animal pudesse voltar a encontr -lo desprevenido. E a mamã poderia escrever um livro sobre aquilo.
Hamilton deixou-se ficar onde estava, com a arma na mão e os cabelos a provocarem comichão na parte de tr s do pescoço. Pareceu-lhe que só muito tempo depois é que as unidades de apoio acabaram por aparecer.