A paixão do CEO
Capítulo oito
Algo tinha amolecido dentro de mim quando Phillips segurou minhas mãos durante a decolagem. O olhar terno fixado ao meu e os movimentos carinhosos enquanto massageava as minhas mãos, buscando me acalmar, me tocou de uma maneira que não sabia decifrar. Sabia que ele me valorizava e gostava de ouvir minhas opiniões, até mesmo me desejava, mas sentir esse carinho todo me desconcertou.
Foi inegável não compará-lo com o Robert, um dos poucos namorados que eu tive na vida, mesmo que isso fosse uma coisa horrível de se fazer. Depois de ter quebrado minha cara com meu ex, pude enxergar quem ele realmente era. Pensei que estava apaixonado por mim, porém ele nunca foi capaz de um gesto de carinho sem pedir algo em troca, como o sexo. Talvez meu relacionamento estivesse fadado ao fracasso desde o início, como minha irmã disse. Eu que não quis ver isso, cega pela ilusão.
Phillips, mesmo sendo meu chefe e não tendo nenhuma obrigação de me agradar, sempre buscava me mimar com pequenas coisas. E o modo como ele me consolou e cuidou de mim hoje, me fez me sentir querida.
Não sei quanto tempo ficamos conversando. Para me distrair, ele me contou que o gerente do departamento de marketing, que até alguns meses atrás fazia um bom trabalho, por conta de um processo de divórcio que estava enfrentando, começou a deixar a equipe fazer o que quisesse, sem supervisão, o que estava causando sérios problemas no setor. Depois, passou a falar sobre várias coisas do seu passado, que, embora tenha sido de bastante privação, teve muitos momentos felizes com a avó que ele tanto amava, além dos momentos de aprendizagem que ele teve com Jhonson. Gostava quando ele me falava do seu passado, pois isso fazia com que eu admirasse ainda mais o homem que saiu do nada e se tornou, com a ajuda dessas pessoas que citou, um homem íntegro e poderoso.
E uma coisa era inegável, Phill era muito bom em me distrair e em me fazer sorrir. Estava bem mais relaxada e menos tensa por estar nas alturas.
— Mady? — chamou-me, fazendo com que eu saísse dos meus devaneios com ele.
— Sim?!
Ainda estávamos sentados em nossas poltronas, mas em algum momento que não sei identificar, retirei os meus saltos altos e encolhi as pernas no assento, e ele tirou o terno, pousando-o no lugar ao lado dele, e enrolou sua camisa até os antebraços, deixando os pelos negros e espessos a mostra. Nunca tinha reparado na musculatura firme e bronzeada dos seus braços, e o pensamento deles me envolvendo e puxando-me contra o seu corpo firme, rígido e excitado fez com que um calor indesejável se espalhasse por todos os poros da minha pele, arrepiando-me.
— Você ouviu alguma coisa do que eu disse? — Deu um sorriso bastante safado, como se soubesse aquilo que eu estava pensando. Talvez eu estivesse olhando muito fixamente para ele, ou deixado evidente em meu olhar. De repente, minha boca ficou seca e passei a ponta da língua pelos lábios, umedecendo-os.
— Mady… — gemeu, quase inaudível.
— Sim? — pigarreei, ficando vermelha. — O que você estava dizendo?
Ele ficou em silêncio por alguns minutos, sem tirar os olhos dos meus, mas acabou falando: — Já deve ter passado e muito da hora do almoço. Confesso que eu estou faminto — sussurrou, deixando explícito o que ele queria dizer.
— Claro, o que tem para comer? — Ignorei a duplicidade de suas palavras, buscando meu autocontrole. Estava tão entretida pela sua conversa que esqueci da hora. Também estava com fome e decidi que, após a refeição, poderia usar esse tempo para trabalhar. Ainda tinha deixado algumas coisas pendentes e gostaria de resolver o quanto antes.
Esse sonhar acordada com meu chefe tem que acabar, e logo.
— Não sei — deu de ombros, mais recomposto —, vou chamar o Ferdinando.
Apertou o botão que ficava na poltrona, e o comissário apareceu logo depois.
— O que deseja, senhor? — Fez uma leve mesura.
— Pode servir o almoço, por favor? E também um vinho tinto, para acompanhar o que quer que seja servido.
— Claro.
Levantamos e caminhamos com um pouco de dificuldade, pelo movimento do avião, até a mesa para refeições que tinha no jato, esperando que Ferdinando trouxesse a nosso almoço, que consistia em uma salada ceasar e um steak com purê de batata, e o vinho. Confesso que não gostava de beber, mesmo que acompanhado de uma refeição, quando estava a trabalho, porém não recusei a taça que Phill serviu para mim.
— Um brinde a Ilha Pumpkin — brincou, batendo sua taça na minha.
— E que ela seja tudo aquilo que a gente espera, te rendendo bons lucros — gracejei, fazendo ele sorrir.
— Para nós.
Ignorei o comentário e beberiquei um pouco de vinho. Começamos a comer em um silêncio confortável, apreciando o líquido caro e rico, embora a comida não fosse das melhores, enquanto olhávamos um para o outro a todo momento. Assim que terminamos, Ferdinando apareceu para recolher os pratos, talheres e as taças, deixando-nos novamente a sós. Voltamos às nossas poltronas e peguei meu celular, verificando que tinha uma mensagem de Jane me desejando uma boa viagem, com uma foto do meu amado Toby deitado em um cochinho, e respondi com um monte de emoticon de coraçãozinho. Fazia menos de vinte e quatro horas que eu estava longe dele, mas parecia muito mais.
Guardei meu aparelho na bolsa e ficamos em silêncio por um tempo, até que decidi quebrá-lo.
— Quer trabalhar? Ainda tenho algumas coisas para resolver e...
— Não.
Franzi o cenho para ele, que me brindou com um sorriso que derreteu algo dentro de mim.
— Ainda não, nossa conversa estava tão boa... — disse com a voz rouca e aveludada, e olhou dentro dos meus olhos, de um modo que mexeria com o brio de qualquer um. Tive que me conter para que eu não estremecesse de excitação.
— E como vão seus pais e sua irmã Jane? — Phill puxou assunto ao perceber que atingiu o seu objetivo de embaralhar meus pensamentos. Respirei fundo, tentando focar em sua pergunta, e não no rebuliço que ele causava em mim.
— Estão muito bem, obrigada por perguntar — sorri. — Meus pais estão no Brasil, fazendo um tour pelo Nordeste do país. Pelo que eles me falaram, o lugar é bastante quente e paradisíaco, e as pessoas são muito solícitas. Não posso negar que fiquei com inveja deles por sair do frio de Nova Iorque por um tempo. — Fingi um tremor, fazendo ele rir.
— Estive no Brasil algumas vezes e realmente é bastante quente. Porém, infelizmente, não tive tanto tempo para visitar muitos locais.
— Uma pena.
Deu de ombros, não dando muita importância e, empolgada como estava, como sempre ficava quando alguém me perguntava dos meus familiares, continuei a falar: — Já Jane, está muito feliz ao lado de Michael. Confesso que, depois de tudo que ela passou na mão de homens cretinos, fico muito contente por ela ter o encontrado. Ele é um bom marido, sempre se preocupa com ela, além de mimá-la bastante. Você precisa ver. — Ri, deliciada ao me lembrar da felicidade da minha irmã.
Como Phillips me mima…
— Fico feliz por ela, Mady. Sei o quanto sua irmã é importante para você.
— Você não tem ideia. Eu amo meus pais, porém a ligação que tenho com Jane ultrapassa todos os limites. Sempre foi assim, desde que éramos pequenas. Não vejo a hora de pegar um dos meus sobrinhos no colo.
— Ela já está grávida? — perguntou, parecendo interessado no assunto.
— Não, não. Mas ela e Michael querem muito um filho, e confesso que eu também quero que ela tenha bebês, para alegrar a família. Eu adoro crianças e amaria poder brincar com meus sobrinhos. — Suspirei. — Nós duas sempre sonhamos em ser mães e fico muito contente que, em breve, Jane deve realizar o sonho dela, já eu não sei quando... — Parei quando percebi que estava falando demais, quase contando a ele sobre meu relacionamento desastroso com Robert. Com certeza, Phill não queria saber do meu fracasso como mulher.
Um brilho estranho cintilou em seus olhos e ele ficou esperando que eu completasse, porém eu não disse mais nada.
Ele se levantou da sua poltrona e aproximou-se da minha, tirando a bolsa que estava pousada no assento ao meu lado, colocando-a no chão. Olhei para ele, confusa, não entendendo o porquê dele vir se sentar ao meu lado.
Phillips passou as mãos pelos cabelos em um gesto que ele sempre fazia quando tinha algo sério para falar, me deixando, instantaneamente, nervosa e minhas palmas suando frio.
Ele levantou uma das mãos grandes e quentes, e segurou meu rosto para que eu não desviasse o olhar do dele, o que me deixou ainda mais nervosa.
— Não existe jeito de dizer isso de outra maneira, Mady, mas eu sei o que aconteceu. — Suspirou, e parecia que sofria ao confessar.
Engoli em seco. Não. Não. Não. Não podia ser.
— Sa… Sabe? Sabe o quê?
— Da traição do bosta do Robert.
— Quê!? — gritei, me desvencilhando da sua mão, afastando-me do seu contato. Pânico varreu todo meu corpo, me paralisando
— Me desculpe… não tive a intenção de ouvir sua conversa no telefone, Mady... — Parecia culpado.
— Você o quê? — interrompi ele.
— Estava chegando da reunião e, quando ia entrar no escritório, te ouvi chorando e fiquei esperando até você desligar. — Passou a mão pelo cabelo novamente, nervoso.
— O quanto você ouviu? — Perguntei em um sussurro, trêmula, com a humilhação tomando conta de mim.
— Infelizmente, quase tudo. — Pegou minha mão esquerda e fez carinho nela, como se me confortasse.
Estava incrédula, sem reação.
Ele tinha ouvido cada frase minha, meu chefe tinha ouvido que eu tinha sido corna.
Não poderia estar me sentindo mais envergonhada e, ao lembrar de ter falado para Jane que Robert me considerava fria na cama e tinha contado isso para a amante siliconada dele, me fez sentir ainda pior.
Saber que Phill tinha também ouvido sobre minha possível frieza na cama fez com que lágrimas de tristeza e vexação escorressem pelo meu rosto. Não que fosse da conta dele, mas saber que meu chefe tinha escutado isso, me deixava mortificada.
— Meu Deus — sussurrei baixinho, aos prantos. Sempre fui durona e prezava pela minha imagem composta, porém pouco me importava isso nesse momento, já que meu chefe e amigo tinha ouvido aquelas coisas e pior, que eu era corna e, talvez, ruim de cama. Não que eu pudesse culpá-lo por ele ter ouvido minha conversa no telefone, embora não fosse educado da parte dele. Estava no meu local de trabalho, não deveria ter ligado para Jane do escritório.
— Xiii… Não fique assim, Mady. — Continuou a fazer carinho na minha mão, e sua voz era suave e terna, cheia de compaixão.
— Eu… eu me sinto envergonhada por você ter ouvido tudo aquilo.
— Não se preocupe com isso, querida. — Apertou minha mão suavemente, passando confiança. — Pode parecer que não, mas sei o quanto tudo isso é difícil e como você deve estar chateada. Ter te ouvido chorar e ver seus olhos, que sempre estão radiantes, vermelhos de tanto chorar, depois de escutar sua conversa, isso me deixou arrasado e, ao mesmo tempo, furioso. E te ver fingindo que estava tudo bem e não poder fazer nada, foi como levar uma facada no peito.
Assenti fracamente, absorta na minha vergonha para ler nas entrelinhas o que tudo aquilo significava. Somente me preocupei em sentir o carinho que ele tinha por mim através de suas palavras de conforto.
— A culpa é toda daquele merda, ele te devia fidelidade e não te deu — disse suavemente. — Não valorizou a mulher que estava com ele.
— É. — Forcei um sorriso em agradecimento, porém mais lágrimas brotaram dos meus olhos. — Confesso que, depois do meu término, eu pensei muito em que foi que eu errei e no quanto fui boba e ingênua, no quanto fui idiota em não ter percebido antes. E o pior, em me sentir um lixo de mulher por isso — falei, baixinho.
Ele soltou a minha mão, girou o corpo e tomou meu rosto novamente entre seus dedos.
— Olhe para mim, Mady. — Forcei-me a olhar para ele e vi algo na sua expressão, mas estava muito frágil para decifrar. — Você não errou em nada, foi Robert quem pisou na bola. Você é uma mulher maravilhosa, linda, inteligente, amorosa e gentil. Existe um fogo em você que arde em tudo o que você faz. Você tem paixão pelas coisas, pela sua vida e pelo seu trabalho, o que faz muitos admirá-la. Não sabe o quanto de caras por aí achariam que tiraram a sorte grande de ter alguém como você ao seu lado. E eu me incluo nisso.
As palavras dele me tiraram o ar. Não sabia que ele pensava tudo isso sobre mim, e isso fez com que mais lágrimas descessem pelo meu rosto.
— Eu, eu… não sei o que dizer... — falei, entre soluços.
Ele soltou o meu rosto e pousou um dedo sob meus lábios, brincando com o superior, fazendo com que uma corrente elétrica percorresse todos os meus membros em meio a tristeza, humilhação e cansaço que sentia.
— Não precisa dizer nada… — Tirou o dedo da minha boca e aproximou seu rosto da minha testa, dando-me ali um beijo carinhoso.
— Eu… obrigada…
Entregou-me um lenço que estava no bolso da sua calça, e eu limpei minhas lágrimas e assoei o nariz, jogando-o na lixeira entre os bancos. Provavelmente ele tinha muitos, e não tinha necessidade de lavá-los.
— Venha. — Girou minha parte inferior do corpo para ele, puxando-me em direção ao seu peito. Aninhou-me com um dos seus braços, enquanto com uma mão fazia carinho no topo da minha cabeça. O meu rosto ficou colado ao seu peitoral, que subia e descia em um ritmo tranquilo.
Com as palavras doces dele ecoando na minha mente e a ternura daquele gesto de proteção, mais algumas lágrimas escorreram pelo meu rosto. Não sei quanto tempo fiquei aconchegada nos braços de Phill, sentindo o cheiro amadeirado do seu perfume que impregnava sua pele, com o calor gostoso que emanava pelo seu corpo contra o meu rosto, que me transmitia uma sensação de tranquilidade e algo mais que não poderia definir. Porém, nem me dei conta quando meus olhos se fecharam e eu fui sendo tomada pelo sono e cansaço.
Alojada ao peito musculoso, tive a impressão de que fui erguida e carregada por braços fortes, que pousaram o meu corpo com toda delicadeza em uma superfície plana, que deveria ser a cama, mas não dei importância…
Um resmungo saiu da minha garganta em meio ao sono.
Nunca pensei que ser aninhada pelos braços de meu chefe e receber seus carinhos poderia ser tão bom. Isso fez com que me sentisse em paz e feliz novamente.