A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 1 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo um

— ELES NÃO PARECEM se preocupar com o fato de que estão morrendo.

Aeron, guerreiro imortal possuído pelo demônio da Ira, estava no topo do telhado do Bübájos Apartments, no centro de Budapeste, observando os humanos lá embaixo, despreocupados com a noite que os esperava. Alguns faziam compras, outros conversavam e sorriam, e outros comiam enquanto caminhavam. Mas nenhum deles estava de joelhos, implorando aos deuses por mais tempo em seus corpos frágeis. E nem soluçavam por saber que nunca conseguiriam isso.

Mudou o foco das pessoas para a área à sua volta. A luz da lua irradiava do céu, misturando-se ao brilho âmbar que vinha dos postes da rua, lançando sombras nas calçadas. Havia edifícios dos dois lados, com alguns dos pontos mais altos cobertos por toldos verde-claros, num contraste perfeito com as árvores cor de esmeralda que se erguiam do chão.

Um cenário bonito, não fosse a presença constante de caixões.

Os humanos sabiam que estavam perecendo. Droga, eles cresciam sabendo que teriam de abandonar tudo e todos que amavam, e, mesmo assim, como ele já observara, não exigiam, nem ao menos pediam, mais tempo. E isso... o deixava fascinado. Caso soubesse que em pouco tempo seria separado dos seus amigos, os demais guerreiros possuídos por demônios que ele passara os últimos milhares de anos protegendo, Aeron teria feito qualquer coisa; sim, seria capaz de implorar, para que seu destino fosse alterado.

Então, por que os mortais não faziam isso? O que eles sabiam que Aeron não sabia?

— Eles não estão morrendo — disse o amigo Paris, ao seu lado. — Estão vivendo enquanto têm a oportunidade.

Aeron suspirou. Não era a resposta que buscava. Pois como eram capazes de viver enquanto tinham a oportunidade quando essa “oportunidade” não passava de um vislumbre do tempo?

— Eles são frágeis. Podem ser facilmente destruídos, como você bem sabe.

O que era bem cruel de ser dito, pois a... namorada? Amante? A fêmea escolhida de Paris? O que quer que ela fosse, fora recentemente morta com um tiro na frente de Paris. Ainda assim, Aeron seria incapaz de se arrepender de suas palavras.

Paris era o guardião da Luxúria, e tinha de ir para a cama com uma humana diferente todos os dias, ou enfraqueceria até morrer. Não poderia se dar ao luxo de ficar de luto devido à morte de uma amante específica. Especialmente uma amante inimiga, como fora sua pequena Sienna.

Aeron odiava admitir isso, mas, de alguma forma, estava feliz com a morte dela. Sienna teria usado as necessidades de Paris contra ele e, no final das contas, o destruiria.

Eu, no entanto, sempre garantirei sua segurança. Foi uma promessa. O rei dos deuses oferecera uma escolha a Paris: o retorno da alma de sua amada ou a liberdade de Aeron, que sofria com uma terrível sede de sangue que o afligia constantemente, uma vontade de mutilar que rondava sua mente de forma assustadora. Vontade que, embora tivesse vergonha de admitir, ele satisfazia. Repetidamente.

Por causa dessa maldição, Reyes, guardião do demônio da Dor, quase perdeu sua amada Danika. Na verdade, Aeron estava preparado para o ataque final, com a lâmina afiada, erguida... caindo em direção ao lindo pescoço dela. Porém, pouco antes do contato, Paris escolhera a liberdade de Aeron, e a loucura instantaneamente o abandonou, salvando a vida de Danika.

Em parte, Aeron ainda se sentia culpado pelo que quase acontecera e pelas consequências da escolha de Paris. Culpa que atingia seus ossos como ácido, devorando-o. Paris agora sofria enquanto ele gozava sua liberdade. Porém, isso não faria com que demonstrasse pena de Paris. Amava demais o amigo para isso. Na verdade, Aeron lhe devia uma. E ele sempre pagava suas dívidas.

Exatamente por isso estavam naquele telhado.

Tomar conta de Paris, porém, não era uma tarefa fácil. Nas últimas seis noites, Aeron arrastara seu amigo até lá sob fortes protestos. Tudo o que Paris tinha de fazer era escolher uma mulher, depois Aeron iria atrás dela e garantiria a segurança dos dois enquanto faziam sexo. Mas a cada noite a escolha acontecia mais e mais tarde.

Aeron sentia que, daquela vez, ele e Paris ficariam sentados ali e conversariam até o nascer do sol.

Caso o agora deprimido guerreiro tivesse evitado as frágeis mortais como Aeron fazia, não estaria nesse momento desejando algo que não poderia ter. Não estaria desesperado por isso; e isso não lhe seria negado por toda a eternidade.

Aeron suspirou.

— Paris — ele começou a dizer. Depois parou. Como deveria proceder? — Seu luto tem de acabar. — Ótimo. Exatamente ao ponto, como ele gostava. — Você está ficando cada vez mais fraco.

Paris passou a língua pelos dentes.

— Como se você pudesse falar sobre fraqueza. Quantas vezes você tem sido escravo de Ira? Inúmeras. E em quantas dessas inúmeras vezes a culpa é dos deuses? Apenas uma. Quando o demônio o possui, você perde completamente o controle de suas ações. Então, por favor, não inclua a hipocrisia na sua lista de pecados, certo?

Ele não se ofendeu. Infelizmente, o argumento de Paris era irrefutável. Algumas vezes, Ira tomava o controle do corpo de Aeron e o levava à cidade, fazendo-o atacar quem estivesse ao seu alcance, machucando-o e se alimentando do terror. Durante tais ocorrências, Aeron percebia o que estava acontecendo, mas era incapaz de deter a carnificina.

Não que ele sempre quisesse dar um basta na carnificina. Algumas pessoas mereciam o que recebiam.

Mas ele de fato odiava perder o controle do seu corpo, como se não passasse de uma marionete, ou de um macaco de imitação. Quando ficava reduzido a tal estado, odiava seu demônio, mas não tanto quanto odiava a si mesmo. Pois com seu ódio também sentia uma pitada de orgulho por Ira. Afinal de contas, tomar dele as rédeas do controle requeria poder, e qualquer tipo de poder deveria ser valorizado.

Ainda assim, o cabo de guerra entre amor e ódio o deixava perdido.

— Talvez não fosse sua intenção, mas você acabou provando o meu argumento — ele disse, voltando à conversa. — A fraqueza é a mãe da destruição. Sem exceções. — E, no caso de Paris, luto era apenas um sinônimo para distração. E tal distração poderia ser fatal.

— O que isso tem a ver comigo? O que tem a ver com os humanos lá embaixo? — perguntou Paris, apontando.

Hora de uma análise geral.

— Aquelas pessoas. Elas envelhecem e se deterioram num piscar de olhos.

— E?

— Deixe-me terminar. Se você se apaixona por uma delas, pode tê-la por boa parte de um século. Talvez, se uma doença ou um acidente não o destruir. Mas será um século observando-a definhar e morrer. E durante todo esse tempo você saberá que uma eternidade sem ela espera por você.

— Que pessimismo — disse Paris, estalando a língua contra o céu da boca; dificilmente a reação esperada por Aeron. — Você enxerga isso como um século perdendo alguém que não é capaz de proteger. Mas eu enxergo como um século desfrutando de uma enorme bênção. Uma bênção que o ajudará pelo resto da eternidade.

Ajudar? Que loucura. Quando se perdia algo precioso, as memórias se transformavam numa lembrança atordoante do que nunca mais seria possível. Tais memórias, somadas aos nossos problemas, eram capazes de distrair em vez de nos fortalecer. Sim, distrair; ao contrário de Paris, Aeron não enfeitaria a palavra.

Uma prova: era assim que ele se sentia em relação a Baden, guardião da Desconfiança e, uma vez, seu melhor amigo. Havia muito tempo, Aeron perdera o companheiro que amara mais do que poderia amar um irmão de sangue. E agora, sempre que estava sozinho, pensava em Baden e ficava imaginando o que poderia ter acontecido.

Ele não queria isso para Paris.

Nada mais de análise geral. Hora de um pouco mais de falta de piedade.

— Se você é tão capaz de aceitar uma perda, por que ainda está de luto por Sienna?

Um feixe da luz da lua atingiu o rosto de Paris, e Aeron viu que seus olhos brilhavam levemente. Obviamente, estivera bebendo. Mais uma vez.

— Eu não tive meu século ao lado dela. Tive apenas alguns dias — disse, em tom melancólico.

Não pare agora.

— E se tivessem lhe dado cem anos com ela antes de ela morrer, agora você estaria em paz com a morte?

Seguiu-se uma pausa.

Ele não pensou que estaria.

— Chega! — gritou Paris, batendo com o punho contra o telhado e fazendo todo o edifício tremer. — Não quero mais falar sobre isso.

Que pena.

— Perda é perda. Fraqueza é fraqueza. Se não nos permitirmos nos apegar aos humanos, não vamos sofrer quando eles nos deixarem. Se endurecermos o coração, não vamos desejar o que não podemos ter. Nossos demônios nos ensinaram isso muito bem.

Todos aqueles demônios já tinham vivido alguma vez no inferno e desejaram a liberdade, e juntos encontraram o caminho de saída. Mas acabaram trocando uma prisão por outra, e a segunda fora bem pior que a primeira.

Em vez de suportar o enxofre e as chamas, como antes, passaram mil anos presos na caixa de Pandora. Mil anos de escuridão, desolação e dor. Sem liberdade nem esperança de algo melhor.

Se aqueles demônios tivessem sido mais fortes, se não tivessem desejado o que era proibido para eles, não teriam sido capturados.

Se Aeron tivesse tido mais força de vontade, não teria, mais tarde, ajudado a abrir aquela caixa. E não teria recebido a maldição de abrigar dentro de seu próprio corpo o mesmo demônio que ele libertara. Não teria sido expulso do céu, o único lar que conhecera na vida, para passar o resto da eternidade nessa terra caótica onde nada permanece igual.

Não teria perdido Baden enquanto lutava contra os Caçadores; desprezíveis mortais que abominavam os Senhores, pois os culpavam por todo o mal do mundo. Um amigo morreu de câncer? Claro que foi culpa dos Senhores. Uma adolescente acabou de descobrir que está grávida? Obra dos Senhores, mais uma vez.

Caso tivesse sido mais forte, não estaria preso mais uma vez nessa guerra, lutando, matando. Sempre matando.

— Você já desejou uma mortal? — perguntou Paris, tirando-o dos seus pensamentos mais obscuros. — Sexualmente?

Uma risada seca escapou-lhe da garganta.

— Deixar que uma mulher entre na minha vida em um dia, apenas para perdê-la no dia seguinte? Não. — Ele era mais esperto que isso.

— Quem disse que você tem de perdê-la? — Paris pegou um frasco de dentro do casaco de couro e tomou um longo gole.

Mais álcool? Tão rápido? Claramente, aquele papo não fizera nada bem ao seu amigo.

Após engolir, Paris acrescentou:

— Maddox tem Ashlyn, Lucien tem Anya, Reyes tem Danika e agora Sabin tem Gwen. Até a irmã de Gwen, Bianka, a Terrível, tem um amante. Um anjo com quem tive de lutar numa piscina de óleo, mas que seja. Não vamos falar sobre isso.

Luta no óleo? Sim. Melhor esquecer.

— Esses casais têm um ao outro, mas cada uma daquelas mulheres tem uma habilidade que as distingue das demais de sua espécie. Elas são mais que humanas.

Mas isso não significava que elas viveriam para sempre. Até os imortais poderiam ser destruídos. Fora ele quem encontrou a cabeça de Baden; sem o corpo do guerreiro. Fora ele o primeiro a olhar aquela eternamente congelada expressão de choque.

— Ah, ótimo, uma solução. Encontre uma fêmea com uma habilidade que a faça diferente — disse Paris, seco.

Como se isso fosse fácil. Além do mais...

— Eu tenho Legião, e ela é tudo com que posso lidar nesse momento. — E, ao pensar no pequeno demônio, que era uma espécie de filha para ele, Aeron sorriu. De pé, ela só chegava à sua cintura. Tinha escamas verdes, dois pequenos chifres no topo da cabeça e dentes afiados que produziam saliva envenenada. As tiaras eram seu acessório favorito, e carne fresca, sua comida preferida.

O primeiro mimo ele gostava de lhe conceder. Quanto ao segundo... estavam trabalhando nisso.

Aeron a conhecera no inferno. Bem, o mais perto do poço causticante que um homem podia chegar sem derreter em suas chamas. Ele ficara acorrentado, como uma espécie de vizinho do inferno, embriagado por aquela maldita sede de sangue, determinado a matar até mesmo os amigos, quando Legião abrira caminho na sua direção, e sua presença, de alguma forma, clareou-lhe a mente, devolvendo-lhe a força de que tanto precisava. Ela o ajudara a escapar, e desde então estavam juntos.

Menos naquele momento. Sua preciosa garota voltara ao inferno, local que odiava, tudo porque um anjo fiel aos deuses estivera observando Aeron, movendo-se nas sombras, invisível, esperando por... algo. O quê, ele não sabia. Só sabia que tal olhar intenso não estava sobre ele naquele momento, mas retornaria. Sempre retornava. E Legião não seria capaz de suportar isso.

Ele inclinou o corpo para trás e ficou olhando o céu noturno. As estrelas estavam muito brilhantes naquela noite, como diamantes espalhados sobre um cetim negro. Algumas vezes, quando desejava apenas a fantasia da solidão, ele voava o mais alto que suas asas eram capazes de levá-lo, e depois caía, de forma rápida e certeira, diminuindo a velocidade apenas alguns segundos antes do impacto.

Quando Paris tomou mais um gole de sua bebida, o cheiro de ambrosia inundou o ar, doce e suave como o hálito de um bebê. Aeron balançou a cabeça negativamente. A ambrosia era a droga preferida de seu amigo, a única coisa capaz de entorpecer corpo e mente de homens como eles, mas Paris estava perdendo o controle, deixando o antes bravo soldado cada vez mais medíocre.

Com Galen, líder dos Caçadores e guerreiro possuído por um demônio como eles, solto pelas ruas, Aeron precisava de seu amigo no mínimo lúcido e, bem, em ótima forma para lutar. Os anjos, como ele descobrira recentemente, eram demônios assassinos.

Se aquele anjo queria matá-lo? Ele não tinha certeza, e o consorte de Bianka, Lysander, não lhe dissera nada. Mas a resposta não importava. Ele planejava destruir o covarde, fosse homem ou mulher, no exato momento em que criasse coragem e aparecesse na sua frente.

Ninguém o separaria de Legião. Não sem sofrer. Legião podia estar sendo ferida, mental e fisicamente. E, só de pensar nisso, Aeron apertou as mãos com tanta força que seus ossos quase se quebraram. Os companheiros de sua querida menina adoravam provocá-la por sua doçura e compaixão. Também gostavam de persegui-la, e só os deuses sabiam o que eles fariam a ela se a pegassem.

— Por mais que você ame Legião... — Paris começou, mais uma vez arrancando Aeron dos próprios pensamentos. Ele atirou uma pedra no edifício da frente, antes de terminar de tomar o líquido do frasco. — Ela não pode suprir todas as suas necessidades.

Ele queria dizer sexo. Não poderiam esquecer esse assunto de uma vez por todas? Aeron suspirou. Não dormia com uma mulher havia anos, séculos, talvez. Elas não mereciam o esforço. Por culpa de Ira, seu desejo de machucá-las ultrapassava rapidamente seu desejo de agradá-las. Mais do que isso. Por mais tatuado e duro nas batalhas que fosse, Aeron tinha de lutar por cada migalha de afeto que recebia. As mulheres sentiam medo dele; e com razão. Suavizá-las requeria tempo e paciência, coisas que ele não tinha. Afinal de contas, havia milhares de outras coisas mais importantes que poderia estar fazendo. Coisas como treinar, vigiar sua casa, seus amigos. Aceitar todos os caprichos de Legião.

— Eu não tenho tais necessidades. — E, em grande parte do tempo, isso era verdade. Disciplinado, Aeron raramente cedia aos prazeres da carne. E quando o fazia, era sozinho. — Tenho tudo o que quero. Mas viemos aqui para conversar sobre os nossos sentimentos ou para encontrar uma amante para você?

Com um rosnado, Paris atirou o frasco vazio da mesma forma como atirara a pedra. Ele bateu contra a parede do prédio, fazendo com que uma nuvem de pó e pedras enchesse o ar.

— Algum dia, alguém o deixará fascinado, alguém o atrairá e prenderá sua atenção, alguém que você desejará com todos os poros do seu corpo. Espero que ela o deixe louco. Espero, pelo menos por um tempo, que ela rejeite você, fazendo-o correr atrás dela. Talvez assim você tenha um vislumbre da minha dor.

— Se eu tiver que fazer isso para retribuir o favor que você me fez, então encararei tal destino alegremente. Seria capaz de implorar aos deuses por isso. — Aeron não era capaz de se imaginar desejando uma mulher, imortal ou humana, pois isso atrapalharia sua vida. Ele não era como os demais guerreiros, sempre em busca de companhia. Era verdadeiramente mais feliz quando estava só. Ou melhor, quando estava só com Legião. Além do mais, era muito orgulhoso para ir atrás de alguém que não retribuísse seu ardor.

Mas ele realmente falara sério. Por Paris, aceitaria qualquer coisa.

— Está ouvindo isso, Cronos? — Aeron gritou aos céus. — Envie-me uma mulher. Uma mulher que me atormente. Uma mulher que não me queira.

— Canalha arrogante — disse Paris, sorrindo. — E se Cronos realmente lhe enviar uma mulher inalcançável?

Pelos deuses, aquele divertimento o deixava contente. Seu amigo parecia o Paris de antigamente.

— Duvido.

Cronos queria ver os guerreiros focados em vencer Galen, sua obsessão desde o momento em que Danika previu que o deus-rei morreria nas mãos de Galen.

Sendo o Olho Que Tudo Vê, as previsões de Danika eram sempre acuradas. Mesmo as ruins. Porém, havia um detalhe: tais visões poderiam ser usadas para promover mudanças. Pelo menos em teoria.

— Mas e se...? — disse Paris, quando seu silêncio se arrastou por muito tempo.

— Se Cronos atender o meu pedido, vou aproveitar a aventura — mentiu Aeron, abrindo um sorriso. — Mas chega de falar sobre mim. Vamos fazer o que viemos fazer aqui. — Ele se levantou, olhando para a rua lá embaixo, observando a multidão.

Para preservar as ruas, os carros não entravam naquela parte da cidade, e todos tinham de seguir a pé. Por isso escolhera aquele lugar. Tirar uma mulher de um carro em movimento não era seu esporte preferido. Desse jeito, Paris simplesmente fazia sua escolha e abria as asas, levando o guerreiro para baixo. Uma olhadela para o lindo demônio de olhos azuis, e a mulher escolhida ficava paralisada, engolindo em seco. Algumas vezes, um sorriso era tudo o que bastava para convencê-la a tirar a roupa, mesmo em público, aos olhos de qualquer um que passasse por ali.

— Você não encontrará ninguém — disse Paris. — Eu já procurei.

— E quanto a... ela? — perguntou, apontando para uma loira rechonchuda e parcamente vestida.

— Não — respondeu, sem hesitar. — Muito... óbvia.

Lá vamos nós outra vez, pensou temeroso, mas fez um gesto em direção a outra mulher:

— E aquela? — Era alta e dona de curvas perfeitas, além de cabelos vermelhos cortados curtos. Vestia-se de forma conservadora.

— Não. Muito masculinizada.

— Que diabos isso quer dizer?

— Que eu não quero essa mulher. Próxima.

Pela hora seguinte, Aeron apontou várias possíveis parceiras de cama, e Paris detonou todas elas por vários, e ridículos, motivos. Muito pura, muito amarrotada, muito bronzeada, muito pálida. A única rejeição que importava era: “Já tive essa mulher antes.” E como Paris já tivera muitas amantes, Aeron ouviu essa frase com frequência.

— Em algum momento, você terá que aceitar uma delas. Por que não nos livrar desse calvário? Feche os olhos e aponte. A apontada será a vencedora.

— Já brinquei disso antes. E acabou... — disse Paris, dando de ombros. — Esqueça. Não seria nada bom seguir essa trilha. Então não. Nada disso.

— E se... — Mas suas palavras pararam abruptamente quando a mulher que ele observava desapareceu nas sombras. Ela não saíra de vista, o que seria natural. Normal. Ela simplesmente deixara de existir. Estava ali num momento e, no momento seguinte, tinha desaparecido. As sombras, de alguma forma, tinham puxado aquela mulher, como se elas a mantivessem presa em uma rédea.

Aeron ficou de pé com suas asas automaticamente saindo das fendas presentes em suas costas nuas e se expandindo.

— Temos um problema.

— O que há de errado? — perguntou Paris, também se levantando. Mesmo sob o efeito da ambrosia, ainda era um soldado, e pegou uma adaga nas mãos.

— A mulher de cabelos escuros. Você viu?

— Qual delas?

Isso respondia à pergunta de Aeron. Não, Paris não a vira. Se a tivesse visto, não teria feito tal pergunta.

— Vamos. — Aeron passou os braços em volta da cintura do amigo e saltou do prédio. O vento batia nos cachos multicoloridos de Paris, lançando vários fios em seu rosto, enquanto o chão ficava cada vez mais próximo... mais e mais próximo... — Fique de olho numa mulher com cabelos pretos na altura dos ombros, que caminha com as costas perfeitamente eretas, 20 e poucos anos, de roupa preta. Ela parece ser mais que humana.

— Matar?

— Capturar. Tenho algumas perguntas para fazer a ela. — Como ela desaparecera? Por que estava ali? Para quem trabalhava?

Os imortais sempre tinham um plano.

Pouco antes de atingirem o chão, Aeron bateu as asas. Diminuiu a velocidade para pousar de pé com apenas uma arqueada de pernas. Soltou o peso que carregava e os dois seguiram em direções opostas. Após milhares de anos lutando juntos, sabiam como agir sem ter de combinar cada movimento.

Enquanto corria pelo beco para a esquerda, a direção que a mulher seguira, Aeron colocava suas asas de volta no lugar. Olhou para várias pessoas: um casal de mãos dadas, um mendigo acabando com uma garrafa de uísque, um homem passeando com o cachorro, mas nem sinal da mulher de cabelos pretos. Chegou a um muro de tijolos e girou o corpo. Droga. Será que ela era como Lucien? Capaz de viajar a qualquer lugar usando apenas a força do pensamento?

Fazendo uma careta, voltou à ação. Ele buscaria em todos os becos da área, se necessário. Mas logo no meio do caminho as sombras ao seu redor ficaram mais densas, consumindo-o, engolindo o brilho dourado das luzes da rua. Milhares de gritos surdos pareciam vazar da escuridão. Gritos torturados. Gritos de agonia.

Ele parou, para que não batesse em nada, ou em ninguém, e tocou duas lâminas. Que droga era...

Uma mulher, a mulher, surgiu das sombras, a poucos centímetros dele. Era a única luz naquela repentina e vasta escuridão. Seus olhos eram tão negros quanto as trevas ao seu redor, seus lábios, vermelhos e úmidos como o sangue. Era bonita, de um jeito feroz.

Ira uivou dentro de sua cabeça.

Por um momento, Aeron ficou com medo de que Cronos tivesse realmente escutado seu pedido e enviado uma mulher para atormentá-lo. Porém, ao começar a observá-la, não sentiu calor em suas veias, seu coração não parou de bater, sintomas que os outros Senhores diziam notar quando encontravam a mulher que “tinham de ter”. Para ele, ela era exatamente igual às outras: facilmente esquecível.

— Ora, ora, ora. Sou ou não sou uma garota de sorte? Você é um deles, um Senhor do Mundo Subterrâneo, e veio até mim. — Sua voz era áspera como fumaça. — Não precisei nem pedir.

— Sou um Senhor, sim — confirmou, pois não havia razão para negar. As pessoas da cidade reconheciam a ele e aos outros só de vê-los. Alguns pensavam até que eles eram anjos. Os Caçadores também os reconheciam ao vê-los, mas rapidamente os anunciavam como demônios. — E eu estava mesmo procurando você.

Com sua tranquila confirmação, as feições da mulher revelaram um toque de surpresa.

— Uma grande honra, devo dizer. Por que estava me procurando?

— Quero saber quem é você. — Embora uma pergunta mais adequada fosse: o que é você?

— Talvez eu não tenha tanta sorte quanto imagino. — Aqueles lábios vermelhos e luxuriantes fizeram um beicinho, e ela fingiu limpar uma lágrima. — Já que meu próprio irmão não me reconhece.

Aeron conseguira parte de sua resposta: ela era uma mentirosa.

— Eu não tenho irmã.

Ela arqueou uma das sobrancelhas escuras.

— Tem certeza disso?

— Tenho.

Ele não nascera de um pai e uma mãe. Zeus, rei dos gregos, simplesmente lhe trouxera à existência com palavras. O mesmo acontecera com todos os outros Senhores.

— Teimoso. — Ela estalou a língua, fazendo-o se lembrar de Paris. — Eu deveria saber que seríamos bem parecidos. Mas tudo bem, é tão legal poder finalmente estar a sós com um de vocês. E quem será? Fúria? Narcisismo? Acertei, né? Admita, você é Narcisismo. Por isso encheu o corpo de tatuagens do seu próprio rosto. Legal. Posso chamá-lo de Narci?

Fúria? Narcisismo? Nenhum dos seus irmãos carregava esses demônios. Dúvida, Doença, Infelicidade e muitos outros, sim, mas aqueles, não. Ele balançou a cabeça; mas logo se lembrou de que havia outros imortais possuídos por demônios mundo afora. Imortais que nunca conhecera. Imortais que deveria encontrar.

Porém, como ele e seus amigos foram os responsáveis por abrir a caixa de Pandora, sempre imaginaram que eram os únicos hospedeiros dos demônios. Mas Cronos recentemente corrigira essa falsa conclusão, oferecendo aos Senhores pergaminhos com os nomes de outros como eles. Aparentemente, houvera mais demônios que guerreiros, e com a caixa perdida, os gregos, deuses no poder àquela época, colocaram os demônios restantes no corpo dos prisioneiros imortais de Tártaro.

Uma descoberta que não foi muito bem recebida entre os Senhores. Como antigos guardiões da elite de Zeus, eles foram os responsáveis pela prisão de vários daqueles homens; e criminosos costumam viver apenas em busca de vingança. Algo que Ira lhe ensinara muito bem.

— Oi — disse a mulher. — Tem alguém aí?

Aeron olhou para ela, xingando a si mesmo. Como fora capaz de se distrair na presença de um possível inimigo? Idiota.

— Quem sou eu é um assunto que não lhe interessa. — Essa informação poderia sim ser usada contra ele. Ainda mais recentemente, quando Ira estava sendo tão facilmente provocado que mesmo a declaração mais inocente poderia levá-lo, e a Aeron, consequentemente, àquela loucura assassina, deixando a cidade e todos os seus habitantes em perigo.

Aeron culpou o anjo que o perseguia.

Mas não poderia culpar o anjo quando Ira começou a rosnar dentro de sua cabeça, arranhando seu crânio, desesperado para entrar em ação. Para machucar. A principal habilidade do demônio era, e sempre fora, sentir os pecados de todos os que estavam à sua volta. E os daquela mulher, Aeron de repente percebeu, eram muitos.

— Vou tomar sua expressão repentinamente sombria como um não. Você não é Narci, e não tem ninguém aí.

— Cale... a boca.

Ele pressionou as têmporas, lâminas frias contra a pele, tentando evitar o bombardeio mental que sabia que estava por vir, outra distração que não poderia aceitar. Mas foi inútil. Os vários pecados daquela mulher tomaram sua mente de assalto, como vários filmes sendo projetados em telas simultâneas. Recentemente, ela torturara um homem, acorrentando-o a uma cadeira e ateando fogo nele. Antes disso, acabara com uma mulher. Ela tinha enganado, roubado. Abduzira uma criança de sua casa. Atraíra um homem à sua cama e cortara sua garganta. Violência... muita violência... muito terror, dor e escuridão. Ele podia ouvir os gritos das vítimas, podia sentir o cheiro de carne queimada e o gosto de sangue.

Talvez ela tivesse tido boas razões para fazer tudo aquilo. Talvez não. De qualquer forma, Ira queria puni-la, queria usar seus próprios crimes contra ela. Primeiro a acorrentaria, depois cortaria sua garganta e a queimaria.

Era assim que agia o demônio de Aeron. Batia em agressores, assassinava assassinos, e assim por diante. Então, sim, dominado por Ira, Aeron fizera tudo isso. Muitas vezes. Agora, ele contraiu cada músculo do corpo, trancando todos os ossos no devido lugar. Firme. Não perca o controle. Mantenha-se lúcido. Mas, pelos deuses, o desejo de castigar... era tão forte... uma necessidade da qual gostava mais do que deveria. Como sempre.

— Por que está aqui em Budapeste, mulher? — Ótimo. Isso era muito bom. Lentamente ele baixou os braços.

— Uau — ela disse, ignorando a pergunta. — Essa foi uma demonstração e tanto de contenção.

Ela sabia que aquele demônio queria machucá-la?

— Então deixe-me adivinhar... — Ela ficou tamborilando uma das unhas contra o queixo. — Você não é Narci, então você tem que ser... Chauvinista. Estou certa agora, não estou? Você deve achar que uma belezinha como eu não poderia descobrir a verdade. Engano seu. Mas tudo bem. Fique com os seus segredos. Você vai entender... Ah, mas vai entender mesmo.

— Você está me ameaçando, garota?

Mais uma vez, ela o ignorou.

— Dizem por aí que Cronos entregou os pergaminhos a vocês, e que agora pretendem usá-los para nos capturar. Para nos usar. Talvez até nos matar.

Aeron sentiu uma pontada do estômago. Primeiro: ela sabia sobre os pergaminhos, quando ele e seus amigos tinham de descobrir algo sobre eles. Segundo: ela sabia que estava na lista. O que significava que aquela mulher era realmente uma imortal; e uma criminosa. E se estivesse dizendo a verdade, também era possuída por um demônio.

Aeron não a reconheceu, o que significava que ele e seus amigos não tinham sido os responsáveis por sua prisão. Ou seja: ela chegara antes deles no céu. E isso significava que ela era uma Titã e uma ameaça ainda maior, pois os Titãs eram muito mais selvagens que seus colegas gregos.

Pior: os agora libertos Titãs estavam atualmente no poder. Ela podia ter ajuda divina.

— Que demônio você hospeda? — Ele exigiu saber, tentando usar essa fraqueza contra ela.

Ela abriu um sorriso malvado, o tom sério de Aeron claramente a divertia.

— Você não compartilhou essa informação comigo. Por que eu deveria compartilhar alguma coisa com você?

Que mulher irritante!

— Você disse nós. — E olhou por sobre os ombros dela, talvez esperando que alguém desse um salto para a frente e o atacasse. Mas tudo o que ele via era a escuridão... E tudo o que ouvia eram aqueles gritos secos. — Onde estão os outros?

— E eu lá vou saber. — Ela abriu os braços, com as palmas das mãos para fora, vazias, como se ela não achasse que ele garantia o uso de uma arma. — Estou sozinha, como sempre, é assim que gosto de estar.

Provavelmente, mais uma mentira. Que mulher se aproximaria de um temível Senhor do Mundo Subterrâneo sem apoio? Ele não baixou a guarda ao olhar nos olhos dela.

— Se está aqui para guerrear conosco, saiba que...

— Guerrear? — Ela riu. — Quando eu poderia matá-los enquanto dormem? Não, estou aqui apenas para entregar um aviso. Livrem-se dos cachorros ou eliminarei vocês desse mundo. E se existe alguém capaz de fazer isso, esse alguém sou eu.

Após todas as imagens que vira em sua mente, ele acreditava nela. Ela atacava na escuridão, era um espírito que não mandava avisos. Sem dúvida, não havia crime desprezível demais para ela. Isso não significava que ele lhe daria atenção.

— Talvez você se considere poderosa, mas não pode vencer a todos nós. E se continuar entregando esses avisos, tudo o que terá será guerra.

— Como quiser, guerreiro. Eu disse o que eu queria dizer. Melhor rezar para que esta seja a última vez que está me vendo. — As sombras voltaram a ficar espessas, envolvendo-a, sem deixar qualquer sinal de sua presença. Até que, bem próximo ao seu ouvido, ele escutou: — Ah, e mais uma coisa. Essa foi uma visita de cortesia. Da próxima vez, não darei uma de boazinha.

Em seguida o mundo ao seu redor voltou a ficar em foco: os prédios dos dois lados da rua, os sacos de lixo sujando o concreto, o homem bêbado, agora desmaiado. Finalmente, Ira se acalmara.

Aeron permaneceu em alerta, os olhos mapeando o ambiente, o corpo pronto. Ele escutou e ouviu apenas os deliberados suspiros de sua própria respiração, o ruído de passos humanos além do beco e o cantar dos pássaros noturnos.

Mais uma vez, suas asas se abriram, e ele disparou no ar, determinado a encontrar Paris e voltar à fortaleza. Os demais Senhores tinham de ser avisados. Quem quer que fosse aquela mulher com sede de sangue, e o que mais ela pudesse fazer, eles precisavam lidar com ela. Rapidamente.