A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 22 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Vinte e Dois

GIDEON PODIA OUVIR os Caçadores circulando logo acima dele. Seus passos eram apressados, e ele pensou ter escutado até o barulho de armas sendo carregadas e preparadas, o zunido do metal das lâminas que eram colocadas em seus estojos.

Ele não se importava. E nem se moveu. Quase um dia inteiro se passara desde que ele entrara no calabouço. Depois de Scarlet ter feito seu anúncio, “Mentiras, finalmente estamos juntos mais uma vez”, ela tinha xingado baixinho e dito a ele:

— Mas agora que eu sei que é você, pode ir embora. — E se virou de costas para ele e deitou na sua cama, ignorando-o, cantarolando para si mesma como se não ligasse para a sua presença. Ela caíra no sono ao nascer do sol, e nada que ele dissesse ou gritasse foi capaz de acordá-la. Ela só voltara a despertar alguns minutos antes, quando o sol se pôs novamente.

Ela se sentara na cama, arfando, com um olhar frenético. Quando viu Gideon, já não estava tão selvagem, mas irritada e ofendida, embora ele não entendesse o motivo de nenhum dos dois sentimentos. Depois, ela voltou a se deitar no colchão.

— Não posso ficar aqui o dia todo, sabia? — ele disse.

Torin, que o observava através das muitas câmeras que instalara ali embaixo, deve ter ficado com pena dele, pois Doenças lhe trouxera uma cadeira para que se sentasse havia algum tempo. Ele tinha posicionado a cadeira o mais próximo possível da cela de Scarlet. Suas longas pernas estavam esticadas, seus tornozelos apoiados nas barras.

— Vá embora.

Ouvir sua voz após tão prolongado silêncio foi como encontrar uma piscina de ácido cheia de Caçadores dentro: uma maravilha. Ele chegou a estremecer. Mas, graças aos deuses, jamais admitira isso em voz alta. Cons-tran-ge-dor.

— Então... você está me ignorando agora? — ela resmungou.

Seria bom para ela ver o que era bom, já que o ignorara por muito tempo.

— Sim. Estou ignorando você. — No entanto, cada célula do seu corpo estava atenta a cada movimento de Scarlet. Então, mesmo que ele quisesse lhe dar exatamente o tratamento que ela merecia, não podia fazê-lo.

Vergonhoso. Os homens deviam estar sempre no controle, e as mulheres deviam lhes ser gratas por sua atenção. Os homens deviam dar ordens, e as mulheres deviam obedecê-las.

Certo, tudo bem. Ele nunca desejara aquilo antes, mas desejava agora, absoluta e loucamente. E não ajudava em nada o fato de Mentiras estar totalmente nas mãos dela. No momento estava quieto, mas cantarolando suavemente ao apreciá-la, apenas feliz de estar perto dela.

Seguiu-se outra sessão de silêncio, e ele sabia que ela o estava castigando. Mas por que razão, isso ele não sabia. Não fora ele quem a trancafiara ali. Claro que também não a libertara, mas ela tinha de reconhecer sua inteligência, pelo amor dos deuses. Ela teria fugido.

Scarlet. Ele gostava muito daquele nome. Era perfeito para ela. Perfeito para a curva dos seus lábios maliciosos, para o jeito tranquilo como ela o criticava, e para a obscuridade de sua personalidade. Ela passou uma das mãos pelo rosto.

— Apenas vá embora, está bem? Já terminei com você.

Finalmente, ela dissera algo mais. Ele poderia ficar ali para sempre, pensou, só para ficar perto dela. O que não fazia nenhum maldito sentido!

— Meu nome não é Gideon. — Ali estava. Simples. Fácil. E com sorte ela começaria a revelar informações pessoais em troca da sua. Dizendo de onde ela o conhecia, por exemplo. Explicando por que ele não se lembrava dela.

— Dãã. — Foi tudo o que ela respondeu.

Ela sabia? Como? Ele duvidava de que ela fosse lhe contar, então nem se deu o trabalho de perguntar.

— Eu sei muita coisa sobre você. Como por exemplo, que não é capaz de entrar nos sonhos das pessoas.

— É mesmo? Não me diga!

Não seria tão simples. Não seria tão fácil.

— Eu realmente odiaria se você deixasse meus amigos em paz.

— Negócio fechado. Considere feito. Vou perturbá-los a noite inteira, só para deixar você feliz.

Ele ficou olhando para o teto por um momento, pedindo paciência divina.

— Por favor, faça isso. — Droga. Ele quase nunca se importava com o fato de só falar mentiras, mas naquele momento aquilo o estava irritando profundamente.

— Ou prefere que eu me concentre apenas em você?

— Não. — Sim. E por mais que ele realmente quisesse que seus amigos pudessem descansar em paz, não era exatamente por isso que gostaria de manter aquela mulher longe dos sonhos deles. Ele a queria para si. Completamente. Até mesmo seu poder. Pelo menos até ele entender tudo aquilo.

Ainda assim, não fazia sentido algum. Ele não era um homem possessivo. Mais do que isso, ele não tinha qualquer razão para ser possessivo com aquela mulher.

— Sinto muito — ela disse, embora não soasse nem um pouco arrependida. — Não posso prometer isso.

— Eles não vão pensar em drogar você.

— Que tipo de drogas? Posso pedir Vicodin?

Então ela gostava de drogas humanas. Ele não podia culpá-la. Ele mesmo já experimentara uma ou vinte vezes. Não que elas o afetassem muito, mas pouco era melhor do que nada.

— Como você soube que eu gostava tanto de aranhas?

— Ai, você fala muito, sabia? Se eu lhe disser alguma coisa, vai calar a boca? Vou tomar seu silêncio com um sim. Como eu sabia que você adorava aranhas? Porque eu entro na mente das pessoas e simplesmente sinto as coisas. Foi assim. Agora cale-se de uma vez por todas.

Era verdade. Seu demônio reconhecia a verdade, como se fosse um único Caçador em meio a vários Senhores. Seu demônio costumava odiar isso, normalmente ficava chateado com tal habilidade, embora Gideon sempre tenha gostado dela. Naquele dia, porém, o demônio permaneceu quieto e feliz. Não importava o que saísse da linda boca daquela mulher.

— E foi assim que não descobriu qual era o meu nome?

— Estou vendo que você não tem a habilidade de respeitar acordos. — Ela bateu em uma parede, e uma nuvem de poeira se levantou ao redor. — E então? Vai me irritar até que eu conte tudo o que sei?

Ele não queria admitir que só queria ficar com ela, então ergueu as mãos enfaixadas e balançou-as.

— Eu poderia estar fazendo tantas outras coisas neste momento, como, por exemplo, lutando com meus amigos.

— Feridas não seriam capazes de deter um verdadeiro guerreiro.

Ai.

— Claro, pois um verdadeiro guerreiro gosta de atrapalhar todo mundo e até mesmo de ajudar o inimigo.

— Um verdadeiro guerreiro sempre tem êxito, apesar de suas deficiências. — Ela bufou — Eu disse deficiência, e você não tem mãos.

É. Engraçado.

— Se eu não tivesse todos os meus dedos, eu com certeza não estaria lhe dando um dedo.

— Típico de um homem que mais late do que morde. E acho que você se encaixa perfeitamente nessa triste categoria.

Qual o seu problema?, ele quis perguntar, mas as palavras sairiam mais ou menos como: Por que você não tem problema nenhum comigo?, e ele não queria ouvi-la dizer: Pergunta idiota. Eu tenho problemas com você. E ele diria: Então eu não quero saber quais são, ela diria: Ótimo, porque eu não pensava contar nada a você.

Já tivera conversas similares no passado. Já estava frustrado, confuso, curioso, ansioso, e todas aquelas emoções o empurravam cada vez mais perto de seu limite. Um limite que sempre o levava a dizer coisas que não queria e a fazer coisas que não poderia reverter.

— E como você perdeu as mãos? — ela perguntou de má vontade, como se não quisesse saber.

Sua curiosidade o agradou, e ele perdeu um pouco de frustração.

— As mãos, bem, elas não desapareceram durante uma tortura.

— Você cedeu?

— Claro. — Havia orgulho em sua voz. Ele não cedera. Não contara nenhum segredo.

— Exatamente como eu suspeitava.

Ele trincou os dentes. De alguma forma, ela sabia que ele era guardião das Mentiras. Sempre soubera. Ela também sabia que ele não podia dizer a verdade, mas continuava fingindo levar o que Gideon dizia ao pé da letra. Só para irritá-lo? Ou por estar com raiva dele? Raiva que ele ainda não entendia.

— Os Caçadores costumam fazer isso? — ela perguntou.

— Não.

— E como vai essa história, aliás? A guerra com eles?

Então ela também sabia sobre a guerra, embora ele não tivesse ouvido nada sobre seu envolvimento.

— Estamos perdendo. — Ganhando, mas por pouco. Eram dois artefatos contra um. Eles tinham libertado todas aquelas crianças metade humanas e metade imortais, criadas pelos Caçadores através de métodos terríveis. Tinham descoberto seu esconderijo em Buda. Não que ele pudesse comentar isso com Scarlet. — Como você parece não me conhecer, fico me perguntando se não veio aqui por minha causa.

— Não importa — ela disparou. — Olha, eu já disse ao seu amigo que tudo o que queria era que vocês me deixassem em paz. Eu sabia que vocês estavam me procurando. E eu queria que vocês parassem. Só isso.

Não. Aquilo não era verdade. Não podia ser. Mas ele não tinha como provar. Mentiras ainda não estava cooperando.

— Quanto você não sabe de mim? Por que eu sinto que não conheço você de antes, se eu já a encontrei antes?

Ela o encarou, estreitou os olhos, e mais uma vez, eles se encheram daquela raiva.

— Você não se lembra de mim? — Certo, raiva não era uma palavra forte o bastante. O horror cobria cada palavra dita por ela. — Não se lembra dos detalhes?

— Eu não... — Minta, minta. Ele não deveria ter de lembrar a si mesmo que precisava mentir, droga. — Sim, eu me lembro. — Mas não poderia ter encontrado Scarlet antes. Ele não esqueceria uma mulher como ela. Linda, selvagem, uma predadora. Ousada, dura, mas de alguma forma, vulnerável.

Sim, ele estivera com muitas mulheres ao longo dos anos. A maior parte delas por apenas uma noite. As mulheres não costumavam voltar após escutarem do homem com quem haviam estado como elas eram feias e estúpidas. Ou quando o homem não falava nada mesmo. E não, ele não se lembrava de todos os seus rostos, mas, como já considerara, ela não era uma mulher da qual ele teria se esquecido.

— Nós fomos amantes — ele disse, para começar a conversa. — Então isso está dentro. — Fora.

— Ha! — Ela voltou o olhar para ele e continuou encarando-o, analisando-o de cima a baixo. — Não tenho certeza se aprovaria o pacote, então, não. Não fomos amantes.

— Eu não tenho certeza se sei o que você quer dizer — ele disse, porque sabia. Ela não gostava de sua aparência. Suas mãos se transformaram em punhos. — Para a sua informação, eu sou muito feio.

Havia algo de soberba em seus olhos quando ela disse:

— Sim, eu sei. Foi exatamente isso o que eu disse.

Ele passou a língua pelos dentes. Eu sou sexy, droga! Sim, sua aparência não era tão ortodoxa. Cabelos azuis, alguns piercings. Tatuagens, embora nada que se comparasse a Aeron. Aquele cara estava coberto. Gideon, pelo menos, mantinha a si mesmo e as agulhas sob controle. Escolhera desenhos que significavam algo para ele.

Um par de olhos pretos que ele via sempre que fechava os olhos. Um par de lábios... vermelhos como sangue... Ele se sentou de um pulo, encarando Scarlet. Que tinha olhos pretos. E lábios vermelhos como o sangue.

— O que foi? — ela perguntou. — Eu sei que sou linda, ao contrário de você, mas faça-me o favor. Mostre um pouco de boas maneiras, pelo amor dos deuses.

Pelo que ele se lembrava, sempre tivera imagens em sua mente. Olhos pretos, lábios vermelhos, e até mesmo uma expressão, algo que só lhe ocorria nos momentos mais obscuros da noite: SEPARAR-SE É MORRER. Flores de um vermelho brilhante se curvavam abaixo deles.

Em sua mente, ele vira aquelas palavras e aquelas flores envolvendo a cintura de uma mulher. Seu coração acelerava sempre que pensava nelas, e por isso tinha as palavras, e sim, as flores, tatuadas em sua cintura, também. Um pouco feminino da parte dele, e muita gente já implicara com ele por causa disso, mas ele não se importava.

— Não quero ver a base de suas costas — ele lhe disse.

Ela ficou paralisada, não conseguia sequer respirar.

— Não apenas não, mas claro que não!

— Não estou disposto a implorar. — Ele precisava ver. Precisava saber. — Eu nunca vi você antes. Não sei que você tem uma tatuagem de flores lá. — Ela tinha, ele sabia que tinha.

— Está enganado. Eu não tenho.

Ela mentia, sem dúvida.

— Não prove, então.

— Eu não preciso provar nada.

Ah, que mulher frustrante. Ele ficou de pé. Já estava sentado por tanto tempo que seus músculos doeram em protesto, e seus joelhos tremiam.

— O quê? Não conseguiu o que queria e já vai embora? Ótimo. Vá fazer biquinho e chorar como um bebê!

Primeiro ela queria que Gideon fosse embora, agora fazia um escândalo porque pensou que faria isso. Mulheres.

Como seus punhos estavam enfaixados, era complicado segurar a bainha de sua camisa, mas, depois de vários minutos agonizantes, ele conseguiu. Levantou a peça e se virou de costas para Scarlet. Num primeiro momento, ela não demonstrou qualquer reação. Depois, ele ouviu um suspiro pesado e o ruído de passos.

Sentiu dedos quentes sobre a sua pele, e teve de morder os lábios para não soltar um gemido de prazer. A pele de Scarlet tinha calos, talvez por usar armas?, e queimava deliciosamente enquanto ela acariciava cada palavra, cada pétala.

Ela poderia ter uma lâmina escondida, poderia tê-lo apunhalado enquanto estava distraído, mas ele não conseguiu se importar com isso. Ela o estava tocando. Isso era mais excitante, mais... tudo do que estar dentro de qualquer outra mulher.

— Separar-se é morrer — ela sussurrou, triste. — Você sabe o que isso significa?

— Sim. Não me diga. — Por favor, deuses, por favor.

— Eu... eu.... — Ela deixou a mão cair. Um passo, dois passos para trás, ela aumentou a distância entre eles.

Gideon se virou rapidamente. Por um momento, esqueceu-se das barras e esticou os braços para tocá-la. Suas feridas bateram no metal, e ele se encolheu. A expressão de Scarlet empalideceu à medida que saía de seu alcance.

— Não me diga — ele exigiu.

— Já lhe disse para ir embora, Gideon.

Gideon. Pela primeira vez ela o chamara pelo nome. Isso o afetou profundamente. A palavra deslizou através dele, queimando todos os seus órgãos, especialmente seu coração acelerado. Porque... porque... embora fosse a primeira vez que dizia seu nome durante aquela conversa, não era a primeira vez que ele a ouvira dizê-lo.

E só então ele soube, soube, que já ouvira Scarlet dizendo seu nome antes. Em algum lugar, em algum momento. Ela já gritara seu nome com paixão, já sussurrara seu nome em uma súplica. Já murmurara seu nome com raiva; já chamara seu nome num momento de dor.

Ele já estivera com ela.

— Demônio — ele disse, desejando poder dizer seu nome verdadeiro.

Ela deve ter ouvido as confusas emoções em sua voz, pois, pela primeira vez, não fez nenhum comentário sarcástico.

— Vá embora, Gideon, como eu pedi que fizesse desde o começo. Por favor.

Por favor. Ele duvidava que ela dissesse isso com frequência. Mas, naquele momento, ela parecia à beira das lágrimas, e não o atacou como o tipo de mulher que gostava de chorar na frente de um homem. Nunca, por nenhuma razão.

No entanto, ela já tinha chorado antes. Ele sabia. Ela chorara, e ele a consolara. Quando? Onde?

A única vez possível teria sido quando ele vivia no céu. Como ela era possuída por um demônio da caixa de Pandora, ela já fora prisioneira do Tártaro. Ele não a prendera, mas será que a tinha visto por lá ao levar outros prisioneiros? Poderia ter falado com ela?

Como poderiam ter tido um relacionamento, e ele não se lembrar disso?

Alguém teria limpado sua memória? Os deuses seriam capazes disso. Eram capazes das coisas mais cruéis. Mas isso levantava outra questão: por que alguém teria interesse em apagar sua memória? O que ganharia com isso? O que evitaria?

— Você não tem um homem? — Sua voz era tão áspera, tão rouca, que qualquer pessoa que o escutasse imaginaria que ainda teria de se recuperar de uma séria infecção de garganta. Um marido, no entanto, teria desejado ver Gideon fora de cena.

— Não — ela murmurou, com uma voz tão triste que ele ficou com lágrimas nos olhos. Tão triste que rivalizava com o tom de Cameo, a própria Infelicidade. — Não tenho.

— Nem pai?

— Meu pai morreu. — Ela voltou a se deitar, olhando para o teto. — Há muito, muito tempo.

Seria verdade? Droga, demônio! Ajude-me!

— E mãe?

— Minha mãe me odeia.

Gideon teria de aceitar o que ela dizia como a mais pura verdade.

— Existe alguém que gostaria de vê-la... feliz?

Por favor, entenda que na verdade eu quero dizer muito triste.

Em vez de responder, ela se virou para um lado, escondendo o rosto dele.

— Se eu lhe disser o que quer saber, vai me deixar em paz? Não estou fingindo fazer um acordo com você dessa vez, Gideon. Se eu lhe contar e você não for embora...

Ele não queria ir embora. Agora, mais do que nunca, ele queria ficar. Mas tinha de saber a resposta. Talvez isso o ajudasse a resolver o mistério.

— Não. Diga e eu ficarei.

Uma pausa. Depois...

— Eu menti para você antes, quando fingi não reconhecê-lo. Eu o reconheci, desde o início. Separar-se é morrer — ela disse, trêmula. — Foram as palavras que você disse certa vez à sua... esposa.