A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 17 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Dezessete

APÓS TER RASGADO um pedaço da parte inferior de sua túnica e enrolado a tira no ombro de Aeron, Olivia tirou uma das lâminas do estojo guardado em seu tornozelo. Vou protegê-lo. Seja lá o que for preciso para isso. Da mesma forma como ele fizera com ela. Ela se agachou na frente dele, esperando que seus amigos chegassem. Ou os Caçadores. Se alguém que não fosse um Senhor se aproximasse, ela não hesitaria em atacar.

Nunca se sentira mais guerreira, mais confiante em si mesma e com muito mais medo, pela vida do homem que estava ao seu lado. Ele já levara tiros antes; ela mesma vira. Já fora apunhalado, espancado e cortado com facas e flechas. Mas nunca reagira daquela maneira. Nunca ficara pálido, gemera ou tremera. E não permanecera sangrando até enfraquecer.

Os minutos se sucediam, e ele não melhorava. Pelos céus, onde estariam aqueles Senhores? Seria melhor que se apressassem, e não apenas pelo bem de Aeron. Se esperassem muito tempo, a noite viria e Scarlet acordaria. E ficaria muito, muito irritada.

Ninguém sobreviveria.

Pelo menos aquela voz tentadora se calara no momento em que ela deixara a fortaleza, parando de encorajá-la a fazer coisas más, maravilhosamente más. Dificilmente um pequeno alívio em meio a tanta aflição. Nada seria. Os animais não paravam de se amontoar por entre os arbustos e as flores, atraindo a atenção dos passantes. Estavam tentando chegar perto dela? Ou de Aeron? Ela não se lembrava de animais se aproximando de Aeron antes, mas não entendia por que esquilos, coelhos, pássaros, gatos, e até um cachorro se aproximariam dela.

— Vão embora — ela sussurrou, pois não queria que se machucassem se uma batalha realmente se instalasse por ali.

Eles não se mexeram. Na verdade, chegaram ainda mais perto. Dela. Então era ela o ímã. Por quê?

— Vocês precisam ir embora agora...

Um galho se moveu, calando Olivia.

Um cachorro latiu e os gatos ronronaram, mas nenhum foi embora. Eles se encolheram, prontos para o ataque.

Ela pressionou os lábios, todos os músculos do seu corpo imóveis. Chegou a parar de respirar. Quem estava ali? Os Senhores? Ou os Caçadores? A mão que segurava a lâmina tremia. Por Aeron, ela pensou, preparando-se como os animais. Ficou repentinamente feliz por eles terem permanecido ao seu lado.

Dois homens deram um passo além da folhagem, e num primeiro momento, ela não os reconheceu. Estava bastante preparada, bastante determinada a salvar o homem que... amava? Mas, no exato momento em que ela se lançou para frente, o cachorro correu na direção do alvo e atacou.

— Ai! Saia de cima de mim, seu vira-lata sarnento — ele gritou.

Olivia reconheceu aquela voz, era William, mas não baixou a lâmina a tempo, seus movimentos muito lentos. Pouco depois do contato, outra mão dura agarrou seu pulso, atirando-a para o lado antes de imobilizá-la.

— Ei, Liv, calma — ele disse com uma risada. Sua voz também era familiar. Paris. — Posso chamá-la de Liv, certo? Largue a lâmina para mim, por favor, está bem?

Ela ficou aliviada e soltou a arma.

— Agora diga para esse vira-lata me soltar! — gritou William.

— Eles são meus amigos — ela disse ao cachorro. — Estou segura agora.

O cachorro tirou os dentes do tornozelo de William, e todos os animais foram embora, como se estivessem apenas esperando por isso; pela garantia de sua segurança.

Que fofos.

— Obrigada — ela disse, grata.

— Agora que William foi devidamente recebido — disse Paris, com outra risada —, melhor colocarmos o pé na estrada. — Seu rosto demonstrou preocupação quando olhou para Aeron. Ele se inclinou, colocou os braços em volta do guerreiro, que ainda dormia, e o levantou. — Há quanto tempo ele está assim?

— Por muito tempo.

William se aproximou de Scarlet e fez o mesmo, mas ele a aconchegou nos braços como se fosse um tesouro precioso.

— Pelo menos eu fiquei com o pacote bonito.

— Sim, boa sorte com ela — disse Paris. — Eu acho que fiquei com a melhor parte do negócio. Aparentemente, ela é possuída por Pesadelos.

William virou os olhos.

— E isso é ruim?

— Se você não gosta de ter o seu saco arrancado, então, sim, acho que é ruim.

— Venha com o papai — disse William, segurando Scarlet ainda mais forte.

Olivia ouvia as provocações dos guerreiros, sua cabeça ia de um lado para o outro entre eles.

— Chega. Havia dois Caçadores aqui, vocês sabem. Este local é perigoso. Mais do que isso, há algo errado com Aeron. Eu o quero na cama.

— Claro, claro — disse William, com um aceno positivo. — Soubemos disso desde o início. Mas vai ter que esperar até que ele acorde para praticar esse tipo de esporte. Mas quando terminar com ele, eu adoraria fazer uma tentativa com você. Mostrar o que é estar com alguém que sabe o que está fazendo, e tudo o mais.

As mãos de Olivia tomaram a forma de punhos. Ele não levava nada a sério?

— Nós estacionamos por aqui — disse Paris, apontando para o lado com a cabeça.

Finalmente.

— Vamos.

Juntos, passaram por entre os arbustos, e todos os homens ficaram em alerta. Em poucos segundos, era como se fossem pessoas diferentes. Escondidos, faziam brincadeiras uns com os outros e implicavam com ela sobre levar Aeron para a cama. Agora eles eram soldados, sérios, capazes de qualquer coisa.

Ela já notara esse tipo de mudança em Aeron muitas vezes. Mas até então, ela nunca a apreciara.

Aeron. O bravo e ferido Aeron. Quando seus nove dias chegassem ao fim, e ele fosse tirado dela, para onde iria? O que faria? Duvidava que aqueles homens a convidassem para continuar com eles. E ela gostaria de ficar com eles? Aeron já não estaria mais lá, e a lembrança dele a provocaria em todos os cantos.

Pela segunda vez, Olivia se viu chateada com o pouco tempo que lhe restava ao lado de Aeron. Talvez houvesse uma forma de salvá-lo. Talvez existisse uma maneira de permanecerem juntos para sempre. Sim. Claro. Sua Divindade era a criadora do amor. Na verdade, sua Divindade era o amor. Ele gostaria que duas pessoas que se amavam permanecessem juntas. Certo?

Mas ela ainda não estava totalmente certa se realmente amava Aeron. Ela o admirava, sim. Ficava excitada ao vê-lo e desejava seu toque... ah, isso sim. Mas morrer em seu lugar?, ela se perguntou mais uma vez. E mais uma vez não estava certa. Já abrira mão de tudo para estar com ele; de tudo, exceto de sua vida.

Seria capaz de fazer isso?

Além do mais, morrendo por Aeron, ela também estaria morrendo por Legião. Pois Olivia sabia, sim, ela sabia, que Aeron nunca seria feliz sem a sua pequena, agora, grande, tirana. E, caso Aeron sobrevivesse, ela queria que ele fosse feliz. Porém, a ideia de morrer por uma pirralha mentirosa e manipuladora não lhe caía nada bem.

Mais do que isso: Aeron teria de amar Olivia. E naquele momento, estava claro que não a amava.

Olivia suspirou enquanto entravam no carro. Aeron foi deitado no banco traseiro, e Olivia apoiou a cabeça do guerreiro em seu colo. Paris assumiu o volante, e William se sentou no banco do carona, com Scarlet ainda nos braços. Era a primeira vez de Olivia num carro, algo que ela sempre quisera fazer, mas, naquele momento, ela não ligava. Sua mente estava girando.

Nunca pensara na morte para si mesma. Não mesmo. Ela simplesmente sempre existira, e sabia que existiria para sempre. Agora ela poderia morrer. Não para salvar alguém, mas simplesmente porque, digamos, um carro poderia atingi-la. Como se sentia em relação a isso? Não sabia. Tudo o que sabia era que morrer, sem antes experimentar tudo o que queria, seria terrível. Mas e depois? Ficar sem Aeron seria bem pior.

Já vira milhares, milhões de humanos morrerem. Mas nenhuma daquelas mortes a afetara, pois simplesmente faziam parte do ciclo da vida. Todo começo tinha um fim. Talvez por isso, num primeiro momento, ela não tenha ficado triste ao pensar em perder Aeron. Seria apenas mais uma morte na longa lista que ela presenciara.

Mas a dele era pessoal. Ela o conhecia intimamente, ela o beijara e sentira o seu gosto. Experimentara o prazer total com ele. Dormira nos seus braços, enroscada com ele. Ele a protegera. E poderia ter entrado naquele caixão sozinho, mas não entrou. Ele a colocou lá dentro, para garantir que ela saísse ilesa em vez dele.

Portanto, ele estivera disposto a morrer por ela. Por quê? Mas ela ainda não tinha a ilusão de que Aeron a amava.

Olivia suspirou mais uma vez e passou a palma da mão na cabeça de Aeron. Seus cabelos eram muito curtos e faziam cócegas na pele dela. Mais tarde, ela invocaria Lysander. Perguntaria sobre tudo aquilo, e também sobre a visita que ele fizera a Aeron. Ele não seria capaz de mentir para ela. E se o que ele dissesse fosse ruim e destruísse suas esperanças de um futuro junto àquele homem maravilhoso, ela iria... o quê? Engoliu em seco.

— Não deveríamos deixar Gilly naquele apartamento — disse William, de repente, tirando Olivia de seus pensamentos. — Não com inimigos rondando por ali como moscas.

— Primeiro: Aeron precisa ir para casa. Segundo: ela ficará melhor por lá, não estando associada a nós — disse Paris, olhando pelo retrovisor, observando todos os lados. — Os Caçadores não têm ideia...

William bateu com a mão no painel do carro.

— Permita-me discordar, Luxúria. Eles sabiam sobre Scarlet, e que contato nós tivemos com ela? Quase nenhum. E com Gilly? Muito. E com Rhea entre eles, não podemos deixar Gilly lá sozinha. Além do mais, Aeron é imortal. Ele vai sobreviver. Mais uma vez, repito, não podemos deixá-la sozinha lá.

— Droga. Você tem razão.

— Sempre tenho.

— Passaremos para pegá-la a caminho da fortaleza.

— Ela vai estar no colégio — disse William, e Paris xingou ao fazer uma curva proibida, com os pneus cantando.

Olivia pensou em reclamar. Queria ver Aeron a salvo e medicado o mais rápido possível, mas aqueles dois tinham razão. Gilly era humana e precisava ser protegida.

— Droga — repetiu Paris. — Ela está na Escola Internacional Americana de Budapeste, no campus Nagykovácsi. Eu acho. Vamos ter que percorrer uma boa distância até lá.

— Valerá a pena.

Havia uma estranha doçura na voz de William quando falava sobre a menina. Mas Gilly era muito jovem para ele. Muito jovem para qualquer um naquela fortaleza. Se Olivia tivesse de afastá-lo de Gilly, ele não gostaria nada dos seus métodos. Envolveriam uma faca e uma pequena bolsa de plástico.

Está adotando a vida de guerreiro que antes rejeitava tão facilmente?

— Duvido que ela fique feliz em nos ver — disse Paris.

— Fale por você. Anya sempre diz que ela tem uma queda por mim. — William parecia orgulhoso disso.

— Ela é apenas uma criança — disse Olivia. E não me importa se sou considerada uma guerreira ou não, vou roubar mesmo uma das facas de Aeron...

William se revirou no assento e olhou para ela, e Scarlet nem se perturbou. Os lábios dele se erguiam em um sorriso maldoso.

— Eu sei disso, mas quando o assunto é o meu poder de atração, vai descobrir que essa história de idade não importa. Nem de gênero. Sou irresistível.

— Quais são as suas intenções com ela?

Ele virou os olhos.

— Não tenho intenções com ela. Gosto de ser admirado, e ela gosta de me admirar. Só isso.

— Certo. — Olivia não notou mentira em seu tom de voz. Mesmo assim, não se arriscaria. Não quando o bem-estar de Gilly estava em jogo. — Ela teve uma vida difícil. O marido de sua mãe... fez coisas a ela. — Talvez não devesse estar contando a ninguém os segredos de Gilly, mas aquelas lembranças pareciam apodrecer dentro dela. Trazê-las finalmente à luz poderia ser o primeiro passo para curá-las. — Ela contou à mãe, que se negou a acreditar. Chegou até a acusá-la de querer destruir sua nova e maravilhosa vida.

— Já sabemos disso — disse Paris, gentilmente. — Danika nos contou.

— Eu não sabia — disse William, voltando a olhar para a frente, mas Olivia foi capaz de notar uma expressão de completa e pura raiva em seu rosto. — Como você ficou sabendo disso?

— Já recebi a missão de cuidar dela.

O resto da viagem foi tenso, marcado por um silêncio opressivo. Finalmente, chegaram a um subúrbio da cidade, com casas de aparência convidativa, aconchegante. Árvores frondosas e verdes cercavam a área, e uma parte do lugar ficava em uma colina e se erguia majestosamente.

Pararam o carro num estacionamento. Paris deu uma olhada para William e disse:

— Vou ser rápido. Fique de olho na bagagem.

Sem avisar, e movendo-se tão rapidamente que Paris não pôde fazer nada, William largou Scarlet no colo do demônio, dessa vez sem tanto cuidado, e retrucou:

— Eu não vou demorar nada. Você assusta Gilly, e não vou aceitar isso. Hoje, não.

— Eu não assusto as mulheres. Eu as deixo maravilhadas. Além disso, você não está na lista de responsáveis por ela; eu, sim.

William virou os olhos, aparentemente, adorava fazer isso, e saiu do carro.

— Como se isso fosse me impedir. Já viu meus olhos? Eles são elétricos. As mulheres me olham uma vez, e eu entro imediatamente na lista de todas elas.

— Pare de ficar se gabando e ande logo — disse Olivia, batendo a porta rapidamente.

Ele a cumprimentou com um sorriso amarelo.

Ela ficou observando enquanto ele entrava no colégio, acariciando a testa morna de Aeron. Ele não estava melhorando, na verdade, estava começando a piorar. Sua testa estava banhada em suor, e seus dentes estavam perfurando seu lábio inferior.

Sem saber mais o que fazer, Olivia começou a cantar. Canções suaves de paz e bem-estar. E depois de alguns acordes, Aeron se acalmou, sua expressão contorcida de alguma maneira ficou mais relaxada.

— Meus deuses — murmurou Paris.

Olivia parou de cantar e olhou para ele.

— O quê? O que foi?

Aeron começou a se mover novamente.

— Não pare! — disse Paris. — É lindo. Meus ouvidos já estão viciados e precisam de mais.

— Ah, obrigada. — Olivia começou mais uma serenata. Do lado de fora, ela podia ver vários animais saindo do bosque e se aproximando do veículo. Mais uma vez, Aeron ficou mais calmo, e ela poderia ter chorado de alegria.

Seria capaz de morrer por ele? Traçou uma das tatuagens de caveira em sua bochecha. Talvez.

WILLIAM ESTAVA DE pé na secretaria da escola, esperando por Gilly. A recepcionista já a tinha chamado. Como ele tinha dito à mulher que seu nome era Paris, o Senhor, ela chamou a menina sem pensar duas vezes. As tais listas realmente funcionavam.

A recepcionista era baixinha e encurvada, com 30 e poucos anos, cabelos castanhos lisos e bem curtos e olhos da mesma cor, olhos que, naquele momento, pareciam estar arrancando a roupa de William. Algo que acontecia com certa frequência. E do qual ele gostava muito. Não tanto agora. Só queria tirar Gilly dali. Gostava daquela menina espertinha, e não descansaria até que ela estivesse em segurança.

Não tivera ideia de que sua vida tivesse sido tão terrível, e sentia vergonha de si mesmo. Ele conhecia as mulheres. Era capaz de descobrir tudo sobre elas com uma rápida olhada de cima abaixo. Então, como não percebera que Gilly estava ferida?

Sua maldita mãe e seu futuro padrasto! Duas pessoas que deveriam protegê-la. Mas William estava ali agora e asseguraria que nada disso voltaria a acontecer. Estava tentado a cortar a garganta da mãe e do padrasto dela. E talvez dar a ela a cabeça deles como presente de Natal, ou algo parecido.

— Você é o pai de Gilly? — perguntou a recepcionista, deixando o seu posto de trabalho e contornando o balcão, ficando de frente para ele.

Droga. Ele não notara o seu movimento. Aquele nível de distração era perigoso.

— Irmão — ele respondeu, um pouco irritado ao notar que tinha aparência de ser pai de uma menina de 17 anos. Tudo bem que ele estivesse completando dois mil anos, mas não tinha nenhuma ruga!

— Ah, legal — ela respondeu, sorrindo e entregando-lhe um pedaço de papel. — Caso queira discutir seus progressos na escola, este é o meu telefone. Ligue quando quiser.

— Entrarei em contato, definitivamente. — Ele também sorriu, embora o seu fosse um sorriso forçado. E colocou o papel no bolso, sabendo que nunca o usaria. — A educação é muito importante — ele disse.

Ela deu uma risadinha, e ele tentou não ficar constrangido.

Mulheres. Eram uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. Sexo, isso ele amava, precisava, desejava. Sexo com a mulher errada o levara à prisão. Sexo com as deusas que o visitaram na prisão o fez ser expulso do céu. Mas nem isso conseguiu deter sua libido. Na verdade, nada poderia deter sua libido. Nem mesmo a maldição que pairava sobre sua cabeça.

Um dia, uma mulher de grande beleza e poder o tentaria. Um dia, essa mulher o deixaria apaixonado. Um dia, essa mulher o escravizaria. E por fim, essa mulher o mataria.

A profecia já fora anunciada.

Talvez, apenas talvez, nada provável, ele pudesse evitar todas as mulheres e salvar a si mesmo de tal sentença de morte. Mas nem isso o salvaria, pois também fazia parte da profecia. Evitando as mulheres e o sexo, ele simplesmente seria condenado a uma morte muito mais rápida e dolorosa.

A única forma de deter tal mulher e quebrar a maldição estava escrita num livro. Um livro quase impossível de ser decodificado, então ele ainda não encontrado a resposta. Além do mais, uma puta deusa menor da Anarquia estava com o livro nas mãos, e só o entregava página a página. Ele odiaria Anya por isso, se não a amasse tanto.

Eles haviam passado centenas de anos sendo vizinhos de cela no Tártaro. A sagacidade daquela mulher fora a única coisa que o manteve são.

— William? — chamou Gilly, com sua voz rouca.

Ele girou o corpo, e ali estava ela, de pé no final de um longo corredor. Era esbelta, com cabelos pretos, olhos pretos e... era mais inteligente do que qualquer pessoa de sua idade deveria ser. Essa deveria ter sido a primeira pista, pensou.

Talvez ele tenha percebido algo, mas não quisera aceitar.

Ela vestia calça jeans, camiseta e tênis com um sistema de rastreamento escondido nas solas, embora não soubesse disso. Seus cabelos estavam presos num rabo-de-cavalo, sem nenhum traço de maquiagem no rosto.

O que não parecia importar para o menino ao seu lado. Ele olhava para Gilly, hipnotizado. Porém, ao vê-la chamar o nome de William, o rapaz franziu a testa. E quando seguiu o olhar de Gilly e viu o guerreiro, franziu ainda mais a testa e ficou pálido.

Namorado? Ou potencial namorado?

Alguém teria de colocar um ponto final naquilo. Ela era muito jovem, com um passado muito traumático. Precisava ficar sozinha. Até, pelos menos, seus quarenta anos.

— Oi, querida — respondeu William, acenando com a mão.

Sorrindo, ela correu na sua direção e atirou-se nos seus braços. Ele a abraçou com força antes de pegar o seu pulso e arrastá-la para fora dali. Ele podia gostar dela, querer o melhor para ela, mas não queria mais sua atração.

— O que está fazendo aqui? — ela perguntou.

O menino com quem ela estivera apareceu atrás dela. Era alto para um adolescente, chegando à altura das orelhas de William, com cabelos castanhos e olhos azuis.

— Quem é você? — perguntou William, sem fazer cerimônia.

— Ahn... Corbin, senhor.

— Que tipo de nome é Corbin Senhor? E se algum dia você fizer mal a Gilly, eu juro pelos deuses que vou pessoalmente...

Gilly bateu no ombro de William.

— Pare com isso. Cori é meu amigo. Ele só queria garantir que eu chegasse bem à secretaria.

— Isso é admirável — disse William, sem tirar os olhos estreitos do rapaz. — Desde que o seu único objetivo seja protegê-la.

Corbin puxou o colarinho da camisa.

— Você é o... namorado dela, ou algo parecido?

— Irmão — respondeu William.

Ao mesmo tempo em que Gilly disse:

— Sim.

Seu olhar finalmente se voltou para ela, e ele arqueou uma sobrancelha. Sim? Então, eles precisavam conversar. Talvez, mais tarde. Ouvir aquela palavra fez alguma coisa se apertar em seu peito. Descobriria o significado daquilo depois.

— Então, por que está aqui? — ela perguntou mais uma vez, com as bochechas ficando vermelhas.

Ele não gostou de saber que a deixara sem graça. Mas não poderia fazer nada.

— Aeron foi ferido. Temos problemas na cidade e queremos que fique na fortaleza com os outros até que tudo esteja seguro outra vez.

— Aeron? — perguntou Corbin.

— Outro irmão — William informou.

O menino arregalou os olhos.

— Quantos irmãos você tem?

— Muitos — respondeu Gilly, com um suspiro cansado. — Então você vai estar lá na fortaleza, Liam?

Liam. O apelido que ela lhe dera. Já gostara de ser chamado assim. Agora o enxergou como a demonstração de carinho que deveria ser. Ah, sim. Eles estavam conversando. Maldita beleza irresistível a sua...

— Sim, vou estar lá. Então, vamos para casa, querida. Aeron está no carro e precisa de cuidados médicos.

Mesmo com o medo que sentia dos Senhores, ela ficou pálida de preocupação, agarrou sua mão e o guiou até a saída do prédio.

— Tchau, Cori — disse por sobre o ombro.

— Tchau — o menino respondeu, e havia um certo nervosismo na voz dele.

William deu uma olhada para o carro, mas não conseguiu ver Olivia pela janela com vidro fumê, sem falar na quantidade incrível de cervos que agora rodeava o veículo. No entanto, nem precisava vê-la para saber que, se não conseguissem levar Aeron à fortaleza em segurança, o anjo, mesmo com toda a sua bondade, explodiria em um caldeirão fervente de fúria feminina. Estava estampada nos olhos dela uma paixão arrebatadora e irrefreável. Algo do qual ela provavelmente nem sabia que era capaz, mas que William percebeu, pois, embora não soubesse nada sobre o passado de Gilly, fora capaz de identificar os sonhos, medos e necessidades de Olivia no momento em que a vira.

Aeron era tudo para ela. Se o guerreiro morresse, nem os deuses seriam capazes de aplacar a sua violência.