A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 21 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Vinte e um

OLIVIA NÃO ACREDITAVA no que acabara de acontecer com Aeron; e no que estava acontecendo agora com Legião. Nua. Sexo. Prazer. Felicidade. Esperança.

Tudo acabado.

Tremendo, ela se abaixou para pegar a túnica e vesti-la por cima da cabeça. Felizmente, as asas de Aeron a mantiveram escondida todo o tempo. Ela adoraria ter podido aproveitar melhor aquele momento depois do prazer. Para descobrir se Aeron fora tão afetado quanto ela.

O sexo era... muito mais do que ela podia ter imaginado; e ela imaginara muitas coisas desde o primeiro orgasmo que ele lhe proporcionara. O prazer, a satisfação, o poder de saber que estava levando alguém à loucura. A proximidade, a troca, a entrega, a aceitação. Cada minuto era um milagre.

Ela estivera viva durante séculos. Por que não estivera fazendo isso por todo esse tempo? Embora suspeitasse que a experiência não seria a mesma com nenhum outro homem. Só com Aeron. O seu Aeron. O homem que a fazia desejar... sonhar.

Os gritos estridentes de Legião a trouxeram de volta à realidade:

— Puta! Vaca! Eu vou matar você!

Tentação gargalhava na mente de Olivia. Estivera em silêncio durante o ato sexual, pois era exatamente o que queria fazer. Mas por que retornara?

William ainda segurava Legião, mas não conseguiria mantê-la presa por muito tempo. Olivia já esperava que ele não conseguisse. Alguém precisava colocar Legião no seu devido lugar, e ela ficaria mais do que feliz se pudesse fazer isso. Queria curtir seu prazer após o sexo, droga!

— Vista-se — Olivia disse a Aeron, odiando que outra mulher, principalmente aquela mulher, estivesse vendo seu homem nu. Todas aquelas tatuagens deveriam ser suas, para que apenas ela pudesse banquetear-se com elas. Visualmente ou de qualquer outra maneira. Gostaria de ter podido lambê-las.

Da próxima vez.

Haveria uma próxima vez?

A expressão de Aeron era dura, indecifrável. Ele subiu a calça e fechou-a na cintura. Como suas asas continuavam abertas, ele não podia colocar uma camisa. Pelo menos o ato de se vestir fez com que ele voltasse a se mover. Deu um passo à frente, passou um dos braços ao redor da cintura de Legião e carregou-a de lado, como se fosse um saco de batatas.

O demônio não parava de se debater:

— Solte-me! Deixe-me pegá-la!

— Você já pode ir — disse Aeron a William. — Eu resolvo as coisas a partir de agora.

Havia cortes no rosto e nos braços de William, e todos eles sangravam. O guerreiro assentiu, torcendo os lábios, divertido.

— Boa sorte, amigo. Ah, e só para você saber. Foi convocada uma reunião. Na sala de jogos, em dez minutos — disse isso e saiu pelo corredor, fechando a porta atrás de si e assobiando baixinho.

Aeron carregou seu prêmio até a cama e a jogou em cima do colchão. Ela quicou para cima e para baixo, tentando se levantar, sem nunca deixar de olhar para Olivia.

— Fique quieta — ele ordenou.

Legião ficou paralisada, olhando para ele, até que um sentimento óbvio de autopreservação tomou conta dela e ela resolveu acalmar suas reações. E a autopreservação foi rapidamente seguida pela determinação. Ela se sentou na beira da cama, com os cotovelos para trás, o peito estufado para a frente, as pernas apoiadas no chão, abertas e prontas para envolvê-lo.

— Importa-se de se juntar a mim? — ela perguntou, com a voz rouca.

Ah, não, ela não fez isso, Olivia soltava fumaça de ódio enquanto Tentação gritava sua própria recusa. Chega! Ela se lançou à frente, ultrapassando Aeron sem dizer nada, e parou na frente de Legião. Antes que algum deles soubesse o que ela planejava fazer, Olivia deu um soco na boca de Legião.

A cabeça do demônio tombou para o lado, seu lábio inferior se cortou e estava sangrando. Os nós dos dedos de Olivia latejavam, mas ela recebeu a dor de bom grado. Tente beijá-lo agora.

Mãos quentes e pesadas se apoiaram em seus ombros e a giraram. Aeron não olhava para ela, mas para Legião, por sobre seu ombro.

— Fique quieta.

A ordem foi recebida com um rosnado, mas Legião obedeceu.

O olhar de Aeron finalmente se dirigiu a Olivia. Aquelas íris violeta começaram a demonstrar surpresa, espantando sua fúria.

— Eu nunca imaginei que teria de lhe dizer para se comportar.

Ela ergueu o queixo.

— Não vou tolerar ser chamada de nomes tão vis.

— Você não vai precisar. — Mais uma vez, ele olhou para Legião. — Entendeu?

O apoio dele deixou Olivia surpresa. Ele estava preferindo a ela... em vez de Legião? Por um momento, Olivia não conseguiu respirar. Mal podia se manter de pé. Mas não havia tempo para se regojizar com aquela sensação maravilhosa. Aeron passou por ela, como se já tivesse sido esquecida, e agachou-se na frente de Legião.

— Você não tem motivo algum para machucar a minha... o anjo. Eu amo você — ele disse. — Você sabe disso. — Seu tom era suave, carinhoso. — Quero que me diga que sabe disso.

— Sim, eu sei disso — disse Legião, já desprovida de toda a raiva, aproximando-se dele e tocando seu queixo, querendo puxá-lo para lhe dar um beijo. — Eu também amo você.

Com um gentil porém decidido puxão, Aeron tirou as mãos de Legião do seu rosto.

— Eu não a amo dessa forma. Eu a amo como uma filha. Quero que me diga que sabe disso.

Num primeiro momento, seu rosto foi tomado pela raiva. Depois, pelo choque. E em seguida, pelo medo. Tudo em um único segundo. Seu queixo tremia, e lágrimas de inconsolável tristeza encheram seus olhos.

— Mas eu sou bonita.

— Você já era bonita antes, mas isso não muda os meus sentimentos.

Legião sacudiu a cabeça, recusando-se a aceitar.

— Não. Você tem que ficar comigo. Você tem que...

— Isso não vai acontecer, querida.

Várias lágrimas rolaram, molhando suas bochechas.

— Isso... isso é por causa do anjo?

— Olivia não tem nada a ver com o que eu sinto por você.

De repente, Olivia desejou estar em outro lugar, em qualquer outro lugar. Ela não deveria estar ali. Não deveria estar testemunhando aquele momento íntimo. Sim, era isso o que ela iria fazer. Iria para qualquer outro lugar. Seus joelhos fizeram um barulho enquanto ela caminhava para a porta.

Pare! Para onde está indo? Tentação. Quando aquele demônio a deixaria de vez?

— Você está mentindo! — gritou Legião. — Você a ama.

Olivia ficou com a mão paralisada na maçaneta.

Silêncio. A resposta... Ela precisava ouvir a resposta.

— Legião — ele disse, suspirando.

Olivia ficou decepcionada, mas nem assim conseguiu se forçar a sair do quarto. Não ainda. Talvez ele fosse...

— Você não pode amá-la — gritou o demônio. — Você tem que me amar.

— Eu já disse, eu amo você.

Seu estômago estava se revirando... Diga... Diga as palavras.

— Não! Você tem que me amar como uma esposa. Precisa me dar prazer com seu corpo. Senão...

— Senão o quê? — ele perguntou, em tom áspero.

Olivia ficou tensa. Ah, Divindade. O pacto. Ela se esquecera do pacto de Legião com Lúcifer. Terror, muito terror. Ela virou o corpo e pressionou as costas contra a madeira da porta, tremendo. Esperando. Mais do que uma declaração, ela precisava ouvir isso.

— Conte a ele — Olivia ordenou. — Ele merece saber.

— Conte-me — Aeron repetiu.

Legião engoliu em seco.

— Se eu não conseguir seduzir você em oito dias, Lúcifer vai... ele vai... possuir meu novo corpo — ela sussurrou. — Se eu falhar... ele vai... ele vai... me usar para matar você e seus amigos.

Não. Não!

Aeron olhou rapidamente para Olivia, um pouco inseguro, como se não entendesse a confissão de Legião.

— Fisicamente, ele não pode sair do inferno. Ele não pode...

— Pode sim. Se ele a possuir, poderá fazer qualquer coisa — disse Olivia, com as mãos coladas ao pescoço. Seu horror não durou muito tempo. O sangue congelou em suas veias, fazendo com que a sensação ficasse dormente. Ela estivera tão perto do paraíso, tão perto... para ser jogada no inferno. — Ele poderá se reproduzir com quem ele quiser, assumir o controle dos Caçadores, influenciar os humanos e fazer com que eles se voltem contra vocês. Ele pode até infiltrar-se no reino dos anjos e destruir todos da minha raça.

As costas de Aeron ficaram tão rígidas quanto um cano de aço.

— Mas por que ele iria querer fazer tudo isso?

— Por que mais? Por poder. Liberdade. Maldade. Ele odeia os anjos, que deveriam ter escolhido segui-lo, mas escolheram permanecer ao lado da Única Divindade Verdadeira, cuja destruição é a coisa mais desejada por Lúcifer. Com seus Altos Senhores demônios vagando livremente pela Terra, sua chance de conseguir isso será bem maior.

Chega dessa bobagem. Cale a boca dela, Tentação ordenou.

Olivia o ignorou e piscou os olhos, perplexa, um segundo depois. Ela já sabia que a voz pertencia a um homem, mas agora percebia que ele queria que ela conquistasse Aeron, mais especificamente, queria que Legião falhasse em sua missão. Aquele homem queria evitar que Legião convencesse Aeron a levá-la para a cama.

Não era um demônio, no final das contas.

Era Lúcifer, ela se deu conta. Lúcifer era a sua Tentação. Ele não precisava sair do inferno para espalhar sua voz por onde quisesse, ou para sussurrar na mente de alguém. Tudo o que precisava era unir-se a uma alma disposta a ser corrompida.

Adeus dormência abençoada. Seu horror voltou, assim como seu medo, tudo misturado à vergonha. Como não tinha percebido antes? Como não enxergara a verdade? Anjo burro.

— Por que você faria um pacto desses? — perguntou Aeron.

As lágrimas continuavam a rolar pelas bochechas de Legião.

— Eu queria ficar bonita. Para me transformar no que você precisava. Pensei que o conquistaria, que faria com que se esquecesse do anjo. Imaginei que faria você feliz.

Aeron passou uma das mãos pelo rosto, com suas unhas arranhando sua pele, deixando marcas vermelhas.

— Eu não acredito nisso. Você tem ideia do que fez? Tem ideia das coisas com as quais se envolveu?

Legião assentiu, com o queixo tremendo.

— Eu sinto muito. Muito mesmo.

Seguiu-se uma pausa, e depois um triste:

— Eu também.

Ao ouvir aquelas palavras, Olivia soube. Ela soube. Aeron já se decidira. Dormiria com Legião. Entraria no seu corpo da mesma forma como entrara no corpo de Olivia. Pois assim salvaria o demônio das garras de Lúcifer. Salvaria seus amigos da ira de Lúcifer. Evitaria a vitória dos Caçadores.

Os olhos de Olivia se encheram de lágrimas, mas ela piscou e mandou-as de volta. Agindo assim, Aeron estaria dando uma prova de que o que acontecera entre eles dois não significava nada. Se fizesse isso, ela iria embora. Ele tinha de saber que ela iria embora.

Saber disso tornaria a decisão mais fácil para ele?, ela se perguntou, com uma risada amarga. De jeito nenhum poderia ficar ali, sabendo que ele tinha levado outra mulher para a cama. Não importava o motivo.

Parecia que Olivia tinha sua própria decisão a tomar. Iria embora, não havia dúvida quanto a isso. Mas não agora. Ela voltaria para o céu, possivelmente salvando a vida de Aeron, ou simplesmente viajaria para outro lugar na Terra?

Provavelmente ficaria na Terra, pois como conseguiria voltar para casa agora? Ela estava mudada, era humana em todos os aspectos que importavam. Seria muito infeliz lá em cima, sem poder levar felicidade a ninguém, muito menos a si mesma. Seria inútil. E, se algum dia mudasse de ideia em relação a ter retornado, nunca mais poderia cair novamente. Não, ela seria condenada à morte, ou enviada eternamente ao inferno. Não poderia haver outra possibilidade para um anjo que se desviava duas vezes de seu caminho.

Mas como seria capaz de permanecer ali e viver em paz consigo mesma, sabendo que poderia ter salvado Aeron, e não fizera? Mesmo que salvá-lo significasse que ele ficaria com outra mulher?

Ela era mesmo tão abnegada?

Não, não era. Deveria ter matado Aeron quando teve a oportunidade, poupando a ambos daquela dor. Outra risada amarga tomou conta de sua mente, mas dessa vez, ela deixou escapar.

Aeron se levantou, mas estava perdido, com os movimentos descoordenados.

— Temos um pouco de tempo. Não há razão para nos preocuparmos com isso agora.

Então ele não planejava dormir com Legião imediatamente. Aquilo foi um pequeno conforto, pelo menos.

— Obrigada — disse Legião, grata, satisfeita e envergonhada ao mesmo tempo. — Eu prometo que não vou...

Ele se virou, interrompendo-a, e Olivia parecia devorá-lo com o olhar. Sua beleza masculina, seu poder. Não, ela não era tão abnegada, mas estava muito apaixonada, ela se deu conta.

Amor. A palavra ecoou em sua mente. Ela o amava. Completamente, totalmente, inteiramente, absolutamente. Aeron era o motivo que fazia seu coração bater, a fonte de toda a sua alegria. Ela morreria por ele. Ele era forte e corajoso, feroz e carinhoso. Generoso, altruísta. Como não amar um homem assim?

Ficaria ali, ao lado dele, até que levasse Legião para a cama. Aproveitaria todos os momentos que tivesse ao seu lado. E depois... depois voltaria aos céus. Tentaria garantir que Lysander mantivesse sua palavra e intercedesse ao Conselho pela vida de Aeron.

Mas isso não garantiria a ajuda deles.

Bem, então ela teria de encontrar outra saída.

Que diferença alguns dias faziam, ela pensou, triste. Ela viera à Terra resignada com a iminente morte de Aeron, feliz com o tempo que poderiam passar juntos e determinada a experimentar a alegria como os humanos faziam. Mas ela já passara um tempo com o seu guerreiro, e tudo mudara. Ela já não era capaz de aceitar a morte de Aeron. De ver tanta coragem e força serem destruídas.

— Não se preocupe, Aeron — ela disse, endireitando os ombros. — Em breve, eu irei embora, deixando você e Legião a salvo. — A promessa se unira à sua alma.

Legião ficou boquiaberta com o que Olivia dissera.

Lúcifer emitiu um som maldito dentro de sua cabeça.

Aeron pressionou os lábios bem forte, seus dentes rangeram, seus olhos ficaram vermelhos, brilhantes. Olhos demoníacos.

— Já disse que temos tempo. Você não precisa cuidar disso agora. Portanto, você fica. Agora chega disso tudo. Tenho uma reunião para ir. Vou deixar as duas aqui, e vocês vão se comportar bem, entenderam? Não vão gostar nada do que vai acontecer se machucarem uma a outra, eu prometo. — Ele não esperou a resposta de nenhuma das duas e saiu correndo do quarto.

Ao contrário de William, ele não fechou a porta gentilmente quando saiu. Ele a bateu, fazendo com que os quadros nas paredes balançassem.

Depois de tanto tempo que passara refletindo sobre o que deveria fazer, analisando e decidindo, um pouco de compaixão, e um beijo de despedida, não seriam demais.

Olivia ficou olhando para Legião. Legião também a encarava.

— Bem — disse Olivia, constrangida. Ainda desejava ser possuída por Aeron. Ainda sentia a umidade que ele deixara para trás. No entanto, em pouco tempo, aquela outra mulher estaria com Aeron do mesmo jeito que ela estivera.

— Não vou ficar aqui com você — Legião disparou.

— Somos duas, então. Estou indo embora.

Sorrindo, Legião se levantou de um pulo:

— Já vai voltar para o céu?

— Ainda não. Vou escutar o que está sendo dito na reunião.

O sorriso de Legião desapareceu, e ela olhou para a porta.

— Seus ouvidos devem ser tão fracos que você vai precisar de alguém ao seu lado para interpretar os murmúrios.

Ela não respondeu, querendo odiar Legião, mas incapaz de fazê-lo. O ódio demandava energia, e ela não tinha nenhuma para desperdiçar naquele momento. Além do mais, aquele demônio teria sido sua enteada, se as coisas tivessem saído como ela planejara. Mais do que isso, Legião fizera o que era necessário para conseguir o homem que desejava. Exatamente como Olivia fizera.

Só que Legião tinha vencido.

ERA BOM ESTAR em casa, pensou Strider, dando uma olhada em volta da sala de jogos. Todos os homens e mulheres estavam ali, reunidos. Todos os três mil, ao que parecia. Exceto Gideon, que, de acordo com as fofoqueiras e com William, o fofoqueiro, estava no calabouço dando as boas-vindas à nova prisioneira.

Os guerreiros, com seus corpos grandes e fortes, pareciam ocupar todo o espaço disponível, saturando o ar com testosterona. As mulheres estavam empoleiradas nos sofás e nas poltronas, obrigando os homens a ficarem de pé encostados nas paredes. Nas paredes que já não estavam ocupadas, claro.

Lucien e Sabin estavam jogando sinuca e conversando entre eles, provavelmente organizando os assuntos antes de se referirem aos outros. William estava sentado em frente à televisão, jogando videogame. Aeron e Paris estavam no outro canto da sala, passando um frasco de um para o outro. Ambos estavam tristes. Principalmente Aeron. Sua expressão parecia ter sido entalhada em granito, um granito pálido, e suas tatuagens se destacavam ainda mais em sua pele que estava agora pálida. E seus olhos... Estavam vermelhos e demoníacos.

Ainda estava se curando da bala envenenada? Ou seria algo mais pessoal?

Strider só estivera em casa por um dia, mas já ouvira a história de seu problema com o anjo de três fontes diferentes: Cameo, Kaia e Legião, uma Legião incrivelmente melhorada. Cameo gostava de Olivia e falou sobre como ela era inteligente e prestativa. Kaia contou sobre como a Olivia real era maravilhosamente ousada. E Legião achava que ela era uma puta capaz de matar Aeron durante o sono.

Kaia acreditava que Aeron se casaria com ela. Cameo imaginava que Aeron se livraria dela para sempre. E Legião seguia dizendo que ela era uma puta assassina. Isso era basicamente tudo o que Legião falara. Não, espere. Ela pedira a Strider para matar aquela “puta assassina”. Como ele se recusou, ela ameaçara pagar alguém para que “tomasse conta dele”, ao estilo do que acontecia na prisão.

— Estou esperando — disse Strider. — Mim não gostar de esperar.

Finalmente, Lucien e Sabin terminaram o jogo, fazendo um sinal positivo com a cabeça um para o outro, como se tivessem chegado a um acordo, e em seguida se dirigiram para frente da sala. As conversas se reduziram ao silêncio.

Os dois homens tinham os braços cruzados nas costas e as pernas afastadas. Estavam prontos para entrar em ação. O que era bom, pois todos naquela sala estavam tensos e preparados para encarar tal ação.

— Convocamos esta reunião para que cada grupo possa informar aos outros sobre o que está acontecendo em Roma e Buda — disse Sabin. — Eu vou começar. Os Impronunciáveis querem que nós lhes entreguemos a cabeça de Cronos, mas esse pequeno feito os deixaria livres, e se eles forem libertados... — Ele deu de ombros. — Não há como saber que mal eles irão desatar.

— No entanto... — disse Lucien, retomando de onde Sabin tinha parado. — Eles quiseram se garantir, e também pediram aos Caçadores que lhes dessem a cabeça de Cronos. E quem conseguir fazer isso primeiro, nós ou os Caçadores, ficará com o quarto e último artefato.

O Cetro Divisor. Ninguém sabia o que ele fazia. Não mesmo. Mesmo que ele fosse inútil, Strider teria massacrado um exército para possuí-lo. Se houvesse uma mínima possibilidade de que fosse algo poderoso, e havia, ele não poderia terminar em mãos inimigas.

— Mas Cronos é um deus — disse Maddox. E todos eles já estiveram contra os deuses alguma vez. Por isso estavam ali, e não no céu. Por isso eram possuídos por demônios. — Não podemos detê-lo. — E apesar do assunto extremamente sério, ele nunca parecera tão feliz.

Por quê? Depois. Os deuses sempre foram mais poderosos que eles, capazes de acabar com eles com um único movimento de suas hábeis mãos.

— Mas ele também está possuído — disse Cameo. — E o seu demônio vai ter um ponto fraco. Todos os nossos têm.

Ah, a agonia naquela voz. Strider estava ocupado demais se encolhendo e tentando processar suas palavras.

— Seu demônio é Cobiça. — Isso fora dito por Aeron, e a agonia em sua voz era mil vezes pior que a de Cameo.

Que inferno, Strider precisava arrancar suas orelhas e... Espere, espere, espere. Vamos voltar um pouco. Cronos era possuído por Cobiça. Lucien já lhe dissera isso, mas Cameo fizera uma observação importante. Todos os demônios tinham um ponto fraco. E ele deixava os guerreiros vulneráveis. O seu era perder, e o estado de coma em que se encontrava depois da derrota. Qualquer pessoa poderia atacá-lo naquele momento, e ele não seria capaz de se proteger.

Qual seria a fraqueza de Cronos?

Esse tipo de informação poderia ser decisivo em uma luta. Não que ele planejasse lutar contra o deus-rei, mas era sempre bom estar preparado.

Com o canto do olho, viu Amun fazer um sinal com as mãos.

— E a pintura de Danika? — Strider traduziu. — Aquela em que ela previa que Galen arrancaria a cabeça de Cronos? — Sem a ajuda de ninguém, ele acrescentou: — Sei que esperamos mudar o curso do que ela viu, mas talvez a única forma de fazer isso não é se nós mesmos matarmos Cronos. Talvez devêssemos intensificar nossos esforços para matar Galen.

— Mas Galen tem o Manto — disse Reyes, aproximando-se do sofá, levantando Danika, sentando-se e colocando-a em seu colo. — Pode ser mais difícil destruí-lo do que a um deus.

— Galen está com o Manto — Aeron repetiu. — Então por que ainda não nos atacou? Suas tropas já estão aqui há um tempo. Então, mais uma vez, por que eles não nos atacaram?

Maddox deu de ombros.

— Talvez estivessem esperando que seu pequeno experimento com Desconfiança desse certo. E agora que deu tudo certo...

— Temos que atacar antes — disse Aeron. — E pegá-los desprevenidos. Com sorte, poderemos abater muitos deles e ganhar tempo para resolver o que fazer com Desconfiança, e talvez até mesmo para forçar Galen a sair de seu esconderijo.

Era uma boa ideia, mas sua sede de sangue estaria retornando? Além daquele brilho vermelho nos seus olhos, suas mãos estavam em punho e sua postura, rígida.

— Mas eles estariam mesmo desprevenidos? — perguntou Reyes. — E se estiverem esperando nosso ataque?

Os soldados na ilha estavam esperando. Aquele poderia ser o novo modus operandi dos Caçadores. Além disso, muitos guerreiros ainda estavam se recuperando daquela batalha. Não estavam com sua força máxima e precisariam de sua força máxima para conseguir uma vitória de tal magnitude.

— E não podemos nos esquecer de que Rhea está do lado deles. Não há como saber como ela vai ajudá-los.

— Isso não é verdade — disse Torin, se pronunciando pela primeira vez. Ele havia colocado um microfone e um monitor em sua sala para poder participar da reunião sem ter de entrar na sala lotada de gente. — Eu falei com Cronos. Ele vai tentar distrair sua amada esposa o máximo que puder hoje. Por isso pedi a Lucien e Sabin que convocassem esta reunião agora. O que fizermos hoje será feito sem interferência divina. Da parte da rainha e do rei.

Ninguém os atrapalharia, mas ninguém os ajudaria também.

Um murmúrio se espalhou pelo grande grupo. Até que uma única palavra começasse a ecoar dos lábios de todos: “Sim.”

— Não podemos dormir mesmo — disse Maddox. — Não com Pesadelos em casa. Por falar nisso, quando vamos nos livrar dela?

Ninguém tinha resposta para isso. Quanto à outra pergunta, no entanto, a decisão foi rápida. Naquela noite, eles atacariam.