A Paixão Mais Sombria
Capítulo Dez
QUEM ESTAVA ALI?
Nu, Aeron abriu a porta, e Olivia ficou observando-o desavergonhadamente. Aquela linda borboleta voava no topo das suas costas, e ela a tocara. Na verdade, a pele de Aeron ainda estava marcada e sangrando nos pontos em que suas unhas a arranharam. Talvez aquilo devesse deixá-la constrangida. Mas não. Estava orgulhosa. Ela o marcara. Marcara o homem que desejava. E ele respondera; ele chegara ao clímax. Ela queria fazer tudo de novo. Mas agora, queria mais. Queria ir até final.
Malditos intrusos.
Quem estaria ali, e o que queria? Se não fosse assunto de vida ou morte, Olivia esperava que aquela pessoa caísse pelas escadas ao ir embora.
Aquele pensamento violento, tão estranho a ela, fez com que parasse. Talvez aquela violência não lhe fosse algo tão estranho. Afinal, ela era uma pessoa nova e mais completa.
E a nova e mais completa Olivia podia, sim, ter feito com que Aeron mudasse de ideia em relação aos abraços apenas mencionando sutilmente que outros teriam gostado. E, para ser sincera, abraçar-se a ele parecia uma ideia cada vez mais deliciosa. Sentiria o seu calor, sua força, seu rude sex appeal, tudo aquilo envolvendo o seu corpo.
Talvez da próxima vez. Se houvesse próxima vez. Ele parecera muito decidido em que aquela fosse a primeira e única vez.
— O quê? — Aeron gritou. Seu corpo volumoso bloqueava sua visão, então Olivia não conseguiu ver quem era.
— Ouvi alguém gritando — disse Cameo, dando um passo para o lado, para dar uma espiada dentro do quarto, finalmente respondendo à pergunta silenciosa de Olivia. Ao ver o anjo daquela maneira, Cameo ficou de boca aberta.
Olivia apenas sorriu e acenou para ela. Não tinha vergonha pelo que acontecera com Aeron. Bem, não muita. Estava sobretudo radiante. Ela abrira mão de tudo o que tivera para estar ali e experimentar os prazeres da carne, portanto, inibições não seriam toleradas.
Além do mais, ao longo dos anos, ela vira os humanos fazendo todo tipo de coisas. Sexo, drogas. Tanta coisa boa, tanta coisa ruim. O que ela acabara de fazer tinha sido lindo. Não havia por que sentir vergonha.
— Você parece ótima — disse Olivia.
— Você, também. — Se a voz de Cameo não fosse tão triste, Olivia diria ter ouvido uma risada em seu tom.
— Olhe para mim, Cameo — disse Aeron, claramente irritado por algum motivo. — O que está fazendo aqui?
Cameo olhou para ele, com seus lábios tremendo.
— Torin viu algumas cenas que gravou na noite passada e conseguiu enxergar vislumbres de Pesadelos. Pelo que ele viu, ela entrou num prédio e não saiu mais.
— Do que está falando?
— Da sua Garota das Sombras. Olivia nos contou que ela é possuída pelo demônio dos Pesadelos. Seja lá como for, nós vamos à cidade para, bem... — ela fixou os olhos em Olivia — ... para conversar com ela. Você vem ou não vem conosco?
Aeron enrijeceu o corpo, depois seguiu-se um silêncio. Em seguida, ele disse:
— Vou. — E olhou para Olivia por sobre o ombro. — Não fique aí parada. Você vem com a gente. Enquanto estivermos lá, vou aproveitar para encontrar um lugar onde você possa ficar até você resolver onde quer morar permanentemente.
O quê? Ele ainda planejava se livrar dela? Depois de tudo o que tinham feito? Claro, ela tinha dito a ele que aquilo não mudaria nada, mas isso foi antes que tudo mudasse. Aquele pequeno gostinho de prazer não seria suficiente para ela.
Você foi agressivo antes, na cama. Não pode ser assim novamente.
— Sinto muito, mas eu não posso. Provavelmente eu quase morreria outra vez — ela disse, e quase sorriu quando ele arregalou os olhos. Ele tinha sérios problemas só em pensar na morte dela. — Acho que vou ficar aqui.
E você vai gostar, ela projetou para o futuro de Aeron. Algumas pessoas não sabiam do que precisavam para encontrar a felicidade. E, claramente, Aeron era uma delas. Tudo o que ela tinha a fazer era ensiná-lo, como já planejara.
Ele massageou a nuca.
— Já conversamos sobre isso, Olivia. Você não pode ficar aqui. Não importa o que tenha acontecido entre nós.
— Certo. — Ela colocou as pernas para fora da cama e ficou de pé, carregando o lençol com ela.
— Então você vai à cidade comigo? — ele perguntou, obviamente suspeitando de algo; com raiva e aliviado ao mesmo tempo. Que estranha combinação de emoções!
— Claro que não. — Colocar um pé à frente do outro enquanto seus joelhos tremiam era difícil, mas ela conseguiu. Sem cair. Passou por Aeron, ah, santa Divindade, aquele calor, aquela força, e sorriu para ele e para Cameo, que piscou um dos olhos para Olivia.
Ao lembrar-se de uma coisa, parou no corredor.
Olhando para Aeron por sobre o ombro, disse:
— Vou explorar sua fortaleza. Ah, Aeron, quando você não conseguir encontrar Pesadelos, cujo nome é Scarlet, a propósito, por favor não volte para casa e desconte seu mau humor em mim. A menos que queira que eu o beije até melhorar. Isso sim seria aceitável.
Ela não esperou uma resposta dele e desapareceu ao virar no final do corredor.
— Olivia — ele chamou.
Ignorando-o, ela seguiu em frente. Tinha a impressão de que Aeron queria discutir com ela. Seu corpo ainda vibrava com jorros de prazer que ele lhe proporcionara, e discutir acabaria com aquela sensação.
— Olivia! Você está praticamente nua!
Nua? Ela parou, olhou para baixo, onde o lençol caía sobre seus seios e engoliu em seco. Nudez parcial era uma coisa boa ao lado de Aeron, mas não quando provavelmente esbarraria com os outros. E isso não tinha nada a ver com falta de confiança, garantiu a si mesma.
Estar com Aeron ajudou a esquecer o que acontecera no inferno, sim. Mas as duas experiências não tiveram nada a ver. Aeron buscara prazer, os demônios haviam buscado dor. Ainda assim. Ver a luxúria nos olhos de outra pessoa poderia trazer aquelas memórias rugindo de volta.
Com um suspiro, Olivia correu de volta para o quarto, passando por Aeron e por sua expressão furiosa sem dizer nada. Cameo já tinha ido embora. Olivia largou o lençol, pegou sua camiseta e passou-a sobre a cabeça. Felizmente, ainda estava de saia e calcinha.
— Melhor assim — ela disse, com um aceno de cabeça.
— Não está, não. Não para o que vamos fazer. E sim, estou dizendo que você virá comigo.
Ela se aproximou, ficou na ponta dos pés e deu-lhe um beijo na bochecha.
— Vejo você mais tarde. E, por favor, tenha cuidado. — E pelo corredor ela caminhou novamente.
— Olivia.
Ela o ignorou, atenta às muitas portas à sua frente. Enfiou a cabeça em uma delas, sem saber o que encontraria. Claro. Uma sala de ginástica. Ela deveria ter imaginado, mas mesmo tendo estado ali muitas vezes, só tivera olhos para Aeron.
— Olivia — ele voltou a chamar, e dessa vez soou resignado. — Certo. Fique. Faça o quiser. Eu não me importo.
Mentiroso. Pelo menos ela esperava que estivesse mentindo.
Ela viu que o segundo quarto estava vazio. No terceiro, ouviu vozes antes de chegar à porta. Sem se deixar levar pelo medo ou pela insegurança, ela olhou para dentro.
Era um quarto, como o de Aeron, mas sem coisas rosas ou enfeites de renda. Paredes escuras, móveis de metal em vez de madeira e a última coisa que Olivia esperava encontrar: um aparelho de karaokê em um canto. Um mulher estava sentada à beira de uma grande cama, lendo para um homem deitado em cima do colchão.
Olivia deve ter feito algum barulho, pois o homem olhou na sua direção. Ele tentou se levantar, mas a mulher protestou:
— Gideon. O que está fazendo? Deite-se!
Gideon. Olivia vasculhou a mente. Guardião das Mentiras?
— Estou descansando — ele disse. — Estamos sozinhos.
Ah, claro. Ele era mesmo o guardião das Mentiras, incapaz de contar uma única verdade sem sofrer dores terríveis. E também era bonito, muito bonito, com cabelos azuis, olhos faiscantes e sobrancelha com piercing. Mas estava claramente machucado. Tinha curativos brancos em volta dos punhos, na área onde deveriam estar suas mãos.
Confiante. Agressiva.
— Desculpem por interromper. Eu estava apenas... passando por aqui. — Verdade. — Sou Olivia — disse, dando um aceno. Apesar de aquele demônio deixá-la assustada, como Torin o fizera, ela não gritou com ele, nem saiu correndo. Da primeira vez, ela estava ferida e perdida naquelas lembranças terríveis. Mas agora seu corpo estava mais forte, ou pelo menos tão forte quanto poderia ficar o corpo de um humano. Ela poderia aguentar. — Estou com Aeron.
O que não era mentira. Aeron era uma das razões pelas quais ela estava ali. Ela acabara de beijá-lo em cima de um cama e... ah, seu coração ainda precisava se acalmar por causa disso. Ela nunca o vira fazer aquelas coisas com outra mulher.
No mesmo instante, sua mente ficou imersa no que acontecera. Nossa. Mas... Nossa! Seu corpo era duro como uma pedra, mas sua boca, suave como uma pétala de rosa. Suas mãos haviam percorrido todo o corpo de Olivia, ela havia se esfregado contra aquela ereção descomunal, e aqueles dedos enormes a penetraram com força. O prazer... o calor... a surpreendente desinibição... Ela nunca sentira nada parecido antes.
Agora ela sabia. Sim, era possível morrer de amor.
Aeron tinha gosto de menta, doce e picante; juntos, esses sabores haviam sido um afrodisíaco perfeito, capaz de impressionar os sentidos de Olivia. A total satisfação se transformara em sua fonte de sobrevivência.
— Você é o anjo — disse a mulher, com um sorriso de boas-vindas, tirando-a de seus pensamentos.
— Sim. Anjo caído, mas sim.
Gideon relaxou contra os travesseiros.
— Maravilhoso.
— Não ligue para ele. Está rabugento de tanto tédio. Eu sou Ashlyn, a propósito. — Ashlyn tinha cabelos e olhos dourados e era tão delicada quanto uma íris. — Esposa de Maddox.
— Maddox, guardião da Violência — disse Olivia. Um gigante de cabelos pretos, olhos violeta idênticos aos de Aeron, e temperamento aparentemente indomável. — Vocês se casaram?
— Tivemos nossa própria cerimônia particular — respondeu Ashlyn, corada. Ela se levantou. — Mas ele não é tão mau, prometo. — Suas mãos acariciaram o ventre arredondado. — É um doce quando passa a conhecê-lo.
Olivia não conseguiu evitar. Deu um passo à frente e passou as mãos naquela barriga. Mulheres grávidas sempre a atraíram, pois sempre soubera que nunca poderia ter filhos, outro de seus desejos secretos. Os anjos eram criados, não nasciam, então, mesmo que sentisse atração física por outro anjo, ela nunca conceberia.
Agora que era humana... talvez existisse uma possibilidade.
Com Aeron? Era permitido ter esperanças. Por um momento, ficou imaginando como seriam seus filhos. Não nasceriam com todas aquelas tatuagens, claro, o que era uma pena, mas poderiam ter aqueles lindos olhos violeta, e até mesmo suas asas. Todos deveriam experimentar as alegrias de voar uma vez na vida, pelo menos uma. Talvez os filhos deles herdassem a coragem e a determinação de Aeron, deixando-a louca e encantada ao mesmo tempo.
Ela suspirou, voltando sua atenção à missão que tinha nas mãos.
— Seus gêmeos são fortes — ela disse, sabendo que as mães gostavam de comentários desse tipo. — Fogo e gelo. Você terá muito trabalho evitando que tenham problemas, mas será mais feliz por isso.
Ashlyn ficou de queixo caído por um bom tempo, apenas piscando para Olivia, que era mais alta do que ela.
— Ge... gêmeos? Como você sabe que eu vou ter gêmeos?
Ah, não. Ela estragara a surpresa, não é mesmo?
— Sentir o que uma mulher carrega em seu ventre é um dom que todos os anjos possuem.
— Isso... não pode ser verdade. — Ela estava ficando pálida a cada segundo, e até manchas verdes apareceram. — Só existe um ser dentro de mim. Quero dizer, está tudo correndo bem, certo?
O que lhe contar naquele momento? Apenas o suficiente para acalmá-la, talvez.
— Não. Você está progredindo bem devagar. Seus filhos são imortais e requerem uma gestação bem mais longa. Mas não se preocupe. Assim como você me prometeu, eu prometo a você. Tanto seu filho como sua filha são saudáveis.
— Um filho? Uma filha?
Ótimo. Estragara mais uma surpresa.
Com a mão trêmula, Ashlyn tirou um cacho de cabelo cor de mel do rosto, colocando-o atrás da orelha.
— Preciso me deitar um pouco. Preciso falar com Maddox. Eu... eu... — E olhou para Gideon. — Você se importaria muito se eu...
— Sim — ele disse, sorrindo. — Eu me importaria.
Ela respirou fundo.
— Obrigada. — Como se estivesse presa num transe, a linda Ashlyn saiu do quarto, não sem voltar a olhar para Olivia uma última vez.
— Sinto muito — disse Olivia. Por várias coisas. Agora ela estava sozinha com Mentiras. Situação na qual nunca se imaginara antes. Mas ele estava ferido, e ela não poderia deixá-lo sozinho. — Você gostaria que... ahn eu continuasse lendo a história? — ela perguntou. E, sem esperar resposta, pegou o livro que Ashlyn deixara para trás... Ah, era um romance, que horror! Então, se sentou no lugar da guerreira.
— Eu adoraria que você lesse para mim — ele disse. — Sua voz não é... assustadora.
O que significava que não queria que ela lesse e que sua voz era assustadora. Rejeitada.
Ela ficou passando as páginas do livro, fazendo o melhor possível para esconder sua decepção.
— O que está ouvindo é a pura verdade. Não há nada que eu possa fazer. Exceto mentir, claro, mas isso não é algo que eu quero fazer. O gosto da mentira é horrível. Além do mais, as mentiras são muito complicadas. Pessoas se magoam, brigas começam.
— Eu não sei do que você está falando. Mentiras são incríveis — ele disse, mas Olivia sabia que concordava com ela. Havia inveja em seu tom. — Eu não queria... nada. Nada.
Pobre homem. Devia querer tantas coisas.
— Então... ainda quer que eu vá embora?
— Sim.
— Ótimo. — Um progresso. — Posso ler agora?
— Sim — ele disse mais uma vez. — Eu preferiria não conversar.
Ah, então nada de romance para ela ainda.
— Sobre o quê?
— Sobre você. Não tenho a mínima vontade de saber por que você está aqui.
— Para você me ajudar? — ela perguntou, cheia de esperança. Mudara do medo à carência, e tão rapidamente. Talvez isso provasse sua enorme necessidade de ser bem-sucedida.
— Claro, por que não?
Escolhendo ignorar a mentira, talvez ele simplesmente imaginasse não ser capaz de ajudá-la, mas se surpreenderia, Olivia lhe contou sobre sua decisão de cair, sobre o que esperava conseguir em troca e sobre os progressos que fizera com Aeron. Era legal ter um ouvinte imparcial com quem compartilhar sua história. Alguém que não a julgaria.
— Então você odeia Aeron? — o guerreiro perguntou, e ela sabia que ele queria dizer amor.
Amar. Ela amava Aeron?
— Não. Sim. Talvez. — Ela ainda não sabia. — Eu penso nele o tempo todo. Quero estar com ele, entregar-me por completo a ele. Você sabe... sexualmente — disse, ficando corada, para o caso de ele não ter entendido. Confiante. — Mas ele disse que não faria sexo comigo.
— Espertinho de merda, o nosso Aeron. — O sorriso de Gideon se formou lentamente, mas era malicioso e sensual justamente por isso. — Ouça, vou lhe dar um conselho inútil. Não pense em entrar sorrateiramente no quarto dele esta noite... e não faça muito barulho, para que ele não mate você, pensando ser um inimigo. Ah, e não esteja nua.
— Ótimas sugestões, obrigada — ela disse, sua expressão se iluminando. Ela colocou os pés em cima da cama. Ainda usava as botas, e o couro negro cintilava contra a luz. — Os homens gostam mesmo da nudez, eu já percebi. Aeron não queria que ninguém mais visse meus... seios.
Seu novo e melhorado “eu” ainda podia ficar constrangido, como ela mesma notou.
— Você está muito equivocada. Ah, e... Olivia? Nessa posição em que você está, eu não posso ver sua calcinha — ele disse, claramente se divertindo.
Confiante, você é confiante.
— Você gosta do que vê?
Ele piscou os olhos, surpreso, pois claramente esperava que ela mudasse de posição.
— Odeio.
— Sério? — Aquilo não era constrangedor, ela pensou, era algo que lhe dava poder. — Gostaria de ficar com ela, de lembrança? Já que eu realmente planejo aceitar o seu conselho e subir de fininho na cama de Aeron, nua, não vou precisar mais dela.
Gideon soltou uma risada.
— Não. Eu não quero. Odiaria ficar com sua calcinha de lembrança. E não apenas porque sei que Aeron ficaria maravilhado ao saber que tenho a calcinha de sua namorada.
Namorada? Era uma mentira, do ponto de vista de Gideon, mas ela poderia ter se derretido toda.
— Então ela é sua. Vou lhe dar antes de sair.
E ele voltou a rir.
— Cara, eu não gosto nada de você. Nada mesmo.
Ela abriu um sorriso radiante.
— Idem. Então, agora que eu já falei de mim, fale-me sobre ele. Aeron. Quero dizer, eu sei quem ele é, mas não sei nada sobre o seu passado. Quero entendê-lo melhor. Chegar mais perto dele. Ajudá-lo a parar de se preocupar com a minha eventual morte. — E aceitar a própria morte.
— De jeito nenhum. — O que significava: claro que sim.
Gideon se ajeitou na cama. Um cacho dos cabelos azuis se encaixou na cabeceira e ficou preso com o movimento. Ele fez uma careta, esticou o braço, mas não foi capaz de pegar um único fio com seus pulsos enfaixados. Ao ouvir seu grunhido de frustração, ela tomou a iniciativa de ajudá-lo.
Ela tirou as pernas de cima da cama, inclinou-se para a frente e gentilmente soltou seus cabelos.
— Melhor assim?
— Não — ele murmurou, irritado.
— Ótimo. Aliás, adorei seu tom de azul. Talvez eu pinte os meus cabelos. — Ela deixou a ideia guardada no fundo da mente, para ser analisada depois. Junto com aquele piercing no umbigo. Naquele momento, o que queria era saber mais sobre Aeron. Como fora sua vida, como se transformara no homem que era.
— Esquecendo Aeron... por onde não gostaria que eu começasse?
— Sei que vocês, guerreiros, foram expulsos do céu e enviados à Grécia antiga. Ouvi histórias sobre os tormentos que causaram, matando humanos inocentes, torturando, atacando, saqueando, destruindo tudo o que encontravam pela frente, e assim por diante.
Ele deu de ombros.
— Você ouviu tudo errado. Nós tínhamos controle total dos nossos demônios e não nos perdemos numa sede de sangue. E quando finalmente perdemos o controle, a culpa pelo que tínhamos feito, bem, foi mínima.
Culpa. Que fardo terrível para ser carregado. E pelo que ela já vira daqueles Senhores, eles carregavam muito mais do que uma pessoa deveria suportar. Mereciam um pouco de paz, ela resolveu. De uma vez por todas.
— Aeron não era um guerreiro — Gideon continuou —, e suas ações, mesmo quando não justificadas, não o atormentavam. Embora eu sempre tenha tido certeza de que ele odiava demais o que fazia e sentia orgulho de si mesmo por isso. Ainda assim, ele quase não fazia nada, deixando que o resto de nós fizesse toda a matança para proteger o deus-rei.
Olivia rapidamente traduziu as palavras de Gideon. Aeron, às vezes, gostara de seu trabalho um pouco demais e odiara a si mesmo por isso, mas também amara seus amigos, e por isso fizera o trabalho deles também, poupando-os um pouco da carga, o que provavelmente fora torturante para ele.
Culpa, ela pensou novamente. Até mesmo naquele tempo, ele carregara uma quantidade enorme de culpas. Ele sentira prazer em ferir quem ferira outras pessoas, e provavelmente considerara a si mesmo tão cruel quanto eles.
Antes que ele morresse, antes que ela morresse, ela lhe ensinaria o contrário. Ele não era mal. Era um protetor. Por isso ficava tão perturbado com a ideia da morte dela. Ao olhos deles, seria como se ele tivesse falhado ao protegê-la. Que homem doce e maravilhoso.
— Por favor, vá em frente — ela implorou.
Gideon assentiu.
— Todas essas mortes nunca o afetaram, nunca o fizeram ver a fatalidade em cada esquina. E então, quando nosso odiado inimigo, Baden, não foi decapitado, Aeron notou que os imortais podiam viver para sempre. E isso não o assustou.
Então, tudo bem. As mortes que ele causara no cumprimento do seu dever lhe proporcionaram uma saudável apreciação da mortalidade, especialmente quando seu querido amigo foi decapitado. Agora ele esperava que todos à sua volta morressem, e sabia que não havia nada que ele pudesse fazer para impedir, nada que pudesse fazer para protegê-los, como ela acabara de descobrir.
Para um homem que valorizava tanto a força e o poder, aquela impotência devia incomodá-lo bastante. Talvez por isso ele se mantivesse distante de todos, menos de Legião. Quanto menor a quantidade de pessoas com quem ele se importasse, menor seria o número de pessoas com que ele se preocuparia em salvar.
Então, como Legião conseguira penetrar em suas defesas?
Mais do que isso, como ela conseguiu escapar da necessidade que seu demônio tinha de repreender? O pequeno ser maligno dificilmente tivera uma vida sem culpas. Uma prova era o que a criatura tinha feito à inocente Olivia.
— Quanto a Legião — disse Gideon, como se tivesse lido os pensamentos de Olivia —, acho que Aeron nunca desejou ter uma família secretamente, e Legião não lhe oferece isso.
Então, Aeron secretamente queria ter uma família, exatamente como ela, e Legião lhe oferecia isso. De alguma maneira. Eu também poderia me transformar na família dele, pensou Olivia. Não que ela quisesse ser madrasta de Legião, mas para ter o prazer de estar ao lado de Aeron, ela talvez fosse capaz de suportar um título tão odioso.
— Não vejo entusiasmo em seus olhos, anjo, e fico muito feliz por isso. Você deveria saber que, mesmo no céu, ele sempre preferiu as mulheres selvagens, e eu percebo que, no fundo, você não poderia ser mais selvagem, apesar de claramente ter se convencido do contrário. Embora Aeron pense que é isso o que ele quer, eu posso garantir que não do que ele precisa.
Ah... não, ela pensou, repentinamente triste. Aeron preferia as mulheres dóceis, mas Gideon acreditava que ele precisava de alguém mais selvagem. Gideon também achava que, não importava o que Olivia dissesse ou fizesse, ela não era uma mulher selvagem, nem nunca seria.
— Por que está me prevenindo de tudo isso? Há apenas alguns minutos você me disse como fazer para seduzi-lo.
— Meu amigo Aeron não merece um pequeno tormento uma vez ou outra.
Ah. Um pouco de diversão. Era isso o que Gideon imaginava que ela era.
Ele estava errado. Talvez ela tivesse sido gentil antes, ou fingira ser, mas, quanto mais tempo passava naquela fortaleza, mais coisas aprendia sobre si mesma.
A gentileza a acompanhara durante a vida inteira. Lysander sempre fora gentil com ela. Os outros anjos haviam sido gentis com ela. E ela fora gentil com eles.
Nos braços de Aeron, ela ganhara vida através das sensações. Ele queria mais, e com mais força, de maneira mais caótica, incontrolável. Queria de forma selvagem. Em alguns momentos ele tentou diminuir a velocidade. Tentou suavizar o toque, provando o que Gideon dissera, que ele preferia a gentileza. Ou imaginava preferir.
Ele realmente pediu que eu acariciasse suas asas, ela se lembrou, e aquelas carícias haviam sido qualquer coisa, menos gentis.
Ainda assim, ele não queria que ela colocasse um piercing no umbigo. O que ele iria pensar quando ela colocasse um de verdade? Quando fizesse uma tatuagem, como planejava? Talvez uma borboleta. Será que ele não iria querer nem beijá-la mais?
— Essa conversa me deixou oficialmente deprimida — ela disse. — Não que eu não tenha gostado de conversar com você. Você me deu os detalhes que eu tanto queria saber, e sou grata por isso, mas acho que vou ler para você agora, se estiver tudo bem. Preciso de uma distração antes que eu vá à cozinha e experimente todas as garrafas que encontrar no armário de bebidas.
— Não acho que podemos fazer as duas coisas — ele disse, apontando para uma fileira de garrafas em cima da sua cômoda.
— Sério? — Agitada, Olivia ficou de pé, atravessou o quarto e pegou o maior número das garrafas mais cheias que pôde carregar. O líquido dançava dentro dos frascos, e vários odores chegavam às suas narinas. Maçã, pera, limão. Um aroma sombrio. — Suco do sorriso, é como eu sempre chamei tudo isso — ela disse. — E sempre quis provar.
— Agora não é a sua chance. Nem ouse colocar qualquer dessas bebidas na minha garganta.
— Seria um prazer.
Ela entornou uma garrafa na boca de Gideon, que tomou um gole atrás do outro, depois ela mesma tomou todo o resto de cada garrafa e quase engasgou; não era tão gostoso quanto esperara. Então, ela voltou a se sentar e abriu o livro, sem se preocupar em que página estava.
As palavras estavam levemente embaçadas.
— Ela agarrou os próprios seios e os apertou — ela leu. Interessante. — Exatamente como fizera antes. Seus mamilos palpitavam como nunca, querendo suas mãos. Deixou escapar uma lamúria. Em condições normais, teria odiado a si mesma por fazer aquele barulho, mas, naquele momento, estava possuída pela paixão.
Eu conheço essa sensação, pensou Olivia. Infelizmente, talvez nunca a experimentasse de novo.
Ela começou a beber outra garrafa.
AERON ENTROU NA fortaleza, com as mãos em forma de punhos. Não olhou para os lados nem seguiu para a cozinha, embora estivesse faminto. Começou a subir os degraus.
— Para onde você está indo? — Cameo perguntou, mantendo o ritmo ao lado dele.
— Encontrar Olivia. — Para interrogá-la. Não a beijaria, como quisera fazer nas últimas horas, quando estava pensando nela em vez de procurar Pesadelos. Seu medo era ficar tão obcecado por ela quanto já estivera por matar Danika.
Só que ele não queria matar Olivia.
Queria finalmente terminar o que eles tinham começado na sua cama. Sim, os dois tinham chegado ao orgasmo, mas ele não afundara dentro dela. Não a levara até o fim.
Ainda assim. Ele já a sujara, pensou, pois espalhara seu sêmen por sua barriga. Ele já despertara a ira de Lysander. Não que ele se importasse mais. Não que o anjo já tivesse aparecido para atirar nele. Então, que outro mal poderia causar ao fazer amor com ela?
E assim, de repente, seu foco mudou. Em vez de interrogá-la, quando a encontrasse, tiraria sua roupa. Lá vai você outra vez. Pensando nela em vez de cuidar dos seus deveres.
E o silêncio do seu demônio não ajudava em nada. Se ele ouvisse a palavra mais de novo, explodiria em sua própria loucura sanguinária.
Concentre-se. Interrogue-a. Sim. Era isso o que faria. Não tiraria sua roupa. A menos que elas estivessem muito apertadas, assim estaria lhe fazendo um favor, tirando-as e ajudando Olivia a respirar.
Concentre-se, droga. Faça perguntas. A ela. Olivia tinha dito que ele não conseguiria encontrar a Garota das Sombras. Pesadelos. Scarlet. Qualquer coisa. E ela estava certa. Como ela poderia saber que a tal mulher desapareceria sem deixar rastros?
Parecia que ele precisava dela, afinal, pensou Aeron, fazendo uma careta. Mas isso não queria dizer que ficaria com ela. Definitivamente não. No entanto, deixá-la nua...
Ele socou a parede.
— Nossa. Você gosta tanto dela assim? — perguntou Cameo, incrédula. — Quero dizer, eu sei que você está dando uns pegas nela, mas nunca o vi tão nervoso por causa de uma mulher.
— Não quero falar sobre ela.
— Certo. Não fale.
— Mas, se você insiste... Eu não consigo entendê-la, e isso está me deixando louco. — Ele raramente compartilhava seus problemas com os amigos. Eles já tinham muito no que pensar. Mas, naquele momento, ele não sabia mais o que fazer. Precisava de ajuda. Antes que perdesse completamente a razão.
Em um dos degraus, ele parou, e Cameo fez o mesmo. Aeron esfregou uma das mãos pelo rosto.
— Ela está me fazendo sentir coisas que nunca senti antes e desejar coisas que nunca desejei antes. Cronos deve estar querendo me dar uma lição. É a única explicação para o efeito que ela causa em mim. — Nenhuma outra mulher chegara perto de amarrá-lo daquele jeito. — Eu nunca deveria ter desafiado o deus-rei a me enviar uma mulher que me deixasse louco. Embora, nesse caso, eu nem tenha ido atrás dela, então ela não deve ser a enviada de Cronos. Meus deuses, isso não faz sentido. Algo tem que estar errado comigo.
Cameo bateu levemente no ombro de Aeron, com expressão de quem o entendia, apesar de toda a tristeza estampada nela. Ela abriu a boca para responder, mas o eco de um soluço feminino a deteve.
Trocaram um olhar confuso antes que Aeron voltasse a se mover. Ele reconhecera aquele timbre encorpado e sexy, mesmo em sua tristeza. Mas o som não saíra do seu quarto, nem do quarto ao lado do dele.
Um riso masculino ecoou em seguida, e Aeron fez uma cara feia. Gideon. Estava rindo. Isso deveria deixá-lo muito feliz, pois Gideon estava sofrendo muito recentemente. No entanto, não ficou nada feliz.
Aeron correu em direção ao quarto do amigo. Lá estava Olivia, deitada ao lado de Gideon, com a cabeça enterrada em seu ombro enquanto seu corpo tremia. Gideon, aquele idiota insensível, ainda estava rindo.
— O que está acontecendo? — Aeron exigiu saber, correndo em direção à cama. E não, o que estava correndo em suas veias como fogo não era ciúme. Era fúria. Estava irado pois Olivia estava incomodando seu amigo ferido. Sim. Estava furioso. Com Olivia. Não queria apunhalar Gideon no coração com uma de suas adagas.
— É melhor alguém me explicar o que está acontecendo antes que eu faça algo de que todos vamos nos arrepender.
Minha, seu demônio grunhiu.
Melhor do que “mais”, Aeron achou.
— Aeron? — Olivia encontrou seu olhar antes de afastar seus olhos cheios de água de Gideon. Ela chegou a esticar os braços e passá-los em volta do pescoço dele, agarrando-o com toda a força do mundo. Suas lágrimas encharcaram a camisa do guerreiro, e seu corpo voltou a tremer violentamente.
— Ah, que maravilha. Agora ele está zangado.
— Se você machucá-la... — Aeron ameaçou. Sim, ele admitia. Queria esfaquear Gideon.
Nunca machucara um amigo seu de propósito. Lutara contra eles? Sim. Bater a cabeça uns dos outros contra uma parede era simplesmente uma forma de aliviar a tensão. Mas Sabin já o apunhalara pelas costas uma vez, literalmente, e não para aliviar a tensão, mas por raiva mesmo, e Aeron jurara que nunca faria seus amigos se sentirem daquela forma: traídos.
Naquele momento, no entanto, não imaginou que seria capaz de se controlar. E também não poderia culpar seu demônio. Não havia qualquer imagem ruim piscando em sua mente, nenhum desejo de punir um pecador. Tudo o que havia era aquela mesma raiva cega.
Você não se importa com essa mulher. Vai se livrar dela na primeira oportunidade, lembrou a si mesmo, mesmo enquanto a agarrava e a puxava. Os soluços de Olivia se intensificaram, e ela tentou se agarrar a Gideon.
Aeron a soltou.
— Gideon! Responda. O que aconteceu? O que você fez com ela?
— Tudo. Ela é apenas uma bêbada muito feliz. — Gideon lhe deu um sorriso de desculpas.
A pura e doce Olivia estava bêbada? Pior, alguém, que não Aeron, a corrompera?
Raiva, sim. O obscuro sentimento se espalhou. Surpresa, também. E um ciúme que já não poderia negar.
— Ah, Aeron — disse Olivia, entre soluços, finalmente tentando buscar consolo nele, e não em seu amigo. — Isso é terrível. Eu não tenho asas, e você está determinado a me colocar na rua, sozinha e desesperada. Legião foi tão má, e por alguns minutos eu fiquei com raiva. Nunca tinha sentido raiva antes. Não mesmo. Eu não gostei nada. E eu sei tantas coisas, poderia ajudá-lo tanto, mais até do que você imagina, mas você não quer a minha ajuda. Talvez Lysander estivesse certo. Talvez eu deva voltar para casa.
Ele se lembrou de como ela sangrava quando a encontrara, suas asas tinham sido recentemente arrancadas. Lembrou-se da dor que ela sentira quando Legião a mordera. A culpa substituiu todos os outros sentimentos dentro dele. Ele deveria... espere. Voltar para casa?
— Você pode voltar? — perguntou Aeron, estupefato.
— Ahã. — Sniff, sniff. — Em 14... não, dez dias. Estou perdendo as contas. Você disse que eu fiquei doente por três dias, certo? Mas, se eu voltar mesmo, serei forçada a matá-lo. É a única maneira de me aceitarem de volta no céu.
Então, se ela voltasse para casa, ainda teria de matá-lo. Ou pelo menos tentar. Ele podia viver com aquilo. Literalmente, era o que esperava. Assim ela estaria fora de alcance, longe de sua influência negativa e das necessidades nocivas, longe do perigo.
— Eu posso cuidar de mim mesmo, Olivia — ele disse, e ela explodiu em uma nova sequência de soluços.
— Mas não deveria ter de fazer isso sempre, Aeron. Alguém precisa protegê-lo da mesma forma como você sempre protege os outros.
Era assim que ela o mataria, ele imaginou. Com lágrimas e gentilezas. Ele já podia sentir uma dor forte e aguda no peito. Sempre fora o protetor, o responsável por manter os outros em segurança. Saber que outra pessoa queria tomar conta dele era quase irresistível.
— Descanse um pouco — ele disse a Gideon, que ainda sorria, antes de sair do quarto.
Foi então que ouviu Ira murmurando em sua cabeça, tão chateado quanto Olivia: Minha. Machucar. Melhor.
Estou fazendo o melhor que posso.
— Talvez não seja capaz de resolver nada do que você disse, mas se você finalmente me contar o que os demônios lhe fizeram, eu posso tentar ajudar a melhorar. Lembra como?
Olivia apoiou a testa em seu queixo com pelos levemente eriçados.
— Com um beijo.
— Sim. — Ele a apertou com mais força. Pelos deuses, ele era generoso. — Conte.
Sniff, sniff
— Não. Eu não quero.
— Você contou a Gideon?
— Não.
Mesmo bêbada, não havia chance de ela deixar nada escapar. Ele poderia ter insistido, mas não o fez. Por favor, deuses, sem mais lágrimas.
Dentro do quarto dele, Aeron a deitou sobre o colchão. Olivia olhou para ele, com seus olhos quase girando dentro das órbitas.
— Você quer fazer sexo agora? — ela perguntou, e depois soluçou. — Acho que dei minha calcinha para Gideon, então estou pronta para começar.
— Você deu sua calcinha para Gideon? E ele aceitou? — Incrédulo, Aeron lutou contra a vontade de conferir embaixo da saia dela, depois lutou contra o desejo ainda mais forte de voltar ao quarto de Gideon e finalmente atacar.
— Sim, e ele aceitou. Então, vamos fazer ou não?
Infelizmente, Aeron estava tentado. Mesmo com aqueles olhos inchados e com a pele manchada, Olivia era encantadora; e poderia levá-la para a cama facilmente. Seu corpo ainda a desejava, e ninguém jamais precisara de tanto conforto. Não que ele soubesse como confortar alguém. Mas ela merecia algo melhor do que uma primeira vez bêbada.
— Vá dormir, Olivia. Pela manhã... — Quando ela, e ele?, teriam apenas nove dias antes que ele garantisse que ela voltaria para casa. — ... temos muito o que conversar.