A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 12 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Doze

ENQUANTO A NOITE abria espaço para o amanhecer, e os cidadãos acabavam de acordar e se preparavam para começar o dia, Aeron caminhava pelas ruas, com Paris ao seu lado, e os dois seguiam em meio às sombras, silenciosos. Talvez Paris, que não hesitara na escolha de sua companhia naquela noite — será que isso significava que estava finalmente superando a perda de Sienna? — parecesse estar tão perdido em seus pensamentos quanto Aeron, enquanto voltavam à fortaleza.

Olivia chorara até cair no sono, e ele a abraçara durante todo esse tempo. Quando ela finalmente ficara inconsciente, Aeron a levou para o apartamento de Gilly, imaginando que dessa forma tudo seria mais fácil. Se ela não pudesse falar com ele, não poderia tentá-lo a se desviar de seu propósito. Mas ele não saíra imediatamente. Paris precisava de um tempo para ficar com sua escolhida, então Aeron se aninhou ao lado do anjo.

Mais uma vez, ele percebera que gostava de abraçá-la, o que era mais uma razão para finalmente se livrar dela. Porém, ao afastar-se, com a intenção de fazê-lo permanentemente, já não tivera tanta certeza de que realmente queria se livrar dela. Não que alguma vez tivesse tido certeza, mas, droga, sua determinação tinha sido abalada.

Vê-la nos braços de Gideon fez nascer um sentimento de posse que ele nem imaginava ter, pois os acontecimentos anteriores com Paris e William não serviam de comparação. Só de pensar em Olivia vagando por aquelas ruas, determinada a “se divertir”, sozinha, tão passível de ser enganada... Seus dentes rangiam, o que sempre acontecia quando pensava nela.

Um homem passou, chamando sua atenção. Um humano. De 20 e poucos anos. Grande. Instantaneamente, Ira começou a rugir, rosnando por liberdade, enviando imagens de mãos que se moviam e tocavam um rosto feminino que chorava.

Um que bate em mulheres, Aeron percebeu enquanto Ira lançava mais daquelas imagens em sua mente.

Você é uma inútil, o homem gostava de gritar, com cuspe jorrando de sua boca. Não sei por que me casei com você. Já era uma vaca gorda naquela época, e agora é uma vaca ainda mais gorda.

Pra variar, Aeron nem tentou se deter. E se Olivia tivesse sido o alvo de tanta ira? E se Legião também tivesse sido alvo? Permitindo que Ira tomasse as rédeas sem resistência alguma, amando seu demônio mais do que deveria, sem qualquer sinal de culpa, ele girou nos calcanhares, correu para a frente e se aproximou do homem, que arfou quando Aeron o agarrou e girou no ar.

— Que merda é essa...?

— Aeron — Paris gritou, cansado.

Aeron o ignorou.

— Você me dá nojo, seu bosta, insignificante. Por que não tenta bater em mim?

O homem ficou pálido e começou a tremer.

— Eu não sei quem é você nem o que acha que está fazendo, mas é melhor sair da minha frente, seu idiota.

Devia ser um turista, pensou, ou então o teria reconhecido.

— Ou você vai fazer o quê? — Aeron abriu um sorriso lento e cruel. — Vai me xingar outra vez?

O homem deu um grunhido baixo. Ele tinha uma faca no bolso, Aeron percebeu repentinamente. Queria apunhalar Aeron na barriga e no pescoço, e vê-lo sangrar até morrer.

Sem aviso prévio, Aeron atacou. Seu punho direito chegou ao nariz do homem. Seguiu-se um gemido, um uivo de dor. O sangue se espalhou. Ele não parou, mas começou a movimentar a outra mão. Seu punho esquerdo alcançou a boca do homem, rasgando sua carne. O uivo se transformou em grito.

Aeron ainda não tinha terminado.

Não posso lutar limpo. Tenho que machucar. Ira estava totalmente no controle.

Mas Aeron não se importava.

Enquanto o homem tentava recuperar o equilíbrio e se soltar, Aeron bateu com o joelho na sua virilha. Seu oponente caiu de joelhos, deixando todo o ar dos seus pulmões escapar por seus lábios ensaguentados. Sem piedade. Aquele canalha nunca demonstrara piedade. Aeron chutou seu ombro, e ele voou para trás. Depois disso, ele estava sentindo tanta dor que não conseguia levantar nem se defender.

Encarou Aeron com os olhos cheios de lágrimas.

— Não me machuque. Por favor, não me machuque.

— Quantas vezes sua esposa lhe disse algo parecido? — Aeron se ajoelhou à sua frente, agarrando a cintura do homem com as pernas.

Utilizando um reservatório de força que ele provavelmente nem sabia que tinha, o homem de rosto pálido tentou escapar, arrastando-se para trás. Porém, Aeron simplesmente o apertou com ainda mais força, mantendo o canalha no lugar.

— Por favor. — A voz do homem tremia, ele estava desesperado.

Aeron atacava sem parar, dando um golpe atrás do outro. A cabeça do homem se dobrava para a esquerda e para a direita a cada novo impacto. Mais sangue jorrava. Até dentes voavam como se fossem pedaços de doce. Sua pele era rasgada e os ossos, quebrados.

Logo, já não havia grunhidos nem gemidos.

Aeron sentiu que alguém tocava seu ombro.

— Você já o puniu. Pode parar agora — disse Paris atrás dele.

Aeron ficou paralisado. Estava arfando, com as articulações pulsando. Muito fácil. Tinha sido muito fácil. O homem ainda não pagara o suficiente por todo o sofrimento que causara. Mas talvez tenha aprendido uma lição, disse a voz da razão na mente de Aeron. E, para que a razão tivesse voltado, o controle devia ser seu novamente.

— Vamos para casa — Paris sugeriu.

Casa, não. Ele não estava pronto para voltar ao seu quarto, para a cama onde beijara e tocara Olivia. Parado, Aeron continuava de pé. Ele deu um último chute no estômago do homem antes de olhar para o amigo.

— Preciso de um tempo. Sozinho.

Ficaram em silêncio por um momento. Paris estudava a expressão dura do amigo. Finalmente, ele assentiu.

— Tudo bem. Talvez consiga usar esse tempo para baixar a pressão, porque nossa...

— É o que pretendo fazer.

Mesmo depois de Paris ter ido embora, Aeron permaneceu no mesmo lugar, tentando se recuperar. Estou no controle, ele lembrou a si mesmo, mesmo preferindo não estar. Eu estou no controle.

Ira continuava a vagar por sua mente, trabalhando freneticamente, pronto para atacar a próxima vítima.

Ele precisava de Legião.

Ou de Olivia, pensou em seguida.

Seu coração começou a bater forte por outro motivo, e Aeron precisou de um tempo para perceber por quê. Era uma mistura de excitação e arrependimento que o atingia, justamente como seus pulsos tinham feito àquele humano. Olivia não despertara quando ele a deixara no quarto de hóspedes de Gilly. Nem quando ele disse a Gilly que o chamasse assim que Olivia acordasse. Não, ela se deitara na cama, adoravelmente espalhada, com os cabelos caídos ao redor do corpo, roncando delicadamente. Lutar contra o desejo de se enroscar com ela mais uma vez já se provara ser uma missão impossível. Mas ele já conseguira. Ele saíra para baixar o nível com Paris.

Talvez devesse voltar para onde ela estava, pensou, seguindo em direção ao apartamento de Gilly antes de se deter. Olhou para os céus, esperando alguma orientação. Mas seus olhos nunca chegaram às estrelas. Em vez disso, viu asas brancas e com penas, e parou.

Galen. Líder dos Caçadores. Anjo falso. Idiota.

Automaticamente, Aeron agarrou duas lâminas e entrou ainda mais nas sombras. Não deveria ter ido à cidade sem uma arma, mas estava tão preocupado com Olivia que nem se lembrara de pegar algo mais. Galen estava empoleirado no topo de um prédio, com as asas abertas enquanto observava as ruas.

Se ele sabia que Aeron estava ali embaixo, olhando para ele, não deu qualquer sinal.

Durante todo aquele tempo, Ira não parou de maquinar na cabeça de Aeron. O guerreiro cometera pecados demais para que o demônio fosse capaz de processar; a necessidade de matar simplesmente inundou Aeron. Controle. Controle absoluto. Não poderia perder daquela vez.

Inesperadamente, Galen deixou o corpo ereto. Aeron pressionou as costas contra a parede do prédio atrás dele, tinha certeza de ter sido visto, mas se recusava a fugir. Talvez naquela noite eles acabassem com isso. Finalmente.

Galen pulou, caiu... caiu... Suas asas se abriram ainda mais, ele as bateu uma vez e pousou suavemente, distante de Aeron.

Aeron retesou o corpo. Não poderia matar Galen sem sofrer sérias consequências, mas podia torturar o idiota antes de trancafiá-lo. E depois voltar a torturá-lo.

Um momento se passou, depois outro, e Galen simplesmente guardava as asas em suas costas e esperava. Ele não se aproximou.

Todas as fibras do corpo de Aeron queriam saltar para frente e atacar. Afinal, os ataques surpresa eram o seu ponto forte. Mas se manteve quieto. Algumas vezes, a batalha não era a melhor tática em uma guerra. Algumas vezes, simplesmente observar e aprender rendia recompensas ainda maiores. O que estava acontecendo ali? O que Galen estava fazendo em Budapeste?

Já estivera ali antes, claro, mas recentemente partira para combater um contingente de Senhores que invadira uma instalação em Chicago, onde os Caçadores estavam criando, e educando, crianças metade humanas e metade imortais. Todas eram ensinadas a odiar os Senhores.

Agora que a escola estava em ruínas, os Senhores tinham libertado as crianças e encontrado lares que as aceitaram de bom grado. Casas que os Caçadores, com sorte, nunca encontrariam.

Então Galen estava ali em busca de vingança?

Punir, disse Ira.

Ainda não.

— Finalmente — disse Galen, com sua voz densa preenchendo o silêncio.

Aeron olhou a área em volta, mas não viu ninguém se aproximando. Com quem ele estava falando? Consigo mesmo? Ou...

Um par de pernas surgiu poucos centímetros à frente de Galen. Só que as pernas não estavam presas a nenhum torso. O que era aquilo? Mal teve tempo de formular a pergunta quando surgiu uma cintura, depois ombros, braços, e ali estava, a parte interna do pulso direito da aparição, o símbolo do Infinito, a marca de um verdadeiro e dedicado Caçador, e finalmente, um rosto. Até que um homem estava de pé ali, completamente formado, segurando um pedaço de tecido escuro e ondulante.

Não era um fantasma, pois não havia nenhum halo brilhante ao seu redor. Era apenas um homem, tão real quanto Aeron. Mas como ele tinha ... Tecido. A palavra ecoou na mente de Aeron, seguida por outra: Invisível.

Ele arregalou os olhos de horror e surpresa. Tecido. Manto. O... Manto da Invisibilidade?

— Eu fico com isso. — Galen confiscou o manto e o dobrou uma, duas vezes. Em vez de fazer com que o material encolhesse, mas ficasse mais grosso, cada dobra diminuía tanto o tamanho quanto a largura do tecido, e em pouco tempo o guerreiro parecia carregar um simples quadrado de papel.

Claro! Aquilo não poderia ser outra coisa além do Manto da Invisibilidade. Galen guardou o artefato na sua túnica, enquanto Aeron automaticamente esticou o braço. Espere. Fique aqui. Deixou cair o braço ao lado do corpo. Primeiro a informação, depois, o artefato.

— Há câmeras aqui — disse o humano. — Eu não as encontrei, mas sei que os demônios mantêm a cidade vigiada.

— Não se preocupe. — Galen riu, convencido. — Nós já cuidamos disso.

Ah, sério? Como? As câmeras não tinham sido desativadas. Torin teria lhe enviado uma mensagem de texto. Alguém tinha entrado no sistema e talvez estivesse repassando as mesmas imagens ininterruptamente? Isso tinha acontecido num dos filmes que Paris o obrigara a assistir. Ou talvez forças ainda mais poderosas estariam em jogo?

Cronos algumas vezes ajudava os Senhores, então, era possível que algum outro deus pudesse estar ajudando os Caçadores?

— Você confirmou que eles têm um anjo no meio deles? — Galen perguntou.

— Sim, embora ela não pareça ser tão poderosa quanto você.

— Poucos anjos o são. É verdade que estão apenas com metade da tropa?

— Sim.

Galen riu novamente.

— Ótimo. Agora junte-se aos outros e que fiquem escondidos até que eu volte. Algumas de nossas tropas desapareceram ontem, e mesmo nossa querida rainha os perdeu de vista. Assim que os encontrarmos, podemos atacar. E dessa vez, sem compaixão.

Punir!, disse Ira mais uma vez.

— Sem compaixão. Mas eu pensei que...

Galen balançou a cabeça.

— Diga aos outros que nosso experimento foi um sucesso.

O sorriso do homem foi contido, mas não menos satisfeito.

— Sem compaixão, certo.

Aquelas asas brancas se agitaram, bateram e depois se aquietaram. Galen franziu as sobrancelhas.

— Minha filha. Quero que seja mantida viva e que a deixem sozinha. — Com isso, ele voou pelos ares.

Sua surpreendente preocupação com Gwen não iria salvá-lo, Aeron pensou, lançando-se pelo ar também. Suas asas estavam completamente curadas e ele não teria problema algum em seguir...

Galen desapareceu. Estava ali um momento antes, e desaparecera logo em seguida.

PUNIÇÃÃO!

Droga, Aeron se irou silenciosamente. Eu não posso. O Manto tinha ido embora, estava fora do seu alcance, nas mãos de Galen. A única coisa que restava ser feita era conseguir mais informações. Embora isso não lhe redimisse por sua falha.

Estreitou o olhar, observando o humano logo abaixo dele. O homem vagava por entre os prédios e carros estacionados, sempre observando tudo ao seu redor. Aeron o seguiu. Finalmente, sua presa entrou no recém-remodelado Clube Destiny, sob nova direção e com novo nome: The Asylum. Entrou e não saiu mais.

Seria aquele o acampamento dos Caçadores?

Impossível. Alguns dos Senhores adoravam se divertir naquele lugar, então Torin instalara câmeras de segurança lá dentro. Eles teriam notado a presença de inimigos. Mas...

Talvez não fosse impossível. E se as imagens das câmeras estivessem sendo alteradas, como fora nas ruas.

Outras perguntas começaram a brincar em sua mente. Que experimento tinha sido um sucesso? Para onde tinham ido as tropas de Galen? Quem era a “rainha” deles?

Com Ira ainda gritando em sua cabeça, exigindo ação, ele pegou o celular e enviou uma mensagem de texto para Torin. Convoque uma reunião. Duas horas. Tinha algumas coisas a resolver antes. Ou seja: Olivia. Se ela realmente tinha respostas, ele as conseguiria. Enquanto isso, ela poderia acalmá-lo, como ele planejara originalmente. Encontrei algo. Até vi Galen com o maldito Manto da Invisibilidade.

Torin, que parecia nunca dormir, respondeu instantaneamente. Uma hora. Se o que você sabe é mais importante do que nosso inimigo ter um artefato, quero ouvir o mais rápido possível.

Pronto. Aeron guardou o telefone no bolso e girou nos calcanhares, para voltar ao apartamento de Gilly, acordar Olivia se fosse preciso e conseguir as tais respostas. Mas, na metade do caminho, uma figura alta e ameaçadora o deteve.

Cronos, rei dos deuses, franzia a testa. Como sempre, vestia uma túnica branca comprida, e seus pés estavam envoltos por sandálias. Seus dedos estavam visíveis, com as unhas amareladas e curvas.

Mas Aeron não pôde deixar de notar que ele parecia mais jovem do que jamais estivera. Seus cabelos já não ostentavam fios grisalhos, mas estavam fartos e da cor da areia. Seu rosto quase sem rugas, seus olhos de um castanho mais brilhante do que Aeron estava acostumado a ver. O que causara tamanha mudança?

— Meu Senhor — ele disse, com cuidado para não deixar transparecer a irritação que sentia. Cronos raramente aparecia quando era invocado, mas não se importava em fazer uma visita nos momentos mais inoportunos.

Ira, ainda agitado e preparado, não projetou nenhuma imagem na mente de Aeron, mas ele nunca fazia isso na presença de Cronos. Como acontecera quando ele vira Galen, dono de vários pecados para serem processados, ele simplesmente recebia um ataque devastador. Não para matar, dessa vez, mas, curiosamente, para roubar tudo que o deus possuísse. Um desejo que ele não entendia, e que não fora capaz de decifrar.

— Você me decepcionou, demônio.

Não é o que eu sempre faço?

— Esse não é o lugar para esse tipo de discussão. Os Caçadores...

— Ninguém pode nos ver nem nos ouvir. Eu mesmo cuidei disso.

Da mesma forma como algum outro deus garantira que os Caçadores não pudessem ser vistos?, Aeron se perguntou novamente.

— Então, por favor, diga-me por que eu o decepcionei. Não posso viver nem mais um segundo sem saber o motivo.

Cronos estreitou os olhos castanhos.

— Seu sarcasmo me irrita.

Como ele bem sabia, coisas ruins aconteciam quando o rei ficava irritado. Coisas como a mente e o demônio de Aeron ficando loucos por sangue e colocar a vida dos seus amigos em perigo.

— Desculpe-me. — Ele curvou a cabeça para esconder o ódio que certamente cintilava através de seus olhos.

— Preciso lembrá-lo de que a morte de Galen é tão importante para você quanto é para mim? Mas ainda assim você deixou que o anjo o distraísse.

— Não era isso o que você queria? — Ele não conseguiu evitar a pergunta.

Cronos acenou uma das mãos no ar.

— Você acha que eu dei algum crédito ao seu ridículo pedido? Não quero que se distraia, então por que eu enviaria uma mulher para garantir que sua atenção fosse desviada?

Aeron se perguntara a mesma coisa.

— Livre-se dela.

— Estou tentando — Aeron respondeu, com as mãos em formato de punho.

Fique com ela, Ira se intrometeu.

— Tente com mais vontade — ordenou Cronos.

— Ela só ficará por mais dez... não, nove dias. — Com a manhã se aproximando, ele perdera um pouco mais de tempo com ela. O que era uma coisa boa. Sim, uma coisa boa. — Depois ela vai voltar para o céu. — Onde deveria estar. E ele mesmo garantiria que isso acontecesse.

Uma forte dor devido à tristeza o atingiu, mas ele a ignorou. Da mesma forma como ignorou o choro de Ira.

Cronos pareceu apenas levemente satisfeito com tais palavras.

— Se ela não for embora, eu vou...

— Vai fazer o quê? Outro homem apareceu sem avisar. Ele era alto e musculoso, com cabelos claros e olhos escuros. Como Galen, ele tinha asas. Porém, as suas eram totalmente douradas.

Lysander.

Aeron só vira o anjo guerreiro algumas poucas vezes, e assim como acontecia com Olivia, não surgiam imagens de maldades em sua mente, nenhuma necessidade de punir de maneira alguma. O que não significava que Aeron gostasse daquele idiota.

Ela é boa demais para você, Lysander tinha dito. Não a suje, ou vou enterrar você e todos os que você ama.

Aeron não sentira o anjo em nenhum nível, nem antes nem agora, e odiou o sentimento de impotência que isso de repente lhe trouxe. Lysander poderia ter cortado sua garganta, e ele não teria tido chance de revidar.

Olivia tinha razão.

Cronos ficou pálido, muito pálido, de um jeito não lisonjeiro.

— Lysander.

— Machuquem-na — Lysander falou, seu olhar se revezando entre os dois —, toquem num único fio de cabelo de sua cabeça, e irei destruí-los.

— Como ousa me ameaçar? — Cronos trincou os dentes, numa expressão ameaçadora, com a cor voltando lentamente ao seu rosto, juntamente com sua fúria. — Eu, que sou todo-poderoso. Eu, que sou...

— Um deus, sim, mas você pode ser morto. — Lysander riu, mas sem demonstrar qualquer traço de humor. — Você sabe que eu não faço ameaças vazias. Pode ouvir a verdade em minha voz. Machuque-a, e sua ruína será assegurada por minhas próprias mãos.

Silêncio.

Denso, pesado.

— Farei como quiser — disse Cronos, finalmente. — E você não poderá me deter. — Porém, contrariando suas palavras, ele desapareceu.

Aeron lutou para se orientar novamente. O deus-rei nunca recuara de nada. E se fizera isso agora, na diante de um anjo... Aquilo não trazia boas perspectivas para Aeron, que era muito menos poderoso.

— Quanto a você. — Lysander esticou a mão, e uma espada composta apenas de fogo surgiu. A ponta da espada estava apontada para a garganta de Aeron antes que ele pudesse piscar.

Sua carne fez um chiado, mesmo quando seus olhos se estreitaram.

— Isso tem a ver com a... sujeira?

— Você não faz ideia de como eu desejo matá-lo — disse o anjo. — Friamente, sem compaixão.

— Mas não vai me matar. — Caso contrário, o anjo já teria atacado. Eles eram claramente muito parecidos nesse ponto. Quando era preciso, os guerreiros agiam sem hesitação. Não paravam para conversar.

— Não, não vou. Bianka não iria gostar. Nem Olivia. — A espada abaixou, desapareceu. — Eu a quero de volta, mas ela... gosta de você. — A repulsa cobriu sua voz confiável. — Portanto, você vai viver. Por enquanto. Mas quero que a faça sofrer, que a faça odiar essa vida mortal, e quero que faça isso enquanto a mantém em segurança.

— Combinado.

— Tão facilmente? — Aqueles olhos escuros se ampliaram. — Você não quer ficar com ela?

Querer... sim. Naquele instante, só de pensar em perdê-la de uma vez por todas, ele admitia que parte dele realmente queria ficar com ela. Pelo menos por um tempo. Queria ajudá-la a se divertir, queria vê-la sorrir e ouvir sua risada. Queria abraçá-la novamente. Beijá-la novamente. Tocá-la novamente. E finalmente mergulhar naquele corpo pequenino e doce. Mas não faria nada disso. Ela ficaria muito melhor no céu, e ele poderia retomar a vida que criara para si mesmo. Uma vida sem complicações. Sem preocupações. Bem, sem contar as esperadas ameaças de acabar com sua vida.

Caso ela permanecesse na Terra, seria humana. Frágil. Em pouco tempo definharia e morreria. E ele só poderia assistir. Isso era algo que nunca se permitiria fazer. Em relação a ninguém. Nem mesmo a ela. Especialmente em relação a ela.

Minha, Ira grunhiu.

— Não — ele se forçou a dizer para... Ira, para Lysander. Não poderia continuar ignorando ou aceitando os clamores do demônio. Era muito arriscado. — Não quero ficar com ela. — Ao contrário do anjo, ele podia mentir descaradamente.

— Mas, ainda assim, você gostaria de... sujá-la completamente?

Aeron pressionou os lábios até que formassem uma obstinada linha. Eles não estavam tendo aquela conversa. Mas seu corpo já reagia ao pensamento de possuí-la, ficando rígido em todos os pontos sensíveis.

— Posso ver que sim. Muito bem, então. — Talvez eles estivessem mesmo tendo aquela conversa. — Fique com ela... dessa forma, se é o que vocês dois querem. Eu não vou puni-lo por isso, pois ninguém sabe melhor do que eu o que é ter uma mulher tentando nos seduzir... É irresistível. E ninguém conhece Olivia melhor do que eu. Se ela não experimentar tudo... — e Lysander, o temível anjo, ficou de fato corado — ... não vai deixá-lo em paz. Então. Terminado o ato, faça com que se sinta péssima, como eu disse. Convença-a a ir embora, mas sem machucá-la fisicamente, e vou fazer o possível para convencer o Alto Conselho dos Céus a poupar você e a seu amiguinho demônio.

O melhor de Lysander seria igual a ter êxito. Não havia dúvida na mente de Aeron.

E isso significava que Aeron e Legião continuariam vivos, e Olivia estaria protegida para sempre. Olivia, a quem Lysander conhecia melhor do que ninguém. Aquela declaração provocara mais emoção do que qualquer outra; mais até do que a notícia de que eles seriam poupados.

— Obrigado — ele se forçou a dizer. Engraçado. As palavras pareciam ter sido empurradas por lâmina.

Lysander se afastou, um, dois passos.

— Vou embora agora, mas não sem antes lhe conceder uma informação que há tanto tempo deseja, pois você não poderá proteger Olivia como ela precisa se não souber o que acontece ao seu redor. — Ele não esperou por uma resposta de Aeron. Mas Aeron não tinha qualquer resposta. Caso dissesse algo, poderia acidentalmente fazer com que Lysander fosse embora, e não implorando para que continuasse. — Você sempre se perguntou por que Cronos se recusa a matar Galen com as próprias mãos. A razão é simples. Cronos e sua esposa, Rhea, odeiam um ao outro. Eles tomaram lados opostos nessa guerra travada por vocês e juraram não capturar nem matar qualquer Senhor com as próprias mãos. Foi a forma que encontraram de manter a luta um tanto quanto justa, imagino. Claro que Rhea é o escudo protetor e a informante de Galen.

Então era verdade... Um deus realmente estava ajudando os Caçadores. E não qualquer deus, mas a rainha dos Titãs.

Deveria ter descoberto, deveria ter imaginado. Aeron já a conhecera antes, quando os Titãs haviam derrotado os gregos pela primeira vez e tomado o céu. Eles o invocaram, esperando que lhes desse informações sobre os Senhores. Rhea tinha aparência tão velha quanto Cronos já tivera, com cabelos prateados e a pele cheia de rugas. Ela irradiara tanta frieza e ódio que Aeron se surpreendeu, embora naquela época estivesse mais preocupado com as novidades sobre a mudança da guarda celestial do que com o olhar frio de uma única deusa.

— Vou lhe dar mais uma informação — disse Lysander —, pois isso o ajudará mais do que qualquer outra coisa. Cronos e Rhea são exatamente como você.

Exatamente como ele?

— O que você está querendo dizer?

— Eles são deuses, sim, mas também são Senhores. Ela é possuída pelo demônio do Conflito, e ele... Ele é possuído pelo demônio da Cobiça.