A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 29 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Vinte e Nove

FINALMENTE, LEGIÃO ENCONTROU Galen. Ele estava num bar sujo e escuro em Londres. Ela estivera viajando de um lado a outro, de Buda à Bélgica, passando pela Holanda, até chegar a Londres. Aquele covarde viajara até lá e tomava um copo de uísque num canto escuro do bar. Ela podia sentir o cheiro da ambrosia consumida por ele. Reconheceu aquele cheiro doce, pois Paris sempre cheirava daquela mesma forma, e sabia que Galen estaria bêbado em pouco tempo. Tudo o que tinha a fazer era esperar.

Mas estava muito impaciente para esperar.

Olhou para si mesma. Ainda vestia aquela camiseta e a calça jeans. Estavam usadas, mas limpas. E mesmo que não fossem muito reveladoras, seus seios eram tão fartos que esticavam o tecido. Vários homens já tinham notado sua presença e assoviado ao vê-la passar. Ela fingia não ligar, mas por dentro adorava ser vista como um ser desejável, e não algo feio, nojento.

Parou na mesa de Galen. Ele ergueu os olhos, observando-a através de seus cílios longos.

— Vá embora.

Fique firme. O instinto exigia que ela atacasse primeiro e depois perguntasse. Resista. Galen sentia prazer ao enganar os Senhores, enviando Iscas para distraí-los antes de agir. Naquele dia, ela seria a Isca dos Senhores.

— Você é lindo — ela disse, e era mesmo. Com seus cabelos claros e seus olhos azuis, suas feições bem talhadas e sua boca sensual, ele era a fantasia de qualquer mulher. Mas ajudara a destruir a vida de Aeron, e merecia pagar por isso. — Eu quero você. — Morto, mas esse detalhe ela não lhe diria.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Claro que quer. E não consegue se conter. Nenhuma mulher consegue. — Ele soava... quase chateado com isso. — Mas vou lhe dar uma notícia fresquinha. Não importa como eu a faça se sentir, querendo um futuro, casamento, filhos, isso eu nunca poderei lhe oferecer... — No final de sua declaração, já estava sorrindo com desdenho. Ele terminou de beber seu uísque. — Agora, é melhor que vá embora, como eu já pedi. Eu vim até aqui em busca de paz e tranquilidade.

Era o segundo homem que a dispensava depois da sua transformação. Não pôde se conter e lhe deu um tapa. A cabeça dele foi jogada para um lado, e uma marca de sangue se formou no canto de sua boca. Acho que sou mais forte do que imaginava, ela pensou, orgulhosa. Ótimo.

Quando voltou a olhar para ela, sua expressão estava iluminada de interesse.

— Por que fez isso?

— Talvez você não tenha me escutado quando eu disse que quero você.

— E imaginou que me batendo conseguiria me conquistar?

— Você ainda está aqui, não está?

Ele a estudou antes de olhar para o bar.

— Então, onde você me quer?

— No banheiro. — Sem testemunhas. Não para o que planejara. — Aliás, não quero me casar com você, nem quero um filho seu. Vamos apenas transar, e você vai gostar.

— Você é uma coisinha bem enérgica, não?

— Você nem faz ideia. Então, vamos ou não?

Ele moveu os lábios.

Aqueles lábios exuberantes se contorceram.

— Deixa eu entender isso direito. Nós vamos ao banheiro e eu vou comer você. E você nem quer saber o meu nome?

— Na verdade, eu preferiria que você mantivesse essa sua boca estúpida bem fechada. — Opa, ela quase deixou escapar sua raiva.

— Ora, ora. Você deve ser a minha alma gêmea. — Ele se levantou imediatamente, com sua cadeira arranhando o piso grudento do bar. Não disse mais nada até começarem a andar, passando um dos braços pela cintura de Legião e aproximando-a do seu corpo.

Havia uma mulher no banheiro, lavando as mãos, e Galen a empurrou para fora sem pedir licença.

— Ei — disse a menina, irritada. Mas se acalmou ao olhar para ele. — Ei — voltou a dizer, dessa vez mais derretida.

— Fique do lado de fora, ou vai morrer — ele disse, diretamente. E bateu a porta, girando o corpo para olhar para Legião.

Ela tremia, simplesmente não conseguia evitar. Havia tanto calor nos olhos de Galen que ficou momentaneamente em choque. Era o que ela queria ver em Aeron. E que talvez nunca conseguisse.

Um passo, dois, e ele se aproximou dela. Ela se afastou. Ataque agora. Mate-o. Mas ela não o matou.

— Está assustada? — ele perguntou, em tom mais suave. — Deveria estar.

Ela ergueu o queixo, olhou para trás e viu a pia e o espelho. Seu reflexo a impressionou. Aqueles cabelos dourados que caíam sobre suas costas imploravam pelo toque de um homem. Aqueles olhos grandes e escuros, cheios de desejo.

Desejo? Ela o desejava? Galen? Como poderia desejar Esperança? Era o seu inimigo. Era o inimigo de Aeron.

Suas mãos fortes tomaram conta da cintura de Legião, erguendo seu corpo. Ela engoliu em seco e voltou o foco para ele, que já estava abrindo o botão de sua calça jeans. O botão se abriu facilmente, e Galen começava a afastar suas pernas. Ele riu.

— Sem calcinha? Você está louca por mim.

A diversão dele a deixou irritada, e ao mesmo tempo aumentou um pouco mais o seu desejo. Não por ele, disse a si mesma. Ela se recusava a pensar nisso. O que queria era sexo; aliás, essa foi uma das razões para ter pedido aquele corpo. Porém, o que queria na verdade, era fazer sexo com Aeron.

Mas ele talvez nunca a desejasse daquela maneira. Não mesmo.

— Quem disse que eu estava louca por você? Você é bonito, sim, mas não passa de um substituto para outra pessoa. — Era verdade. Uma verdade da qual ela gostava. Poderia usá-lo. Fazer sexo com ele e depois matá-lo.

Os olhos de Galen se apertaram até se transformarem em pequenas aberturas.

— Sério?

— Aí está você, conversando de novo. Acho que eu já disse que odeio isso.

— Quem deveria calar a boca é você.

E, com um grunhido, ele rasgou a camiseta de Legião. Ela também não estava usando sutiã. Ele não pediu permissão, apenas se inclinou e começou a sugar seu mamilo. Sua boca era puro fogo, fazendo-a gemer. De prazer.

Aquilo era... maravilhoso.

Sim. Sim, ela teria o sexo que queria ter. E isso o distrairia até que pudesse matá-lo mais facilmente. Tudo o que tinha a fazer era abrir as pernas e deixar que ele a invadisse. Seu membro ereto, ainda dentro da calça, tocou o doce sexo de Legião, e ela gemeu.

Maravilhoso não era a palavra certa para aquilo. Mas sim perfeição. Como deveria ter sido muito melhor com Aeron. Aeron. Ela não queria nem pensar nele agora. Queria apenas sentir.

— Mais — ela se viu ordenando. E arqueou o corpo na direção dele, esfregando-se em seu corpo. Sua pele estava cada vez mais sensível. Ela sentia uma dor dentro de si, um calor com o que vira nos seus olhos. Ambos estavam crescendo.

— Não quer nem saber de preliminares? — Galen abriu sua calça e liberou seu membro ereto. Era grande. Deliciosamente grande. Os demônios costumavam fazer sexo no inferno, uns com os outros, aquelas almas malditas, e ela sabia que todos preferiam os grandes e ridicularizavam os pequenos.

— O que são preliminares? — Era verdade. Ela não tinha a mínima ideia.

Ele riu mais uma vez.

— Eu gosto de você, mulher. Gosto mesmo. — Tentou beijá-la, mas ela virou a cabeça. Ele seguiu o movimento, e ela virou o rosto mais uma vez.

— Nada de beijos — disse Legião. Ela queria, e como queria, mas beijando-o, ela o mataria antes da hora. Ela parecia humana, sim, mas seus dentes eram puro veneno. Ela podia sentir o gosto.

Ela posicionou os tornozelos na base de suas costas, aproximando-se, forçando-o a se movimentar contra ela. Mente... névoa... corpo... queimando...

— Beije-me — ele ordenou.

— Não.

— Beije.

— Não!

— Por que não? Até parece que é algo especial...

— Pare... de falar! — ela grunhiu.

Ele murmurou em resposta, e foi como acariciá-la.

— Certo. Você quer uma foda rápida, então é isso o que vai ter. — Ele agarrou a base de seu pênis e o mirou entre as pernas de Legião. Em seguida, ele a empurrava para a frente, completamente dentro dela.

Ela gritou de dor, mas a dor desapareceu tão rapidamente quanto surgira, deixando em seu lugar apenas um sentimento de absoluta possessão.

— Mais. — Ele a esticava, preenchendo-a completamente, e era uma loucura. Não era de se estranhar que seres de todas as espécies fizessem isso com tanta frequência.

— Virgem? — ele arfou, claramente chocado. Aquilo parecia inacreditável, e fez a expressão de Galen aparentemente se suavizar.

— Não é da sua conta. Termine.

Ele sorriu para ela, mas não parou de penetrá-la. A elasticidade e o preenchimento só aumentavam, empurrando-a na direção de... alguma coisa. Em pouco tempo, ela estava se contorcendo contra ele, desesperada por encontrar essa tal coisa, disposta a matar todos naquele prédio se não conseguisse isso.

— Rápido.

— Meus deuses, você é deliciosa.

Ela cravou as unhas nele quando chegou ao êxtase, movendo-se rapidamente... finalmente estava terminado... ela pingava, girava, flutuava e via estrelas piscando em seus olhos. Todos os músculos do seu corpo se contraíam, e se soltavam, contraíam-se de novo, e voltavam a se soltar. Era poderoso, comovente, mas desapareceu muito rapidamente. Deixando-a estranhamente estilhaçada.

Ela abriu os olhos. Estava ofegante. Galen ainda estava dentro dela, ainda se movia para dentro e para fora. Suas feições estavam tomadas por um prazer absoluto. Ele devia estar próximo do fim, assim como ela fizera.

Mas ela não permitiria isso, pensou. Ele não merecia sentir aquilo. Mesmo que ele a tenha feito se sentir melhor do que nunca. Mesmo que o sexo fosse agora seu jogo favorito, e ela planejasse praticá-lo o máximo que pudesse.

— Galen — ela disse, e seu olhar surpreso encontrou o dela. Um tremor se espalhou por seu corpo, reacendendo o fogo em seu sangue. Que coisa estranha. Mas não teria tempo para mais uma rodada. — Vejo você no inferno.

Dizendo isso, ela cravou os dentes em seu pescoço, empurrando-os enquanto ele urrava. Um som que resultava da dor, e não do prazer. Ele a empurrou, tentando se afastar, mas ela segurava firme, bombeando seu veneno profundamente em suas veias. Apenas quando a última gota fora destilada, ela ergueu a cabeça e sorriu para ele, que tinha ficado pálido, quase verde.

— O que você fez... comigo? — Seus joelhos fraquejaram e ele caiu no chão.

Em silêncio, ela ficou de pé e se vestiu. Seus joelhos tremiam o tempo inteiro. Parte dela queria ficar ali, para acalmá-lo, mas não podia esquecer quem e o que ele era; de novo. Aquilo tinha de ser feito. Por Aeron. Ela lhe devia isso, no mínimo.

— Eu planejava levá-lo até o meu homem, para que ele o matasse, mas é melhor assim. Curta a vida — disse Legião, jogando um beijo para Galen. — Não que ela vá durar muito tempo.

AERON ENCARAVA LYSANDER. A ameaça de decapitação fora lançada, e a determinação do anjo parecia inabalável.

— Olivia — ele disse. Ainda não saíra do lado na cama. Ele e Ira estavam estranhamente calmos. — Volte para casa. Agora. Por favor.

— Não. Não. — Ela o abraçou pela cintura, pressionando a bochecha contra suas costas. O calor úmido de suas lágrimas o queimou. — Não faça isso. Por favor, isso não.

— Você não lhe trouxe nada além de dor, demônio — disse Lysander. — Você não a viu ser torturada nas mãos de seu inimigo. Eu vi. Você não implorou para que ela voltasse para casa, para poupá-la da dor. Eu implorei. E por que ela recusou meu pedido? Porque tinha feito uma promessa a você. Porque queria se despedir. De você, como sempre. Não vou lhe dar mais tempo para chantageá-la por uma nova promessa. Não lhe darei oportunidade de zombar do nosso acordo. Tudo isso vai acabar agora. Hoje. — Num momento, suas mãos estavam vazias; no instante seguinte, ele segurava aquela espada de fogo. Ele brandiu a espada, faíscas crepitavam nela.

Ainda não, gritou Ira. Ainda não. Primeiro temos que matar Galen.

— Lysander, não! — gritou Olivia. Percebendo que não chegaria a lugar nenhum com Aeron, ela tentou se colocar à frente dele. — A espada não. Qualquer coisa, menos a espada. Eu estou implorando.

Vacilando, devido à força de sua culpa, Aeron a empurrou para a cama e abriu suas asas completamente. Queria lutar fora do quarto, longe dos olhos de Olivia. Pois haveria uma batalha. Ele não deitaria e morreria simplesmente. Ainda não, como seu demônio tinha lhe lembrado. Tinha muito o que fazer.

— Você me quer — ele disse ao anjo guerreiro. — Então, venha me pegar. — Com isso, ele saiu voando pela janela, quebrando o vidro com a força de seu impacto antes de decolar bem alto no céu.

Ao longo do caminho, ele soltou suas adagas, observando-as bater contra o chão, sem causar danos. Olivia amava Lysander. Por isso, Aeron, mesmo que fosse para salvar a si mesmo, não o mataria. Isso magoaria Olivia, e Aeron tinha jurado que não voltaria a fazer isso.

Não importavam as consequências.

Lysander o seguiu rapidamente. Ele sabia, pois Olivia gritou:

— Não, Lysander. Não faça isso! Volte aqui.

Ele odiava sua preocupação, seu desespero. Depois, se ainda estivesse vivo, ele iria acalmá-la. Ele lhe daria tudo o que quisesse. Também encontraria uma forma de salvar Legião das garras de Lúcifer, sem precisar tocar nela. Tinha de encontrar. Não poderia entregar-se a outra mulher, apenas a Olivia. Quanto a isso, ele não tinha mais ilusões.

Olivia ficara por ele. Suportara a brutalidade de um Caçador por ele. Aeron não a penalizaria por isso.

Recompensa.

Sempre.

Aeron girou o corpo e parou no ar, e um enfurecido Lysander estava a poucos metros de distância. Já não carregava a espada, suas mãos estavam vazias, mas eram como esferas. Quando seus olhares se encontraram, os dois pararam, flutuando, mas não podiam ser alcançados àquela distância.

— Não precisa ser assim — disse Aeron.

— Não existe outra maneira. Você diz que a ama — rosnou o anjo —, mas ainda assim você a deixaria aqui sozinha enquanto iria para a cama com outra. Você destruiria as forças de Olivia.

— Eu tinha planejado deixá-la partir primeiro! — Mas teria sido capaz de fazê-lo? Sentia vontade de matar alguma coisa todas as vezes em que pensava nisso. E quando ela resolvera ir, ele a convencera a ficar um pouco mais. Apesar de todo o perigo.

Não, ele nunca teria sido capaz de deixá-la ir. Nunca teria sido capaz de dormir com Legião.

Em algum momento, teria chegado a essa decisão. Lysander só tinha apressado as coisas.

— Ela é a única mulher com quem ficarei, para sempre — disse Aeron, com o queixo erguido, orgulhoso.

— E vale a pena continuar permitindo que ela coloque a própria vida em risco? Você sabe o que os Caçadores fizeram com ela?

Ele balançou a cabeça, seu estômago se contraiu de forma extremamente dolorosa.

— Não. Mas eu a vi, vi os resultados, e serei assombrado por tal imagem durante toda a minha vida.

— Isso não é suficiente! Escute. E saiba. Stefano bateu nela com o punho fechado, e também com a palma da mão aberta. Quebrou seus ossos. Tentou afogá-la. Olivia, que não tem um único traço de malícia dentro de si. E os demônios, contra os quais ela lutou para chegar até você? Ele a tocaram em pontos que só os amantes deveriam encostar. Mas ela aguentou tudo isso. Por você.

Ouvindo isso, Aeron abriu bem os braços, com o rosto voltado para a parte mais alta do céu, e urrou. Urrou com uma fúria tão potente que jamais conhecera. Ele sabia que Olivia tinha sido ferida; como dissera, vira as evidências em seu corpo. Ele tinha ficado até irritado ao vê-las. Mas agora, com todos os detalhes sendo jogados sobre ele, a irritação se intensificava, ficando mais afiada que qualquer lâmina. Ela era tão delicada, tão frágil. Poderia ter morrido, sozinha e humana. Destruída pela dor.

Punição.

— Stefano vai pagar por isso. Através de minhas próprias mãos. — Já tinha jurado matar todos os envolvidos, mas aquilo... Stefano seria colocado à beira da morte centenas de vezes, só para que depois pudessem revivê-lo e começar tudo de novo. — Aqueles demônios também.

PUNIÇÃO!

— Eu me afastei e fiquei observando tudo, incapaz de impedir que acontecesse. — Lysander parecia ter abrandado um pouco sua raiva. — Tentei fazer um acordo com você. Tentei ajudar a sua causa, chegando a distrair os deuses que os manipulavam. Mas agora acabou. Sentirá a dor pela minha mão. Sofrerá tanto quanto minha Olivia sofreu.

Pontos vermelhos salpicavam a visão de Aeron.

— Ela não é a sua Olivia. Ela é minha.

Nossa. Nossa para que possamos protegê-la e recompensá-la.

— Por quanto tempo mais? — disparou o anjo.

— Para sempre.

— Será que você não entende? — Lysander gritou. — Não pode lhe proporcionar o para sempre. Você resolveu não ir para a cama com o demônio Legião, só com Olivia, então Lúcifer virá atrás de você. Não há como fugir disso. Seus amigos morrerão, um a um. Seus demônios não conseguirão deter o próprio mestre. E Lúcifer é exatamente isso para eles: o seu mestre. Em seguida, morrerão as mulheres. Acha que sua mulher, sua mulher humana, será esquecida?... Apenas a sua morte poderia resolver todos esses problemas.

Asas bateram, um grito de guerra ecoou. Poucos segundos depois, Lysander estava bem perto dele. E seus corpos se chocaram, fazendo com que rolassem pelo ar. Socos eram desferidos contra ele, ainda que seu próprio punho também deferisse socos em direção ao anjo para se defender. Seguiram-se grunhidos, rosnados, explosões e suspiros pesados. Suas pernas se entrelaçavam, chutavam.

Estavam tão agitados que se esqueceram de bater as asas, e começaram a cair em direção a um penhasco rochoso que havia logo abaixo. Pouco antes do contato, Aeron notou o que estava acontecendo e agarrou os cabelos do anjo, abrindo suas asas com toda a sua força. E os dois voltaram a alçar voo em direção ao céu.

Lysander conseguiu se soltar e feriu a boca de Aeron com suas unhas. A dor explodiu entre seus dentes e sua gengiva, com sangue descendo por sua garganta. O anjo atacava novamente, mas Aeron lhe chutou no estômago, enviando-o para longe. Eles tinham chegado à fortaleza, quando o anjo bateu contra uma parede, roçando o corpo nas pedras e levantando uma cortina de poeira.

Em meio ao pó, ele esticou o pé, chutando Aeron e fazendo com que ele saísse girando em direção ao chão. Dessa vez, ele não pôde evitar e bateu com toda a força. O oxigênio o abandonou, tudo não passava de um doce sonho. Alguns ossos se partiram.

Ele se levantou rapidamente, contraindo-se ao sentir uma dor no tornozelo, depois voltou ao ar. Uma das suas asas estava quebrada. De novo não, ele pensou, ignorando a dor que crescia em seu corpo. Onde estava Lysander? Olhou em volta, mas ele... Sentiu um pesado golpe nas costas, que o fez sair girando pelo ar.

Sabia que Lysander o estaria esperando, preparado para atingi-lo no momento em que ele parasse. E quando esse momento inevitável chegou, ele golpeou antes, conseguindo atingir o lado do corpo de Lysander. Talvez esmagando um rim.

Isso teria feito qualquer um cair. Mas o anjo apenas gemeu. Mas não voltou a atacar. Permaneceu quieto, com suas asas douradas batendo graciosamente para cima e para baixo.

— Você quer salvar Olivia e Legião, e também os seus amigos?

Aeron também ficou parado, ofegante, suando.

— Sim. — Era o que mais queria nesse mundo.

— Bem, a única forma de fazer isso é morrendo.

Claro que Lysander diria isso.

— Mas o pacto de Legião...

— Será anulado caso você morra antes do prazo. Era um dos termos dele.

Anulado. Anulado com a sua morte. Ela estaria livre. Seus amigos poderiam viver sem a ameaça que Legião representava. Mas...

— E Olivia? — ele perguntou, através do repentino nó que se formara em sua garganta.

— Poderá voltar para casa, sem a culpa de saber que você machucou alguém que ama por causa dela. Sem o remorso de pensar que um dia você poderia ficar ressentido com ela. Sem a vergonha de deixá-lo para trás, caso imagine que um dia você poderia ficar ressentido com ela. Sem voltar a ser capturada pelos seus inimigos. Sem temer que ela seja forçada a matá-lo.

Ela faria qualquer coisa por Aeron. Ele sabia disso agora. Aguentaria o que fosse preciso, qualquer dor, física ou psicológica. E era isso o que a sua vida lhe traria: dor. Não importava o que fizesse, como vivesse, ele lhe causaria dor. Palavra-chave: vivesse.

Não poderia fazer isso com ela. Não poderia oferecer-lhe tal escolha. Ela não deveria ter de aguentar nada, mesmo estando disposta.

Longe de Aeron, poderia viver sem culpa ou vergonha. Sem dor. E foi isso o que lhe convenceu. Pensar nela vivendo como fora criada para ser: feliz, livre, em segurança.

Vamos morrer agora?, perguntou Ira, sabendo, como sempre soubera, a direção dos pensamentos de Aeron.

Eu vou.

E eu?

Você continuará vivo. Enlouquecido, mas Aeron não lembrou o demônio desse detalhe.

Para punir. Uma afirmação, não uma pergunta.

Sim, para punir. E pediu para que o demônio se lembrasse disso após sua partida. Eles a feriram.

Portanto irão morrer.

Tão simples. Obrigado por tudo. E quanto ao resto.

— Você a protegerá? — perguntou a Lysander. — Sempre?

— Sempre.

— E o meu demônio? — Se o anjo tivesse a intenção de...

— O seu demônio será contido. Galen agora está com Desconfiança, e para contrabalançar vou capturar Ira e oferecê-lo a Cronos. Já conversei com o deus-rei, e ele já escolheu um corpo. Um corpo que pertence a alguém que Cronos poderá monitorar, assegurando-se de que ela nunca ajudará seus inimigos ou ferirá seus amigos.

Ele entrou em pânico.

— Ela? — Não seria Olivia nem Legião. Certamente.

— Não. Não será Olivia nem Legião. — Lysander garantiu, claramente pressentindo seus pensamentos. — Não se preocupe com isso. Legião voltará para casa. E, como eu já disse, cuidarei de Olivia pessoalmente, hoje e sempre.

— Ira tem uma missão a terminar. Você se certificará de que Cronos...

— Percebo a natureza da missão e eu vou garantir que seja terminada. E de forma que lhe parecerá altamente satisfatória.

E concordou, mesmo odiando a ideia de não poder participar no massacre que viria em seguida, pois sim, seria um massacre.

— Tenho um último pedido antes que eu permita que você acabe com a minha vida.

Um aceno positivo.

— Peça?

— Olivia quer diversão. Ela precisa de diversão.

Antes que a última palavra de Aeron saísse de sua boca, Lysander começou a sacudir a cabeça.

— Sua necessidade vinha de sua ligação com você. Uma vez que não estiver mais aqui...

— Prometa, ou continuaremos lutando! — Ele não abriria mão disso.

Lysander fez uma cara feia.

— Vou fazer o melhor possível.

— Isso não é suficiente — ele retrucou. — Você vive com Bianka, uma Harpia. E sei que ela é a própria encarnação da diversão.

— Sim — disse Lysander, com orgulho em seu tom de voz. Orgulho que Aeron provavelmente demonstrava ao falar sobre Olivia. — Certo. Vou garantir que passem um tempo juntas.

Então, já tinham discutido todos os detalhes.

Morte, ele pensou. Ali estava ela, encarando-o. Finalmente ela o encontrara, e ele a desejava. Não resistiria. Mais uma vez, esperou ser tomado por uma onda de emoções, mas nada aconteceu.

Gostaria de poder se despedir de Olivia, de poder lembrá-la o quanto a amava. Mas ela tentaria dissuadi-lo. Aeron sabia disso, assim como sabia que se deixaria levar. Tinha de morrer imediatamente.

Aeron respirou fundo, segurou o ar... segurou mais um pouco... E depois, enquanto o soltava lentamente, esticou os braços.

— Faça-o. Corte a minha cabeça.

Lysander simplesmente olhou para ele, com a cabeça curiosamente caindo para um lado, como se não esperasse que Aeron fosse aceitar.

— Você tem certeza?

— Sim.

O anjo esticou os braços, e a espada de fogo reapareceu.

— Não! — gritou Olivia logo abaixo deles. — Não! Aeron! Lysander! Por favor, não!

Aeron não queria que ela presenciasse aquilo, mas era tarde demais para pedir a Lysander que fossem para outro lugar. A espada de fogo já estava vindo na sua direção.

Adeus, Aeron, disse Ira, em tom suave.

Ele sentiu o chiado do primeiro contato, depois não viu mais nada.

OLIVIA GRITOU, GRITOU e gritou. Aeron. Morto. Para sempre. O corpo do seu lindo guerreiro ficara sem vida, caíra do céu. Uma queda que parecera infinita, lenta e agonizante, torturando-a e fazendo-a esperar que talvez, talvez, ele pousasse suavemente, e tudo terminaria bem. Ela só teria que conseguir alcançá-lo...

— Por favor — ela soluçava, saindo correndo do seu quarto para o lado de fora da fortaleza. Mas, no fundo, ela sabia. Sabia que alcançá-lo não faria qualquer diferença. Aeron estaria morto, para sempre.

LEGIÃO ACABARA DE se teletransportar para a fortaleza para contar a Aeron o que fizera, quando sentiu que sua ligação com o guerreiro fora rompida. E ela sabia. Sim, ela sabia que apenas uma coisa poderia romper uma ligação como a deles.

A morte.

Ela estava viva, então isso significava que... Não. Não! Nunca. E balançou a cabeça violentamente.

— Aeron! Aeron! — Sem aquele laço ela não poderia continuar na Terra. Ela iria...

— Não — ela gritou, sendo arrancada da fortaleza e sugada diretamente para o inferno.

Quando as chamas a envolveram, ouviu o eco do grito do próprio Lúcifer:

— Não!