A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 15 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Quinze

AERON LEVANTOU VOO pelo ar, com Olivia presa em seus braços. Ela tinha os próprios braços abertos, o vento batia em seus cabelos de todas as direções. De tempos em tempos, ela suspirava levemente, e ele ficava imaginando o seu sorriso. Com certeza, Olivia sentia falta de voar.

— Está se divertindo? — Ele não aguentou e teve de perguntar.

Ela não respondeu.

Estivera em silêncio desde que saíram do apartamento de Gilly. Estava claramente irritada com ele. Afinal, ele a deixara na vontade, levando-a ao limite do prazer e parando abruptamente, antes que ela se rendesse. Mas ele era um idiota. Por que outro motivo ele teria prometido que lhe mostraria a dura realidade de sua vida? Antes tarde do que nunca? Era que ele não seria capaz de fazer, se cedesse às suas vontades sempre que ela sorrisse para ele, e implorasse de forma doce. E o tocasse.

Maldito idiota.

A raiva de Olivia o chateava, e ele estaria mentindo se dissesse o contrário, mas encorajar esse sentimento seria melhor. Para ambos. Quando ela se rendesse, Legião poderia voltar. Lysander garantiria que Aeron e Legião fossem perdoados, ou, pelo menos, tentaria. Aeron não se esquecera da implicação. Ainda assim. Teria sido legal possuir Olivia... Não. Não. Nada mais importava. Olivia não importava, muito menos construir algum tipo de vida ao lado dela.

O pensamento em si era paradoxal. Se ela ficasse, ele não teria vida. Apenas alguns dias.

De repente, ele conseguiu ouvir... Ficou confuso e enrugou a testa... Seria Ira... choramingando? Ouviu com mais atenção. Pelos deuses, o demônio estava choramingando. Por que não podiam ficar com Olivia?

Eram dois idiotas, então.

Quando chegaram à fortaleza, ele pousou nos degraus da entrada principal e colocou-a de pé. De jeito nenhum a levaria novamente ao seu quarto. Obviamente, ele não poderia ter uma cama e Olivia no mesmo local sem perder o controle.

— Vamos. — Ele pegou sua mão e guiou-a pelo hall. Mais uma vez, ela estava vestindo sua longa túnica branca. A túnica estava larga nela, escondendo aquelas curvas pecaminosas. Ele mesmo voara até a fortaleza para pegar essa roupa antes de trazê-la de volta. Uma viagem de ida e volta que se mostrava necessária à sua própria sobrevivência.

Olivia era o perigo encarnado. Quando saíra daquele chuveiro, molhada, nua e claramente louca de desejo por ele, Aeron quase morrera de prazer, ali mesmo. E a única coisa que lamentava era o fato de não poder vê-la daquele jeito novamente.

Seus seios eram pequenos, mas firmes, e seus mamilos pareciam saborosas ameixas. Sua pele era como uma nuvem fofa de creme com toques de ambrosia. E aqueles cabelos cor de chocolate, em cachos até a cintura... É melhor eu deixar isso para lá, pensou.

O que já praticamente tinha feito, mas, de alguma forma, não tinha. Ela gemera, implorara e se contorcera, querendo mais. Droga, Ira gemera, implorara e se contorcera querendo mais. E ele chegara tão perto de ceder aos dois. Mas então Olivia abrandara o beijo, e ele ficara decepcionado e com raiva, e essa combinação volátil felizmente o ajudara a cair em si.

Porém, ele não deveria ter sentido decepção nem raiva. Ele deveria estar radiante, mas se viu imaginando se o desejo dela por ele desaparecera. Se ela estava interessada em outra pessoa em vez dele. Em alguém como Paris ou William, pois mencionara os dois durante o banho, enquanto acariciava o próprio corpo, prolongadamente. Ao pensar nisso, mais uma vez desejou que ela estivesse totalmente fora de controle, louca por ele, afundando as unhas nas suas costas, aranhando seu pescoço com os dentes.

O que havia de errado com ele?

— Você ouviu isso? — Olivia perguntou, tirando-o de seus pensamentos obscuros e sensuais. Ela soltou a mão da dele. Minha, Ira rosnou, não mais chorando, e sim exigindo-a. Olivia parou.

Aeron jurara a si mesmo protestar contra aquelas declarações dali em diante, mas não conseguia se forçar a fazê-lo. Idiota.

— Ouvi o quê? — Ele também parou e escutou. Além dos pedidos contínuos de seu demônio, tudo o que ele ouviu foi o silêncio. Franzindo a testa, Aeron a encarou. E, como sempre, seu coração disparou. — Não estou escutando nada.

— Mas a voz... — E Olivia girou o corpo, seu olhar percorrendo o hall. — Está me dizendo para agarrar o seu saco com uma das mãos e o seu pau com a outra.

Seria possível que ela estivesse escutando seu demônio e...? Espere. O quê?

— Uma voz está dizendo para você me assediar? — Não era Ira, então. O demônio não mencionara nada tão específico. Infelizmente.

— Sim.

— Essa é uma tentativa de me seduzir? — Que mulher mais deliciosa e maliciosa, que usava poucas roupas, fazia perguntas indecentes e saía nua do box do banheiro. — Você pretende...

— Não! Eu não gosto nada disso! — Ela o interrompeu. — Estou ouvindo as palavras, pensando nelas, mas elas não me pertencem. Sei que isso não faz nenhum sentido, mas não sei como descrever melhor.

Atrás deles, passos ressoavam. Aeron se virou. Torin estava na metade das escadas, descendo dois degraus de cada vez. Naquele dia, vestia uma camisa preta de gola rulê, luvas pretas e uma calça que arrastava no chão, para que, mesmo que ele se sentasse e que suas meias se enrolassem para abaixo dos tornozelos, nenhum centímetro de sua pele fosse exposto.

— Delicioso. — Aeron ouviu Olivia murmurar. — Eu seria capaz de te comer vivo.

— Você tem que parar de dizer essas coisas, Olivia. — Aeron deu uma olhada rápida para ela, e depois ficou paralisado, trincou os dentes e xingou ao soltar o ar. Ela não estava olhando para ele, como imaginara; estava olhando para Torin, como se ele fosse um pedaço de carne, e ela estivesse morrendo de fome.

Minha, Ira avisou.

Aeron estalou o queixo, repentinamente irado... com Torin. Não que ele se preocupasse com quem Olivia desejasse. Mas ela abrira mão da imortalidade por ele, queria que ele lhe proporcionasse diversão, queria que ele penetrasse seu corpo; ela não deveria ser tão volúvel.

— Ahn, o que foi? — perguntou Torin, confuso, parando no último degrau.

Aeron estudou seu amigo, tentando enxergá-lo como Olivia provavelmente o via. Além daquele impressionante contraste de cabelos claros e sobrancelhas pretas, daquela pele suave, naturalmente bronzeada e sem tatuagens, e... Certo, certo, talvez aqueles olhos verdes penetrantes... Fora isso, ele não era tão atraente assim. E mais: era alguns centímetros mais baixo que Aeron e menos forte.

— Não ligue para o que eu digo — Olivia pediu, tomada pelo horror. — Por favor. Não sei o que está acontecendo comigo.

Torin, ao que parecia, estava tentando não sorrir.

— Fico feliz que não tenha mais medo de mim.

Aeron gostaria de poder dizer o mesmo.

— Vamos começar a reunião. — Aquele tom decidido e irado não era mesmo seu.

— Sinto dizer, mas é tarde demais. — Torin encostou um dos ombros no corrimão, a perfeita imagem do macho domesticado, exceto por aquele brilho malicioso em seus olhos. — Todos saíram.

— O quê?

— Você não é o único com grandes novidades. Lucien se transportou para Roma, atrás de Sabin, e os outros descobriram que Galen conseguiu fazer com que Desconfiança entrasse no corpo de um dos seus soldados. Uma mulher.

Aeron passou uma das mãos em seus cabelos raspados. Desconfiança, o demônio de Baden, agora estava no corpo de um Caçador? Ele sabia que Galen queria fazer isso, mas a confirmação ainda o deixou louco. Inaceitável!

Punição, concordou Ira.

Nenhuma imagem surgiu em sua mente, mas Aeron não se surpreendeu. Estava começando a se acostumar a uma presença mais vocal.

— Vamos ter que fazer algo em relação a isso, mas com muito cuidado. Hoje eu descobri que Rhea, esposa de Cronos, está ajudando os Caçadores.

Torin absorveu suas palavras e ficou pálido.

— Você está brincando, não está?

— Bem que eu gostaria...

Olivia agarrou uma das mãos de Aeron, entrelaçando seus dedos. A raiva de Ira desapareceu, deixando Aeron com uma sensação estranha. Ele preferia a raiva.

— Se houver algo que eu possa fazer para ajudar, por favor, avise-me — ela disse. — Eu nem vou pedir nada em troca.

Sua tentativa de confortá-lo era... reconfortante. Droga! Ele estava igualzinho a Ira. Louco por ela. E não gostava nada disso. Mas gostava dela. Mais do que deveria. Estava acostumado a esconder suas emoções, ignorando-as e se concentrando no que precisava ser feito, mas Olivia se recusava a aceitar qualquer coisa além de sua total rendição.

Talvez fosse por isso que... a percepção o atingiu com força. Droga. Era mesmo. Por isso sempre preferira mulheres gentis. Quer dizer, preferira não, mas temia as outras, as mulheres mais fortes. As mulheres gentis não ameaçavam quebrar o recipiente onde ele escondia aqueles sentimentos indesejados. Mulheres mais fortes poderiam estragar tudo, obrigando-o a sentir de verdade.

— O quê? — perguntou Torin, inclinando a cabeça para o lado.

— Nada. — Não admitiria sua fraqueza de jeito nenhum. — Melhor voltarmos aos Caçadores. Rhea está escondendo-os de nós enquanto estão na cidade.

Torin mordeu os lábios.

— Primeiro descobrimos que Galen é o líder dos Caçadores, agora que uma Titã também os está ajudando. Se houver mais alguma surpresa, acho que eu prefiro nem saber.

— Na verdade, Cronos...

— Acabou de me fazer uma visita — Torin o interrompeu —, mas convenientemente não falou sobre nada disso. Apenas ordenou que nós entrássemos em ação e encontrássemos Scarlet, que está no mesmo lugar que os outros. Procurando por ela. Ele nos ameaçou como sempre, falando em morte e destruição, se não a encontrarmos. Hoje.

O deus-rei estava certamente rondando os Senhores. Primeiro visitou Aeron, depois, Torin. Mas por que encontrar Scarlet era tão importante para ele? Para garantir que Rhea não a encontrasse antes?

Olivia apertou seus dedos enquanto prestava atenção em Torin.

— Acho que eu posso ajudar, então. Aeron quer que eu mostre a vocês onde ela mora, e eu concordei em fazer isso.

Torin a observou atentamente.

— É, Cameo comentou algo sobre você conhecer essa mulher.

Quando ele pronunciou o nome de Cameo, sua expressão se suavizara. Interessante. Seria verdade que, como alguns guerreiros suspeitavam, aqueles dois estavam envolvidos? Eles não poderiam se tocar, então, se fossem amantes, teriam de encontrar outras formas de dar prazer um ao outro.

Aeron nem conseguia imaginar como seria não poder tocar nem sentir o gosto de Olivia. Ele não conseguia... se concentrar claramente.

— Conte a ele — pediu a Olivia, forçando-se a voltar ao caminho certo.

Ela alinhou os ombros e falou sobre o lugar. Assim, fácil e rápido. Quem dera.

— Vou enviar uma mensagem de texto a todos — disse Torin, e suas palavras demonstravam certo alívio. Ele não perguntou como Olivia sabia aquilo, nem a acusou de tentar enganá-lo. Mesmo sem aquela aura de verdade em sua voz, ele teria confiado no julgamento de Aeron.

— Não. Não conte a eles onde ela está — disse Aeron. Ele deu uma olhada para a janela mais próxima. As cortinas estavam fechadas, mas havia uma pequena fresta entre os dois painéis, permitindo que um tímido raio de sol entrasse. A noite não cairia tão cedo, o que significa que Scarlet estava dormindo. — Diga a todos para virem para casa. Eu e Olivia cuidaremos de Pesadelos. Com os Caçadores em Buda, de posse de um artefato, quero que haja o maior número possível de guerreiros aqui o tempo todo.

— Certo. Existe alguma forma de convencê-lo a levar um ou dois guerreiros com vocês? É sempre bom ter ajuda.

— Não vamos precisar. Ela vai estar dormindo até o cair da noite, não haverá problema. Certo, Olivia?

O anjo concordou, um tanto relutante. Ela claramente não gostava de dividir suas informações com ninguém além dele, mas era o que estava fazendo. Por Aeron. Talvez ele pudesse perdoá-la por sua instabilidade anterior.

Ira ficou em silêncio, e pelo menos daquela vez parecia não se importar com a ideia de perdão, um conceito que normalmente confundia o demônio.

— Ah, e eu sei que você não queria saber de mais surpresas, mas preciso lhe contar mais uma coisinha sobre seu amigo Cronos — disse Aeron. — Acontece que temos mais em comum com ele do que nosso ódio mútuo por Galen.

Torin franziu a testa.

— Não estou entendendo.

A única forma branda de dizer aquilo era falando rapidamente.

— Ele é o guardião do demônio da Cobiça.

Num primeiro momento, a boca de Torin se abriu. Depois, seus olhos se arregalaram. Depois, ele tropeçou para trás, bateu no primeiro degrau da escada e quase caiu.

— O deus-rei é possuído por um demônio? Como você pode...

— Lysander me fez uma visita. — Assim como ele, Torin agora sabia que os anjos não podiam mentir. — Cronos estava preso no Tártaro quando abrimos a caixa, então faz sentido.

— Nossa... Inacreditável!

— Acrescente um que merda e terá minha reação ao receber a notícia...

— Quando Lysander o visitou? — Olivia perguntou. — O que mais ele disse? Falou sobre mim? Eu sei que falou. — Antes que Aeron pudesse responder, ela acrescentou: — E você quer transar antes que a gente saia? — Ela balançou a cabeça, como se não tivesse certeza de que ouvira mesmo o que acabara de dizer. — Eu acabei de perguntar se você quer fazer sexo comigo?

Sim, ela tinha perguntado, e o corpo de Aeron reagira de acordo. Ele apenas assentiu positivamente, pois não confiava em sua voz para falar.

— Mas eu não disse isso. Quero dizer, eu disse, e quero fazer isso, mas não fui eu. A voz...

O sorriso de Torin era um pouco satisfeito.

— Então, você está falando comigo ou com Aeron?

— Comigo — Aeron rugiu, embora ela tenha respondido:

— Com você, claro.

— O quê? — Aeron e Ira gritaram em uníssono.

Minha!

Torin riu... aquele idiota.

— Eu adoraria, meu anjo, mas eu a mataria de verdade com o meu prazer.

Ela ficou corada, e isso emprestou à sua pele um brilho incandescente.

Aeron trincou os dentes mais uma vez.

— É melhor dizer a essa maldita voz que cale a porcaria da boca.

Alguém estaria falando através dela? Lysander certamente tinha poder para fazer isso, mas o anjo guerreiro não diria aquele tipo de coisa. Sabin também podia fazer aquilo, mas não estava ali.

Quem seria, então? Cronos? Rhea? Mas por que seria um dos dois?

Olivia endireitou os ombros, erguendo o queixo e deixando claro a Aeron que sua teimosia lhe atingira, depois o encarou.

— Talvez não tenha sido a voz dessa vez. Talvez tenha sido eu mesma. Você não é tão divertido quanto eu imaginei que seria. Nem sabe como me proporcionar um orgasmo decente.

Torin soltou outra risada, e foi a vez de Aeron ficar corado.

— Eu poderia ter lhe proporcionado um, se quisesse.

— Ah, sim. Claro — ela bufou. — Então prove.

Sim!

Um uivo escapou do fundo da garganta de Aeron, e ele se aproximou de Olivia, inclinando-se para baixo e ficando cara a cara com ela. Proporcionar-lhe um orgasmo? Não havia nada que ele quisesse mais.

— Se você não tomar cuidado, vai acabar...

— Aeron, Aeron — uma voz familiar chamou.

Aeron se levantou de um pulo, como se tivesse sido pego fazendo algo que não deveria. O que não era mentira. Legião estava ali. Como fora capaz de se esquecer dela? Como pôde se descuidar de sua segurança? Deveria ter ido atrás dela em vez de estar respondendo às provocações de Olivia.

— Vou para o meu quarto invocar Cronos mais uma vez, antes que a guerra comece — disse Torin. — Talvez ele apareça, talvez não. Mas, se aparecer, vou perguntar por que o seu nome não está na lista dos possuídos, e também se ele poderia nos bloquear frente aos Caçadores. Depois eu conto o que aconteceu. Vejo vocês depois. Ah, e Olivia... Boa sorte com essa voz. — E, piscando um dos olhos na direção dela, girou o corpo e voltou a subir as escadas.

Toque o que é meu e pagará com...

Pode parar de ameaçá-lo assim?, perguntou Aeron a seu demônio. Ele não pode ouvi-lo. Mas, por favor, não pare de repetir seus clamores, Aeron quase acrescentou. Que grande idiota.

Um segundo mais tarde, Legião apareceu num canto distante, com seus olhos vermelhos selvagens. Ela parou ao ver Aeron, e sibilou ao ver Olivia, depois caminhou até ficar na frente deles. Ela estava ofegante, suada.

Instintivamente, ele se colocou na frente de Olivia.

— Algum problema? — ele perguntou, a culpa o consumindo. Se ela tivesse sido ferida por causa dele...

— Tudo vai... melhorar... logo... — E quando a última palavra saiu de sua boca, seu joelhos fraquejaram, e ela caiu.

Aeron se aproximou, agarrando-a antes que batesse no chão e amortecendo sua queda. Legião era tão pequena que ele mal sentia o seu peso.

— Aeron — ela disse, respirando aliviada, antes de se encolher e soltar mais um grunhido de dor.

— Legião — ele disse, tomado pelo pânico. — Diga-me o que está...

Outro grunhido. Todos os músculos de Legião começaram a se contrair e a relaxar, depois a se contrair e relaxar novamente. Seu corpo parecia estar... crescendo? Não era possível. Ou não deveria ser... Enquanto ele a observava, seus braços, pernas e tronco se esticaram. Suas escamas começavam a cair como gotas de orvalho, deixando em seu lugar uma pele linda e dourada.

Em pouco tempo, os grunhidos se transformaram em gritos incessantes. E em sua boca completamente aberta, ele pôde ver que seus dentes estavam se encolhendo, e sua língua, antes bifurcada, estava se unindo. Em seguida, cabelos loiros começaram a brotar em sua cabeça, e seios enormes surgiram em seu peito.

— Que diabos está acontecendo?

— Ela está se transformando em... humana — murmurou Olivia. Suas palavras, embora muito mais suaves que as dele, ainda continham o mesmo horror e choque.

Sem saber mais o que fazer, Aeron saiu correndo pelo hall. No quarto mais próximo, pegou um lençol jogado sobre um sofá. Sua mente estava repleta de perguntas, ele não conseguia processar o que estava acontecendo. Legião. Humana. Por quê? Como?

Outra vez ao seu lado, cobriu sua pele nua com o lençol. Pelo menos ela parara de crescer. E também de gritar e ter espasmos. Lágrimas desciam por suas bochechas, e seu lábio inferior tremia.

Ela olhou para Aeron, e seu olhar, escuro e fluido, não tinha mais qualquer sinal do antigo vermelho demoníaco.

— Aeron — ela disse, suspirando. — Eu estou... tão... feliz em ver... você...

Ela já não falava como uma criança, e não tinha mais a língua presa. E embora suas palavras fossem hesitantes, como se não soubesse muito bem com usar a língua, ela soava como uma adulta, com um tom de voz rico e rouco.

Completamente pasmo, ele se ajoelhou ao lado dela e afastou os cabelos caídos na sua testa.

— Quero que me diga como isso aconteceu — ele pediu, gentilmente, fazendo o melhor que podia. Não queria assustá-la.

Ela esticou um braço trêmulo e passou as pontas dos dedos pelos lábios de Aeron, por seu queixo.

— Você é tão bonito, meu Aeron.

Pela primeira vez desde que conhecera Legião, ele quis se livrar do seu abraço. Ele a amava, de verdade, mas aquela adoração estampada em seu novo rosto, adoração que vira centenas de vezes antes, e que costumava desejar, agora estava... errada. Pois, sem aquele brilho vermelho nos olhos, ele pôde ver o desejo sensual presente ali.

Pelos deuses.

Ela era um banquete para os olhos, ainda mais bonita que Olivia. Sua pele era como mel; seus olhos, como canela; e seus lábios eram tão vermelhos quanto cerejas. Seu nariz era pequeno e arrebitado, e suas sobrancelhas eram perfeitamente arqueadas. Não havia qualquer defeito nela. Mas...

Nada daquilo fazia seu sangue ficar quente, seus dedos não formigavam nos lugares onde ela tocara, e pensar em retirar o lençol de cima do seu corpo para olhar suas curvas era verdadeiramente repugnante para ele. Ele preferiria arrancar os próprios olhos. E, embora Ira gostasse da nova garota tanto quanto gostava da velha Legião, o demônio estava quieto, sem reivindicar nada.

— Só existe uma razão para que isso tenha acontecido — Olivia disse, com tanto terror que Aeron sentiu um nó no estômago. — Ela fez um pacto com Lúcifer.

Um pacto com o diabo? Para quê? Ela já tinha tudo o que seu coração poderia desejar.

— Isso é verdade? — E se fosse, o que significava para ela? Para ele? O que Lúcifer teria pedido em troca?

Ira entrou em ação, andando para a frente e para trás em sua cabeça. Não havia imagens piscando, mas o demônio ficou agitado de repente, como se não estivesse gostando nada do que acontecia.

Legião olhou para Olivia.

— Claro que não é... verdade. Eu nunca... faria algo tão horrível.

— Está mentindo — Olivia rebateu. — Eu posso ouvir a mentira em sua voz.

Aeron, por sua vez, não conseguia ouvir nada, mas podia ouvir a verdade na voz de Olivia. Ainda assim. Não sabia em quem acreditar. Em Legião, a quem amava. Ou em Olivia, a quem desejava, mas que não poderia ter.

Cuidadosamente, Legião se sentou, e o lençol escorregou até sua cintura. Aeron olhou para o outro lado imediatamente, mas não sem ter um vislumbre de seus mamilos perolados.

Ele quis esfregar os olhos com uma lixa.

Aquele dia nunca iria terminar?

OLIVIA FICOU OBSERVANDO enquanto Legião esticava um dos braços e o examinava. Depois, esticou o outro braço, examinando-o também. Em seguida, tocou os seios, beliscou de leve os mamilos e arfou de medo.

— Eu estou linda — ela disse, muito animada. Suas palavras já eram mais fluentes e ficavam mais suaves a cada vez que falava. Devia estar se acostumando à nova língua. Ergueu o olhar, a soberba estampada ali ao encarar Olivia. — Sou mil vezes mais bonita que você.

Talvez fosse mesmo. Não que Olivia se importasse. Muito. O que Aeron achava de tudo aquilo? Ele estava tendo o cuidado de não olhar para Legião, de não tocá-la.

Beije a nuca dele... lamba o seu pescoço... e deixe Legião ver tudo.

Olivia parou de respirar. Lá estava ela outra vez. A voz. A tentação. Desde que Aeron a trouxera de volta à fortaleza, essa voz a atormentava, encorajando-a a fazer todo tipo de coisas, todas com a intenção de seduzir Aeron e levá-lo para a cama. Acariciar seu pênis, tirar a roupa e dançar para ele, até mesmo flertar com seu amigo para deixá-lo louco de ciúme.

Nada disso a teria incomodado. A não ser o fato de que tais desejos não nasciam de dentro dela. Sim, ela queria acariciar seu pênis, e sim, ela queria tirar a roupa para ele. Como foi evidenciado pelo episódio em que aparecera nua. E sim, ela até gostava de pensar no ciúme dele. Mas, quando aquela voz produzia os desejos, manchas de escuridão eram deixadas em sua alma. Ela podia senti-las.

Como isso estava acontecendo? O que estava acontecendo?

Aeron limpou a garganta, tirando-a dos próprios pensamentos.

— Vamos pegar algumas roupas para você, Legião.

— Eu gosto de estar nua — ela disse, fazendo um beicinho.

— Que pena. — Ainda mantendo o olhar afastado, ele esticou uma das mãos. — Cubra-se e venha comigo.

— Não. — Encarando Olivia, ela se atirou para a frente, passou os braços ao redor do pescoço de Aeron e pressionou o corpo contra o dele. — Quero que me carregue.

Ele fez uma careta, mas segurou-a no colo.

— Tudo bem. Olivia, venha conosco. Por favor. — Ele não esperou pela resposta dela, mas começou a subir os degraus com dificuldade.

De jeito nenhum Olivia o deixaria sozinho com o demônio transformado em humano, mas ficou feliz que ele tivesse solicitado sua companhia. Até que, no meio do caminho até o quarto dele, ela ouviu: passe a mão na bunda dele... e se viu com os dedos bem perto de seu traseiro quando se deu conta do que fazia o braço. Ela franziu o cenho e trouxe o braço para o lado do corpo, mas era tarde demais. Outra mancha obscura acabara de se formar em sua alma.

O que aconteceria se aquela escuridão a consumisse?

Pare, Olivia gritou dentro da cabeça. Quem ou o que quer que você seja, por favor, pare.

Legião apoiou a cabeça no ombro de Aeron, voltando a olhar para Olivia, e acariciou os contornos de suas costas.

— Tão forte — murmurou.

Olivia estreitou os olhos enquanto seu corpo era tomado por um acesso de raiva. Ele é meu, só eu posso acariciá-lo. Só eu posso elogiá-lo.

Faça alguma coisa. Você merece Aeron, e não Legião. Então prove isso a ele. Fique na frente dele, ajoelhe-se, abra a calça e chupe o seu pau.

Ela tropeçou no próprio pé, e a raiva rapidamente desapareceu e deu lugar ao desespero. O que aconteceria se fosse consumida pela escuridão?, ela se perguntou. Com aquele desejo recente, a resposta começava a se delinear. Ela não seria mais capaz de distinguir entre os seus próprios desejos e as emoções contidas naquela voz. Tudo o que a voz dissera ela queria fazer. Desesperadamente.

Resista. Não poderia permitir que isso acontecesse.

— Quero falar com você... em particular — Legião continuou, e aquela pequena pausa no final da frase não teve nada a ver com sua nova língua, mas teve tudo a ver com uma insinuação sensual. — Mande esse anjo feio embora.

— Pare com isso — ele bradou. Depois, mais calmo, disse: — Você precisa parar com isso.

Finalmente, a soberba se esvaiu dela e ela voltou a olhar para Aeron, com os olhos agora cheios de água.

— Você não me ama mais?

— Claro que amo, mas isso não significa que... Nós não podemos... Droga! — Ele acelerou o passo, passou apressadamente pelo corredor e praticamente derrubou a porta com um chute. Colocou Legião de pé e saiu do quarto. — Pegue o que quiser entre as minhas coisas, apenas vista-se. — Ele não esperou por uma resposta, simplesmente bateu a porta com força e se virou para Olivia. — Conte-me sobre o pacto que ela fez com Lúcifer.

Ajoelhe-se...

— Não! — Um passo, dois, ela se afastou dele.

— Olivia — disse Aeron, com a expressão de quem não estava entendendo. — Pare.

Beije-o, depois... em algum lugar, em qualquer lugar...

Sua atenção caiu nos lábios de Aeron, e ela lambeu os próprios. Um beijo, tão inocente. Tão necessário. Deve... resistir...

— Pare — ele gritou mais uma vez.

Ela engoliu em seco.

— Parar o quê?

Atrás da porta, ele podia ouvir os passos de Legião, que atirava coisas ao chão e murmurava algo relacionado a “anjos idiotas”.

— Primeiro, pare de negar a minha ordem e, segundo, pare de tentar me seduzir.

— Por que eu tentaria seduzir você? Você nem é tão bom entre lençóis mesmo. — No momento em que as palavras saíram de sua boca, Olivia a tapou com uma das mãos. Sinceramente. Como aquilo estava acontecendo?, ela se perguntou mais uma vez. Aquela não tinha sido uma provocação sua, e sim daquela voz.

Aeron ficou enfurecido.

— Não sou bom? Eu lhe proporcionei um orgasmo na primeira vez em que nós... Na sua primeira vez, droga!

Ela arregalou os olhos ao perceber o que estava acontecendo. Um outro perigo apresentado pela voz: ela gostava dos resultados. Aeron mal podia controlar a sua raiva, e só de pensar nele estando fora de controle, determinado a provar o quanto era bom ao lhe dar prazer, ela ficava louca.

Resistir? Talvez não fosse uma ideia tão boa.

Sério? Então, se é assim, Aeron vai ser apaixonar pela voz, não por você. É isso o que você quer? Finalmente. Um pensamento racional. Um pensamento que conseguiu quebrar um pouco da escuridão, deixando que a luz penetrasse nela.

— O que você vai fazer com essa sua amiguinha demônio aí dentro? — ela perguntou, retornando ao único assunto que importava naquele momento.

Aeron esfregou uma das mãos no rosto subitamente cansado. Um gesto que estava se repetindo muito ultimamente.

— Não sei o que fazer com ela.

— Para ter feito um pacto dessa grandeza, ela deve ter prometido algo muito importante a Lúcifer.

— Como o quê?

Olivia deu de ombros.

— Só ela poderia responder isso. E Lúcifer, claro. Mas posso garantir que ele não vai nos contar nada.

— Como você sabe que ela fez um pacto com Lúcifer, e não com Hades? E realmente importa com quem o pacto foi feito?

— Sim, claro que importa, mas Hades atualmente está preso e impossibilitado de fazer pactos, então não precisa se preocupar com ele.

Quando os Titãs haviam escapado de sua prisão imortal e venceram os gregos tantos meses antes, Hades estivera entre eles. Lúcifer, no entanto, fora deixado de lado pelos Titãs. Alguém precisaria ficar no controle do Mundo Subterrâneo, supôs Olivia. Mesmo que fosse alguém tão cruel quanto o demônio, o criador do próprio mal. Mas ele era melhor do que o louco do Hades.

Esfregue o corpo contra o dele...

— Chega! — Se aquilo continuasse, ela iria bater a cabeça contra a parede até desmaiar. Bastava de escuridão, não importava o quanto ela gostasse dos resultados. — Não vou fazer isso, mesmo que eu queira, então pode ficar quieta.

Aeron ergueu os braços, dando adeus ao que lhe restava de paciência.

— Fazer o quê?

— Esqueça. Mas a verdade é que, até você descobrir algo mais sobre a parte de Legião no pacto, eu não confiaria nela. Ela pode ter contado alguns segredos, ou prometido matar algum de seus amigos.

Ele balançou a cabeça negativamente, confiante.

— Ela nunca faria isso. Ela me ama.

Sua fé naquele demônio trapaceiro era irritante. Por que ele não sentia o mesmo por Olivia, que já tinha sido um anjo e que nunca, nunca mentira? Por que estava sempre tentando afastá-la?

A porta do quarto foi repentinamente aberta, e Aeron quase caiu para trás. Legião olhou para ele e soltou uma gargalhada rouca. Ele rapidamente endireitou o corpo e virou-se na direção dela. Ela estava vestindo uma de suas camisetas e uma calça de moletom, ambas muito largas para ela.

— Está feliz agora? — ela perguntou, ficando na ponta dos pés e dando um giro. — Isso foi... tudo o que eu pude encontrar. Mas sabe o que foi... mais engraçado? Eu continuo... linda. — Em sua exuberância, as pausas hesitantes voltaram à sua fala.

Aeron se afastou dela e se aproximou de Olivia, que colocou as palmas das mãos na parte de trás dos ombros dele, impedindo que o guerreiro saísse correndo. O coração de Olivia ficou acelerado. Contato.

— Eu e Olivia precisamos ir à cidade. Você vai ficar aqui. E estou falando sério dessa vez. Não vá a lugar nenhum. Precisamos conversar quando eu voltar.

O sorriso sedutor de Legião rapidamente desapareceu.

— O quê? Não. Isso não! Eu vou... com você.

— Você vai ficar aqui, e não vamos discutir sobre isso.

Com expressão petulante, ela bateu os pés.

— Por que você... vai levar esse anjo feio, então?

Eu não sou feia!

— Eu preciso dela — foi tudo o que Aeron disse, mas o tom de sua voz era cortante, como aço fervente.

Legião respirou fundo ao olhar nos olhos de Olivia, que ainda espreitava ao lado de Aeron. Havia mais ódio naqueles olhos do que Olivia jamais vira.

— Toque-o, e eu... mato você. En...tendeu? — Quanto mais intensas eram suas emoções, mais dificuldade ela tinha para falar.

— Você não vai fazer mal a ela. — E, sem fraquejar, Aeron passou um braço duro ao redor da cintura de Olivia, com os dedos colados à base de suas costas. — Chega de ameaças. Você entendeu? Não vou mais tolerar isso.

Legião pressionou os lábios e ficou em silêncio por um momento. Depois sorriu. Um sorriso forçado, exageradamente doce.

— Qualquer coisa... que você quiser, Aeron. Eu amo você e... só quero que esteja feliz.

Era mentira. Olivia ouviu isso nas correntes ocultas da voz do demônio. Não mentia em relação ao seu amor por Aeron, mas em relação à promessa de deixar Olivia em paz. Teria de ficar atenta, pois já vira demônios em ação e sabia o quanto podiam ser traiçoeiros e quanta destruição poderiam causar.

— Tente — ela disse, e se aquele desafio vinha dela mesma ou da voz tentadora, ela não saberia dizer. Na verdade, nem ligava. — Pois eu estou planejando fazer muito mais do que simplesmente tocá-lo. — Verdade.

Aeron girou o corpo, colocando-a no seu devido lugar apenas encarando-a. Suas pupilas estavam dilatadas, exatamente como tinham estado antes de beijá-la no apartamento de Gilly, com o peito se movendo para cima e para baixo, como se não conseguisse recuperar o fôlego.

— Não. Mais. Uma. Palavra. Sua. — ele falou por entre os dentes.

Beije-o.

Dessa vez, ela não resistiu. Que se danasse a escuridão. Ela se aproximou de Aeron, ficou na ponta dos pés e colou seus lábios aos dele. Legião precisava saber que Olivia estava tão determinada quanto ela a conquistar aquele homem. A tê-lo de todas as formas imagináveis.

Ela enfiou a língua na boca de Aeron, mas por pouco tempo. O bastante para sentir o seu gosto. Ele abriu a boca, claramente querendo mais, o que a surpreendeu e fez aumentar seu desejo, mas ela se forçou a se virar e a se afastar.

— Vamos, Aeron — ela disse. — Temos algumas coisas a resolver. Juntos. — E, sem olhar para Aeron, ou para Legião, que agora estava xingando, ela seguiu em frente como se não temesse encarar o resto do dia.