A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 4 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Quatro

AERON CAMINHAVA PELO corredor. Fizera a mesma coisa por horas, mas não enxergava nenhum alívio para seu futuro imediato. Alguém tinha de proteger o anjo. Não contra intrusos, mas contra a invasão dela mesma, para o caso de ela ter ido ali espiar e ouvir coisas que não deveria.

Era uma racionalização que nem fazia muito sentido, mas alguém tinha de insistir no assunto. Sim, ela poderia ter ouvido coisas que não deveria como um anjo, invisível e protegido, mas, naquele momento, estava vulnerável, passível de ser capturada pelos Caçadores e usada para ferir seus amigos.

Suas mãos se tornaram punhos, e ele tentou não pensar em Olivia sendo torturada, e na morte dos Senhores, antes que socasse uma parede com força. Ou um amigo.

Além do mais, quando ela estivesse bem, o que deveria acontecer a qualquer momento, poderia tentar escapar daquele quarto para caçar Legião. E, mesmo que Legião não estivesse ali, Aeron não permitiria isso. Não que Olivia, agora caída, pudesse lhe causar grandes problemas durante a procura. Mesmo assim. Ela poderia contar suas descobertas a outro anjo, o tal que ela disse que viria, e esse anjo poderia tentar completar a missão.

Não enquanto eu estiver atento, ele pensou.

Seus amigos já tinham se reunido, ele ouvira os murmúrios, depois as risadas, e finalmente os passos enquanto saíam, mas não tinha ideia do que fora decidido. Ninguém fora visitá-lo. Será que eles tentariam encontrar a estranha mulher que ele encontrara no beco? Talvez Lucien tivesse descoberto algum sinal dos Caçadores na colina?

Aeron não mudara de ideia: não acreditava que Olivia estivesse envolvida com eles. Mas eles poderiam ter seguido seus passos até ali. Ataques surpresa eram sua especialidade, afinal.

E, de fato, uma invasão seria o final perfeito para aquela noite terrível.

Meia hora antes, ele chamara por Legião, para avisar-lhe sobre o que estava acontecendo. Normalmente, não importava a distância entre eles, ela ouvia seu chamado e vinha até ele. Mas não daquela vez. Assim como Lucien, Legião era capaz de se teletransportar de um lugar a outro, usando apenas a força do pensamento. Mas ela não aparecera.

Estaria ferida? Amarrada? Aeron teve vontade de convocá-la formalmente, como ela o ensinara, pois não poderia ignorar tal chamado, embora, até ouvir a explicação de Olivia, ele não tivesse entendido muito bem o que isso significava. Quanto mais pensava nessa possibilidade, mais pensava na possibilidade de que aquele anjo, caído ou não, deveria sair da fortaleza para que Legião se sentisse à vontade para voltar. Lembrou-se do seu medo, da forma como ela tremia com a mera menção da palavra anjo.

Ele deveria ter pedido a Olivia que parasse de fazer o que quer que estivesse fazendo, pois causava dor ao pequeno demônio e não a ele. Nem a seus amigos. Eles nunca notaram a presença de Olivia, de nenhuma forma. Mas ele não pedira. Ela estava se recuperando, e não queria perturbá-la.

Especialmente quando ela já fizera tanto por ele. Nada de se deixar amolecer.

Então ele deixou Legião em paz também. Por enquanto.

Não que pudesse imaginar a frágil Olivia fazendo mal a quem quer que fosse. Mesmo que estivesse com toda a sua força, seja lá o que isso significasse. Se tivessem que lutar, Legião imobilizaria o anjo em segundos, com suas presas envenenadas cravadas com força nas veias de Olivia.

Essa é a minha menina, ele pensou, sorrindo. Mas o sorriso não durou muito tempo. Pensar em Olivia morrendo não lhe caiu nada bem. Ela não o matara, como lhe fora ordenado fazer. Não que ela pudesse ter feito isso, mas ela nem chegou a tentar. Nem fizera mal a Legião, como provavelmente gostaria de fazer. Tudo o que ela queria era sentir os prazeres da vida, que lhe foram claramente negados.

Ela não merecia morrer.

Por um momento, e só por um momento, Aeron pensou em mantê-la por ali. Ira ficava muito calmo perto dela, nunca pedia que a punisse por crimes que cometera vinte anos, um dia ou um minuto antes, e, por isso, Olivia talvez fosse a companhia perfeita para ele. Poderia suprir suas necessidades, como Paris dissera.

Necessidades que ele alegara não ter. Mas não poderia negar que, quando estava agachado ao lado dela, sentira algo agitando seu interior. Algo quente e perigoso. Ela tinha cheiro de luz do sol e de terra, e seus olhos, azuis e claros como um céu matinal, olhavam para ele com confiança e esperança. Como se ele fosse um salvador e não uma fonte de destruição. E Aeron gostava disso.

Idiota! Um demônio cuidando de um anjo? Impensável. Além do mais, ela está aqui para se divertir, e você, meu amigo, é a coisa mais distante de diversão que um homem pode ser.

— Aeron — alguém chamou.

Finalmente, novidades. Aliviado por poder afastar Olivia de seus pensamentos, Aeron deu uma olhada em volta e viu Torin, que estava com um dos ombros contra a parede, os braços protegidos por luvas cruzados sobre o peito, e um sorriso irreverente curvando seus lábios.

Como guardião da Doença, Torin não podia tocar a pele de ninguém sem espalhar uma praga. As luvas protegiam a todos.

— Mais uma vez, um Senhor do Mundo Subterrâneo tem uma mulher trancada em seus aposentos enquanto tenta descobrir o que fazer com ela — disse Torin, com uma risadinha.

Antes que Aeron pudesse responder, imagens começaram a tomar conta da sua mente. Imagens de Torin brandindo uma lâmina, com expressão tensa, determinada. Aquela lâmina desceu... chegou ao coração de seu alvo... e reapareceu molhada e vermelha.

O homem que fora atingido, um humano, desmoronou no chão. Morto. Havia um oito tatuado em seu punho, o símbolo do infinito e a marca de um Caçador. Ele não tinha ferido Torin, nem mesmo ameaçara fazê-lo. Os dois simplesmente haviam se esbarrado na rua, cerca de quatrocentos anos atrás, quando o guerreiro saíra da fortaleza para finalmente estar com a mulher pela qual se apaixonara, mas acabara vendo a marca e atacando.

Para Ira, fora um ato malicioso e sem provocação. Para Ira, tal ato merecia punição.

Aeron já vira aquele episódio em particular muitas vezes, e a cada vez tinha de suprimir a necessidade de agir. Não foi diferente naquele momento. Ele podia sentir seus dedos se curvando ao redor do cabo de sua adaga, a necessidade de apunhalar Torin, exatamente como ele fizera com o Caçador, era muito forte.

Eu teria feito o mesmo, gritou mentalmente para o seu demônio. Teria matado aquele Caçador maliciosamente e sem provocação. Torin não merece ser castigado.

Ira rosnou.

Acalme-se. Aeron deixou o braço cair ao lado do corpo, com a mão vazia.

— Seu demônio quer partir para cima de mim? — Torin perguntou por perguntar.

Seus amigos o conheciam muito bem.

— Sim, mas não se preocupe. Eu mantenho esse idiota sob controle. — Ele imaginou ter escutado o demônio bufar.

Quanto mais ignorava Ira, mais o desejo de punir do demônio crescia; até o momento em que tal desejo tomaria conta de Aeron tão completamente que ele explodiria. Era quando ele voava até a cidade, e ninguém estaria a salvo, o menor dos pecados seria vingado com absoluta crueldade e brutalidade.

Tais arroubos de vingança eram o motivo de Aeron ter tatuado seu corpo daquela maneira. Como era imortal e podia se curar rapidamente, tivera de misturar ambrosia seca na tinta para que o desenho ficasse marcado de forma permanente, e isso fora como injetar fogo diretamente nas veias. Mas ele se importou? Não, claro que não. Sempre que se olhava no espelho, lembrava-se de tudo o que fizera; e do que voltaria a fazer, se não fosse cuidadoso.

Porém, mais do que isso, as tatuagens lhe garantiam que as pessoas que matara, as que não mereciam ter morrido, nunca seriam verdadeiramente esquecidas. Algumas vezes isso ajudava a aliviar a culpa. Às vezes, ajudava a sufocar o orgulho irracional com a força de seu demônio.

— ... tem certeza de que pode controlar?

— O quê? — ele perguntou, saindo dos seus pensamentos.

Torin sorriu mais uma vez.

— Perguntei se tem certeza de que pode controlar seu demônio. Você está piscando sem parar, e seus olhos estão brilhando e ficando vermelhos.

— Estou bem. — Ao contrário do que acontecia com Olivia, sua voz não demonstrava a mais pura verdade. A mentira estava lá, para quem a quisesse ouvir.

— Eu acredito em você. Sério. Então... voltando à nossa conversa? — perguntou Torin.

Em que momento ele se desviara? Ah, claro...

— Tenho certeza de que você não veio aqui para me comparar aos nossos amigos. Eu nem mesmo sou o idiota caído de amores que todos eles foram quando trouxeram suas mulheres para cá.

— E assim à toa, você acabou de arruinar as minhas três próximas piadas. Que cara mais sem graça.

Foi exatamente o que Aeron tinha pensado quando Olivia mencionara seus três desejos. E ter seu pensamento confirmado o deixou mal por razões que não seria capaz de explicar.

— Torin. Vamos direto ao assunto, por favor.

— Certo. Seu anjo já está causando problemas. Alguns de nós querem se livrar dela, outros querem que ela fique aqui. Eu sou do “time do fica”. Acho que temos que atraí-la para o nosso lado, antes que ela passe a nos odiar e resolva ajudar o inimigo.

— Fique longe dela.

Aeron não queria ver o guerreiro nem perto de Olivia. E isso não tinha nada a ver com seus cabelos grisalhos, suas sobrancelhas pretas e seus olhos verdes, que nunca pareciam levar nada a sério, o que lhe garantia a possibilidade de conquistar uma mulher sem precisar tocá-la.

Torin virou os olhos.

— Idiota. Você deveria me agradecer e não me ameaçar. Eu vim dizer para escondê-la. William está do meu lado e quer ser o responsável por atraí-la.

William, um imortal viciado em sexo. Um imortal com cabelos pretos e olhos azuis, ainda mais maliciosos que os de Torin. Um guerreiro alto, musculoso e selvagem. Guerreiro cujas únicas tatuagens ficavam escondidas sob as roupas. Se Aeron se lembrava bem, havia um X sobre seu coração e um mapa do tesouro nas suas costas. Um mapa do tesouro que cobria suas costelas e mergulhava em sua cintura, para finalmente terminar na “área da diversão”.

Ele era um verdadeiro galã, se fosse possível acreditar no que diziam as humanas, e a personificação da diversão.

Olivia provavelmente gostaria dele.

Mas por que Aeron, de repente, teve vontade de esmagar o rosto dele contra a parede, arruinando toda aquela beleza? Era algo que nunca quisera fazer antes, mesmo com a intensa necessidade que Ira sempre demonstrara de puni-lo, esmigalhando seu coração em centenas de pedacinhos, retribuindo o que fizera a centenas de mulheres. Com a diferença de que Ira gostaria que Aeron usasse uma lâmina.

Aeron sempre resistira, pois gostava de William, que talvez não fosse um verdadeiro Senhor, mas com quem sempre poderia contar numa batalha. Ele não demonstrava qualquer limite quando o assunto era matar.

Sem Legião, você está atrás de uma briga. É só isso. Sim. Claramente, ele estava no limite.

— Obrigado, Torin, por me avisar sobre William — ele disse, esperando que seu tom de voz fosse adequadamente seco. — Mas Olivia não ficará por muito tempo para ser seduzida por ninguém.

— Tenho certeza de que William só precisaria de alguns segundos...

Não reaja. Embora, se William aparecesse, Aeron poderia “acidentalmente” perder o controle de Ira, permitindo que o demônio finalmente atacasse o imortal.

Ideia que Ira aprovou com um ronronar.

— Ah — disse Torin, chamando sua atenção. — Mudando o assunto de um viciado em sexo para outro, Paris pediu para avisar que Lucien o teletransportou até a cidade para encontrar uma mulher. Lucien planejava deixá-lo por lá, para que ele não voltasse até amanhã de manhã.

— Ótimo. — E seu alívio não tinha nada a ver com Paris estar longe de Olivia. — Lucien viu algum sinal de Caçadores enquanto estava lá fora?

— Não. Nada na colina nem em Buda.

— Ótimo — ele repetiu, voltando a caminhar de um lado a outro do corredor. — Algum sinal da tal mulher de cabelos pretos?

— Não, mas Paris prometeu continuar procurando por ela. Assim que recuperar suas forças, claro. E, falando em perda de forças, Paris mencionou que o tal anjo está ferido. Você quer que eu peça a alguém para procurar um médico?

“Procurar” significava “abduzir” naquela casa.

— Não. Ela vai se curar sozinha.

Eles já estiveram procurando um médico para trabalhar para eles permanentemente, mas não tiveram sorte. E naquele momento seria importante, pois Ashlyn estava grávida. Porém, ninguém sabia se o bebê seria mortal ou demônio, então tinham de ter cuidado com a escolha.

Os Caçadores, como eles tinham descoberto recentemente, vinham produzindo crianças metade mortais e metade imortais, na esperança de criar um exército imbatível. O demônio do filho de Violência seria um prêmio de altíssimo valor, algo que qualquer Caçador adoraria usar. E nas mãos do médico errado, os segredos dos Senhores poderiam se perder completamente.

Torin balançou a cabeça, demonstrando compaixão, como se Aeron estivesse muito confuso para pesar bem as coisas.

— Você tem certeza de que ela vai se curar? Ela foi expulsa do céu.

— Nós também fomos expulsos do céu, e ainda assim somos capazes de nos curar mais rápido que nunca. Somos capazes até de regenerar membros do corpo.

O que Gideon, guardião das Mentiras, estava fazendo naquele momento. O guerreiro fora capturado durante a última batalha que eles tiveram com os Caçadores, que o torturaram em busca de informações, as quais ele não fornecera. Em retaliação, os Caçadores arrancaram suas duas mãos.

Gideon ainda estava amarrado a uma cama e enchendo o saco de todos.

— Tem razão — disse Torin.

Um grito de mulher surgiu de repente de dentro do quarto de Aeron.

Ele parou de andar, e Torin ficou atento. Quando ouviram o segundo grito, os dois correram para o quarto, embora Torin mantivesse uma boa distância entre eles. Aeron abriu a porta rapidamente e entrou.

Olivia estava na cama, ainda deitada de barriga para baixo, mas se debatia. Seus olhos estavam fechados e, mesmo com as sombras lançadas por seus cílios, Aeron podia ver que feridas se formavam sob eles. Seus cabelos negros estavam revoltos sobre os ombros trêmulos.

Sua túnica obviamente se limpara sozinha, grande parte do sangue desaparecera. Mas havia duas novas manchas onde as asas já deveriam ter voltado a crescer; duas manchas vermelhas, brilhantes e úmidas.

OS DEMÔNIOS A estavam tirando do sério.

Olivia podia sentir garras perfurando sua pele, cortando, picando. Podia sentir o líquido pegajoso e a queimação de seu hálito pútrido. Podia escutar a alegria em suas risadas e sofria com ânsias de vômito.

— Olhe só o que eu encontrei — disse um deles, gargalhando.

— Um lindo anjo, caído diretamente em nossos braços — zombou outro.

Nuvens de enxofre e podridão deixavam o ar mais espesso, e o aroma desagradável enchia as narinas de Olivia enquanto ela tentava reunir fôlego. Ela acabara de cair, com as nuvens se abrindo sob seus pés, lançando-a do céu para baixo... sempre para baixo... numa queda aparentemente sem fim, querendo encontrar algo, qualquer coisa à qual pudesse se agarrar... e, quando finalmente chegou ao fim, o chão se abriu, e as chamas do inferno a engoliram por inteiro.

— Um anjo guerreiro, nesse ponto. Ela tem asas de ouro.

— Não mais.

Os puxões que sentia ficaram mais fortes, mais violentos. Ela chutava, mordia e batia, tentando lutar para se soltar, correr e se esconder, mas havia muitos demônios ao seu redor, o terreno irregular e pedregoso não lhe era nada familiar, e seus esforços permaneciam sem resultados. Os tendões que ancoravam suas asas começaram a rasgar, a dor escaldante se espalhou, consumindo-a até que ela só conseguisse pensar na forma mais fácil de acabar com tudo: morrendo.

Por favor. Deixe-me morrer.

As estrelas piscavam sobre seus olhos, de repente eram a única coisa que podia ver. Todo o resto ficara escuro. Mas a escuridão era uma coisa boa, era bem-vinda. Ainda assim, as gargalhadas e os puxões continuavam. Logo, ela foi tomada por uma tonteira, e a náusea começou a revirar seu estômago.

Por que não estava morta? Então uma de suas asas foi completamente arrancada, e ela gritou, pois a dor escaldante se transformara em algo que ela agora conhecia como pura agonia. Nem mesmo a morte poderia acabar com esse tipo de sofrimento. Não, tal angústia a seguiria no além.

A outra asa foi arrancada em seguida, e ela voltou a gritar mais e mais. As garras continuavam arranhando suas roupas, danificando ainda mais sua pele quando afundavam nas recentes feridas de suas costas. Finalmente, ela vomitou, esvaziando seu estômago das frutas celestiais que comera naquela manhã.

— Não está tão bem agora, está, guerreira?

Mãos a agarraram, tocando-a em lugares que ninguém jamais tocara antes. Lágrimas rolavam por suas bochechas, e ela ficou ali, deitada, impotente. Era isso mesmo. O fim. Finalmente. Mas um pensamento vislumbrou naquele mar de escuridão: ela abrira mão de sua linda vida, apenas para morrer no inferno, sem ao menos experimentar a alegria, sem passar um tempo ao lado de Aeron? Não. Não!

Você é mais forte que isso. Lute! Sim, sim. Ela era mais forte que aquilo. E lutaria. Ela...

— Olivia.

A voz dura e familiar invadiu sua mente, bloqueando por um momento as terríveis imagens, a dor e a tristeza. A determinação.

— Olivia. Acorde.

Fora um pesadelo, ela pensou, com uma pontada de alívio. Apenas um pesadelo. Os humanos costumavam ter essas coisas. Mas Olivia sabia que, para ela, fora uma experiência muito mais dura. Uma lembrança, uma repetição de sua temporada no inferno.

Ela continuava esparramada na cama, percebeu, com as costas ainda queimadas, e o resto do corpo ferido e marcado. Forçando-se a parar, abriu os olhos lentamente. Estava ofegando, e seu peito subia e descia suavemente contra o colchão, o ar queimava seu nariz e sua garganta, como se estivesse inalando ácido. O suor escorria e ensopava sua túnica, colando-a à pele. Aquela anestesia abençoada que experimentara mais cedo desaparecera por completo: ela estava sentindo tudo.

No final das contas, talvez a morte tivesse sido melhor.

Mais uma vez, Aeron estava agachado ao lado da cama, olhando para ela. Um homem, que se chamava Torin, ela se lembrava, estava ao seu lado, observando-a com assustados olhos verdes.

Um demônio, pensou Olivia. Torin era um demônio. Assim como os outros. Os que arrancaram suas asas. Os que a tocaram e insultaram.

Um grito agudo emanou de sua garganta machucada. Ela queria Aeron, apenas Aeron; não confiava em mais ninguém. Não queria que ninguém sequer olhasse para ela naquele momento. Principalmente um demônio. Que o próprio Aeron fosse possuído por Ira não alterava a situação. Para ela, Aeron era simplesmente Aeron. Mas, quando olhava para Torin, só conseguia pensar nas mãos escamosas que haviam beliscado seus mamilos e mergulhado entre suas pernas. E em como aquelas mesmas mãos teriam feito coisas bem piores se ela não tivesse começado a lutar.

Lutar. Sim. Ela chutou, mas sua perna idiota dava golpes inúteis, os músculos estavam muito tensos para funcionar direito. Impotente. Mais uma vez. Um soluço uniu-se ao seu grito, ambos sufocando-a, no momento em que tentou se mover e atirar-se nos braços de Aeron. Porém, mais uma vez, seu corpo frágil se recusou a cooperar.

— Faça-o sair, faça-o sair, faça-o sair — ela gritou, enfiando o rosto no travesseiro. Até mesmo olhar para o recém-chegado era doloroso para ela. Podia conhecer Torin de vista, mas não tão bem quanto conhecia Aeron. Não o desejava como desejava Aeron.

Aeron, que podia fazer tudo melhor, como fazia para seu amigo Paris todas as noites. Aeron, que poderia protegê-la como protegia sua pequena Legião. Aeron, que era tão forte a ponto de espantar seus pesadelos para bem longe.

Mãos fortes pousaram em seus ombros, segurando-a, tentando fazer com que parasse de se mexer na cama.

— Shh. Shh. Você precisa se acalmar, ou poderá machucar seu corpo ainda mais.

— O que está acontecendo? — Torin perguntou. — O que posso fazer para ajudar?

Não. Não, não, não, não. O demônio ainda estava ali.

— Faça-o ir embora. Você precisa fazer com que ele vá embora. Agora. Imediatamente!

— Eu não vou machucá-la, anjo — disse Torin, gentilmente. — Estou aqui para...

Olivia foi tomada por uma histeria, que estava a ponto de consumi-la e acabar com ela.

— Faça com que ele vá embora. Por favor, Aeron, faça com que ele vá. Por favor.

Aeron soltou um grunhido baixo.

— Droga, Torin. Saia logo daqui. Ela não vai se acalmar até que você saia.

Seguiu-se um suspiro pesado, uma tristeza. Depois, felizmente, ouviram passos se afastando.

— Espere — Aeron chamou, e Olivia quis gritar. — Lucien foi para os Estados Unidos como planejou outro dia, para comprar analgésicos para as mulheres?

— Pelo que sei, sim — respondeu Torin.

Eles estavam conversando? Naquele momento?

— Faça-o sair! — gritou Olivia.

— Traga-me alguns comprimidos — pediu Aeron, falando alto para superar o grito de Olivia.

A porta se abriu. Finalmente, o demônio estava indo embora, mas voltaria com remédios humanos. Olivia choramingava. Não conseguiria passar por tudo aquilo novamente. Provavelmente morreria de medo sozinha.

— Apenas jogue dentro do quarto — Aeron acrescentou, como se tivesse escutado os pensamentos de Olivia.

Obrigada, Divindade celestial misericordiosa e doce. Quando Olivia desmoronou sobre o colchão, a porta foi trancada.

— Ele foi embora — disse Aeron suavemente. — Agora somos só nós dois.

Ela tremia tão violentamente que a cama tremia junto.

— Não me deixe só. Por favor, não me deixe.

Ao implorar, ela demonstrava o quanto estava fraca, mas não se importava. Precisava dele.

Aeron afastou os cabelos úmidos de suor da sua testa, com um toque tão suave quanto o tom de sua voz. Aquele não podia ser o seu Aeron, falando com ela tão gentilmente, acariciando-a tão docemente. A mudança que ele sofrera era grande demais para ser verdade. Por que ele mudara? Por que a estava tratando, ela, uma estranha, como costumava tratar apenas os seus amigos?

— Antes você queria que eu a abraçasse — ele disse. — Ainda quer?

— Sim. — E como. Fosse qual fosse a razão para a mudança, não importava. Ele estava ali, oferecendo-lhe o que ela desejara por tanto tempo.

Muito lentamente, ele se aproximou dela na cama, com cuidado para não empurrá-la. Quando estava deitado ao seu lado, ela se aninhou até pousar a cabeça na cavidade formada pelo ombro quente e forte dele. Tal movimento fez aquela dor debilitante jorrar mais uma vez pelo seu corpo. Porém, estar perto dele, e finalmente tocá-lo, valia a pena. Para isso fora até lá.

Ele passou um dos braços ao redor das costas de Olivia, com cuidado para não tocar suas feridas, e seu hálito quente passou por sua testa.

— Por que não está se curando, Olivia?

Ela adorava quando Aeron dizia seu nome. Era como uma oração e uma súplica, reunidas no mesmo pacote bonito.

— Eu já disse. Eu caí. Sou completamente humana agora.

— Completamente humana — ele disse, enrijecendo o corpo. — Não, você não me disse isso. Eu poderia ter trazido remédios antes.

Havia culpa em seu tom de voz. Culpa e terror. O terror ela não entendia, mas estava muito angustiada para perguntar alguma coisa. E ela logo se esqueceu disso. No centro da sala, uma luz âmbar se acendeu. Aquela luz aumentou... mais e mais... o brilho era tão forte que ela foi obrigada a apertar os olhos.

Um corpo ganhava formas. Um corpo grande e musculoso, envolto numa túnica branca muito parecida com a sua. Em seguida, surgiram cabelos claros, que caíam sobre ombros fortes. Podia ver também olhos como ônix líquido e uma pele clara, envolta numa leve poeira dourada. O último item a ser visto por ela foram as asas de um dourado puro e brilhante.

Ela quis acenar, mas tudo o que conseguiu fazer foi abrir um sorriso pálido. Doce Lysander, ali estava para consolá-la, mesmo sendo um mero produto de sua imaginação.

— Estou sonhando novamente. Mas gosto deste sonho.

— Shh — murmurou Aeron. — Eu estou aqui.

— Eu também estou. — Lysander olhou tudo ao seu redor e curvou os lábios, demonstrando insatisfação. — Infelizmente, isso não é um sonho. — Como sempre, ele falava a verdade, e sua voz demonstrava tanta certeza quanto a dela.

Aquilo estava realmente acontecendo?

— Mas eu sou humana agora. Não deveria ser capaz de ver você. — Na verdade, vê-lo agora era contra as regras. A menos que sua Divindade a quisesse recompensar por algo. E como ela acabara de virar as costas à sua antiga vida, isso era muito pouco provável.

Agora ele estava olhando diretamente nos olhos de Olivia, e parecia olhar diretamente em sua alma.

— Fiz um pedido ao Conselho em seu nome. Eles concordaram em lhe dar mais uma chance. Então, agora mesmo, uma parte de você ainda é angelical, e assim permanecerá nos próximos 14 dias. Quatorze dias durante os quais você poderá mudar de ideia e solicitar novamente seu lugar de direito.

Como se fosse um raio, ela foi atingida por um choque que queimava e fervia.

— Eu não entendo. — Nenhum anjo caído recebera uma segunda chance antes.

— Não há nada para entender — disse Aeron, ainda tentando acalmá-la. — Estou com você.

— Sou um dos Sete, Olivia. Eu quis que você tivesse mais 14 dias, então você os terá. Para viver aqui, para... aproveitar. Depois, voltará. — O tom de Lysander indicava que seu status deveria explicar tudo.

Não explicava, mas a esperança em sua voz ainda a entristecia. A única coisa da qual ela se arrependia em relação à sua escolha era ter ferido aquele incrível guerreiro. Ele a amava, queria apenas o melhor para ela.

— Sinto muito, mas não vou mudar de ideia.

Ele parecia estupefato:

— Mesmo quando o imortal for tomado de você?

Ela mal conseguiu evitar seu grito de horror. Não estou pronta para perdê-lo. Porém, fraca como estava, não poderia fazer nada para salvá-lo, e sabia disso.

— É por isso que você está...

— Não, não. Acalme-se. Não estou aqui para matá-lo. — A palavra ainda não foi dita, mas ficou no ar. — Caso decida ficar, seu novo assassino só será nomeado quando terminar o prazo de 14 dias.

Então, ela tinha a garantia de duas semanas ao lado de Aeron. Nem mais nem menos. E isso teria de ser suficiente. Tentaria reunir memórias que durassem toda uma vida. Se conseguisse convencê-lo a deixá-la ficar, claro. Mas ele era tão teimoso...

Olivia suspirou.

— Obrigada — ela disse. — Por tudo. Você não precisava fazer isso por mim.

Ele provavelmente tivera de lutar sem medo contra o Conselho para receber tal concessão, sendo um dos Sete ou não. Mas ele conseguira, sem hesitar, apenas para que ela pudesse experimentar toda a alegria e paixão que desejava sentir antes de voltar ao seu lugar no céu. Não diria a Lysander que não conseguiria voltar. Não importava o que acontecesse.

Em 14 dias, se ela voltasse, seria esperado que ela matasse Aeron, ela sabia, mas nem assim seria capaz de fazê-lo.

— Eu amo você. Espero que saiba disso. Aconteça o que acontecer.

— Olivia — disse Aeron, claramente confuso.

— Ele não pode me ver, ouvir ou nem mesmo sentir minha presença — Lysander explicou. — Agora ele percebe que você não está falando com ele e acha que está sofrendo alucinações por causa da dor. — Seu mentor deu um passo em direção à cama. — Devo lembrá-la que este homem é um demônio, Liv. Ele é tudo contra o que sempre lutamos.

— Assim como a sua mulher.

Ele endireitou os ombros largos e ergueu o queixo. O guerreiro teimoso de sempre, o seu Lysander. Exatamente como Aeron.

— Bianka não infringiu nenhuma de nossas leis.

— Mas mesmo se ela tivesse, você teria escolhido ficar com ela. Você teria encontrado uma maneira.

— Olivia? — Aeron repetiu.

Lysander não deu atenção a ele:

— Por que você escolheria viver com ele sendo humana, Olivia? Em troca de apenas alguns minutos nos seus braços? Isso não vai lhe trazer nada além de desgosto e decepção.

Mais uma vez, havia um tom inconfundível de verdade na sua voz. Mentiras não eram permitidas no mundo deles, ou melhor, no mundo dele, pensou Olivia tristemente. Ainda assim, recusava-se a acreditar em suas palavras. Ali, faria as coisas que estava louca para fazer. Não apenas viveria como humana, mas também sentiria como uma delas.

A porta do quarto se abriu, evitando que ela tivesse de responder. Um pequeno frasco de plástico foi atirado para dentro. Caiu no chão, a poucos centímetros dos pés de Lysander, que estavam calçados com sandálias.

— Aí estão os remédios — disse Torin. A porta se fechou antes que Olivia conseguisse dar mais um grito.

Aeron fez sinal de que se levantaria, mas Olivia pressionou ainda mais seu corpo sobre o dele.

— Não — ela disse, fazendo uma careta, como se outro daqueles raios a tivesse atingido. — Fique aqui.

Ele poderia tê-la empurrado para o lado, mas não o fez.

— Tenho que pegar os remédios. Eles vão ajudar a diminuir a sua dor.

— Depois — ela disse. Agora que eles estavam se tocando, agora que ela sentia o calor do corpo dele envolvendo-a e tranquilizando-a, ela não queria perder tal sensação. Nem por um segundo.

Num primeiro momento, imaginou que Aeron não atenderia seu pedido, mas ele relaxou e segurou-a com ainda mais força. Olivia suspirou de felicidade e encontrou os olhos de Lysander mais uma vez. Ele estava fazendo uma careta.

— É exatamente por isso — ela disse.

Os anjos não costumavam abraçar e afagar. Poderiam, se quisessem, ela imaginou, mas ninguém nunca tentara. Por que o fariam? Eram como irmãos e irmãs uns para os outros, e o desejo físico não era parte de sua constituição.

— Por isso o quê? — Aeron perguntou, mais uma vez confuso.

— É por isso que eu gosto de você — ela respondeu sinceramente.

Ele enrijeceu o corpo, mas não respondeu.

Com os olhos estreitos, Lysander abriu as asas num movimento suave, o esplendor dourado brilhou à luz da lua. Uma única pena pousou no chão.

— Vou deixá-la aqui para que se recupere, querida, mas eu vou voltar. Você não pertence a este lugar. Com o passar dos dias, pressinto que você perceberá isso também.