A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 7 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Sete

 

SETE DIAS. SETE malditos dias, e nenhum resultado. Strider, guardião da Derrota, limpou seu rosto suado com uma toalha. Depois inclinou o corpo no pedregulho às suas costas e olhou em volta. O sol brilhava com força, muito mais quente do que jamais brilhara em Buda. A água imaculada seguia gentilmente em direção àquela ilha próxima a Roma, e o zumbido suave que fazia era um bálsamo para seus ouvidos.

Tudo o que restava do Templo dos Impronunciáveis eram pilares destruídos, idênticos aos que tinha atrás de si, alguns caídos, outros de pé, e um altar ainda manchado e com respingos vermelhos. Havia uma energia vibrante no ar. Energia que deixava seus cabelos eletrizados. E, ainda assim, apesar do altar e da tal energia, Strider sentia uma estranha familiaridade com o local. Afinal, muitas pessoas o consideravam um impronunciável. Malvado e desnecessário.

Não que ele concordasse. Era o guardião da Derrota e não podia perder um desafio sequer sem sofrer. Que mal havia nisso? Ele não saía matando indiscriminadamente só para ganhar um jogo de Xbox ou algo parecido.

Enfim... Da última vez em que estivera ali, arqueólogos estudavam todos os cantos e fendas. Os Caçadores também estiveram entre eles, tentando encontrar algum artefato poderoso de Cronos, ou até mesmo a própria caixa de Pandora. Mas não estavam mais ali. Por quê?

Apesar de o templo ter emergido do mar havia poucos meses, árvores já tinham crescido, altas, exuberantes e verdejantes, e circundavam a área onde o templo antes se erguia orgulhoso, mas elas não tocavam de fato no templo. Na verdade, as árvores ficavam longe dele, como se tivessem medo de chegar muito perto.

O que estava lá e ele não vira na última vez em que visitara aquele local eram ossos. Ossos humanos. Dos arqueólogos, provavelmente. Ele podia apenas imaginar o que os matara. Não havia qualquer vestígio de carne ou sangue. Sim, um animal poderia ter devorado todos eles durante os poucos meses desde que a primeira vez em que estivera ali, mas não deveria haver algum sinal do banquete? Quer dizer, além dos ossos. Uma poça de sangue aqui, um pedaço de carne estragada ali. Arranhões onde os humanos tenham lutado para se libertar. Pegadas onde eles tenham tentado fugir.

Não havia nada.

Então. O que poderia ter consumido tanta gente de forma tão limpa? Uma criatura divina, claro.

Anya, deusa (menor) da Anarquia e namorada/futura esposa de Lucien, horror dos horrores, a terrível megera resolvera planejar um casamento sozinha, não sabia muito sobre os tais Impronunciáveis, portanto não poderia corroborar sua ideia de que teriam sido os responsáveis por transformar os humanos em comida. Os deuses nunca tinham falado nada sobre eles, dissera, e por isso ela não sabia muito bem o que seriam capazes de fazer. Os deuses os temiam, no entanto.

Ainda assim, Strider não queria ir embora. Precisava encontrar os artefatos. Precisava encontrar a caixa de Pandora. Precisava destruir os Caçadores. Finalmente. Sua vida dependia disso. Sua paz de espírito dependia disso. Todos os dias, Derrota falava um pouco mais alto em sua mente, então todos os dias ele se lembrava mais e mais dos primeiros dias de possessão. Dias que preferia esquecer.

Seu demônio urrava eternamente, gritava constantemente; a necessidade exaustiva de desafiar todos os que encontrava o guiava. Não importavam as consequências. Matar um amigo? Claro. Desde que vencesse.

Ele odiara a si mesmo naquela época. Seus amigos provavelmente também o odiaram. Bem, isso não era verdade. Eles também estavam sendo devastados por seus demônios da mesma forma que ele. Precisaram de séculos para aprender a controlá-los. Porém, enquanto seus amigos tinham o controle de seu lado negro, Strider estava a ponto de perder o controle do seu.

— Parece que alguém resolveu fazer um intervalo antes dos outros — disse uma voz ríspida, bem atrás dele.

Strider girou o corpo. Gwen, uma linda mulher de cabelos vermelhos e mais forte e cruel que qualquer dos Senhores, aproximou-se dele, com um brilhante copo de água nas mãos. Ofereceu-o e ele aceitou rapidamente. Em poucos segundos, o copo estava completamente seco. Deuses, que sensação boa a da água gelada em sua garganta seca.

— Obrigado.

— De nada. — Ela sorriu lentamente, e Strider soube exatamente por que Sabin se apaixonara por ela. As mulheres más eram as melhores. — Eu roubei isso de Sabin.

— Estou ouvindo, minha querida esposa — disse Sabin, surgindo de trás da rocha. Ele apertou o passo até chegar ao lado de Gwen, depois passou um dos braços sobre os seus ombros.

Imediatamente, Gwen esticou um dos braços e entrelaçou os dedos nos dele. Chegou até mesmo a inclinar a cabeça e encostá-la nele, sabendo que ele a seguraria e a manteria segura. Talvez gostassem de desafiar e ganhar um do outro, mas eram unidos. E isso sempre esteve bem claro.

Para dizer a verdade, a união deles inicialmente chocara Strider. Afinal de contas, Gwen era filha de Galen, e Galen era o líder de seu maior inimigo. Mais do que isso, Sabin era o guardião da Dúvida, e Gwen não passara de um ratinho tímido quando eles se conheceram. O demônio praticamente a comera viva.

Agora não havia mulher mais confiante no mundo. Mas Strider não sabia muito bem como aqueles dois tinham conseguido chegar àquele ponto e fazer a relação dar certo. Só estava feliz por não estar envolvido num relacionamento sério. Ele gostava de mulheres, até mesmo das que não eram más. Ah, e como gostava! Mas relacionamentos? Não muito.

Já tivera algumas namoradas ao longo dos anos e, no princípio, ele adorava. Gostava do compromisso, da exclusividade. Porém, quando elas descobriam sua necessidade de sempre sair ganhando, a maioria tentava tirar vantagem disso.

“Aposto que não pode fazer com que eu me apaixone por você.”

“Duvido de que seja capaz de me convencer de que fomos criados um para o outro.”

Já participara desses joguinhos muitas vezes, conquistando corações que não tinha qualquer interesse em ter. Agora, ele se divertia com elas uma vez, talvez duas, está bem, talvez três vezes, e depois era adeus, velha, e olá, nova.

— Que história é essa de intervalo mais cedo? — Sabin empurrou Gwen até o altar e apoiou o quadril contra a pedra. Colocou-a à sua frente, mais uma vez com os braços em volta do seu corpo, e abraçou-a com força contra o peito, fazendo com que a cabeça de Gwen repousasse abaixo de seu queixo.

Strider deu de ombros.

— Eu estava pensando. — Em vez de estar examinando as pedras em busca de símbolos ou mensagens, como ele lhe ordenara.

Sabin foi o mentor de Strider durante toda a vida. Sim, Lucien fora comandante do exército de elite enquanto eles moravam no céu, mas Strider sempre procurara por Sabin quando queria conselhos e orientações. Ainda fazia isso. Ele teria sido capaz de decapitar a própria mãe, se isso lhe garantisse a vitória em uma batalha. Não que algum deles tivesse mãe. Todos os guerreiros tinham nascido completamente formados. Mas Strider valorizava esse tipo de comprometimento.

— Ouvi alguém dizer que era hora do intervalo? — perguntou Kane, guardião do Desastre, com um sorriso todo seu ao surgir de um canto. Seus cabelos, uma mistura de fios castanhos, pretos e dourados, assim como seus olhos, uma mistura de castanho e verde, brilhavam à luz âmbar do sol.

Ele sempre fora assim tão colorido?, Strider se perguntou. Eles estavam juntos desde sempre, mas Strider podia jurar que nunca o vira tão... feliz. Quase radiante. Talvez o templo lhe fizesse bem.

De repente, uma rajada de vento surgiu entre as árvores. Um galho se quebrou e voou na direção deles. E, claro, o galho atingiu Kane na nuca. Acostumado a catástrofes, ele nem se abalou.

Strider deu uma risada. Aquela não seria a última desgraça de Kane, sem dúvida. As pedras costumavam cair, e o chão tendia a se abrir sempre que o guerreiro aparecia em cena.

Atrás dele, ouviu-se o barulho de cascalho sendo triturado por botas, e Strider se virou novamente. Amun, Reyes e Maddox, os últimos do grupo, estavam bem perto.

— Intervalo? — perguntou Amun, com sua voz profunda e quase enferrujada pela falta de uso. Era um ser obscuro dos pés à cabeça, e, como guardião dos Segredos, raramente falava, pois tinha medo de revelar verdades devastadoras das quais os guerreiros não seriam capazes de se recuperar. Porém, como recentemente deixara escapar vários desses segredos para acalmar Gideon durante um acesso de raiva, estava um pouco mais falante.

E a mudança fizera bem ao coração de Strider.

— Acho que sim — ele respondeu.

— Veja bem o que você começou — disse Sabin, virando os olhos.

— O que há de errado com uma pausa? Estou cansado. E os deuses sabem que não estamos fazendo progressos — disse Maddox, provavelmente o membro mais perigoso do grupo. Ou melhor, fora o mais perigoso. Antes de conhecer Ashlyn. Agora havia uma gentileza em seus olhos violeta que nenhum dos Senhores possuía.

Pena que tanta gentileza fosse dirigida apenas à delicada Ashlyn. Maddox era o guardião do demônio da Violência, e quando ele se manifestava... Ai! Strider já fora alvo de sua necessidade de ferir e mutilar uma ou duas vezes. E, sim, Strider vencera até aquelas batalhas, dando mais pancadas do que recebera. Ele simplesmente não conseguia evitar.

— Já buscamos no chão, usamos raio-X nas pedras, esperando encontrar algo dentro delas e derramamos nosso próprio sangue na esperança de atrair os Impronunciáveis com sacrifícios. — Reyes, tão obscuro como Amun, porém muito mais nervoso, esticou os braços, ainda com cortes e sangrando por conta de sua última oferenda. Ou de uma autotortura. Com Reyes, era impossível saber. — O que nos resta fazer?

Todos olharam para Sabin.

— Eles nos disseram que Danika era o Olho Que Tudo Vê. Não entendo por que não voltam para nos ajudar — disse o guerreiro, demonstrando clara frustração.

O Olho Que Tudo Vê podia enxergar o céu e o inferno. Ela sabia o que os deuses planejavam, o que os demônios planejavam, e sabia os resultados de tais planos, mas não necessariamente na hora certa. Os detalhes surgiam para ela em espasmos, fora de sequência.

Sabin girou o corpo, dizendo:

— Tudo o que queremos saber é onde estão os outros dois artefatos. Isso é pedir muito?

— Ajudem-nos, droga — gritou Kane, entrando no espírito.

— Caso contrário, vou arrancar todas as pedras dessa ilha e atirá-las ao mar — Maddox acrescentou.

— E eu vou ajudá-lo — jurou Strider. — Mas vou mijar em cima delas antes.

Enquanto suas vozes ecoavam entre as pedras, o ar pareceu mais pesado, desafiador. Os insetos nas árvores até ficaram em silêncio.

— Opa... Talvez vocês não devessem ter ameaçado violar a propriedade deles — murmurou Reyes.

Oops!

Em seguida, o mundo ao redor dos guerreiros desapareceu, restando apenas os pilares e o altar. Porém, cada um dos pilares estava repentinamente de pé, e o altar brilhava, com seu mármore branco totalmente limpo dos dejetos.

Confusos em relação ao que estava acontecendo, os guerreiros se levantaram, ficaram alertas e agarraram suas armas.

Strider era bom tanto com armas quanto com facas, mas normalmente preferia cortar e fazer em pedaços. Mas naquele dia, porém, usaria sua Sig Sauer. Manteve a boca da arma abaixada, mas isso não era garantia de que seria menos perigoso. Ele era capaz de mirar e atirar em um piscar de olhos.

— O que está acontecendo? — murmurou Gwen.

— Não sei, mas quero que esteja pronta para qualquer coisa — Sabin avisou.

Qualquer outro guerreiro teria escondido sua mulher atrás de si, para protegê-la. Mas Sabin não era assim. Homens e mulheres sempre foram iguais para ele, e embora amasse Gwen mais do que amava a própria vida, e quisesse protegê-la mais do que conseguir qualquer vitória, todos sabiam que Gwen era a mais forte do grupo. Ela já salvara mais de um guerreiro.

Strider, no entanto, posicionou-se à frente dela e de todos os outros. Aquele sentido de desafio... Ele precisava ser o vencedor.

Seu demônio já estava cantarolando. Vencer... vencer... você precisa vencer... não pode perder.

Eu sei, ele grunhiu. Vou vencer.

Ele girou o corpo, olhando para todos os lados, buscando. Finalmente, encontrou sua presa. Um homem enorme... não, aquilo não poderia ser chamado de homem. Uma fera enorme se materializara entre dois pilares.

Mesmo com um nó no estômago, Strider tirou as medidas de seu alvo. A besta não estava vestida, nem precisaria. Sua pele era coberta de pelos, como a pele de um cavalo. Serpentes dançavam e assobiavam em sua cabeça, e com seus corpos finos serviam de cabelo. Dois longos caninos saíam de seu lábio inferior. Ele tinha mãos humanas, mas, no lugar dos pés, havia cascos.

Seu torso era uma massa de músculos, e seus mamilos estavam adornados por duas grandes argolas de prata. Correntes de metal circundavam seu pescoço, pulsos e tornozelos e o mantinham preso aos pilares.

— Quem é você? — Strider exigiu saber, pois nem seria preciso perguntar o que era a criatura. Estava coberta de excrementos.

Ele não esperara uma resposta, mas, que droga de silêncio era aquele que o estava deixando irritado.

Depois, além da primeira fera, entre dois outros pilares surgiu um segundo monstro, e Strider piscou à repentina aparição. Esse também era macho, mas apenas a parte inferior do seu corpo estava coberta de pelos vermelhos. Seu peito era uma massa de cicatrizes. Ele também estava preso às colunas por correntes.

Porém, tais correntes não diminuíam a ameaça que irradiava dos dois.

— Meus deuses. Vejam — disse Kane, apontando.

Uma terceira besta apareceu, e daquela vez era fêmea. Assim como os homens, seu peito estava nu. Seus seios eram grandes, seus mamilos também tinham brincos, embora fossem de diamantes, e não argolas de prata. Uma saia de couro envolvia sua cintura e coxas. Ficou em pé, de perfil, e Strider pôde ver os pequenos chifres que surgiam de sua coluna. Ele até gostou dos chifres, pois serviriam para que alguém se agarrasse neles quando as coisas ficassem complicadas. Seu rosto, no entanto, era bicudo como o de um pássaro. Portanto, ir para a cama com ela? Não. Também era muito peluda e estava acorrentada.

Numa sucessão rápida, apareceram um quarto e um quinto monstros, todos tão altos e largos que pareciam ser montanhas vivas. Mas esses não tinham serpentes no lugar dos cabelos. O que tinham era pior. Um deles era careca, mas sombras pareciam jorrar de seu crânio. Sombras espessas, escuras e pútridas. O outro tinha lâminas. Curtas, porém afiadas, elas saíam de seu couro cabeludo, todas brilhantes graças a alguma coisa clara e molhada.

Eram os Impronunciáveis.

Sem dúvida. Strider deixou escapar um suspiro. Deveriam ter continuado sendo os Invisíveis. Droga.

Vencer.

Ainda não fomos desafiados, idiota. Graças aos deuses!, ele acrescentou, apenas para si mesmo. Seria capaz de derrotar aquelas criaturas?

A fêmea deu um passo à frente, arrastando as correntes. Os Senhores ficaram parados, o que pareceu agradá-la. Ela sorriu, seus dentes muito brancos e afiadíssimos como navalhas. Felizmente, ela não podia ir muito longe, não conseguia alcançá-los, pois estava presa aos pilares.

— Mais uma vez, vocês obscureceram o nosso umbral. — A voz dela ressoou com o pranto de milhares de almas presas no inferno, tentando desesperadamente escapar. Elas gritavam através dela, seus gritos ecoando pelo templo, suas lágrimas praticamente encharcando-o. — E, mais uma vez, nós lhes concedemos a honra de nossa presença. Mas não pensem, nem por um momento, que suas ameaças nos atingiram. Pretendem profanar nosso templo? Podem seguir em frente. No entanto, sugiro que digam adeus às suas pirocas antes de fazerem isso.

Vencer!

Isso não foi um desafio, não foi um desafio, não foi porra de desafio nenhum. Por favor, não permita que tenha sido um desafio. Ele sentia que a mulher estava falando sério. Se ele liberasse o Stridy Monster para se aliviar, iria perdê-lo. E não haveria pior tragédia que essa. Pergunte a qualquer pessoa que tenha estado com ele.

— Ah, pedimos desculpas — disse Sabin, num esforço de acalmar a situação.

— Desculpas aceitas — ela respondeu tranquilamente.

E aquela tranquilidade parecia fora de contexto. Estava errada.

Droga. Onde estava Gideon quando se precisava dele? Como guardião das Mentiras, ele sabia quando alguém estava ou não dizendo a verdade. Strider ficara apreensivo desde a aparição das bestas, mas agora se perguntava qual seria o objetivo delas. E a dúvida fez sua apreensão se transformar em medo.

— Agora, eis a razão que nos fez aparecer — ela continuou. — A determinação que vocês demonstram para vencer o inimigo é admirável, e resolvemos recompensá-los por isso.

Uma recompensa? Daquelas criaturas? Seu estômago, antes apertado, começou a fazer uma pequena dança: gira, gira, dá um nó, gira, gira, dá um nó. Havia algo errado, ele pensou mais uma vez.

— Então vocês vão nos ajudar? — Reyes perguntou. Bobo e ingênuo. — Vão nos ajudar a vencer os Caçadores de uma vez por todas?

Uma risada.

— Como você mesmo disse, já os ajudamos uma vez. E o fizemos sem pedir nada em troca. — O olhar da besta era tão parecido com um buraco negro que ele teve a sensação de estar caindo, ter sido levado, aterrissado nele e rodopiado no próprio lugar. — Não foi isso?

Pura e simplesmente, o entendimento começou a surgir. Sempre que se quisesse deixar alguém viciado em suas drogas, era só oferecer-lhe a primeira prova gratuitamente. No caso deles, a ajuda que haviam recebido fora a droga, e agora os Senhores estavam viciados.

Eles teriam de pagar por qualquer assistência que quisessem, Strider percebeu. E pagar bem. Agora, sim! Finalmente, as coisas estavam certas.

— Talvez possamos nos ajudar mutuamente — Kane sugeriu, sentindo a terra se abrir sob seus pés. Deu um passo para o lado para evitar cair em seu próprio buraco negro.

Ela ergueu o queixo com um desdém malicioso.

— Não precisamos de nada que venha de vocês.

— Veremos — disse Sabin, sem demonstrar preocupação no tom de sua voz. Mas Strider podia ver as engrenagens funcionando na mente do amigo. — Vocês sabem onde está o Manto da Invisibilidade? E o Cetro Divisor?

— Sim — ela respondeu, abrindo mais um sorriso, que estava carregado como uma arma e pronto para disparar. — Nós sabemos.

Sim, estou viciado.

Vencer!, repetiu Derrota.

Strider lambeu os lábios de ansiedade, seus ossos já estavam vibrando ao pensar em vencer os Caçadores. Finalmente, o Super Bowl das vitórias estava bem ali, disponível para que eles o pegassem. Assim que estivessem com os artefatos nas mãos, poderiam encontrar e destruir a caixa de Pandora. Isso não destruiria os Caçadores, claro, mas acabaria com seus planos de usar a caixa para atrair os demônios dos Senhores, matando os guerreiros.

O homem não podia viver sem o demônio, não mais. Eram duas metades de um todo, ligados para sempre. Derrota era tão parte dele quanto Stridy Monster.

Os demônios eram igualmente ligados, mas não morreriam caso fossem separados dos homens. Porém, ficariam loucos, com uma fome eterna frente às suas necessidades mais corrompidas, mas incapazes de supri-las.

Após os Caçadores terem matado Baden, o demônio da Desconfiança saíra do seu corpo, torturado, gritando, destruindo todos os que encontrava pela frente. Strider observara tudo, sem poder fazer nada.

Pior: aquele demônio continuava solto, causando destruição.

Por isso os Caçadores já não queriam matar os Senhores. Não queriam que os demônios ficassem livres, sem poder capturá-los. Mas com a caixa, poderiam fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

E graças a Danika, os Senhores agora sabiam que os Caçadores tinham um novo plano de ação. De alguma forma, eles tinham encontrado o demônio da Desconfiança. Conseguiram capturá-lo e estavam tentando forçá-lo a possuir um novo corpo. Caso conseguissem... Strider teve calafrios. Eles não precisariam esperar pela caixa. Poderiam matar os Senhores, colocar os demônios nos corpos de sua preferência e fazer o que quisessem com eles.

Eles diziam que queriam um mundo sem maldade. Mas será que diriam o mesmo se estivessem no comando de toda essa maldade? Claro que não. Não era fácil abrir mão do poder. Como o próprio Strider bem sabia. Ele não seria capaz de abrir mão do seu poder de jeito nenhum. Gostava de vencer; e não apenas por causa do seu demônio.

— Então, o que querem de nós? — perguntou Sabin, agora cauteloso. — Em troca dos artefatos?

Strider quase sorriu. Sabin não gostava de problemas na comunicação. Queria os fatos bem expostos, para que todos soubessem onde estavam se metendo.

A Impronunciável riu, e o som foi bem mais cruel que o anterior. Talvez porque, daquela vez, fosse uma risada zombadora.

— Vocês acham que é assim, tão simples? Que podem nos dar uma moedinha e, em troca, nós lhes daremos o que vocês mais querem? Estão muito enganados, demônios. Vocês não são os únicos que buscam o que temos a oferecer. Observem.

Acima do altar, o ar ficou mais pesado, coagulado, e cores ganharam vida antes de se misturarem, formando o que parecia ser uma espécie de filme. Strider tentou decifrar as imagens e ficou tenso ao ver que Galen tomava forma. Seus cabelos loiros, suas feições bonitas, suas asas com penas brancas. Como sempre, usava uma túnica branca, como se fosse realmente um anjo, e não um guerreiro possuído por um demônio, como todos os demais.

Ao lado dele estava uma mulher alta e esbelta. Era bonita, de um jeito forte, com feições rígidas, cabelos pretos e pele clara. Ele já a vira antes, pensou, revirando os arquivos mentais da Grécia e Roma antigas, e também de todos os lugares onde estivera durante sua longa vida, mas não encontrou nada. Pensou em tempos mais recentes, e mais uma vez... Ah, merda, ali estava ela. Danika, ele se deu conta. Danika a pintara. Era uma inimiga.

Merda, pensou mais uma vez. Danika pintara aquela mulher numa cena que se passava vinte e poucos anos antes, mas sua imagem permanecia idêntica. Não havia qualquer marca de envelhecimento nela.

Então, ela não era humana.

Naquele dia, estava usando uma roupa de couro preto e estava amarrada a uma mesa, mas não lutava contra suas amarras. Havia determinação em sua expressão, seu olhar seguia... Não. Claro que não. Não podia ser... Não era possível... Porém, enquanto Strider observava, viu uma figura fantasmagórica voando de um lado a outro do salão. Seus olhos eram vermelhos, seu rosto, esquelético, seus dentes longos e afiados.

Não havia dúvida: era um demônio. Um Alto Senhor, exatamente como o ser que possuíra Strider.

Strider parou de respirar, e todos os músculos do seu corpo se agarraram aos seus ossos.

— Baden — disse Amun, naquela voz ríspida e quase não utilizada dele, e com tanto anseio em seu tom que doeu ouvir o que dizia. Houvera algo especial em Baden, algo na direção do qual todos eles haviam se movido. Algo que todos queriam. Eles amaram Baden mais do que haviam amado a si mesmos. Mais do que amavam uns aos outros. Ainda o amavam, apesar da morte do guerreiro.

— De jeito nenhum — disse Kane, sacudindo a cabeça de forma quase violenta.

Strider concordou. De jeito nenhum. Aquele demônio não carregava a essência do amigo deles. Não seria possível. Mas havia algo familiar naquele ser fantasmagórico... Algo angustiante.

— Entre nela — Galen ordenou. — Entre nela, e seu tormento cessará. Finalmente terá um hospedeiro. Finalmente será capaz de sentir, cheirar, provar. Não se lembra de como isso era bom? Finalmente poderá destruir completamente a confiança dos homens, como deve fazer.

Destruir a confiança dos humanos. Como Desconfiança devia fazer. Não, pensou mais uma vez.

O espírito grunhiu, e sua velocidade aumentou. Estava claramente agitado. Será que ele sabia o que estava acontecendo? Queria outro hospedeiro? Ou estava simplesmente muito louco para entender?

— Por favor — a mulher implorou. — Eu preciso de você. Preciso muito de você.

Então... ela estava disposta. Isso não significava que ela soubesse o que aconteceria com ela, caso conseguisse o que estava pedindo. Durante o primeiro século, pelo menos, não haveria remanescentes da pessoa que era antes. Seria um demônio completo, e muitos, muitos humanos sofreriam por isso.

— Vamos — disse Galen. — É isso o que você quer. É isso de que precisa. Tudo o que tem a fazer é tocá-la, e ficará aliviado. Não poderia ser mais simples.

O demônio estava entendendo?, imaginou mais uma vez. Como guardião da Esperança, Galen podia fazer qualquer pessoa ou qualquer coisa desejar um futuro que nunca almejaria para si sem a influência dele. Até mesmo um demônio. Fora assim que ele formara seus Caçadores, convencendo-os de que o mundo seria melhor sem os Senhores. Uma utopia de paz e prosperidade.

Enquanto Galen sussurrava de forma tão persuasiva, até Strider estava sendo atingido. Ele queria tocar aquela mulher. Ficaria aliviado... Seu futuro estaria garantido... seria melhor...

O demônio caminhou em direção à mulher, mas logo mudou de ideia e foi em outra direção. Ah, sim. Ele entendia.

Não faça isso, Strider projetou. Ele queria seu amigo de volta, claro. E queria isso mais do que qualquer outra coisa no mundo. E, em alguns aspectos, o demônio da Desconfiança era seu amigo, sendo ou não a essência de Baden. Mas ele não queria ver seu amigo abrigado no corpo de um inimigo.

— Vamos! — Galen rosnou. — Faça isso! Agora!

O espírito não parava de dar voltas pelo teto da sala.

Impaciente, Galen ergueu as mãos.

— Certo. Esqueça. Você pode passar o resto da eternidade exatamente como passou os últimos milhares de anos. Infeliz. Com fome. Não realizado. Estamos indo embora. — Ele esticou os braços para soltar as amarras dela.

Houve outro gemido, depois um uivo, e então o espírito estava mais uma vez se lançando de um lado para o outro, ganhando velocidade, já não passava de um borrão. Ele caiu... caiu... finalmente atingindo o ventre da mulher.

Se ela não estivesse amarrada, teria se machucado, pois o impacto foi muito intenso. As convulsões aumentavam a cada segundo. Ela uivava, com seus músculos em espasmos, suas feições contorcidas. Depois começaram os gritos.

Não. Maldição, não! Strider quase caiu de joelhos.

Galen abriu um sorriso maldoso de satisfação.

— Assunto encerrado. Finalmente. Agora tudo o que temos de fazer é esperar para ver se ela sobreviverá.

A porta do salão se abriu, e um grupo de seguidores de Galen marchou para dentro. Em perfeita sincronia. Deviam estar por perto, observando através de monitores.

— Voltamos ao templo, Grandioso? — perguntou o homem à frente.

A resposta de Galen se perdeu, pois a visão piscou e, em seguida, desapareceu.

De repente, o tempo pareceu ficar suspenso, preso entre correntes de horror e choque.

Sabin foi o primeiro a conseguir se libertar dessa sensação.

— Que merda foi essa que acabou de acontecer?

O que aconteceu? Os portões do inferno tinham acabado de ser abertos, as repercussões que ele acabara de contemplar eram repentinamente reais. Caso a mulher sobrevivesse, os Caçadores partiriam para a guerra, como Strider temera. Já não se contentariam em meramente ferir os Senhores. Desejariam a morte. E, caso os demônios dos guerreiros fossem libertados, os Caçadores os encontrariam e os penderiam no corpo de outras pessoas. Dessa forma, Galen construiria um exército de imortais demoníacos, todos sob seu comando.

— Traga as imagens de volta — disse Maddox, em voz de comando. — Mostre-nos o que aconteceu após a possessão.

— Com esse tom você não conseguirá nada além de descontentamento, Violência, pois seu inimigo quer exatamente o que você quer. O Cetro Divisor. — A Impronunciável abriu os braços, com suas unhas muito longas curvadas sobre os dedos. — Nós vamos decidir a quem conceder uma bênção como essa.

Maddox trincou a mandíbula antes de abaixar a cabeça.

— Peço desculpas.

— O que vocês querem de nós? Digam, e será seu. — Strider não se importava com o queriam. Ele lhes daria qualquer coisa.

Ela sorriu, como se não esperasse menos.

— Se quiserem adquirir o Cetro, terão de nos trazer a cabeça do seu rei.

E seguiu-se mais um silêncio de horror.

— Espere. Vocês querem... a cabeça de Cronos? — perguntou Gwen, olhando para os demais Senhores. — O deus-rei?

— Sim. — Não houve hesitação.

Strider poderia lhes dar isso? O deus-rei o ajudara a ganhar várias batalhas. O deus-rei estava do lado dele e faria qualquer coisa para destruir Galen e os Caçadores. Então... matá-lo? Matar o mais poderoso imortal vivo? E se falhasse, passar a ter Cronos como inimigo?

— Como vamos fazer isso? — perguntou Kane.

— Eu disse que não seria simples. Porém, ainda que ele seja um deus, e matá-lo seja a missão mais complicada de sua existência, saibam que ele se parece muito com vocês — respondeu a Impronunciável. — Mais do que vocês já tenham notado. Usem o seu conhecimento a seu favor.

Kane sacudiu a cabeça, e um cacho de cabelo bateu em seu olho.

— Mas ele está do nosso lado.

— Está? — Mais uma risada cruel. — Vocês não acham que ele vai destruí-los no momento em que não precisar mais de vocês? Além do mais, se não nos trouxerem a cabeça dele, o seu inimigo a trará. E receberá nossa recompensa.

Strider arregalou os olhos, acabara de receber mais uma resposta crucial. Era por isso que Galen tentaria conseguir a cabeça de Cronos. Por isso Danika tivera aquela visão.

Não podiam permitir que Galen conseguisse a recompensa daqueles monstros. As consequências poderiam ser terríveis. Muito piores do que deixar Cronos irritado. Droga. Merda! Cacete! Nenhum xingamento parecia forte o suficiente.

— Por que vocês querem ver Cronos morto? — Strider perguntou. Como Sabin sempre dizia, conhecimento era poder. E talvez naquela resposta pudessem encontrar sua redenção.

A criatura rangeu os dentes.

— Ele nos escravizou, e nós não vamos tolerar esse destino. Claro que vocês nos entendem.

Sim, eles entendiam. Por muito tempo foram escravos de seus demônios. Mas não havia redenção na resposta dela. Aqueles seres estavam determinados. Não seriam demovidos.

O que aconteceria se eles fossem libertados? Vagariam livremente? Não seria nada bom, disso não havia dúvida.

— Vocês precisam de tempo para pensar — ela continuou. — Nós lhes daremos tempo. E, para provar nossas magnânimas intenções, oferecemos mais um presente a todos vocês. Aproveitem. Nós, com certeza, iremos.

E seu rosto sorridente e assustador foi a última coisa que Strider viu antes que ele e todos os Senhores se vissem sendo transportados a um outro lugar, a uma selva... com Caçadores por todos os lados.