A Paixão Mais Sombria
Capítulo Oito
OLIVIA E LEGIÃO circundavam uma à outra. Quando o pequeno demônio dera o bote, Olivia saíra da sua frente, e Legião batera contra a parede. Agora, Olivia estudava sua inimiga. Já vira seres daquele tipo, um apaniguado, também conhecido como criado do demônio, serem vencidos antes. Todos os anjos já tinham visto, mesmo aqueles cujo único propósito na vida era levar paz e alegria ao mundo. Mas, claro, ela nunca lutara contra um deles sozinha.
Mas destruí-los nunca parecera uma verdadeira batalha para os anjos guerreiros. Não mesmo. Eles simplesmente esticavam os braços, e suas espadas de fogo surgiam. Quando aquelas chamas, que não tinham sido criadas no inferno, mas nascidas da boca da própria Divindade, cujo hálito era mais quente do que as labaredas que todos os demônios tanto amavam, entravam em contato com as escamas, os demônios se desintegravam. Aquilo ali... Bem, aquilo ali não seria nem de longe parecido com isso.
Kaia e Cameo estavam no chão, ainda se contorcendo, com a pele tingida de um tom verde-claro. Como anjo, Olivia teria sido capaz de curá-las, pegando o sofrimento delas para si e acabando com ele. Mas como estava presa naquele corpo frágil, não podia fazer nada.
Nada além de observar. E lutar.
Se ela esperava sobreviver, precisava reunir aquilo que nunca experimentara nem adotara antes: fúria. Afinal, era isso o que deixava os humanos mais fortes. Não era? Eles pareciam capazes de crescer, destruir, derrotar, quando abrigavam tal emoção.
Então... o que poderia deixá-la com raiva? O tempo que passou no inferno, definitivamente.
Embora preferisse ter arrancado os próprios olhos, Olivia permitiu que as memórias daquele tempo voltassem à sua mente. As chamas... o odor... aquelas mãos enlameadas... Sentiu um enjoo no estômago, o medo e a repulsa se misturando à primeira centelha de fúria. Depois disso, deixou-se levar pelo instinto, e a terrível cena de Kaia e Cameo sendo atacadas se juntou ao conjunto de emoções, neutralizando o medo. Apenas o medo, felizmente.
— Você morrer hoje, anjo.
Suas mãos se transformaram em punhos. Eu sou forte.
— Você nunca ficará com Aeron da maneira como deseja, demônio — ela disse, sabendo que a verdade em sua voz devia ser detestável para uma criatura criada entre mentirosos. — E não estou falando isso para ser cruel, mas para...
— Cale a boca, cale a boca! — Legião balançou um dos braços, com as garras à mostra.
Olivia inclinou as costas, saindo do seu alcance. Sem as asas para lhe dar equilíbrio, ela tropeçou e quase caiu no chão.
— Aeron me ama. Ele me falou isssso.
Grande parte da fúria de Olivia desapareceu, e ela não poderia fazer nada em relação a isso. A compaixão estava enraizada nela, bem como a necessidade de espalhar felicidade em vez de mágoa. Elas queriam a mesma coisa, ela e Legião.
— E é verdade. Ele ama você, mas não como um homem ama uma mulher. Ele a ama como um pai ama sua filha.
— Não! — Uma batida de pés. Um sibilo. — Eu vou casssar com ele um dia.
— Se isso fosse possível, eu provavelmente não teria aberto mão da minha vida anterior para vir até aqui salvá-lo. Eu nunca teria desejado estar com ele. — Olivia falava da forma mais gentil possível. Ferir o demônio emocionalmente não era o seu objetivo. Pela razão que fosse, Aeron realmente gostava daquela... coisa. Mas Olivia sabia como os demônios trabalhavam e sabia que Legião a repreenderia e a humilharia, a menos que entendesse o que dizia. — Eu já dormi na cama dele, colada ao seu corpo.
Legião não a acusou de estar mentindo. Como poderia acusá-la? Os anjos nunca sentiam necessidade de mentir, e o pequeno demônio sabia disso. Na verdade, parou e ficou olhando para Olivia, boquiaberta, ofegante e agitada. Mais veneno escorria de suas presas.
— Você quer o que não pode ter. Você sente inveja, tem desejos. Essa é a sua natureza — disse Olivia. — E eu entendo essa natureza muito melhor agora do que entendia antes, porque é exatamente por isso que estou aqui. Eu sinto inveja, tenho desejos. Mas o que você não percebe é que, ao sair do inferno para ficar com Aeron, você o sentenciou à morte. Você é a razão de eu ter sido enviada para matá-lo. Você é o motivo pelo qual outro assassino será enviado em meu lugar. — Ela respirou fundo. — Você é a razão pela qual ele vai morrer.
— Não, não! Eu vou matar o próximo anjo imundo exatamente como planejo matar você agora.
Foi o único aviso que Olivia recebeu. Em um segundo, Legião estava na sua frente, e no momento seguinte, surgiu em cima dela, e as duas estavam... caindo, caindo. Olivia sentiu o peso do impacto, sua cabeça bateu no parapeito da lareira e o oxigênio fugiu dos seus pulmões, como um míssil teleguiado. Sua visão foi invadida por luzes brilhantes, mas elas não foram capazes de obscurecer a imagem daqueles dentes descendo em direção ao seu pescoço.
Lysander começara a treinar Olivia para suas novas funções de guerreira no exato dia em que aquela penugem dourada surgira em suas asas, então ela sabia pressionar a palma da mão contra o queixo de Legião e empurrar, trincando os dentes do pequeno demônio dolorosamente.
Nunca se contentara com o pensamento de lutar contra demônios. Especialmente quando Lysander lhe disse que os guerreiros tinham que se distanciar completamente de suas missões, deixando que apenas uma séria determinação para derrotar sua presa. Será que ela conseguiria?
Um jorro frio tomou conta de seus dedos e se espalhou por seus braços... invadiu seu peito... E aquele frio foi mais forte do que o medo dessa vez, destruindo o que restava de sua fúria, juntamente com sua compaixão e repulsa.
Sim. Ela conseguiria, percebeu. Impressionante.
Faça o que deve fazer, uma voz murmurou em sua cabeça. Você é um anjo. Ela é um demônio. Deixe seus instintos te guiarem. Deixe sua fé fluir através de você.
Por um momento, ela pensou que Lysander estava ao seu lado. Mas, de repente, Legião rosnou, tirando-a da sua sensação de alívio, e nada mais importava. Olivia estava preparada. Em vez de usar emoções com as quais não tivera nenhuma experiência, ela permitiu que tudo o que lhe era natural, a fé e o amor, a consumissem, como aquela voz lhe instruíra. Essa era a verdadeira força.
Com um movimento de braço, ela atirou Legião para o outro lado da sala. O demônio bateu contra a parede e deslizou para o chão. Durante todo o tempo, aqueles olhos vermelhos permaneceram sobre ela.
Levante-se. Agora.
Olivia se levantou de um pulo e pressionou as costas contra a lareira. A nova posição limitava o seu raio de ação, mas ela precisava de algo para garantir o seu equilíbrio quando...
Legião saltou em cima dela.
Olivia se desviou e, mais uma vez, o demônio bateu contra a parede. Ao ricochetear para trás, o ar se encheu de pó, atingindo também o nariz de Olivia, fazendo-a tossir. Mas nem assim ela hesitou em chutar Legião para longe. Fé; ela poderia ganhar aquela disputa. Amor; o bem contra o mal. O salto de Olivia deve ter perfurado as escamas de Legião de alguma forma, pois havia sangue escorrendo do peito do demônio.
— Não vou permitir que me machuque, demônio.
— Você não ssserá capaz de me deter.
Mais uma vez, Legião se levantou. E voltou a se atirar contra Olivia, escalando seu corpo como se fosse uma videira. Dentes morderam, e garras atacaram. Olivia dava socos à direita, à esquerda e à frente, tentando manter distância, mas mal conseguindo ficar de pé. Legião movia a cabeça de um lado para o outro, querendo evitar o impacto, mas nem sempre conseguia. Uma das maçãs do seu rosto se rachou. Seu nariz foi quebrado.
Do outro lado da sala, um vidro se estilhaçou. E logo depois surgiu uma escura figura alada, seu olhar selvagem buscando algo... e pousando na mulher que ainda lutava. Aeron. Os olhos de ambos se encontraram, e o tempo pareceu parar. Ele pressionou os lábios numa expressão insatisfeita, e suas tatuagens eram tão escuras que pareciam sombras em sua pele.
Olivia sentiu um jorro de excitação e perdeu a concentração. Sua mão se chocou com a boca do demônio, uma área que estivera evitando. Legião aproveitou a vantagem e a mordeu, suas presas afiadas e cheias de veneno penetraram profundamente nas veias do anjo.
Olivia gritou. Estava queimando como ácido, sal e fogo... Oh, Divindade. Sua mão parecia estar se transformando em cinzas. Mas, quando ela olhou para baixo, viu que a carne estava apenas cortada e sangrando, um tanto inchada.
— Olivia — gritou Aeron, correndo na sua direção.
Os joelhos dela fraquejaram e ela caiu no chão, já incapaz de aguentar o próprio peso. Apertou a mão contra o peito, repentinamente respirando com muita dificuldade. A dor era muito intensa, como se suas asas estivessem sendo novamente arrancadas.
Antes, durante a luta, estrelas tinham brilhado diante de seus olhos. Agora ela via pontos negros, que eram milhares de vezes piores. Eles aumentavam e ficavam intermitentes, arruinando sua visão e deixando-a num vazio escuro de solidão e dor.
— O que você fez com ela? — Aeron perguntou, tirando-a daquela ilusão de solidão. E, mesmo notando que ele estava nervoso, Olivia agradeceu a intromissão.
— Pro... protegendo a mim mesma — Olivia conseguiu balbuciar entre os lábios trêmulos.
— Você não — ele disse, e dessa vez seu tom era gentil. Seus dedos calejados acariciavam gentilmente sua testa, afastando os fios de cabelo.
Apesar da intensa dor que ainda fervia em sua mão, ela sorriu para Aeron. Ele poderia não querer que ela ficasse na fortaleza, podia até ter fugido para longe dela, mas de alguma forma se preocupava com o seu bem-estar. Ele passara por cima de Kaia e Cameo e viera diretamente na direção de Olivia.
Sua recém-descoberta confiança não fora inapropriada.
Houve um som de passos. Depois:
— Aeron, meu Aeron. Ela não é nada. Deixe-a e...
— A única pessoa que vai deixá-la é você. Eu disse para ficar longe dela, Legião. Disse para não machucá-la. — As mãos de Aeron se afastaram de Olivia, e ela gemeu, triste por sua perda. — Você me desobedeceu.
— Mas... mas...
— Vá para o meu quarto. Agora. Vamos conversar sobre isso depois.
Silêncio. Depois um soluço.
— Aeron, por favor.
— Não discuta comigo. Vá. — Houve um farfalhar de roupas. Ele deve ter virado as costas para ela. — O que ela fez com você, Olivia?
— Mã-mão — ela conseguiu dizer, entre os dentes que batiam. Ainda se sentia como se estivesse em chamas, mas naquele momento, estava fria como gelo. — Mordeu.
Aqueles dedos fortes e calejados voltaram a tocá-la, mas dessa vez eles circundaram seu pulso e ergueram sua mão. Provavelmente para inspecionar a ferida, mas não importava. A ação fez com que seu sangue corresse mais rapidamente pelas veias, o que aumentou a intensidade da dor, e ela choramingou.
— Vou cuidar disso — ele prometeu.
— As outras foram mordidas antes. Cuide delas primeiro, depois de mim.
Ele não respondeu. Em vez disso, posicionou seus lábios ao redor da ferida e começou a sugá-la. Ao fazer isso, ele não era gentil. Olivia arqueou as costas e deixou escapar mais um grito. Tentou se livrar dele, mas Aeron a segurava firme, sugando, sugando, e depois cuspindo. Sugando, sugando e cuspindo.
Gradualmente, a dor foi passando, a queimação esfriou e o gelo derreteu. Olivia caiu no chão como uma boneca. Só então Aeron parou.
— Agora vou cuidar das outras — ele disse, com voz áspera.
A escuridão desapareceu de sua visão, e ela ficou observando, confusa, enquanto Aeron se aproximou de Cameo e lhe ofereceu o mesmo tratamento, sugando o veneno da ferida em seu pescoço e cuspindo-o. Quando a guerreira finalmente se recuperou, suspirando de alívio, ele voltou suas atenções à Harpia.
Quando cuspia a última porção de veneno, a porta do quarto se abriu, e dois guerreiros entraram correndo. Paris e William. Os dois vasculharam o quarto, com as armas em punho. Paris utilizava algum tipo de arma de fogo; William, duas lâminas.
— O que está acontecendo? — Paris perguntou. — Torin nos mandou uma mensagem de texto dizendo que você tinha quebrado a janela de Kaia.
— Chegaram bem na hora... — respondeu Aeron, seco.
— O quê? — perguntou William, todo inocente. — Nós lhe fizemos um favor dando um tempo. Pensamos que estivesse fazendo excêntricos joguinhos sexuais.
— Eu... eu vou matar aquela... filha da puta! — Kaia se levantara e estava com expressão de raiva. — Ela me mordeu. Aquela filha da puta me mordeu!
— Eu cuido dela — disse Aeron, também levantando-se. Sua expressão era fria, mas não menos determinada. — Você não vai fazer nada.
Kaia encostou o dedo no peito dele e ficou na ponta dos pés, mas nem assim conseguiu ficar cara a cara com ele.
— Não, você vai mimá-la, como sempre.
— Eu vou lidar com ela — ele repetiu, firme.
— Parem tudo. Quer dizer que eu perdi uma luta entre quatro mulheres? E depois eu descubro que alguém esteve dando mordidas por aí — disse William, olhando para Olivia, que ainda estava caída no chão. — Por favor, diga que era seu doce anjinho quem estava mordendo. Isso vai me fazer desejá-la ainda mais.
Aeron grunhiu baixinho, bem no fundo da garganta, aproximou e ficou agachado ao lado de Olivia.
— Saia daqui, Willy. Você não é bem-vindo nem necessário.
— Permita-me discordar — ele bufou.
— Em vez de deixar Aeron matar você, vou lhe contar o que aconteceu no caminho — disse Cameo, passando uma das mãos no rosto antes de esticar o braço e esperar.
William apenas ergueu uma sobrancelha. Paris, franzindo a testa, moveu-se para a frente, pegou-a pela mão e a fez ficar de pé.
— Obrigada — ela murmurou, lançando um olhar irritado para William.
Ele deu de ombros.
— Você não é o meu tipo, então não me sinto obrigado a ajudá-la.
Ela virou os olhos.
— Todas as mulheres fazem o seu tipo.
Isso deveria ter feito todos na sala rirem, mas a voz de Cameo era tão trágica que eles se encolheram.
Aeron pegou Olivia no colo. Que coisa boa. Toda a energia abandonara seu corpo. Seus músculos continuavam tremendo, fazendo-a se lembrar dos abalos que se seguiam a um terremoto. Sem dizer uma palavra aos outros, que ainda não tinham saído daquele quarto, ele a carregou pelo corredor.
— Sempre que encontro com você, está ferida — disse Aeron.
Era verdade, mas ela não pediria que ele se afastasse.
— Acho que eu deveria agradecê-lo por me salvar.
— Você acha, anjo? — ele bufou.
Certo. Olivia tinha certeza de que deveria fazer isso, mas nunca admitiria. Ele a chamara de anjo. Mais uma vez. O que significava que ele ainda a enxergava como ela fora antes, e não como era agora. Ele precisava entender que Olivia tinha deixado sua doçura para trás, juntamente com sua túnica.
— Com essa atitude — ela disse —, não conseguirá arrancar nenhum agradecimento de mim. Nunca.
Não houve resposta.
Ela lutou contra uma onda de decepção:
— E então? — ela perguntou.
— Então o quê?
Que homem impossível.
— Agora você está achando que agora eu sou fraca e que me quebro facilmente?
Mais uma vez, não houve resposta. O que significava que, sim, ele achava isso. Ela fez uma careta. E, como Aeron odiava a fraqueza, ela nunca conseguiria chegar à sua cama, com ele em cima dela nu, claro, se aquela situação se mantivesse.
Ela precisava encontrar uma maneira de provar quão forte realmente era.
As palavras fé e amor mais uma vez rondaram sua mente. Mas ela duvidava que estivesse pronta para uma elas. Além do mais, ela não o amava. Amava? Ela simplesmente não sabia. O que sentia por ele era diferente do que sentira por qualquer outra pessoa, mas ela nunca amara ninguém, no sentido romântico.
Tudo o que sabia sobre esse tipo de amor era que significava estar disposto a morrer pela outra pessoa. Como Ashlyn fizera por Maddox. Como Anya quase fizera por Lucien. Estaria ela pronta para morrer por Aeron? Não. Ela achava que não. Ela não propusera isso ao Conselho quando teve a chance, e seria algo que eles teriam levado em conta. O sacrifício sempre era recompensado.
— Para onde está me levando? — ela perguntou, mudando de assunto. Continuava muito grogue para pensar claramente. Mais do que isso, sabia que Legião estava no quarto de Aeron, e Olivia não estava pronta para outra briga. Se ele estivesse indo para lá, então...
— Para o meu quarto — ele respondeu, e ela sentiu um aperto no coração.
Eca, ele estava indo para lá.
— Mas...
— Legião não está lá. Como sempre, ela me desobedeceu. Eu senti quando ela abandonou este plano da existência.
Olivia arregalou os olhos, surpresa. Sabia que os dois eram ligados, mas aquilo era... Nossa!
— Você está tão ligado a ela assim?
Ele assentiu.
Talvez Legião tivesse razão. Talvez ela devesse ficar ao lado de Aeron. Esse pensamento foi como receber mais uma injeção de ácido nas veias. Olivia queria ser mais do que uma conhecida para Aeron, queria ser mais que sua amiga. Ela queria ser sua amante. E isso nunca esteve tão claro quanto agora, quando sentia aqueles braços fortes em volta do seu corpo, agarrando-a bem de perto. Enquanto o coração dele palpitava próximo ao seu ouvido, e seu hálito quente banhava sua pele. Mas ela não o dividiria com Legião, e não importava o quanto aquele demônio o desejasse.
Você não vai precisar fazer isso. Você é uma mulher confiante e agressiva agora, e deve ir atrás do que quer.
Verdade.
— Sinto muito por ela ter machucado você — disse Aeron, surpreendendo-a. — Legião é apenas uma criança, e eu...
— Espere, vou interrompê-lo por um momento. — Embora ela realmente gostasse de ouvir suas desculpas. — Legião não é uma criança. Não é muito mais nova que você.
Por um momento, Aeron apenas piscou para ela.
— Mas ela é tão inocente.
Inocente? Dessa vez foi Olivia quem bufou.
— Que tipo de vida você levou para achar que aquele pequeno demônio é um ser inocente?
Os lábios de Aeron se contorceram enquanto ele subia um lance de escadas. O peso de Olivia não parecia incomodá-lo.
— É que... A língua presa dela... eu acho. E ela adora se fantasiar e brincar de princesa.
— Ela passou a vida toda no inferno, cercada de maldades, de almas sendo torturadas em cada esquina. Claro que fantasiar-se é algo divertido para ela, mas isso não quer dizer que sua mente seja infantil. Ela ama você, Aeron. — Ou pelo menos foi o que dissera. Legião seria capaz de morrer por ele? — Ela deseja você como uma mulher deseja um homem. — Não havia dúvida em relação a isso.
Ele parou no meio de outro corredor, com um dos pés ainda no ar. Depois inclinou a cabeça até que seus olhos se encontrassem, suas íris violetas estavam selvagens.
— Você está errada. Ela me ama como um pai.
— Não. Ela tem planos de se casar com você.
— Não.
— Sim. Você está me ouvindo e sabe que eu só falo a verdade.
Um músculo trincou na mandíbula de Aeron.
— Se o que você está dizendo é verdade...
— É! Você ouviu a verdade na minha voz.
Aeron engoliu em seco e balançou a cabeça, como se quisesse afastar o que ela acabara de dizer.
— Vou conversar com ela e dizer que uma relação romântica não será possível. Ela vai entender.
Só um homem podia se iludir daquele jeito.
Ele voltou a caminhar, dessa vez em silêncio. Ao chegar à porta do seu quarto, entrou, abrindo caminho com o ombro. Olivia ficou tensa, mas, de fato, Legião não estava à vista. Suspirou aliviada quando Aeron a deitou sobre o colchão macio.
— Aeron — ela disse, ainda despreparada para que ele fosse embora, e suspeitando que ele estivesse a ponto de fazê-lo.
— Sim. — Ele continuou parado no mesmo lugar, inclinado sobre ela, e passou uma das mãos pelos seus cabelos.
Ela quase ronronou ao ir de encontro ao seu toque.
— Eu não estava falando sério em relação ao que disse antes. Quando disse que não iria lhe agradecer. Sou verdadeiramente grata por sua ajuda.
O que você está fazendo? Ele nunca a verá como uma amante em potencial se ficar constantemente relembrando-o de sua natureza angelical.
— Ah, ótimo. — Claramente desconfortável com a situação, Aeron tossiu ao esticar o corpo. — Você está machucada em algum outro lugar? — Ele não esperou pela resposta e passou os olhos por toda a extensão do seu corpo. Aquela deve ter sido a primeira vez que ele viu suas novas roupas, pois ficou imediatamente de boca aberta. — Você... você está...
Talvez seu potencial como amante não estivesse perdido, no final das contas. Confiante.
— Não é lindo? Kaia me ajudou. — Agressiva. Ela passou as mãos abaixo dos seios, na barriga e no quadril, desejando estar sendo tocada por ele. Sua pele ficou toda arrepiada. Ah, que surpresa boa. Era bom. Muito, muito bom. Tinha que lembrar de se tocar assim mais vezes.
— Lindo — ele disse, em tom quente, intenso. — Sim.
— O que acha da minha maquiagem? — Quando os olhos de Aeron se ergueram até seu rosto, ela passou um dedo em volta dos lábios. — Espero que Legião não tenha borrado tudo.
— Está... legal. — Mais uma vez, seu tom era quente e intenso.
Isso era bom ou ruim?
E realmente importava? Ela o desejava e decidira partir para cima. Ela o teria.
Lambendo os lábios, que tinham gosto de coco, hum, ela se sentou, apoiando-se num cotovelo e esticando o outro braço para tocar Aeron. Pousou a palma da mão sobre seu coração acelerado. Parte dela ruborizou-se por sua coragem, gritando para que tirasse a mão dali. A outra parte estava orgulhosa, implorando para que seguisse em frente.
Para alcançar a alegria verdadeira, lembrou a si mesma, muitas vezes era preciso sair da nossa zona de conforto.
Então, saia agora mesmo.
— Você pode me beijar, se quiser. — Por favor, por favor, que ele queira me beijar.
Por um momento, Aeron parou de respirar. Pelo menos seu peito parou de se mover. Seus olhos se incendiaram, suas pupilas se dilataram e seus músculos se contorceram ao toque de Olivia.
— Eu não deveria. Você não deveria. Você é um anjo.
— Um anjo caído — ela relembrou. Mais uma vez. — E podia ter morrido no outro dia. Podia ter morrido hoje. E nos dois casos, teria morrido sem conhecer o seu sabor. O que teria sido uma pena, pois isso é tudo o que eu sempre quis de verdade.
— Eu não deveria... — ele repetiu, inclinando-se... inclinando-se... Porém, arrependendo-se, parou antes de estabelecer qualquer contato.
Ela tentou não gritar de frustração. Chegara muito perto de conseguir o que queria.
— Diga por quê. — Para que ela pudesse destruir cada motivo.
— Não preciso dessa distração. — Pelo menos ele não se afastara. — Não preciso de uma mulher. Não preciso de nada.
Olivia não tinha como refutar isso. Nunca um homem estivera tão decidido a permanecer sozinho. Então, em vez de discutir, ela simplesmente disse:
— Mas eu preciso de uma distração. — E passou a mão no pescoço de Aeron. Ela não apenas sairia de sua zona de conforto, dessa vez; ela sairia correndo.
Determinada, ela o puxou para baixo.
Ele poderia ter resistido. Poderia tê-la impedido. Mas não o fez. Deixou-se cair sobre ela. Permaneceram assim por um bom tempo, simplesmente olhando um para o outro, o corpo de Aeron pressionando o de Olivia, ambos com dificuldade para respirar.
— Aeron — ela finalmente murmurou.
— Sim?
— Eu não sei o que fazer — ela admitiu, com todo o desejo que sentia impregnando suas palavras.
— Eu posso ser um idiota, mas assumo o controle daqui para frente — ele respondeu, tomando a boca de Olivia para si.