A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 5 de 31

Páginas do PDF

A Paixão Mais Sombria

Capítulo Cinco

NAQUELA PRIMEIRA NOITE, após ter terminado a estranha conversa que teve consigo mesma, Olivia finalmente voltou a dormir, mais uma vez grunhindo e gemendo de dor, debatendo-se e ferindo-se ainda mais. Na segunda noite, começaram os murmúrios sobre demônios. Não me toque, seu miserável asqueroso. Lamúrias, pedidos. Por favor, não me toque. Na terceira noite, uma calma mortal tomou conta dela.

Aeron quase preferia as súplicas.

Durante todo o tempo, ele acariciava sua testa e ficava ao seu lado. Chegou até mesmo a ler um dos romances de Paris para ela, ainda que Olivia tenha se mantido estática, e forçou-a a engolir pílulas e líquidos. Não queria ter a morte de Olivia pesando em sua consciência.

Mais do que isso, queria vê-la fora de sua vida, não importando quão intensamente seu corpo reagia quando estava perto dela. Ou quando pensava nela. Ele não mentira. Assim que estivesse curada, ela teria de ir embora. Exatamente por causa do jeito como seu corpo reagia.

Pior ainda, por causa do jeito como seu demônio reagia. Não a ela, mas por ela.

Punição, disse o demônio pela... centésima vez? Punição para os que a feriram. Durante o período em que Aeron sofrera com a terrível sede de sangue, o demônio sempre lhe dizia tais coisas, em ordens de uma palavra apenas, além de lançar imagens violentas em sua mente. Porém, nos últimos três dias, Ira preferira um discurso mais longo como forma de comunicação, e Aeron não estava acostumado a isso. Onde estava a paz que Olivia despertava?

Além disso, não estava seguro sobre o que realmente acontecera a Olivia quando ela foi expulsa de sua casa, e seria melhor nem saber. Talvez não conseguisse impedir que seu demônio entrasse em ação. Mal podia detê-lo naquele momento. E, se ele descobrisse a verdade, talvez nem quisesse tentar impedi-lo. Se ao menos tivesse oportunidade para aproveitar o que Ira era capaz de fazer...

Não pense assim. Aeron não queria se deixar abrandar ainda mais do que ele já fizera, e não queria vê-la mergulhando mais profundamente em seus pensamentos e decisões. Sua vida já era complicada demais. E ela já incluíra algumas novas complicações.

Ela queria se divertir. E ele deixaria bem claro que diversão não era uma palavra com a qual ele estava familiarizado, e que também não tinha tempo para passar a conhecer. E não se sentia mal por isso. Sinceramente.

Ela queria amar. E ele não era a pessoa certa para isso, em nenhum sentido. O amor romântico nunca esteve entre suas prioridades. Ainda mais com alguém tão frágil quanto Olivia. E ele também não se sentia mal por isso. Sinceramente.

Ela queria liberdade. Isso ele poderia lhe dar. Na cidade. Ela só precisava melhorar logo, droga!

Ela ia melhorar, ou, pelos deuses, ele finalmente libertaria seu demônio, por vontade própria, sem restrições.

Punição. Punição para os que a feriram.

Por que seu demônio gostava dela? E Ira tinha de gostar dela. Pois não haveria outra explicação para a necessidade de vingança contra pessoas que ele nunca encontrara pessoalmente. Aeron tivera tempo para pensar nisso, tempo até demais, mas não chegou a nenhuma resposta válida.

Ele passou uma das mãos sobre o próprio rosto. Como se recusava a sair de perto de Olivia, Lucien teve de continuar cuidando de Paris e garantindo que o guerreiro alimentasse o próprio demônio adequadamente. Torin, por sua vez, passara a cuidar da alimentação de Aeron, levando-lhe bandejas de comida durante todo o dia, mas nunca ficando por perto para conversar com ele. Se Olivia acordasse e o visse... Não queria reviver o horror de antes.

Infelizmente, as mulheres da casa souberam da presença do anjo e desceram em massa para dar-lhe as boas-vindas. Porém, Aeron não deixaria que passassem pela porta. Não sabia como Olivia reagiria à presença delas. Além do mais, nenhuma delas saberia como ajudar o anjo. Ele pedira. Tudo bem. Ele resmungara. Talvez ele enfrentasse novos ataques de terror por parte de Olivia, se isso significasse que ela voltaria a ficar consciente. Por que diabos ela não acordava? E, naquele momento, estava tão quieta... Ele girou o corpo na cama, com cuidado para não bater em Olivia, e olhou para ela. Pela primeira vez, ela não se aninhou em seu corpo, mas ficou parada onde estava. Sua pele estava fantasmagoricamente pálida, suas veias podiam ser vistas facilmente. Seus cabelos formavam um ninho complicado ao redor de sua cabeça. Suas bochechas possuíam sulcos, e seus lábios estavam marcados nos pontos onde ela os mordera.

Ainda assim, ela era muito bonita. Incrivelmente bonita, na verdade. De um jeito que parecia dizer “proteja-me para sempre”. Tanto que Aeron sentia uma dor no peito sempre que olhava para ela. Não de culpa, mas de desejo de posse, de necessidade de ser seu protetor. Era um desejo bastante profundo.

Ela tinha que se curar, e ele precisava se livrar dela. Rapidamente.

— Se continuar nesse ritmo, ela vai morrer — ele resmungou, olhando para o teto. Nem Aeron saberia dizer se estava conversando com a tal Divindade Única ou com os deuses que ele conhecia. — É isso o que você quer? Que um dos seus sofra terrivelmente antes de perecer? Você pode salvá-la.

Olhe para você, ele pensou, decepcionado consigo mesmo. Implorando por uma vida, de um jeito que nem os humanos fariam.

Isso não o deteve.

— Por que não a salva?

Um quase inaudível... rosnado?... chegou aos seus ouvidos. Aeron ficou tenso. Ao apalpar uma das adagas que deixara em sua mesa de cabeceira, olhou ao redor do quarto. Ele e Olivia estavam sozinhos. Nenhuma criatura divina aparecera para castigá-lo por causa seu tom insolente.

Pouco a pouco, ele relaxou. A falta de sono finalmente dava sinais, ele imaginou.

A noite caíra havia muito tempo, e a luz da lua brilhava através das portas de vidro que levavam à varanda do quarto. A vista era tão tranquila, seu corpo estava tão cansado, ele deveria finalmente ter se deixado levar pelo sono. Não o fez. Não conseguiu.

O que faria se Olivia morresse? Ficaria de luto por ela, como Paris ficara por Sienna? Claro que não. Ele não a conhecia. O mais provável é que se sentisse culpado. Muito, muito culpado. Ela o salvara, mas Aeron não teria feito o mesmo por ela.

Você não a merece.

O pensamento ressoou em sua mente, e ele piscou os olhos. Aquele timbre, muito baixo, muito grave, não pertencia a Ira; mas ainda assim soava tão familiar. Teria Sabin, guardião de Dúvida, voltado de Roma e começado a bombardear sua autoconfiança, como costumava fazer, mesmo sem intenção?

— Sabin — ele disse, só para garantir

Nenhuma resposta.

Ela é boa demais para você.

Dessa vez, Ira se contorceu em sua cabeça, agitando-se em seu crânio, repentinamente agitado.

Então, não era Sabin. Primeiro: Aeron não o ouvira voltar; e segundo: ele sabia que o guerreiro não retornaria em menos de duas semanas. Além do mais, não havia um tom de alegria naquelas dúvidas, e o demônio de Sabin se divertia quando espalhava esse tipo de veneno.

Então, quem estava sobrando? Quem teria o poder de falar dentro de sua mente?

— Quem está aí? — Ele exigiu saber.

Isso não importa. Estou aqui para curá-la.

Curá-la? Aeron relaxou um pouco. Havia uma nota de verdade naquela voz, assim como na de Olivia. Seria um anjo?

— Obrigado.

Dispenso seu agradecimento, demônio.

Tanta raiva vinda de um anjo? Provavelmente não. Ou seria um deus respondendo às suas preces? Não, não podia ser, Aeron decidiu. Os deuses gostavam de um espetáculo e teriam aproveitado a oportunidade para se revelar e exigir gratidão. E, se aquela fosse a Divindade de Olivia, certamente haveria um zumbido de poder no ar, no mínimo. Mas... não havia nada. Aeron não percebeu, não cheirou nem sentiu nada.

Tenho plena certeza de que, quando ela acordar, vai vê-lo como você realmente é.

Como a tal voz demonstrou certeza de que ela despertaria, Aeron não se importou com o insulto implícito. Estava muito aliviado.

— E o que sou eu realmente? — Não que se importasse. Mas através da resposta, poderia descobrir quem estava falando.

Inferior, perverso, malicioso, idiota, obcecado por uma coisa só, podre, indigno e condenado.

— Diga-me como você se sente de verdade — ele pediu, seco, esperando que o sarcasmo escondesse suas ações, enquanto se aproximava lentamente de Olivia, usando seu corpo como escudo para proteger o dela. Perverso e malicioso... aquelas eram opiniões dos Caçadores. Mas um Caçador teria atacado Aeron antes de oferecer ajuda a qualquer pessoa. Mesmo se fosse uma Isca.

Mais uma vez, Aeron se perguntou se o recém-chegado era um anjo. Apesar daquela raiva. E daquele ódio tão claro.

Outro grunhido ecoou. Sua insolência só prova meu argumento. Por isso vou permitir que ela o conheça como deseja, pois tenho o pressentimento de que ela não vai gostar do que vai descobrir. Apenas... não manche a reputação dela. Se fizer isso, vou sepultar você e a todos que você ama.

— Eu nunca mancharia uma...

Silêncio. Ela vai acordar agora.

Como comprovação daquelas palavras, Olivia soltou um gemido. Naquele instante, o alívio que o inundou parecia irracional. Era muito por alguém que não conhecia e cuja morte não lamentaria. Mas de uma coisa ele sabia: quem quer que fosse o dono daquela voz, era alguém realmente muito poderoso, pois retirara Olivia de seu repouso mortal tão rapidamente.

— Obrigado — ele disse mais uma vez. — Ela sofreu injustamente e...

Eu já disse para ficar em silêncio. Se ousar atrapalhar o processo de recuperação de Olivia... Na verdade, eu já aguentei você mais do que poderia em uma única noite. Durma.

Apesar de ele ter lutado contra aquilo, seu corpo parecia incapaz de recusar a ordem e caiu sobre o colchão, a poucos centímetros de Olivia. Seus cílios se fecharam e foi tomado pela letargia, que o levou esperneando e gritando em direção à escuridão, que, em outro momento, teria sido muito bem-vinda. Ainda assim, aquela escuridão não foi capaz de evitar que procurasse por Olivia e a puxasse para junto de si.

Aonde ela pertencia.

COM OS OLHOS ainda muito pesados para serem abertos, Olivia esticou os braços sobre a cabeça e arqueou as costas, desfazendo os nós em seus músculos. Tããão bom. Sorrindo, ela respirou fundo e sentiu o cheiro de tempero exótico e de fantasias proibidas. Sua nuvem nunca tivera um cheiro tão... sexy. Nem nunca fora tão quente, a ponto de ser quase imoral.

Ela gostaria de ficar assim para sempre, mas os anjos não eram preguiçosos. Resolveu que visitaria Lysander aquele dia. Se ele não estivesse fora, numa missão secreta, como muitas vezes acontecia, e se não estivesse escondido em algum lugar com Bianka. Depois, seguiria para a fortaleza em Budapeste. O que Aeron estaria fazendo naquele dia? Ficaria mais uma vez fascinada por suas contradições? Ele a sentiria novamente, como não deveria ser capaz de sentir, e depois exigiria que ela se revelasse, a fim de que pudesse matá-la?

Tais exigências costumavam magoá-la, mas não poderia culpá-lo por estar com tanta raiva. Ele não sabia quem ela era, nem quais eram suas intenções. Eu quero que ele me conheça, pensou. Ela era agradável, de verdade. Bem, pelo menos para os outros anjos. Mas não tinha certeza do que um guerreiro imortal possuído por um demônio acharia dela, seu completo oposto.

Mas Aeron não parecia um demônio para ela. De jeito nenhum. Ele chamava Legião de seu “bebê precioso”, comprou tiaras para ela e decorou seu quarto para agradar o demônio. Chegou até mesmo a pedir ao seu amigo e companheiro, Senhor Maddox, que construísse uma poltrona para que ela descansasse. E a poltrona ficava ao lado de sua cama, revestida de renda rosa.

Olivia também queria ter sua poltrona com renda naquele quarto.

A inveja não serve para você, ela se lembrou. Talvez você não tenha uma poltrona com renda, mas já ajudou inúmeras pessoas a sorrir, a se alegrar e a amar suas vidas. Sim, ela tinha muita satisfação com seu trabalho. Porém... agora ela queria mais. Talvez sempre tenha querido mais, mas não notara até ser “promovida”.

Tão ambiciosa, pensou com um suspiro.

O colchão, duro como uma pedra, mas macio, moveu-se debaixo dela e gemeu.

Espere um pouco. Duro como uma pedra? Mexeu? Gemeu? Após ter sido arrastada à lucidez, Olivia não teve dificuldade para abrir os olhos. Levantou-se de um salto ao deparar-se com o que via, ou melhor, com o que não via. A neblina azulada do sol nascente e as nuvens grandes e gordas não estavam em lugar nenhum. Em vez disso, ela viu um quarto com paredes de pedras pontudas, piso de madeira e móveis de cerejeira polida.

Ela viu também uma poltrona rosa coberta de renda.

A percepção a golpeou com violência. Estou caída. Eu caí. Ela descera diretamente ao inferno, e os demônios... Não pense neles. Apenas com aquela vaga lembrança, seu corpo já começara a tremer. Estou com Aeron agora. Estou segura. Mas, se ela realmente era mortal, por que seu corpo parecia tão... bem?

Outra percepção: porque ela não era verdadeiramente humana.

Quatorze dias se passariam, lembrou-se de Lysander ter dito, antes que perdesse todos os seus traços angelicais. Isso significava... Suas asas poderiam ter...

Mordendo o lábio inferior, com medo de ter esperanças, tocou a parte de trás do corpo e sentiu suas costas. O que encontrou fez com que seus ombros se contraíssem tanto de alívio como de tristeza. Não restara qualquer ferida, mas suas asas também não tinham voltado a crescer.

Sua escolha. Suas consequências. Sim. Ela aceitava isso. Mas ainda assim era estranho. Aquele corpo sem asas lhe pertencia. Um corpo que não viveria para sempre. Um corpo que sentia coisas boas e ruins.

E isso era bom, ela se apressou a dizer a si mesma. Estava na fortaleza dos Senhores, e estava com Aeron. Aeron, que estava debaixo ela. Que divertido. Até aquele momento, seu corpo só experimentara as coisas ruins. Estava mais do que pronta para as coisas boas.

Olivia saiu de cima dele e o observou. Ele ainda dormia, suas feições estavam relaxadas, com um dos braços jogado por sobre a cabeça, o outro ao lado do corpo, onde ela estivera. Ele a estivera abraçando bem perto do próprio corpo. Os lábios de Olivia se curvaram num sorriso sonhador, e seu coração se agitou loucamente.

Ele estava sem camisa, e perceber isso fez seu coração acelerado disparar ainda mais. Ela havia se esparramado sobre a vastidão daquele peito colorido, tinha se deitado sobre aqueles minúsculos mamilos amarronzados, aqueles músculos incríveis e aquele umbigo intrigante.

Infelizmente, ele estava de calça jeans. Mas seus pés estavam descalços, e ela notou que até os dedos eram tatuados. Adorável.

Adorável? Sério? Quem é você? Pessoas estavam sendo assassinadas naqueles dedos. Mas ainda assim ela queria passar os dedos sobre eles. E passou mesmo os dedos sobre a borboleta tatuada em suas costelas. As asas eram pontiagudas, destruindo qualquer ilusão de delicadeza.

Ao ser tocado por ela, Aeron arfou, e ela deu um pulo para trás. Não queria ser pega assediando-o. Pelo menos enquanto não tivesse a permissão dele. A ação fora mais forte do que ela intencionara, e ela foi jogada totalmente para fora da cama, mergulhando no chão com um doloroso ploft. Os cabelos dançavam em volta do seu rosto, e, quando afastou os fios para o lado, notou que despertara Aeron.

Ele estava sentado, olhando para ela.

Olivia engoliu em seco e fez um aceno tímido para ele.

— Eh, bom dia.

Ele olhou para Olivia com os olhos estreitos.

— Você parece melhor. Bem melhor. — Sua voz era áspera. Provavelmente por causa do sono, e não por desejo, como todo o seu corpo gostaria. — Está curada?

— Sim, obrigada. — Pelo menos ela imaginava estar curada. Seu coração ainda precisava se acalmar, pois aqueles batimentos constantemente irregulares eram estranhos para ela. E havia aquela dor no peito. Nada terrível, como fora a dor nas costas, mas era estranha. Seu estômago ainda se revirava.

— Você sofreu por três dias. Alguma complicação? Algum apontada de dor ainda permanece?

— Três dias? — Ela não percebera que tanto tempo tinha se passado. Mas, ainda assim, três dias não pareciam suficientes para que se curasse tão completamente. — Como posso estar tão melhor?

Ele a encarou com raiva.

— Tivemos uma visita ontem à noite. Ele não me disse o nome, mas sim que a curaria, e acho que cumpriu sua palavra. Ele não gostou de mim, a propósito.

— Meu mentor. — Claro. Curá-la teria significado burlar as regras, mas Lysander ajudara a fazer aquelas regras. Se alguém as conhecia profundamente, esse alguém era ele. E um anjo que não gostava de Aeron? Com certeza, Lysander.

Mais uma vez, Aeron a estudou, como se procurasse alguma ferida, apesar da sinceridade de suas palavras. As pupilas dele se dilataram, devorando cada centímetro daquele adorável ser. Não era de alegria, mas era de... raiva? Mais uma vez? Ela não fizera nada para destruir a atitude carinhosa de antes. Será que Lysander dissera algo que o chateara?

— A sua túnica... — ele resmungou, e rapidamente se afastou dela, dando-lhe as costas. A segunda tatuagem de borboleta a cumprimentou, e ela ficou com água na boca. Qual seria o sabor daquelas asas pontudas?

— Ajeite-a.

Franzindo a testa, ela olhou para si mesma. Seus joelhos estavam levantados, e a túnica estava embolada na altura da cintura, revelando a pequena calcinha branca que usava. Ele não poderia ficar nervoso por causa disso. Anya, esposa de Lucien e deusa menor da Anarquia, usava muito menos roupas no dia a dia. Ainda assim, Olivia desceu o tecido suave e leve até os tornozelos. Ela poderia ter se levantado e voltado para a cama, ao lado dele, mas preferiu não arriscar cair ou ser rejeitada.

— Já estou coberta — ela disse.

Quando Aeron olhou para ela, suas pupilas ainda estavam dilatadas, e ele inclinou a cabeça para um lado, como se tentasse repetir a conversa em sua mente.

— Por que você tem um mentor?

A resposta era fácil.

— Como os humanos, os anjos têm de aprender a sobreviver. Têm de aprender a ajudar os necessitados. A lutar contra os demônios. O meu mentor era... é... o maior de sua espécie, e eu era um ser abençoado por poder trabalhar ao seu lado.

— O nome dele... — Ele a interrompeu, cortante, em tom decidido.

Por que uma reação tão negativa?

— Imagino que o conheça, então. Conhece Lysander, não é mesmo?

As pupilas de Aeron finalmente voltaram ao normal, as íris violetas, novamente visíveis, afogando-a em suas irresistíveis profundezas.

— Lysander de Bianka?

Ela sorriu ao ouvir a descrição.

— Sim. Ele também me visitou.

— Naquela noite em que pensei que você estivesse falando sozinha — ele disse, assentindo.

— Sim.

E ele planejava voltar. Mas isso ela não mencionou. Lysander a amava e não machucaria Aeron... ainda, pois isso também a machucaria. Pelo menos, essa era a esperança à qual ela se agarrava.

Aeron fez uma careta.

— Essas visitas angelicais precisam acabar, Olivia. Entre Caçadores e nossos demônios, já temos muito com o que lidar. Mesmo que Lysander tenha ajudado você, mesmo que eu seja grato por isso, não posso permitir que tal interferência continue acontecendo.

Ela sorriu. Simplesmente não conseguiu se conter.

— Boa sorte, então. — Deter um anjo era como deter o vento: em uma palavra, impossível.

Ele intensificou a cara feia.

— Você está com fome?

A mudança de assunto não a chateou. Na verdade, deixou-a fascinada. Aeron costumava fazer isso com os amigos, indo de um assunto a outro sem aviso prévio.

— Ah, sim, estou faminta.

— Então vou lhe dar alguma coisa para comer antes de irmos para a cidade — ele disse, atirando as pernas para o lado da cama e ficando de pé.

Olivia permaneceu onde estava, mas naquele momento por culpa de suas pernas, que pareciam estar ancoradas a pedras. Em primeiro lugar, ele era lindo. Todo feito de músculos, perigoso e dono de uma pele colorida de dar água na boca. E segundo...

— Você ainda pretende se livrar de mim?

— Claro.

Não se atreva a chorar.

— Por quê? — Teria Lysander dito algo, como ela suspeitara?

— Uma pergunta melhor: quando eu dei a entender o contrário? — Ele seguiu para o banheiro, e ela o perdeu de vista. Ouviu um barulho de roupas sendo vestidas, depois água caindo sobre porcelana.

— Mas você me teve nos braços a noite toda — ela falou. — Cuidou de mim por três dias. — Isso tinha de significar algo, certo? Os homens não fazem esse tipo de coisa, a menos que estivessem apaixonados. Certo? Em todo o tempo que esteve com Aeron, nunca o vira com uma mulher. Bem, além de Legião, mas o pequeno demônio não contava. E Aeron nunca a tivera nos braços durante toda a noite. Então aquela atenção que dispensava a Olivia era especial. Certo?

Não houve resposta. Em pouco tempo, vapor e um cheiro de sabonete de sândalo tomaram conta do quarto. Ele estava tomando banho, ela percebeu, e seu coração acelerou mais uma vez, algumas vezes até parando de bater. Nunca tomara banho enquanto ela estivera ali. Sempre esperava até que ela fosse embora.

Ver seu corpo nu se transformara em uma obsessão.

Será que ele tinha tatuagens lá, entre as pernas? Se tivesse, que desenho teria escolhido?

E por que eu tenho vontade de lamber esse desenho assim como quero lamber as borboletas? Imaginando a cena, Olivia passou a língua por entre os lábios antes de ficar paralisada, em choque. Menina má e sapeca! Tanto desejo...

Bem, eu não sou mais um anjo completo, lembrou a si mesma. E ela queria vê-lo... saboreá-lo. Então, com sorte, ela iria vê-lo... e saboreá-lo. Depois de tudo o que aconteceu com ela, merecia um pequeno capricho. Ou talvez um grande capricho. De uma forma ou de outra, ela não deixaria aquela fortaleza sem dar uma olhadela.

Determinada, Olivia finalmente ficou de pé. Porém, sem as asas para centralizá-la, não tinha senso de equilíbrio e rapidamente desmoronou, sentindo dores fortes nos joelhos e encolhendo o corpo. Mas aquela dor era suportável. Após a extração de suas asas, provavelmente qualquer coisa seria suportável.

Mais uma vez, ficou de pé. E voltou a cair. Droga! Rapidamente, a água foi fechada. Ouviu o som de carne molhada contra o mármore e, em seguida, o barulho de algodão contra metal.

Rápido! Antes que seja tarde demais.

Para se equilibrar, colocou um pé à frente e o outro atrás, e abriu bem os braços. Lentamente, ela foi se levantando. Balançou para a esquerda e depois para a direita, mas conseguiu ficar ereta dessa vez. Vamos, Olivia!

Em seguida, Aeron saiu do banheiro, e ela ficou completamente decepcionada. Havia uma toalha enrolada em sua cintura e outra pendurada no pescoço. Tarde demais. Droga dupla!

— Você tomou um banho muito rápido. Deve ter se esquecido de lavar alguma coisa — ela disse.

Ele nem olhou para ela e manteve sua atenção na penteadeira à sua frente.

— Não. Não esqueci.

Ah.

— Agora é a sua vez — disse Aeron, após colocar uma camiseta em cima do móvel de madeira. Ele usou a segunda toalha para secar seus cabelos curtíssimos.

Ela já dissera que ele era lindo? Devia ter dito que ele era magnífico.

— A minha túnica me limpa.

Ela soaria tão sem fôlego aos ouvidos dele quanto soava aos dela?

Ele franziu a testa, ainda sem olhar para ela.

— Limpa até seus cabelos?

— Sim. — Suas mãos tremiam enquanto ela puxava o capuz para cima da cabeça, deixando-o ali durante um tempo para que operasse sua magia. Em seguida o puxou para baixo novamente. Quando o tecido caiu, ela passou a mão pelos cabelos macios e sedosos. — Viu? Eu fico completamente limpa.

Finalmente, ele olhou para ela, passando os olhos por todo o seu corpo, demorando-se em algumas partes, fazendo com que o sangue dela esquentasse, deixando-a arrepiada. Quando os olhos de ambos se encontraram, as pupilas de Aeron estavam novamente dilatadas, e a cor preta ofuscava as íris violetas.

Sério, o que ela estava fazendo para deixá-lo com tanta raiva?

— É verdade — ele grunhiu. Ele se virou de costas e foi em frente, entrando no closet e desaparecendo de vista. A toalha voou para fora e caiu em pilha no chão.

Ele estava nu outra vez, ela pensou, esquecendo-se de sua raiva. Essa é a sua chance. Sorrindo, Olivia entrou em ação. Conseguiu dar dois passos antes de tropeçar e cair de joelhos, e finalmente deixou cair o resto do tronco e sentiu o ar escapar-lhe dos pulmões.

— O que você está fazendo?

Ela ergueu os olhos. Ali estava Aeron, na porta do closet, vestindo uma camiseta preta e uma calça jeans. Também pegara um par de botas e provavelmente havia armas espalhadas por todo aquele corpo musculoso. Os olhos dele estavam apertados, e seus lábios, franzidos.

Frustrada mais uma vez. Ela suspirou de tristeza.

— Não tem problema — ele disse, claramente sem paciência para esperar a resposta dela. — É hora de irmos.

Agora?

— Você não pode me levar para a cidade — ela se apressou em dizer. — Você precisa de mim.

Ele explodiu por um instante.

— Impossível. Não preciso de ninguém.

Ah, é mesmo?

— Alguém será enviado para terminar o trabalho que eu não fui capaz de fazer, lembra? E, da mesma forma como você não sentiu a presença de Lysander quando ele veio me visitar, não vai sentir outro anjo.

Aeron cruzou os braços sobre o peito sólido, o retrato perfeito da teimosia masculina.

— Mas eu senti sua presença, não senti?

Sim, ele sentira, e ela nunca entendera como ele o fizera.

— É, mas como eu disse, você não sentiu Lysander. Eu, no entanto, posso ver os anjos. Posso avisá-lo quando algum se aproximar.

Não que algum anjo fosse aparecer antes que sua prorrogação de 14 dias terminasse, ou melhor, 11 dias, pois três já tinham se passado, mas Aeron não sabia disso.

Ele moveu o queixo da esquerda para a direita, interrompendo a continuidade das imagens gravadas ali.

— Você disse que estava com fome. Vamos encontrar alguma coisa para você comer.

Mudara mais uma vez de assunto. Dessa vez, ela odiou, mas deixou passar, percebendo que novas discussões seriam inúteis. Além do mais, ela estava realmente com fome. Apoiou-se nos joelhos e depois se levantou. Um passo... dois... três... Logo ela estava na frente de Aeron, sorrindo devido ao seu êxito.

— O que foi isso? — ele perguntou.

— Eu caminhei.

— Demorou tanto... Estou oficialmente cinquenta anos mais velho.

Ela ergueu o queixo, não menos orgulhosa.

— Mas eu não caí.

Ele balançou a cabeça, exasperado?, e pegou sua mão.

— Vamos, anjo.

— Caído — ela automaticamente completou. A sensação dos dedos de Aeron ao redor dos seus, quentes e fortes, fizeram-na tremer. Uma sensação que não lhe foi permitido saborear.

Quando ele a puxou para a frente, ela tropeçou nos próprios pés. Felizmente, antes que ela beijasse o chão de novo, Aeron a ergueu e a trouxe para o lado dele, ancorando-a naquela posição.

— Obrigada — ela murmurou.

Aquilo sim era vida. Aproximou-se o máximo que pôde dele. Por séculos, vira muitos humanos sucumbindo aos desejos mais básicos, mas, até aquela penugem dourada aparecer em suas asas, ela nunca entendera muito bem por que faziam isso. Mas agora ela sabia: cada toque era tão delicioso quanto a maçã de Eva deve ter sido.

Ela queria mais.

— Você é uma ameaça — Aeron murmurou.

— Uma ameaça útil.

E talvez, se ela o lembrasse constantemente disso, Aeron entenderia que precisava mesmo dela.

Ele não respondeu, mas conduzindo-a pelo corredor, mantendo-a de pé todo o tempo. Melhor ainda, teve de carregá-la enquanto desciam as escadas. E Olivia poderia ter aproveitado bem melhor aquele momento se não estivesse tão distraída. As paredes estavam cheias de quadros que retratavam o céu; anjos que ela reconhecia voando entre as nuvens, e também o inferno. Mas as imagens desse ela evitou observar, pois não queria se lembrar do tempo que passou lá.

Também havia nas paredes quadros de homens nus, a maior parte deles deitada em camas com lençóis de seda. Naquelas imagens Olivia prestou atenção, e não se sentiu envergonhada disso. Não mesmo. Nem quando precisou limpar sua saliva. Toda aquela pele... aqueles músculos... aquela força... Pena que não estavam tatuados dos pés à cabeça.

— Anya decorou algumas partes da casa. Você deveria tapar os olhos — disse Aeron, sua voz profunda interrompendo sua admiração.

— Por quê? — Cobrir os olhos seria um crime. Um crime que provavelmente insultaria sua Divindade, pois não era sua tarefa suas criações?

— Você é um anjo, pelo amor dos deuses! Não deveria olhar para esse tipo de coisas.

— Sou um anjo caído — ela lembrou mais uma vez. — E como sabe o que devo ou não fazer?

— Apenas... feche os olhos. — Ele largou suas pernas, obrigando-a a ficar de pé novamente, e a guiou enquanto faziam uma curva.

Um grupo de diferentes vozes de repente atacou seus ouvidos, e ela retesou o corpo, pois não estava preparada para lidar com ninguém além de Aeron.

— Cuidado — ele disse.

Ela diminuiu a velocidade dos passos. As pessoas eram imprevisíveis, ainda mais seus amigos imortais. Pior: seu corpo agora era suscetível a qualquer tipo de dano. Poderiam torturá-la, física, mental e emocionalmente, e ela não poderia sair voando.

Nos céus, todos se amavam. Não havia ódio nem crueldade. Na terra, a gentileza era muitas vezes deixada de lado. Os humanos costumavam chamar uns aos outros por nomes terríveis, eles destruíam a autoestima de um companheiro e arrasavam, propositalmente, o orgulho dos outros.

Olivia seria muito mais feliz desfrutando de todo o seu tempo como humana sozinha com Aeron.

Você pesou o bem e o mal, lembra? Achou que a possibilidade de sentir prazer valeria qualquer custo. E você pode lidar com isso. Precisa lidar com isso.

— Você está bem? — ele perguntou.

— Estou — ela respondeu, determinada.

Eles fizeram outra curva e entraram na sala de jantar; Aeron parou. Imediatamente as vozes emudeceram. Olivia deu uma olhada rápida e viu quatro indivíduos sentados a uma mesa cheia de comida. Quatro potenciais torturadores.

Sentiu um acesso de medo no peito e mal conseguiu respirar. Antes de perceber o que estava fazendo, ela tinha largado a mão de Aeron e se posicionado atrás dele, escondendo-se da vista dos outros. Para se manter de pé, ela tinha que apoiar as palmas das mãos nas costas dele.

— Finalmente. Carne de anjo fresca — disse uma mulher, com uma risada rouca. — Estávamos começando a pensar que Aeron planejava mantê-la escondida para sempre. Não que eu fosse permitir que isso acontecesse, você entende. Eu já tinha desenterrado meu abridor de portas da sorte e preparado um encontro para a meia-noite.

Um encontro de boas-vindas ou um encontro para perguntar “o que acha da ponta da minha lâmina”? Provavelmente a segunda opção. Olivia reconheceu a voz áspera como sendo a de Kaia Skyhawk, gêmea de Bianka e irmã mais velha de Gwen. Era uma Harpia mentirosa e ladra, gerada por Lúcifer. Ela também estava ajudando os Senhores na busca pela caixa de Pandora. Seria capaz de matar qualquer coisa que lhe parecesse uma ameaça. Como um anjo.

Gwen, a Skyhawk mais nova, vivia ali com Sabin, mas os dois estavam atualmente em Roma, pelo que Olivia escutara, junto com vários outros, vasculhando um dos templos recentemente erguidos pelos Titãs descoberto, pois nele poderia haver artefatos que já pertenceram a Cronos.

Pobre Cronos, que os Senhores imaginavam ser todo-poderoso. Se eles soubessem...

— Eu ficaria de boca fechada, se fosse você — Paris advertiu a Harpia.

Olivia espiou por cima do ombro de Aeron.

— Por quê? — perguntou Kaia, sem demonstrar preocupação. — Você acha que Aeron vai me atacar? Você já deveria saber que eu gosto de lutar. No óleo.

Paris mordeu os lábios ao se lembrar da própria experiência de luta no óleo. Com Lysander. Algo que Olivia adoraria ter visto.

— Não, eu não acho que deveria se calar por causa de Aeron. Acho que deveria se calar porque fica mais bonita quando está quieta.

Houve uma bufada feminina, e Olivia sorriu. Já não estava envolta em dor e memórias. Para sua surpresa, descobriu que seu medo dos demônios estava diminuindo. Talvez ela realmente conseguisse.

— Então, Olivia — disse Paris. — Como está? Sentindo-se melhor?

Sem sair de trás de Aeron, ela respondeu:

— Sim, obrigada.

— Hum... Eu adoraria lhe oferecer algo pelo qual você realmente agradeceria. — Quem falou foi William, ela notou. Ele era bonito, perversamente bonito, com cabelos pretos e olhos azuis. Também era um vagabundo irremediável, com um terrível senso de humor que Olivia nem sempre entendia.

— Alguém precisa destruir o seu algo, pelo bem das mulheres do mundo. — O pronunciamento veio de Cameo, a única mulher entre os Senhores. Ou pelo menos a única que os Senhores conheciam. Era possuída por Infelicidade, e toda a tristeza do mundo ecoava em sua voz.

Naquele momento, Olivia sentiu vontade de abraçá-la. Ninguém ali sabia disso, mas Cameo sempre dormia chorando. Era de cortar o coração. Talvez... talvez elas pudessem ser amigas agora, ela pensou, mais uma vez surpresa com seu medo, que ainda desaparecia.

— Vamos esquecer isso agora — disse Aeron, mais uma vez pegando a mão de Olivia e arrastando-a para a frente. Quando chegaram na mesa, ele afastou uma cadeira para que ela se sentasse.

Olivia manteve os olhos baixos enquanto balançava a cabeça.

— Não, obrigada.

— Por quê?

— Não quero me sentar sozinha. — Não depois de ter experimentado a felicidade de tê-lo como colchão e muleta.

Suspirando, ele mesmo se sentou na cadeira. Lutando contra um sorriso triunfante, Olivia se sentou no colo dele. Na verdade, ela desabou no colo dele. Como já não podia usá-lo como muleta, não tinha onde se ancorar. Ele ficou rígido, mas não a censurou.

Olivia não fazia ideia do que os outros achavam dela, pois manteve os olhos baixos. Por enquanto, estava calma e queria permanecer assim.

— Onde estão os outros? — perguntou Aeron, voltando à conversa, como se ela nunca tivesse sido interrompida.

— Lucien e Anya estão na cidade, ainda procurando a sua Garota das Sombras — disse Paris. — Torin está no quarto, claro, vigiando o mundo e nos mantendo seguros. Danika... — Aeron sentiu uma pontada ao ouvir o nome dela, e Olivia acariciou sua mão para confortá-lo. Claramente, sentia-se culpado por quase tê-la matado. — Danika está pintando alguma coisa, mas não vai nos contar nada por enquanto, e Ashlyn está dando uma olhada nos pergaminhos que Cronos nos deu, tentando se lembrar se alguma vez ouviu algo sobre os nomes listados.

Os pergaminhos em questão documentavam quase todos os que tinham sido possuídos por um dos demônios liberados da caixa de Pandora, como Olivia já sabia. Os anjos vigiavam essas pessoas havia séculos, então ela sabia onde alguns deles viviam. Seria jurada de morte pelos seus companheiros de espécie se revelasse isso? Estaria quebrando alguma lei antiga?

— Pelos deuses, Luxúria... Deveríamos trocar o seu nome para Tédio. Vamos ao que interessa. Já está na hora das apresentações? — disse William. — Só estou sendo educado, juro.

— E desde quando você se importa com educação? — alfinetou Aeron.

— Desde agora.

Olivia escutou seu guerreiro trincando os dentes atrás de si.

— Esta é Olivia. Ela é um anjo — ele disse, para ninguém em particular. Seu tom indicava que não gostaria de continuar com a conversa.

— Anjo caído — ela corrigiu assim mesmo. Ela avistou uma vasilha com uvas, sem evitar um gritinho de prazer. Três dias sem comer a atingiram.

Divisão e moderação eram princípios pelos quais vivera por toda a sua vida, mas que a abandonaram quando ela pegou a vasilha e a apertou contra o peito. De punhado em punhado, enfiou as deliciosas frutas na boca, saboreando-as, gemendo de satisfação. Mas logo a tigela ficou vazia, e ela fez uma careta... até notar outro prato, dessa vez com fatias de maçã.

— Delícia. — Olivia se inclinou para a frente. Ela teria caído para o lado, mas as mãos fortes de Aeron seguraram seu quadril, mantendo-a no lugar e fazendo-a tremer. — Obrigada.

— De nada — ele respondeu.

Sorrindo, ela pegou o prato e voltou a se aconchegar no colo dele. Ele ficou excitado quando ela fez isso, e cutucou a base das suas costas, mas ela nem notou. As fatias de maçã também foram consumidas entre gemidos felizes. A comida tinha um sabor ainda melhor como humana. Mais doce. Era necessária, e não uma coisa secundária.

Finalmente saciada, Olivia olhou para cima, para oferecer uma das fatias restantes a alguém. Todos estavam olhando para ela, e a comida caiu como chumbo em seu estômago.

— Sinto muito — disse Olivia, automaticamente. O que fizera de errado?

— Por que está se desculpando? — Kaia perguntou. Não havia malícia no seu tom de voz, apenas curiosidade genuína.

— Todos estão olhando para mim, então pensei que... — Mais do que isso, Aeron parecia mais tenso que antes.

— Concordo com a Harpia — disse William, erguendo as sobrancelhas. — Adoro mulheres que assediam seu café da manhã.

Mas ela não tinha feito isso. Tinha?

Kaia deu um tapa na nuca de William.

— Cale a boca, playboy. Ninguém liga para a sua opinião. — E disse para Olivia: — Caso tenha tido dificuldade em me entender, estou olhando para você pois estou curiosa.

Assim como Olivia estava curiosa em relação a ela. As Harpias só podiam comer coisas roubadas, mentiam descaradamente e matavam por impulso. Em suma, eram a antítese dos anjos, mas ainda assim aproveitavam a vida ao máximo, e justamente por isso Lysander escolhera ficar ao lado de uma.

Em pouco tempo eu também estarei aproveitando a vida ao máximo.

— Você conhece Lysander, o marido da minha irmã gêmea? — Kaia perguntou.

— Sim. Muito bem.

A Harpia colocou os cotovelos na mesa, afastando os pratos.

— Ele é tão duro e sério quanto eu imagino? — perguntou, com uma pitada de repulsa na voz.

— Provavelmente ainda mais.

— Eu sabia! Pobre B. — A compaixão cobriu suas feições, mas ela rapidamente se iluminou. — Já sei. Nós duas poderíamos unir nossas mentes, pois duas mentes maravilhosas sempre pensam melhor do que uma, e assim poderíamos planejar algumas formas de deixá-lo um pouco mais relaxado. Poderemos até conhecer melhor uma a outra. As mulheres da casa têm que ficar unidas.

— Isso não vai ser possível. Vou levar Olivia para a cidade — disse Aeron, segurando Olivia com ainda mais força. — Não haverá tempo para planos. Nada de relaxamento. E, definitivamente, nada de se conhecer melhor.

Os ombros de Olivia caíram. Será que Aeron sempre fora tão duro, mas ela nunca notara? Ou tal atitude era para o seu bem?

— Tem certeza de que quer se livrar de mim? — ela perguntou. — Eu faço bem a você. Prometo!

— Porque pode me ajudar? — Ele fez uma pergunta, quando deveria ter feito uma afirmação.

Ela queria sacudir aquele homem tão cabeça-dura.

— Sim.

— Já temos muita gente para ajudar por aqui. Então, sim, tenho certeza.

— Eu também posso fazer você sorrir. Esse era o meu trabalho, você sabe. — Na verdade, era o seu antigo trabalho, e ela sentia falta dele. — Você quer sorrir?

— Não — ele respondeu sem hesitar.

— Eu, sim — William interrompeu. — Eu gosto de sorrir quando estou na cama, nu. Então voto para que ela fique.

As unhas de Aeron furaram a túnica de Olivia e arranharam sua pele, mas ela não reclamou. Se fizesse isso, ele tiraria as mãos, e ela gostava de senti-las ali onde estavam.

— Como Kaia disse, sua opinião não importa.

— Além do mais — continuou Kaia —, duvido que o grandalhão saiba sorrir.

— Eu também duvido — disse Aeron, fazendo todos rir.

— É claro que você sabe, Rabugento. — Kaia jogou seus cabelos vermelhos e brilhantes por cima dos ombros. — Ouça, você não precisa levá-la para a cidade. As notícias voam... Eu mantenho minha oferta de conhecê-la melhor. Estou completamente impressionada pelo fato de ela ter sido expulsa do céu, e quero saber todos os detalhes suculentos.

— Eu também — disse Cameo, assentindo para enfatizar sua determinação. — O negócio é conhecê-la melhor.

— Podem me incluir nessa também. — William mandou um beijo para Olivia pelo ar, e as bochechas dela ficaram vermelhas de vergonha. — Não precisa dizer nada, Olivia. Já sei as palavras que estão na ponta da sua língua. Diga se eu estiver enganado, mas conhecê-la melhor será um prazer para você.

Aeron soltou um rosnado baixo pela garganta.

— Ela não vai ficar, e não haverá qualquer tipo de prazer. Como eu já disse, vou levá-la para a cidade e deixá-la lá. Hoje.

— Mas por quê? — perguntou Olivia. Ela podia odiar seus deveres como anjo guerreiro, e talvez nunca tenha matado ninguém, mas isso não significava que fosse uma pessoa sem opinião própria. — Você disse que não queria mais ajudantes, mas eu prometo que essas pessoas não poderão fazer nada quando o próximo anjo for enviado para matar você.

Olivia esperava que alguém levantasse a voz e concordasse com ela, mas ninguém parecia se importar que um assassino celestial estivesse a ponto de surgir para acabar com o seu amigo. Todos na mesa, incluindo Aeron, provavelmente supunham que o Senhor era invencível.

E, claro, ele se manteve impassível.

— Eu não me importo.

Ela jogou o prato de maçã onde o pegara, afastando os outros pratos para ainda mais longe do que Kaia os jogara.

— Eu também posso ajudá-los a derrotar os Caçadores. — Verdade.

— Olivia — Aeron disse, e ela nem precisou olhar para ele para saber que ele estava olhando o teto, implorando por paciência. Só que, se não estivesse equivocada, o pedido que o ouvira murmurar era por força. — Nós somos demônios, e demônios e anjos não se misturam. Além do mais, Legião não pode voltar enquanto você não tiver ido embora.

Esse era o único argumento para o qual ela não tinha resposta.

— Mas... mas... Eu estou disposta a tentar me dar bem com ela. — Se ele percebeu o pânico na voz de Olivia, não deixou transparecer. — Vou ser legal com todos os seus amigos também. Como não seria? Eu abri mão de tudo para salvá-lo.

— Eu sei — ele disse, e suas palavras foram rosnadas.

— O mínimo que você pode fazer é...

— Eu não pedi para você abrir mão de nada — ele respondeu. — Então, não. Não venha com essa história de o mínimo que você pode fazer. Você está curada. Estamos quites. Eu não lhe devo nada.

Cameo o ignorou, colocou os cotovelos sobre a mesa e se aproximou ainda mais de Olivia.

— Esqueça o que ele diz. É só porque ele ainda não tomou cafeína suficiente. Vamos voltar um pouquinho: como você pode nos ajudar com os Caçadores?

Finalmente, algum interesse, ainda que o tom de Cameo fosse mais carrancudo que encorajador. Olivia ergueu um pouco mais o queixo.

— Para começo de conversa, eu sei onde estão outros imortais possuídos por demônios. — Felizmente, ela não foi atingida por um raio ao fazer essa confissão, nem os anjos apareceram com suas espadas inflamadas em punho. — Vocês disseram estar buscando por eles, certo?

Um momento de silêncio e surpresa se passou, todos os olhos se viraram para ela, e assim permaneceram.

— Aeron — disse Cameo.

— Não. Isso não importa — sua voz áspera proclamou. — Para isso temos os pergaminhos.

— Sim, mas eles dizem os nomes, não as localizações. — O olhar da Senhora ficou mais penetrante. — Sabin vai querer conversar com ela quando voltar.

— Pior para ele.

— Se o babaca do Sabin quer conversar com ela, isso significa que Gwennie também vai querer. — Kaia tamborilava os dedos na mesa. — E como você sabe, queridinho, eu sempre garanto que minha irmã tenha tudo o que quer. Além do mais, estou a ponto de morrer de tédio, já que ninguém atacou a fortaleza como vocês prometeram.

— Harpia — Aeron disparou. — Não brinque com a minha paciência. Você me obedecerá nesse assunto e deixará o anjo ir embora.

— Os guerreiros são tão adoráveis quando se imaginam durões e no comando de tudo. — Kaia esticou os braços, afastando os pratos da mesa mais uma vez e pegando vários ovos, que ela atirou em Aeron.

Olivia se desviou rapidamente, e os ovos atingiram o rosto de Aeron em cheio. Seus lábios se curvaram e ele fez uma cara feia, enquanto limpava aquela gosma amarelada. Mas em vez de tocá-la novamente, ele pousou as palmas das mãos nos braços da cadeira.

Kaia sorria como uma colegial.

— Não finja que está surpreso com nossa insistência para que ela permaneça aqui. Paris me contou o que você pediu a Cronos no outro dia, naquele telhado. “Envie-me uma mulher que me esnobe” — ela zombou.

— Ah, sério? E quando você e Paris tiveram tempo para conversinhas íntimas? — perguntou William, enquanto passava manteiga em um muffin de mirtilo.

Kaia deu de ombros, mas manteve o foco em Aeron.

— Algumas noites atrás, eu estava querendo um pouco de diversão, e ele estava um pouco fraco. — Mais uma vez, deu de ombros. — Depois ele ficou um tanto conversador.

Paris assentiu timidamente, confirmando. Todas as vezes que Olivia vira o guardião da Luxúria, ele estava triste. Mas, naquele momento, parecia quase... feliz, apesar de um pouco cansado. Deve ter sido uma conversa e tanto.

— Mas eu lhe ofereci um cantinho na minha cama — disse William à Harpia.

Cama? Ah. Ah. Kaia e Paris, aparentemente, fizeram mais do que conversar naquele encontro.

— Você é péssimo jogando Guitar Hero, então imaginei que fosse igualmente ruim usando as mãos. Além disso, alguém que conhecemos e amamos reivindicou você antes.

— Quem? — Olivia perguntou, incapaz de ficar quieta.

Kaia a ignorou, e continuou:

— Portanto, escolhi Paris para me aquecer no outro dia. E não vejo a hora de contar os detalhes íntimos a Bianka.

— Ah, não. Não, não, não. Você não pode revelar os segredos do quarto — disse Paris.

A Harpia abriu um sorriso preguiçoso e malicioso.

— Observe-me. Seja como for. Se quer ter seu pequeno demônio de volta, Aeron-Tédio, vai ter que ir até a cidade e brincar com ela por lá. O anjo fica.

O calor do hálito de Aeron era como fogo na nuca de Olivia.

— Esta. Casa. É. Minha!

— Não mais.

Kaia e William tinham falado em uníssono. E trocaram um sorriso, apesar de William ainda estar rabugento com a escolha de amante de Kaia.

— É verdade — disse Olivia, erguendo mais um pouco o queixo. — Não mais. — Olivia queria que Aeron estivesse ali com ela, sim, mas ele aparentemente precisava de um tempo longe para refletir o quão sortudo era por tê-la ao seu lado.

Não era uma atitude egoísta dela, disse a si mesma. A verdade nunca era egoísta. Além do mais, ele não deveria demorar mais que algumas horas para se dar conta do quanto precisava dela, e do quanto gostaria que estivesse ao seu lado. Ele era inteligente. Na maior parte do tempo.

Por favor, faça com que ele queira estar comigo.

Mais uma vez, Aeron colocou as mãos na cintura de Olivia. Dessa vez, ele apertou forte o suficiente para que ela arfasse.

— Você sabe onde está a caixa de Pandora, Olivia?

Claro que ele faria a única pergunta para a qual ela não tinha resposta.

— Eh... Bem... Não.

— Você sabe onde está o Manto da Invisibilidade e o Cetro Divisor?

Certo. Duas perguntas.

— Não — ela admitiu, com voz suave. O que ela sabia era que os Senhores tinham encontrado dois dos artefatos de Cronos: a Jaula da Coação e o Olho Que Tudo Vê. E os que lhes faltavam foram mencionados por Aeron, o Manto da Invisibilidade e o Cetro Divisor. Como a Única Divindade Verdadeira não via utilidade em tais artefatos, seu povo nunca procurara por eles.

Aeron levantou Olivia e a soltou. Ela teve de se agarrar à mesa para não tropeçar. Também teve de manter os lábios pressionados para não gemer de decepção. Toque-me.

— Ainda querem que ela fique? — perguntou aos outros, sem demonstrar qualquer sentimento. — Preferem ela a mim?

Um a um, todos fizeram que sim. E não demonstravam arrependimento.

— Certo — disse Aeron, passando a língua entre os dentes. — Ela é de vocês. Peguem todas as informações dela que puderem. Como vocês mesmo sugeriram, estarei na cidade. Mandem uma mensagem de texto quando ela for embora. Só então retornarei.