A Paixão Mais Sombria
Capítulo Três
SUA. ELA NÃO deveria ter dito isso.
Olivia ficou gelada de terror, um único pensamento explodindo em sua mente, mais alto do que qualquer outro: ela acabara de arruinar tudo.
Deveria ter dito a verdade a Aeron de forma gradativa. Afinal de contas, todas as vezes que ela se aproximara dele naquelas últimas semanas, ele a ameaçara com agonia e morte. Ele nem se importara com o fato de ela ser invisível. Aeron sabia que ela estava por perto. Como, ela ainda não descobrira. Ela deveria ser imperceptível, não deveria ter qualquer substância, como um fantasma no meio da noite. E agora que ela estava ali, em carne e osso, destilando seus segredos, Aeron provavelmente a enxergava como bem mais que uma ameaça, provavelmente, como uma inimiga.
Provavelmente? Ela riu, mas sem demonstrar qualquer traço de humor. Ele de fato a via dessa maneira. E suas perguntas a chicotearam, cortando profundamente. Sim. Ela estava arruinada. Aeron não iria querer ter nada a ver com ela naquele momento. Bem, a não ser para lhe conceder aquela agonia e morte.
Você não lutou para se livrar das profundezas do inferno para ser destruída nesta fortaleza. Ela lutara para se livrar do inferno em busca de uma chance ao lado de Aeron. Apesar da possibilidade de tudo dar errado.
Você consegue. Tendo observado Aeron sorrateiramente por várias vezes, ela sentia como se o conhecesse muito bem. Ele era disciplinado, distante e brutalmente honesto. Não confiava em ninguém além dos seus amigos. Não tolerava a fraqueza. E, ainda assim, com as pessoas a quem amava, era gentil, educado e solícito. Colocava o bem-estar dessas pessoas acima do seu próprio. Eu quero ser amada desse jeito.
Se ao menos ele a tivesse visto antes de ser expulsa do único lar que conhecera. Se ao menos ele a tivesse visto antes de sua habilidade de voar ter sido perdida. Antes de sua recém-descoberta habilidade de criar armas com o ar ter sido apagada. Antes que sua capacidade de se proteger do mal do mundo tivesse sido removida.
Agora...
Ela estava mais fraca que um humano. Tendo passado os longos séculos de sua existência confiando mais em suas asas que em suas pernas, ela não sabia nem andar direito. E se não conseguisse?
Um gemido escapou de sua garganta. Ela abrira mão de seu lar e de seus amigos em troca de dor, humilhação e desamparo. Se Aeron também a chutasse para fora dali, não teria para onde ir.
— Não chore — disse Aeron tediosamente.
— Eu não... consigo... evitar — ela respondeu, por entre lamúrias trêmulas. Apenas uma vez antes ela vertera lágrimas e também fora por causa de Aeron, quando ela percebeu que seus sentimentos por ele ofuscavam completamente seu senso de autopreservação.
A magnitude do que fizera era agora uma força que clamava em sua mente. Olivia estava sozinha, presa num corpo frágil que ela não entendia, e dependente da boa vontade de um homem que, algumas vezes, infligia destruição mortal a públicos inocentes. Públicos que ela, como mensageira da alegria, fora responsável por fazer felizes.
— Tente, droga.
— Você poderia... talvez... não sei... me abraçar? — ela perguntou entre arfadas.
— Não. — Ele pareceu horrorizado com o pensamento. — Você vai desistir imediatamente.
Ela chorou ainda mais alto. Se estivesse em casa, seu mentor, Lysander, a afagaria até que se acalmasse. Pelo menos era o que imaginava que teria feito, já que a teoria nunca fora testada.
Pobre e doce Lysander. Ele sabia que ela tinha ido embora? Sabia que ela poderia nunca mais retornar? Ele soubera que ela estava fascinada por Aeron, que passava todo o tempo livre neste plano, observando-o em segredo, incapaz de completar a terrível tarefa que recebera, mas Lysander nunca esperara que ela fosse capaz de abrir mão de tudo por aquele homem.
Para ser sincera, nem ela esperara isso. Não mesmo.
Talvez devesse ter esperado, já que seus problemas tinham começado antes mesmo que colocasse os olhos em Aeron.
Poucos meses antes, uma penugem dourada surgira em suas asas. Mas dourado era a cor dos guerreiros, e ela nunca quisera ser uma guerreira. Mesmo que isso fosse elevar seu posto.
Lembrando-se da sua infelicidade, ela suspirou. Existiam três castas angelicais: a Elite Sete, da qual Lysander fazia parte, trabalhava diretamente com a Única Divindade Verdadeira. Eles haviam sido selecionados no início dos tempos e nunca hesitaram em sua tarefa de treinar outros anjos e monitorar os acontecimentos malignos. Em seguida, vinham os guerreiros. Eles destruíam os demônios que conseguiam escapar de suas ardentes prisões. E, por último, estavam os emissários da alegria, como Olivia fora uma vez.
Muitos de seus companheiros haviam sentido inveja instantânea pela chegada da penugem dourada em suas asas; nada malicioso, claro. Mas pela primeira vez em sua existência, Olivia não estivera certa em relação ao caminho que deveria percorrer. Por que ela fora escolhida para tal missão?
Ela adorava o trabalho que tinha. Adorava murmurar bonitas declarações nos ouvidos dos humanos, trazendo-lhes confiança e prazer. Só de pensar em ferir outro ser vivo, mesmo alguém que merecesse ser ferido... Ela estremecia.
Foi então que teve os primeiros pensamentos relacionados à queda, a começar uma nova vida. Eram pensamentos inocentes, de fato. E se...? Talvez... E quando começou a espiar Aeron, tais pensamentos se intensificaram. E se eles pudessem ficar juntos? Talvez pudessem viver felizes para sempre.
Como seria ser humana?
Então, quando o Alto Conselho Celestial, um corpo intimidador formado por anjos das três facções, convocou-a ao tribunal, ela esperara ser castigada por ter falhado em sua missão de destruir Aeron. Em vez disso, recebeu um ultimato.
Ela estava de pé no centro de uma sala branca e espaçosa, com um teto abobadado e as paredes formando um círculo perfeito. Havia colunas que se esticavam por todos os lados, a hera que as envolvia era de um branco completamente puro. Havia um trono entre cada uma dessas colunas, com formas régias assentadas sobre eles.
— Você sabe por que está aqui, Olivia? — perguntou uma voz ressoante.
— Sim. — Mesmo tremendo, suas asas nunca deixaram de ter movimentos graciosos. Eram longas e majestosas, com penas de um branco glorioso, perpassadas por um dourado. — Para discutir sobre Aeron do Mundo Subterrâneo.
— Fomos pacientes por semanas, Olivia. — Aquela voz sem emoção ecoava como um tambor de guerra dentro de sua cabeça. — E oferecemos inúmeras oportunidades para que você se mostrasse capaz. Você falhou em todas elas.
— Eu não fui criada para isso — ela respondeu, agitada.
— Você foi. E deve fazê-lo. Não há melhor forma de espalhar alegria pelo mundo do que salvando os humanos do mal. E é exatamente isso o que você fará ao terminar sua tarefa. Essa é sua última chance. Você dará um fim à vida de Aeron, ou nós daremos um fim à sua vida.
A ameaça do conselheiro não deveria ser encarada como crueldade, ela sabia. Era simplesmente assim que as coisas funcionavam no céu. Uma única gota de veneno poderia destruir um oceano, e por isso qualquer gota destrutiva deveria ser eliminada antes de se chocar contra as ondas. Porém, Olivia protestou assim mesmo:
— Vocês não podem me matar sem a bênção da Divindade Verdadeira. — E Ele não daria sua bênção. Ele era pura doçura e bondade. Importava-se com seu povo, com todo o seu povo. Mesmo com os anjos desobedientes. Era muito simples. Ele era o amor.
— Mas podemos dispensá-la, acabando com a vida como você a conhece. — A voz era feminina, mas o tom não era menos decidido.
Por um momento, Olivia teve dificuldade para respirar e viu pontos de luz dançando ao redor dos seus olhos. Ela perderia sua casa? Acabara de comprar uma nuvem nova, maior. E prometera a um de seus amigos que cobriria seus turnos de envio de alegria para que ele pudesse sair de férias... E ela nunca antes quebrara uma promessa. Mas, ainda assim, ela persistiu.
— Aeron não é mau. Ele não merece morrer.
— Não cabe a você decidir isso. Ele ignorou uma lei antiga e deve ser punido, antes que outros se sintam no direito de fazer o mesmo, sem sofrer as consequências.
— Duvido que ele saiba o que fez. — Ela abriu os braços, implorando. — Se apenas permitissem que ele me visse e escutasse minha voz, eu poderia conversar com ele e explicar...
— Se fizéssemos isso, estaríamos ignorando uma lei antiga.
Verdade. A fé se baseava no princípio de acreditar no que não podia ser visto. Apenas a Elite Sete podia se revelar no plano mortal, como faziam algumas vezes, para recompensar pessoas por sua fé.
— Sinto muito — ela se desculpou, com a cabeça baixa. — Não deveria ter feito tal pedido.
— Está desculpada, criança — responderam em uníssono.
O perdão era facilmente concedido ali. Bem, exceto quando mandamentos eram ignorados. Pobre Aeron, ela pensou, mesmo enquanto dizia:
— Obrigada.
Mas era que... Aeron a atraía. Ele parecia o demônio com aquela pele totalmente tatuada. Porém, vê-lo pela primeira vez despertara nela desejos muito fortes para serem ignorados. Como seria tocá-lo? Como seria ser tocada por ele? Será que ela finalmente conheceria a alegria que costumava trazer aos outros?
Num primeiro momento, tais pensamentos a deixaram envergonhada. E quanto mais conhecia Aeron, mais fortes ficavam os desejos. Até o momento em que tudo em que pensava era em cair e estar ao lado dele.
Finalmente, convencera-se de que era aceitável sentir tudo aquilo por ele, apesar de sua aparência, apesar do que lhe dissera o Conselho, Aeron era honesto e bom. E se ele era honesto e bom, ela poderia fazer as coisas que ele fazia, e também ser honesta e boa. Mais do que isso, estava tudo bem porque, sendo um homem tão protetor, ele a manteria a salvo. Dos demais e dela mesma.
Se ele fosse assassinado, no entanto, Olivia viveria o resto da eternidade sem saber como poderia ter sido... maravilhoso experimentá-lo de todas as formas possíveis. Ela se arrependeria. Ficaria de luto.
Mas salvá-lo, de sua própria mão, pelo menos, significava abrir mão de tudo o que conhecia, como lhe dissera o Conselho. Mais do que perder sua casa e suas asas, ela seria enviada a um mundo onde o perdão nem sempre era concedido, a paciência era raramente recompensada e a grosseria era um estilo de vida.
— Ele é seu primeiro assassinato, e entendemos sua relutância, Olivia. Mas você não pode permitir que isso a destrua. Você deve se erguer acima de tudo isso, ou pagará o preço para todo o sempre. Qual será sua escolha?
Aquele fora o último esforço do Conselho na tentativa de salvá-la. Mas Olivia erguera a cabeça e pronunciara as palavras que estavam retumbando em sua cabeça havia semanas, as palavras que a tinham levado até ali. Antes que o medo a fizesse mudar de ideia:
— Eu escolho Aeron.
— Mulher?
A voz decidida resgatou Olivia do passado. Era uma voz mais profunda e mais valiosa do que a de qualquer outra pessoa, e também era... necessária. Ela piscou os olhos, e o mundo à sua volta vagarosamente começou a entrar em foco. Estava num quarto que conhecia de cor. Espaçoso, com paredes de pedras prateadas, repleto de quadros de flores e estrelas. O piso era de madeira escura e polida, coberto por um macio tapete rosa. Havia uma cômoda, uma penteadeira e uma poltrona de adolescente.
Muitos zombariam do fato de que um guerreiro tão poderoso e orgulhoso tivesse um quarto tão feminino, mas não Olivia. Os móveis simplesmente provavam a profundidade do amor de Aeron por sua Legião.
Haveria lugar no seu coração para alguém mais?
Olivia pousou os olhos nele, que continuava de pé ao lado da cama sobre a qual ela estava esparramada, observando-a... mas sem demonstrar qualquer emoção, ela percebeu, desapontada. E quem poderia culpá-lo? Que visão ela deveria estar proporcionando! As lágrimas tinham secado em suas bochechas, deixando sua pele esticada e quente. Seus cabelos caíam em cachos desgrenhados, e havia poeira por toda a sua pele exposta.
Ele, por sua vez, estava maravilhoso. Era alto, e seus músculos eram de dar água na boca. Seus olhos eram incrivelmente violetas, adornados por longos cílios pretos. Seus cabelos escuros estavam cortados rentes à cabeça, e Olivia ficou imaginando se, ao acariciá-los, aqueles fios curtos espetariam as palmas de suas mãos.
Não que ele fosse permitir que ela o acariciasse.
Aeron tinha muitas tatuagens, que cobriam até mesmo as feições perfeitamente cinzeladas de seu rosto. Todas representavam coisas terríveis. Esfaqueamentos, estrangulações, corpos queimados, sangue, tanto sangue, cada rosto esquelético talhado em tormento. Porém, entre tanta violência, havia duas borboletas azuis, uma que subia por suas costelas, e outra cujas asas contornavam suas costas.
Os demais Senhores, ela notara, tinham apenas uma tatuagem de borboleta, que era a marca de sua possessão pelo demônio. E ela sempre imaginara por que Aeron tinha duas. Não seria como se seu corpo abrigasse dois demônios, ou algo parecido.
Mais do que tudo, ele desprezava fraqueza. Aquelas borboletas não seriam um lembrete de sua estupidez? Além disso, as outras tatuagens, as mais violentas, não eram para que ele se lembrasse das coisas terríveis que seu demônio o obrigara a fazer?
Quanto a Olivia, por que aquelas tatuagens não lhe causavam repulsa, como aconteceria com qualquer outro anjo? Por que ele continuava a fasciná-la?
— Mulher — ele repetiu, já impaciente.
— Sim? — ela conseguiu resmungar.
— Você não estava me escutando.
— Sinto muito.
— Quem queria me ver morto? E por quê?
Em vez de responder, ela implorou:
— Sente-se, por favor. Olhar para cima para falar com você vai acabar torcendo meu pescoço.
No início, ela não achou que ele fosse aceitar o pedido. Então Aeron começou a agachar-se e abrandar a expressão. Finalmente, seus olhares estavam à mesma altura, e Olivia notou que as pupilas dele tinham se dilatado. Estranho. Aquilo normalmente acontecia com os humanos quando estavam felizes. Ou com raiva. E ele não estava sentindo nenhuma das duas coisas.
— Melhor? — ele perguntou.
— Sim. Obrigada.
— Ótimo. Agora, responda.
Ele era tão mandão. Mas ela não se importava. A recompensa era grande demais. Agora ela podia beber da perigosa visão de Aeron sem fazer qualquer esforço, enquanto conversava com ele. Algo com que sonhara nas últimas semanas.
— O Alto Conselho Celestial quer vê-lo morto porque você ajudou um demônio a escapar do inferno.
Ele franziu a testa.
— A minha Legião?
A sua Legião? Olivia assentiu, retraindo-se. Nunca antes experimentara a dor, mental ou física, e não sabia muito bem como ela a estava suportando. Lucidamente, pelo menos.
Ou talvez soubesse. Os humanos produziam adrenalina e outros hormônios que os deixavam um tanto anestesiados. Talvez ela também estivesse produzindo aquelas coisas, agora que era humana. E, cada vez mais, Olivia começou a se sentir prazerosamente distante do seu novo corpo e daquelas emoções e necessidades nada familiares.
— Eu não entendo. Legião tinha se libertado quando nos conhecemos. Eu não fiz nada para conquistar a... ira de ninguém. — Sua boca ficou tensa ao pronunciar a palavra ira.
— Na verdade, fez sim. Sem você, Legião não teria sido capaz de chegar à superfície, pois estava presa ao submundo.
— Continuo sem entender.
Os cílios de Olivia, repentinamente pesados e aparentemente envolvidos por uma lixa, se fecharam, ah, para conversar sobre outra coisa, mas ela se forçou a reabri-los.
— Na maior parte do tempo, os demônios só são capazes de sair do inferno quando são chamados à terra. É uma pequena brecha que só encontramos muito tarde. Seja como for, quando são convocados, sua ligação com o inferno é quebrada, e eles ficam atados a quem os invocou.
— Mais uma vez, eu não invoquei Legião. Ela veio até mim.
— Talvez não a tenha invocado conscientemente. Porém, no momento em que a aceitou como sua, foi como se tivesse feito isso.
Ele fechou e abriu as mãos, um gesto que, como ela sabia, indicava que estava tentando se controlar. Talvez ele realmente estivesse com raiva.
— Ela tem todo o direito de caminhar por essa terra. Eu sou um demônio e tenho feito isso por milhares de anos, sem qualquer punição.
Verdade.
— Mas seu demônio está preso dentro de você. Então você é o inferno dele. Legião agora está livre de quaisquer amarras e pode ir e vir sempre que quiser. O que significa que ela não tem um inferno, e isso desafia todas as regras celestiais.
Ela podia ver que Aeron estava se preparando para discutir. Talvez ajudasse se ela explicasse as origens do inferno.
— Os demônios mais poderosos já foram anjos um dia. Só que eles caíram. Foram os primeiros a cair, na verdade, e seus corações foram escurecidos; toda a bondade foi varrida deles. Então, em vez de perder suas asas e seus poderes, eles foram condenados a sofrer por todo o sempre. Uma tradição que continuou com sua descendência. Não pode haver exceções. Os demônios têm de estar atados a algum tipo de inferno. Os que quebram esse laço são mortos.
Os olhos de Aeron ficaram vermelhos, brilhantes.
— Você está dizendo que Legião não tem nenhum inferno e que, por isso, deve morrer.
— Sim.
— E também está dizendo que ela já foi um anjo?
— Não. Uma vez no inferno, os demônios aprenderam a procriar. Legião é uma dessas criações.
— E você pensa em puni-la, mesmo sabendo que ela nunca fez mal algum?
— Eu não, mas, sim. Mesmo assim.
— Preste atenção no que vou dizer: não vou permitir que nenhum mal aconteça a ela — disse Aeron, calmamente, mas não sem violência.
Olivia permaneceu em silêncio. Não mentiria para ele e lhe diria o que ele gostaria de ouvir. Não diria que ele e Legião estavam a salvo agora, que seus crimes tinham sido esquecidos pelos seres celestiais. Eventualmente, outro anjo viria para fazer o que Olivia não fora capaz de fazer.
— Ela não merecia ficar lá — ele murmurou.
— Não era para você decidir isso. — A repreensão emergiu docemente, o mais gentilmente que ela conseguiu. E suas palavras eram um eco do que o Conselho lhe dissera, o que a deixou com um gosto ruim na boca.
Aeron inspirou de forma áspera, suas narinas se alargaram.
— Você caiu. Por que não foi atirada diretamente ao inferno?
— Os primeiros anjos a cair deram as costas à Única Divindade Verdadeira, por isso seus corações ficaram escuros. Eu não dei as costas. Simplesmente escolhi um caminho diferente.
— Mas por que foi enviada a mim agora? Não como um anjo caído, mas como uma assassina? Milhares de anos atrás, eu fiz coisas muito piores do que cortar a ligação de um mero demônio com o inferno. Todos aqui fizemos.
— O Conselho concordou com os deuses que você e seus companheiros eram os únicos capazes de abrigar e, talvez algum dia, controlar os demônios que escaparam. Como eu disse, vocês são o inferno deles, e já foram suficientemente punidos por aqueles crimes.
Uma expressão de vitória se apossou de suas feições ao pensar que a flagrara dizendo uma inverdade.
— Ira será libertado no momento em que eu morrer, escapando de seu suposto inferno. E aí? Você ainda pensa em me matar?
Se ao menos aquela brecha não tivesse sido fechada...
— Antes, não tínhamos permissão para matar os Grandes Senhores demoníacos, e isso é exatamente o que seu demônio é. Então eles escaparam das profundezas, forçando-nos a alterar nossas regras de acordo com a situação. Então... eu deveria matar Ira também.
Tal admissão fez desaparecer sua expressão de vitória.
— Você caiu. Isso significa que não concordava com a ordem. Com a minha morte, com a morte do meu demônio e de Legião.
— Isso não é verdade — ela disse. — Acho que você deveria ser poupado, sim. E também Ira, pois o demônio é parte integrante de você. Se eu acho que Legião deve viver nesse mundo? Não. Ela é uma ameaça de formas que você não imagina, e ela provavelmente vai causar enormes danos. Eu caí porque...
— Porque queria liberdade, amor e diversão — ele disse, repetindo suas palavras anteriores, mas pronunciando-as com escárnio. — Por que você foi escolhida para essa missão? Já matou antes?
Ela engoliu em seco, não querendo admitir como as coisas tinham acontecido, mas sabendo que lhe devia uma explicação.
— Reyes... Ele visitou os céus muitas vezes por causa de sua mulher, Danika. Eu o vi uma vez e o segui até aqui, curiosa sobre a vida que um guerreiro possuído por um demônio poderia ter construído para si mesmo.
— Espere. — Aeron fez uma cara feia para ela. — Você seguiu Reyes.
— Sim. — Ela não acabara de dizer isso?
— Mas você seguiu Reyes. — Raiva irradiava dele, através do seu corpo e do tom de sua voz.
— Sim — ela murmurou, compreensiva. De repente, Olivia se arrependeu por não ter mantido essa parte da história em segredo. Sabia o quanto Aeron protegia seus amigos; a cada minuto deveria gostar menos dela. — Mas eu não o machuquei. E-eu... passei cada dia vagando por aqui. — Seguindo você. Desejando você. — Eu fui escolhida porque, mais do que qualquer pessoa, conhecia sua rotina.
Ou os anciãos teriam notado seu crescente desejo por Aeron e imaginado que, eliminando-o, ela também se livraria daquele terrível desejo? Olivia frequentemente se perguntava isso.
— Só para você saber, Reyes tem uma mulher. — Aeron ergueu uma sobrancelha, dividindo os entalhes das almas em sua testa. Almas que gritavam caminhando em direção à condenação. — Mas isso não importa. Eu quero saber como você pretendia me matar.
Ela teria usado uma espada de fogo, como Lysander lhe ensinara, e arrancado sua cabeça. Era a morte mais rápida que um anjo poderia proporcionar, alguém lhe dissera. A mais rápida e a mais misericordiosa, acabada antes que uma única ameaça de dor pudesse ser sentida.
— Há algumas maneiras. — Foi tudo o que ela disse.
— Mas você caiu e agora não é capaz de completar sua missão — Aeron respondeu, com a voz cheia de medo. — Alguém será enviado no seu lugar, certo?
Finalmente, ele estava começando a entender. Ela assentiu.
Sua testa franzida deu lugar a mais uma cara feia.
— Como eu disse, não vou permitir que qualquer mal seja feito a Legião. Ela é minha, e eu protejo o que é meu.
Ah, ser dele, ela pensou, e o desejo dentro dela era mais forte que a terrível dor. Era por isso que estava ali, afinal. Era melhor ter um momento ao lado dele do que uma vida inteira com qualquer outra pessoa.
Ela gostaria de ter mais de um momento, claro, mas um momento era tudo o que tinham. Quando seu sucessor chegasse, e ele chegaria, Aeron morreria. Embora seu coração encolhesse ao pensar nisso, as circunstâncias eram simples assim. Aeron não poderia se defender contra um oponente que não seria capaz de ver, ouvir ou tocar. Um oponente que poderia ver, tocar e senti-lo.
E, conhecendo a justiça do céu como ela conhecia, sabia que seria substituída por Lysander. Olivia falhara, então seu mentor seria o responsável pelo que ela não fizera.
Lysander não hesitaria ao desferir o golpe final. Nunca hesitava. Sim, ele estava diferente agora que se unira a Bianka, uma Harpia descendente do próprio Lúcifer. Porém, afastar-se de Aeron significava que Lysander também teria que cair. Teria de abrir mão de sua eternidade ao lado de Bianka, e isso era algo que o guerreiro de elite nunca faria. Bianka se transformara em tudo para ele.
— Agradeço o aviso. — Aeron se levantou. Se ele dissera algo antes, ela não escutara, pois estava distraída. O que havia de errado com ela? Viera até ali por ele, mas, desde sua chegada, passara grande parte do tempo dentro de sua própria mente.
— De nada. Mas há algo que eu gostaria de ter em troca. Eu... eu... gostaria de ficar aqui. — ela disparou. — Com você. Eu poderia até ajudá-lo em suas tarefas domésticas, se quiser. — Olivia já vira Aeron limpando a fortaleza tantas vezes, reclamando do trabalho que odiava fazer...
Ele se inclinou para soltar os pulsos dela, com movimentos tão delicados que mal causaram dor.
— Temo que isso não seja possível.
— Mas... por quê? Eu não vou causar qualquer problema. Sinceramente.
— Você já causou problemas.
O queixo de Olivia voltou a tremer, a anestesia emocional que experimentara começava a desvanecer rapidamente. Ele ainda quer se livrar de mim. Medo, confusão, desespero; tudo isso a bombardeava. Ela mergulhou o rosto no travesseiro, não queria que Aeron visse sua situação. Já estava em grande desvantagem em relação a ele.
— Mulher — ele murmurou. — Já falei para não chorar.
— Então não me magoe. — Tais palavras saíram abafadas pelo tecido do travesseiro sendo pressionado contra seus lábios e... sim, contra suas lágrimas.
Houve um ruído de roçar de tecidos, como se Aeron estivesse mudando o peso de uma perna para a outra.
— Magoar você? Você deveria agradecer por eu não a ter matado! Você me causou uma dor terrível no último mês. Eu não tinha ideia de quem me seguia, nem do porquê. Minha leal companheira não pôde continuar ao meu lado e teve de voltar ao lugar que tanto odeia.
Um lugar onde merecia estar, apesar de tudo o que Aeron dissera, mas não fazia diferença, como alguns dos Senhores gostavam de dizer.
— Sinto muito. — Apesar de tudo, ela realmente sentia. Logo, ele perderia tudo o que amava, e não havia nada que nenhum deles pudesse fazer para evitar que isso acontecesse.
Não pense assim, ou vai começar a chorar novamente.
Ele suspirou.
— Aceito suas desculpas, mas isso não muda nada. Você não é bem-vinda aqui.
Ele a perdoou? Finalmente, um passo na direção certa.
— Mas...?
— Você é um anjo caído, mas ainda é imortal, certo? — Ele não lhe deu tempo para responder. Suas roupas tinham se regenerado sozinhas, então, na cabeça dele, provavelmente o mesmo aconteceria com ela. — Você estará bem amanhã de manhã. Então quero você longe desta fortaleza.