A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 16 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Dezesseis

 

— NÃO ESTOU VENDO nada — Aeron murmurou, uma hora depois. — Está muito escuro. — Uma escuridão nada natural, aliás. Não havia qualquer sinal de luz, e a lanterna que levara não iluminava nada, apenas desaparecia em meio à pesada escuridão.

— Na noite em que Lysander apareceu para mim, ele me disse que eu continuaria sendo anjo em todos os aspectos importantes até meu prazo terminar — disse Olivia. — Acho que posso...

— Shh. Use sua voz interior. — Ele não queria que ela se tornasse um alvo. Na verdade, esse pensamento o irritava muito. Mas só poderia culpar a si mesmo. Ele não deveria tê-la trazido até ali, fosse Pesadelos uma ameaça ou não. Ele simplesmente... não quisera deixá-la perto dos ataques de Legião. Ou perto dos toques de Torin. E ele prometera mostrar-lhe o lado difícil de sua vida.

Sou um verdadeiro idiota. Um idiota se afogando numa tempestade que ele mesmo criou. Desejo por Olivia: confirmado; ele não diminuíra. Na verdade, apenas crescera. Uma pseudofilha ciumenta, sedenta por sangue, e determinada a acabar com a vida do seu anjo: confirmado. Uma promessa de convencer o citado anjo a voltar para casa: confirmado, mesmo que agora ele se odiasse por ter prometido isso. Enviá-la de volta, sem saber como ela se sairia? Tortura!

— Ela está dormindo — disse Olivia, a todo volume.

— Mas pode acordar — ele murmurou. — Aeron se importara com a escuridão, mas desceu os degraus lentamente e apalpou as paredes da casa de Scarlet, que na verdade era uma cripta subterrânea num cemitério local, esbarrando em... móveis? Caixões?, sem ter ideia do que o esperava, e com a possibilidade de estar levando Olivia à destruição; tudo isso fez com que correntes de medo se misturassem com sua raiva. Como ele poderia protegê-la dessa forma?

— Ela não vai acordar, eu prometo. Aliás, como o meu prazo ainda não terminou, talvez eu possa...

Ao ouvir as palavras de Olivia, ele parou e se virou. Ela bateu nele e soltou um humpf contrariado. Mesmo que a tenha sentido apenas por um breve momento, ele saboreou o contato. Suave, quente. Excitante. Era tudo de que seu corpo precisava para se preparar. Mais uma vez.

Minha, disse Ira.

Eu sei. Você já disse isso. Inúmeras e malditas vezes. E Aeron permitira, deixara de ser importar. Pois... Não. Isso não.

O momento seguinte se passou em silêncio, o único som era a respiração deles. O ar era pesado, como se carregasse o passar dos anos, cheio de poeira e morte, mas ele teria ficado contente de esperar ali pelo resto de sua vida. Ali, ela estaria a salvo. Ali, eles estavam juntos.

— Talvez possa o quê? — ele finalmente perguntou.

— Isso. — Surgiram faíscas de luz.

Ele piscou e esfregou os olhos. Aquelas faíscas estavam realmente saindo de sua pele, ele notou. Elas se misturavam e a intensidade do brilho aumentava. Tanto que Olivia já era capaz de dissipar as sombras, e os olhos de Aeron estavam marejados.

— Como...

Ela sorriu lentamente, com seu lindo rosto iluminado, brilhando como se fosse a mais pura estrela, seus longos cílios servindo de moldura àqueles olhos azuis como o céu. Ele poderia ter beijado o ar que saía de seus lábios. Não ouse. Mas agora que ele já conhecia o seu sabor, que já sentira sua pele esfregando-se contra a dela, como poderia resistir?

Legião. Lysander. Liberdade.

Ah... Ele poderia ter xingado.

— Algumas vezes os humanos ficavam presos na escuridão, e cabia a mim mostrar-lhes a saída. — Olivia mudou o peso do corpo de um pé para o outro e, com o queixo, apontou para a área logo atrás de Aeron. — Scarlet está logo ali, depois daquela curva. Eu posso senti-la.

— Obrigado. — Com movimentos firmes, Aeron forçou o próprio corpo a se virar. Seus olhos imediatamente lamentaram a falta dela.

Ira também uivou em protesto.

Calma. Ainda estamos com ela. Aeron começou a andar pelo caminho certo e empoeirado, e logo entrou num quarto improvisado. Lanças se erguiam em vários pontos do chão, pontiagudas e bem presas ao concreto. Entre elas, fios esticados formavam uma armadilha, e do outro lado do quarto, protegido pela zona da diversão, estava um caixão.

Por que um caixão? Porque assim ela poderia se fechar, garantindo mais proteção? Se fosse por isso, era uma mulher esperta.

Ele apalpou uma lâmina e se aproximou, driblando as armadilhas. Olivia seguia logo atrás, medindo cada passo.

— Cuidado — ele murmurou. — Fique atrás de mim. — Ele abriu a tampa, esperando uma luta já no meio do caminho.

Nada. Como Olivia prometera, Scarlet dormia em paz, completamente alheia à invasão. Ele a estudou. Cabelos pretos e sedosos emolduravam um rosto aparentemente delicado. Não parecera delicada antes, quando o encurralara naquele beco. Seus cílios eram mais longos do que ele se lembrava. Seu nariz era pequeno, e seus lábios estavam mais vermelhos do que antes.

Ela vestia uma camiseta e uma calça jeans, ambas pretas, e havia armas espalhadas por todo o seu corpo. Ela não se desarmava, nem para dormir. Interessante. Até ele tirava suas lâminas antes de dormir. Mantinha todas elas por perto, claro, mas não coladas ao corpo.

Relaxando, desviou os olhos. As paredes estavam sujas, assim como o chão, e havia lâminas em vários pontos. Quem caísse, fosse contra a parede ou no chão, morreria na hora.

Pesadelos poderia ter colocado armadilhas na entrada e até mesmo nos degraus que levavam até lá embaixo, mas não o fizera. Por quê? Talvez por saber que a escuridão absoluta assustaria a maior parte das pessoas, as inocentes, pelo menos. Mas quem persistisse, quem seguisse em frente, claramente teria intenções mais sinistras. Talvez essas fossem as únicas pessoas que ela queria matar.

Se isso fosse verdade, significaria que ela não matava indiscriminadamente. Significava que havia um limite que ela não ultrapassaria. Ou talvez gostasse de matar coisas que estivessem por perto, para que, ao acordar, a primeira imagem que visse fosse sangue e morte.

De qualquer forma, ela não brincava em serviço quando o assunto era se proteger.

Ele quase sentiu vontade de vê-la despertando e atacando-o. Ele precisava de uma batalha. Seus nervos estavam no limite, e um derramamento de sangue o acalmaria. Muitas coisas estavam acontecendo, mudando. Muitas coisas estavam dando errado.

O demônio de Baden encontrara um novo hospedeiro, graças a Galen. Descobrira que Cronos e Rhea eram possuídos. Tudo o que acontecera entre ele e Olivia, claro, e suas roupas provocantes e seus beijos quentes, suas sugestões irresistíveis (naquele momento, inclusive, ele quase sentia falta da voz), e sua tentativa de seduzir outro homem, tudo isso era como lenha na fogueira de sua excitação. E o ciúme. E a raiva.

Sim, ele precisava matar alguém naquele dia.

E, como se tudo isso não fosse o bastante, Legião olhara para ele da forma como ele gostaria que Olivia o olhasse. Ela fizera um pacto com o criador de todo o mal, e mentira descaradamente sobre ele. Foi bem no final dos acontecimentos, antes que ele saísse e a deixasse sozinha; ele não se iludiria mais em relação a isso. Ela demonstrara uma determinação dissimulada.

O que faria com ela? Como deveria lidar com aquela situação? Ainda a amava como se fosse uma filha, ainda planejava mantê-la em sua vida. Não a abandonaria de jeito nenhum. Então... tinha de haver uma solução.

Não pense nisso agora. Você tem um trabalho a fazer. O trabalho, claro. Então. Voltando a Scarlet, o problema mais próximo. Será que Galen sabia algo sobre ela?

— Ela costumava viver numa igreja — disse Olivia, com voz de culpa, antes que Aeron lhe dissesse que precisavam sair dali. — Mas não deu certo para ela.

Por que aquela culpa? Por que ela o trouxera até ali? Provavelmente. Cuidado. Ele não podia deixar que a culpa de Olivia provocasse a sua própria.

— Acho que já pedi para ficar quieta.

— Eu já disse. Ela não vai acordar.

— Como você sabe? — Pergunta boba. Olivia sabia de tudo, ou pelo menos era o que parecia algumas vezes. O que significava que Aeron iria adorá-la. Informação era a melhor amiga dele. Graças à Única Divindade Verdadeira de Olivia, ela iria embora antes que o guerreiro retornasse. Aeron odiaria ter de apunhalar seu amigo por interrogar sua mulher.

Ao pensar nisso, Ira gargalhou de felicidade.

Bem, talvez ele não odiaria ter de esfaquear o guerreiro. Devia aquela a Sabin, afinal. E ela não é sua mulher!

— Esqueça isso. Não importa. Temos de correr, antes que encontremos outros visitantes.

— Quem, por exemplo?

— Os Caçadores.

— Ah.

Aeron talvez quisesse uma batalha com Pesadelos, mas não com o exército de Galen. Não queria ver Olivia envolvida em algo assim. Ele lhe mostraria os horrores de sua vida de outra forma. A uma distância segura.

A cripta de Scarlet ficava a uma boa distância de The Asylum, e isso era um ponto a favor deles.

— ... tão escuro. — Uma voz desconhecida disse de repente, e as palavras ecoaram pelos degraus de pedra logo acima, chegando ao pequeno local onde estavam.

— Minha lanterna não funciona.

— Eu não vejo nada.

— Continue seguindo em frente, droga.

Que inferno. Sim, aquele dia ainda poderia ficar pior. Os Caçadores estavam ali, exatamente como ele temera. Alguém o seguira? Usando o Manto da Invisibilidade?

Alguém o estava observando, ameaçando sua mulher até mesmo naquele momento?

As mãos de Aeron se transformaram em punhos. Ele mapeou a cripta mais uma vez, mas não viu nada fora do lugar. Olhou para Olivia, que ainda estava brilhando, mas com a testa franzida. Depois olhou para Scarlet, que ainda dormia. E, por fim, olhou para a porta.

Aquele espaço aberto e escuro era a única forma de sair dali. Mas para alcançá-lo tinham de passar pelos humanos. Provavelmente, humanos armados.

Aqueles humanos não seriam capazes de enxergar através da escuridão, mas Aeron também não enxergaria nada sem a luz de Olivia. Mas, com ela, todos poderiam ver a todos.

Só havia uma coisa a ser feita. Apenas uma opção manteria Olivia a salvo.

Aeron colocou uma lâmina na mão dela.

— Mantenha-a pressionada contra a garganta de Scarlet — ele sussurrou. — Se ela se mexer, mesmo que muito pouco, não hesite em cortá-la.

Sem dar chance para que ela respondesse, Aeron agarrou Olivia pelo pulso e colocou-a no caixão, ao lado de Scarlet. A mulher que dormia continuou exatamente como estava, mas Olivia arfou. Imediatamente, ele colocou uma das mãos sobre sua boca, balançando a cabeça. Ela engoliu em seco de tanto medo, mas assentiu, indicando que entendera o que ele queria dela. Silêncio.

— Apague a luz.

Mais uma vez, ela assentiu, e o brilho de sua pele começou a enfraquecer... aos poucos, até desaparecer completamente. As sombras deveriam estar esperando por isso, porque elas tomaram conta de tudo, preenchendo todos os espaços com sua escuridão sufocante.

— Merda. Olhe para onde está indo!

— Sinto muito.

As vozes estavam mais perto.

Como Aeron era grande, ele sabia que não caberia dentro do caixão, para proteger Olivia. Não sem amassá-la. Em vez disso, colocou a mão no ombro de Olivia, ou no que imaginara ser o ombro dela. Ele rapidamente puxou a mão, que agora queimava, pois, na verdade, ele tinha segurado seu lindo seio. E seu mamilo imediatamente enrijecera.

Minha. Proteger.

Com mais cuidado dessa vez, ele mirou mais acima. Ombro. Ótimo. Tremendo. Nada bom. Isso significava que ela estava tão nervosa, e distraída, por seu erro quanto ele. Ou talvez estivesse com medo. Aeron preferia pensar que estava nervosa.

Claramente, era ele o distraído. Voltando à ação, obrigou-a a deitar e ficar quieta. Por sorte, ela não protestou. Se ela tinha feito o que ele lhe ordenara e colocado a ponta da lâmina no pescoço de Scarlet, ele não sabia. E só para garantir, ele deixou sua outra mão próxima ao rosto de Pesadelos. Ótimo. Ela continuava parada, e seu hálito banhava sua pele, quente, estável.

Ele não vira qualquer armadilha ao redor do caixão, então deu alguns passos até a parte da frente, afastando-se da passagem para o corredor. E em nenhum momento afastou suas mãos das duas mulheres. Queria que Olivia soubesse que ele estava ali, que a protegeria. Sempre. Teria fechado o caixão, mas preferia ter acesso rápido, caso a outra mulher realmente despertasse.

— Espere — disse um dos homens. — Pare.

— O quê?

— Ar... Está sentindo uma brisa?

— Devemos estar perto de uma abertura.

Muito perto, na verdade.

Seguiram-se sons de passos. Vários. O tremor de Olivia aumentou, e ele a apertou com mais força, para reassegurar que continuava ali.

— Isso só pode ser um quarto. — Uma pausa. Um barulho. — Sim. Sim! É muito espaçoso para ser apenas mais um corredor.

— Ela não pode estar aqui. Não teria conseguido encontrar o caminho.

— Ela é a guardiã da merda do demônio dos Pesadelos. Claro que teria encontrado o caminho. Apenas...sinta o que está à nossa volta. Ela deve estar dormindo. Se encontrar uma pele quente, comece a atirar.

Como eles sabiam tantas coisas? Cronos teria contado algo à sua esposa? Ou alguém teria usado o Manto mais uma vez e escutado suas conversas particulares?

— Claro que não. Nada de tiros. Vamos acabar atirando um no outro.

— Melhor do que permitir que um demônio seja liberto.

Seguiu-se um silêncio de surpresa enquanto o outro Caçador absorvia a vontade de morrer de seu companheiro.

— Ou nós a cortamos, ou eu pulo fora — alguém finalmente disse. Não me recrutei para uma missão suicida.

— Então corte-a, droga, apenas tenha certeza de que vai deixá-la incapacitada, para que possamos carregá-la para fora daqui sem que ela tenha força suficiente para atacar. Todos os sonhos ruins que tivemos na vida foram por culpa dela. Todas as coisas ruins pelas quais passamos vieram dela. Mais passos. Aeron ficou alerta, esperando. Se algum deles conseguisse chegar até o caixão, ele teria que...

Um homem gritou.

— Que merda...

Outro grito. Uma golfada. Seguido de outro, e mais outro.

Não restaria ninguém para se aproximar do caixão.

As armadilhas de Pesadelos dariam conta do recado. Vários dos Caçadores atiraram, mesmo com medo de fogo amigo, mas a escuridão escondia as centelhas causadas pela pólvora. Uma das balas atingiu o ombro de Aeron, jogando seu corpo para trás.

Conseguiu se equilibrar no momento em que vários outros gritos humanos encheram o ar. Mesmo não querendo ver Olivia presa com aquela mulher, incapaz de se proteger, ele também não queria que ela fosse atingida por um tiro. E fechou a tampa do caixão.

— O que está acontecendo?

— Parem — alguém conseguiu dizer, entre as tosses.

Outro grito, dessa vez misturado a uma onda crescente de murmúrios de dor e a um cheiro de sangue fresco.

— Retirada! — alguém ordenou. — Reti... ahhhh!

Seguiu-se mais uma onda de sons de passos, mas o número de pés diminuíra consideravelmente. E depois, enquanto abundavam os gritos e murmúrios, o barulho de passos cessou por completo. Terminado. Era o fim. Era a batalha que ele quisera e desejara, mesmo não tendo levantado um dedo sequer para vencer.

Ele esperou até que o silêncio reinasse antes de levantar a tampa do caixão e dizer:

— Luz.

Imediatamente, Olivia obedeceu. Mais uma vez, aquela luz quase ofuscante irradiou do seu corpo, cresceu e conquistou a escuridão. E Aeron viu que ela estava pálida, mas não estava ferida. Scarlet ainda não se movera.

— Aeron, eu fiquei tão... — Olivia se sentou e girou o rosto na sua direção. Mas sua expressão imediatamente mudou: — Você está ferido.

Ele olhou para sua ferida. Havia um buraco em seu ombro, com sangue jorrando dele, passando pelos músculos de sua barriga, cada gota sendo absorvida através da cintura de sua calça. Agora que sua preocupação com Olivia desaparecera, e sua adrenalina baixara, ele começou a sentir que aquilo doía. Uma dor que se espalhava como fogo, rápida e certamente, como se suas veias bombeassem gasolina em vez de sangue.

Mas não importava.

— Vou ficar bem — ele disse. — Já tive machucados piores, então não tem por que se preocupar.

— Não consigo evitar. — Mordendo o lábio inferior, ela se aproximou e passou os dedos pelo queixo de Aeron. — Estou preocupada.

Aquele toque deveria ser para confortá-lo. Mas, como sempre, senti-la o deixou atormentado. Precisava de mais. Ira precisava de mais e murmurava dentro de sua cabeça.

Agora não é hora para isso. Corpos sangrentos estavam empilhados uns sobre os outros, com lâminas transpassando cada um deles. Alguns tinham caído com o rosto para baixo, outros aterrissaram virados para cima. Todos tinham morrido. Ele teria de agradecer àquela menina pela escolha da decoração, pois ela, mais do que ele, fora a responsável por salvar a vida de Olivia.

Ele não sabia se algum dos Caçadores conseguira escapar daquela sala do terror, mas não esperaria para ver se eles voltariam com reforços. Após ajudar Olivia a se levantar... merda!, e fazer com que sua ferida se abrisse, pegou Pesadelos nos braços, exatamente como pensara em fazer antes de serem interrompidos.

— Fique por perto — ele disse. — E pise somente onde eu pisar.

— Tudo bem.

Ele abriu caminho em direção à entrada, driblando os corpos por onde passava, e fazendo uma careta à medida que o fogo dentro dele aumentava.

Machucado, gritou Ira.

Ele curvou os lábios.

Você, também?

Feio.

Vamos para casa. Descansar. Não havia trilhas de sangue nas escadas, nem mesmo uma mancha. O que significava que ninguém conseguira sair dali. Ótimo. Porém... quando chegaram ao topo das escadas, ele estava tremendo. Estava enfraquecendo. Seus olhos estavam se fechando, e para todos os lados que olhava, via tudo embaçado.

Ira gemeu.

O fogo finalmente desapareceu, mas foi substituído por um frio congelante.

— Aeron?

Ele diminuiu o ritmo, seus movimentos preguiçosos, seus pés tropeçando um no outro.

— Coloque a mão no meu bolso de trás. Pegue o meu telefone. — Naquele ritmo, ele não teria forças para voar com as duas mulheres em direção à fortaleza.

— O que está acontecendo com você? — perguntou Olivia, fazendo o que ele pedira. — É por causa da sua ferida? Você disse para eu não me preocupar!

Ele ignorou a pergunta e a preocupação. Não queria mentir para ela, de novo, e dizer que tudo terminaria bem, mas ele também não tinha uma resposta para dar. Ele e Ira nunca tinham reagido daquela maneira frente a uma simples ferida de tiro.

— Você sabe enviar mensagem de texto? — perguntou, ao virarem uma esquina.

— Não. Já vi humanos fazendo isso, mas nunca tentei.

— E FAZER UMA ligação? — Logo acima, ele finalmente via a luz do sol entrando na cripta. Estava banhado em suor, mas isso não ajudava a aliviar aquela sensação de frio. Seus movimentos estavam cada vez mais lentos, ele estava se arrastando.

— Não — ela respondeu novamente. — Sinto muito.

Droga. Se ele soltasse a mulher, não conseguiria pegá-la no colo novamente. Disso ele sabia. Droga, droga, droga.

Havia apenas duas possibilidades para explicar sua reação, ele percebeu. Ou os Caçadores tinham usado algum tipo especial de bala, ou ele ainda não tinha se recuperado completamente do último ataque.

Já do lado de fora, finalmente, graças aos deuses, Aeron vasculhou em busca de Caçadores que pudessem estar esperando. Não viu nenhum, mas não sabia se realmente não estavam por lá, ou se sua visão continuava embaçada. Pelo menos, ninguém pulou em cima deles.

Voando ou não, ele não conseguiria chegar em casa.

Deu uma olhada em volta mais uma vez, agora buscando um lugar para se esconder. Poucos metros à sua frente, havia uma pedra grande, com flores de todas as cores ao redor, formando uma alcova escondida.

— Por aqui. — Ele caminhou pesadamente para a frente, mais fraco a cada passo.

Olivia passou o braço pela cintura de Aeron, transformando-se em sua muleta.

— Venha, apoie-se em mim.

Ele não queria, ficava envergonhado por precisar fazer isso, e ainda mais envergonhado por realmente gostar de ter alguém cuidando dele. Mas, com a ajuda dela, ele conseguiu.

— Obrigado.

Ele tentou deixar Scarlet no chão, mas seus joelhos fraquejaram e os dois praticamente viraram uma cambalhota para a frente. Ela despencou no chão sem cerimônia, e ele caiu ao lado dela. Mas nem assim Scarlet se moveu.

Exatamente como Ira. O demônio estava em silêncio agora. Misteriosamente.

Aeron rolou para o lado. Olivia, ele notou, estava ocupada arrumando as flores para que formassem um escudo para escondê-los dos olhares curiosos.

— Boa... menina — ele disse.

O sorriso que Olivia lhe dirigiu era cheio de bravura e demonstrava uma vontade de ferro. Fez o coração de Aeron bater com força. Ou ele estava vendo coisas que não estavam lá, ou borboletas estavam realmente voando ao redor da cabeça dela. Havia esquilos aos seus pés, e pássaros pousavam na grama ao seu redor. Todos os animais a observavam, como se quisessem atrair sua atenção.

Com certeza, ele estava tendo alucinações. O que significava que estava bem pior do que pensara. Como sabia que não conseguiria ver os números no telefone, disse a Olivia o que deveria discar.

— Está chamando — ela disse, pressionando o aparelho contra o ouvido.

— Torin — ele disse, quando seu amigo atendeu. — Siga o sinal. Venha nos... buscar.

Ele não ouviu a resposta do guerreiro. Uma escuridão muito parecida com a que experimentara dentro da cripta se fechou ao seu redor, e dessa vez ele podia apenas recebê-la.