A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 27 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Vinte e Sete

ELA FOI ACORDADA pela dor.

Lentamente, Olivia abriu os olhos. Ouviu um bipe. Num primeiro momento, o quarto estava embaçado, como se alguém tivesse passado óleo por ali. Mas depois, pouco a pouco, a claridade diminuía. Não era a claridade total, os seus olhos estavam inchados,, mas o suficiente para notar que continuava naquele armazém, embora em outro local. E que à sua volta havia equipamentos hospitalares. Ela estava presa a fios, eletrodos cobriam seu peito, monitorando seus batimentos. Seu braço quebrado não estava engessado, mas sim preso a um dos ferros da cama.

— Lysander? — E só de pronunciar essas poucas sílabas sua garganta doía. Lágrimas escorreram de seus olhos devastados.

Não houve resposta.

Tentou mais uma vez:

— Lysander.

Mais uma vez, nada.

Ele tinha ido embora. Não a teria ignorado; isso não era do seu estilo. Teria gritado um pouco mais com ela, e agora aqueles gritos seriam bem-vindos. Ela estava sozinha e assustada.

Não, não estava sozinha, foi o que notou ao olhar para o resto da sala. Ao seu lado havia um homem deitado em outro leito. Alguém que ela não reconhecia. Era jovem, talvez vinte e poucos anos, e havia feridas sob seus olhos. Suas bochechas estavam fundas e sua pele, um pouco distorcida.

E olhava para ela.

Quando percebeu que tinha sido visto, ficou corado e disse:

— Eh... Oi. Que bom que está acordada. Meu nome é Dominic.

— Olivia — ela respondeu automaticamente. Ai. Aquilo tinha doído ainda mais.

— Você parece estar mal. — Ele exalava culpa e remorso. — Nós deveríamos ser os caras legais, sabe. Stefano me disse que você é a namorada de Ira. Mas eu não me importo. Você não deveria ter sido ferida dessa forma. Nenhum humano deveria ser ferido dessa maneira.

Ela não precisou perguntar quem era o “nós” a quem se referia o jovem. Eram os Caçadores. Passou os olhos pelo corpo do rapaz, em busca de feridas. Ele estava sem camisa, e tudo o que via eram ataduras em seus ombros. Uma delas com sangue seco aparente. Ele vestia uma calça larga e suja.

— Machucaram... você também?

Ele não pareceu escutá-la, estava perdido em seus pensamentos.

— Disseram-me que o nosso líder é um demônio também. — Ao pronunciar a última palavra, ele começou a tossir. Tanto que espirrou sangue. Quando finalmente se acalmou, disse: — Eu devia ter acreditado neles. Após tudo o que fizeram com você, eu tenho que acreditar neles.

Neles. Nos Senhores? Ela não notava nenhum traço de mentira no tom dele, mas ela também não era mais capaz de notar verdade. De qualquer forma, ela sabia que ele não duraria muito tempo. E odiava a ideia de aquele rapaz morrer ali, daquela maneira. Assim como aconteceria com ela.

Não. Não. Não deveria pensar assim. O seu trabalho era o de levar alegria aos corações, sim, mas isso não queria dizer que não tivesse esperanças. Ela vencera o fogo do inferno. Aguentara a dor de ter suas asas arrancadas do corpo. Então poderia sobreviver àquilo. E sobreviveria.

Dominic se sentou, cambaleou um pouco e esfregou a testa. Quando conseguiu se equilibrar, jogou as pernas para um dos lados do leito e ficou de pé.

— Cuidado — ela conseguiu resmungar.

Mais uma vez, ele parecia não escutar.

— Eles me encontraram nas ruas. Eu era ladrão e garoto de programa, e me disseram que isso não era culpa minha. — Havia uma pitada de vergonha em sua voz, uma vergonha maior do que teria sido seu remorso. — Eles me disseram que era culpa deles. Dos Senhores. E que o demônio da Derrota estava me alimentando, a mim e às minhas circunstâncias. Eu acreditei no que diziam, porque era mais fácil do que culpar a mim mesmo.

— Mentiram — disse Olivia. Ele estava fazendo uma confissão final, e isso quase a fez chorar. Não deveria se importar com a morte. Nunca se importara antes. Mas passara a conhecer a finalidade dela. Aquele homem, que na verdade era um rapaz, jovem ainda, deveria ter tido a chance de continuar vivendo por mais tempo, e vivendo feliz. Mas tudo o que conhecera fora arrependimento e tristeza.

Um passo, dois, ele conseguiu se aproximar do leito de Olivia.

— Sei que eles mentiram. Agora eu sei. Os Senhores, eles me mandaram de volta. Ele me libertaram. Não queriam, mas fizeram isso. Derrota fez isso, e havia compaixão em seus olhos. Eu vi. E os maus não sentem compaixão, certo?

— Não.

— Eu o observei, sabe? Mais do que aos outros. Eu queria matá-lo, mas ele me salvou. E Stefano... O que ele fez com você... — Dominic balançou a cabeça, franzindo a testa. — Não existe compaixão no ato de bater numa mulher indefesa. Galen ficou muito chateado quando descobriu, mas o anjo não puniu Stefano por suas ações.

Galen, chateado pelos seus maus-tratos? Que surpresa.

Quando Dominic finalmente a alcançou, abriu um sorriso tímido, que conseguia ser feliz e triste ao mesmo tempo.

— Aqueles idiotas nunca imaginaram que eu a ajudaria. — E pegou uma gravata que estava amarrada à sua calça. Na ponta, havia um fino pedaço de metal. — Eles estavam enganados. Ao longo dos anos, eu aprendi que temos de estar preparados para tudo.

Os olhos de Olivia se arregalaram, pois ficou surpresa ao ver que o rapaz a estava libertando. Mais uma vez, ficou com os olhos cheios de lágrimas. A dor era insuportável, quase atirando-a de volta ao vazio. Por sorte, o metal se abriu antes que ela caísse, libertando-a, e de alguma forma amenizando sua agonia.

— Obrigada.

Ele assentiu.

— Temos dez minutos. Talvez. Alguém virá ver como você está. — Enquanto falava, ele ajudava Olivia a se levantar. — Além do mais, eu deveria chamar Galen quando você acordasse. Mas claro que não vou fazer isso. — E, após uma pausa, disse: — Quando chegarmos à porta, vamos girar à esquerda. Passaremos por outras portas, e com sorte o meu corpo poderá esconder o seu. Há homens ali, poucos, mas mesmo sendo do corpo médico, não vão hesitar em atirar quando perceberem quem é você, e que está livre.

Insegura, Olivia apoiou o peso do corpo no pé esquerdo, depois no direito. Conseguiram. Um suspiro de alívio fez com que ela abrisse os lábios, e isso doeu. Seus lábios estavam cortados, e o movimento, embora rápido, foi doloroso.

— Não posso ir embora sem o Manto — ela disse. — Onde está...

— Impossível. Galen o mantém com ele o tempo todo. A única forma é aproximando-se dele, e você não vai sobreviver se fizer isso.

Dominic tinha razão. Ela não teria forças para derrotar Galen. Mas não poderia deixar que permanecesse com o Manto. Ele poderia sequestrar alguém mais. E o faria. Galen não hesitaria, e talvez não fosse tão... brando com a próxima vítima.

— Vamos — ele disse, e passando o braço pela cintura de Olivia ajudou-a a seguir até a única porta.

— Onde está Galen agora?

— Ah, não. Eu sei no que você está pensando. Mas eu já disse. Não podemos fazer isso. Não mesmo.

— Eu preciso tentar — ela disse, deixando sua determinação falar mais alto.

Ele ficou paralisado, fechou os olhos. Ela podia sentir seu coração batendo forte, muito forte.

— Ele está aqui. Esperando. Impaciente. — Ele deu uma risada amarga. — Eu tentei acordá-la antes, mas você estava fora de si.

Se ela fugisse, Galen deixaria aquele lugar e nunca voltaria, pois sabia que os Senhores poderiam aparecer a qualquer momento. E ela não saberia onde encontrá-lo, um luxo a que não poderia se permitir.

— Quero que siga o seu caminho — ela disse. E olhou para todas as direções. — Os Senhores vão ver você quando chegar à colina. Pergunte por Aeron e diga a ele que...

— Não — disse Dominic, balançando a cabeça. — Quantas vezes vou ter que dizer...? Você não pode vencer Galen. Ele vai matá-la antes que consiga fugir com o Manto. Eu estou morrendo mesmo, e não me importo de morrer aqui ou em qualquer outro lugar. Mas você... Não — ele disse mais uma vez. — Eu não vou permitir. Não quero morrer sabendo que não fiz nada para ajudá-la.

Ela abriu a boca para protestar, para dizer tudo o que pudesse a fim de convencê-lo a fazer o que ela queria, mas o som de passos e de um tiro sendo disparado a distância a deteve.

Dominic ficou paralisado

— Ele está voltando para ver você — murmurou, horrorizado. — Droga. Droga. — Ele a arrastou mais uma vez para trás da porta, pressionando-a contra a parede logo ao lado, onde poderiam ficar escondidos quando a porta se abrisse.

— Não posso ir embora sem o Manto. Simplesmente não posso.

Mais uma vez, Dominic fechou os olhos, como se estivesse pesando as opções. E demorou apenas um segundo, que pareceu uma eternidade, mas quando voltou a abrir os olhos, parecia mais decidido que nunca.

— O Manto está no bolso dele. Quando é dobrado, diminui de tamanho. É cinza, macio. Pegue-o e corra. Não olhe para trás. Corra, está bem?

Como o dele, o coração de Olivia batia violentamente contra as suas costelas. O suor tomava conta da sua pele, suas pernas tremiam, e sua boca estava seca.

— E você?

Ele dizia estar pronto para morrer, mas ela não estava pronta para ver isso. Ele era um cara legal, que vira muitas coisas ruins em sua curta vida. Merecia um final feliz.

— Vou cuidar de Galen. Tudo bem? — Ele tirou mais uma gravata da calça, e dela pendia uma lâmina. — Tudo o que você deve fazer é aproximar-se dele, enfiar a mão nos seus bolsos, pegar o que puder e correr.

Bolsos. Galen vestia uma túnica como a sua, então ela sabia que havia três bolsos. Dois no lado direito e um no esquerdo. Parecia impossível meter as mãos nos três ao mesmo tempo. Mas ainda assim, ela disse que tudo bem e rezou para que tivesse feito a escolha certa.

A porta se abriu, e Galen entrou. Parou no centro da sala, movendo a cabeça de um lado para o outro, observando os leitos vazios. Olivia não pensou no que faria a seguir, simplesmente avançou para cima dele e meteu a mão em dois de seus bolsos.

Ele xingou e tentou empurrá-la. Talvez Lysander a estivesse ajudando, pois Galen não conseguiu o que queria.

Seu braço quebrado pulsava, e seus dedos demoravam a reagir aos comandos mentais, mas ela agarrou tudo o que conseguiu, girou o corpo e saiu correndo. Simplesmente saiu correndo. Exatamente como Dominic lhe orientara. Dedos alcançaram sua cabeça e a puxaram, mas ela seguiu em frente.

Passou pela porta, e esperou que mãos pesadas pousassem em seu ombro ou agarrassem seus cabelos mais uma vez, mas isso não aconteceu. O que ouviu foi um tiro, um grito de dor e percebeu: Dominic acabara de atingir Galen.

Mas aquilo não deixaria o imortal fora de combate por muito tempo.

Pelas portas abertas dos outros quartos, vários homens saíram aos corredores. Quando seus olhares confusos e em pânico a encontraram, ela aumentou a velocidade e olhou para o seu prêmio. Ali, bem na palma de sua mão, havia um quadrado cinzento.

Alívio. Excitação. Sim, ela sentia tudo isso. E assim recuperava suas forças. Atirou todo o resto ao chão, pois não eram coisas importantes naquele momento. Desatenta, bateu contra uma sólida parede humana.

Aquilo a assustou, mas não o suficiente para fazer com que largasse o que tinha nas mãos mesmo quando caiu no chão. Quando os homens se abaixaram para agarrá-la, ela colocou o Manto sobre os ombros.

Em um minuto, ela podia ver seus membros, no outro, não via nada. Nem pense em respirar. Fique quieta.

Os homens se viraram, franziram suas testas, procurando por ela. Atiraram para o local onde ela estivera antes, mas Olivia já saíra dali. Caminhava colada à parede, e eles passaram por ela, gritando por ajuda.

Galen saiu do quarto, com sangue derramando de sua ferida. Ele cambaleava e arrastava um inconsciente, Dominic. Por favor, que ele esteja vivo.

— Para onde ela foi? — perguntou.

— Não sei.

— Ela simplesmente desapareceu.

Galen passou a língua nos dentes. Soltou o corpo de Dominic, que não demonstrava qualquer sinal de vida.

— Ela não pode ter ido para longe. Está ferida. Espalhem-se e busquem pelo covil do demônio. Ela foi para lá. Caso sintam a presença de algo que não possam enxergar, atirem. Caso escutem uma mulher ofegando, mas não vejam nada, atirem. Entenderam? Estou cansado de ser bonzinho. Ela está com algo que me pertence. Mas não pisem na colina. Se fizerem isso, os Senhores poderão ver vocês, e eu ainda não estou pronto para a batalha.

Um coro de “sins” ressoou, depois os homens saíram.

Galen ficou parado por um tempo, trincando os dentes, respirando fundo. Olivia resolveu não arriscar um suspiro, simplesmente segurou o oxigênio no nariz e esperou. Finalmente, ele foi embora, seguindo os outros homens.

Ela caminhou na ponta dos pés para não fazer barulho e pousou os dedos no pescoço de Dominic. Não havia pulsação. Seu queixo tremeu e lágrimas voltaram a encher seus olhos. Ele estava pronto para morrer, queria morrer, mas ainda assim ela ficou com o coração partido. Ele nunca soubera o que era a alegria. E deveria ter tido uma chance de conhecer a alegria.

Peça por sua alma. Depois. Você não vai poder ajudar ninguém se também morrer. Olivia ficou de pé, com lágrimas escorrendo pelas suas bochechas como se fosse chuva. Mal podia ver o que havia à sua frente, mas continuou, percorrendo o mesmo caminho que Galen.

O corredor terminava num espaço vazio, que levava a uma porta fechada. A saída? Provavelmente. A fresta entre as portas duplas deixava entrever um pouco da luz do sol.

Engolindo em seco, ela esticou o braço machucado e abriu a porta. O ar quente a envolveu instantaneamente. E o sol brilhava sobre um estacionamento. Brilhava demais para os seus olhos desacostumados a ele. Ainda assim, ela piscou e encarou.

Até um sorridente Galen atravessar o seu caminho.

Ele tinha as asas completamente abertas, e ela caminhava muito rapidamente para poder frear. Bateu contra o corpo do anjo e cambaleou para trás, caindo contra o muro de metal do armazém. Chocada, engolindo em seco, ela escorregou para o chão de pedras.

— Imaginei que ficaria para trás, para dar uma olhada no seu garoto — ele disse, sorrindo abertamente. — Seus amigos o mataram, e mesmo assim você queria levá-lo de volta para eles. Que decepção. Tão previsível.

Idiota!

Ele caminhou em direção à porta, e Olivia saiu da frente, agarrando o maior número de pedras que pôde. Ficou de pé, com cuidado para não fazer barulho, e Galen acabou batendo contra o muro.

— Não tem problema — ele disse, endireitando o corpo. — Posso ver as suas pegadas. Tudo o que tenho de fazer agora é segui-las.

Obrigada pelo aviso. Ela começou a se mover para todos os lados, buscando um caminho mais seguro. Mas a área era suja e arenosa, ou seja, para qualquer lado que fosse, seus passos ficariam marcados. E ele a seguiria.

— Se fugir, irei atrás de Aeron. E vou cortar sua cabeça enquanto você observa a cena, sem poder fazer nada.

Ele a procurava, tentando agarrá-la no momento em que Olivia recuasse.

Lentamente, com passos pequenos e agonizantes, Olivia caminhou para trás. E Galen a seguia. Ela olhou para trás. Pouco mais à frente havia uma área agitada, com grande volume de carros e vários prédios. Os Caçadores devem ter escolhido aquele lugar para o caso de terem de se esconder, mas não contavam com o fato de que aquilo também poderia ajudar os seus prisioneiros a se esconder. Tudo o que tinha de fazer era chegar lá, e estaria a salvo. Ele nunca a encontraria.

O problema era que ele era rápido, mais rápido que ela, e não estava ferido. Se ela corresse, Galen a alcançaria. Valeria a pena arriscar.

Resgatando uma reserva de energia que nem ela sabia ter, Olívia correu. Ouvia um barulho e sabia que Galen a seguia muito de perto. Seu corpo gritava de protesto a cada passo que dava, mas Olivia não parava de aumentar sua velocidade.

Estava quase lá quando... Galen agarrou o Manto e puxou-o. Uivando e puxando o tecido com sua mão livre, para que não se soltasse das suas costas, ela virou uma esquina e bateu contra um grupo de pedestres. Dois deles caíram para trás, revelando seus ombros e braços. Ofegante, Olivia voltou a colocar o Manto sobre os ombros, para depois bater contra uma parede.

Atirou as pedras que carregava nas mãos contra um poste. Pop. Pop. Pop. E observou enquanto Galen seguia em direção ao tal poste, imaginando que ela estaria lá.

Tão perto... Tão perto do desastre... Mas ela conseguira. Realmente conseguira.

Sua respiração era quente e apressada, queimando sua garganta e seus pulmões. O suor era abundante naquele momento, e ela provavelmente exalava algum cheiro. Suas pernas voltaram a tremer. Infelizmente, não poderia seguir em direção à fortaleza, pois Galen estaria lá quando ela chegasse. E não poderia ligar para Aeron, pois não sabia seu número.

Mas precisava fazer alguma coisa, ir para algum lugar. Não poderia simplesmente ficar parada ali.

Usando a parede para escorar o corpo, deu um impulso para frente, virando várias esquinas, perdendo-se entre a multidão. Finalmente, encontrou um beco vazio e cheio de sombras. Sentou-se. Um erro. Assim que o seu corpo parou, ela notou que não teria forças para voltar a caminhar. Seus músculos estavam colados aos ossos, e toda a energia desaparecera.

— Lysander — ela sussurrou. E esperou.

Mais uma vez, nada.

Sozinha. Que pensamento terrível. Aquele não era o melhor lugar para se esconder. Alguém poderia pisar em suas pernas invisíveis. Mais do que isso, os Caçadores provavelmente estariam fazendo uma busca por todos os becos. Mas...

Ela fechou os olhos. Só por um instante. E tentou respirar fundo. Depois conseguiu se levantar e se mover outra vez. Porém... deve ter caído no sono, pois quando voltou a abrir os olhos, ainda incapaz de caminhar, viu que o sol já tinha se posto, e a lua começara a brilhar.

Sua dor era enorme, sua determinação estava abalada. Não conseguiria... Não poderia seguir em frente. A morte seria o próximo passo. Ela não lutaria. Ela iria...

— Olivia — ouviu uma voz masculina lhe chamar. — Venha, querida. Sei que está aqui. Sua trilha espiritual termina aqui. Mas eu não vejo você. — E um segundo depois um corpo se materializou.

Era Lucien. Ela o reconhecia, embora nunca tivessem sido propriamente apresentados. Sabia que ele carregava o demônio da Morte. Bem apropriado... Ele poderia escoltá-la...

— Não vou lhe fazer mal. Só quero ajudar. Aeron está procurando por você.

Com mãos trêmulas, ela conseguiu tirar o Manto dos ombros.

— Eu... eu estou aqui. Aqui.

Lucien arregalou os olhos quando ela apareceu de repente.

— Ah, querida. Sinto muito. Tudo ficará... — Ele balançou a cabeça. — Não temos tempo para explicações sobre o que está acontecendo. Há uma alma no armazém onde você foi torturada, e preciso levá-lo ao outro mundo.

— O nome dele é Dominic — ela disse, com a voz abalada. — Ele me salvou. Seja gentil com ele, por favor.

— Serei — disse Lucien, desaparecendo.

Ela dobrou o Manto da melhor forma que pôde e ficou esperando. Lucien reapareceu com Aeron.

Todos os pensamentos desapareceram da sua mente. Aeron. Inesperado. Bem-vindo.

— Pensei que você... A alma...

— Vou cuidar disso agora. Vamos nos ver na fortaleza — disse Lucien, desaparecendo mais uma vez.

— Ah, querida — disse Aeron, gentilmente, e sentou-se ao lado dela. Mesmo com toda aquela gentileza, Olivia notava sua preocupação e raiva. Mas ali estava ele, e a salvo após a batalha. — O que eles fizeram com você?

Assim como Lucien, ela não teria tempo para explicações.

— Eles estão aí fora, procurando por mim. Ao redor da fortaleza.

Ele ficou atento imediatamente, olhando em volta.

— Não vejo ninguém por perto. Você está a salvo. Vou ligar para Torin e avisar o que está acontecendo. Quem quer que esteja por lá, será varrido da área antes de nossa chegada. — E com uma expressão gentil no rosto, tirou um frasco do bolso e pousou-o nos lábios de Olivia. — Beba, querida, beba.

Ela sacudiu a cabeça. Não havia razão para gastar uma gota com ela. Logo estaria em casa e...

Determinado, ele abriu os seus lábios, e o líquido escorregou por sua garganta. Mais do que isso, caiu maravilhosamente em seu estômago. Em poucos segundos, percorria todo o seu corpo, devolvendo-lhe toda a força que perdera. A dor a abandonou por completo, deixando uma sensação de prazer em seu lugar.

Homem teimoso.

— Você não deveria ter me dado tanto. — Até sua garganta se curara, e as palavras saíam sem dificuldade.

— Eu teria lhe dado todas as gotas, se fosse preciso.

Que homem doce. Doce e equivocado. Ela não queria ouvir aquele tipo de coisa. Não naquele momento. Pois isso tornaria sua separação ainda mais difícil.

— Como você me encontrou?

Ele estreitou os olhos.

— Sei que você não iria embora sem dizer adeus. Então pedi a Lucien que seguisse o seu rastro espiritual. O que significa que ele viu todos os lugares por onde você esteve, seguiu todos os seus passos. Nunca vou me perdoar por termos demorado tanto para encontrá-la. E vou matar aquele idiota do Galen, mesmo que seja a última coisa...

— Aeron — ela o interrompeu. Não queria vê-lo em perigo por ela. — Apenas me abrace.

Ele passou os braços pelos joelhos e costas de Olivia, depois a ergueu, pressionando-a contra o seu peito.

— Quando chegarmos em casa, você vai me contar tudo o que fizeram com você. Poderá me contar também o que os demônios fizeram naquela primeira noite. — E a cada palavra, sua voz ficava mais áspera. — Depois eu encontrarei Galen e os demônios... E eles me pagarão. Ninguém sai vivo depois de machucar a minha mulher.