A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 14 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Catorze

STRIDER CAIU NO chão quando uma bala passou zunindo por sobre seu ombro.

— Sinto muito — Gwen murmurou fazendo uma careta. Seus cabelos vermelhos estavam presos num rabo de cavalo e seus olhos dourado prateados brilhavam. — Estou com problemas para controlar meu lado obscuro, sua Harpia, e por isso achei melhor carregar uma arma.

Uma arma com a qual nunca trabalhara antes. Uma Dead Hunter especial que ele mesmo melhorara.

Droga, aquela tinha sido por pouco. Quase fora atingido por fogo amigo. Aí sim as coisas poderiam ter piorado bastante. Mesmo que ela não tivesse tido a intenção de atingi-lo, seu demônio teria encarado o tiro como um desafio. Gwen teria vencido, e ele teria ficado se contorcendo no chão por dias, em agonia.

Como ele perdera um desafio para os Caçadores havia poucas semanas, pois Gwen e Sabin haviam deixado o pai dela escapar, algo pelo qual ele ainda estava tentando perdoar os dois, as consequências da derrota continuavam vivas em sua mente, e ele não estava ansioso por repetir tal experiência.

— Apenas tire o dedo do gatilho — ele disse. — Não sabemos para onde foram os Caçadores, nem onde estão escondidos, e eles não sabem onde estamos. Tiros poderiam delatar nossa localização.

— Certo.

Balançando a cabeça, Strider esticou o corpo. Olhou em volta. Árvores grandes e exuberantes o cercavam e a grande parte dos guerreiros que haviam estado com ele no templo, e que, assim como ele, tinham sido enviados para... para seja lá onde estivessem. Próximos à água, como antes, isso ele sabia. Podia ouvir o barulho calmo do mar a alguns metros de distância, e a areia dourada brilhava a seus pés, grudando em sua pele.

Amun e Maddox estavam naquele momento em busca de sinais do inimigo.

Obviamente, ideia de “presente” dos Impronunciáveis fora levá-los, juntamente com 16 Caçadores armados, para um lugar desconhecido. Todos já estavam ali havia 24 horas, tinham enfrentado um intenso tiroteio, haviam se esforçado bastante para ficar em segurança, e agora isso. Esperar. Procurar. Era como as lutas de box que Strider gostava de ver pela televisão: os Senhores de um lado, os Caçadores do outro. Mas quando tocaria o maldito sino que dava início à luta?

Em pouco tempo, se tudo acontecesse como ele queria.

Seu telefone tocou, sinalizando um possível êxito. Em um aspecto, pelo menos.

— Ótimo! — ele disse, socando o tronco de uma árvore, animado. — Minha mensagem finalmente foi entregue a Lucien.

Estivera tentando contatar seus amigos em Buda havia mais de 24 horas, mas sem sorte. Ou aquelas criaturas poderosas haviam impedido que ele se comunicasse, ou as torres de telefone celular eram escassas naquela área. Ele apostava que era culpa das criaturas. Ele precisava que Lucien trouxesse mais armas e munição. De jeito nenhum eles sairiam daquele lugar sem antes capturar cada um dos Caçadores. Ou matá-los. Ele não deixaria por menos.

Agora que a mensagem estava entregue, as linhas de comunicação se abririam. Seria um sinal de que os Impronunciáveis estavam deixando de interferir na batalha?

Poucos segundos mais tarde, seu telefone fez um novo sinal. Ele levantou a tela para ler a mensagem de Lucien: Tentei viajar até aí, mas algo está me bloqueando.

Droga. Eles ainda estavam interferindo, embora não estivessem tão restritos.

Passou a má notícia aos demais, dispersos ao seu redor, e todos suspiraram.

— Vamos ficar bem — disse Sabin. — Se nada mais puder ser feito, Gwen é capaz de rasgá-los, como uma faca rasga a seda.

Strider sabia que tal declaração não era um típico exagero de marido orgulhoso, mas sim a verdade. Quando era tomada por seu lado obscuro, Gwen era capaz de imobilizar um exército de imortais sozinha. Humanos seriam brincadeira de criança para ela.

— Se a minha Harpia decidir aparecer... — ela murmurou. — Esperem. Não há se. Ela vai aparecer... Eu vou acordá-la. — Quando se tratava de Sabin, ela faria qualquer coisa para protegê-lo. Algo que todos naquele pequeno acampamento sabiam muito bem, pois já tinham sido cortados pelas garras de sua Harpia uma ou duas vezes durante os treinamentos.

Não se preocupe, Strider digitou, voltando sua atenção ao telefone. Vamos dar um jeito.

A boa notícia é que Galen está aqui em Buda, e não junto ao grupo.

Estranho, pois Galen estivera presente naquela visão. Vocês estão prontos para ir?

Vamos ficar bem. Mas devo avisá-lo que aquele idiota, de alguma maneira, conseguiu colocar as mãos no Manto. Ele poderia estar na fortaleza, e nós nunca saberíamos.

Merda! Aquilo só piorava. Galen tinha um dos artefatos, e um bem poderoso. Assim que tudo ali terminasse, Strider faria o que fosse necessário para roubá-lo. Enquanto isso, era a sua vez de dar uma notícia-bomba: Parece que Esperança está tendo muito trabalho ultimamente. E eu devo avisar a VOCÊ que Galen conseguiu unir o demônio da Desconfiança a um de seus soldados. Uma mulher. Achamos que ele deve estar em busca de sangue agora.

Num primeiro instante, Lucien não respondeu. Estaria provavelmente lutando contra o choque, assim como Strider e os outros tinham feito. Desconfiança, a única coisa que restava de Baden, agora estava em mãos inimigas.

Galen ainda precisava da Caixa de Pandora?, ele se perguntou agora. Com a caixa, ele poderia reunir todos os demônios de uma vez, sem ter de procurar por eles depois. Então sim, provavelmente.

Finalmente, veio outra mensagem: Isso é ruim. Muito ruim. E acho que só vai piorar. Aeron convocou uma reunião. Descobriu alguma coisa. Darei mais notícias quando souber do que se trata. Enquanto isso, tenha cuidado.

Você também.

Um galho se quebrou. Todos ficaram paralisados, e imediatamente a metade deles apontou suas armas na direção do barulho; e a outra metade, na direção oposta, só para garantir. Amun e Maddox apareceram no meio do arbusto, e todos relaxaram. Amun carregava um homem, um humano, atrás dele. Com expressão séria, atirou o corpo imóvel no centro do acampamento.

Enquanto Maddox o amarrava, Amun contou o que tinham descoberto.

Strider sempre admirou a capacidade de Amun de reter as lembranças, o deixava com uma nova voz na cabeça sempre que isso acontecia, mas parecia um preço baixo a ser pago por saber o que as pessoas ao seu redor pensavam. Porém, como acabara de receber uma nova leva de memórias, Strider sabia que seu amigo demoraria um tempo antes de voltar a falar novamente.

— Os Caçadores montaram acampamento mais ou menos dois quilômetros ao norte do nosso, e este cara estava de guarda. Eles planejam esperar o nosso ataque no terreno deles, onde poderiam facilmente nos ferir, enquanto ficavam protegidos atrás de barricadas — disse Sabin, interpretando Amun. Depois riu, mas sem demonstrar humor. — Todos nós vimos Desconfiança se unir àquela mulher. Eles não vão apenas tentar nos ferir. Vão querer cortar as nossas cabeças.

— Fica ainda melhor — disse Strider, colocando o telefone no bolso. — Galen está de volta a Buda, e ele tem o Manto da Invisibilidade.

Por longos minutos, o silêncio dominou o círculo dos Senhores. Depois, ele sentiu as vibrações de raiva enquanto pensavam nas consequências. Só em seguida ele pôde escutar os xingamentos murmurados.

— Obviamente não podemos ficar aqui por muito mais tempo, mas também é óbvio que não podemos deixar esses caras irem embora. Maddox poderia nos levar ao acampamento deles, e lutaremos com eles, em seu terreno, como eles queriam. — Sabin ficou de pé, com as mãos em punhos. — Mas eles não vão gostar nada do resultado. Não demonstraremos qualquer compaixão. Não levaremos prisioneiros.

Entre murmúrios de concordância, Strider e os outros se levantaram. Facas foram empalmadas por Kane e Reyes. Armas foram empunhadas por Gwen e pelo próprio Strider. Não, não, não. Ele venceu a pequena distância para se colocar à frente dela e pegou a Sig Sauer modificada da sua mão.

— Eu fico com isso — ele disse.

— Ótimo. — Ela sorriu timidamente, depois acenou com seus dedos em forma de garras. — Posso fazer melhor sem isso mesmo.

— Todos nós daremos o nosso melhor.

Sabin a abraçou com força.

— Vou ajudá-la a invocar sua Harpia depois que Maddox nos der as indicações. Maddox?

Maddox foi até o centro do grupo e ajoelhou na areia. Desenhou um círculo deformado.

— Estamos em outra ilha. Estamos aqui, e eles estão aqui. — Seus dedos dançavam entre os grãos dourados. — Os Impronunciáveis devem ter oferecido a eles fortificações extras, pois encontrei armadilhas de aço aqui, aqui e aqui.

Amun sinalizou.

Mais uma vez, Sabin traduziu para Maddox e Reyes, que não tinham passado os últimos mil anos ao lado do guerreiro silencioso.

— O dorminhoco ali — ele disse, apontando para o guerreiro imóvel — estava patrulhando o perímetro do acampamento junto a outros três.

— Se nos dividirmos, podemos cercá-los e nos aproximarmos mais, com um guerreiro diferente abatendo cada um dos guardas remanescentes, sem deixar espaço para que os outros fujam e se escondam. — Strider adoraria acabar sozinho com todos eles, um a um, mas não havia tempo.

— Ótimo — disse Sabin, com um aceno positivo de cabeça. Ele esquematizou quem iria para que lugar. — Não me importa se tiverem que rastejar, mas não deixem que eles vejam vocês. Estão esperando por nós, como disse Sabin, então, quanto mais surpresa for o nosso ataque, maiores as chances de termos sucesso. E quando forem espiar o acampamento deles, não se movam até escutarem meu sinal. Quero liberar meu demônio em cima deles antes do nosso ataque. — Dúvida poderia fazer o mais bravo dos guerreiros se transformar num bebê chorão. — Quero que se movam o mais sutilmente que puderem. Vamos pegá-los antes que se deem conta de que eliminamos um dos seus. Isso se já não se deram conta.

Com um sorriso forçado, Strider os saudou e saiu de cena. Na maior parte do tempo, ele adorava essa parte da sua vida. Adorava o desafio das batalhas, a corrida pela vitória. A adrenalina sempre pulsava em suas veias, deixando-o mais rápido e mais forte. Como agora. Ele se esquivava de galhos de árvores e saltava sobre pedras, sempre se misturando às sombras.

Você precisa de um triunfo, seu demônio choramingou.

Alguns Senhores podiam ouvir seus demônios claramente; outros simplesmente os desejos de suas metades. Strider só conseguia escutar o seu antes e depois de uma batalha. Talvez porque, naqueles momentos, Derrota fosse o mais forte e o mais preocupado.

Vou conseguir um. Prometo.

Tem certeza?

Quem é você? Dúvida? Sim, claro que tenho certeza.

De vez em quando, o sol surgiria por entre os topos das árvores e se derramaria no chão como um refletor. Como de costume, ele rolou até que se encontrasse nas sombras novamente. Infelizmente, ela não estava entre os que encontrariam um guarda. Porém, finalmente chegou ao seu destino e diminuiu o ritmo. Teve cuidado, evitando que alguma coisa fosse esmagada sob suas botas. Depois, ouvindo um murmúrio de vozes nada familiares, ele se deitou, como lhe fora ordenado, e abriu caminho devagar por entre um arbusto, às margens do acampamento dos Caçadores.

Tudo o que via era um muro de pedras, mas havia brechas entre várias daquelas pedras, com canos de armas posicionados em todas elas. Então ele ouviu os sussurros.

— Rick ainda não voltou.

— Ele está apenas cinco minutos atrasado.

— Talvez tenha se perdido.

— Por favor. Os Senhores do Mundo Subterrâneo estão aí fora. Rick já está morto.

— Sim, você está certo. Eu sei que está. Eles não têm moral nem consciência, então matar um homem inocente não seria estranho para eles. Mas, droga, eu gostava dele.

Inocente? Por favor.

— Não deveríamos esperar que eles viessem até nós. Nós deveríamos atacar primeiro. Está claro que temos um ou dois deuses do nosso lado. Esse esconderijo apareceu do nada. Nossas armas e armadilhas, também. E por que teríamos sido trazidos aqui, com os Senhores, se não fosse para finalmente destruí-los?

Boa pergunta. Aqueles Caçadores deveriam ser o presente para os Senhores, mas estavam armados e protegidos. Ou talvez o presente fosse a própria batalha. Não para os Senhores, mas para os Impronunciáveis. Talvez eles gostassem de assistir a derramamentos de sangue.

Um homem deve ter ficado de pé, pois de repente Strider pôde ver o topo de sua cabeça.

— Calem suas malditas bocas, todos vocês! Estamos lidando com demônios, a praga das nossas vidas. Precisamos nos manter em alerta.

Fanáticos, pensou Strider, com nojo. Queriam jogar a culpa de seus problemas em alguém. O que era perfeitamente compreensível, ele pensou, mas errado. Os humanos tinham o livre-arbítrio. E, na maioria dos casos, esse livre-arbítrio era o real motivo de seus problemas. Eles decidiam o que iriam comer, quanto iriam beber e com quem iriam dormir. Decidiam se usariam drogas ou não, ou se entrariam num carro destinado a bater.

— E se... e se eles forem muito fortes e nós morrermos aqui?

— Eles querem se vingar pelo que fizemos a Mentiras, sem dúvida. Vão cortar nossas mãos, assim como nós cortamos as dele.

Strider lutou contra um sorriso. Dúvida estava fazendo seu trabalho. A qualquer momento Sabin iria...

O assobio de Sabin ecoou.

Ding, ding. Enfim, lá estava ele, o sino que indicava o início da luta. Strider se levantou de um salto, os canos de suas duas armas a postos. Mirou em todos aqueles espaços vazios entre as pedras e apertou os gatilhos simultaneamente. Pow, pow.

Gritos surgiram.

Com o canto do olho, viu Reyes aparecer de trás de uma árvore, sair correndo e subir o muro, lançando uma faca pelo caminho. Mais um grito. Maddox também correu para a frente e pulou o muro com um único salto. Tiros foram ouvidos. Porém, Maddox não carregara nenhuma arma, Strider percebeu, sentindo seu estômago se revirar. Ele era o alvo, e usava seu corpo como distração.

Sabin rapidamente se juntou a ele, e Kane tentou fazer o mesmo, até uma bala ricochetear em uma pedra e atingir seu ombro. Kane xingou alto e por um bom tempo, enquanto Strider deu a volta no muro, destruindo o maior número de armas que pôde através dos buracos.

Depois, um vento com cheiro de limão bagunçou os cabelos de Strider, e ele ficou imóvel. Gwen, pensou. E como previra, identificou o borrão dos seus cabelos enquanto ela se lançava por sobre o muro e caía dentro do círculo. Sabin claramente cumprira sua promessa. Strider foi atrás dela, permanecendo na parte mais alta do muro, com a arma em punho, para o caso de uma necessidade.

Ele precisava ter se preocupado. A Harpia soltou um guincho lancinante, suas garras atacavam, e seus dentes afiados mastigavam. Homens gritavam e eram derrubados. Alguns tentavam fugir, para se esconder entre as pedras. Mas não chegavam muito longe. As pequenas asas nas costas da Harpia permitiam que ela se movesse muito rapidamente, e ela facilmente os alcançava e quebrava seus pescoços.

E assim o inimigo foi conquistado.

Sim. Sim!, Derrota cantava em sua cabeça.

Muito fácil, ele pensou. E nem chegou a suar. Não que estivesse reclamando. Muito. Pois quanto mais difícil fosse alcançar a vitória, maior era a euforia depois. Algumas vezes, quando a vitória era suficientemente saborosa, seu demônio se contorcia de prazer por dias. Pelos deuses, isso era melhor do que sexo. Melhor do que qualquer outra coisa, na verdade. Ele só experimentara tal sensação duas vezes, mas desejava a próxima oportunidade como se fosse uma droga.

Reyes e Maddox estavam sangrando abundantemente enquanto serpenteavam pelos corpos caídos, chutando armas para longe. A poucos metros, do lado de fora, Strider ouviu um barulho de pedras e o ranger de um galho. Ele se virou, juntamente com sua arma. Mas relaxou ao ver que Kane se recostara junto ao tronco de uma árvore, tentando arrancar a bala do seu ombro. Desastre já tivera de se recuperar de catástrofes como aquela milhares de vezes antes, então saberia o que fazer.

Ao lado dele estava Amun, deitado e se contorcendo. O grandalhão não devia ter participado da luta. Ele claramente continuava fraco, pois as memórias que roubara daquele Caçador já o atormentavam, exigindo toda a sua atenção.

— Gwen — Sabin chamou.

Mais uma vez, a atenção de Strider se desviou. Uma Gwen ofegante estava pressionada contra as pedras. Seu rosto e suas mãos estavam cobertos de sangue. Todos os guerreiros tinham se afastado dela. Todos, menos Sabin. Ele era o único capaz de acalmá-la quando era tomada por seu lado obscuro.

Enquanto Sabin se aproximava dela, Strider se juntou aos outros, ao desviar dos humanos caídos. Grande parte deles estava sem vida, silenciosa. Alguns estavam gemendo. Ele rapidamente mirava e atirava, acabando com aquela agonia. Exceto no caso de um. Ele se ajoelhou ao lado desse. Havia algo naquele homem... Não, não era um homem, era um menino. Algo naquele menino o fez parar. E com a pausa uma compaixão relutante surgiu.

O menino olhou para ele com olhos vidrados, viu quem ele era e franziu as sobrancelhas:

— Idiota. — Ele cuspiu, o sangue espirrando de sua boca. — Não pense que este é o fim. Eu me levanto do túmulo, se for preciso. Vou acabar com você.

Tanto ódio parecia fora de lugar em alguém tão jovem. O menino não devia ter mais de 20 anos, com cabelos e olhos escuros, fazendo-o lembrar de Reyes, na época em que ainda viviam no céu. Havia cortes por todo o seu rosto e buracos no ombro esquerdo e na barriga, e de todos eles jorrava sangue. Os guerreiros tinham decidido matar aqueles Caçadores, não levar nenhum prisioneiro, mas Strider de repente se arrependeu de tal decisão.

O que não fazia sentido. Se o menino pudesse, teria destruído Strider sem hesitar. Ainda assim. Sua força diante da derrota era humilhante.

Com um suspiro, Strider tirou a camiseta, cortou o tecido em duas partes e usou a primeira para atar o ombro do menino.

— Que diabos está fazendo? — ele perguntou.

— Salvando sua vida.

— Imediatamente depois de ter tentado acabar com ela? Não. Isso não. Eu não quero ser salvo por um demônio. — Ele tentou se afastar, mas estava muito fraco e trêmulo para se arrastar por mais do que alguns centímetros.

— É uma pena. — Strider usou o outro pedaço de pano para tapar e pressionar a ferida na barriga dele. — Eu nunca faço o que os Caçadores querem.

Houve uma pausa tensa. Depois ouviu, em voz fraca:

— Isso não vai mudar nada.

— Ótimo. Não quero que você fique com impressão errada.

Finalmente, o menino desistiu e simplesmente ficou lá deitado, enquanto Strider o enfaixava. O que era uma coisa boa. O demônio começara a enxergar aquela interação como um desafio.

— Então, o que fizemos para conseguir o ódio eterno de vocês?

As pálpebras que estavam quase se fechando se abriram rapidamente.

— Como se você não soubesse. — Foi a resposta dada por entre os dentes.

Strider virou os olhos.

— Como quiser, cara. Mas, só para você saber, não podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e já temos trabalho suficiente cuidando de nossas próprias vidas. Portanto, não existe a menor possibilidade de termos feito seja lá o que vocês imaginam que fizemos às pessoas que vocês amam.

— Meu nome não é cara, idiota.

Foi gentil de sua parte ignorar tudo o que Strider acabara de lhe dizer.

— Bem, imaginei que seria melhor do que chamá-lo de Esburacado.

— Vá para o inferno.

— Já estive lá, não é novidade.

O menino passou a língua pelos dentes.

— Ótimo. Quer saber o nome do homem que um dia vai destruí-lo? É Dominic. O meu nome é Dominic.

— Na verdade, não me lembro de ter lhe perguntado seu nome. E não me importo muito — disse Strider, e era verdade. — Agora que salvei a sua merda de vida, quero que entregue uma mensagem para mim. Diga a Galen que sabemos tudo sobre a garota. A garota possuída pelo demônio, se precisar de mais detalhes.

Já pálido, Dominic ficou quase transparente.

— Eu não sei... sobre o que você... está falando. — A perda de sangue fez com que ele engasgasse.

Ah, sim. Claro.

Várias sombras repentinamente se projetaram sobre o menino, e Strider olhou para cima. A maioria dos outros guerreiros tinha se aproximado e estava em volta deles. Nenhum deles reclamou de sua desobediência. A compaixão transformara suas feições da mesma forma que transformara a de Strider.

Ele voltou sua atenção ao menino.

— E faça um favor a você mesmo — disse, terminando o trabalho com os pedaços de pano. — Quando voltar para onde quer que seja o buraco onde se esconde, dê uma boa e longa olhada em seu líder. Sei que aquelas asas o deixam parecido com o anjo que ele diz ser. Mas, adivinhe só? Ele é exatamente como nós: possuído por um demônio. A única diferença é que o demônio dele, por acaso, é Esperança. Por que você acha que se sente tão otimista em relação ao futuro quando está na presença dele? E por que acha que sempre fica mortalmente decepcionado sempre que sai de perto dele? É isso o que ele faz, sabia? Essa é a fonte de sua força. Ele joga as pessoas para cima, depois as atira ao chão.

— Não. Não... Você está errado. — Os olhos de Dominic se fecharam. Mas, dessa vez, eles não voltaram a abrir. Havia linhas de tensão e dor em volta dos seus olhos e de sua boca, e suas bochechas já estavam ficando profundas. Precisava de uma transfusão, mas sem equipamentos médicos seria impossível.

— Envie uma mensagem de texto a Lucien e peça para ele tentar se teletransportar para cá novamente, onde quer que esteja. — Strider apertou as mãos; não queria que aquele idiota morresse. Não depois de todo o trabalho que tivera.

Houve um roçar de roupas quando Gwen fez o que lhe fora pedido. Poucos segundos depois, ela disse:

— Sim! Ele conseguiu. Está no templo e vai seguir o nosso rastro espiritual para nos encontrar.

Lucien já estivera em todos os cantos do mundo e podia se teletransportar para onde quisesse. Mas nunca sabia de antemão onde estavam as pessoas que buscava. Tinha de seguir os rastros de energia que deixavam para trás no plano espiritual.

Strider segurou o queixo do humano e o sacudiu.

— Abra os olhos, Dominic.

Um momento se passou. Nada. Ele o sacudiu outra vez. Dominic gemeu.

— Abra. Os. Olhos! — Ele fez questão de falar com bastante fúria e ameaça em seu tom capaz de despertar um morto. Dominic tinha ameaçado se levantar do túmulo. E não havia ocasião melhor para provar tal ameaça do que naquele exato momento.

Os olhos do menino finalmente se abriram.

— O que você quer? — Foi a fraca resposta. Ele respirava com mais dificuldade, em curtos espasmos.

— Assim que ele chegar aqui, um de nossos homens vai te levar para um hospital. Você vai sobreviver. E vai entregar a mensagem que eu lhe dei. Ah, vai. Quer saber o nome do cara que acabou de salvar sua vida? É Strider. Eu também considerarei um favor pessoal se você disser a Galen que estou indo atrás dele.

E assim como Galen, Strider não demonstraria compaixão. Galen cometera um erro ao colocar Desconfiança no corpo de um de seus soldados, porque agora Strider poderia matar Galen. E poderia colocar Esperança no corpo de quem ele escolhesse.

Derrota riu com vontade. O jogo começou.

Isso mesmo, pensou Strider, sério. O jogo começou.