A Paixão Mais Sombria
Capítulo Seis
AQUILO ERA UMA conspiração para deixá-lo louco, pensou Aeron, taciturno.
Em primeiro lugar, seus amigos o expulsaram. Depois, seu demônio havia gritado, pedindo para que ele ficasse. Ficasse. Com Olivia. Um ser que Ira deveria desprezar. Um ser que Aeron deveria desprezar. Mas ele entendia o dilema do seu demônio.
Ela era encantadora.
Naquela manhã, quando ele tinha acordado e percebido que Olivia estava completamente recuperada, o desejo que ele negara dias antes voltou a arder. Desde então, ele se recusara a desaparecer. Ela caíra no chão, com a túnica na cintura, e a calcinha dela... Droga, a calcinha dela. Tão branca, tão pura. Fazia qualquer homem querer destruí-la com os dentes e sujar um pouco quem a usava. Ele também sentira vontade de rasgar aquela túnica e devorá-la.
Mas de alguma maneira, de alguma forma, ele conseguira se conter.
Talvez por ter percebido, e lembrado a si mesmo repetidas vezes, que Lysander era o dono da voz que escutara no dia anterior. Que Lysander curara Olivia e era quem queria vê-la feliz e inteira.
— Limpa — ele murmurou.
E Lysander seria um terrível inimigo.
Os Senhores podiam lutar contra os Caçadores, claro. Mas contra Caçadores e contra um exército angelical? Dificilmente.
Então Aeron finalmente conseguira reunir coragem para sair da cama sem cair em cima de Olivia, louco para tocá-la e provar seu sabor. Finalmente convencera a si mesmo de que deveria se livrar dela. Finalmente, e felizmente, esquecera-se da ereção pulsante entre as pernas enquanto ela se mexia em seu colo e fazia amor com a comida.
Apenas para que Ira implorasse por “mais”.
— Eu gostava mais quando você não passava de uma presença. Uma necessidade — disse ao seu demônio.
A única resposta que recebeu foi um rosnado. Pelo menos não houve mais súplicas por parte do demônio. Ira se calara alguns minutos antes quando havia notado o que Aeron planejava.
Aeron esfregou o rosto com tanta força que arranhou as bochechas com os calos de suas mãos. Estava no apartamento de Gilly, na cidade. Um espaçoso apartamento de três quartos na parte mais rica do centro. Gilly era uma jovem amiga de Danika que passara a viver em Budapeste. Torin, responsável pela defesa da fortaleza, havia equipado o apartamento dela com equipamentos de segurança de primeira linha, apenas para o caso de os Caçadores descobrirem sua conexão com os Senhores. Ela era completamente humana e tão inocente quanto uma pessoa poderia ser, o que era um verdadeiro milagre, já que Danika contara aos Senhores sobre sua conturbada infância. Mesmo assim, aqueles idiotas não pensariam duas vezes antes de machucá-la.
Estava na escola, no ensino médio, na verdade, e definitivamente feliz com a distância entre eles. Ainda não se sentia confortável na presença dele. O que se entendia perfeitamente. Gilly tinha apenas 17 anos, mas conhecera o lado negro dos homens e vivera sozinha por anos. Eles lhe ofereceram um quarto na fortaleza, mas ela queria um lugar para viver sozinha. O que também era bom. Agora Aeron não teria de vagar sem rumo até o anoitecer e poderia finalmente invocar Legião.
Ele estava de pé no centro da sala, com as cadeiras e poltronas afastadas, a fim de ganhar espaço para o círculo de sal e açúcar que fizera à sua frente. Ele a invocaria de uma forma que Legião não poderia ignorar.
Esticou os braços e disse:
— Legião, Quinientos y Dieciseis do Croisé Sombres de Neid e Потребность, exatamente como ela o ensinara. Eram seu nome, número e título numa mistura de várias línguas. Legião, Quinhentos e Dezesseis, dos Guerreiros das Trevas da Inveja e da Necessidade. Se ele não dissesse tudo isso, poderia acidentalmente invocar outra pessoa. — Exijo que apareça diante de mim. Agora.
Não houve qualquer flash de luz, como Cronos gostava de usar ao se materializar, e o tempo também não parou. Num instante, Aeron estava sozinho; no momento seguinte, Legião estava no centro do círculo. Simples, fácil.
Ela caiu no chão, ofegante, com suor escorrendo de suas escamas.
— Legião! — Ele se ajoelhou e ajudou-a a se levantar, com cuidado para que nenhum grão do sal ou açúcar tocasse nela. Poderia queimá-la, ela lhe dissera.
Ira ronronou; estava feliz novamente.
Imediatamente, Legião se aninhou em seus braços.
— Aeron. Meu Aeron.
Aquilo o fez lembrar-se de Olivia. A doce e bela Olivia, que estava com Kaia, uma Harpia louca com terrível senso de humor, e Cameo, uma assassina impiedosa com voz trágica. Preferia nem pensar em Paris e William, dois viciados em sexo. Pois se ficasse pensando nisso, destruiria o apartamento de Gilly em um acesso de raiva. Raiva, não ciúme, para deixar bem claro. Caso mexessem com o anjo estariam atraindo a ira de Lysander, e era isso que o perturbava, não o fato de Olivia poder se sentir atraída por um de seus amigos. Claro que não.
As paredes de Gilly ficariam mais bonitas com alguns buracos, ele pensou. Estaria fazendo um favor a ela, ajudando na decoração.
Além do mais, da forma como Olivia era cautelosa com os outros, na verdade apenas com ele, mas Aeron não se orgulhava disso, ela talvez não estivesse se saindo muito bem. Naquele exato momento, ela poderia estar se escondendo, chorando, torcendo para que ele voltasse.
Com certeza o sofá de Gilly ficaria mais confortável se fosse serrado em duas partes.
Endureça o coração, como disse a Paris, de forma tão resoluta, que faria. O estado de Olivia não importava. Suas lágrimas não importavam. Não podiam importar. Na verdade, elas ajudariam. Olivia deixaria a fortaleza bem mais rápido.
Legião era a coisa mais importante para ele. A criança que secretamente sempre quisera ter, mas nunca pudera. Não apenas porque nunca se comprometera com uma mulher, mas porque sabia que os bebês eram muito frágeis. Ser pai, figura que ele mesmo nunca tivera, não valeria a agonia de ver seu próprio filho definhar e morrer.
Com Legião, ele não precisaria se preocupar. Ela viveria para sempre.
— O que há de errado, minha menina preciosa? — ele perguntou, levando-a para o sofá e jogando-se contra as almofadas. O cheiro de enxofre era forte nela, e Ira suspirou, claramente com saudade de casa. Antes o seu demônio odiava esse cheiro, mas, agora que ele conhecia os horrores da caixa de Pandora, o inferno parecia o Paraíso.
— Eles me perseguiram. — Ela roçou a bochecha contra o peito de Aeron, com sua pele quente, e ronronou. — Quase me pegaram dessssa vez.
Sua língua forquilhada sempre escorregava e prolongava os esses, algo que ele achava adorável. Quando a conhecera, ela até falava como um bebê, usando os tempos verbais e os pronomes de forma errada. Mas, a pedido de Legião, os dois estudaram gramática juntos. Aeron estava muito contente com seu progresso.
— Agora você está aqui. Está a salvo. — Ele acariciou os dois pequenos chifres no topo de sua cabeça, sabendo que eram sensíveis e que ela adorava aquelas carícias. — Você não precisa voltar.
— Anjo morreu?
— Não exatamente — ele respondeu, evitando a questão por um momento.
E ficaram sentados assim, em silêncio, por vários minutos, enquanto ela tentava controlar a respiração. Finalmente ela se acalmou e o calor que queimava suas escamas abrandou. Legião se sentou e seu olhar vermelho escaneou o lugar.
— Esssta não é casssa — disse, confusa.
Aeron também olhou ao redor, tentando enxergar o que ela vira. Os móveis eram de várias cores: vermelho, azul, verde, violeta e rosa. O piso era de madeira, coberto por um tapete de flores. As paredes tinham várias pinturas de vários formatos retratando o céu. Presentes de Danika.
— Estamos no apartamento de Gilly.
— Bonito — ela disse, e a admiração em sua voz era inconfundível.
A feminilidade de Legião já não o surpreendia. Quando ele voltasse à fortaleza, daria a ela um quarto só seu. Um quarto que ela poderia decorar como quisesse. Ele não sabia quanto tempo mais poderia aguentar tanto rosa no seu próprio quarto.
— Fico feliz que tenha gostado. Podemos ficar aqui por enquanto.
— O quê? — Sua admiração foi substituída pela fúria ao olhar para Aeron. — Você esssstá morando com Gilly agora? Ela essstá... Ela ama você?
— Não.
Lentamente, ela se acalmou.
— Certo, tudo bem, masss eu quero ir para a casssa agora. Ssssinto falta de lá.
Eu também.
— Não podemos. O anjo está lá.
Legião ficou paralisada, a raiva voltava.
— Por que ela esssta lá e nósss, aqui?
Ótima pergunta.
— Ela vai ajudar os outros a enfrentar os Caçadores.
— Não. Não. Eu ajudo com osss Caçadoresss.
— Eu sei. Eu sei. — Ela podia ser pequena, mas era violenta. E matar era uma brincadeira para ela. Mas ela já passara por tantos conflitos na vida que Aeron só queria paz agora. Não queria envolvê-la em outra batalha. E não a envolveria.
Ela significava muito para Aeron.
— Podemos estar a sós aqui — ele disse.
— Certo. — Mais uma vez, ela relaxou o corpo contra o dele. — Vamosss ficar, massss eu vou ajudar maisss do que ela.
Caso contrário, Olivia perderia a cabeça. Ele estava avisado. Hora de sua pequena menina.
— Quer brincar?
Pulando, sorrindo, ela agarrou o pescoço de Aeron, arrastando-se como uma serpente.
— Ssssim, sssim, sssim.
Sempre pronta para brincar, sua Legião. Mesmo falando bem melhor, não perdera suas necessidades de criança.
— Escolhe alguma coisa. O que quiser.
Ele esticou o braço para afagá-la e olhou para o próprio braço. Havia um único espaço de pele nua em seu pulso. Tatuaria uma cobra ali, para que lembrasse Legião. Uma tatuagem para lembrá-lo de algo bom em sua vida, ao invés das coisas ruins.
Sim, ele gostou da ideia.
— Eu quero brincar de... Roupasss Opcionaisss.
Também conhecido como Rasgue Tudo o que Aeron Estiver Usando.
— Que tal outra coisa? Que tal Salão de Beleza, como brincamos na semana passada? Você vai poder pintar minhas unhas.
— Legal! — disse Legião, batendo palmas, com uma animação palpável. — Vou pegar osss esssmaltesss de Gilly. — E saiu correndo, desaparecendo no apartamento.
— O quarto de Gilly é o último à direita — ele gritou.
Passaria uma hora ou duas fazendo as vontades dela, depois patrulharia a cidade em busca de algum sinal dos Caçadores, bem como da Garota das Sombras. Após tudo o que Legião sofrera no inferno, ele lhe devia um pouco de diversão. Que se danassem suas obrigações.
Devia. Uma única palavra explodiu em sua mente, e ele praguejou. Também devia algo a Paris.
Mesmo que ele alegasse que não voltaria à fortaleza até que Olivia tivesse ido embora, precisava cuidar de Paris. Aquele não era um dever que deixaria para trás por motivo nenhum, embora já tivesse permitido que Lucien cuidasse das suas necessidades nos últimos três dias. Aeron suspirou, desapontado consigo mesmo. Só porque Lucien levara o guerreiro à cidade, não significava que Paris tivesse escolhido alguém.
E, mesmo que tenha dormido com Kaia no outro dia, a força que ganhara com esse encontro não duraria muito tempo. Apesar de sorridente, ele parecia cansado no café da manhã. Como Aeron aprendera, cansaço era o primeiro sinal de problema.
Aeron poderia apostar que o guerreiro não estivera com ninguém depois de Kaia. E isso não era nada bom.
Legião voltou para a sala com uma caixa de plástico roxa e o sorriso aberto.
— Suasss unhasss vão parecer um arco-írissss quando eu terminar.
Arco-íris. Ele achou que seria melhor que as chamas rosas que ela fizera da última vez.
— Sinto muito, querida, mas nossa brincadeira vai ter que esperar. Preciso voltar à fortaleza para resolver uma coisa, o que significa que você precisa ficar aqui.
A caixa caiu no chão, fazendo um barulho.
— Não!
— Não vou demorar muito.
— Não! Você me chamou. Disssse que ia brincar.
— Mas se Gilly voltar antes de mim — ele continuou, como se ela não tivesse dito nada —, por favor, por favor, por favor, não tente brincar com ela. Tudo bem? — A humana não sobreviveria. — Só preciso pegar uma coisa. — Ou melhor, alguém. — Seja boazinha e espere por mim.
Legião o seguiu. Apoiou as mãos no peito de Aeron, cravando suas garras em sua pele e extraindo gotas de sangue.
— Eu vou também.
— Você não pode, querida. Lembra? — Aproximou-se dela e coçou atrás de suas orelhas: — O anjo está lá. Ela perdeu as asas e pode ser vista agora. Mas isso não a deixa menos perigosa para você. Ela...
O pequeno demônio pulou e se empoleirou no colo dele, encarando-o. Seus olhos, já normalmente grandes, ficaram ainda maiores.
— Ela não tem maisss asssas?
— Não. Não tem.
— Então ela caiu?
— Sim.
Mais uma vez, Legião bateu palmas, contente.
— Eu ouvi dizer que um anjo caíra, massss não ssssabia que era ela. Poderia ter ajudado a feri-la! Mas isssso tem conssserto. Posssso tomar minha cassssa dela agora. Posssso matá-la.
— Não — ele disse, com mais força do que pretendia.
Até mesmo Ira reagiu com raiva, grunhindo na cabeça de Aeron, voltando-se contra Legião pela primeira vez.
Por que seu demônio queria ser o responsável por destruir o anjo? Não. Aeron balançou a cabeça. Aquilo não fazia sentido, considerando as súplicas anteriores de Ira por “mais”. Talvez o demônio não quisesse que ela fosse destruída por ninguém. Era uma suspeita que também não fazia sentido, mas ainda assim era melhor.
Por que seu demônio gostava dela?
Mais tarde. Aeron pegou o queixo de Legião e forçou-a a prestar atenção nele, pois queria ter certeza de que ela não ficaria sonhando com a morte do anjo.
— Preste atenção no que vou dizer, querida. Isso. Agora. Você não pode ferir o anjo.
Legião piscou os olhos para ele.
— Posssso sim! Sssou forte o ssssuficiente. Prometo.
— Eu sei que você pode, mas não quero que faça isso. Ela deveria ter me machucado, mas não fez isso. — Na verdade, ela abrira mão de tudo o que tinha por ele.
Por quê?, ele se perguntou pela milésima vez. Que tipo de pessoa fazia isso? Ele zombara de Olivia antes quando ela lhe lembrou de seu sacrifício por ele, mas, na verdade, estava fascinado e confuso. E constrangido.
Ela não o conhecia. Ou talvez conhecesse, já que o seguira por semanas, mas isso tornava sua decisão ainda mais bizarra. Mais do que isso: ele não valia a pena. Não para um anjo, os seres mais perfeitos, corretos e bondosos. E certamente não para uma mulher a quem nunca se permitiria entregar-se.
— Então? — Legião insistiu.
— Então, em troca, vamos ser legais com ela.
— O quê? Não! Não, não, não. — Se ela estivesse de pé, teria batido o pé no chão. — Eu posssso feri-la ssse quissser.
— Legião — ele disse, usando seu tom mais autoritário. — Isso não é uma negociação. Você vai deixá-la em paz. Quero que me prometa.
Grunhindo, ela pulou do colo dele e ficou caminhando sobre o tapete à sua frente.
— Você sssempre quer que eu ssseja legal com seusss amigossss. Então ela tem que ssser sssua amiga. Massss você não pode ssser amigo de um anjo nojento.
As palavras não pareciam ter sido dirigidas a ele, e por isso ele não respondeu. Deixou que ela continuasse a tagarelar, com a esperança de que ela colocasse tudo para fora.
— Ela é bonita? Aposssto que ela é bonita.
Mais uma vez, Aeron ficou em silêncio. Ele sabia que Legião queria protegê-lo e gostava de ser o centro do seu universo. O que não é nada raro entre filhos de pais solteiros. Ela não gostava de dividir a atenção de Aeron com mais ninguém.
— Você gossssta dela — ela acusou.
Finalmente ele se pronunciou:
— Não. Não gosto. — Mas até ele podia notar a incerteza em sua voz. Ele tinha gostado de ter Olivia nos braços nas noites anteriores. Tinha gostado até demais. Gostara de tê-la sentada em seu colo durante o café da manhã. Gostara de ter o cheiro selvagem de céu que emanava dela nas narinas. Gostara da sua pele macia e da pureza dos seus olhos. Gostara de sua gentileza e determinação.
Gostara da maneira como ela o olhava, como se ele fosse em parte salvador, e em parte tentação.
— Você gosssta dela — repetiu Legião, e dessa vez com tanta fúria nas palavras que elas quase pareciam capazes de ferir sua pele.
— Legião — ele disse. — Mesmo se eu gostasse de outra mulher, isso não significaria que a amaria menos. Você é o meu bebê, e isso nunca vai mudar.
O veneno escorria dos seus dentes muito afiados, dentes que ela revelou com um rosnado.
— Eu não ssssou um bebê! E você não pode gosssstar dela! Não pode. Eu vou matar o anjo! Vou matá-la agora! — Com isso, Legião desapareceu.
— O QUE VOCÊ acha?
Olivia deu um giro estabanado na frente do espelho que refletia o corpo inteiro, vendo as botas pretas de cano alto, a saia que, de tão curta mal cobria a bunda, e o top azul que vestia. A calcinha, que ela precisara rebolar para vestir e era no mesmo tom de azul, terminava acima do cós da saia. Isso sim era provocante. Nunca mostrara tanta pele assim antes. Nem para si mesma. Nunca precisara fazer isso.
Mas fora ela quem pedira para se vestir assim.
— Quero ficar bonita — ela dissera a Kaia no momento em que Aeron pisara fora da fortaleza.
— Oba! Uma transformação bem ousada! — disse a Harpia.
Os outros dois guerreiros, William e Paris, grunhiram. Paris chegou a cantarolar: “Que coisa chaaaata” baixinho antes de sair. William tentou ficar por perto para “ajudar”, mas Kaia o ameaçara dizendo que usaria suas bolas como brincos.
Então a Harpia olhou para Olivia, encantada.
— Você quer que Aeron perceba o erro que cometeu, hein?
— Sim, por favor. — Mais do que isso, ela queria perder completamente aquele ar angelical. De uma vez por todas. Ela pensara que, livrando-se da túnica, perderia também seu medo e incerteza. Pensara que, com aquele “toque ousado”, poderia ganhar confiança e ser mais agressiva.
E, após dar uma segunda rodada para olhar a parte de trás, percebeu que tinha razão. Bem, percebeu que tinha razão depois que sua tontura desapareceu. Felizmente, estava se acostumando às suas pernas, mais ou menos, e conseguia manter-se de pé.
— Adorei — ela disse, sorrindo. Parecia outra pessoa. Parecia até humana. Mas, sobretudo, estava radiante, e ver todo aquele brilho era como nadar numa piscina de poder.
Sou poderosa. Sou linda.
O que Aeron iria achar? Durante todo o tempo em que ela o observara, nunca o vira prestar atenção em mulher alguma, além dela mesma, nas noites anteriores e naquela manhã. Por isso Olivia não sabia que tipo de mulher o atraía.
E assim era melhor, pensou. Não poderia fingir ser alguém que não era. Caso contrário, ainda estaria no céu. Então ele teria de gostar dela como ela era. Isso era o que ela mais queria. Se ele não conseguisse, não seria merecedor de seu tempo.
Ele vai gostar de você. Como não gostaria?
Ter confiança era legal.
— Essa roupa tem o poder de fazer os homens implorar, com certeza — disse Kaia. A mulher de cabelos vermelhos passara a última meia hora mexendo em seu armário, em busca da roupa certa para Olivia. — Roubei essas de uma pequena loja do centro.
Espere um minuto.
— Você não pagou por essas roupas?
— Exatamente.
— Sério? — Por que ela imediatamente começou a se sentir ainda mais sexy? Estaria se transformando num ser tão mal quanto os demônios? Talvez enviasse algum dinheiro à loja. Você não tem dinheiro. Talvez enviasse um pouco do dinheiro de Aeron à loja.
— Agora, sente-se — disse Kaia, apontando para a cadeira na frente do espelho da penteadeira com um movimento do queixo.
Cameo soltou um gemido.
— Ainda não terminaram? — Ela se sentou na cama, esperando (im)pacientemente pelo fim da transformação. — Eu tenho tantas perguntas a fazer.
Kaia deu de ombros.
— Pergunte a ela enquanto eu faço a maquiagem.
Olivia se sentou, e Kaia se agachou à sua frente. A Harpia já estava com o pincel de aplicar sombra nos olhos e um estojo de pó azul nas mãos. Como nunca antes usara maquiagem, Olivia não sabia como se sentiria com o rosto tão colorido, mas não reclamou. Afinal, estava ali para isso. Para experimentar tudo o que o mundo tinha a oferecer.
— Feche os olhos — disse Kaia. Quando ela obedeceu, o pincel começou a dançar gentilmente sobre suas pálpebras. — Pode começar, Cameo.
Não precisou pedir duas vezes.
— Você disse que sabia onde estavam os demais imortais possuídos por demônios — disse Cameo, indo direto ao assunto.
— Sim. — Mais uma vez, não viu nenhum raio nem um exército de anjos invadiu o local.
— Aeron encontrou uma garota na noite em que salvou você. Ela estava cercada por sombras e gritos, o que quer que isso signifique. Você a conhece?
Olivia estava assentindo antes que conseguisse evitar.
— Fique quieta — Kaia disse. — Agora vou ter que consertar seus olhos. Parece que eu bati em você. E embora eu goste desse look, acho que Aeron não vai gostar.
— Desculpe. — Ela endireitou as costas, mantendo o queixo imóvel. — Aquela era Scarlet, filha de Rhea. Ah, e se vocês não sabem, Rhea é a autoproclamada mãe de toda a terra, a amargurada esposa de Cronos.
— O quê? — Cameo arfou. — A Garota das Sombras é filha dos deuses? E não de uns deuses quaisquer, mas do rei e da rainha dos Titãs?
— Na verdade, filha de um deus. Cronos não é o pai dela. Rhea passou um tempo proibido com um guerreiro Myrmidon quando ela e Cronos começaram a brigar.
— E por que eles brigavam? — perguntou Kaia. — Eu sinto que deveria saber a resposta, mas nunca me mantive atualizada com as notícias políticas do céu.
Aquilo era fácil de explicar.
— Cronos planejava trancafiar seus filhos, os gregos, no Tártaro, pois seu antigo Olho Que Tudo Vê predisse que eles usurpariam seu poder. Rhea queria que eles fossem banidos para a terra. Mas ele os trancafiou assim mesmo.
Cameo murmurou um rápido “hum” antes de dizer:
— Então essa tal Scarlet foi concebida... quando?
Que voz triste... o coração de Olivia parecia sangrar e doía ainda mais a cada palavra que escutava a guerreira pronunciar.
— Rhea teve seu caso enquanto tentava bolar planos para ajudar os gregos a escapar do Tártaro e derrubar Cronos. Seu amante chegou a ajudá-la a executar o plano e morreu por conta dos seus esforços. No entanto, os gregos foram finalmente libertos. Rhea esperava continuar reinando, mas Zeus temia que mais tarde ela ajudasse Cronos, então trancafiou-a junto ao seu pai. Scarlet nasceu e foi criada na prisão.
Enquanto ela falava, blush, esponja e bastão tinham sido usados em seu rosto, um após o outro. O nervosismo floresceu, queimando seu estômago. Rezava para não estar parecendo um palhaço quando Kaia terminasse.
— Então essa Scarlet é possuída pelas... Sombras? — Cameo perguntou. — Pela Escuridão? Se for, não estou tão certa de que algum desses possa ser chamado de demônio. Parecem dádivas, não maldições. Ser sempre capaz de se esconder... de atacar o inimigo sem ser visto...
— Você está pensando em termos absolutos — explicou Olivia. — O seu demônio, Infelicidade, não é necessariamente uma maldição, pois sem a dor não poderia haver prazer. Pense nisso. Todos têm de experimentar emoções ruins em algum momento. O seu demônio é simplesmente o extremo de uma emoção. Como no caso dos outros Senhores. E de Scarlet. Mas o demônio que ela carrega não é Escuridão nem Sombras. O que ela tem dentro de si é Pesadelos.
— Nossa. Uau! — disse Kaia. — E eu pensava que os caras aqui tinham sorte. Esse deve ser, tipo, o demônio mais legal do mundo.
Pesadelos? Legal? Dificilmente.
— A escuridão que Scarlet reúne é uma completa falta de luz. É um abismo dentro dela, um infinito poço de trevas. E trevas habitam as coisas que os humanos mais temem.
Houve um barulho de roupas roçando contra pele e pensou em Cameo movendo-se na cama, aproximando-se dela.
— Como você sabe tanta coisa sobre isso?
— Já encontrei muitos demônios ao longo dos séculos. Como ex-mensageira de alegria, eu via como e por que a influência demoníaca destruía a vida dos humanos.
— Ah, legal. E o que você fazia com esses demônios? — perguntou Kaia. — Comece contando como acabava com eles e termine com como limpava o sangue.
Que Harpia adorável, imaginando que ela fosse tão forte.
— Eu não lutava contra eles sozinha. Se a minha presença não fosse suficiente para tirá-los do caminho, eu tinha de invocar um anjo guerreiro para despachá-los.
— Vamos voltar um pouquinho — disse Cameo. — Esse tipo de experiência não lhe daria informações sobre o paradeiro de Scarlet nem sobre o que ela era capaz de fazer.
Tinha sido pega. As bochechas de Olivia pegaram fogo.
— Estive observando Aeron por um tempo e sabia que ele queria encontrar outros guerreiros de sua espécie. Resolvi analisar os que estavam por perto, e o mais perto de todos por acaso era Scarlet. Também existem outros espalhados por aí, mas a maioria está escondida ao redor do mundo.
— Interessante. E eles...
— Não. Minha vez de perguntar — disse Kaia. — Então, essa Scarlet é mocinho ou bandido?
Olivia ponderou sua resposta.
— Acho que depende da sua definição de mocinho e bandido. Ela foi criada numa prisão, cercada de criminosos. Eles eram tudo o que conhecia antes de receber seu demônio e vir para a Terra. Tudo o que fez foi para sobreviver.
— Como nós — Cameo murmurou.
Mas isso não era verdade no caso de Olivia. Tudo o que ela fizera recentemente fora para suprir as próprias necessidades. Ela deveria se sentir culpada por isso, pensou, mas... não se sentia. Ao descobrir o caminho para sua felicidade, poderia descobrir o caminho para a felicidade de Aeron também.
Não apenas “poderia” descobrir, sua recém-descoberta confiança falando mais alto.
Finalmente, Kaia terminou de aplicar a maquiagem, as pinceladas terminaram. A Harpia bateu palmas e assoviou.
— Tudo pronto. E como eu sou boa nisso!
Lentamente, Olivia abriu os olhos. E assim que se olhou no espelho, arfou. E ela pensara que era radiante antes... A sombra azul complementava a cor dos seus olhos, fazendo-os parecer elétricos. O rímel preto deixava seus cílios muito mais longos, quase chegando às sobrancelhas e servindo como uma moldura perfeita. O blush rosado nas bochechas lhe emprestava uma frescura de quem acabava de se levantar da cama e o batom vermelho deixava seus lábios com um brilho que dizia “beije-me agora”.
— Não precisa oferecer seu primeiro filho como agradecimento — disse Kaia. — Eu só aceito pagamento em dinheiro. Agora, se preferir, podemos ir à cidade encontrar Anya, pois acho que ela ainda está por lá, e depois encontrar um homem e pedir uma cerveja, para seguir em frente com a sua deseducação.
Ainda em transe, Olivia esticou o braço e passou um dos dedos pela parte escura debaixo de seus olhos. Estavam enfumaçadas, ardentes. Perfeitas.
Tente resistir a mim agora, Aeron, ela pensou. Eu desafio você.
Ter confiança era mais do que bom. Era uma experiência transformadora.
— Vocês não podem ir embora — Cameo protestou. — Eu ainda não terminei minhas perguntas.
Kaia girou os olhos.
— Então pergunte lá na cidade, enquanto estivermos bebendo até ficar inconscientes. Estou com sede, e Anya vai nos matar se não a incluirmos nisso.
— Você tem resposta para tudo — a Senhora resmungou.
— Eu sei. E não é maravilhoso?
— Difícil.
Enquanto as duas provocavam uma à outra, Olivia passava a mão sobre os lábios. Logo saberia como era sentir os lábios de Aeron. Mais uma vez, não houve “talvez”. Ele não seria capaz de resistir-lhe. Ela mal conseguia resistir a si mesma. Os lábios dele seriam macios ou firmes? Seriam afobados ou gentis? Isso não importava, na verdade. Ela finalmente sentiria seu sabor, e isso era o que Olivia mais desejava.
— Essssa é ela? É essssa aí? Adivinhe? Você vai morrer, anjo — proclamou, de repente, uma nova voz, na qual havia raiva suficiente para acabar com um exército.
Olivia deu um pequeno salto e se virou, mal conseguindo se manter de pé. Havia um pequeno demônio do outro lado do quarto, com os olhos vermelhos brilhantes de malícia. Suas garras eram longas e estavam preparadas para atacar, seus dentes afiados estavam à mostra. Até mesmo suas escamas verdes pareciam afiadas, posicionadas sucessivamente como cacos de vidro, prontos para cortar.
Dessa vez ela não caíra no inferno. O inferno viera até ela.
Não! Um grito se formou em sua garganta, mas pouco antes que ele pudesse se libertar, ficou preso em um nó que estava se formando ali. Então, só o que se ouviu foi o som de alguém engasgando.
Acalme-se, fique firme. Ela já vira aquela criatura algumas vezes enquanto seguia Aeron e sabia quem ela era: Legião. Você não precisa ficar com medo.
Alinhando os ombros, tentou abrir as asas para ganhar equilíbrio. Mas logo se lembrou de que não as possuía mais. Engoliu em seco.
— Oi, Legião. Meu nome é Olivia. E-eu... não quero lhe fazer nenhum mal.
— Sssinto muito, masss eu não posssso dizer o messsmo.
— Chega, chega — disse Cameo, pulando na frente de Olivia, agindo como um escudo. — Nada disso. Somos todas amigas aqui.
— Vou matá-la também ssse ficar no meu caminho — Legião rosnou. — Saia! Esssse anjo é meu.
Kaia se espremeu ao lado de Cameo, e as duas formavam mais que um escudo. Eram uma parede.
— Bem, imagino que vai ter que me matar também, então.
Elas a estavam... protegendo? Guardando-a? Apesar de todo o medo, o peito de Olivia arfava de prazer. Elas não a conheciam, mas ainda assim a tratavam como se fosse uma das suas. Como se já pertencesse àquele lugar.
— Então? — Kaia exigiu. — Como vai ser, menina demônio?
— Eu aceito a oferta. Vou matar você também. — Em seguida, Legião... desapareceu.
C-certo. Após suas palavras, o desaparecimento era um alívio. Mas por que ela iria...
Ela reapareceu entre as duas guerreiras. Antes que elas tivessem tempo de desviar ou se preparar, ela já tinha mordido o pescoço de ambas. As duas caíram no chão, debatendo-se e gemendo de dor.
Olivia mal teve tempo de processar o que testemunhara.
— Como pôde fazer uma coisa dessas? Pensei que elas fossem suas amigas. Elas não machucaram você, só queriam me salvar.
Aqueles olhos vermelhos ficaram fixos nela, e o ódio se intensificava.
— Aeron é meu. Você não pode ficar com ele.
— Bem, sinto muito, mas não concordo com você. — Mesmo tremendo, pois estava sozinha, desarmada, sem possibilidade de defesa e sem estabilidade nas pernas, ela permaneceu impassível. — Aeron será meu. — De uma forma ou de outra. Ela não mentiria sobre isso, mesmo se fosse para salvar a própria pele.
Uma língua bifurcada golpeou aqueles dentes pontiagudos.
— Você vai pagar por isssso, anjo. Com a sssua vida.
Legião pulou em cima dela.