A Paixão Mais Sombria
Capítulo Dois
— AERON! AERON!
Na fortaleza, as botas que calçavam os pés de Aeron tocaram a varanda que levava ao seu quarto. Assustado com a nada familiar voz feminina, ele soltou Paris.
— Aeron!
Ao terceiro estridente grito feminino de terror e desespero, ele e Paris se viraram para observar a colina logo abaixo. Grossas árvores apontavam em direção ao céu, obscurecendo a visibilidade, mas ali, entre manchas verdes e marrons, ele podia distinguir uma figura envolta em branco.
Uma figura que corria em direção a casa.
— Garota das Sombras? — perguntou Paris. — Como ela conseguiu ultrapassar nosso portão tão rapidamente? E a pé, ainda por cima?
Ao longo do caminho, Aeron lhe explicara o que tinha acontecido com a mulher naquele beco.
— Não é ela. — Essa voz era mais alta, mais forte e muito menos confiante. — O portão... eu não sei.
Semanas antes, após ele e Paris terem se recuperado das feridas da batalha contra os Caçadores, ergueram um muro de ferro em volta da fortaleza. O portão tinha cinco metros de altura e era envolto por arame farpado com pontas suficientemente afiadas para cortar vidro. Também irradiava tanta eletricidade que poderia levar um humano a um ataque cardíaco. Qualquer pessoa que tentasse escalar o portão perderia a vida antes de chegar ao outro lado.
— Acha que ela é uma Isca? — perguntou Paris, girando a cabeça e estudando-a com atenção. — Ela pode ter sido jogada por um helicóptero, eu acho.
Os Caçadores eram conhecidos por usar lindas mulheres para ludibriar os Senhores, distraí-los, capturá-los e, depois, torturá-los. E aquela mulher parecia preencher todos os requisitos, com seus longos cabelos cor de chocolate, sua pele tão alva quanto uma nuvem e seu corpo cheio de curvas, etéreo. Aeron ainda não podia ver-lhe os contornos do rosto, mas poderia jurar que eram perfeitos.
Suas asas saíram das fendas quando ele respondeu:
— Talvez.
Malditos Caçadores, sempre chegando na hora exata. Metade dos seus amigos estava fora da fortaleza. Tinham ido a Roma em busca do Templo dos Impronunciáveis, ruínas recentemente erguidas do mar. Esperavam encontrar qualquer coisa que os levasse aos artefatos perdidos dos deuses. Quatro artefatos que, se usados simultaneamente, indicariam a localização da caixa de Pandora.
Os Caçadores esperavam usar a caixa para prender os demônios dentro dela novamente, destruindo os Senhores, já que os homens não poderiam viver sem seus demônios. Os Senhores queriam simplesmente destruí-la.
— Temos armadilhas com cabos aí fora. — Quanto mais Paris falava, mais Aeron notava um tremor na sua voz. Por causa da Garota das Sombras, como Paris a chamara, ele não tivera tempo de encontrar ninguém para levar para cama, e sua força devia estar se esvaindo. — Se ela não tomar cuidado... Mesmo se ela for uma Isca, não merece morrer desse jeito.
— Aeron! — Paris bateu com o punho contra a balaustrada da varanda e inclinou o corpo para ver melhor. — Por que ela está chamando por você?
E por que dizia o nome dele com tanta familiaridade?
— Se ela é uma Isca, os Caçadores devem estar por aí agora, esperando por mim. Se eu tentar ajudá-la, eles atacarão.
Paris endireitou a postura, seu rosto repentinamente banhado pela luz da lua. Escoriações tinham se formado sob seus olhos.
— Vou chamar os outros, e vamos cuidar dela. Ou melhor, deles.
Ele desapareceu antes que Aeron pudesse responder, caminhando a passos largos para fora do quarto, batendo as botas contra o piso de pedra.
Aeron manteve o foco na mulher. Enquanto ela continuava se aproximando, cada vez mais perto, notou que os panos brancos que a envolviam eram na verdade uma túnica. E as costas da túnica, que ele não conseguira ver antes, eram de um vermelho intenso.
Ela não usava sapatos, e quando seu dedão nu bateu contra uma pedra, ela caiu, fazendo com que seus fartos cabelos cor de chocolate caíssem em cascata ao redor de seu rosto. Havia flores entrelaçadas aos cachos, mas algumas das pétalas estavam faltando. Também havia pequenos galhos, mas ele não acreditava que ela os colocara ali intencionalmente. Suas mãos tremiam enquanto ela afastava os fios do rosto.
Finalmente suas feições puderam ser vistas, e cada músculo do corpo de Aeron estremeceu e ficou tenso. Ela era linda, exatamente como imaginara. Mesmo manchada e inchada pelas lágrimas como estava. Tinha grandes olhos azuis como o céu e um nariz perfeitamente inclinado para baixo, bochechas e queixo eram perfeitamente esculpidos, ambos apenas um pouco arredondados, e lábios também perfeitos desenhavam um coração embriagante.
Ele nunca a vira antes, pois teria se lembrado, mas de repente era como se houvesse algo quase... familiar em relação a ela.
Ela lutou para ficar de pé, fazendo caretas e grunhindo, depois começou a caminhar para a frente. Mais uma vez, caiu. Um gemido de dor escapou de sua garganta, mas ela persistia, levantando, seguindo em direção à fortaleza. Isca ou não, tanta determinação era admirável.
De alguma forma, ela conseguiu se desviar de todas as armadilhas, contorcendo-se ao redor delas, como se soubesse onde estavam, mas quando bateu em outra pedra e caiu pela terceira vez, ficou no chão, tremendo e chorando.
Aeron arregalou os olhos ao observar suas costas. Aquele vermelho... seria... sangue? Fresco, ainda úmido? O cheiro forte e metálico subiu com a brisa e chegou às narinas de Aeron, confirmando sua suspeita. Sim, era sangue.
Dela? De outra pessoa?
— Aeron. — Já não era um grito, mas um lamento patético. — Ajude-me.
As asas de Aeron se abriram antes que ele fosse capaz de pensar no que estava fazendo. Sim, os Caçadores machucariam uma Isca de propósito antes de jogá-la na cova dos leões, esperando provocar a compaixão de seu alvo. Sim, ele provavelmente terminaria com flechas e balas cravadas nas costas, mais uma vez, mas não a deixaria ali, ferida e vulnerável. Não permitiria que seus amigos arriscassem suas vidas para salvar, ou destruir, sua pequena visitante.
Por que eu? Foi o que ele pensou ao se lançar da varanda. Para cima, para cima ele se lançou, antes de descer na direção dela. Aeron ziguezagueou para não ser presa fácil, mas nenhuma flecha zuniu perto dele, nem tiros soaram. Ainda assim, em vez de pousar ao lado dela, ele aumentou a velocidade, estendeu os braços e a agarrou, trazendo-a para o alto, sem diminuir a velocidade.
Talvez ela tivesse medo de altura, e esse tenha sido o motivo de seu endurecimento repentino. Talvez ela tivesse esperado que ele fosse morto antes mesmo de alcançá-la e, quando notou que Aeron conseguiu tocá-la, ficou em pânico. De qualquer forma, ele não se importava. Fizera o que estava preparado para fazer. Estava com ela.
Ela começou a se debater fracamente contra Aeron, gemendo em choque e dor.
— Não me toque! Solte-me! Solte-me, ou juro que...
— Fique quieta ou, pelos deuses, eu vou soltá-la. — Ele a agarrava pela barriga, com o rosto virado para o chão. Dessa forma, ela poderia ver de quão longe cairia.
— Aeron? — ela girou o pescoço para olhar para ele. No momento em que seus olhares se encontraram, ela relaxou. Até sorriu levemente. — Aeron — ela repetiu, com um suspiro de prazer. — Fiquei com medo de que não viesse. Aquele prazer, sem qualquer resquício ou toque de malícia, surpreendeu, e até confundiu Aeron. As mulheres nunca olhavam para ele daquele jeito.
— Seu medo era um equívoco. Você deveria ter tido medo de que eu viesse.
O sorriso dela desapareceu.
Melhor assim. A única coisa que o intrigava agora era o silêncio total do seu demônio. Assim como aconteceu no encontro com a Garota das Sombras, naquele momento ele deveria estar sendo bombardeado por imagens e desejos. Preocupe-se com isso depois.
Continuando a ziguezaguear, Aeron voou ao seu quarto, sem parar na varanda, como de costume. Precisava de proteção o mais rápido possível. Só para garantir. Porém, quando ele estava recolhendo as asas, elas bateram nos dois lados da entrada, fogo se espalhou das pontas até os arcos.
Aeron ignorou a dor enquanto ficava de pé. Já com o corpo ereto, correu em direção à cama e, gentilmente, deitou seu fardo sobre o colchão, com o rosto para baixo. Ele passou um dedo ao longo de sua espinha, e os lábios em formato de coração dela se abriram, soltando um gemido de agonia. Aeron esperara que ela tivesse sido encharcada com o sangue de outra pessoa, mas não. Suas feridas eram reais.
Saber disso não o amoleceria. Ela provavelmente machucara a si mesma, ou permitira que os Caçadores o fizessem, simplesmente pela compaixão que isso despertaria. Nada de compaixão da minha parte. Apenas irritação. Ao seguir a passos fortes para o closet, ele levou as asas para as costas, mas, quebradas como estavam agora, elas não cabiam nas aberturas das costas dele. E isso só fez aumentar a irritação dele por ela.
Ele não tinha cordas e não queria sair do quarto em busca de uma, então pegou duas gravatas que Ashlyn lhe dera para o caso de um dia ele querer “se arrumar”, e voltou à cama.
As bochechas dela estavam comprimidas contra o colchão, os olhos observando cada movimento de Aeron, como se não conseguisse desviar o olhar dele; e não por repulsa, como acontecia com a maior parte das mulheres. Ela o observava com algo parecido com desejo.
Estava atuando, claro.
Mas ainda assim, aquele desejo... Havia algo familiar em relação a ele. Algo que não se encaixava bem. Exatamente o que ele notara antes, pensou. Quando ela chamara seu nome, aquele mesmo desejo estivera evidente e, bem no fundo, ele soubera que já o encontrara antes. Quando? Onde?
Dela?
Continuou a olhar para ela, e Ira... permanecia em silêncio, ele percebeu. Aquela era (supostamente) a primeira vez em que ele estivera na presença dela, mas seu demônio ainda não estava lançando imagens dos seus pecados na mente dele. Isso era estranho. Só acontecera uma vez antes. Com Legião. Por que razão, ele não saberia dizer. Os deuses sabiam como sua menininha tinha pecado.
Então por que isso estava acontecendo novamente? E, ainda mais com uma possível Isca!
Seria possível que aquela mulher nunca tivesse pecado? Ela nunca dissera uma palavra pouco gentil a alguém? Nunca fizera alguém tropeçar de propósito nem roubara nada, mesmo que fosse uma simples bala? Aqueles olhos puros, da cor do céu, diziam que não. Ou talvez, assim como Legião, ela pecara, mas, por alguma razão, tais pecados não eram localizados pelo radar de Ira.
— Quem é você? — Ele envolveu um dos frágeis pulsos dela com os dedos, hum, pele quente e macia. Depois, amarrou-o a uma das pernas da cama com a gravata. Ele repetiu a ação com o outro pulso.
Ela não protestou nenhuma vez. Era como se tivesse esperado, e aceitado, que receberia tal tratamento.
— Meu nome é Olivia.
Olivia. Um nome lindo. Perfeito para ela. Delicado. Na verdade, a única coisa que não era delicada era sua voz. Camadas e camadas de... o que era aquilo? A única palavra que ele encontrava para descrever era honestidade, e uma quantidade tão grande emanava dela que o deixava zonzo.
Ele apostaria que aquela voz nunca dissera uma mentira. Não poderia ter dito.
— O que está fazendo aqui, Olivia?
— Estou aqui... estou aqui por você.
Mais uma vez, aquela era a verdade... Era uma força que inundava os ouvidos dele, através de seu corpo, e o deixava abalado. Não havia espaço para dúvida. Nenhuma dúvida. Ele era simplesmente compelido a acreditar nela.
Sabin, guardião da Dúvida, teria adorado aquela mulher. Nada agradava mais o demônio daquele guerreiro do que destruir a confiança de outra pessoa.
— Você é uma Isca?
— Não.
Mais uma vez, ele acreditou nela; não tinha escolha.
— Veio aqui para me matar? — Ele endireitou o corpo e cruzou os braços sobre o peito, olhando para ela, esperando.
Aeron sabia como seu olhar era duro, mas, novamente, ela não reagiu como as mulheres normalmente faziam: tremendo, encolhendo-se, chorando. Ela piscou seus longos cílios negros, parecendo magoada por ele tê-la julgado como sendo má.
— Não, claro que não. — Ela fez uma pausa. — Bem, não mais.
Não mais?
— Então, em algum momento, você quis me matar?
— Uma vez fui enviada para isso, sim.
Tanta honestidade...
— Por quem?
— No início, fui enviada pela Única Divindade Verdadeira, simplesmente para observá-lo. Eu não queria assustar sua amiguinha. Estava apenas tentando fazer o meu trabalho. — Lágrimas encheram seus olhos, transformando aquelas lindas íris azuis em piscinas de remorso.
Nada de amolecer.
— Quem é a Única Divindade Verdadeira?
Um amor puro iluminou a expressão dela, momentaneamente afastando o brilho de dor.
— Divindade sua, divindade minha. Muito mais poderosa que os seus deuses, embora na maioria das vezes se contente em se manter nas sombras e raramente seja reconhecida. Pai dos humanos. Pai dos... anjos. Como eu.
Anjos. Como eu. Quando as palavras ecoaram em sua cabeça, os olhos de Aeron se arregalaram. Por isso seu demônio não conseguiu sentir nenhuma maldade nela. Por isso seu olhar lhe era familiar. Ela era um anjo. O anjo, na verdade. Aquele que fora enviado para matá-lo, como ela mesma admitira. Embora ela “já não” tivesse planos de matá-lo. Por quê?
E isso importava? Aquela delicada criatura fora, em algum momento, nomeada para executá-lo.
De repente, Aeron sentiu vontade de sorrir. Como se ela fosse capaz de ter mais poder do que ele.
Você não conseguia vê-la. Teria realmente sido capaz de detê-la, se ela tivesse tentando cortar sua cabeça?
O pensamento o atingiu em cheio, e ele perdeu o bom humor. Era ela quem o estivera observando durante todas aquelas semanas. Era ela quem o seguira, invisível, afastando uma triste Legião.
Isso o levou a questionar o motivo de Ira não ter reagido da mesma forma que Legião sempre fizera. Com medo e até mesmo agonia física. Talvez o anjo controlasse os demônios que podiam senti-la, ele pensou. Essa certamente seria uma ótima habilidade, pois não deixaria que suas possíveis vítimas tivessem conhecimento de sua presença... e de suas intenções.
Ele esperou que uma raiva brutal o invadisse. Raiva que prometera lançar sobre aquela criatura muitas e muitas vezes se ela algum dia se revelasse. Como a raiva não apareceu, ele esperou pela determinação. Precisava proteger seus amigos, a qualquer custo.
Mas isso também permanecia desesperançosamente fora de alcance. O que ele conseguiu em vez disso? Confusão.
— Você é...
— O anjo que estava observando você, sim — ela disse, confirmando suas suspeitas. — Ou melhor, eu era um anjo. — Suas pálpebras se fecharam, lágrimas escaparam entre os cílios. Seu queixo tremeu. — Agora não sou nada.
Apesar de ele acreditar nela, como poderia não acreditar?, aquela voz... Ele realmente queria duvidar dela, duvidar de alguma coisa, qualquer coisa, mas não conseguia... Aeron estendeu uma das mãos, que estava trêmula. O que você é, uma criança? Seja homem.
Fazendo uma expressão insatisfeita com sua demonstração de fraqueza, ele endureceu a mão e afastou os cabelos dela, com cuidado para não tocar a pele machucada. Agarrou o colarinho de sua túnica e puxou com cuidado. O tecido suave se rasgou facilmente, revelando a extensão de suas costas.
Mais uma vez, seus olhos se arregalaram. Entre os ossos dos ombros dela, onde asas deveriam ter surgido, havia dois longos entalhes de pele ferida, tendões despedaçados até a espinha, músculos destroçados e era possível até mesmo ver um osso. Eram feridas selvagens, violentas e impiedosas, e o sangue ainda brotava de todas elas. Ele já tivera suas asas arrancadas à força uma vez, e fora a dor mais profunda de toda a sua longa vida.
— O que aconteceu? — Ficou impressionado com a aspereza da própria voz.
— Eu caí — ela ofegou em resposta, a vergonha pingava de seu tom de voz. Ela enterrou a cabeça no travesseiro. — Já não sou um anjo.
— Por quê? — Sem nunca ter encontrado um anjo antes, além de Lysander, claro, mas aquele idiota não contava, pois se recusava a contar qualquer detalhe importante aos Senhores, Aeron sabia muito pouco sobre eles. Nada além do que Legião lhe contara. Mas, claro, era bem provável que os relatos de Legião viessem tingidos pelo ódio que nutria por eles. Nada do que dissera se encaixava com a mulher na cama de Aeron.
Os anjos, Legião dissera, não tinham emoções, eram criaturas sem alma com apenas um propósito: destruir seus equivalentes mas sombrios: os demônios. E Legião também afirmara que, muitas vezes, um anjo sucumbiria aos prazeres da carne, fascinado pelos próprios seres que ele, ou ela, deveria abominar. Esse anjo seria, então, atirado diretamente no inferno, onde os demônios que ele uma vez derrotara finalmente encontrariam espaço para uma pequena vingança.
Teria acontecido isso àquele anjo?, Aeron imaginou. Uma viagem ao inferno, onde os demônios a torturaram? Era possível.
Deveria soltar seus punhos? Seus olhos... tão sinceros, tão inocentes. Agora eles diziam: Ajude-me. Salve-me.
Mas, principalmente, diziam: Fique comigo, jamais me deixe.
Ele já fora enganado por tanta inocência antes, pensou, detendo-se antes que fizesse qualquer coisa. Baden também fora enganado e morrera por isso.
Um homem inteligente tentaria descobrir mais coisas sobre aquela mulher primeiro, ele pensou.
— Quem cortou suas asas? — A pergunta saíra como um latido brusco, e ele assentiu, satisfeito.
Ela engoliu em seco e deu de ombros.
— Uma vez eu fui lançada...
— Aeron, seu idiota de merda — disse uma voz masculina, fazendo com que ela se calasse. — Não me diga que você... — Paris entrou no quarto, mas parou de repente ao ver Olivia. Seus olhos se estreitaram e ele passou a língua por entre os dentes. — Então, é verdade. Você realmente voou lá para fora e a pegou.
Olivia enrijeceu o corpo, escondendo o rosto da vista de Paris. Seus ombros começaram a tremer, como se estivesse chorando. Estaria finalmente assustada? Agora?
Por quê? As mulheres adoravam Paris.
Concentre-se. Aeron nem precisou perguntar como Paris soube o que ele fizera. Torin, guardião do demônio da Doença, monitorava a fortaleza e a colina sobre a qual ela estava assentada 28 horas por dia, nove dias por semana (ou pelo menos era a impressão que dava).
— Imaginei que estivesse reunindo os demais.
— Torin me mandou uma mensagem de texto, e eu fui até ele primeiro.
— E o que ele lhe disse sobre ela?
— Corredor — disse o amigo, apontando para a porta com uma leve inclinação do queixo.
Aeron balançou a cabeça.
— Podemos falar sobre isso aqui. Ela não é uma Isca.
Paris passou mais uma vez a língua entre os dentes brancos e lisos.
— E eu pensei que eu fosse o burro no que diz respeito às mulheres. Como você sabe o que ela é? Ela lhe contou uma história, e você não teve outra saída além de acreditar? — Seu tom era de escárnio.
— Ela é um anjo, déspota. Quem estava me observando.
Isso arrancou o desprezo da expressão de Paris.
— Um anjo de verdade? Do céu?
— Sim.
— Como Lysander?
— Sim.
Bem lentamente, Paris a examinou. Como grande conhecedor das mulheres que era, ou costumava ser, ele provavelmente sabia todos os detalhes do seu corpo quando terminou a análise. O tamanho dos seus seios, o formato de seu quadril, o comprimento exato de suas pernas. Mas isso não perturbou Aeron. Ela não significava nada para ele. Nada além de problemas.
— O que quer que ela seja — disse Paris, já bem menos irado que antes —, não significa que não esteja trabalhando para nosso inimigo. Devo lembrar-lhe de que Galen, o maior fanfarrão do mundo, diz que ele é um anjo?
— É, mas ele mente.
— E ela não pode mentir?
Aeron passou uma das mãos pelo rosto cansado.
— Olivia. Você está trabalhando com Galen, para nos destruir?
— Não — ela murmurou, e Paris deu um tropeção para trás, assim como Aeron fizera, apertando o peito.
— Meus deuses. — Seu amigo arfou. — Essa voz...
— Eu sei.
— Ela não é uma Isca e não está ajudando Galen. — Uma declaração dos fatos, agora feita por Paris.
— Eu sei — repetiu Aeron.
Paris sacudiu a cabeça, como se quisesse limpar seus pensamentos.
— Ainda assim, Lucien vai querer procurar Caçadores na colina. Só para garantir.
Essa era uma das muitas razões que sempre fizera com que Aeron seguisse os passos de Lucien. Ele era inteligente e cuidadoso.
— Quando ele terminar, convoque uma reunião com todos os que estiverem por aqui e conte o que aconteceu com a outra mulher. Aquela do beco.
Paris assentiu, e um brilho repentino surgiu em seus olhos azuis.
— Que noite você teve até agora, hein? Fico imaginando quem mais você vai encontrar esta noite.
— Que os deuses me ajudem se aparecer mais alguém — ele murmurou.
— Você não deveria ter desafiado Cronos, meu amigo.
Aeron sentiu uma pontada no estômago ao olhar mais uma vez para o anjo. Teria o rei dos deuses realmente respondido seu desafio? Seria Olivia a responsável por deixá-lo louco? Seu coração estava acelerado, ele notou, e seu sangue estava quente.
Ele rangeu os dentes. Não importava se ela era ou não um anjo. Ela podia tentar seduzi-lo. Mas nem ela, com aqueles cabelos cor de chocolate, aqueles olhinhos azuis e aqueles lábios em forma de coração, conseguiria isso.
— Eu não me arrependo do que disse. — Se isso era verdade ou mentira, ele não sabia. Não pensara que Cronos tivesse algum poder sobre os anjos. Então como o rei dos deuses a teria enviado ali? Ou não fora ele o responsável? Talvez Aeron estivesse enganado, e Cronos não tivesse nada a ver com isso.
Mais uma vez, não importava. O anjo não apenas falharia se tentasse seduzi-lo, como ele garantiria que ela fosse embora antes que tivesse tempo de causar-lhe um segundo de preocupação.
— Só para que você saiba — disse Paris —, Torin viu essa aí na colina com suas câmeras escondidas. Disse que ela cavou um buraco no chão para sair.
Um buraco no chão. Isso queria dizer que ela realmente fora jogada no inferno e fora obrigada a encontrar seu caminho para fora dali com as unhas? Ele não podia imaginar aquela figura com aparência tão frágil fazendo uma coisa dessas, e sobrevivendo. Mas lembrou-se da determinação que ela demonstrara enquanto corria em direção à fortaleza. Talvez.
— Isso é verdade? — Ele olhou para ela com novos olhos. Sim, havia sujeira embaixo de suas unhas e manchas em seus braços. Mas, fora o sangue, sua túnica estava perfeitamente limpa.
Na verdade, enquanto ele a observava, o rasgo que ele fizera se refez, bem parecido com o que acontecia com seu corpo quando ele se feria.
— Olivia. Você precisa responder.
Ela assentiu, sem erguer os olhos. Ele ouviu um sniff, sniff. Sim, ela estava chorando.
Uma dor aflorou em seu peito, mas Aeron a ignorou. Não importa o que ela é ou o que tenha passado. Você não vai amolecer, droga. Ela assusta e machuca Legião; precisa ir embora daqui.
— Um anjo real, vivo — disse Paris, claramente impressionado. — Vou levá-la ao meu quarto, se você preferir, e...
— Ela está muito machucada para brincadeiras na cama — disse Aeron imediatamente.
Paris olhou de forma estranha para o amigo por um momento. Depois sorriu e balançou a cabeça.
— Eu não estava pensando em fazer nada, deixe de ser ciumento.
O comentário nem mereceu uma resposta. Ele nunca sentira ciúme, e não iria começar naquele momento.
— Então por que está oferecendo para levá-la ao seu quarto?
— Para que eu possa enfaixar suas feridas. Quem é o déspota agora?
— Eu vou cuidar dela.
Talvez. Mas será que os anjos toleravam os remédios humanos? Ou eles os machucariam? Aeron conhecia bem os perigos de oferecer a uma espécie algo que era feito para outra. Ashlyn quase morrera ao tomar vinho produzido apenas para os imortais.
Poderia ter ligado para Lysander, mas o anjo guerreiro de elite estava vivendo no céu com Bianka e, se havia uma forma de encontrá-lo, Aeron não sabia qual era. Além do mais, Lysander não gostava dele e não ofereceria qualquer informação sobre sua raça.
— Se você quer ser o responsável, tudo bem. Mas admita — disse Paris, abrindo mais um sorriso para ele. — Você está querendo tê-la para si.
— Não, não estou. — Ele não tinha a menor vontade de fazer isso. Mas ela estava muito machucada e não poderia cuidar de si mesma. E, portanto, não estava em condições de se deitar na cama de ninguém. E era exatamente isso o que Paris queria. Sexo. Não importava o que o guerreiro dissesse.
Além do mais, ela chamara por Aeron. Gritara o nome de Aeron.
Sem recuar, Paris continuou:
— Tecnicamente, um anjo não é um humano, como você sabe. Um anjo é algo mais.
Aeron trincou a mandíbula.
— Eu disse que não quero tê-la.
Paris riu.
— Como quiser, compadre. Divirta-se com sua fêmea.
As mãos de Aeron se transformaram em punhos, o riso de seu amigo não era bem-vindo naquele momento.
— Vá e diga a Lucien tudo o que conversamos, mas sob nenhuma circunstância diga às mulheres que há um anjo ferido por aqui. Elas vão invadir meu quarto querendo conhecê-la, e agora não é o momento certo para isso.
— Por quê? Está planejando dar uns amassos nela?
Aeron trincou os dentes com tanta força que ficou com medo de que, em pouco tempo, eles não passassem de uma simples memória.
— Estou planejando interrogá-la.
— Ah. Então é assim que as crianças estão dizendo hoje em dia. Bem, divirta-se. — Com isso, um Paris sempre sorrindo saiu do quarto.
Mais uma vez sozinho com seu fardo, Aeron olhou para ela. Seu choro silencioso pelo menos cessara, e ela olhava para Aeron mais uma vez.
— O que está fazendo aqui, Olivia? — Dizer o nome dela não deveria afetá-lo, ele mesmo tentara se convencer disso antes, mas o afetara. Seu sangue esquentou ainda mais. Deviam ser aqueles olhos... perfurando-o...
Um suspiro trêmulo escapou dela.
— Eu sabia das consequências, sabia que estava abrindo mão das minhas asas, das minhas habilidades, da minha imortalidade, mas fiz assim mesmo. Só que... meu trabalho mudou. Eu não tinha mais alegria para dar. Só morte. E eu odiava o trabalho que me pediram para fazer. Não podia fazer isso, Aeron. Simplesmente não podia.
Seu nome nos lábios dela, pronunciado de forma tão familiar, também o afetava... E ele respirou fundo. Qual era o problema com ele? Seja durão. Aja como o guerreiro frio e sério que eu sei que você é.
— Eu observei você — ela continuou —, e também os que estão ao seu redor, e eu... senti uma dor. Eu quis você, e eu quis o que eles tinham... liberdade, amor e diversão. Eu quis brincar. Quis beijar e tocar. Queria uma alegria só minha. — Seus olhos encontraram os dele, frios, tristes. — No final das contas, eu tive uma escolha. Cair... ou matar você. Decidi cair. Então aqui estou. E sou sua.