A Paixão Mais Sombria

Gena Showalter · Capítulo 13 de 31

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A Paixão Mais Sombria

Capítulo Treze

OLIVIA SOLTOU UM gemido. Suas têmporas pulsavam, e seu cérebro parecia ter sido banhado em gasolina e queimado. Ainda assim, ela piscou e abriu os olhos, determinada a descobrir o que havia de errado consigo mesma. Rapidamente, lágrimas se formaram, gotas que queimavam mais que sua cabeça. E naquele momento, quando a consciência a inundou, ela percebeu que sua boca parecia ter sido recheada de arame farpado e algodão.

Ela estalou os lábios, confusa, preocupada.

— Boa menina — disse Aeron. E ainda que as palavras em si fossem positivas, ele soava perturbado. Talvez até chateado. E falava alto. Muito alto. — Acorde. Vamos, Olivia. Você consegue.

— Fique quieto. — Através de uma grossa neblina, ela conseguiu focar nele, que estava agachado ao seu lado, com as duas mãos estendidas. Em uma delas, havia duas pequenas pílulas. Na outra, um copo com algum líquido escuro e fumegante. — Por favor.

— Preciso que tome essas pílulas e beba isso. — Pelo menos dessa vez ele sussurrou.

Sendo anjo, os sentidos de Olivia não estavam sintonizados com os daquele plano, e ela nunca sentira o cheiro real do que os humanos cozinhavam, bebiam ou passavam em seus corpos. Mas agora ela conseguia sentir, e o cheiro daquele líquido escuro era maravilhoso. Parecia uma espécie de poder engarrafado, algo que prometia um novo começo, que talvez até curasse todo o seu corpo.

Café, ela sabia que era assim que os humanos o chamavam. E não era de se estranhar que esperassem em longas filas, dispostos a dar todas as moedinhas de seus bolsos para tomar um único gole daquele líquido.

— O que são essas coisas? — ela conseguiu balbuciar, apontando para as pílulas com um movimento do queixo. Que erro! Fazer aquele movimento a deixou tonta.

— Apenas tome. Elas vão fazer você se sentir melhor.

Mais uma vez, ele não murmurou, e ela tapou os ouvidos.

— Você tem uma voz interior? Poderia usá-la, por favor.

Ele colocou as pílulas nas mãos de Olivia, gentilmente.

— Pare de brincadeira. Não temos muito tempo.

— Shh! Livvie está falando, e ela não hesitaria em acabar com suas cordas vocais se você não falar baixo.

Por que ela gostava daquele homem mesmo?

— Levante-se. Agora.

Cautelosamente, ela se sentou e esfregou os olhos sonolentos. Sua mente ainda queimava e quase explodiu; ela gemeu.

Aeron fez uma cara feia para ela, impaciente. Não, impaciente não. Sua expressão era dura, sim, mas o que quer que ele sentia era ainda mais duro. Mais carente? Seu gemido o teria afetado?

Ela queria melhorar a aparência. Conseguiu arrumar o cabelo, apenas para perceber que seus cachos caíam sobre os ombros em incontáveis fios emaranhados. Suas bochechas ficaram vermelhas quando ela puxou o cordão do roupão. Ou tentou puxar. Franzindo a testa, olhou para baixo. Camiseta azul e uma saia preta curta.

Por que ela estava... Sua ousada transformação, lembrou-se. Ah, sim. Mas aquilo não explicava sua dor de cabeça. Ergueu as pálpebras e encontrou o olhar penetrante de Aeron.

— Eu me machuquei?

Ele bufou.

— Dificilmente.... Você bebeu demais e agora está pagando o preço.

Aquele não era o único preço que estava pagando. Terríveis lembranças a inundaram, uma após a outra. Depois daquela primeira garrafa de suco do sorriso, que claramente não lhe rendera muitas risadas, ela experimentara uma terrível sensação de perda. Depois da segunda garrafa, uma depressão angustiante a invadira, e ela chorara descontroladamente. Gideon a abraçara e ela chorara em seu ombro. Por causa de Aeron. Constrangedor.

Aeron levou a mão à boca de Olivia.

— Tome essas pílulas, mas não mastigue. Entendeu? Engula-as inteiras.

Ela conseguiria? Naquele momento, pareciam do tamanho de laranjas. Seu braço tremia enquanto ela colocava as pílulas entre os dedos e as enfiava na boca. Tentou engolir. Não conseguiu. Argh. Que gosto horrível! Seu rosto se contorceu com náusea.

— Beba. Isso vai ajudar. — Ele segurou a xícara fumegante perto dos lábios dela e derramou o líquido em sua boca.

Olivia se engasgou. O cheiro da bebida era maravilhoso, mas o gosto era como ácido de bateria misturado com poeira. Quão refinado seria se cuspisse tudo em cima da cama?

— Engula — ele insistiu, quando ela colocou a xícara de lado.

Ela engoliu. Muito mal. As pílulas escorregaram por sua garganta, esfolando-a ainda mais, como também o fizera o nojento café. Quando parou de tremer, olhou para ele e disse:

— Nunca mais faça isso comigo!

Ele girou os olhos e sentou sobre o quadril novamente:

— Foi você quem fez isso consigo mesma, ao permitir que Gideon a deixasse bêbada.

Quantas vezes ele teria de lembrá-la de sua estupidez?

— Agora eu preciso que você se levante. Livvie. Temos algo a fazer.

Tudo o que ela queria naquele momento era voltar para a cama. De fato, ela caiu de costas no colchão e olhou para o teto. Havia um pôster de uma mulher de biquíni, com pele dourada, bochechas rosadas e mamilos rígidos. Seus longos cabelos loiros balançavam ao vento. Olivia franziu a testa, a confusão voltava. Aquilo não estava ali antes.

Ela olhou o resto do quarto, mas não reconheceu nada. Havia uma cômoda de madeira com um vaso de cristal que brilhava sob as luzes que atravessavam as cortinas brancas, quadros de flores de diferentes cores nas paredes e um bonito carpete bege no chão.

— Esse não parece o seu quarto — ela disse.

— É porque não é.

Ela franziu ainda mais a testa.

— Então... de quem é?

— Seu. Você vai ficar aqui com Gilly, nesse quarto de hóspedes. Você conhece Gilly? — Ele não lhe deu tempo para responder. — Paris e William já ficaram aqui antes, por isso esse pôster no teto. Mas, enfim, você ficará por aqui até resolver voltar ao céu.

Olivia finalmente entendeu tudo. Aeron estava tão desesperado para se livrar dela que a levara até a cidade enquanto ela dormia. Ah, isso doeu.

— Olivia?

Lute contra sua dor.

— Sim, eu conheço Gilly — ela respondeu, com voz trêmula. Ela conhecia aquela menina melhor do que qualquer Senhor, na verdade. Gilly era jovem e doce, e vivera tragicamente até chegar ali. Seus pais a feriram de tantas formas.

Em certo momento, Olivia fora a responsável por levar alegria à vida de Gilly. Fora por isso que, quando Gilly fugiu de casa, Olivia guiara a adolescente até Los Angeles. De uma forma que nem Olivia entendera, ela soubera que Gilly encontraria salvação ali. O que não soubera na época era que a salvação seria Danika e os Senhores do Mundo Subterrâneo.

Sua Divindade trabalhava de maneiras misteriosas.

— Mas — ela continuou —, eu não vou voltar ao céu.

A determinação fez brilhar os olhos de Aeron, mas tudo o que ele disse foi:

— Conversaremos sobre isso mais tarde. Agora, como eu disse, temos um trabalho a fazer. Você tem tempo para tomar um banho rápido, mas tem que ser um banho multitarefa. Tenho algumas perguntas a lhe fazer, então conversaremos enquanto você se limpa.

Ele não esperou pela resposta de Olivia, mas tomou-a nos braços e levou-a até o banheiro. Não houve tempo para desfrutar do passeio. Aeron a sentou, evitando maior contato, inclinou o corpo e abriu o chuveiro. Ele tinha uma bunda legal, ela observou, bem abraçada por sua calça jeans. E com “legal” ela na verdade queria dizer “tão maravilhosa que seu estômago revirava”.

Água quente começou a jorrar da torneira, levando-a a desviar os olhos. Quando ele percebeu o que tinha feito, queria mais, ele já tinha levantado novamente. Tão frustrante. Talvez não. Aquela água prometia força, vitalidade e... ela baixou as pálpebras até a metade dos olhos. Diversão, segundo round? Possivelmente. Era o seu primeiro banho, e Aeron a observaria. Com sorte, ele não seria capaz de ficar olhando sem tocá-la.

De repente, aquela manhã parecia estar começando de um jeito muito melhor.

O desejo fez o corpo dela tremer.

Aeron olhou para ela, e mesmo tendo exatamente a mesma altura de sempre, parecia maior, mais ameaçador. Seus olhos violeta brilhavam, suas tatuagens eram plenas, e a pulsação em seu pescoço martelava violentamente. Ele vestia camiseta e calça pretas, ambas facilmente removíveis, e Olivia podia ver a protuberância causada pelas armas que carregava na cintura e nos tornozelos.

Tão lindo, ela pensou, com o coração a mil. Queria tocá-lo novamente. Queria fazer seus lábios dançarem sobre o corpo de Aeron. Especialmente entre suas pernas. Quando ela o agarrara ali, sentira aquele jorro de umidade.

Qual seria o gosto daquele líquido?

Ele engoliu em seco. Teria captado os pensamentos de Olivia?

— Você sabe como tomar banho, certo? Primeiro... tire a roupa — ele engasgou nas palavras —, depois vá para debaixo da água e se ensaboe da cabeça aos pés.

— Você vai me acompanhar? — Ela tirou o top por cima da cabeça, deixando-o cair no chão. Revelar seu corpo deveria tê-la deixado desconfortável, ela supôs, mas queria que ele a visse e que a desejasse, assim como ela o desejava. Além do mais, era uma mulher confiante, agressiva e agora que sabia o tipo de prazer que poderiam proporcionar um ao outro, ela faria qualquer coisa, diria qualquer coisa, para recebê-lo novamente. — Ou vai ficar só olhando?

Se esse for o caso, pode me olhar. Ela agarrou os seios, exatamente como o imaginava fazendo, incapaz de parar. Ah, sim. Que sensação boa.

Ele arregalou os olhos, parecendo colado a ela, e o ar no banheiro começou a mudar. Ficou carregado de eletricidade.

— Não faça isso — ele disse, áspero, sufocado.

— Por que não?

— Porque sua Divindade deveria receber um prêmio por ter criado tudo isso. — Ele sacudiu a cabeça, sem desviar os olhos estreitos dela. — Quero dizer... Porque eu... Droga. Droga. Eu deveria ser punido. Esses pensamentos na minha mente...

Eram iguais aos dela?

— Aeron — ela suplicou.

— Acabei de perceber que eu nunca os beijei — ele disse, com uma voz rouca, que continha a mesma eletricidade que vibrava no ar. — Pelos deuses, mulher, isso é um crime.

— Beije-os agora. — Por favor.

— Sim. — Ele se inclinou na direção dela, curvando a cabeça, suas pupilas se dilatando... E daquela vez ela sabia que era desejo, e não raiva.

Os mamilos de Olivia se transformaram em pérolas, esperando, ansiosos... Mas pouco antes do contato, ele caiu em si, endireitou o corpo e resmungou. Ela soltou todo o ar que nem sabia que estava prendendo. Ele quase... Doce Divindade. Ele realmente quase a beijara lá.

— Aeron. — Que dor aquele desejo provocava... Continue. Não pare agora.

— Não.

— Por quê?

— Porque sim! — Ele sabia o que ela queria, do que ela precisava, mas ainda assim negava. Porque sim. Idiota! — Faça isso sozinha. — Ele passou por ela e saiu do banheiro, batendo a porta atrás de si, deixando apenas uma fenda de luz.

Tão perto.

Ela poderia ter gritado, sua pele de repente parecia muito apertada para seu corpo. Em vez disso, ela tirou o resto de suas roupas e entrou no box. No momento em que o primeiro jato de água caiu sobre ela, Olivia desejou ter gritado. Faria qualquer coisa para aliviar aquela pressão dentro dela. Pressão provocada pela simples e suave carícia da água.

Tentou deixar a mente livre, mas uma avalanche de palavras continuava chamando sua atenção.

Beijo. Seios. Corpos. Movimento. Massagem. Argh!

— Não estou ouvindo você se ensaboando — disse Aeron.

— Vá se catar — ela respondeu, repetindo uma expressão que ouvira os humanos dizerem para alguém que os irritava. Ah, e como Aeron a irritava.

Beijo. Seios. Corpos. Movimento. Massagem. Deslizando. Tomar. Seus joelhos quase fraquejaram.

— Olivia. — Seria um aviso?

— Cale-se, demônio! — Tremendo, ela colocou um pouco do sabonete com cheiro de rosas nas mãos e finalmente começou a limpar o corpo. Até isso a incomodava, aumentando a pressão. Como ele era capaz de excitá-la tão rapidamente, e de forma tão intensa? Sem beijá-la!

Beijo. Seios. Corpos. Movimento. Massagem. Deslizando. Tomar. Possuir. Lamber. Chupar.

Em pouco tempo, ela não aguentaria mais.

Distração. Sim, era disso que ela precisava.

— Paris e William usaram esse sabonete? Ah, sim, você já pode falar.

— Não sei, e isso não importa. Você nem deveria estar pensando neles. Mais do que isso: sou eu quem vai fazer as perguntas aqui. Como você sabia que nós falharíamos ao tentar capturar Scarlet ontem?

— Eu já disse. Eu sei muitas coisas que podem ajudá-lo, mas até agora você nunca se mostrou interessado em saber.

— Bem, estou interessado agora, então comece a falar. Existem outros imortais possuídos por demônios na cidade?

Confiante, lembrou a si mesma.

— Você acha que isso é fácil assim? — Agressiva. — Basta você exigir algo e eu tenho que ceder?

Seguiu-se uma pausa. Depois ele disse, hesitante:

— O que você quer?

Alívio!

— Vamos começar com um pedido de desculpas.

— Sinto... muito.

Um pedido feito com raiva e recebido com ambição.

— Não — ela respondeu, finalmente. — Não existem outros imortais possuídos por demônios na cidade.

— Tudo bem, então. Preciso que você me leve aonde Scarlet está.

— Desculpe-me, mas não. — Olivia girou o corpo e voltou para debaixo da água, fazendo as bolhas deslizarem por seu corpo. Beijo. Seios... Argh! — Não vou fazer nada por você.

— Vai, sim.

Mais uma exigência, feita com tanta determinação... Essa determinação deveria soar irritante, e não sexy. Pressão acumulando... mais uma vez...

— Por que está tão ansioso para obter minha ajuda agora?

— Quero que veja o tipo de vida que levo. Quero que veja as lutas, o sangue e a dor. Quero que veja que não me importo com ninguém além dos meus amigos e de Legião. E eu vou machucar qualquer pessoa, qualquer pessoa mesmo, que os ameace.

Qualquer pessoa? Até mesmo... Olivia? Apesar de ele ter escolhido ajudar Olivia no dia anterior e mandado Legião embora? Sem dúvida. Adeus, pressão. Olá, vazio. As palavras de Aeron foram frias, duras, mais uma promessa do que uma ameaça. Ele poderia não querer fazer isso, mas não impediria a si mesmo.

— Tudo bem — ela disse. Se o que ele queria era passar o resto da vida lhe mostrando tudo aquilo, Olivia aceitaria. E retribuiria o favor! Ela lhe mostraria exatamente o que ele estaria perdendo se ela fosse embora. Como os seios, pois ele deveria ser “punido” por ignorar. Como a boca que tanto desejava chupá-lo.

Pressão... pior do que antes...

Respirar. Ela precisava respirar. Fechou o registro até a água parar de cair, e o ar à sua volta instantaneamente a deixou fria. Mas nem isso conseguiu esfriar suas necessidades. Pequenas protuberâncias se formaram ao longo de sua pele molhada, e ela gemeu. Chega.

Talvez devesse proporcionar alívio a si mesma, pensou, intrigada. Aeron usara os dedos... e ela também tinha dedos... Lambeu os lábios, com o coração pulando novamente. Ele não precisaria saber. Voltaria a ligar o chuveiro, fingindo estar se ensaboando outra vez, e...

— Terminou? — ele perguntou.

Ela ficou tensa.

— Eu... eu... só...

— Olivia, acho que comentei que não tenho muito tempo.

Era verdade. Ele não permaneceria vivo por muito mais tempo.

Aquela lembrança a deixou um pouco mais lúcida e esfriou o seu desejo, o que o ar não fizera. Ela imaginava já ter aceitado a ideia de sua morte vindoura. Mas... apenas nove dias curtos? Não era tempo suficiente para que ela experimentasse tudo o queria ao lado dele. Ainda mais teimoso como ele era.

Cabe a você fazer com que seja suficiente.

— Certo — ela disse com um suspiro e saiu do box. Ir com ele agora lhe proporcionaria mais tempo com ele. Ela achava que não iria torturá-lo com o que nunca teria, pensou amargamente, odiando ter de abrir mão de tão doce vingança. Ela supunha que ofereceria seus seios e sua boca desejosa, além de tudo o mais que ele quisesse, sem restrição.

Entre um oferecimento e outro, poderia proteger Aeron, como prometera fazer, caso alguém ou algo o ameaçasse.

— Certo o quê? — ele perguntou, confuso.

Havia uma escova de dentes em uma prateleira, junto com um pequeno tubo de pasta de dente de menta. Já vira os humanos fazendo aquilo milhares de vezes, então sabia como proceder e conseguiu escovar os dentes sem qualquer incidente.

— Certo, eu vou mostrar onde Scarlet mora.

Com a boca limpa e fresca, ela pegou a escova de cabelos em cima da pia. As cerdas se prenderam a vários cachos, e ela fez algumas caretas de dor, mas não parou até que seus cabelos estivessem macios. Da próxima vez, deveria lembrar-se de levar seu roupão, mesmo que não planejasse vesti-lo.

— O que a fez mudar de ideia? — Havia uma pitada de suspeita em cada palavra.

— Discutir com você é perder um tempo precioso. — O que era verdade, apesar de um pouco equivocado.

— Uma mulher racional. Quem imaginaria?

Ela deixou a escova na pia.

— Um homem insensível que não receberá beijo algum se continuar assim. — Mais uma vez, era verdade. E aquilo era chocante. O seu lado vingativo... ela gostava dele.

O silêncio foi sua resposta. Aquilo significava que ele queria outro beijo? Apesar de seu recém-descoberto prazer com o tormento, Olivia tentou não alimentar muitas esperanças.

— Eu não machuquei Legião, você sabe disso — ela disse. — Mesmo quando ela me machucou.

— Na verdade, anjo, ela se sente mal sempre que você está por perto. Ou costumava ficar mal, quando você tinha asas. Mas eu nunca me senti mal, nem os outros guerreiros, e somos tão demoníacos quanto Legião. Por que isso acontecia? Você fazia isso de propósito?

— Claro que não. Embora seja verdade que os demônios odeiam ficar perto de anjos, você conseguiu humanizar o seu. Em alguns aspectos, pelo menos. — Agora chega de falar de Legião, mesmo que tenha sido Olivia a responsável por tocar no assunto dessa vez. — Você quer ou não quer saber como capturar Scarlet?

— Sinto muito — ele murmurou. — Quero, sim.

Ela lutou contra um sorriso. Outro pedido de desculpas. Também feito com ressentimento, mas doce.

— O que sei é o seguinte. Como ela é possuída por Pesadelos, fica enfraquecida durante o dia. — Enquanto falava, Olivia observava seu reflexo no espelho embaçado. Havia marcas sob seus olhos e suas bochechas estavam um pouco inchadas. Ela sempre quis que Aeron a visse em seu melhor estado, e não daquela forma, mas não poderia fazer nada. — Nesse ponto, ela é como os vampiros. Dorme durante o dia, quando seu corpo está muito frágil, até mesmo para caminhar.

Aeron precisou de um momento para absorver o que ela tinha dito.

— Vamos capturá-la hoje, então, enquanto estiver dormindo.

— Por que tanta urgência? E o que planeja fazer com ela?

— Os Caçadores estão na cidade. Nós encontramos seu esconderijo e agora sabemos que eles estão sendo ajudados por Rhea, a deusa-rainha. Queremos fazer algumas perguntas a Scarlet, evitar que ela ajude os Caçadores.

— Eu poderia ter lhe dito que eles estavam na cidade, mas você se recusou a me escutar.

— Eu sei, eu sei, e sinto muito por isso também. Então, o que você sabe sobre Rhea?

Mais um pedido de desculpas. Ele merecia uma recompensa.

— Sei que ela intitulou a si mesmo como Mãe Terra, e que está ajudando os Caçadores — respondeu Olivia, embora só conseguisse pensar em dar aquela recompensa a Aeron. — Sei que ela estava enfraquecida no Tártaro, como todos os Titãs, e foi assim que os gregos conseguiram fazer com que o demônio do Conflito a possuísse.

— Não acredito que essas informações estavam debaixo do meu nariz esse tempo todo — ele murmurou. — Se o seu demônio for libertado, ela morre? Como nós?

— Sim.

— Então, por que ela está ajudando os Caçadores?

— Pela mesma razão que fez Galen se transformar em seu guia. Eles planejam matá-los e salvar a si mesmos, e depois usar seus demônios para proveito próprio. No caso de Rhea, o que ela quer é tomar o controle dos céus e destruir Cronos de uma vez por todas.

Se ele tinha mais perguntas, e ela estava certa de que sim, Aeron não se permitiu fazê-las. Ele estaria planejando buscar essa outra fonte, seja lá quem ou o que fosse? E ele tinha mesmo uma fonte. Isso estava claro. Nunca soubera tanto das coisas. Se soubesse, não precisaria de Olivia, e ela odiava pensar nisso.

— Obrigado pelas informações — ele disse, de forma grosseira.

— De nada. — Desafie-o. Seja confiante. Agressiva. Prove que ele precisa de você para ter mais respostas. — Aceito o pagamento em forma de beijos. Aliás, acho que lhe devo dois. Afinal, você já pediu desculpas por ter sido tão insensível.

Aeron limpou a garganta.

— Sim, bem... eu nunca disse que iria lhe pagar alguma coisa. Nem que eu aceitaria pagamento. E... nós, ahn... precisamos ir embora.

Que homem decepcionante.

— Apenas me deixe... — Olivia olhou para a toalha. Se envolvesse o corpo com ela, estaria desistindo, e não estava pronta para desistir.

Ela mordeu os lábios quando as palavras de Gideon voltaram à sua cabeça. Na verdade, a sua tradução para as palavras dele. Os homens gostavam de mulheres nuas. Eles tinham dificuldade em resistir a mulheres nuas. Então, nada de toalha, ela pensou, vibrando de expectativa.

Pressão...

— Não importa — ela disse, com voz rouca. — Estou pronta.

Arqueando as costas para levantar os seios, sim, ele gostava dos seus seios, ela agarrou a maçaneta e abriu a porta completamente. Confiante. Aeron estava encostado contra a parede, de costas para ela. Seus braços ainda cruzados sobre o peito. Infelizmente, continuava vestido.

Agressiva. Eles teriam de dar um jeito nisso.

Nua e molhada, ela surgiu na frente dele, com o coração batendo pesado, ainda mais forte do que quando pensara em se tocar. Quando Aeron olhou para ela, seu queixo caiu. Suas narinas se alargaram. Suas pupilas praticamente explodiram, deixando as íris violetas completamente obscurecidas.

Olivia quase gemeu. Ora, ora... Gideon tinha razão; Aeron gostava mesmo de olhar para uma mulher nua.

Avance mais. Aquela dor... ela precisava de Aeron para aliviar aquela dor.

— O que acha da minha roupa? — ela perguntou, dando um rodopio.

Sons desconexos saíram da boca de Aeron.

Ela nunca deveria voltar a se vestir.

— Sou humana agora, e os humanos sempre cobram por seus serviços. — Será que ele notava o nervosismo e a excitação na voz dela? — Então, se quiser qualquer outra informação de mim, e acredite, eu tenho muito mais a oferecer, terá de fazer por onde...

— Como? — E a palavra saiu como um rosnado, mas sem qualquer indício de raiva. — Com os tais beijos que você mencionou?

— Essa era a taxa há cinco minutos, e você se recusou a pagá-la. Portanto, meu preço subiu agora. Caso queria saber algo mais, terá de me esquentar com seu corpo. Estou com frio. — Estou tão quente, estou pegando fogo.

Ele engoliu em seco. Ficou com o corpo ereto. Seu olhar viajou por toda a extensão do corpo de Olivia, parando em seus seios, entre suas pernas. Sua respiração ficou entrecortada, superficial.

— Bendito inferno. Estou morrendo. Morrendo.

Eu também.

— Aeron. Dê-me. Aceite-me.

— Não... não temos tempo.

— Arrume tempo — ela disse, aproximando-se dele. Devo... tocar...

Ele poderia ter tirado Olivia do seu caminho, e ela não seria capaz de detê-lo, mas não o fez. Suas grandes mãos pousaram em sua cintura, com os dedos pressionando bem fundo. Finalmente!

— Eu não deveria — ele disse. — Eu disse a mim mesmo que não faria, mesmo que ele não...

— Ele? — Mais. — Ele quem?

Num primeiro momento, Aeron não respondeu, não disse nada.

— Meu... demônio — ele finalmente disse, em tom duro, com os dedos se espalhando para cobrir uma área maior do corpo de Olivia. Ele a tocou, da base de suas costas até suas nádegas. Ele a queimava. — Ele não vai... machucar você. Pelo menos dessa vez, não preciso me preocupar.

“Ele” e não “isso”? O que tinha mudado entre aqueles dois seres?

Quem se importava? Continue!

— Então por que diz que não deveria ficar comigo? — Se Aeron esperava dissuadi-la desse caminho, nunca deveria ter lhe apresentado à paixão. Fora um erro seu, e Olivia tiraria total proveito dele. — Não existem obstáculos.

— Obstáculos... — Ele ficou pensando na palavra, com o olhar colado nos lábios dela. — Nós somos...

Ela pousou as palmas das mãos no peito de Aeron, não querendo ouvi-lo falar sobre sua interminável lista de inconvenientes. Como ele provavelmente planejara. O coração de Aeron batia mais forte e mais rapidamente que o dela. Um bom sinal. Ainda assim. Querendo que ele batesse ainda mais forte e ainda mais rapidamente, ela arqueou a parte inferior do corpo contra o dele e gemeu. Ah, isso...

— Você gosta de obter respostas, certo Aeron? Isso é importante para você? Então, para o seu bem e para o bem das pessoas que você preza. Apenas pague-me.

Ele lambeu os lábios, deixando-os brilhantes e úmidos. Uma prova, era tudo de que ela precisava...

— Quem iria imaginar que um anjo poderia ser tão manipulador? — ele comentou, bruscamente.

— Sou um anjo caído — ela o lembrou. Mais uma vez. — Agora chega de papo. Vamos ao pagamento.

— Sim...

Ele se inclinou ao mesmo tempo em que ela ficou na ponta dos pés. Seus lábios se chocaram, mas, num primeiro momento, Aeron não correspondeu. Ela teve de forçar para que sua língua ultrapassasse seus dentes trincados, mas, no momento em que sua língua tocou a dele, ele gemeu e assumiu o controle.

Ah... e como assumira o controle. Seus braços envolveram a cintura de Olivia, e ele a levantou. Ela teve de passar as pernas em volta do corpo dele e cruzar os tornozelos, senão teria ficado simplesmente pendurada ali. A nova posição era deliciosa, exatamente o que ela precisava, pois estava com o centro do seu corpo posicionado bem acima de sua ereção dura e grossa. Ereção que já estava saindo pelo cós da calça de Aeron.

Maldita calça.

Os cabelos de Aeron, cortados tão rentes à cabeça, faziam cócegas nas palmas de suas mãos enquanto ela os esfregava para cima e para baixo. Uma das mãos de Aeron tomou a base do pescoço de Olivia e colocou sua cabeça em um ângulo que lhes permitia aprofundar o contato. Contato que ela sentia em todos os poros de sua pele, em todas as células que corriam em suas veias, em todos os ossos que gritavam, implorando por mais.

— Você está usando roupa demais — ela disse, quase sem fôlego.

— Não o suficiente — ele rebateu, e pousou os lábios em seu pescoço, chupando-o. Desceu um pouco mais. Ele lambeu um de seus mamilos, finalmente cumprindo sua promessa de beijá-la naquele ponto, e ela gemeu. Com a mão livre, ele tocou o seio até então desprezado, massageando-o. — Acho que nem mesmo uma armadura poderia me proteger de sua atração.

Que confissão maravilhosa.

— Deveríamos ir mais devagar.

O quê? Não!

— Vamos mais rápido! — Ela acariciou uma das orelhas de Aeron, recebendo em troca um gemido.

Ele voltou a sugar seu mamilo, e uma pequena dor a fez arfar... Em seguida, ela gemeu enquanto ele lambia o lugar que antes mordiscara. Ela arqueou o corpo contra ele, esfregando-se exatamente como gostava de fazer.

— Vou deixá-lo todo molhado.

— E isso é ruim? — ele perguntou.

Ruim, ruim. As palavras ecoaram na mente de Olivia, e ela se lembrou de quando tentara chupar seu pênis da última vez em que tinham se beijado daquela maneira, mas ele não permitira. Pensara que Olivia fosse pura demais para fazer isso.

Ela deixou cair as pernas, seus pés tocaram o carpete macio.

Aeron franziu a testa.

— O que você está...

Ela caiu de joelhos, puxando a calça de Aeron até liberar aquele mastro. Grosso, longo e magnificamente duro.

— Olivia... — Um gemido, como se ela o torturasse. — Você não deveria.

Olivia ficou com a boca cheia de água ao pressionar a bochecha contra a carne macia como seda. Quente, marcante. Os dedos de Aeron enrolavam seus cabelos. Ela se afastou um pouco, abriu bem a boca e engoliu seu membro. Sua grande ereção esticou sua boca, o que era um pouco desconfortável, mas aquele sabor agridoce a deixava louca.

— Eu estava errado. Você deveria... — ele murmurou. — Claro que deveria.

Para cima e para baixo, ela o chupava. Suas mãos massageavam o seu pesado saco. Ela gostava dele, gostava do que estava fazendo, destruindo sua relutância, estimulando a se entregar com entusiasmo. Mas ele não permitiu que ela fosse até o fim. Muito rapidamente, ele a agarrou pelos ombros e a puxou para cima.

— Chega. — O suor escorria pelo rosto de Aeron, que a girou e prendeu-a contra a parede. Sem dizer nada, foi a vez de ele se ajoelhar. Suas mãos fortes afastaram as pernas de Olivia, e lá estava ele, chupando-a, lambendo-a, devorando-a.

Ela precisava de um lugar para se agarrar, mas não encontrava nada, e suas mãos arranhavam a parede às suas costas. Ao mesmo tempo, sua cabeça se movia de um lado para o outro, seus cabelos tocavam suas costas e faziam cócegas. Tudo era estimulante. E ela estava perto... muito perto... só precisava...

Ele se levantou de repente, ofegante, com o rosto lambendo os fluidos do sexo de Olivia.

— Quero tê-la... não posso... tem um gosto tão bom... preciso de mais... mas não posso ter mais...

Mais. Sim.

— Aeron...

Ele balançou a cabeça, qualquer sinal de resistência desaparecia, apenas para ser substituída por determinação. Ele colocou a mão por entre seus corpos e alisou sua ereção. Com a outra mão, agarrou a cintura de Olivia.

— Não posso... não posso... preciso me lembrar de...

— De quê? Precisa se lembrar de quê? Você vai... nós vamos... — Por favor, por favor, por favor.

— Não posso. — Ele parou. O único som naquele quarto vinha de suas respirações ofegantes e ásperas, que se misturavam de forma selvagem, tão selvagem quanto seu desejo de estar com ele. — Não posso. Nós vamos... — Outro grunhido. Ele afastou a mão dela, esfregando-a no próprio rosto. Enquanto a mão descia, revelando suas feições, Olivia viu a mudança nelas. De determinação para raiva. — Grande parte dos humanos têm de andar pelo mundo com seus desejos não realizados. Se você quer ser humana, deveria saber como é se sentir assim.

Desejos não realizados? Ela preferiria morrer.

— Você pode me ensinar da próxima vez. Por favor, Aeron. — Ela precisava muito dele naquele momento. — Por favor. — Ela moveu o quadril, para frente e para trás, dessa vez encaixando seu sexo contra a já liberta ereção de Aeron, quente e dura como aço, ereção que ela já provara. Ela escorregava para baixo, para cima, e para baixo novamente. Ah, Divindade... Que prazer... incomparável. Abrasador, emocionante... proibido.

Ele deve ter sentido o mesmo, pois voltou a entrar em ação. Ele agarrou sua bunda e pressionou-a contra seu membro, repetidas vezes. Não a penetrou nenhuma vez, mas ela não se importou com isso. O que ele estava fazendo era bom demais, eletrizante, e em pouco tempo ambos estavam gemendo, ofegando ainda mais, tremendo.

Até mesmo o beijo ficou fora de controle, suas línguas duelavam, rolando juntas, seus dentes rangiam, batendo uns nos outros. Ela cravou as unhas em sua pele, em suas asas escondidas... Estaria sendo muito selvagem? Gideon dissera que Aeron precisava de uma mulher selvagem, mas aquilo poderia ser exagerado, rápido demais para seu guerreiro, e ela não queria assustá-lo.

Mesmo às custas do que restava de sua sanidade mental, Olivia diminuiu a intensidade de seu toque, tirando as unhas de suas costas, afastando-se daquelas cavidades sensíveis.

— O que está fazendo? — ele perguntou.

— Aproveitando você... — ela respondeu. — Pelo menos estava, até você abrir a boca.

Ele franziu a testa, afastando o rosto do dela para olhá-la bem nos olhos.

— Bem, por que não volta a aproveitar?

— Eu adoraria. — Ela mordeu o lábio inferior e arqueou o corpo na direção dele. — Mas primeiro quero ter seu pênis dentro de mim.

Ele deixou escapar um som abafado.

Mais uma vez, ela arqueou o corpo. A ponta do seu membro esfregou o clitóris de Olivia, e ela arfou. Ele sibilou. Era tão bom. Tããão bom. Ela deixou a cabeça cair para trás, seus cabelos úmidos mais uma vez lhe fizeram cócegas. Tão perto, ela pensou. Tão perto de alcançar o auge do prazer que ele a fizera sentir quando se beijaram daquele jeito pela última vez. O clímax que aliviaria a pressão que não parava de crescer dentro dela, ainda torturando-a.

— Aeron, Aeron. Só um pouco mais — ela murmurou. — Eu... eu vou...

— Não. Não! — Ele a soltou, de repente e sem avisar, e ela se desequilibrou. Caiu no chão e ficou sem fôlego. Mas nem isso abrandou sua paixão. — Não posso.

Ele passou a mão trêmula na própria boca, como se quisesse se livrar do gosto dela, escondendo, por alguns instantes, as linhas de tensão ali demarcadas. Em seguida, voltou a vestir a calça, com dedos trêmulos.

— Nada de clímax — ele disse, naquele tom duro que ela odiava tanto. Raiva, e não desejo.

— Eu... eu não entendo.

Seu olhar estreito pousou em Olivia, sua expressão dura como granito.

— Eu já falei que os humanos sempre têm desejos não correspondidos. Se você quer tanto ser humana, pode aguentar isso também. Agora, vista-se. Como eu também já disse, temos que sair.